Para quem quiser pensar um pouco na própria vida

Enquanto tentas o financiamento do apartamentozinho, o joão-de-barro constrói seu ninho com a tecnologia dos zigurates.

As formigas ali no chão estão cavoucando túneis e canais monumentais sob a cidade, e tu discutindo a política municipal do dia com o vereador na esquina.

O sol se levanta, passeia, janta e arrota antes do sono enquanto tu corres a torto e a direito atrás dos boletos.

As estrelas balançam brilhos distantes, as folhas se envermelham e secam, o rio que outrora serviu de bebedouro aos dinossauros está regurgitando plástico.

Não admiras o horizonte mais simples de vermelhos e amarelos e azuis que a tua janela te concede, mas suspiras com os papéis-de-parede bregas e photoshopados de cânions e praias caribenhas que os números ocultistas da programação do Facebook te revelam na timeline.

Os beduínos, os ermitões e os desconsolados soldados da Legião Estrangeira resolveram descalçar o tênis e pôr os pés na terra. No cantil há água sempre fresca. Tu ainda te penduras no varal do ônibus. A Coca-Cola está quente e já perdeu o gás…

Um casal de corujas em Notre-Dame escuta há semanas o Réquiem de Fauré. Tu diariamente assistes aos jingles do Youtube, antes de gargalhar um pouco das piadas de humoristas já falecidos do extinto “Topa Tudo por Dinheiro”.

Uma crisálida está grudada no teto da tua cozinha. Amanhã, às 12h17min, ela será borboleta. Tu, então, estarás na padaria, almoçando rapidinho uma coxinha fria com molho de pimenta aguado. “Não dá tempo de fazer arroz e feijão…”, dizes. Não verás o primeiro vôo, maior e mais belo que a pisada de Armstrong na lua, maior e mais triunfal que o mítico vôo de Ícaro.

O WhatsApp é o teu cuco. O Messenger é o teu alarido de abutre. São ambos, pralém da classificação ornitológica, os corvos de Edgar Alan Poe — livro que te calça a mesa há seis anos. São ambos as cartas que não mandas e os bilhetes que não recebes. Não se pode guardar na caixinha de recordações do coração aquilo que só se pode manter no inbox virtual.

O miojo com salsicha está cozido. O suco Dell Vale está gelado. O livro de receitas da nona italiana está empoeirado e a garrafa de tinto que ganhastes na cesta de Natal está debaixo da pia formando par com o detergente.

E então, filhote da Civilização Industrial, do ceticismo dos filósofos e do cifrão dos capitais, que me dizes desta tua confortável, desta tua moderna existência?

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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