Trecho do conto “Às portas do Paraíso”

Sou mesmo um esquisito! E não te parece ser a coisa mais fenomenal do mundo? Por que você vive como se não tivesse alma? Olha, eu percebi que era um “esquisito” quando consegui reconhecer, no meio do engarrafamento, horário de pico em São Paulo, o “Va, pensiero” assoviado por um pedreiro, a uns vinte metros de distância do meu carro. Olhei para o relógio, instintivamente. Lembrei que por aqueles minutos tinha acabado o horário eleitoral gratuito. Tratava-se, com certeza, duma reminiscência do jingle do Partido Liberal inspirando o velho da construção a assoviar. Desde então, sempre que encontro um “tesourinho auditivo” em meio à cacofonia da cidade, eu fixo nele minha atenção e deixo meu pensamento pousar “sobre as encostas e as colinas onde os ares são tépidos e suaves.” Pode ser qualquer coisa, desde que ela detenha uma beleza superior digna de atenção, digna da nossa condição de homens. Um radinho de pilha tocando um baião à moda antiga, uma criança gargalhando pra mãe toda estabanada entre sacolas, um naco de som que de alguma forma seja eco daquela música que toca desde que Deus compôs o mundo. Ah, como é delicioso ser “esquisito”!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *