Esponjas de sol — XLIX

1789. Religião, lato sensu, não tem seguidores. Tem usuários. Porquê o grosso da sociedade está sempre mais posicionada entre a releitura e a reeleição de um divino do que preocupada com sua religação com o Divino. É ópio, também…

1790. Um influente monge budista disse que o Budismo não “evangeliza”, enfim, não é proselitista. Mas Ashoka, um dos seus maiores e mais ilustres devotos, fez o que senão contar aos outros de maneira muito dinâmica, contínua, sistemática, ativa e “comungante” sobre o seu ερηκα místico?

1791. O cristão médio que com justiça se irrita com o desconhecimento da sociedade e da academia acerca de sua fé, costumeiramente é o mesmo que critica injustamente, sem nunca ter lido, Darwin, Nietzsche e Freud.

1792. Você pode discordar, mas não pode criar discórdia. Você pode afirmar com veemência, mas não pode se firmar sobre os outros. Você pode pensar muito diferente ou muito igual, mas não pode se aumentar e diminuir seu semelhante. Você pode levantar bandeiras sejam quais forem, mas junto à todas deverá sempre estar hasteada a branca — da paz. Não se esqueça: você é devedor do Amor de Deus “tanto a gregos quanto a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.” (Romanos 1:14)

1793. A Medusa é o grande símbolo mítico para o medo: petrifica, estagna, congela aquele que é tomado de pavor repentino.

1794. “Fé demais não cheira bem.” Título de ficção, vida real por aí…

1795. Antes de decidir o que você quer da vida, decida o que você não quer.

1796. Recomeçar. Há sempre que tomar os mapas da terra já pisada, do solo já visitado, do terreno já anexado ou vendido. E há que andar por eles, novamente; para entender o “fio da meada” de como cheguei aqui, ao agora, e recordar o quanto ainda deve ser começado.

1797. Senhor, ajuda-me a ser santo como um homem pode ser santo sem ser tonto.

1798. Toda necessidade visceral de poder sobre as pessoas é demoníaca (“meu nome é legião”) e, como tal, fracionadora (“um reino dividido não pode subsistir”) e, por fim, destrutiva. Nos relacionamentos todos que têm um sujeito agindo como o inquisidor-geral do(s) outro(s), a desagregação, a desunião e a divisão são a etapa necessária para a destruição final. Querer e gostar de mandar, nessa volúpia extremada de controle e subjugação, faz eclodir o aniquilamento de toda e qualquer relação humana, seja ela individual ou coletiva. Anular o(s) indivíduo(s) que está(ão) sinergicamente cooperando e colaborando em determinado meio, privado ou público, é anular o vínculo natural da confiança que, artificializado e então falsamente mantido em aparência pelo medo e pelo terror, logo produzirá revolta ou morte (físicas e ou metafísicas).

1799. Uma legião de pastores e teólogos reformados, muito comprometidos com os governos direitistas e esquerdistas por si apoiados Brasil afora, acabou de criar o 6º Sola: o Sola Ideologia.

1800. Toda a Realidade pode ser resumida nesta pequena frase: Jesus Cristo é Deus.

1801. Tudo aquilo que um dia deixará de existir já não existe. Já é nada agora, neste instante.

1802. Sem a vontade de ter força não se tem a força para ter vontade.

1803. Quando você renuncia a qualquer desejo seu por amor a Deus, você ganha novos desejos — vontades maiores e melhores que substituem seus anelos anteriores. O Senhor não nos frustra quando nosso coração quer, antes de tudo, ser semelhante ao Coração de Cristo. Ele transforma nossos caprichos em projetos realistas e ao mesmo tempo cheios de ideal. Ele altera nossas extravagâncias em objetivos tão palpáveis quanto sonhadores. Sempre que você abdicar do que for (seja coisa elevada ou veleidade), o Espírito Santo recalibrará o seu espírito. Nada fará falta. Nada. Tudo será suprido. Tudo.

1804. Há semelhanças entre Oliver Cromwell e Napoleão Bonaparte.

1805. Um tipo de autoengano: alterar a forma para ter a impressão de que, com isto, o conteúdo também foi alterado.

1806. Quem demoniza é o demônio.

1807. O livro “As Sandálias do Pescador” (1963) prenuncia João Paulo II  e prefigura Francisco.

1808. Não amar as estrelas sem, antes, amar a terra que nos sustenta os pés e, através destes, nos permite fitar o céu dos astros.

