Tríduo da Segunda-Feira

I. A melancolia e o cheiro das pedras, estes minerais cinzas da cor das nuvens pouco antes da chuva, cobriram de neblina o jardim. O muito esforço da menina tinha enchido de tulipas alaranjadas, de camélias brancas e de rosas vermelho-sangue os pouco mais de dez metros de terra que lhe correspondiam sob o muro. Mas a cerração caiu fria e lentamente sobre a terra até que, dois dias depois, a geada tinha transformado aquele colorido num cemitério de caules retorcidos e pétalas queimadas. Talvez esta fosse a descrição ideal, mais bem narrada, do que foi todo o período de luto. Bastou trocar a roupa preta pelas que haviam sido deixadas no guarda-roupa desde a manhã do enterro para que, sem que ninguém revolvesse o solo ou nele jogasse qualquer adubo, as flores brotassem à partir do pedaço de chão onde por acaso pousara o lenço ainda úmido com a última lágrima.

II. Na penúltima página do livro ficou guardada a primeira flor, cor de cereja, odor de lírio. Como última lembrança da tarde fresca, de sombra rajada sob o zimbro azul. No ar o sândalo e o café, o limão e a baunilha, no doce de comer, no doce de cheirar. A toalha listrada de xadrez: tu aqui e eu aí, partida de duas peças, jogo de dois oponentes, entre blefes e poesia, entre confissões e ira. A penúltima palavra antes de “fim”, que é a última: “sonho”. O travesseiro me engana? Não há farol entre o nevoeiro? Na primeira prateleira, no primeiro lugar aberto, o livro dorme seu sono e eu deliro inquieto. E escrevo a primeira página, a primeira estrofe e a primeira frase, a primeira palavra e a primeira letra. Nas eiras da história, nas beiras da memória, teu rosto fresco, lavado. Mel com vinho e queijo, o céu sobre o Minho, o verso sem rima aparente, a música e a grama verde. Um e dois parágrafos, copos cheios e pratos limpos. Retiro a flor. Apegada a cada pétala uma, outra palavra ficou. No bem-me-quer uns verbos, no mal-me-quer uns substantivos. Na haste, cor de pó de jade, em caractere romano, um pronome: “tua”.

III. Quando ela ficava feliz, sua felicidade não era tão aberta como uma tarde de sol, brilhante em cada aspecto, iluminada em cada espaço, uma felicidade de passarinhos piando sobre fontes de água fresca e cristalina, e de flores desabrochando a cada passo no caminho. Aquela felicidade semeada de pequenas sombras, adornada de meios-tons crescentes e decrescentes na luz, no canto dos pássaros e também das aves noturnas, nas flores de perfume leve e também inodoro ou muito exagerado. A felicidade dela era aquela felicidade do Concerto de Aranjuez: uma alma castelhana, equilibrada mas de profundo melancólica, dedilhando caprichos árabes duma felicidade tão feliz, e por isto tão distante, que suavemente se alternava entre a melodia grave e longa e a melodia aguda e curta, até que sobrava o violão quase solitário, um violão taciturno, carregando a orquestra pela harmonia. Quando ela ficava feliz era noite, e a noite se iluminava não porquê a lua refletia as últimas fagulhas do sol, mas porquê, de tanto ser iluminada, a lua ganhara qualquer reserva infinita de luz, luz que se fazia própria.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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