Propter officium – III

Quando as hastes douradas
Vergam-se ao cinza no buril,
Quando só resta no cálice
A lâmina escultora e infantil,
Quando os séculos cinzelam
A verdade em imagem e mito,
Da Medusa resta o grito
E do tempo a marcação.
7.5.2018

“Tum propria flammis corpora alienis cremant diripitur ignis: nullus est miseris pudor.”
Sobra do barro que o fogo queimou,
Que em areia ou poeira se tornou.
Um graveto de tempo e cálcio
Enterrado no meio do Lácio.
Entranhas ao vaticínio.
Pensamentos ao símio.
Aranhas cosendo o sudário
Da carne podre no relicário.
8.5.2018

Num canto do mundo,
Entre a muralha chinesa e a parede babilônica.
Num ponto escondido,
Da acumulação holandesa e da visão faraônica.
15.5.2018

Quantos becos e tropeços,
Quantas ruas de pedras nuas.
16.5.2018

Dissimula!
Disse a mula?
Disse o mulá?
Muge lá!
21.5.2018

Eis o homem, de nós o demônio murmura.
Eis a carcaça mal assemelhada de Adão,
A estrutura carnal daquele rei e peão!
Toca o mundo, sente a brisa e o vinho,
Acaricia a seda das pétalas e o espinho,
Descansa tranquilo sobre oceanos e secura.
22.5.2018

Às vezes, planeja não planejar.
Arqueja os ideais por um instante.
Revê as idéias, areja a mente.
Planeia o mundo em silêncio,
Planifica o ar do parlatório.
Sempre sim ao esmo
Do mistério sem fim.
23.5.2018

Quando fizeres contigo tuas contas
E teus afazeres do passado as luas
Tiverem engolido em delícias nuas,
Olharás para o céu sem frio,
Sem sol cálido, sem sentido
E sem rio.
29.5.2018

Há uma sombra que se achega à parede,
A parede das heras e ervas, das eras cinzas,
A parede densa e vertical do bosque perdido,
Do jardim enclausurado no centro do mundo.
29.5.2018

No centro do céu o inferno,
No centro do inferno o céu.
Quatro círculos assim desenhados,
Um dentro do outro, em ordem.
Divisando a fronteira, um véu.
Velando a divisa,
Minha fronte altaneira.
29.5.2018

Eu vi uns olhos
Guardando galáxias,
Velando os astros
Lânguidos de prata.
Entre lua e luar,
Entre reflexo e clarão,
Ali estava a face,
O rosto enternecido
Da donzela de Ruão.
30.5.2018

Erbarme dich.
E que esta piedade
Pie no bico do passarinho,
Que no ar me diz:
Voa, voa, voa!
30.5.2018

Mal o dia delendava o pensamento,
E um anjo enviado pelo Senhor veio dizer,
Em cor de confidência há muito no céu remoída:
Isto aí que tens no peito: maladie de la pensée!
5.6.2018

Nunca contaste teus passos,
Porquê passeias nos contos
E sempre preferes o caminho
À geografia que fere o destino.
6.6.2018

Precipita-te de cabeça no teu peito.
Tateia a prece que começa a subir,
Que sobe e sobe; incenso de fé a ir,
A ir anuviar a beca lassa do direito.
6.6.2018

Ja, maar niet te veel.
Já, mar e nada, véu:
Batata marinada, mel.
Sim, mas não muito.
Nuvem, talvez o céu.
6.6.2018

Dantes os mistérios
Misturados de Dante.
Sérios textos pedantes?
Pés, versos, quebras,
Métricas, terços,
Estranhos quereres.
Véus místicos e ares
Soprando sereno
Sobre as palavras,
Remando no Arno,
Voando sem asas.
7.6.2018

Deixa a ilusão,
Vem ver este clarão
No céu, meu bem.
Olha a imensidão
Acenando pro além.
Bate a saudade
Quando a rosa murcha vai,
Vai murchar ainda mais
Com saudade do meu pai.
Olha, a escuridão
Vem se anunciar:
O quanto os teus olhos
Me inundam do teu mar.
8.6.2018

Lógica, ogiva de loas à angina de Satã:
O coração acídico do mal palpita meditada incongruência,
Odeia da ciência o pito ditado pela mediação da contingência.
Cérebro de nódoa racional, berrando sério impropério.
Contra o Logos lança sua lama, palavrório da insignificância,
Na ânsia de agitar, fogo e narina, seu afã.
14.6.2018

No teu peito, taciturno, bate com o luar o coração.
Entre as brumas e as pedras, pensas e caminhas.
Peleja à tarde, tácita e noturnamente, e sê a ação.
14.6.2018

Lírios negros sobre brancos montes,
Nuvens azuis em céus também brancos,
Améns entre turíbulos e anjos silenciosos.
Satã barulhento, fumo de vulcão, nega!
Escuridão sobre o firmamento vermelho,
Abismos cinzas debaixo de ervas pardas.
15.6.2018

A lança feriu de relance
A couraça de carne e sangue.
Abriu no corpo fresta de luz,
Criou no espírito rico pus.
4.7.2018

Se o véu do mistério eu descobrisse
E por sob a pele, na alma, a luz visse,
Que alegria deitar cedo para sonhar!
Sonhar sem querer acordar, e acordar
Sobre a nuvem deitado, no céu acordado.
19.7.2018

Som de luz, qual é,
Quando o Céu desce aqui
E ilumina de som a Terra?
Som de luz ouvi
Entre silêncio e altar.
Aleluia, cantai!
Aleluia, Aleluia,
Aleluia!
26.7.2018

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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