Trecho do conto “O sábio sem cabala e o místico sem crença”

Então, Simeão fechou os olhos e nos disse baixinho:
— Quando o Céu descer à terra, as roseiras florescerão estrelas e nossas filhas terão caudas de cometa por laços prendendo-lhes o cabelo. À meia-noite a Eternidade farfalhará séculos a olhos vistos, e na mesa da cozinha o bolo de nozes ideal fumegará amor e canela na manhãzinha, entre as estórias da bisavó ressuscitada cozendo com a lenha do Éden uma torta de maçãs já para a próxima Eternidade à tardinha. A terra será terna terra azul e de toda lágrima salgada penderá o fruto mais doce. Todas as montanhas, lagos e campos planos serão bosques de aliança entre o leão e o gato, entre o urso e o rato, entre a raposa e o coelho, entre a Anunciação e a Revelação, entre a Redenção e a Justificação, entre a Salvação e o “Já Basta!”. O mato civilizará o concreto, o aço e o piche; e os paralelepípedos brotarão nas ruas, e o bronze surgirá nos edifícios e o betume selará o mundo contra o dilúvio da entropia. A Páscoa se comemorará no parto dos carneiros e a Natividade na cuca de uvas frescas. Tudo se comerá, por dentro e por fora. As faces serão frondosas, e os olhos sementes de galáxias e mundos a criar, a criar, a criar — e conosco a recriar espelhos banhados não na prata mineral, mas na prata espiritual das orações pelos milênios acumuladas no baú dos querubins.

Então, Simeão abriu os olhos e nos falou gritando:
— A luz não pode passar diretamente de fora para dentro. Ela precisa do vidro da janela para lhe alertar sobre o preço da existência. Como todas as coisas, a luz necessita de um pedágio quando seu destino são as córneas dos homens. A luz física nunca nos chega à alma. Se existe, existe por aqui. Se existe por aqui, desgasta-se por aqui. Apenas as fagulhas da Luz Eterna, centelhas quase apagantes do Além, nós podemos ter livremente no peito; bem onde o espírito encontra a carne e o sangue, bem onde há vida.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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