Esponjas de sol — XLVIII

1713. O Orbán do século XXI está tentando redimir o Orbán do século XV. Arquétipos.

1714. A verdade cresce no silêncio. A mentira é ouvida no berreiro.

1715. Os pequenos começos têm grande frescor.

1716. A queda do leão alegra as hienas.

1717. A dor (porque é um fato) é inevitável, mas o sofrimento (porque é um estado) costumeiramente dela derivado é evitável.

1718. Senhor, tu abristes o Mar.
Que me abrirás? Aceito que seja uma pocinha…
Senhor, tu abristes portais.
Que me abrirás? Aceito que sejam portinholas…
Mandaste-me a pescar.
Não tenho barco e não me indicaste mar.
Compro a passagem? Mas onde trabalhar?
Construo o barco? Mas como construir?
Vou ao litoral, me criais um, onde a água?

1719. Atordoado deitei para dormir. Longe de ninar como aquele menino de cinco anos com sua mamadeira de leite quente e cheio de chocolate, dei para olhar as estrelas que o vidro da janela me permitia observar. E eu pensava, talvez orando, que Deus está bem pra lá, bem além de lá, por detrás de todos os tecidos astrais, de todos os tapetes e véus densos de luz e escuridão que dividem o universo das coisas criadas do Estado, do “lugar” que não é lugar, daquela “Luz Inacessível” da qual nos contou Paulo. E eu vou aqui, na tentativa de dormir e talvez roncar, procurando o Deus que conheci, o meu Pai desconhecido e conhecido, o Deus que desconheço todas as vezes que faço companhia a São João da Cruz e fico sendo ou estando um pouco místico — e, por isso, distante de tão próximo: costa à costa com Deus, ele parece intocável, inatingível. Não há átomo por lá, mas eu quero olhar para lá. Não há medida de matéria ou qualquer número etéreo e infinito flutuando por lá, mas eu daqui quero fazer contas com lá. Atordoado de pensar acabo, então, atordoado pelo torpor dos olhos e a canseira do corpo vence outra vez o espírito ansioso. Boa noite, meu Jesus.

1720. Eu ouço esses sinos no Youtube. Mas queria tanto poder ouvi-los lá na minha igrejinha… Os repiques das catedrais europeias, no ferro e no bronze e nos outros metais misturados dos católicos, dos ortodoxos, dos luteranos, dos anglicanos, dos meus presbiterianos fiéis, em qualquer casa de oração antiga e anciã de cabelos brancos nos mármores, nos granitos, nas pedras alvas. Os católicos de Pindorama não badalam os sinos. Os ortodoxos, cá não vivem. Os protestantes de Pindorama não temos sinos. Os evangélicos são sinetas que tinem por estridência, sem significado, com os alaridos incertos de goelas histéricas e feiosas ao ouvido… Eu fico aqui no Youtube. Como são bonitos os sinos de Colônia! Não encontrei os de Wittenberg, se existem.

1721. Seja honrado consigo mesmo.

1722. Só é possível viver na santidade. Não há alternativa para ter uma vida verdadeiramente gostosa senão sendo santo. O pecado cria miragens de satisfação que sempre fazem submergir na infertilidade desértica da insatisfação. É preciso ser santo se se quer ser feliz. É a única vida que vale a pena justamente porquê é a única vida.

1723. Deus está presente quando sentimos sua ausência. Esse vácuo é a suma presença. Já perdi aqueles anseios misto de ilusões de menino querendo, como Moisés, ver Deus pelas costas.

1724. Quisera repousar minha cabeça no teu peito, meu Senhor… Mas aqui estou na cadeira, sentado com os pés sobre a cama, escrevendo estas linhas duvidosas e certeiras. Passa sobre mim por esses dias a angústia da incerteza quanto à minha vocação. Tu, que me fizestes, se quiseres poderás acenar com luz do farol do Teu Espírito…

1725. A sabedoria sempre pede espera.

1726. Verdades psicológicas não podem ser provadas logicamente. O fórum de arbítrio delas é a própria psiquê, habitada pela Razão e pela Verdade.

1727. Para ser objetivo, para se chegar ao âmago duma questão, às vezes é necessário falar acerca da estrutura genérica da idéia (fazer um esboço do todo, macro) e outras vezes de maneira muito específica sobre os detalhes da idéia (fazer desenho das partes, micros).

1728. Sê forte, porque és fraco. Tira força da fraqueza. Emenda-te!

1729. Amando o silêncio, a palavra se torna mais fácil e espontânea.

1730. O número é a palavra fragmentada. O número é um dado (uma parte) que compõe uma palavra, que é uma informação (um todo). Há matemática em todo texto.

1731. Nada denuncia tanto a fraqueza quanto o muito falar sobre [o próprio] poder.

1732. O que está acontecendo no Afeganistão…

1733. Do Álefe ao Ômega. Principium e fim.

1734. O Evangelho renova o homem, na metanoia. Retira do regenerado as desculpas do habitat, do [fruto do] meio ambiente amoldador, da cultura padronizadora que esmaga de fora para dentro uma personalidade. O salvo vai perdendo as escamas da época e se torna, sempre, um anacrônico para o contemporâneo. Quem tem a Eternidade no coração, não pode aceitar o temporal com sua sociedade e cultura. Concessões, desculpas e tolerâncias para com aqueles (nós todos, inclusive) que ainda têm ciscos e pedriscos do seu mundo em seu próprio barro, no deu vaso humilde guardando tesouro glorioso, é uma coisa; não chamar essa sujeira enfeiadora pelo nome, que é pecado, é outra. O calendário não absolve ninguém diante do Cristo proclamado no Evangelho.

1735. Homem que não é “pé de boi”, é “mão de vaca”.

1736. Circunstância é a instância que circunda um instante.

1737. Jesus escolheu doze apóstolos diferentes, divergentes e diversos uns dos outros. Tinha funcionário público de direita, revolucionário de esquerda, analfabeto, proletário, rico, erudito, classe média, etc. Eram doze personalidades muito contrastantes. Em três anos, Ele uniu todos (esqueça Judas…): caíram as ideologias particulares, cessaram as circunstâncias pessoais e surgiu, através do vínculo do Amor do Evangelho, um grupo de homens sábios o suficiente para entender que “aquela velha opinião formada sobre tudo” que cada um antes tinha caducara completamente diante da Revelação. E você aí sem paciência, excluindo e odiando todo mundo que não pensa igualzinho você… Se você não agrega o diferente, se você dispersa o divergente, se você centrífuga o diverso: você não se parece com Cristo. Como, pois, ousará se intitular cristão?

1738. Lugar de pastor é cuidando entre as ovelhas de Deus, e não governando sob os lobos de César. Pastor não é governante! Lugar de pastor é o púlpito da Palavra Eterna, e não o palanque do discurso e da retórica que passarão. Pastor não é político! Lugar de pastor é ministrando o Evangelho do Céu, e não ocupando ministérios nos governos da terra. Pastor não é burocrata! Lugar de pastor é defendendo a causa do Reino com amor aos inimigos, e não cultivando inimizades para manter sua ideologia dominante. Pastor não é militante! Lugar de pastor é dialogando tudo com todos, e não debatendo partes com alguns. Pastor não é sectário! Lugar de pastor é manejando o cajado na peregrinação do seu rebanho à Sião, e não empunhando cetro e chicote na romaria da sua manada à Babilônia ou à Brasília. Pastor não é tocador de multidão!

1739. Numa de suas palestras, Ariano Suassuna, sempre maniqueísta e exagerado (mas nem por isso equivocado no mérito da questão: no caso, a servil e viralatesca bajulação brasileira da rasidão cultural do establishment norte-americano), disse que Michael Jackson não era confiável porque “era negro e quis virar branco.” Quantas pessoas, na zoada do humor, já não disseram mais ou menos a mesma coisa tantas e infinitas vezes durante toda a década de 90 e nos anos 2000, principalmente? Recordo-me bem de ter lido, visto e ouvido esse lugar-comum da retórica nacional (o abranquelamento do Rei do Pop) em blogs cults, no extinto orkut, nas páginas amarelas da Veja, nos programas do Gugu, do Faustão e do Ratinho, em piada de boteco de esquina e até em boca de senador da república… Michael Jackson morreu em 2009 e em 2009 mesmo a lenda acabou: a autópsia e uma centena de laudos e exames médicos anteriores (mas só então divulgados) provaram que Michael, de fato, tinha vitiligo o mais severo, a ponto de que usar medicação branqueadora era a única solução viável para não se parecer com um dálmata humano. Mas Ariano, como todo mundo (eu, inclusive), achava que Michael queria ser ariano, que ele queria à força dos sentimentos profundos dos seus (existentes) complexos de inferioridade atingir a estética dum dolicocéfalo caucasiano de pele alva… A realidade esbofeteou a mitologia midiática. Ocorre que Ariano é um dos meus mestres no que diz respeito ao Brasil e eu bebo sua poesia e sua prosa como se fosse hidromel. Ocorre também que as músicas do The Jackson 5 embalam alguns dos meus dias mais descontraídos e que eu dancei Thriller com a namoradinha da 8ª série. Ocorre que eu gosto dos dois, como exemplares admiráveis da raça humana. Alguma contradição? Nenhuma. Só quis com esse relato demonstrar o óbvio: na vida, vamos ter familiares, amigos, colegas, parentes (coloquei aqui mesmo, nessa posição) e conhecidos que, sabendo ou não um do outro, vão ser inimigos/adversários/antagonistas na personalidade ou nos valores ou no sabe-se-lá-o-que. O fato é que temos atenções, intenções e tensões a administrar ao nosso redor, na teia de caranguejeira que une todos a todos. Todo mundo erra. Todo mundo erra e não erra pouco, para não dizer logo de uma vez que erra muito. O mundo erra: é isso. A gente erra e vê bem que esses erros se degraduam de um pólo a outro, que vai do equívoco de comprar a fofoca ou a versão com mais adesões no momento à má intenção dolosa com sua maldade tão ferina quanto deliberada. O que fazer? Ariano sabia de Michael, Michael provavelmente não sabia de Ariano e eu sabia dos dois sem que os dois soubessem de mim. Ah! E Ariano morreu 5 anos depois, em 2014, sem muito provavelmente saber da autópsia e dos documentos todos que citei no começo desse papo semi-furado. Se eu conhecesse os dois e eles fossem meus amigos e eu soubesse de fato as realidades particulares de cada um, sabe o que eu faria? Tratava de fazê-los amigos entre si. Talvez o Quinteto Armorial um dia desse a cor da rabeca às notas de “Enjoy Yourself” (e Ariano adorasse) e o moonwalk — aquele passinho flutuante e retilíneo, tá ligado? — se estremecesse com os passos dum baião digno de Luiz Gonzaga! (e Michael amasse). A lição é: una as pessoas. Faça a paz fazendo as pazes. Seja uma ponte comprida e prazerosa entre os gregos e os troianos que estão nos lados opostos do mesmo rio. Jesus Cristo mesmo disse: “Bem-aventurados os pacificadores!”. Não passe conversas adiante, não estimule a discórdia, não semeie contendas. Chega de guerra.

1740. Não aceite pedaços. Um copo despedaçado não sustenta a água, não ajuda a saciar a sede. Uma vaso despedaçado não carrega um bouquet, não apoia a fragrância do amor que cuidou das rosas e o amor que com elas se quer demonstrar. Uma mesa despedaçada não suporta os pratos, os talheres, a comida e a própria alimentação, do sabor à nutrição. Uma alma despedaçada não mantém a decisão, não faz do verso e da palavra de instantes uma convicção nutrida para a vida toda. Um coração despedaçado não custodia a promessa que o corpo pode quebrar rapidinho numa “rapidinha”. Apenas as pessoas inteiras, como as coisas inteiras, são mais do que úteis: são confiáveis na sua integridade, na sua unidade de potência e ato. Quem tiver que juntar seus cacos do ser, como os estilhaços do cristal da taça e da porcelana da floreira; quem tiver que calçar as pernas bambas e alinhar as ripas da távola; quem? quem assim for (quem assim é) terá que ser deixado de lado para que cuide e termine seus processos solitariamente, no canto dos fragmentos. Não aceite pedaços quando sua garganta estiver árida, quando as flores estiverem murchando à mão, quando a fome der nós górdios no seu estômago, quando a carência ou qualquer sentimento mais frágil e afetuosamente vacilante te desesperar. A água secará na fonte, o perfume se consumirá na pétala, o banquete apodrecerá em lavagem para os porcos e seu coração adoecerá. O que não for inteiro, um todo, vai te quebrar, vai te fracionar, vai te dividir. Assim como não se compra objetos aos pedaços, inconectáveis, não se aceita os pedaços desconexos (tempo, atenção, cuidado, carinho: vida) da existência despedaçada do outro.

1741. Se você está ocupado lutando para ser alguém melhor nesse mundo, não terá tempo de julgar alguém que também está assim ocupado ou mesmo sequer está pensando nisso. A tarefa de “separar joio do trigo” foi dada aos anjos, perfeitos, e não a nós, imperfeitos. Sejamos generosos. E racionais. E empreguemos em nós mesmos a força e o tempo que o Senhor nos concedeu para, assim, então, uma vez um pouquinho melhorados e um tantinho aperfeiçoados, nos entregarmos ao serviço do próximo.

1742. Manter o coração equilibrado é nosso desafio de sobrevivência espiritual diário. Somos criaturas que facilmente mudam de humor duma hora para outra. Basta um estalo, a queda dum raio na química cerebral, para que, num “abrir e fechar de olhos”, nos transtornemos, nos transformemos. Acordamos sempre num estado diferente daquele em que nos levantamos; e nos levantamos, [des]igualmente, com a cabeça mexida e remexida em outros graus de consciência e humor que não aqueles das 24 horas anteriores. A pergunta é: como encontrar a harmonia, um estado médio de bem-estar da consciência, sábio e racional? Como sedimentar as melhorias graduais anteriormente ganhas na psiquê sem, por conta de uma má ação aleatória e eventual, botar tudo a perder e se [re]desiquilibrar? A primeira, a intermediária e a última resposta são: nenhuma técnica de meditação, nenhum medicamento calmante, nenhum artefato concreto ou abstrato feito pela arte da cachola humana pode nos equiponderar eficazmente. A única resposta é: o Relacionamento com o Espírito Santo, paráclito do nosso templo corporal, pedagogo do nosso altar psíquico, é o único remédio que nos equilibra interior (no nosso eu-conosco-mesmo) e exteriormente (no nosso relacionamento com os outros homens e mulheres, na ágora do mundo). Os monges budistas conseguem, respirando fundo e se distanciando muito da dinâmica social, aplacar um pouco os instintos e compensá-los com intenções poderosamente inversas. Os gurus hindus conseguem, respirando fundo e se distanciando muito do contato com a vida dita “mundana”, se livrar um tanto dos impulsos e contrabalanceá-los com atenções fortemente contrárias. Porém, apenas o Espírito Santo, inspirando profundamente a maior e a mais extrema proximidade entre o homem consigo e com seus semelhantes, pode criar indivíduos realmente equilibrados no espírito, na alma e no corpo; gente que acorda pela amanhã e, a despeito de qualquer pecado, erro ou desatino contra a virtude, a razão e o hábito, pode se “resetar” apenas e tão somente banhando-se na Graça, no rio de águas vivas e carmesins, na fonte de águas vivificantes e escarlates que manam do Coração de Jesus Cristo, o Lógos atemporal contra o nosso caos cronológico, o Rei e Senhor do Cosmos todo alinhando nossos micro-cosmos todinhos, que, lavados pelo Sangue do Cordeiro imolado antes da fundação dos Mundos, já nos equilibrou para todo o sempre passado, para todo o sempre presente, para todo o sempre futuro: que nos fundiu nEle, desde o Seu Coração de Homem e de Deus, sem nos confundir, Eternamente. Nosso coração pode bater ao mesmo toque harmônico do dEle, pode palpitar e pulsar no ritmo do dEle, pode compartilhar da Imagem e Semelhança que, nas nossas coronárias, se coroam com os espinhos do dEle!

1743. Sem grandes ambições. Sem maiores aspirações. Apenas o triunfo da paz doméstica. Apenas a glória da dignidade mais sóbria. A “aurea mediocritas” de Horácio. Não desejando nada além de uma casa com biblioteca larga, cozinha acolhedora e cama quente durante as quatro estações para além das Bodas de Diamante. E também um jardim que acomode uma pequena horta. Com desejos modestos e tão puros quanto a água da fonte que regará jardim e horta, o roseiral e as batatas doces. Com aspirações que sempre trarão consigo os suspiros da boa leitura, do macarrão cheio de queijo e do vinho tinto bem encorpado acompanhando o êxtase de corpos e almas que vão da mesa à cama e por fim ao banho. Esta música me traz estes sentimentos ou pensamentos (não sei bem, não consigo separá-los uns dos outros) algo idílicos — eu sei, confesso. Mas, como poderiam ser melhores e mais gostosos e proveitosos os pensamentos e os sentimentos de uma vida que, bem vivida nos seus 120 anos bíblicos, fosse assim coroada com um humilde “Obrigado, Senhor!”?

1744. O “testemunho” alcançado pelos antigos é o do Deus que “É” Deus e Homem na sarça cruciforme da Revelação de Si a nós. Este é o “marco antigo” da nossa Fé, irremovível: o mundo gira, mas o calvário permanece firme, incendiando (sem consumir) o mundo desde as traves do Sacrifício Perfeito, o Altar donde correu o sangue humano do Criador. A Igreja que sempre se reforma é a Igreja que sempre se restaura na chama primordial do Amor incandescido na Verdade. Essa “antiguidade” resgatada, sempre atual, portanto, o é por ser Eterna, como é eterna a Luz Inacessível que se mostrou brilhante através de um rosto — o rosto de Jesus.

1745. Há muito lixo em nossas almas. O entulho da descrença, a bagaceira do desespero, o escombro do ódio que se acumula no vaso, em nós. O pragmatismo da vida diária, com sua rotina de automatismo, vai tentando arruinar aqui e ali o vaso que somos (infiltrando rachaduras de caos e amassados de entropia na sua estrutura e refugo de chorume pútrido em lugar do óleo da alegria) — o vaso que ao mesmo tempo é deformado pelo mundo e [re]moldado por Deus num processo contínuo e infindável onde as forças agressoras que tentam destruir são permanentes mas cada vez mais fracas e inativas, enquanto as mãos dEle vão gradualmente se tornando mais ágeis e o processo de restauração gradual tanto sobrepuja em poder ao de destruição vagarosa ou abrupta que, hora ou outra, o vaso fica pronto sem que sobre sequer milésimo de segundo para que o informe e o vazio tentem novamente nos rachar e amassar (posto que impossível, de fato, quebrar: uma vez salvo, salvo para sempre). É santificação, é regeneração. É a Luz que cresce na argila do nosso ser e, sendo Fogo também, lhe dá forma e conteúdo enrijecendo-nos ao nos “cozinhar” o barro desde o interior (enquanto o mundo nos ataca desde fora) com os tesouros da Fé, da Esperança e do Amor. Quem lê, entenda.

1746. “Crentes” buscam o atrito dogmático, a briga moralista, a peleja exortante. Buscam oportunidades para o discurso da condenação. Jesus nunca foi atrás de ocasiões para querelar com indivíduos pecadores. Ele nunca procurou pessoas para acusá-las. Elas é que se achegaram ou chegaram até Ele. Jesus não foi atrás de calos para pisar. Ele vivia e convivia naturalmente com as pessoas, que nesta naturalidade se abriam (por obra do Espírito) para a regeneração da natureza adâmica. Jesus jamais saiu ao percalço e no encalço de calcanhares para acertá-los. Ele os encontrava no Encontro do Caminho que se caminha à espera do momento propício para sarar o desconjuntado. A Adúltera é que lhe foi jogada aos pés; e Ele impediu seu apedrejamento, ao mesmo tempo que a redimiu sem sequer citar Moisés, teólogo-legislador… Ele nunca foi ofensivo às zonas das garotas de programa de Jerusalém levantar cartazes em favor da Família Tradicional Israelita… Jesus não puxou assunto com ninguém, como oportunidade para a retórica, como instante para puxar o tentador fio solto do novelo que se desenrola em debates de provas, réplicas e estardalhaços em Seu Nome. Foi pedindo apenas água para aplacar sua sede real, para sua língua de fato seca, que a própria Samaritana levantou suas questões conjugais; e foi aí, em cada gole do Jesus saciado, que às próprias instâncias e inquietações dessa mulher, que a Verdade brotou como dilúvio da Graça que santifica quando, como e onde quer. Jesus nunca propôs temas para pregar-Se a quebradores específicos de mandamentos nas suas vidinhas anônimas. Ele não foi procurar Nicodemos para avisar-lhe sobre a necessidade de nascer de novo… Ele gerava o interesse. Ele gera o interesse. Ele os traz. Ele os atrai. Ele os arrasta após Si. Pois é no encontro humano natural autêntico e rotineiro, passivo no “Vinde a mim!” e ativo no “Ide!”, que a Eleição acontece. Oh “Crentes” vinhateiros de megafone, chatos de campanhas anti-isso, anti-isto e anti-aquilo, marchadores e militantes por suas causas ainda patrocinadas pelos juros das 30 moedas que querem comprar justicismos contra o Mundo do Dono da Vinha: vocês não aprenderam nada.

1747. A Armênia prova, ao menos psicológica e culturalmente, que uma “arca” de mistérios arcanos e arcaicos pousou sobre seu Ararat. Impossível não reconhecer na mentalidade desse povo perseguido traços noéticos — sem dizer, de vez, semitas. Acredito no Dilúvio histórico e cá do imanente, mas também acredito que a mística de um mito seja o mito de uma mística; e que isto transcendentalmente molda todos as voltas e contornos do cérebro e da alma dos macro-indivíduos do coletivo e dos micro-coletivos do individual. Os armênios têm, como os judeus, uma tradição recebida permanentemente — uma Kabbalah de pedra e espírito. O Ararat é irmão do Sinai. E como provar isso? Dança e música não enganam…

1748. Quanta doçura há em Cristo! Quanto amor, quanta fé, quanta esperança!

1749. A agressividade na defesa de uma causa demonstra a fraqueza de seu defensor.

1750. Não, meu filho: você não é odiado porquê você é “cristão”. Você é odiado porquê você adora o Cristianismo e não a Cristo. Você é odiado porquê você é um chato histérico cheio de raiva em nome de Deus. Você é odiado não porquê espelha o Amor do Pai (Lucas 21:17), mas porquê você espalha o ódio de um padrasto cósmico que se parece mais com o diabo. Você é odiado não porquê defende o Bem, mas porquê você faz todo tipo de mal, pinta e borda em Seu nome. Você não defende a Verdade, a Moral e os Bons Costumes. Você ofende com suas inverdades moralistas e malvadas. Não, você não é um mártir, um defensor da Fé. Você é um terrorista, um atacante pró Descrença. As pessoas não se afastam de você porquê você é “luz” e “sal” para os que estão numa existência mergulhada em trevas, sem sabor: você não passa dum antipático misantropo, um canhão de 1.000 watts cegando as córneas dos homens, um deserto de sal petrificando a língua das gentes. Você é só um religioso brigão. Você é só um hipócrita fariseu (um éticudo, santarrão asceta e tarado), que será precedido no Céu por corruptos e prostitutas. (Mateus 21:31)

1751. Quando nós nos abrimos ao próximo, sendo casa e abrigo para ele, nunca nos falta casa e abrigo. Quem ama sempre será amado. Quem se dispõe a ajudar e a carregar os fardos e pesos alheios, sempre será ajudado e carregado pelo próprio Deus. Quem é abrigo para seu irmão, é aninhado pelo Pai.

1752. Quem está no centro do poder humano não enxerga a Realidade. Os sacerdotes judeus há séculos sabiam do local de nascimento do Messias. Nenhum deles deu as caras em Belém para checar os fatos. Mas astrólogos pagãos, magos do Oriente, peregrinaram anos a fio com suas caravanas em busca do Rei do Universo. E o encontraram, e o adoraram. Os teólogos e rabinos discutiam sobre a cor das chamas da Sarça Ardente e sobre a natureza ontológica das teofanias. Nenhum deles sequer viu a Deus encarnado e tampouco ouviu um coral de anjos cantando “Gloria in excelsis!”. Mas pastores de ovelhas, homens rudes e analfabetos e de boa vontade em seu senso comum, que mal sabiam da existência do Templo em Jerusalém, contemplaram tudo. Às margens do “khratos” religioso, político, cultural, econômico e social da civilização, a Realidade do Poder Divino é mais clara. Deus é o Deus dos marginais. Não à toa Jesus Cristo orou: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.” (Mateus 11:25)

1753. O tipo de deus pregado pelos neo-pentecostais é um demônio sedento por sacrifícios e sangue. O típico pastor neo-pentecostal é um sacerdote pagão com seu cutelo homicida. Jesus era manso e humilde. Malafaia é belicoso e soberbo. Jesus pregou aos pobres de espírito. Macedo prega aos ricos de bolso. Jesus nos fez templos vivos do Espírito Santo. Valdemiro Santiago enclausura a fé entre quatro paredes “ungidas”. Jesus ensinou a felicidade de dar gratuita e liberalmente. R.R Soares predica em favor do receber prosperador na maquininha de cartão de crédito. Nenhuma catedral é superior a um pé de jabuticaba como lugar de adoração, porque é em espírito e em verdade com “dois ou três reunidos” sob o Nome que o Evangelho flameja nos indivíduos e nas comunidades. A Basílica de São Pedro, a Paróquia de Wittenberg, a Igreja da Rua Azuza, o Templo de Salomão e o salãozinho congregacional na periferia são pedra que não ficará sobre pedra: é no nosso peito que está erigido o altar verdadeiro; é no nosso coração que o Dia do Senhor é guardado. O resto (positiva e/ou negativamente) é subsidiário — secundário, terciário e o “humain à quatre”. Eu não sou irmão de nenhum cafetão da fé. Eu não sou companheiro de Caminho de nenhum mercador de milagres. Eu não sou colega de ministério de nenhum bandido togado (na igreja ou no aspirantado ao STF). Eu não sento na mesma mesa, seja para papear sobre o Maná do Céu ou para papar o Maná da Terra, com bandido crente e religioso. Quem quiser beijar a mão e os glúteos de Herodes, César, Pilatos e Caifás, fazendo-se herodiano centrista, romano pragmático, testemunhado tíbio, fariseu conservador ou zelote revolucionário, que o faça. Que o faça com seus mitos e messias alternativos. Meu Deus é Jesus Cristo!

1754. Ser bom é difícil, mas fazer o bem é mais fácil. Comecemos por pequenos atos, por leves gestos de bondade. É este o caminho do aperfeiçoamento de quem reconhece que nunca será perfeito, mas jamais desistirá de ser feito melhor.

1755. Todos somos leprosos. Não há quem não tenha podridões fedendo-lhe desde dentro, estourando pústulas de humanidade. Há chagas e mal cheiro em nosso espírito, em nossa alma, em nosso corpo. Há espinhos na carne riscando nosso barro e há cardos e abrolhos malformando nossa argila. Mas o Divino Oleiro está modelando, fazendo-nos vasos. Ele decidiu curar as feridas dos nossos pecados e fragilidades com a carícia criadora do seu Amor. Ele decidiu recuperar-nos para Si, cozendo no fogo das provações os vasos para enrijecê-los, para fazê-los firmes e úteis, para sermos despenseiros dos perfumes do Céu. Somos todos leprosos, mas o Salvador cura. Jesus Cristo nos cura.

1756. Para amar de verdade é preciso compreender que o amor é um privilégio. E é um prazer. Servir ao outro com doçura, gentileza e bondade é o maior de todos os prazeres e privilégios.

1757. Interessante o quanto a liturgia das sinagogas americanas está se “eclesificando”, no sentido cristão-protestante do termo. Noto isso já há algum tempo. Basta prestar atenção à esse congregalidade plural (homens, mulheres, crianças, etc) e irreverente (no melhor sentido) retratada no vídeo. Impensável numa comunidade ortodoxa há duas décadas atrás…

1758. Comentário ao Inno al Signore della Tempesta: Isto me agrada por demais: uma juventude serena e atual cantando com vigor sonoridades antigas, gloriosas, doutrinais, litúrgicas, cheias de universalidade melódica, rítmica, harmônica. Dá pra sentir um quê de bizantino, beduíno, armênio, provençal, românico, mourisco, germânico, etc, em tantas e tantas nuances dessa música…! É telúrico nas partes e celeste no todo. Do órgão ao atabaque, da flauta transversal ao violão. As igrejas todas precisam resgatar essa catolicidade ecumênica da Igreja que [se] liga [do] Oriente a[o] Ocidente no caminho das peregrinações culturais de todo o nosso mundo horizontal, o nosso mundo horizontal que a congregação dos fieis faz por alcançar o vertical, no Caminho. Em resumo: essa empolgação toda santa e viva, rica e fecunda, prescinde dos guetos culturais que as denominações têm criado em nome de “santificações” sectárias, esotéricas e pagãs.

1759. As impressões que podemos fazer das pessoas quase sempre são muito falsas. Continuo me negando a “julgar” sem conhecer, sem conviver. Os velhos tinham razão: não se deve julgar um livro pela capa.

1760. O cristão deve ser contra o aborto? Deve. Mas ele tem que dar um passo além da mera e abstrata defesa da causa pró-vida. O cristão deve adotar órfãos, deve amparar mulheres estupradas no corpo e na alma, deve exigir postura santa e amorosa dos homens e, sim!, também deve acolher mulheres que abortaram e que buscam e podem encontrar no arrependimento o meio de sua conversão.

1761. A busca por uma alma bonita é muito mais difícil que minerar diamantes nas cavernas mais profundas da terra. Encontrar profundidade no outro é uma busca pelo tesouro desaparecido que a própria pessoa escondeu até de si mesma; e ocultou completamente do mundo inteiro. Expor aos outros as jóias preciosas da própria personalidade, mostrar à multidão as gemas de valor do próprio espírito, desperta o ódio, a inveja e a zanga de quem se contentou (a maioria se contenta) em adquirir para si as bijuterias mais superficiais, baratas e vis da existência. Esta é, pois, uma metáfora para o mergulho que um ser deve fazer no outro caso queira amá-lo: romper as falsas superficialidades, os vernizes rasos, aparentes e visíveis que ocultam (por segurança, para autopreservação) o eu autêntico — a jóia da coroa do eu real, da essência pura e nunca feia da alma alheia, sempre profunda como são fundas as lavras das melhores pedras preciosas da Criação. Por debaixo das cascas de pirita, o ouro dos tolos que se contentam com os folheados da personalidade, há ouro fino para quem se dispuser a suar dias e dias com a picareta da persistência e da confiança. Sob as veias de quartzo e alumínio dos aspectos e das figuras, repousam veios de gigantescos diamantes e rica platina para aquele que decidir investir determinação e paciência no trabalho de encontrar o outro. Depois é derreter, é expurgar, é ourivesar, é lapidar, é polir, é engastar, é por sobre a cabeça e o coração a jóia da alma reencontrada, cujo brilho será farol para os demais filhos de Adão e Eva. A alma é a única parure de um ser humano autêntico.

1762. Uma florzinha sincera, ainda que murcha, vale muito mais que um jardim que existe apenas nas palavras… Não troque realidades concretas por ilusionismo. Só vale o que existe de fato.

1763. Uma vez que você pede “molda-me, Senhor!”, o processo de apertos no seu barro começa; e nunca acaba. Nosso ser será amassado e moldado durante toda a vida. Nossa “argila” continuamente girará entre as mãos de Deus. Nenhuma batida é à toa: todas te modelam. Nenhum toque é em vão: todos te talham. Os contornos do nosso caráter nascem das pressões que os dedos do Pai exercem sobre nossas vidas. Dê graças por isso!

1764. O que vale a pena é mais vagaroso, demora mais, escoa devagarinho como um fio de água enchendo um oceano. Sem pressa — e o melhor é conquistado.

1765. Não espere perfeição. Não neste mundo. Como resultado do pecado original, toda a existência humana e cósmica se encheu de “cardos e espinhos” (Gênesis 3:18), ou seja, de imperfeições. Rachaduras, desarmonias, assimetrias, descompensações, instabilidades, defeitos, deficiências, fraquezas, etc. Não há nada sob o Céu que não esteja afetado. A Natureza e as naturezas, Toda e todas elas, gemem desde então. Logo, impor ou esperar da vida relacional e planetária virtudes puras e absolutas, tanto física quanto metafisicamente, é crueldade. É cruel o idealismo de querer tudo “alvo mais que a neve”, quando vivemos variações de cinza, entre o mais claro quase branco e o mais escuro quase preto. A luz e as trevas bailam em nós e na terra dos seres e entes. Isso afeta as belas artes nos quadros e as feias afeições nos corações. Nada é perfeito por aqui. Mas existe a aspiração pela perfeição; e ela deve nos mover e moldar sem, contudo, nos controlar e fixar no mundo das abstrações pouco práticas, realistas e verdadeiramente i-ou-a-e-morais do dia-a-dia. Não espere perfeição porquê ela não dará as caras, mas lute por ela com a prudência de quem sabe e pode sempre melhorar.

1766. Eu coleciono relógios de pulso. É minha fixação. E uma das coisas mais chatas é riscar a caixa dum relógio novo. Mas a melhor coisa (a graça e o gosto do negócio!) é usar. Não é possível colocar um relógio no pulso sem se arriscar a riscá-lo: o risco está intimamente ligado ao uso. Igualmente é a vida. Se você quer ter o prazer de usufruir da existência com qualidade espiritual, o seu coração vai necessariamente ganhar riscos em sua lataria de carne e sangue. Nós não somos o Homem de Lata, o do “Mágico de Oz”, sem coração, bombeando apenas frieza lógica e equacional nas sinapses, incapazes de sofrer os danos de pensar e sentir ao mesmo tempo em que se sente e se pensa. Se quisermos amor, haverá riscos de rejeição, indiferença e traição. Se quisermos alegria, a tristeza baterá à nossa porta de vez em quando. Enfim: se quisermos vida, optamos por todos os seus meios e movimentos, processos e instrumentos. Como diz o caipira, “não dá valor ao mel quem não prova do fel”. Com o tempo, inclusive, passamos a ter prazer nas vicissitudes da vida (porquê nos ensinam). E, com sabedoria, chegamos a adorar a dor que permitiu o contentamento. Acontece o mesmo com os relógios, aliás. Hoje minha preferência é pelos usados, pelos mais antigos, pelos “vintage”, ou seja, pelos que têm história pra contar! E só tem história pra dividir quem vive. Não adianta deixar o relógio guardadinho na caixa de veludo, longe do mundo real e do uso para o qual ele foi feito. Não adianta deixar a vida estagnada, hiper-protegida numa bolha-redoma de precauções chatas e defensivas. Corra os riscos antes que a morte te risque do planeta!

1767. Se você escolhe dialogar interminavelmente com seu passado, seu futuro não começa.

1768. Nosso coração é pó. E é por isso que ele tem sobressaltos, aventuras, dores e alegrias, conforme as brisas e vendavais da existência o empurram. Temos um órgão no peito que palpita piruetas. O salmista mesmo diz: “O meu coração dá voltas” (Salmo 38:10). Como, então, firmar nosso coração para não ficar “fibrilando” impaciente, ansioso, inconstante? Noutro salmo, o 73:26, há resposta: “O meu coração desfalece; mas Deus é a fortaleza do meu coração”. Quando endocárdio, miocárdio e pericárdio estiverem submissos à uma mente renovada, “metanoiada”, eles não pulsarão medo, eles não baterão temor; eles pulsarão paz, a paz que o mundo não pode dar! Nosso coração é pó, mas se ele for firmado na rocha, montanha alguma o poderá movimentar.

1769. O cristão deve ser santo, não sanitário. Santidade é por luz nas trevas; não fugir dos calabouços de escuridão do mundo. Santidade é conviver com todos, sem indiferença, para viver com Ele; não se afastar de quem está sendo diferente no erro. O cristão é limpo pelo Sangue do Cordeiro, não “limpinho” do cheiro, do toque, do gosto, do som, da visão do mundo. O cristão propõe perfume ao fedor, carícia à violência, sabor à insipidez, melodia à cacofonia, olhar à cegueira. Nós pomos os pés e as mãos na lama (sem medo, sem nojo, sem aversão) porquê somos argila e não tememos encontrar no próximo, no seu barro ainda informe, a Imagem e a Semelhança do nosso comum Oleiro. O cristão, ao menos o crente nominal, que diz “não toques, não proves, não manuseies!” (Colossenses 2:21), medroso duma lepra da qual ele mesmo foi livre, terá sido tocado, provado e manuseado pelo Salvador? Santidade cura com amor, com unguentos doces e mirra fresca; sanitarismo arde como sal, álcool, limão e pimenta em ferida incurável. A santidade não é asséptica, mas limpa. A santidade não é ascética, mas purifica. A santidade acende a chama que quer, no cadinho do Pai, expurgar o que em nós é baixo para nos ascender, todos, ao Alto! A santidade é a água barrenta e turva do Jordão sobre as escamas de Naamã; não a água oxigenada dum tubo de ensaio no laboratório causticando uma hanseníase qualquer…

1770. Eu já julguei livros pela capa. E enquanto julgava, estava impedido de apreender conhecimentos incógnitos, de me deleitar com versos desconhecidos. Toda pessoa é um livro cujo conteúdo supera absolutamente a “visualidade” das aparências. Há folhas e páginas na alma e partes e capítulos no espírito que visual algum da estética pode resumir numa simples capa.

1771. Nunca considere como opção ser opção para o que ou quem quer que seja. Multiplicidade não frutifica. Alternativas não produzem amor, poesia, impérios, alegria e glória verdadeira. É na absoluteza ou absolutitude da única possibilidade, da única escolha, do único caminho que a gente vence o mundo e se torna indivíduo com personalidade sólida, poderosa e densa como uma montanha.

1772. Quão terrível é perder a capacidade de apaixonar-se por grandes ideais e pessoas.

1773. Um homem de verdade deve valer por algumas dezenas de homens de mentira. Lembram de Leônidas e seus 300? Um único caráter pode movimentar milhares se ele for denso o suficiente para ser um Indivíduo pleno, total, íntegro, completo, inteiro. Lembram de Gideão e seus 300? Um homem que tem propósito existencial arrasta atrás de si os outros. Um homem é sempre maioria quando com ele está Deus.

1774. Quem não ouve quem sabe, fica nas mãos de quem finge que sabe.

1775. Não esconda suas cicatrizes existenciais. Apenas não esqueça das lições que elas te ensinaram.

1776. A Flordelis pode feder, como o joio apodrecendo; mas o perfume da Rosa de Saron é permanente no trigo…

1777. Você não é uma pessoa boa apenas por defender idéias/posturas/doutrinas boas. Você é bom na medida em que age bem através, pelo e para o Bem. Sua teologia pode ser sã e ortodoxa na mente, mas você não será são e ortodoxo no espírito se não viver em Amor. Não confunda alhos com bugalhos: você pode aderir à todas as verdades nomináveis do Cristianismo e ainda assim ser um protótipo de satanás.

