Padaria

Eu sei que não sou nada.
Mas um dia serei tudo.
Posso querer ser tudo.
E por isso, tenho em mim uns poucos sonhos no mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que Deus sabe quem é
(ninguém mais sabe quem é, e porquê saberia?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada por anjos,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, possivelmente real, certa, conhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por cima das pedras e dos seres,
Com a vida a pôr humanidade nas paredes e cal no corpo dos homens,
Com a Providência a conduzir a carruagem da parte pelo caminho do todo.

Estou hoje vencido, porquê sei a verdade.
Estou hoje lúcido, porquê estou para viver,
E agora tenho já irmandade com as coisas,
As quais saúdo, tornando-se esta capela e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma chegada apitada
De fora da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na volta.

Estou hoje perplexo como quem sentiu e achou e recordou.
Estou hoje unificado pela lealdade que devo
À Padaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à intuição de que nada é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como fiz alguns propósitos, talvez nada fosse tudo.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com pequenos propósitos.
Por isso, lá encontrei ervas e árvores a sós,
E quando havia gente era diferente de outra.
Saio da janela, sento-me ao chão. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu agora que sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso apenas esta coisa!
Haverá quem tenha pensado a mesma coisa entre tão poucos?
Santo? Neste momento
Cem mil corações se concebem em sonho santos como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão cinzas de tantas conquistas presentes.
Não, não creio em mim.
Em todas as universidades há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que só tenho uma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas capelas e não-capelas do mundo
Não estão nesta hora santos-para-si-mesmos sonhando?
Quantas confissões baixas e vis e lúgubres –
Sim, verdadeiramente baixas e vis e lúgubres –,
E quem sabe se imperdoáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão os ouvidos das gentes?
O mundo é para quem nasce para o salvar,
E não para quem sonha que pode salvá-lo, sem a única Razão.
Tenho sonhado mais que o que Francisco fez.
Tenho apertado ao peito pulsante as humanidades de Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Pascal escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da capelinha,
Ainda que não ore muito nela;
Serei sempre o que nasceu para isso;
Serei sempre só o que não tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem o portão ao pé de uma muralha dourada
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço destapado.
Crer em mim? Não, só nestas Novas.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se for mandado vir, terá que vir, virá.
Amantes cardíacos da Estrela,
Salvamos nosso mundo antes de nos levantar da cama;
E acordamos e ele é límpido,
Levantámo-nos e ele é nosso,
Saímos de casa e ele é o pó inteiro,
Mais a alma e o espírito e o Indefinido.

(Come comigo os chocolates, pequena;
Comamos chocolates!
Olha que há tanta metafísica no mundo quanto nos chocolates.
Olha que estas religiões todas ensinam menos que a confeitaria.
Come, pequena banhada, come!
E eu como chocolates com a mesma verdade com que comes!
Eu penso e, ao tirar o papel prateado, que foi na prata da Lei afinado,
Deito tudo para dentro, como de agora em diante deitarei a vida.)

Então fica da doçura do que serei
A caligrafia refletida destes versos,
Pórtico partido para o Possível.
Então consagro a Ele uma afeição cheia de lágrimas,
Nobre então no gesto pequeno com que deponho
O sudário sujo que sou, orvalhado, pra o decretado nas coisas,
E fico na capela todo nu.

(Tu, que consolas, que existes e por isso consolas,
Deus Desconhecido, concebido como estátua que fosse viva,
Deus Legislador, poderosamente nobre e augusto,
Deus dos pastores, gentilíssimo e colorido,
Deus do século dezesseis, gracioso e presente,
Deus do tempo célebre dos nossos pais,
Deus que supera a atualidade – Eterno –,
Tudo isso, isso que é, que seja, que pode inspirar, que inspire!
Meu coração é um cálice cheio.
Não como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A Ti mesmo e encontro tudo.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os seres vivos despidos que se cruzam,
Vejo os cães que apenas existem,
E tudo isto me levita como uma libertação ao Além,
E tudo isto é doméstico, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, cri, e até descri, e agora sei,
E hoje não há imperador que eu inveje por não ser eu.
Olho a cada um as pompas e as regalias e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses nem descresses nem soubesses
(Porque é impossível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um leviatã a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do leviatã fixamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que não podia fazer de mim Ele fez.
O terno que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e Ele desmentiu, e encontrou-me.
Fez-me querer tirar a máscara,
E ela foi estilhaçada junto à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Caíram as escamas e a lepra.
Estava sóbrio, já não sabia vestir o terno que estava rasgado.
Deitei fora a máscara e passei à noite em claro
Como um filhotinho que descobriu a teta da mãe
Por ser inocente
E vou escrever esta história para provar que sou comum.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Hei de encontrar-te como coisa que eu fiz,
E não ficarei sempre defronte da Padaria de defronte,
Calcando aos pés a inconsciência de estar existindo,
Como um tapete em que um príncipe tropeça
Ou uma tapeçaria que os cruzados roubaram e valia tudo.

Então o Dono da Padaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o conforto da cabeça bem erguida
E com o conforto da alma bem-entendendo.
Ele morreu e eu morrerei.
Ele deixou a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura colocará na tabuleta meus versos.
Depois de certa altura, será outra a rua onde está a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Reviverá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas toda a futura gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo desta única tabuleta,
Mas então uma coisa dentro da outra,
Para sempre coisas tão úteis uma para a outra,
Para sempre o impossível sendo o real,
Para sempre o mistério do profundo tão certo como a vigília de mistério da superfície,
Para sempre isto e sempre as outras coisas e uma coisa e outra.

Mas um homem entrou na Padaria (para comprar pão!),
E a realidade única cai mansamente em cima de mim.
Levanto-me enérgico, convertido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que testifico.

Parto o pão ao pensar em escrevê-los
E saboreio no pão a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o gosto como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que tudo é metafísico.

Depois deito-me para trás na poltrona
E continuo comendo.
Enquanto a Providência mo conceder, continuarei comendo.

(Hei de casar com a filha da minha lavadeira
Serei feliz.)
Visto isto, levanto-me da poltrona. Vou à janela.

O homem saiu da Padaria (metendo trigo na algibeira das calças!).
Ah, conheço-o: é o Estevão da metafísica.
(O Dono da Padaria chegou à porta.)
Por uma intuição divina o Estevão voltou-se e viu-me.
Acenou-me olá, gritei-lhe Olá ó Estevão!, e o universo
Recriou-se-me em idéia e esperança, e o Dono da Padaria sorriu.

[11.5.2019]

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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