Esponjas de sol — XXXV

  1. Todas as gotas de chuva que se puderam retirar, com esponjas, de sobre o túmulo de Napoleão, os russos conseguiram destilar, beber e com elas se embriagar. Imagem que me ocorre ouvindo a parte final da 5ª Sinfonia de Shostakovich.
  2. O último luar que tu verás, aprende bem, será entremeado dalgum dourado. O argênteo noturno abandona a natureza quando uma alma da terra se vai despedir.
  3. O silêncio voluptuoso das noites quentes que nos pede senão carne para o vinho, a nossa carne tenra para ser refrescada pelo calor do mosto, da fria vide etérea?
  4. Nada além de contornos, de vagas formas, de luminescências cerebrais paisageando minha mente. Nada, senão poeira semelhante à fumaça. Nada, como uma mina secando feito aguardente em cálice de ouro sob o sol do deserto. Assim se me vai a última imagem com a última memória, assim se esvai qualquer líquida pintura da alma amante na tela translúcida do córtex. Adeus, moça!
  5. O símbolo sempre te atrairá ao objeto [a]signado. Mesmo quando, por suposto e superficial erro primário teu, tu te puseres no encalço do símbolo e este se mostrar imediatamente condutor a outro objeto, mediatamente neste mesmo caminho darás de cara (ele ficará demonstrado, então) com o teu objeto. O símbolo atua, não raramente, com pseudo coincidência retro-significante, ou seja, como condutor da imagem-meramente-igual para o especial-fato-teu. 
  6. A Verdade é a fiadora do Bem e a Mentira é a credora do Mal.
  7. Quem te engana, não te ama: te algema a alma na lama. Quem te seduz, te induz como morcego branco à luz que é chama… Quem te manipula, te estrangula até a gula! Quem te ilude, adultera toda a mente e a leva à sepultura. Quem te burla, falsifica a sementeira do dia-a-dia no coração. Quem te ludibria, se esguia insaliente à danação. Anota. Faz-te de tonto, de bobo, de tolo. Sê o Príncipe Idiota (como aquele santo de Dostoiévski), para que não suspeitem que sequer tu suspeitas; porquê tudo sabes, tudo vês e tudo discernes sob sorrisos mornos e palavras insonsas.
  8. Via de regra, em se tratando de relações amorosas, a mulher praticamente só não “manipula” (ou seja, filtra as reações dele através de suas ações mais ou menos planejadas) o homem que ela real e verdadeiramente ama. Isto é bom. Dissertação para depois.
  9. A ilusão é a aluvião da esperança. Coisa de criança construindo seu castelo de areia entre a penúltima e a última vaga do mar: uma expectação de restolhos metafísicos que vão se desvanecendo pelas bordas do cérebro até que sobre, soçobrado, o principal — até que sobre o material do faticamente esperado, até que sobre mesmo a pura e nua esperança: a Realidade, feita garrafa mensageira lançada (em séculos ascendentes) no mar — a Realidade, querida por Deus mas nem sempre por ti.
  10. Caim/chipanzé. Abel/bonobo. Sete/homo. Está aqui um paralelismo simbólico para o pessoal criacio-evolucionista.
  11. Na mulher até a loucura é mistério. Por loucura entenda-se o indiscernível, o irrastreável e o imponderável que faz de qualquer atitude feminina aparentemente irracional e ilógica uma centelha mesma da “absconditude” divina. Logo, não se trata de loucura verdadeira, clinicamente discernível e tratável: trata-se, antes, duma realidade mais profunda e algo inacessível ao nosso masculino olhar de superfície. Não à toa, toda comunicação feminina é tão mais simbólica conosco — os homens — quando ela é mais sincera, e tão menos oral e mais gestual quando ela é mais verdadeira (e pura). A suma disto tudo, meus caros e bestas confrades da Irmandade Adâmica, é que nós não passamos sequer de neandertais diante nem do fogo: nós não passamos de hominídeos sem metafísica diante das estrelas. E para o limitado, viagens no espaço em direção a astros cativantes é coisa de louco (e, oh, loucas estrelas). Na mulher, todo mistério é para o homem uma forma de loucura.
  12. Pedra antiga, lavrada na casca,

Como estela de vitória ancestral.

Eis da esquecida canção o memorial.

Entre os campos altos da Escócia anciã,

Na direção do cardo celeste caminhando,

Li no romano granito a lápide talhada,

O poema que limou iletrado escultor

Para o pobre rei que fora rico pastor:

“A gaita do cordeiro foi feita,

A música da ressurreição é a eleita.

Sabei todos vós que o grito desta terra

É a saudação ao Reino chegado.

Alba gu bràth!”

  1. A potência com a qual se comete pecados na juventude corresponderá, proporcionalmente, quando da velhice, à fraqueza em padecer seus efeitos. Para cada pá de terra fértil arrancada do jardim (do éden do eu verdadeiro), uma pá de terra infértil sobre o caixão no cemitério.
  2. Podem me chamar de quadrado e reacionário (coisa que sempre ouvi nesta minha vida), mas a felicidade, a felicidade que é boa e permanente, está depositada naqueles velhos ideais pelos quais viveram nossos avós: trabalhar, amar e casar, ter filhos; e neste “tripé” sossegar, serenar, sublimar. Nestas coisas simples, cheias de coração, reside a felicidade que Deus quer nos dar cá na terra. Nestas coisas, aliás, está a verdadeira santidade. Que me perdoem meus confrades e confreiras de geração, mas vocês todos estão muito errados (e por isto, muito tristes e muito entediados e muito sem rumo) se pensam que sombra e água fresca, pegação sem compromisso na balada e individualismo à moda “pai/mãe de pet” serão capazes de fartar de alegria os anos que lhes restam pela frente. É esta a equação.
  3. Como é raro poder conversar (dialogar puramente) desarmado — sem suspeitar de primeiras, segundas e terceiras intenções, sem recear papos colaterais e falatórios subsidiários, sem maquiar expressões tornando-se uma caricatura, sem temer parecer obtuso ou tolo ou fraco ou débil ou nu em si mesmo. Como é raro isto! Como é bom não “sorrir amarelo”, não ser meramente gentil para não ferir os protocolos do bom tom, não dissimular nem teatralizar as palavras querendo agradar por agradar. Como é raro… Como é raro um bate-papo entre pessoas que, mesmo adultas pela cronologia dos tempos, nada são senão inocentes crianças entre si (quer dizer: profunda e visceralmente verdadeiras) fazendo da existência, tão complexa, um ba-be-bi-bo-bu de almas simples. Como é raro. Como é raro!
  4. Sê o que és ao relacionar-se com os outros, puramente. Não sejas teatral, nem quanto às grandes nem quanto às pequenas coisas e acontecimentos. Que cada movimento teu, corporal e espiritual, seja integralmente nascido da tua consciência alinhada à Verdade. Atende ao teu âmago, este cálice de nano-logos que derrama libações (que tu chamas metafisicamente de “intuições”) sobre o teu pensamento opaco. Sê cauteloso e não dize muitas palavras, grandes períodos sobretudo, entre uma respiração e outra. Não tentes a qualquer influenciar valendo-se de simulação: até mesmo simular bondade, praticando-a oficialmente, é dissuadir do ato aparente o fato gerador. Se não tens palavra ou gesto genuíno, fica silencioso e inerme diante do mundo. Fica ali, ao canto, como um ente cósmico que se nega a ressoar o silvo dos corpos imanentes. Sê estátua de carne e osso para estas outras estátuas de sal (teus semelhantes) que passeiam pelo mundo; e ora o teu particular “noli me tangere!” Sê, apenas sê. Que de ti e por ti não passe nem transpasse laivo algum de imitação, brasa alguma de atuação. Sê, com simplicidade, o teu eu — sendo. Sê Quixote de la Mancha, sê Myschkin, sê Kerkhoven, sê Paulo Apóstolo, sê imagem e semelhança do Cristo! Anota.
  5. O gênio de Wagner foi o ocaso irrecuperável — última chama azul no fogareiro de Euterpe — da Música Clássica Alemã. Ele é elevado na medida em que é patológico e é mítico na medida em que é fenecente. Das war’s Leute!
  6. Verdi, agnóstico-quase-ateu, deitou no seu Réquiem toda a densidade (ou etericidade?) das suas idéias. Há um “je ne sais quoi” de dúvida e melancolia perpassando toda a obra — católica, ma non troppo. O Dies Irae é, por exemplo, um misto de desespero de penitente póstumo com horror de condenado permanente. É um artista que ourivesa filigranamente aquilo (a Vida Eterna) que para ele nada é senão um mito passível de ser humanamente trabalhado para o deleite psico-cultural dos homens cultos.
  7. Um dos sentimentos mais plenos (mais totalizantes de amor, quero dizer) que nosso coração pode sentir é a cumplicidade. A cumplicidade completa. É ouvir a voz de Deus num poço destapado. Pelo vácuo da queda — distância entre o eu sedento e o fundo do poço onde repousa o líquido precioso –, transita o balde indo-e-vindo. A cumplicidade é este balde, é o balde cheio de água. “Apresso una fontana / Vidi sentar la bella”, canta a velha canção italiana. A cumplicidade carinhosa é, para o dia-a-dia na sequidão mundana, a fonte perene do amor que é capaz de hidratar o “para sempre” prometido no altar. Depois, a reciprocidade entre a língua seca e a fonte limpa: minha língua é para ti fonte e fonte para mim é tua língua, oh mulher. A água brota do coração.
  8. Se encontrares um campo verde, deita-te sobre ele. E se o céu for azul como o azul dos afrescos de Giotto, deitado então no campo verde contempla a vastidão de nuvens incrustada. A paz, aquela que do céu traz o ramo de oliveira, sussurrará as cantigas esquecidas no teu ouvido jovem, as canções que os sábios murmuram apenas no leito de morte, os hinos que cedo embalam os meninos destinados ao ofício de Salomão.
  9. Cada passo em falso leva ao cadafalso.
  10. Alto es Alto (Alba de Tormes es Álvarez de Toledo). Título alternativo para o conto “O Bastardo de Alba”, que nunca escreverei.
  11. Candelabros de prata

Abrindo as trevas da cadeia,

Desaferrolhando celas,

Atraindo luz às ervas

Crescendo no chão de pedra.

  1. O amor é um sortilégio que elegemos na dor.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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