Solilóquio de quem poderia para sempre arar a terra

No jardim secreto do meu coração, cultivo sementes raras, dormentes. Canto às raízes ainda inexistentes, rego todos os canteiros com oração. O trabalho do jardineiro é cuidar, cuidar antes de podar e dar forma, cuidar das pétalas e dos espinhos, das pedras que inibem d’água o caminho, do beija-flor que na cerejeira fez seu ninho, da solidão de quem rastela as folhas com carinho. Quantas conversas tive com a jabuticabeira… E quantos segredos meus os lírios conhecem bem! E assim, de valado em valado, de eira em eira, vou nutrindo de lembranças o solo, vou cavoucando abrigos às joaninhas, vou dando abrigo às centopéias e formigas. Quantos espelhos nas gotas que do orvalho à noite se desprenderam não me mostraram nos olhos, nos meus olhos, as profundidades e as razidões da minha alma de menino velho. Quantas auroras cor de opala nas orquídeas e quantos silêncios de túmulo na queda das rolinhas que seu último suspiro deram de encontro ao muro, que as minhocas e besouros também esmurram no verão… E o meu coração? Ele continua aqui, secreto, discreto, ereto e pronto a assumir seu lugar entre os girassóis e os pardais, no preciso e justo ponto onde o sol vier, amanhã, bem cedinho, raiar…

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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