1809. Somos seres confusos. E a confusão, poderosa que só, é tremendamente dominadora. A palavra confusão tem origem latina: significa, mais ou menos, “aquilo que foi misturado”. E basicamente é isto mesmo: a pessoa confusa está provando uma mistura de sentimentos e pensamentos contraditórios, uma fusão de “peças” existencialmente conflitantes que deixam o indivíduo sem direção clara, sem caminho a tomar, num frenesi irreativo no qual as forças em oposição tanto se batem que acabam por jogar o infeliz indivíduo no vazio mais estático. Ou seja, trata-se duma vida impura: destituída da pureza da reta certeza. Como, então, sair da confusão? A resposta é simples e difícil. Simples porque basta a contemplação racional das metas, dos objetivos, das vontades superiores e prioritárias para facilmente compreender qual direção tomar ou não. Difícil porque definitivamente não é fácil para a imensa maioria das pessoas identificar (quanto mais traçar) suas próprias metas, objetivos e vontades que, então, hierarquizem as decisões principais da própria vida. Há muita complexidade envolvida, sobretudo quando mente e coração colidem; aqui, começa o trabalho de ajustar razão e sentimento, um ao outro, e unificar os afetos. Como fazer isso? Auto-conhecimento em Deus. Apenas vivendo diante do Criador é possível conhecer-se a ponto de conseguir (re)soluções para as contradições e antinomias da alma. A confusão se enfraquece e cede lugar à organização quando o Verbo de Deus, a Palavra Eterna do Evangelho, afugenta nosso caos e o ordena para Si. A única saída para a confusão, a única fórmula realista para uma vida coerente e significante (que marcha para um propósito final através das adversidades e contingências atuais) está em nutrir a Imagem e Semelhança dEle em nós para que, então, os “cardos e abrolhos” que habitam nosso espírito, nossa alma e nossa corpo sejam devidamente tratados pelo Jardineiro Eterno… A confusão é um labirinto de ervas daninhas que nós chamamos de jardim.

1810. Eu não quero o instantâneo.

1811. O homem mau que finge ser bom é mais caricatural que o homem bom que finge ser mau.

1812. Em se tratando do relacionamento amoroso, o homem que se faz presente deve presentear.

1813. O melhor presente que um homem pode dar à sua mulher é um futuro.

1814. A motivação não pode ser o motor da nossa ação na vida, mas sim a disciplina. Fazer o que é necessário, dia após dia, é que compõe as poesias, cria os amores e constrói os impérios. O compromisso de viver com propósito é maior que o sentimento do próprio propósito. Ter motivação é bom, é um começo, mas aprimorá-la e levá-la adiante do seu próprio princípio é ótimo, é o que nos torna capazes de terminá-la, de encerrá-la através de seu meio e sucessivo fim. Vislumbrar imaginativamente a estátua, obra de arte, projetando-a e sublimando-a na pedra é uma coisa, situação inferior; ir à pedreira, fender uma tonelada de mármore da montanha, carregar seu peso por quilômetros, engastá-la num espaço de trabalho, esboçar e redesenhar tantas vezes quanto necessárias à superação e, então, ir bater o cinzel no mármore até que o esboço surja nas três dimensões da estátua, realizando-a, é outra coisa, situação superior. Quem necessita de motivação para fazer, nada faz: torna-se inativo. Depender de emoção é infértil. Resta se entregar à decathexis do não-ser, da indolência, da vagabundice, da inferioridade que catapulta o sujeito para baixo das formiguinhas obreiras (Provérbios 6:6). É a disciplina que separa homens de meninos.

1815. Ter “altos e baixos” é natural na existência de qualquer ser humano. O alto do bom momento. O baixo do mau momento. Se saudável na mente e no corpo, a pessoa varia até certo ponto nos seus estados psicossomáticos, subindo e descendo através de uma linha-faixa de normalidade. Na vida do cristão, porém, boa parte dos “altos e baixos” são sobrenaturais na origem. São sobrenaturais porque têm propósito e significado, ainda que desconhecidos por quem passa ou mesmo por quem tão somente se depara com esses eventos de idas-e-vindas da verticalidade terra-Céu que um filho de Deus tem quando seu vaso está sendo moldado pelo Oleiro (Isaías 64:8). Ocorre que existe uma “montanha-russa da Graça” com pontos de partida (nascimento, o projeto do vaso) e de chegada (morte, o fim do uso do vaso) fixos e previamente conhecidos, mas com um meio tão radical quanto desconhecido, um interim cheio de adrenalina, de dinamismo, de energia: o processo-trajetória de modelagem do vaso. O barro sai do baixo da terra para o alto das mãos do catador de argila que a livra dos ciscos de mato e dos pedriscos através de fortes pancadas que também lhe tira as bolhas. Depois, sai do alto das longas mesas de descanso para o baixo do torno de modelagem, onde as mãos e os dedos do artesão-artista-artífice ficam descendo e subindo indefinidamente com a massa, levando-a depois para o alto ou baixo local de secagem e, ainda mais uma vez, enfim, para o alto ou baixo forno. Pronto, vai para lugar alto ou baixo da prateleira; e então, adquirido, o vaso vai para os constantes altos e baixos no uso do dia-a-dia, com seus zigue-zagues e paradas lentas ou bruscas… Tudo isto é a operação da Graça que, através da Providência, infunde seus toques em nosso espírito, em nossa alma e em nosso corpo para produzir regeneração. Os acontecimentos da vida são essa montanha-russa, na qual as voltas e reviravoltas colaboram (Romanos 8:28) total, integral e absolutamente para o nosso bem. É isso. É só isso. É tudo isso.

1816. Se queres a paz, prepara-te para a paz. Se queres a paz, prepara-te primeiro para o diálogo.

1817. Ficamos irritados porque somos egoístas. O egoísmo provê a irritação. Não admitimos que alguém possa tocar em nosso tempo, em nosso lugar, em nosso ânimo, em qualquer aspecto existencial que de alguma forma fira nosso conforto (o qual, na verdade, geralmente não passa de estagnação e marasmo puro e simples). Nos irritamos com a ação que, positiva ou negativa, nos obriga a reagir. Nos irritamos e quase sempre não percebemos a bênção que é ser tocado para além, que é ser turbado mais para dentro, que é ser levado a sentir-se desconfortável: porque é assim que acordamos para a realidade, é assim que a consciência sai da impassibilidade e começa a funcionar com eficiência, é assim que a entropia retroage e retomamos as rédeas do eu. Na verdade, nós não somos irritados de fora para dentro; antes, somos nós quem nos irritamos desde o interior dos nossos afetos, da nossa psiquê tão volátil quanto densa, quando algo ou alguém do exterior “cruza” nosso caminho de ensimesmamento. Somos nós que permitimos e cedemos aos gatilhos da irritação. A irritabilidade é estrutura por nós inconscientemente construída para depois ser por nós conscientemente derrubada: babel de frenesis, orgulho e incomunicações. O único antídoto contra a irritação é o amor servidor. O amor que, humilde, nos ensina a consideramo-nos menores. O amor que inverte as hierarquias do “eu-na-minha-e-cada-um-no-seu-quadrado” e ensina, sem masoquismo algum, a amar a oportunidade de ser irritado.

1818. Quem muita julga, muito deve. O maior disfarce do hipócrita é travestir-se justamente daquilo que ele não é e, então, acusar os outros daquilo que de fato ele é (embora escondido sob a retórica, a imagem e a aparência de baluarte dos “valores” deste ou daquele grupo): é o básico da projeção psicológica e espiritual do mentiroso contra o restante dos homens. E quem muito julga, pouco se julga. Esse caráter rígido e temerário contra o próximo, de quem ele se torna inquisidor, fiscal e xerife, é contrabalanceado com uma extrema indulgência em relação a si (afinal, se a estética está anuviando a ética, que mal tem o meu mal particular se eu defendo publicamente o “bem” contra o coletivo?): não é para gente assim que o Cristo discursou ao falar de sepulcros caiados? Por fim, quem muito julga será julgado. Cuidado com sua dureza de arauto de duros juízos, cuidado com sua intolerância de profeta de falsas profecias, cuidado com seu “sangue nos olhos” que piscam e gotejam raios contra o semelhante, cuidado com sua “faca no dente” deixando as gentes banguelas e cegas: cuidado!, “porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau.” (Eclesiastes 12:14)

1819. O cristão reformado é o católico apostólico que não é romano, porque ele está junto (kata) com todos (holos) e, por isto, não afirma qualquer superioridade entre as igrejas e suas variadas tradições multiculturais: todos os povos, línguas, tribos e nações se abrigam no Calvário, de cujo lenho foram, são e estão sendo construídas milhares de “arcas de Noé” salva-vidas — há aí a barca de Pedro, mas há também as dos demais apóstolos, as de todos os discípulos e as milhões de naus e navios, jangadas, transatlânticos, gôndolas e canoas de toda a multidão visível e invisível de conhecidos e anônimos que a História recorda ou omite. O cristão reformado é o evangélico que não é gospel, porque para ele o Evangelho se faz no Caminho do Sol da Justiça e não no palco sem púlpito mas cheio de holofotes que divide espaço com o palanque. O cristão reformado almeja reformas não como transformação ou deformação, mas como restauração: o reformado reforma tal como o restaurador descasca as muitas camadas das paredes e tetos das capelas milenares que, por secularmente se engrossarem demão após demão, foram pondo gente para fora justamente pela diminuição do espaço útil resultante desses acréscimos… O cristão reformado tem na Sagrada Escritura sua tradição, na Fé suas obras, na Graça seu mérito, em Cristo a humanidade que por ele reza um terminante “ora pro nobis” e na Glória a Deus seu “fim supremo e principal”

1820. Quanto mais estudo, quanto mais leio, quanto mais penso e reflito: mais ignorante me descubro. