Três anotações sobre a Tentação

Alguns amigos há algum tempo me têm pedido para falar qualquer coisa sobre tentação e como lidar com ela. Compilei algumas anotações que escrevi ainda ano passado, pensando em publicá-las numa “didática espiritual” — gênero tremendamente inexistente na atual produção literária reformada. Cá vão três excertos, apenas, que considero suficientes, en passant, para entender por cima como ela funciona:

I. A tentação é uma falsa promessa de prazer. Durante a tentação, sentimos uma “prévia” hipotética do que a suposta consumação pode proporcionar. É como se naqueles instantes, quando o impulso do desejo se densifica na carne e a inebria, o maior prazer disponível a um homem nos fosse oferecido facilmente, a um só passo de distância — um passo passivo de deixar-se levar pelo magnetismo que vem do objeto tentador. A tentação ao mesmo tempo que eleva a irracionalidade ao seu mais alto grau, também nos dá, simbioticamente, a possibilidade de refugá-la: a consciência está ali ativa e é capaz de deter nosso desejo através de dois passos para trás da nossa vontade ativa. Um passo para recuar ao estágio de “tentação imaginada” (aquele momento em que já se sente uma micro parcela antecipada do gozo total) e outro para retroceder ao estágio da “aparência do mal” (quando nós nos apercebemos diante da potencial tentação, aquele momento antes da “fisgada” que empurra para o anterior).

II. Uma vez que cedemos à tentação, não demora muito para ela desaparecer no éter e então sua fatura, seu preço de vacuidade, ser cobrada. Assim que o combo triplo adrenalina-endorfina-serotonina evapora da corrente sanguínea e a realidade bate à porta, o vazio toma conta do peito e uma sensação do tipo “o que aconteceu?”, próxima à amnesie, cai sobre mente e coração. A promessa do prazer infinito ou perene vaza e se consome no nada. Aí, a gente “cai em si” e bate no peito um mea culpa não por arrependimento autêntico, mas por remorso, pelo egoísmo das contas feitas e conclusas: não valeu a pena! Nunca vale a pena. Quando tudo termina, quando a gente “limpa a boca” e diz “não fiz nada de mal” (Provérbios 30:20), sobra a destruição da vida ordinária, do dia-a-dia que deve ser enfrentado não como se nada tivesse acontecido, mas como se, pelo nosso pecado, nada mais já pudesse acontecer, porquê o espírito está cheio de nada e o mundo contra nós já levanta tudo e todos.

III. A tentação promete todo o El Dorado e entrega uma pedra cinza e afiada bem direto na testa. É ilusão, é Pasárgada, daquelas que desenham miragens no deserto e fazem os sedentos de água se lançarem nas dunas como se mergulhassem em oceano de água doce e fresca. Todos seremos tentados, mas aqueles que têm o “corpo” melhor “hidratado” pelo auto-conhecimento e por uma vida devocional com Deus (Mateus 26:41) terão menos sede, e terão alguma reserva no “cantil”. Aqueles que são adestrados na geografia das “coisas visíveis e invisíveis” são capazes de saber onde o calo aperta e por isso não porão os pés nus nos atalhos desconhecidos, nos supostos caminhos mais fáceis e prazenteiros que ao cabo levam, como no conto da Chapeuzinho Vermelho, direto para a boca grande do lobo mal; com a diferença de que o Lenhador pode não aparecer… Paulo ao dizer que “o espírito está pronto mas a carne é fraca” diz o que qualquer caipira sempre soube: “ninguém é de ferro”. O sangue de Cristo, porém, pode banhar de ouro nossa carne enferrujada…

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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