Esponjas de sol — XXXVI

  1. Uma das coisas mais gostosas deste mundão é escrever poesia para quem sensivelmente é capaz de compreender que ali, entre versos e estrofes, está o próprio coração na mão. E uma das melhores imagens nesta vida é ver olhos femininos enternecidos diante dum pedacinho de papel que custodia, com letras bem caligrafadas, um poucochinho de tudo aquilo que este coração sente; que sente e que sentiu ao se desnudar rimando, destemidamente, seu espírito enamorado.
  2. O fanático não é tão perigoso pela sua idéia (“Timeo hominem unius libri”) quanto pela troca repentina de uma idéia por outra, enfim, por sua substituição — quase sempre num estado de “conversão” pseudo-metanóica. Pode-se discernir em caracteres patológicos certa ascensionalidade crescente de obsessões ideológicas menos abrangentes (nível pessoal) para obsessões mais abrangentes (nível social). O stalinista idealista justificador dos Julgamentos de Moscou nas redes sociais que torna-se “nazista romântico” e vai fazer coro aos loucos negacionistas nas praças, o crente moralista fiscal-da-vida-alheia que torna-se ateu eticamente laxo e vai às assembléias legislativas atirar ovos e tomates nos crucifixos, ô… oh… e muito mais! Eis por aí tanto chato-de-galochas que abandona a pouco duradora tolerância mínima em direção a definitiva intolerância máxima. O mundo está perigoso para os homens de muitos livros.
  3. A gentileza só é gentileza de verdade (e não mera cortesia social) quando é levíssima de tão suave, quando é diluída no gesto (mutatis mutandis, Bilbo Bolseiro diria “esticado como manteiga espalhada por um pedaço muito grande de pão”) tanto quanto o beijo na testa que a gente deu pela primeira vez na primeira namorada. Quando se parece — porquê é — com ritual formulário, quando é caricatura formalesca, não é gentileza coisa nenhuma: trata-se apenas de urbanidade habitualmente introjetada. Dâmasos de Salcede há a valer por aí!
  4. A política externa brasileira deveria prestar triplicada atenção nestes três países: Rússia, Tailândia e Polônia. No primeiro, pela movimentação ideológica eurasiana (maior bloco de poder no mundo oriental); no segundo, pela mutação político-econômica que fará crescer a população islâmica; e no terceiro pela lugar-tenência eurocética. A sério que “o silêncio é um espião”, Mário Quintana? Abin! Abin! Abin!
  5. Tem todas as idéias e todas as opiniões! Contudo, não permitas que elas façam de ti uma idéia e uma opinião. O homem livre, o homem bom, é um decanter de pensamentos docemente tintos, e não um barril de borra mental vinagricenta.
  6. César, ao recepcionar de muito má vontade uma delegação de senadores que lhe viera anunciar a concessão de novas e mais lustrosas nobilitações, ficou regiamente sentado em sinal de desdém pela aristocracia lambe-botas. Caiu em si: grave erro estratégico mexer com os brios de homens senis mas poderosos. Teve que fingir (e mandar espalhar em forma de boato verossímil) uma diarréia para justificar a postura altiva. Resultado: vinte e três facadas. Provérbios 16:18, of course.
  7. A glória das coisas está em ser o que elas são. “Cada estrela tem sua glória”, Ele nos diz. A glória é o ser.
  8. Olhos carinhosos e sensíveis, olhos que superam olhares, olhos profundos feito oceanos de céu e céus de mar. Minha voz fica embargada e meu coração apertado — como se o dom da fala me faltasse e as batidas fossem badalas de pêndulo gigantesco em sineta doméstica — diante dela. Os teus olhos, sabe, são os luzeiros da minha esperança.
  9. Aliança de prata e aliança de ouro: o refino ascencional do relacionamento — do até certo ponto provisório para o totalmente permanente.
  10. O Velho da Invernada. José Bernardo da Silva, meu bisavô.
  11. Quero casar num domingo, só para poder olhar para minha amada e dizer: “A voz do anjo / Sussurrou no meu ouvido / Eu não duvido / Já escuto os teus sinais / Que tu virias / Numa manhã de domingo / Eu te anuncio / Nos sinos das catedrais.” Daí, no altar duma catedral, eu vou dar um sinal para que badalem os sinos.
  12. Um dia, o próprio Deus irá caminhar conosco pelas ruas da nova terra depois duma corrida nos novos céus. Pois, sim! Depois de uma maratona, mano a mano, indo do transcendente “mais além” e vindo para o imanente das galáxias “além”, Deus mesmo nos explicará o “porquê” metafísico do “como” físico: não existirá Teologia nem Ciência, porquê as primeiras coisas serão passadas. Abstrato e concreto: palavrório indicionarizado. Um dia, não haverá sequer esta espaçadela de 24 horas que sem muito critério ontológico nós simplesmente chamamos de dia. O dia será um infinito de eternidades rompendo eternidades infinitas, como uma gota d’água que goteja para cima ou como uma pareidolia numa nuvem que toma a forma de toda e qualquer imagem que simplesmente nossa mente concebe no instante: sem fim, sem começo, sem meio, sem início, sem término, sem entremeio — completamente criativo, totalmente criando, integralmente “fiat!”. Um dia, o próprio Deus deixará, conosco, suas pegadas no solo lunar e na fossa das Marianas e no Everest e no tal do planeta OGLE-TR-56b. Um dia, em corpo glorioso (em unidade completa do eu-eu-mesmo), com Deus nós iremos singrar Tudo, feito pai e filho que construíram um barquinho para, pelo resto de suas vidas, navegarem pelo lago sossegado que a floresta guardou em silêncio para uns poucos. Isto não lhes consola e comove? A mim sim.
  13. O martírio nestes tempos pós-modernos é psíquico.
  14. Tentei quebrar o silêncio jogando pedras na janela, assoviando versos ao luar, sorrindo tonto para ela. Consegui quebrar a janela, acordar os cachorros e ser tomado por louco. Não, não há mais o que fazer. Há sim este passado que há pouco é pretérito e que vai passando como um balde d’água que escorreu pela ladeira até encontrar o bueiro mais distante do quarteirão. Agora, tudo seria simplesmente falar o que foi dito, emitir sons mais ou menos silvados na boca, sorrir amarelo na cor da gemada azedando em cima da pia. Ouve-me, ouve-me a ti mesmo! Fica sabendo que este mundo, este mundo de hoje em dia, não está organizado para que o teu coração tenha o quê fazer: os corações que por aí estão, com exceção do coração de Helena, são bombas de sangue empurrando e distribuindo sangue quente; só isto é o que são. Anatomia mamífera! Se nas tuas artérias flui o elixir passional e incoagulável do amor, melhor que durmas no sereno uma noite para que o frio do ambiente, do ambiente real, te gele um pouco o cérebro e ele se faça gangorra, balança e contrapeso deste teu coração que insiste em bater estas coisas que são “sentimentos”! “Some they think only to marry. Others will tease and tarry.” Ouça-me cá: guarda o teu silêncio e os teus versos e os teus sorrisos para a anunciação de Helena. Do contrário, adquirirás o hábito — e depois o vício — de quebrar vidraças e vandalizar janelas, de uivar aos cães e incitá-los à “pega!” contra os gatos de rua, de ter sempre nos lábios o riso dos sacanas e velhacos.
  15. A realidade esmaga ilusões como minha avozinha esmaga nas unhas os carrapatos do seu cãozinho. A realidade é uma prensa que impressiona o indivíduo até que ele fique sem expressão — lívido e sem meios de agir, mas sanguíneo e reativo. A realidade é um copo de água que tem o gosto doído da pinga mais queima-goela da roça. A realidade é a mensagem na garrafa lançada ao mar que, depois de milagrosamente ser empurrada pelos sete mares, acaba nas mãos do destinatário. A realidade é um sonho para o qual se acorda depois que, no quadro negro da sala-de-aula onírica, a professora escreve que 1+1=2 com giz cor de breu. A realidade, meus amigos, a realidade (esta fantasma espectral de luzes e sombras etéreas) conquista-se diariamente!
  16. Nada em mim, insisto, pode acusar outra chama a refulgir no olhar. Apenas o teu fogo, de calor reverente como a fogueira confortável que aqueceu na primeira noite com Zípora os pés de Moisés, me pode corar o pensamento e me enrubescer a face. Eu aqui sou contigo, e estou aquecido. Faz frio, mas no peito brota a fagulha filha do cristal que outrora incendiou as florestas do antigo Saara tropical. E minha poesia te é mais sincera e amante conforme no papel ela jorra um poucochinho aquém da excelência na lírica métrica, no polimento ourivesador dos versos, na cadência sonora dos fonemas dez ou cem vezes antes recitados. Quanto mais bonito tu julgas o poema, minha mourinha, sabe que estética mais comum ele detém. É o coração — menos geométrico, menos harmonioso na física das disposições sensíveis — que te diz “é belo!”, quando os mais belos para a Literatura são aqueles que tu julgas menos bonitos, porquê sentes afinal o quanto o fulgor de dentro se perdeu nas rimas exigidas pela arte cá do mundo de fora. Tu discernes, vejo, a literalidade palpitante que bombeia caligraficamente meu sangue quente em cada estrofe que, se por um lado renuncia à imortalidade das letras pela forma mais bruta com que cai na folha, por outro conquista a eternidade porquê entoa a simples verdade profunda e real, esta realidade da profundidade do meu espírito: cá tens meu amor. Nada em mim, outra vez o digo, pode acusar outro brilho a faiscar no olhar. Teus cílios, escuta, são meus círios.
  17. A verdade é que sou ainda uma criança, um camponês disposto à cavalheirescas alianças, uma cria sem maldade soprando suas bolhinhas em direção aos espinhos que não vejo. A santa simplicidade do ingênuo assim só alegre, a maravilhosa inocência de quem ainda cora; este presente, dádiva do alto, que me ganha o futuro. A verdade é que assim outras crianças aparecem e a metrópole pouco a pouco se esverdeia em povoados, em vilinhas, em casinhas de tijolo vermelho e hera. As bolinhas de gude do passado rebrilham nas pedrinhas algo mais caras que na coroa brotam, uma a uma. A verdade é que hoje o Cordeiro ressuscita, hoje os balidos do Sepulcro reverberam na boca do sacerdote, hoje sangue e vinho se misturam em símbolo e substância; a verdade é que sou um caçula egípcio feito primogênito da raça de Abraão!
  18. Uma vez te pedi para ficares comigo para sempre. Declinaste, não sei porquê, o pedido. Mas, coisa estranha, inda assim me queres por perto quando aniversarias, quando é Páscoa, quando Cristo aniversaria, quando uma data qualquer merece (ou carece de) presença e compartilhamento. Pedes-me que fique. Por que? Não sei… Mas comprei teu presente e não entreguei, comprei chocolates e guardei-os; e assim me vou esgueirando para fora destes teus desejos memoriais para que, talvez, nestas minhas ausências intencionais, tu reencontres tua vontade cotidiana, teu querer natural que os temores fantasmagóricos do inconsciente minam sem mais nem menos. Châteaux en Espagne ou castillos en Francia? Proponho-te uma casinha branca escondida na praia quase deserta… E então, até quando seguraremos rijo este mútuo silêncio mortificador? Vamos, deixa que o ministro primeiro, por nós dois, o quebre: Christos anesti, alithos anesti!
  19. A suma felicidade é um “caminhar” que apenas a via da santidade pode oferecer aos nossos passos, às nossas decisões. “O salário do pecado é a morte”, nos diz o apóstolo Paulo. Inversamente, a justa paga da virtude é a vida — vida plena, vida total, vida integral, vida que é vida porquê é Céu. Todo o mais é existência inerme e inerte, é pura existência estagnada como o inferno paralisado, que sozinho existe só existindo em solidão (sem o dínamo relacional da alegria e do amor que movem a Criação). A santidade é a única felicidade. Santidade é felicidade. Lembra-te disto!
  20. Este mundo vai passar. Esquece a política miserável nossa de cada dia e olha para o Céu. A Eternidade vale mais que quaisquer Lula, Bolsonaro, STF e tutti quanti se matando por poder e apenas poder. Não esteja entre os tolos militantes terrenos deste ou daquele lado dextro ou sinistro. Este mundo vai passar: transpassa-o, então, com tua alma e guarda teu coração da corruptibilidade do ouro, da prata e da opinião irracional postada no Facebook…
  21. Há dia em que a gente fica com a alma calibrada naquele clima daquele verso de Miguel Torga: “Apetece cantar, mas ninguém canta.” Tudo é silencioso e cheio de expectativas como uma orquestra tocando no vácuo sideral para uma constelação de surdos com o talento potencial de Beethoven. É tudo e qualquer coisa entre a afirmação dum sim e a negação dum não. É a suspensão e a derrota da lógica pela intuição voraz. Lá diz um outro verso: “Apetece fugir, mas ninguém foge.” Fugir da aparência do mal ou do bem aparentemente disfarçado? Há dia e… há dia.
  22. A verdade é que sou ainda uma criança, um camponês disposto à cavalheirescas alianças, uma cria sem maldade soprando suas bolhinhas em direção aos espinhos que não vejo. A santa simplicidade do ingênuo assim só alegre, a maravilhosa inocência de quem ainda cora; este presente, dádiva do alto, que me ganha o futuro. A verdade é que assim outras crianças aparecem e a metrópole pouco a pouco se esverdeia em povoados, em vilinhas, em casinhas de tijolo vermelho e hera. As bolinhas de gude do passado rebrilham nas pedrinhas algo mais caras que na coroa brotam, uma a uma. A verdade é que hoje o Cordeiro ressuscita, hoje os balidos do Sepulcro reverberam na boca do sacerdote, hoje sangue e vinho se misturam em símbolo e substância; a verdade é que sou um caçula egípcio feito primogênito da raça de Abraão! Graças a Ti, Senhor e Deus de mim.
  23. Julgar superficialmente é um exercício de emburrecimento: quem julga a superfície das coisas (e dos outros, sobretudo) torna-se incapaz de descer à própria profundidade. A mente do julgador superficial passa a fazer juízos de valor tão automáticos que ele perde o senso das proporções (sobretudo dos efeitos semelhantes de causas dissemelhantes) e, insensível para com as nuances do objeto de seu julgamento, acaba então com a própria mente restrita à superfície do próprio eu aparente. Quem se nega a aprofundar-se nas questões externas a si ante a qualificação das coisas (e dos outros…) necessariamente não poderá aprofundar-se nas questões internas de si, porquê a auto-qualificação vale-se da mesmíssima estrutura de consciência. Quem muito julga, e muito julga com rapidez meramente neural, julga mal. O julgamento do homem prudente é, antes de tudo, produto de reflexão demorada, silenciosa e empática. Julgar superficialmente não apenas emburrece o indivíduo privadamente: além, tal dá lastro à injustiça coletiva e pública. O “Não julgueis!” aconselhado pelo Senhor é, por isto, não apenas uma lei moral e espiritual que salvaguarda nossa salvação eterna; é também um remédio para a inteligência humana nos porquês do aqui-e-agora terreno.
  24. “Rebaixar-se” que é e que fica sendo quando se trata, na verdade, de vergar a coluna ao solo, de abaixar-se até a terra, para pegar uma jóia caída (chafurdando) numa pocilga infecta? Sujar completamente as roupas e embeber-se de mau cheiro, que significa diante da possibilidade tão real de ganhar para si o prêmio precioso, o pomo de ouro? Quem desdenha a beleza e o valor de algo/alguém pelo seu estado aparentemente deplorável, sem se dar conta da realidade essencial que repousa sob toda a “sujeira”, não aprendeu de Cristo a mais importante lição salvífica: “Porque o Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido.”
  25. Guardar as coisas para si, em silêncio e em quietude, é um exercício de mistério — é, efetivamente, mistério. Chegar a conclusões cujo instrumento de raciocínio é espiritual e cujo sentido é rastreado apenas pela alma é um dos grandes gozos de quem tem “vita abscondita cum Christo in Deo”. A virgem Maria, no Novo Testamento, é a primeira personagem que o texto bíblico dá conta deste diálogo misterioso entre o “eu” e o “si mesmo”. Está lá no Evangelho de Lucas, no capítulo 2, versículo 19: “Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.” Ela guardava as coisas para si porquê, se as contasse, se as publicizasse, seria tomada por louca, por foliã em devaneio megalomaníaco. Devemos nós também silenciar quando Deus nos der um mistério Seu para custodiar em nosso íntimo. Paul Valéry, à propósito, bem o disse em verso: “Chaque goutte de silence est la chance d’un fruit mûr.” / “Cada gota de silêncio é a chance dum fruto amadurecer.”
  26. Coisa mais rara neste mundo tem sido encontrar olhos puros (gente que vai achar piegas este adjetivo, p.ex., já não os têm), sinceros e limpos como um dia fresco e de céu aberto. As íris estão quase todas embotadas, opacas, desbotadas de luz. Eu olho por aí e… fico triste (o caipira diz melhor e mais bonito: “jururu”) como caboclo sem rede ao perceber que os olhos de muita gente (muita mesmo) nada são senão dois globos oculares vacuosos rastreando biologicamente o mundo físico na mesma medida em que um cão fareja as fezes de outro. Olhos puros, profundos e simples, fazem muita falta. Olhos puros porquê de almas puras. Não falo de santarronice idealizada, nem de beatice inatural. Nada disto… Trata-se é de vida autêntica em Deus — consciente, isto sim, e portanto capaz de primeiro enxergar o Invisível mais Real. Mas, repito: estas palavras te parecem piegas e assim tão ingenuamente infantilóides? Teus olhos não estão puros…
  27. Sou um poetinha chinfrim, mas subo ao topo da alegria deste ofício que exerço nos tempos vagos quando uma moça não frívola e de coração ainda romântico (o que hoje em dia é um achado metafísico) lê algum destes meus poemastros de quinta e sorri, como dizia o Ariano Suassuna, “com cara de alma que tá pedindo reza.” Vale tudo e não tem preço.
  28. Quanto à compreensão, as mulheres são como os livros: algumas mais fáceis e outras mais difíceis de entender. Elas são, em todo caso, complexas. Um livro de palavra, enredo e papel, a gente aprende a desvendar através de boa exegese, enfim, através da nossa pessoal atividade e esforço compreensivo. Uma mulher de espírito, alma e corpo, apenas se chega a (mais ou menos) entender se ela mesma quiser nos ensinar os rudimentos da sua personalíssima “Pedra de Roseta”: há uma hermenêutica para o coração feminino na qual somos alunos passivos. Daí, um livro tão difícil quanto “Em Busca do Tempo Perdido” se transforma, num zaz-traz de olhares didático-pedagógicos, num gibizinho todo colorido da Turma da Mônica. Anotem.
  29. O tipo de vida que você decide ter implica na renúncia (como ganho e como perda, seja de bens ou de males) de outros modelos e possibilidades de vida. Se o futuro é semeado no presente e você está diante do imenso paredão das escolhas existenciais, não exite em tomar para si aquilo que agrega à consecução da sua grande missão e sequer por um relance de segundo tosqueneje em lançar fora qualquer objeto (por mais atrativo que ele seja) que impeça seu grande objetivo. Fuja da danteana/drummoniana “pedra no meio do caminho” como o diabo foge da cruz. Fuja, fuja daquilo que é, no dizer paulino, “a aparência do mal” — porquê, ali, o aparente indica concretamente o mal, o mal que seguramente vai lhe desviar do caminho querido e pretendido. A vida que você tem e terá nasceu e nascerá da sua consciente escolha diária (por isto, saia do conforto do “piloto automático” subconsciente), das coisinhas pequeninamente nanicas às coisas gigantescamente grandes. Tome sobre si a oportunidade da decisão! Conselho muito simples e modesto para nós todos, que somos demasiado complexos.
  30. Sob as arcadas, meus ideais, que sustentam no rosto a serena expressão, o Espírito martela as pedras, tijóleos granitos, do meu coração.
  31. Em Ti descansa meu espírito, como terra sólida pairando sobre as águas. Em Ti repousa minha alma, como luz de diurna lua iluminando o sol. Em Ti meu corpo se embebe da natureza gloriosa (e física) do Princípio.
  32. Deus meu, Deus meu, por que me abraças?
  33. Todos os homens são afetáveis e passíveis. Apenas Deus é inafetável e impassível.
  34. Atividade do intelecto não é produção intelectual…
  35. A memória determina o indivíduo.
  36. Enigma: Os lírios conforme secam ficam dourados, / dourados diante do brancor do céu amanhecido.
  37. Um conservador caricato (quer dizer: um reacionário) é um sujeito que se imbuiu superficialmente dos arquétipos cronológicos (pretéritos, via de regra) dos valores eternos.
  38. O tempo existe onde eu existo.
  39. O indivíduo deve sentir acerca do básico-estrutural o que pensa a espécie a respeito deste.
  40. Ultimamente, tenho crido que o maior dos grandes feitos de Napoleão (se é que ele operou, de fato, mais do que meia dúzia de “grandes feitos”) talvez tenha sido propiciar aos Estudos Clássicos a Pedra de Roseta.
  41. Se nós fôssemos fotografados em todo momento e instante da vida e da existência, quais fotografias seriam coloridas e quais preto-e-branco?
  42. Vida sem Deus é razão sem Logos.
  43. É a adequação do ente ao ser que o faz verdadeiramente perfeito.
  44. Que os arroubos de ser se confundam com os silêncios do que é, e então não sobre nada senão o ente, puro e sublime imaginando e semelhando Deus.
  45. Escuta, Abraão: Deus ama a teu filho mais do que tu mesmo o amas!
  46. Poder é princípio organizador externo. Amor, interno.
  47. Ansiedade é um frenesi letárgico.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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