Sobre hoje

Quando caixões são carregados e o céu resolve escurecer em pleno dia, quando as nuvens descarregam sua água cinzenta sobre a terra há pouco revolvida no campo santo, é sinal de que a tristeza vem de Cima. São legitimadas por Deus cada uma das lágrimas salgadas que se confundem com cada uma das gotas adocicadas da chuva. Há luto verdadeiro.

O sofrimento nos humaniza como nenhuma outra condição espiritual. Mais do que unir os homens na diversidade, as grandes dores, os grandes pesares, os grandes padecimentos nos unem na adversidade. O sofrimento nos civiliza, nos desamalgama deste individualismo coletivista pós-moderno para nos reintroduzir, abruptamente, no organismo da Humanidade: “And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee”. O corpo místico social cessa suas guerras intestinas para produzir em si todos os processos responsáveis pela reflexão existencial: cai um avião para que se elevem os espíritos dos mortos que ressuscitarão nAquele Dia e para que se mortifiquem os espíritos dos que por enquanto ficarão de pé sobre o globo terrestre. Nos velórios, somos montes de pó levantado diante de pugilos de pó deitado, como diria Vieira.

A morte coletiva invulgarmente nos obriga à uma liturgia para a morte. A morte de um só indivíduo é acompanhada como o desaparecimento de um número, um número que outros números carregam silenciosamente e sem protocolos até o túmulo; a morte conjunta de dois, desperta curiosidade e envolve mais gente, afinal, é preciso que haja um acontecimento de “maior abrangência” para que dois seres humanos deixem seus corpos ao mesmo tempo — por isto, ao cemitério afluem não só mais pessoas, mas também mais significado coletivo; se morrem três ou quatro ou cinco ou seis ou sete ou oito ou nove ou dez, há já um temor reverencial e uma atenção extraordinária, uma vez que não podem morrer tantas pessoas “à toa” e, então, é mais larga a conversa entre os vivos e é mais alta a especulação acerca de um “por que?” e é necessária uma cerimônia para dignificar o significado compreendido; se são duas ou três dezenas ou quatro ou cinco ou seis ou sete ou já uma centena e além a quantidade dos falecidos, não só uma cidade e uma região e uma província acodem à beira dos ataúdes, mas uma nação pára e volta seu olhar para um fato que a praticamente todos obriga um inquisitivo auto-exame. Via de regra, mortes coletivas personalizam o grupo dos falecidos; ao passo que mortes individuais despersonalizam o morto solitário se se tratar de um homem comum — um de nós, um anônimo para quase todos os demais membros da espécie.

Quando multidões se sentem tocadas pela morte alheia, cada indivíduo que as compõe compreende que (vide acima) os sinos dobram não só pelos mortos, mas por ele mesmo.

Então, um espírito litúrgico, o antigo espírito litúrgico que nos acompanha desde as cavernas, toma os vivos não só pela morte dos mortos, mas pela Morte que sentimental e intelectualmente toca os vivos: os joelhos lembram-se de que foram feitos para se ajoelhar; as mãos repentinamente recordam o sinal da cruz; os lábios lembram-se de que o silêncio é a plenitude da palavra; os ritmos musicais batuqueiros das arquibancadas se refinam até que no horizonte escurecido do meio-dia os ouvidos escutem a Marcha Fúnebre de Chopin; os governos recordam-se de que o futebol é o substituto moderno da justa medieval e que se cavaleiros eram armados para sucumbir em batalha, jogadores devem ser condecorados e feitos membros de uma ordem melitense caso dêem a vida em nome de um nome e de um valor — o nome da pátria e o valor da luta congregadora; então, cortejos como os que conduziam os féretros dos nobres medievos são perfilados nas rodovias e, se carruagens góticas carregavam os brasões das linhagens genealógicas adornados com motes latinos, carretas seguem adiante com o escudo do time e com uma solitária hashtag — #ForçaChape é um eufemismo casual para “Vivat in Aeternum”. Buzinas de automóveis e sirenes de viaturas são trombetas e clarins. Bandeiras futebolísticas são estandartes e pavilhões heráldicos.

Se uma partida acaba sendo um show coletivo (um “auê” físico de agitação corporal), um funeral torna-se um spectaculum público (um réquiem metafísico de repouso corporal). Mortes coletivas produzem secundariamente mudanças de apuro estético que emergem do apuro ético: retilíneos lenços brancos substituem as mangas das camisas mal-passadas, pacificando os olhos com tecidos adequadamente absorvedores da tristeza; as camisetas coloridas, mesmo as do time, uniformizam-se simbolicamente e, ainda que mantendo visualmente a vivacidade da paleta cromática, tornam-se um preto austero, afinal, a cor das armas do cavaleiro é também a cor da sua mortalha.

A morte que gera liturgia é a morte que coroa a vida, que dignifica tanto mortos quanto vivos, é a morte que prega nas artérias dos corações que ainda batem a final e grande mensagem: há um significado, há O Significado.

Até o Céu.

03.12.2016, A.D.