Trecho do conto “O muro que se guardava do mundo”

Olhos profundos não têm fundo. A gente sabe que anatomicamente acaba tudo ali no limite côncavo da íris e da córnea; e que atrás dele vem o cérebro. Então, todo o complexo da visão se restringe espacialmente ao seu pedaço de carne incrustado no crânio. São duas bolinhas brancas e coloridas entre miolos cinza-sangue. E pronto. Olhos profundos, porém, superam a prisão do globo ocular. Que deleite olhar nos olhos dalguém e sentir que, se na morfologia corporal eles se resumem àquele espaço, àquela órbita e cavidade óssea, o espírito que neles habita mostra-nos galáxias, mundos, sonhos e existências tão superiores que a gente chega a duvidar que estamos diante dum corpo físico; a gente chega a pensar que aqueles dois círculos além-pupila detém a eternidade e que cada piscadela é um eclipse de glória sideral. A ternura do olhar é tão mais infinita, e tão mais bela, que toda a progressão matemática que vai dum extremo do universo a outro. Depois que eu olhei nos olhos dela, Monsenhor, eu entendi dois versos do Pessoa que sempre lera batidos: “A noite não anoitece pelos meus olhos, / A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.” Com ela, é sempre dia e o sol não ousa deixar de brilhar. Mas esta ousadia fulgurosa, por outro lado, misteriosamente chama a lua ao dia; e a noite com ela vem para fazer das minhas vinte e quatro horas uma só e mesma coisa que não é nem totalmente dia nem totalmente noite. É um tempo lusco-fusco. Só tempo, cuja sombra é também labareda. Tudo por causa daqueles olhos profundos… Valha-me Deus de me apaixonar outra vez por alguma dessas moças de olhos rasos e embaçados, rasos feito um pires convexo e embaçados como espelho de banheiro de boate. Depois que eu olhei nos olhos dela, fiquei sabendo que os abismos que vão e voltam do centro do planeta não passam de poças d’água. Olhos profundos não têm fundo, Monsenhor Alfons! Não têm fundo!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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