Esponjas de sol — XLVII

1696. Apontar a hipocrisia dos falsos religiosos não melhora sua situação diante de Deus. Eles pecam (escondido) fingindo santidade. Você peca (às claras) fingindo extrema sinceridade. Ambos pecam e a temperatura do “fogo” não muda em função do farisaísmo deles ou da sua desinibida publicidade.

1697. O mundo bate em você até tirar seu idealismo. Ele bate, bate, bate. A pior parte é descobrir o quanto você é bobo e ingênuo, o quanto você “perde” enquanto os outros “lucram”; porquê enquanto você está preocupado com a justiça das coisas, eles estão fazendo as contas. A pior parte é se decepcionar com quem você cria honesto e ter que reajustar seus critérios de confiança e esperança. O mundo bate querendo que você se torne tão pragmático e prático quanto aqueles que batem em você. O mundo quer que você seja cínico, falso, hipócrita, moralmente maleável, diplomático de sorrisos amarelos. O mundo quer que você se transforme num batedor pró-sistema, num matador de sonhos e sonhadores. “É o preço do sucesso”, eles dizem. “Ou você entra no sistema ou o sistema te mastiga”, eles também dizem. Então, sua única chance é bater de volta no mundo até ele sangrar seu realismo e exaurir todo seu materialismo. Decida bater de volta. Bata de volta! Não desista: resista e insista.

1698. Seu pecado não lhe define completamente. Seus erros não mancham permanentemente sua biografia. Seu passado de enganos não determinará seu presente e futuro a não ser que você permita essa escravidão em função do que já foi e já passou. Seus deslizes e desacertos não são você no íntimo de seu ser e personalidade. Saiba disso e liberte-se do cativeiro da culpa, da vergonha e do medo. Você não é seu lado ruim, sua sombra velha e aterrorizante. Você é quem Deus fez você para ser. Você é aquilo que você tem dentro de você (no âmago do coração) para ser. Viva em paz e esqueça a existência que você já conjugou e já não pode resgatar. Viva pacificamente e lembre-se da vida eterna que está à sua disposição agora.

1699. Os políticos, tantos os à Esquerda quanto os à Direita, costumeiramente confundem o povo com a multidão.

1700. Todos os males vêm para o bem.

1701. La filigrana es la habilidad del alma más atenta…

1702. Em matéria de relações humanas, o “raio” só cai duas vezes no mesmo lugar apenas quando você entrega sua cabeça à tempestade…

1703. Minha mãe me ensinou desde pequeno a repetir este versículo ao dormir e ao acordar: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” 2020 já está aí. E diante dele, todos nós devemos repeti-lo. Eu o repetirei: SE DEUS É POR NÓS, QUEM SERÁ CONTRA NÓS?

1704. A miscigenação é uma das grandes belezas e qualidades brasileiras. O miscigenado é bonito, saudável, parrudo. O miscigenado é tolerante, adaptável, dinâmico. E estas são as condições para uma nova civilização. Eu me recordo quando li sobre o Quinto Império tropical sonhado pelo Padre Vieira. E me recordo, depois, quando assisti a uma entrevista do Darcy Ribeiro na qual ele repetia o sonho dum Brasil imperial (mas não imperialista) nesse sentido civilizacional. Minha recordação é a dum coração e duma mente tocados pela noção e sentido de nacionalidade miscigenada. Nós brasileiros somos o “plus ultra” da intersecção entre América, Europa e África. E nós (muito mais que os irmãos americanos de lá pracima do Trópico de Câncer) somos a América profunda justamente porquê somos a síntese dos brancos, dos negros, dos índios. O brasileiro racista, que nega essa realidade dir-se-ia metafísica da nossa formação étnica, nega-se a si mesmo e, como tal, nega sua humanidade e nega a Deus. O Brasil dilatará a Fé e o Império (parafraseando Camões) justamente porquê é miscigenado. A miscigenação é a janela pela qual o Brasil, um dia, deixará entrar o vento caloroso da Liberdade ordenada à Prosperidade material e imaterial.

