Sei que faz dia e noite

Até quando se dirá, entre sóis mal despertos e noites mal descidas,
Que o amor é este raio quente e frio entre dois corações confusos?
Porquê o tempo, anota bem para ti esta verdade esclarecida,
O tempo que é diante da cronologia dos gestos e olhares?
O rei de ouro que acorda e a rainha de prata que deita
São dois lusco-fuscos cintilando e piscando no universo-escuridão.
Estas moedas, minha bela, eu as tomei do antigo baú mitológico,
Fundidas dos adornos mais bem esculpidos dos escudos de Salomão.
E estas setas tuas, argênteas gotas dos teus olhos, que são?
Ah, minha doce menina, eu bem sei da poesia que o choro produz
E eu bem sei das palavras que trabalhei enquanto dormias em luz.
O cálice oferecido, libação para duas bocas secas, de alegria encheu a ceia;
Cantando elas nos prenunciam a tão mútua salvação, como os arautos
Antigamente aos pés do trono soavam melodias de anunciação.
Eu te direi, em silêncio e com voz sussurrada,
Que vidente certeza foi por mim alcançada,
E que entre escombros de ilusões varridas,
Entre assomos de anseios maltrapilhos,
Encontrei-te quando tocavam os sinos da conversão.
Com versos em pequenos lenços escritos,
Manuscritos da dialética eu-tu,
Papéis de rimas metricamente incomuns,
Com estes versos, puro anjo,
O sol beija na fronte a casta lua,
E eles se vão a reinar no dia que é noite e na noite que é dia.
O amor reúne, na una carne dos espíritos entrelaçados,
E amalgâma, na justa aliança das almas enamoradas,
O ouro e a prata. O electro do amor é esta fusão inconfusa
De paz e paixão, de sossego e frenesi, de distância e união.
As sombras são o véu da realidade que pia com a coruja,
Este pássaro que conosco detém as córneas do infinito.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *