Trecho do conto “Com um dos teus olhares”

Ter algum brilho nos olhos não é distintivo de pureza no olhar. Um par de bolinhas de gude refletidas por uma lâmpada de mil watts também brilha. Os olhos das hienas brilham quando circundam as fogueiras dos acampamentos bérberes. Muitos círculos, de carne e de pedra, brilham vulgarmente quando qualquer tocha lhes toca a superfície polida. À distância, os fótons duma bituca de cigarro no que diferem duma brasinha tirada do altar do próprio Deus? Não se trata de medir os lúmens das coisas, porquê frequentemente a força da luminosidade é visualmente a mesma e a óptica não distingue um farolete paraguaio do Farol de Alexandria. Mas só pode reconhecer que por detrás de dois globos oculares brilham dois pequenos fragmentos do “Sol da Justiça” quem em si também os detém ocultos na retina. O brilho da pureza é a pureza do brilho: ele está no misterioso lugar onde a córnea saúda a alma e a íris beija o espírito, onde bem no extremo fim do túnel da pupila rebrilha a glória da Luz Inacessível.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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