Propter officium – II

Fui olhar os lírios do campo.
Era inverno e estavam nus.
Lá estava o lírio, único lírio.
Apenas o caule açoitado demonstrava
Da sua flórea vocação os contornos.
A lira, esta minha de poesia,
Pouco desta visão poderá cantar,
Senão a verdade de que a nudez,
Também nas plantas e vegetais,
A nudez pobre e casta,
Vem de Deus.
3.1.2018

Das memórias que não se vão,
Fica apenas o derradeiro senão.
As aves que subiram ao paraíso
Ovo infértil deixaram no ninho.
3.1.2018

Partindo conversas como feixes
E pensamentos como vivos peixes,
Conversei sem pensar à mesa
Enquanto sobre o Cristo versava.
9.1.2018

A poeira eterna,
De glória impermanente,
É esta palavra
Que agasalha o tempo
Numa sentença
Desenhada
Em papel perecente.
11.1.2017

Os meus sóis serão miragens
Entre sombras e luzes eternas.
E meus lagos e oceanos
No espírito um só firmamento.
Nada que eu diga e veja,
Senão a realidade Aqui disposta,
Uma esperança tardia!,
Consumirá do Mundo o Facto.
Mistério chamarei a todo o inaudível
Quando o Cosmos vociferar
No ventre o Caos mal digerido,
Quando a saraiva das gentes
Pelo Logos bradar.
17.1.2017

Conforme andarias entre mortais,
Descobrindo signos e insígnias
Para a Eternidade compor,
Dizei-me se o ocaso dispensou
Cada indício de enigma
Inscrito no portal
Das estrelas antigas.
23.1.2018

Se as coisas principais, ao menos, fossem assim tão certas,
Se o giro dos planetas se alinhasse ao movimento de nossas cabeças
E de repente tudo fizesse sentido porquê óbvio o metafísico,
Os amores seriam imediatos e para sempre,
As mesas de domingo estariam todas abarrotadas de macarrão e vinho,
O galo que canta às três da madrugada cantaria ao meio-dia
E eu aqui não derramaria medíocres versos em poesia.
24.1.2018

Dantes a golpes seja posto o espinho sobre minha fronte
Que o ouro de pagão e rico diadema me adorne a cabeça.
Defendo, eis aqui meu sangue, a santa Cruz do santo monte.
Defendo, eis cá a cicatriz, o frio sepulcro que jaz aberto.
Godofredo de Bulhão eu sou. Não sou rei: minha sentença!
25.1.2018

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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