O dignitosa conscienza

Qual o sentido de quem vai e de quem vem,
De quem se parece com outro e não com este alguém?
Tantos encontros e desencontros,
Tantos redemoinhos e remorsos
Que soçobram em mares inexistentes,
Que sobram vento e água e calmaria e sopram tempestade no de repente,
Que apagam letras escritas, reescritas, nunca escritas
E anunciam em bilhetes e pergaminhos de eternos senões
Um pouco do amor que poderia ter sido e não foi,
Da paixão que foi e não poderia ter sido se outros fôssemos,
Se os mesmos fôssemos em momentos outros,
Nos mesmos lugares e talvez ao mesmo tempo.
São muitos “e se…” para uma vida só,
São vastos e rasos e até profundos e medíocres lamentos,
São muitas probabilidades e porcentagens e possibilidades
Que tanto nos exaurem, que tanto nos machucam,
Que tanto nos iludem com a certeza de incertas realidades,
A ponto de nos conformarmos apenas com isto aí como é,
Como está, com quem estamos, com quem somos…

Solilóquio de quem poderia para sempre arar a terra

No jardim secreto do meu coração, cultivo sementes raras, dormentes. Canto às raízes ainda inexistentes, rego todos os canteiros com oração. O trabalho do jardineiro é cuidar, cuidar antes de podar e dar forma, cuidar das pétalas e dos espinhos, das pedras que inibem d’água o caminho, do beija-flor que na cerejeira fez seu ninho, da solidão de quem rastela as folhas com carinho. Quantas conversas tive com a jabuticabeira… E quantos segredos meus os lírios conhecem bem! E assim, de valado em valado, de eira em eira, vou nutrindo de lembranças o solo, vou cavoucando abrigos às joaninhas, vou dando abrigo às centopéias e formigas. Quantos espelhos nas gotas que do orvalho à noite se desprenderam não me mostraram nos olhos, nos meus olhos, as profundidades e as razidões da minha alma de menino velho. Quantas auroras cor de opala nas orquídeas e quantos silêncios de túmulo na queda das rolinhas que seu último suspiro deram de encontro ao muro, que as minhocas e besouros também esmurram no verão… E o meu coração? Ele continua aqui, secreto, discreto, ereto e pronto a assumir seu lugar entre os girassóis e os pardais, no preciso e justo ponto onde o sol vier, amanhã, bem cedinho, raiar…