O altar da noite escura [artigo para jornal]

A lua antigamente servia à localização noturna, à poesia e ao parto das grávidas. A lua afetava as ondas do mar, o crescimento do cabelo, a semeadura do campo. E muito mais. E ela continua a obrar estas coisas. É que a gente não sabe mais dessas coisas, nem de quase nada. Ontem, sentado no jardim cá de casa, lendo e respondendo bobagens no celular madrugada a dentro, percebi que a lua hoje em dia (e hoje em noite) mal inspira o miado dos gatos e o latino mal uivado dos cães que ainda guardam parentesco distante com os lobos. Séria pergunta: me diga, para que serve a lua na sua vida? No máximo, você curte ou compartilha fotos dela grandona ou vermelha no Facebook, quando os movimentos orbitais da terra aproximam ela de nós e os raios solares colorem sua superfície. Você já ouviu o Sinatra cantando “Fly Me To The Moon”? Você já quis ser astronauta da Apollo 11? Você já ouviu aquela musiquinha “Rato”, aquela em que o rato toma um “toco” amoroso da Lua? Você já viu alguém comparar um queijo suíço esburacado com as crateras dela? Você já ouviu a sonata “Clair de Lune” ao piano?

Bem… Mas não se trata da lua. Tem mais. Muito mais coisas feias e bonitas que nós nos esquecemos que existem por aí, dando mole pra nossa alma, dando sopa pro nosso espírito, mas que nós rejeitamos friamente, como se não precisássemos de nada além das coisas que estão ao alcance material das nossas mãos igualmente materiais. A gente não quer mais saber das “coisas inúteis”. A gente só quer aquilo que venha rápido pro bolso, que venha rápido pro estômago, que venha rápido pros genitais, que venha rápido porquê a rapidez é tão rápida que a gente precisa fazer uma rapidez seguir a outra até que surja rapidamente o dia da nossa morte (ah, e que seja rápida!). Então a vagabundice tem que ser bem remunerada, porquê suar é pra bestas de carga; então a comida pode ser a do micro-ondas ou a do fast-food, porquê cozinhar é praquela velhinha no sítio com seu fogão à lenha; então o orgasmo tem que ser vapt-vupt, quase precoce, porquê há muito mais vaginas pelo mundo e a noite é uma criança; então… é preciso correr, porquê o percurso desta existência acaba logo e é necessário não só tatuar o “Carpe Diem” na nuca — a gente tem que ser um epicurista que não leu Epicuro e tem que mandar a ver na existência!

Não é só a lua. É tudo. Você não percebe (vai, seja sincero) que você é um ralo pro mundo e que todas as coisas boas e bonitas da Criação te são inaproveitáveis? É, você é um ralo. Não, não é um abismo. Você é só um ralo superficial pelo qual escorre vômito, fezes e urina metafísica. Você não quer nada com nada e, quando o nada vem fazer arrepios na sua espinha, trazendo medo e depressão, o que você faz? O que você fará? Arre! Será que pelo menos você será consolado ao saber que tem uma ópera, La Bohème, que fala duma vida toda suja e também toda pseudo-romântica e alcoolizada entre amores, paixões e devassidão?, e, ah!, que também fala da lua numa ária bela e trágica? Sequer isto você tem. Sequer o vil consolo da cultura. “Ma per fortuna / È una notte di luna / E qui la luna / L’abbiamo vicina.” Admita: você não tem nada! Você não tem sequer isto a que você apelidou de você mesmo, o seu eu aparente. A gente está mal, muito mal. Quisera eu, pobre leitor, que você de fato soubesse que Deus criou a lua e que o fato dEle a ter criado é a informação mais importante a que você terá acesso em toda a sua vidinha. Porquê aqui está uma verdade — a Criação — e uma verdade sempre empurra a outra, sempre conduz à outra, como num efeito-dominó.

Esta noite, saia lá pra fora. Vá ver a lua. Chame alguém para vê-la contigo, entre queijos, vinho e boa música. Pesquise sobre ela na Wikipédia. Se necessário, leia até qualquer bobagenzinha sobre suas funções na Astrologia. Mas faça qualquer coisa de mais elevado com sua vida ainda agora e lembre-se disto: o tempo está passando e… também existe um calendário lunar, e ele tem menos dias que os 365 de costume!

[2.12.2018]

 

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *