Esponjas de sol — XXXVIII

  1. Se por mil casas passássemos, o lar conosco ainda habitaria. E se centenas fossem as mesas, ainda assim um seria o jantar.
  2. Quis para mim jurar que este seria o último poema e que verso algum, desta pena e coração, teus olhos veriam. Mas é assim tão louca a desilusão, e tão variante a canção, que outra vez tomo papel e escrevo sobre a paixão. Ainda que negues ver neve sobre os umbrais da casa, chamando amarelidão à brancura em montanha, como se nos afligisse o sol em verão, desperta sob a lareira e vem ler esta ilusão.
  3. Jurei ouvir passos onde não haviam pés e sentir o calor do sol quando não havia dia. Por que discernir distintamente o andar e na pele o candor dos raios se tais não são? Outrora jurei que nela eu tinha a amiga e que o tempo tratava de compor sua valsa, e que num fim de tarde a dança moveria todo o aguardado em pensamento e emoção. Mas de juras não pode a realidade viver, porquê a verdade é este permanente escolher: aqui tens o caminho e os teus pés, aqui tens o inverno onde a sombra não chega. Juro-me, para poder jurar-te depois, que há existência além de nós dois. Tu tens de mim o que de mim te dou e eu de ti tenho o nada que me deste. Apreendida ficará para sempre esta lição: jurar para quê quando há confiança? Jurar, então, já não é uma quebra de aliança?
  4. Pessoas de pensamento instável, cuja ansiedade movimenta o julgamento, quase sempre assumirão como verdadeira a última versão à qual tiveram acesso no contexto dum “puxa-puxa” de conversas, boatos e falatórios acerca dum mesmo fato-assunto. Em bom português: gente de miolo mole frequentemente aceita e acata, por força da impressão psico-emocional mais recentemente causada, os supostos argumentos da última pessoa com quem conversou. Julgo que 99,9% dos indivíduos padeça deste mal cá no Brazil-zil-zil. Doravante, fica diagnosticada a “Síndrome do Pós-Julgamento Recarregado”. Popularmente, podem chamá-la de “Síndrome do Ouvi-Agora-Logo-É-Verdade.” E também já podem inscrevê-la no CID. Meditem aí.
  5. Na Criação, a mulher vem do homem. Na Redenção, o homem da mulher.
  6. Joana d’Arc é a Judite da Idade Média.
  7. Escarlate ou rubra é a cor. Vermelha, direi. Eis a face quente em cor, o sangue gotejando na flor, a imagem sanguínea do amor. Coração pulsando humor e rubor, espinho rasgando a pétala da pele: também é carmesim.
  8. Arquétipos são sequestradores do ser, da personalidade real.
  9. O santo é o homem logosoficado. Seus gestos e ações são puros como idéias-palavras. São essências excedendo o próprio ente.
  10. A justaposição de imagens cria uma imagem inexistente. A justaposição de idéias cria uma idéia em si mesma existente.
  11. Haverás de calar por um instante, e entenderás que o silêncio é relevante como um eco do universo bem no peito, como um brado de mil deuses em respeito. E então caminharás bem vacilante, na alegria inesperada do levante, como ébrio de razão e devoção à verdade deste nosso rei-peão.
  12. Cavalguei pelas colinas florescentes, sob as estrelas douradas.
  13. Confiar é fiar-se no coração alheio.
  14. Ourivesando palavras, ando lavrando maravilhas, vendo douradas nuvens, ouvindo serafins.
  15. Qualquer covarde pode manejar um revólver. Mas a bravura sempre estará apegada (porquê indistinta) à espada. A bala é distância. A lâmina é contato.
  16. A flor perfeita é rara, / cor branca de nata / para a régia receita. / Pura e sem mácula.
  17. Estava com as narinas entupidas. Então, vi ela. O nariz logo ficou livre, desentupido. Sem Sorine nem assoamento no lenço. O amor, bem sei, é uma espécie de pneuma.
  18. Quando os passos a si mesmos se guiarem, entre o descalvado monte e a reta avenida, saberás que o caminho marcha dentro de ti como bússola pelo Santo Espírito imantada. Escuta a harpa que a musa futura dedilha, a harmonia que à alma traz som e calma, porquê ouvirás ainda poucas vezes o hino que o Rei mesmo compôs na invernada. A guia dos teus sonhos e melhores ilusões é o labor que o dia-a-dia desenha em mapa, é o amor que, farol superior, do eu se aparta. Se a primavera vier forte porém atrasada, entre o lastro do frio a bela rosa apertada, terá chegado o kairós desta santa jornada.
