Trecho do conto “A Penúltima Estrela de Annwn”:

O coração feminino também é selvagem. Apaixonado, é capaz de crimes inarráveis, de terrores míticos e trevosos, de loucuras que esfriam e esquentam a espinha de quem lhes ama ou detesta. Mas é duma selvageria doce, cheia de candura.
— Acende aí o candeeiro, interrompeu dando-lhe também o copo e apontando para a garrafa sobre a pequena mesa posta ao lado da lareira. —
A abelha que ferroa a cabeça, deita mel na boca. A rosa que violenta a pele, dá o perfume que estonteia. A mulher assim tremendamente apaixonada parece-se com aquelas crianças psicopatas dos contos e da realidade: beijam carinhosamente a testa que talvez escalpelassem e curam com seus unguentos as chagas que num minuto poderiam salgar. E os olhos, como agem nesta selva? Abertos, eles hipnotizam; fechados, erotizam. São medusas cujas serpentes se aninharam no cálice cerebral, invisíveis. Os faróis da Antiguidade também causavam esse estupor: se a fogueira flamejava, marinheiro algum ousava tirar dele a visão; mas se a chama sumia, seu desejo e oração eram, com obsessiva ansiedade, não de chegar seguro ao porto, mas de rever o ponto de luz que lhe guiava, nem que para tal tivesse que gastar propositadamente mais algumas horas ou talvez se fizesse, por alguns dias, náufrago consciente no mar. Sereias e naufrágios, meu filho, são amantes associados entre si; pactuaram o mesmo contrato visceral que sede e água mantêm ajustado desde que Deus criou os mundos.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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