Trecho do conto “Os Sinais”

Como caem secas as folhas e o vento a cada uma empurra à fogueira, com um pulo me levantei do divã e em três segundos já estava diante da porta dos aposentos de Leonora. O piso, apesar de diariamente barulhento, não rangeu. Madeira alguma estalou sob e sobre meu caminho. Talvez por obra do demônio, de repente, impulsionado por esses ares frios que, rastro do inverno, acometem violentamente certas noites de primavera, começou lá fora um vendaval capaz de abafar o barulho produzido por um pelotão de artilharia praticando tiro-ao-alvo no meio do salão. Também me recordei, porquê desde o começo da semana eu ainda estava acordado à esta hora, que a velha governanta costumava fazer uma última ronda antes que o relógio batesse à meia-noite. A Sra. Jenyns não apareceu e, por isto, também todas as velas que se acabam àquela hora não foram trocadas. Tudo ficou escuro. Que potestades do ar assim poderiam conspirar para que um tal pecado se cometesse em silêncio? Deitei o ouvido esquerdo à madeira da porta: discerni o som da pena no papel e a respiração ofegante de quem está tomada por ansiedade. Ela me esperava, e de certo rabiscava qualquer verso na tentativa de me impressionar novamente. Mas estes sinais, arautos das aparências do mal, aos quais eu sempre fora muito sensível desde a infância, me detiveram antes de bater à porta. Pela manhãzinha, pouco depois do último canto do galo, saí do palazzo alegando enfermidade na família. Deixei-lhes um bilhete, um bilhete oficial, no qual pela primeira vez opus o brasão pastoral e assinei o título de reverendo doutor. Passei pela mulher de Potifar sem sequer deixar-lhe as vestes nas mãos. O próximo passo, para ao qual eu já havia calçado as botas, era pedir Rebeca em casamento.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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