Uns olhos

Uns olhos redondos, da cor da jabuticaba depois que acaba de perder o verde, firmes e doces como os favos de mel que as abelhas negras produzem no Himalaia. Uns olhos profundos e turbados, fundos como o lago do conto de Avalon e turbados como as águas purificadoras do Jordão. Uns olhos que olham para o alto mais que para baixo e para o horizonte. Olhos em que qualquer coisa de místico e niilista se fundem na crença do nada e na descrença do tudo. Uns olhos que arrastam anjos à perdição e demônios à santidade. Uns olhos vastos para uns e limitados para outros: os olhos da esfinge, os olhos da coruja de Atena, os olhos da chama do caldeirão e do relâmpago da primavera. Uns olhos imaginando galáxias nas poças d’água, fiando tapeçarias infindáveis, desvendando os enigmas dos magos antigos, caçando os bois de Gérion. Uns olhos onde um filho de Adão se perde para se encontrar.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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