Esponjas de sol – XXIV

  1. Emoção: volatilidade concentrada. Sentimento: densidade espargente.
  2. O aforismo é uma jaculatória intelectual.
  3. Nada é tão belo quanto aquilo que é natural, tanto na ética quanto na estética, tanto no ato quanto na potência.
  4. Três classes profissionais que perderam o dom da palavra: a advocatícia, a eclesiástica e a política. Já não sabem falar com adequação ao próprio ofício, ou seja, não sabem “orar”; elas estão constituídas por uma maioria acachapante de advogados, religiosos e políticos que estão incapacitados para o discurso, seja no plenário, no altar ou no palanque. Que é a Lei, a Sagrada Escritura e a Proposta sem a palavra bem dita?
  5. Escrever um TCC, no atual contexto acadêmico, é um exercício de plágio passivo adornado com citações e bibliografia. Não se admitindo a criação de conhecimento — com o devido método científico, of course — ou mesmo seu desenvolvimento através de desdobramentos racionais, toda a dinâmica de composição de um Trabalho de Conclusão de Curso resume-se à repetição enfadonha, burra e contraproducente do que certos indivíduos escreveram acerca do que outros escreveram sobre as idéias de ainda uns outros indivíduos cujos restos intelectuais estão tão vivos quanto seus restos mortais. A lógica é idiotizante: na graduação você deve primeiramente escrever acerca e sobre textos de terceiros, depois deve subir o degrau do stricto senso, variando ferrenhamente na mesma plataforma de “cachorro-correndo-atrás-do-próprio-rabo” (mas com maior apuro na utilização pró-formática das plumas e firulas) da pós-graduação ao doutorado para que, então, quando você estiver caducando, lhe deixarem em paz para usufruir das suas faculdades intelectuais ao ir à fonte da Água do Conhecimento e deixar de beber do grande e douradíssimo cálice de cuspe de gerações inteiras de burocratas da academia que, sim!, deve conter um centésimo dessa H20 gostosamente saciadora…
  6. Quem abandona Castália se afoga em água. Quem abandona a Igreja, em fogo.
  7. “Se a vida te der um limão, faça uma limonada”, diz o provérbio americano que bem demonstra o espírito empreendedor daquele povo. Nós os brasileiros, porém, não só nos negamos a espremer o insigne fruto cítrico. Nós preferimos reclamar do azedume da polpa, do sumo que tira lágrimas e mancha a pele e até mesmo ousamos falar mal da sombrinha pacata que o limoeiro derrama sobre a terra. Quando não, articulamos intelectualmente uma ideologia anti-limonista e criamos um partido político azedofóbico. Que metáfora sócio-econômica!
  8. O diabo também está nos detalhes. Detalhes ainda mais ocultos. Por isto, é mais difícil acreditar nele que em Deus.
  9. Quem escreve o que quer, recebe a correção ortográfica que não quer.
  10. Todo homem é um fato.
  11. O pecado age como uma gota de sangue no algodão: toma-nos por completo vagarosamente.
  12. O que entristece o espírito humano é mal, sempre mal. Corpo e alma podem se “alegrar” (retirar prazer) com o mal, mas o espírito — que fica incólume, porque não foi tocado pelo Pecado Original — não. Ele é a bússola supra-consciencial.
  13. Eu sou meu senhor, mas Deus é o Senhor de mim.
  14. Um sujeito balançando loucamente os braços, mexendo doidamente as pernas e movimentando espasmodicamente todo o corpo é um desordeiro acional, ou seja, empenha sua ação corporal de modo disfuncional no Mundo. Dois homens fazendo estes mesmíssimos movimentos ao mesmo tempo (ou não) implica num padrão, numa unidade de formatação extra-individual; aí, a anarquia torna-se organizada (não ordem) mesmo que não tenha sentido ontológico real. Some o acaso e aparece um significado: há ali um porquê.
  15. O eu luta diariamente por sua própria existência.
  16. Deus não é nosso médico ou curandeiro, nosso banqueiro ou agiota, nosso psicólogo ou puxa-saco, nosso guarda ou capanga. Se nós cremos em Deus na medida em que precisamos dos “favores” dEle, nossa fé não é fé: é interesse, e interesse vergonhosamente egoísta. Deus deve ser nosso amigo e, então, se Ele quiser, será nossa saúde, nossa prosperidade, nossa paz, nossa segurança…
  17. Uma das maiores perguntas existenciais a serem feitas: Se a Civilização ruísse completamente hoje e não sobrassem livros e bibliotecas, o que dela tu poderias reconstruir amanhã?
  18. Alguém (algum psicólogo de escol, de preferência) deveria estudar este curioso fenômeno afetivo que é o “ódio não correspondido.” É gigantesca a quantidade de pessoas que sucumbem à depressão, ao ressentimento e às angústias da alma por não serem odiadas por aqueles a quem elas odeiam. Prossegue a questão: se essas pessoas souberem que, além de nós não as odiarmos, odiamos a outros, elas padecerão também de “ciúmes”?
  19. Conhecer não o desconhecido, mas o irreconhecido; e reconhecer o desreconhecido. Tal é a busca do homem sábio, que aceita o mistério porque sabe o que é misterioso e, por isto, não se deixa anuviar pela fumaça de enxofre que, por iniqüidade e indolência, quer cerrar sobre a Realidade, envolvendo-a com as sombras que não são as marcas do profundo e do escondido, mas as trevas da ignorância e da alienação. O vagabundo e o mau, porque chicoteados pelo Logos, chamam de “mysterium trememdum” até o evidente. O óbvio parece oculto para o homem obtuso, para o homem raso.
  20. A existência é uma espécie de arrebatamento — ἁρπαγησόμεθα — ao contrário.
  21. Deus — escondido e oculto, fagulha entre as brumas, gota de leite no barril de whisky.
  22. O intelecto é o potencializador máximo do mau. O homem de capacidade mental medíocre é mau no limite pouco criativo da própria biologia instintiva.
  23. Alguns homens são “corajosos” até que alguém descubra que a “coragem” deles não é coragem. É medo descorado.
  24. As pessoas podem tentar nos influenciar — com incentivos ou ameaças — mas nossa ação no mundo depende apenas de nós. Diante de Deus, não poderemos culpar os outros afirmando que fomos induzidos por quem quer que seja — fraco ou poderoso. Nossa alma pertence apenas a nós e dela somente nós daremos conta.
  25. As justas medievais e os duelos românticos eram modelos de civilidade e pragmatismo. Lavava-se a dignidade rapidamente. Hoje em dia, já que nossos contendedores não servem para serem armados cavaleiros (falta genealogia e honra) nem têm polimento suficiente para agir como gentis-homens (falta postura e virtude), as escaramuças e os tiros são via Facebook.
  26. Os fracos logo sucumbem, servilmente se entregam ainda de pé. Mas os fortes (e nós devemos sê-lo com todas as forças dos nossos espíritos) guerreiam ainda que de joelhos. Se não tivermos espadas, usaremos enxadas. Se não tivermos enxadas, usaremos as mãos. Se não tivermos mãos, postamo-nos altivamente diante do inimigo e resistimos-lhe à face. A alma é nossa arma primeira e derradeira.
  27. Líderes surgem em pequena quantidade em tempos de adversidade. Na paz mais duradoura, porém, pululam os chefes.
  28. Os santos, ao contrário dos pecadores, são tentados sobretudo pelos grandes pecados, pelos pecados mais vis e iníquos, enfim, pelos superlativos de cada gênero de pecado; não pela fornicação ordinária, mas pela devassidão adúltera, p.ex. O pecador, de tanto ceder aos pecadilhos e pecadinhos que a todo o momento lhe fisgam a alma, fica sem força, sem tempo e sem energia para os “pecadões”.
  29. Livrai-nos, oh Deus, do desejo puramente mimético.
  30. O homem pequeno (são bilhões!) é ambicioso, quer ser célebre entre os homens da sua geração. O homem grande (são centenas…) nada ou muitíssimo pouco ambiciona em termos de “glória” e, por isto mesmo, seu nome não raramente será lembrado por incontáveis gerações. A humildade pessoal é um extraordinário motor histórico.
  31. O Bem é objetivo. O mal, difuso. A objetividade é concisa e legisla: por isto, mandamentos incomodam sujeitos subjetivos. Que tipo de homem é, nas ações, mais objetivo que um santo? Que tipo de homem é, nas ações, mais subjetivo que um pecador?
  32. A medida da loucura é a obsessão. O sujeito que padece da cabeça é um obsessivo; é, em bom português, o famoso “homem de uma nota só”: ele só age, fala, escreve, pensa, etc, etc, etc, e posta sobre assunto muito específico, assunto este que é a causa direta das suas perturbações psíquicas. Esta obsessão, porém, via de regra, é um mecanismo dissipador inconsciente de um problema maior: para evitar o macro-complexo e seus efeitos, o sujeito se apega a um específico efeito superficial destes e gera um micro-complexo fazendo dele, por sua vez, uma causa que tende, a curto e médio prazo, a amenizar esses próprios efeitos. Os principais luminares da ínclita oposição local são assim: gente mentalmente perturbada cujos ciclos de instável harmonia psicológica não passam de arrefecimento parcial da própria desarmonia permanente.
  33. O cristão pode lutar contra o Mundo porque está reconciliado com o Mundo.
  34. Amigos verdadeiros e puxa-sacos bajuladores se assemelham na ação: ambos manifestam gentileza em seus atos. Mas, numa coisa eles se diferenciam profundamente: na fala. O amigo não esconde verdades, o amigo faz você ouvir o que você não quer ouvir, o amigo às vezes aconselha coisas duras — mas sempre para o bem. Para o puxa-saco, porém, tudo está sempre “certo”, “legal”, “ótimo”, afinal, ele é um pseudo-otimista mentiroso que apenas quer incentivar (para, de alguma forma, usufruir ganho) seus erros, seus prazeres tortos, seus pecados. Aprender a diferenciar alhos de bugalhos é tarefa primordial para quem quer estar cercado de gente boa e leal.
  35. Sempre que se fala de Humanidade como sinônimo de Civilização, há algo de podre no Reino da Terra.
  36. As hienas choram no deserto enquanto a caravana chega à terra que mana leite e mel.
  37. Que é a liturgia senão a geometrização natural da ação corporal humana diante do eterno-estático divino? Uma genuflexão, p.ex., é uma contradição acional em termos corporais: quer-se aquietar o corpo através de um movimento reverente do corpo. Toda ação litúrgica é assim: movimento que aspira ao repouso através de movimento repousante.
  38. Você já ouviu falar de alguém que deu parte na polícia contra algum vizinho que estava ouvindo Mozart nas alturas últimas do seu hometheater às 3h e tantas da madrugada? Já ouviu falar de alguém que chamou a PM para conter uma saveiro perigosamente rebaixada que percorria loucamente as ruas do bairro ao som da 5ª Sinfonia de Beethoven? Não? Por que será que não?
  39. O Japão, a se converter ao Cristianismo, será protestante. A China, por sua vez, católica. O Japão é a Alemanha asiática. A China, a Espanha. Os paralelos são surpreendentes: o austero complexo e o simples ostentoso.
  40. O local é global desde a Odisséia.
  41. Não se pode tocar no gado durante as vaquejadas, não se pode tocar nos ovos azulados das tartarugas marinhas, não se pode tocar nas capivaras dos rios paulistas. Mas, pode-se (com ética cética e clínica asséptica) martirizar sanguinolentamente um bebê ainda no ventre de sua mãe. Eis a lei dos homens: a positiva negação da Lei. Aí de ti, oh Brasil, terra de Moloque!
  42. Estes fetos abortados, estes corpinhos finos e transparentes como girinos, dilacerados pelo metal frio dos bisturis e sugados como geléia pelos tubos dos aspiradores uterinos, ressuscitarão no Dia do Juízo Final e apontarão os dedos — os dedos crescidos e regenerados dos seus corpos gloriosos — para cada um de vocês, comparsas de Herodes, que desde aqui no Facebook ajudaram a descartá-los nas latas de lixo biológico dos hospitais sob o título-argumento de “amontoado de células”! Lembra-te, oh homem, que o abortado é pó, e que do pó há de retornar.
  43. O covarde — sobretudo na sua variação brasileira — é um grande medidor de distâncias. Ele apunhala verbalmente o Presidente da República, que dele está razoavelmente longe (placidamente instalado no Alvorada), mas lambuza-se de medo diante mesmo da idéia de passar um pito cívico-democrático no prefeitinho ladrãozinho que é seu compadrezinho desde o colegial e que, por acaso, também é seu vizinho. Da comodidade do seu sofá, ele chacina com impropérios duros como o titânio todos os quinhentos e trezes deputados (também reunidos no grande pires convexo do Congresso), mas mija frio ante a hipótese de chamar às falas o vereadorzinho vendidinho e mensaleirinho — no qual ele votou — que com ele comunga no mesmo altar da mesma igreja todo santo dominguinho. O covarde, oh dicionários!, deveria estar inscrito como palavra sinônima no verbete “brasileiro.” Mas, aí vem nossa coragem. O gigante está sonhando.
  44. A nenhum fato físico pode se opor uma idéia, enfim, um pensamento que vise alterar a compreensão já evidente da natureza do próprio fato em si. Se levado a sério este pressuposto, sobrariam sobre o planeta tão poucas ideologias que ninguém mais se importaria em saber para que serve o sufixo “ismo.”
  45. Pessimismo realista: pede um rio morrente e não perene, vago e rasteiro como uma gota prolongada.
  46. Lírios brancos na alvorada / Enegrecem sob o luar, / Derramam suas pétalas / No altar do além-mar.
  47. Máxima da mística cristã: Só quem precisa de uma verdade oculta é capaz de encontrá-la.
  48. Foi um “feto”, oh cristãos de araque!, foi o “amontoado de células” que era João Batista o primeiro ser humano a reconhecer Nosso Senhor Jesus Cristo — por sua vez, “feto” ainda mais informe: um “amontoado de células sem dor nem consciência e sentimentos” (com menos de três meses) no ventre da Virgem Maria.
  49. O mercantilismo metalista veneziano e a política papal derrubaram Constantinopla: o moderado Islamismo sunita triunfou na mais antiga capital cristã do Velho Mundo. O capitalismo financeiro europeu e a política papal derrubarão Washington: o proto-Islamismo wahhabita triunfará na mais antiga capital cristã do Novo Mundo. Espero estar errado…
  50. Satanás é exegeta desde sempre.
  51. Homem algum jamais foi alfabetizado. Todos os que aqui na terra lidam e lidaram ativamente com as palavras são e foram letrados. Alfabetizados nós seremos quando ganharmos o “corpo glorioso” e, então, pudermos tocar a Palavra, porque nossa partícula nuclear de logos será unida (mas não confundida) ao Logos.
  52. Choque não é descarga de energia, muito menos a energia mesma. Choque é contato desarmônico (ou desarmonioso) de energia com/contra energia. Aliás, é o enfrentamento de harmonias antitéticas. A palavra mesmo denuncia: o verbo chocar — ação de coisa, não coisa.
  53. As coisas que sabemos existir, mas que não acessamos diretamente através dos sentidos, não passam de idéias para nós. É abstração, pura abstração. Uma coisa só é conhecida como coisa quando à idéia sobre esta coisa soma-se o sentir desta coisa.
  54. Enigma:

A reunião das árvores e dos homens,

A união dos galhos e dos estômagos,

O concílio das folhas e das gargantas,

O conselho das flores e das bocas

O coleguismo dos frutos e das línguas,

A amizade das sementes e dos dentes.

O gregarismo das galáxias e dos mamíferos,

A ajuda dos sistemas e dos macacos,

O auxílio das constelações e dos bonobos,

A cooperação das estrelas e dos polegares.

  1. O idealismo moral materialista — ou a “virtu materialista” — consiste em permitir ao abutre mastigar a águia sob o argumento de que esta dieta o tornará superior: a idéia da grandeza material da águia deve fazer do abutre fedorento um ser nobre se ele a matar, comer e digerir até pespegar as qualidades da vítima imolada no seu próprio DNA. Quão metafisicamente demoníaco (e antigo) é, no âmago, o Materialismo! Canibalismo de ressentidos. Igualitarismo antropofágico. Como tornar-se bom quando se crê que todo o bem provém unicamente das articulações químico-físico-biológicas da matéria? “Se tudo é matéria, a matéria do próximo é melhor que a minha: apossar-me-ei dela, assimilando-a a mim.” Os caetés andaram lendo Nietzsche.
  2. A música chinesa é o uivo do bambu e o gotejar do chá no gongo.
  3. A morte de um grande homem desconhecido das massas é como o atirar de um seixo daqueles que as crianças e os velhos gostam de ver ricochetear sobre a superfície dos lagos. Pega-se uma pedra a esmo, indistintamente, sobre um monte de pedras, e, sem observá-la com a atenção necessária que a revelaria distinta das demais, atiram-na e ela pula e pinga, pula e pinga sobre a água, mas não afunda. Como o machado de Eliseu, a estranha pedra inobediente à física volve à margem, volta à terra dos vivos. É o “adamas” — é um diamante superior, uma pedra filosofal, um fragmento de um Stonehenge edênico. É a “adamá” — é uma terra superior, uma terra densa que levita, um punhado ainda úmido da argila do primeiro tablete cuneiforme pós-edênico. O grande homem (por mais que se empenhem em submergi-lo nos pontos mais profundos do abismo das águas turvas do esquecimento público) sempre vem à tona.
  4. Deus também quer fazer o pardal renascer das cinzas. A fênix que se ajuste com a mitologia! A suprema vocação do cristão que interferirá permanentemente na Realidade consiste neste paradoxo: quando sincero, o homem pequeno e medíocre é chamado à grandeza e aos grandes feitos. Não é outra a história do pastorzinho Davi. Não é outra a estória do hobbit Bilbo Bolseiro.
  5. A degradação bovina enquanto símbolo de corrupção e opressão: o Bezerro de Ouro, dos judeus; o Minotauro no Labirinto, dos helenos; o Touro de Basã, dos israelitas; e… a Vaca no Brejo, dos brasileiros.
  6. Um dia, o Céu será uma Terra de nuvens sólidas e a Terra será um Céu de montanhas flutuantes. Novos Céus e nova Terra serão também Nova Física Prática. E nós seremos, todos, Newtons e Einsteins unificados com os cérebros refulgindo “luz inacessível”, capazes então de discernir a [re]Criação totalmente acessível. Quem lê, entenda.
  7. A simplicidade é o adorno da beleza.
  8. Não existe monaquismo protestante. Por que? Porque o “Ide” reformado é universal e permanentemente extra muros.
  9. Para voltar à Civilização, o Brasil tem apenas dois caminhos políticos: (I) a Monarquia Católica ou (II) a República Puritana. Ambos, certamente, sedimentados em Constitucionalismo e Parlamentarismo democráticos. A Monarquia, mais na Constituição; a República, mais no Parlamento. Creio que, se tudo der certo, o segundo caminho triunfará.
  10. Deus soberanamente escolheu criar os indivíduos que o escolheriam. Deus escolheu que nós o escolhêssemos.
  11. A História está lambuzada de “merda”. Do primeiro tomo de Heródoto à última pesquisinha anti-Annales USPiana, todo e qualquer historiador acaba registrando o fatalismo fecal que besunta as páginas da “Magistra Vitae.” De qualquer forma, é sempre preferível ser o homem que defeca no Mundo a ser o verme imundo que se alimenta dos detritos intestino-intelectuais que aquela meia dúzia (os que defecam) esparrama sobre a terra-no-Tempo. Está aí a diferença entre os homens de ação (causadores) e os militantes alienados de causas (reativos). Melhor ser Marx que ser marxista. Melhor ser Rousseau quer ser rousseano. Melhor ser o individuum-leitmotiv de qualquer caganeira ideológica que afete o coletivo (que faça tampar os narizes até dos portadores de anosmia crônica! — os neutrões-em-cima-da-muralha) que ser este coletivo que, com colherzinha de ouro, degusta diarréia como se se deliciasse com o crème brûlée feito pelo próprio Massialot. Os primeiros, ao menos, entram para a História e mantêm seus intestinos e intelectos intocados por terceiros; os segundos, languidamente escorrem na privada, dissolvendo-se na correnteza do esgoto da memória pública. Vede que isto não é, de modo algum, uma apologia (pecaminosa, portanto) à moda helena da “glória” e da “fama” a despeito dos meios; é a atenção ao valor da atividade em si (boa ou má).
  12. Franz Biberkopf nada é senão uma releitura fatalisticamente freudiana de Jean Valjean.
  13. Se Deus não existe, eu não existo.
  14. Deus não é um ídolo. Deus não é, para quem o conhece, “o único ídolo.” O crente não é simplesmente um ateu de Baal que rende a Deus a adoração (a latria) que um qualquer daqueles sacerdotes que querelaram contra Elias rendia. A adoração cristã é o culto prestado pelo intelecto livre — o “culto racional”, no dizer paulino — e pelo coração amorosamente ofertado. Não se tem que apaziguar a deidade, sacrificando-lhe o melhor da Terra; afinal, Ela é que por nós sacrificou o melhor do Céu. Nosso monoteísmo não é a idolatria de um único Deus. Logo, não basta crer em Javé como único deus. Não basta cantarolar “Shemá Yisrael Adonai Eloheinu Adonai Ehad” e, ainda assim, dedicar a Ele o tratamento que se daria a um Dagom oficialmente teologizado sob a fórmula “Credo in unum Deum”
  15. O Estilo Gótico é o ápice da Arquitetura.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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