Trecho do conto “A Moça da Sétima Janela”

A chuva é sempre uma oportunidade de sono para as almas românticas. É fatal! Basta que tamborilem no telhado as primeiras gotas para que aqueles que detém um “sono primordial” na alma caiam sobre as cobertas. Este sono nada é senão um elemento de ligação entre a quietude de dentro com a de fora: uma alquimia de melancolia. E não, não se trata de modo algum de melancolia que se parece com tristeza. É aquela melancolia dos regatos se deixando absorver por rios maiores, é a melancolia doce das folhas secas e douradas caindo aos pés da própria árvore. Ela me dizia que um dia de chuva a aconchegava como o colo de sua mãe. Ela sempre me disse que ouvir o murmúrio da chuva na calha ao lado de seu quarto era narcotizante, quase morfínico. Isabel, romântica feito princesa de conto medieval, se encorujava na escola quando menina, com seu capuz de moletom; e se aninha desde sempre nos cantos do sofá, com ou sem a companhia dum livro, quando é sábado à tarde e o mundo do lado de fora está acinzentado, cheio de nuvens, sob chuva pouca ou cerrada. Minha conclusão, e que deliciosa conclusão, é que ela é tão “anacrônica” quanto eu: vive num castelo, com pedras, torres, musgos, montanhas, ar frio, bosques; dormindo e sonhando ora no travesseiro morno, ora com os olhos castanhos bem abertos diante do horizonte.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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