  19. O tamborim e o ventre da dançarina: eco de mútuos vais-e-vens de couro e corpo.
  20. Sob as abóbodas celestes, as abóboras terrestres.
  21. Ler todo dia algo que valha a existência das palavras: um poema de mil anos, a Bíblia, uma mensagem escrita ainda ontem por quem nos quer bem, um livro qualquer que não te faça ser um qualquer. Ouvir todo dia algo que vá além dos tímpanos e chegue ao mundo das esferas musicais: uma sinfonia de Mozart, um samba do Cartola, uma missa de Byrd, um modão de Tião Carreiro e Pardinho, um oratório de Bach. Contemplar todo dia a beleza de Deus no mundo: uma mulher bonita sorrindo, uma árvore se desfolhando, uma criança aprendendo a andar, uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite. Provar todo dia, nos cinco sentidos, que há um sentido na vida, e que a beleza se impõe como meio de salvação diante da rudeza ordinária e vil que tenta deformar a imagem e semelhança dEle em nós. Faço isto todo santo dia. Funciona.
  22. Apenas quem for capaz de ler tua alma será capaz de te amar. Algumas pessoas, poucas pessoas, poderão bem entendê-la em certos aspectos principais e até mesmo compreendê-la em certos detalhes mais profundos, mas nunca te amarão integralmente, fecundamente, totalmente: no máximo ter-te-ão carinho, paixão e bons afetos. Porém, apenas quem for capaz de ler teu “textus vitae” (aquela narrativa oculta e misteriosa que a alma individualíssima encerra) com a gana de querer relê-lo para sempre (sem tédio, sem enfadar-se com a rotina, sem fastio) te amará. Cada alma é uma esfinge: decifra-a e ela também te amará. Recordo, à propósito, Valéry: “Il y a une sorte de réciprocité entre le besoin et l’objet qui le satisfera.” / “Há uma espécie de reciprocidade entre a necessidade e o objeto que a satisfará.”
  23. Frequentemente quer-se demonstrar como presença aquilo que é ausência. Quer-se demonstrar que se ama e se está amando e sendo amado porquê a falta real de amor agoniza a alma. Quer-se demonstrar inteligência porquê a falta fática de razão e tirocínio embaça o pensamento tão diariamente que a fala chega a parecer-se com o zurro asinino. Quer-se demonstrar sucesso, elevação e posição como adereços capazes de enfeitar aquilo que no fundo é medíocre e por enquanto insuscetível de subir para além de certo e “baixo” status. Então, pára de te comportares como titã da paixão e do sexo, como mito e gênio do intelecto, como exemplar maquiado e macaqueado da realeza mediatizada alemã ou de super-executivos de Wall Street! “Conhece-te a ti mesmo”, profetiza o oráculo socrático. “Examine-se o homem a si mesmo”, pontifica o Evangelho. Sê tu mesmo a ponto que, conhecendo-se e examinando-se, teu eu efetivamente (de eco fraco a eco forte do ser) chegue ao fundo final do teu eu-si-mesmo. Estes vernizes mundanos, a quem enganam senão a ti mesmo? Não te comportes como don juan ou femme fatale, como Tomás de Aquino ou Simone Weil, como Dostoievski ou Flannery O’Connor, como arquiduque d’Áustria ou lady vitoriana, como Steve Jobs ou Huguette Clark. Nas baladas, no câmpus universitário, na sociedade e no trabalho (e também no Facebook) é certo que és apenas um zé-mané/mariínha-manoa. Teus anseios de subida são legítimos. Tuas pretensões de ascensão são cabíveis. Mas o fingimento nada alcança senão uma fina película de mentiras meticulosamente tramadas que qualquer perguntinha à mamãe ou ao Google desfaz. Concentra-te em saber quem és e, então, a partir do ponto-radicular da verdade, poderás dilatar tua potência e aí serás de fato um adulto amante, sábio, culto e, sabe-se lá o que isto quer dizer, enfim serás um adulto “importante”.
  24. O ritual é a base social da sanidade moral do indivíduo. Do culto ortodoxo russo ao haka dos maori, estou convencido desta realidade.
  25. Há tantas grandezas por conhecer, tantas alturas por alcançar, tantas belezas por criar… e nós (e eu, e eu mesmo, quantas e tantas vezes!) nos deblaterando por ninharias, por tolices tão nulas quanto implicantes, por coisinhas ranzinzas e “inhas” de infindos diminutivos, por minúsculas partículas de nada com nada e mais nada. Há tanto por viver entre uma meia-noite e outra. Há tanto por viver entre uma pessoa e outra. Há tanto! Há tanto, que nada destas desgastantes tolices diárias e nada destas desenergizantes idiossincrasias cotidianas vale à pena. Nossa rigidez lógica é frequentemente um lago de breu; um lago de breu, reverso daquela má e velha “tempestade em copo d’água”, perturbando a razão natural das coisas — profundas, vastas, oceânicas. Há tanto por viver. Tanto…
  26. O homem salvo por Cristo não foi feito para viver como a maioria dos homens. Se o calo aperta, continuamos a caminhada com os pés sangrando. Se a boca seca, engolimos saliva em benefício de cada palavra que ainda precisa ser dita. Se a tentação mastiga ferinamente a carne, nós nos jogamos no espinheiro até que o auto-domínio floresça. Se os homens comuns desejam apenas existir como entidades biologicamente controladas por aquelas necessidades da Pirâmide de Maslow, nós suportamos as carestias físicas e metafísicas com os olhos pregados na vida que é eterna. Um homem cristão não foi feito para passar a vida se arrastando entre cama-e-ronco e sofá-e-bocejo entremeados por trabalho profissional, fadigas corporais e rotinas mentais: nós fomos feitos para avançar audaciosa e corajosamente o Reino de Deus entre esses outros homens em cuja humanidade a “imagem e semelhança” dEle está embaçada. Há um mandamento sacrificial por guardar: “Ide!” Lembra-te.