1778. Homens, a culpa é nossa. Por que? Nós, homens, devemos ser melhores homens. Melhores homens namorados, melhores noivos, melhores maridos; melhores filhos e netos, melhores pais e avôs. Nós somos culpados por tudo isso. Nossa culpa começa com a forma que tratamos as nossas mulheres e termina com o tratamento que damos às nossas famílias. Não é apenas a tal “degradação da moral e dos bons costumes” que colocou a Thammy Gretchen na campanha do Dia dos Pais. Fomos nós — ausentes no namoro, ausentes no noivado, ausentes no casamento, ausentes à beirada do berço dos nossos descendentes e ausentes ao lado da cadeira-de-balanço dos nossos ascendentes — que a colocamos lá. Nossa ausência produziu tudo isso que hoje escandaliza gregos revolucionários e troianos reacionários a favor e contra isto e aquilo. Aristóteles, aquele velho sábio, ensinou que “a natureza odeia o vácuo”; e esse vazio que nós cavamos sendo viris mas não varonis, sendo machos mas não másculos, está sendo preenchido pelo que não é porquê aqueles (nós) que deveriam ser abdicaram de sê-lo. Somos ausentes na paternidade, na familiaridade, na fraternidade. Somos ausentes no amor. E pior: à ausência do nosso amor temos acrescentado a presença da nossa hipocrisia. O homem que sequer presenteia com um perfuminho a esposa no aniversário de qualquer daquelas datas bonitinhas e queridas às mulheres, agora está militando contra a perfumaria toda e bradando aos demais, os maridos que são maridos, que não comprem os perfumes acessíveis às suas carteiras, mas outros mais baratos ou mais caros, para que ele, ele sim, se sinta o suprassumo da testosterona religiosa. O homem que sequer sente o cheiro da colônia de talco na pele do próprio neném, agora está pedindo aos pais que são pais que não comprem fragrâncias aos seus bebês para que ele, ele sim, se sinta um “homão da porra” mitando nas redes sociais enquanto seu pinguinho de gente está com as fraldas sujas. A culpa pelo artificial estar substituindo o natural é nossa. Nós devemos ser homens dentro de casa, homens à mesa de jantar, homens na cama, homens ajoelhados na igreja: homens em todos os lugares e tempos e contextos. Então, com ou sem peças publicitárias progressistas; então, com ou sem propagandas liberais; então, com vaias ou aplausos, sendo nós a maioria ou a minoria, se vivermos a Lei do Pai com sinceridade e constância de carinho e paz, nós seremos (ainda que o mundo não reconheça) os únicos e verdadeiros pais, posto que nossa paternidade asperge amor pastoreador, protetor e provedor sobre o mundo. Amor, não ódio. Amor. Assim, ninguém nos tirará o que Ele nos deu. Homens, a culpa é nossa! Reconheça isso e deixe a Thammy como, porquê e onde ela quiser estar. Reconheça isso e deixe a Natura lacrar e lucrar. Reconheça isso e seja luz do mundo e sal da terra. Eu reconheço a minha culpa. Quem vem após mim?

1779. A única forma de afirmar de verdade e com efetividade os bons valores familiares é vivendo-os em tal alegria e amor que todos queiram viver e ser assim. Militância moralista é tão burra quanto contraproducente. Só provoca, com razão, ojeriza. Boicotar uma marca, entre gritos histéricos e raivosos, só demonstra burrice, despreparo e incapacidade de diálogo sério e debate produtivo. A verdade deve ser dita com postura igualmente verdadeira: sabedoria, paz e tolerância cuidadosas — no tom adequado, no espírito adequado, no argumento adequado. Ou vocês seguem a Jesus Cristo ou a Silas Malafaia. Os dois não dá.

1780. Ambientes excessivamente religiosos e pouco espirituais tanto fiscalizam a conduta alheia contra o pecado que mal dão ocasião ao perdão, ao arrependimento e, sobretudo, à Graça. Não existe santidade forçada. A coação em favor de formalidades pseudo-virtuosas é tão pecaminosa quanto o pecado que se quer à força coibir. Então, com(o) Agostinho eu canto: “O felix culpa quae talem et tantum meruit habere redemptorem!” / “Oh feliz culpa que mereceu tal e tão grande redentor!”

1781. Uma mulher bem tratada com carinho é um doce de côco pra vida toda. Mulher só fica ranzinza e fria (via de regra) quando o homem falha em ser doce com ela.

1782. Às vezes eu olho pro rosto de algum véinho e vejo as rugas, o olhar sereno, os gestos comedidos, os cabelos branquinhos como algodão de paineira, sentado solitário quase que o dia todo, todo o dia, na frente da própria casa; e então penso: onde está a família que ele criou, alimentou, educou e enviou pronta para enfrentar a vida e o mundo? Pesa-me o coração ao notar o óbvio: nossos idosos estão cada vez mais abandonados afetivamente e, por conseqüência, fisicamente. Tempos maus os nossos…

1783. As ideologias que se contradizem e separam (“ou vida ou economia”), no povo se unem na necessidade indissociável de saúde e pão.

1784. A beleza feminina é consoladora.

1785. Os países que melhor estão lidando com a pandemia (Israel, Coréia do Sul, Japão, Alemanha, etc) possuem a tradição cultural da auto-disciplina, da organização e um apego litúrgico à higiene. Apenas este comentário para que façamos a devida análise de consciência enquanto brasileiros.

1786. Desejo de Céu é o que nosso coração precisa ter. Este mundo vai passar.

1787. Continuem apoiando cegamente isto e aquilo com base na retórica “isso é de Direita” e “isso é de Esquerda” que vocês vão acabar no hospício.

1788. Não submeta o máximo que você pode ser ao mínimo que querem te dar. Regra de ouro.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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