Trecho do conto “A outra possibilidade”

Quisera poder ter sido um fazendeiro. Medianamente alfabetizado, sem saber ler o barômetro mas capaz de olhar pro céu e dizer à terra dos próximos movimentos das nuvens. Eu não saberia de certo declamar os poemas latinos que decorei quando menino, não saberia escrever naquela caligrafia gótica aprendida na adolescência, não comporia sonetos elegantes às moças que amei ou quase amei. Mas nada me impediria de ser gentil, mesmo bronco, com as camponesas da colônia e colher rosas frescas no jardim da casa-grande para a pastorinha que fica sobre a pedra do outro lado da cerca. Não que eu tenha me tornado um protótipo daquele dândi tolo e envernizado por civilidade inócua que arrastou debilidade na Cidade até encontrar as Serras. De modo algum! Meu espírito nunca foi tomado por plumas e firulas. Acontece que, é verdade, sempre me atraiu muito mais a vida rural que a as questões físicas e metafísicas da metrópole. Sempre me achei mais próximo da sabedoria profunda dos velhos roceiros que da erudição universitária. Sempre me cri mais capaz de admirar as coisas calado, ruminando exclamações e mistérios, que descrevê-las em boa prosa literária. Mas, cá estou neste século e lugar; pronto para procurar eternidades no calendário, preparado para minar diamantes num pântano tão infértil quanto os desertos do norte da África. Não sou nem serei fazendeiro, destes que lavram a terra diretamente, destes que aram os veios e os semeiam estação após estação. Permitiu-me o Senhor, contudo, que eu fosse um cultor destas verdades incômodas à Civilização, da qual esta é a maior: quanto mais longe da terra, menos pó dela nós somos.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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