  27. Apenas gente muito boa ou muito má calcula com certo rigor de detalhes suas ações, seu minucioso procedimento diante do mundo das coisas e dos homens. Atenta-te para o caráter de quem observas: se é virtuoso, tal cálculo é sua temperança e prudência no agir; se viciosa a alma, ali tens um enxadrista a calcular cautelosamente seu ataque.
  28. Se é o olhar que te seduz, que farás com ela inteira? Se é o sorriso que te cativa, que farás com todo o resto abaixo e acima da curvatura dos lábios? Se é isto ou aquilo ou qualquer outra “parte” do conjunto que especialmente te atrai, que farás com o “todo” harmônico ou desarmônico que carrega o detalhe encantador? Que farás com o todo interior, com tudo aquilo que carrega seu corpo pelo mundo? Que farás com sua genealogia e atavismos, com seus modos e usos e costumes, com sua impostura diante do altar de Jeová? Que farás com seu desdém por livros e música, por arte e vida interior, por viagens por terras cheirando incenso e canela, macarrão e doce de maçãs, sal desértico e gelo ártico, lã no curtume e carneiro na brasa, tâmaras e pato de Pequim? Que farás quando quiseres gastar dobrões a mais numa iluminura medieval e ela outra-e-outra-e-outra vez desejar a grife milanesa? Que farás no domingo quando tu quererás acompanhar as crianças na escola bíblica e ela quiser dormir mais e mais, atordoada pela ressaca? Que farás com sua existência anterior toda marcada, toda chagada, pelo sistema coator das massas? Tu quererás a 5ª de Shostakovich e polvo e vinho verde e quererás na semana seguinte o forró pé-de-serra pernambucano e baião-de-dois com buchada de bode e batida de cocô com jurupinga; ela te arrastará perpetuamente para qual pub, para qual balada, para qual rolê, para qual night de Skol Beats e cacofonia entre o cheiro do cigarro barato e o gosto rançoso da porção mal feita? Tu quererás ler e gastarás algumas horas lendo; ela irá para o shopping. Tu quererás que teus filhos estudem música, aprendam línguas antigas e cacem e cavalguem e acampem; ela lhes dará celulares, babás e conselhos falsamente maternais sobre como “não perder tempo com estas bobagens” e sobre o quanto “é perigoso ficar correndo por aí.” Tudo por um reflexo momentâneo dum olhar tentador e brilhante? Tudo por duas mandíbulas bem providas de dentes e graça estética? Dalila é sempre um pesadelo perfeito: sentimento de sonho que ao pensamento é horror.
  29. Só se ama quando tu és tu e só tu mesmo com a pessoa, sem vernizes cobrindo e recobrindo tua personalidade, sem brumas anuviando teu ser. Ser e só ser, de espírito nu. Sem os melindres de parecer isto e insinuar aquilo, sem a preocupação de impressionar falando ou calando, sem o medo de fazer a coisa certa do jeito errado. Sem as “folhas de figueira” da persona projetada no mundo: sem vergonha. Só se ama na nueza da alma toda despida dessas preocupações de não ser bom o suficiente, porquê o outro basta na sua [in]adequação. Só se ama quando ali, um diante do outro, homem e mulher se enfrentam e se encaram sem que frontes e caras se despistem no olhar mútuo — olhar que carrega, leve e densamente, tudo o que eles foram, são e serão porquê passado, presente e futuro comungam do mesmo destino. Todo o resto, senhoras e senhores, é bobagem sentimental que não vale a pena.
  30. O amor não carece de dia, mas o dia, um em especial como hoje, sempre carece de mais amor. A lógica do Dia dos Namorados, por mais que pretensos racionais a neguem sob gastos argumentos de que se trata dum evento comercial dedicado a varejismo sentimental, é a lógica que sempre guiou o ritual, a liturgia: determinar especialmente um tempo para, com melhor consciência e atenção, se dedicar mais intensamente àquilo que já se dedica silenciosamente no dia-a-dia. Então, não chorem as amargas pitangas contra a data se o andarilho cupido ainda não lhes acertou o miocárdio. É feio!
  31. Os ideólogos dum lado atiçam o povo contra o povo atiçado pelos ideólogos dum outro lado. Os dois povos são um só povo, que uma verdade (igualdade) numa grande mentira (igualitarismo) opôs à outra verdade (liberdade) numa outra grande mentira (individualismo).

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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