Três trechos destes três dias

I. Eu me decepcionei com sua beleza como quando, menino de sete anos, pela primeira vez enxerguei uma borboleta imperial sugando as fezes de um cachorro lá da rua. Escândalo metafísico para uma alma toda tola e ingênua como a minha. Será que até mesmo este inseto naturalmente belo e colorido fora afetado pelo pecado original? Certo que meu bairro não era o Éden, mas me acostumei com a imagem constante de apenas vê-las no roseiral. Mas, e tu? Estranho, porém, era que eu te supunha como uma destas borboletas: pura, inocente, cândida. Então, eu te vi. Eu vi.

II. Anotei na última página limpa do caderninho estes versos, que nunca entreguei para o meu e o teu bem: “Sinto teus passos cambaleando, / Certos e incertos: teu pensamento. / E como a água fresca ardendo, / Ardendo na língua febril ao vento. / No íntimo do véu sob o peito, / Enclausuras meu nome ao relento. / E eu, neste espírito recôndito, / Custodio tua memória escrevendo.”

III. Deus também me deixou vê-lo na fresta dum penhasco. A fresta foi um sonho e o penhasco a consciência quando acordado. O sono foi pesado, mesmo depois de ter jantado macarrão e vinho como se meu estômago fosse o de um mamute. Foi na madrugada e na tarde duma sexta-feira, respectivamente. Sonhei que num tribunal um crucifixo caia sobre a cabeça do juiz e o feria de morte. Desperto, fui depois assistir à uma audiência criminal. Num bate-boca com o advogado, a maldita expressão soou do Bouche de la Loi: “Porco dio!” À noite, dirigindo seu carro de volta para casa, noutra cidade, o magistrado bateu de frente com uma estátua do Cristo Redentor instalada na rotatória principal da rodovia. Morreu…

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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