1705. Do Universo senhor, / Reinas do alto trono de luz / E da goiabeira, lugar de cruz.

1706. Cada grão de areia da ampulheta de Deus é um carrilhão, um milênio, um instante, uma centelha da luz do farol de Alexandria, o brilho da primeira fogueira além-Éden, mil milhões de anos-luz, um gorjear de cuco, o alarme que bipa no pulso do aluno desesperado pelo fim da prova, a sirene que soa o almoço na fábrica, um calendário do século XVII, um dígito no relógio atômico da Nasa, o momento estático do pause, um looping no coral ortodoxo no Youtube, a cristalização da seiva que afogou um besouro, um flash de lambe-lambe, etc, etc, etc… Cada grão de areia da ampulheta de Deus reúne, funde, une e condensa todo o tempo que passou, passa e passará.

1707. Mães solteiras não são mulheres menos dignas de namoro, noivado e casamento. Como disse o Pr. Bruno Euclides, talvez você deva ser o pai cristão que a criança não terá porquê foi abandonada pelo biológico. Se Cristo a redimiu e perdoou, quem é você para rejeitá-la?

1708. Não submeta o máximo que você pode ser ao mínimo que querem te dar. Regra de ouro.

1709. No mundo moderno as pessoas odeiam tanto e tão intensamente pessoas que é muito mais fácil ter empatia pelos animais. Este é um diagnóstico grave da nossa crise civilizacional e espiritual. Os humanos já não amam o mundo humano e, como consequência, estamos despejando todos os nossos afetos positivos na Natureza enquanto nos matamos (física e/ou metafisicamente) uns aos outros. Tempo bárbaro, pagão, anti-cristão.

1710. Mulher bonita é mulher de verdade. Abro o Instagram e, de vez em quando, vejo um desfile de caras e bicos tão padronizados esteticamente e tão culturalmente padronizados na legenda, que sinto o que sentiu Fernando Pessoa naquela poemaço, o Tabacaria: “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira, talvez fosse feliz”. Que quero dizer? Que boa parte das moças de classe média e alta estão aniquilando a feminilidade autêntica com sua hiper-vaidade exterior, que as deforma. O excesso de glamour, de poses performáticas, de photoshops e filtros, enfim, toda uma parafernália artificial que vai do cosmético ao ético, está retirando a doçura natural delas e transformando-as em caricaturas. Tudo muito igual na cabeça bem penteada e maquiada. Tudo muito igualitário na cabeça oca e rasa. Muitas barbies plastificadas, poucas meninas de carne, osso e alma. Muitos pedaços de picanha (cheia de química amaciante) mal-passada a preço de ouro, pouco arroz-com-feijão e ovo e banana que não enjoa e alimenta. Onde estão os poros maiores num canto e outro, as sobrancelhas não totalmente enegrecidas e geometrizadas, a pequena espinha aqui e ali, enfim, onde estão as mulheres-mulheres que cheiram à humanidade e ainda se parecem com Eva no corpo e no espírito? Mais grave: são superficialmente atraentes e tal e mexem com a libido, mas fica só nisso: basta que abram a boca para que caia sobre nossa medula a dolorosa conclusão: é só mais uma — bonitinha e tolinha.

1711. A pessoa que concorda sempre com você não é uma pessoa boa pra se ter do lado.

1712. Jesus Cristo é Deus. E é homem. Nasceu como qualquer criança. Mas nasceu na manjedoura para o Calvário. Toda vez que vejo um presépio, olho em seguida para o crucifixo que carrego no peito, na altura do coração. Nascimento e morte se completam, porquê a Encarnação ocorreu para a Redenção. Nós cristãos daqui a pouco comemoraremos o Nascimento, mas, no íntimo, nossa alegria tem também uma lágrima pelo Senhor, o Senhor Bebê, o Rei do Universo Neném… que Maria teve no ventre primeiro para a Vida e a terra, no sepulcro (depois de espinhos, pregos, chibatas e lança), teve para a Morte e a Ressurreição. Nossa fé não é apenas bonita pelas palavras, não é apenas narração romântica. Nossa fé é a própria Realidade, a realidade de que Deus hoje também tem carne e osso.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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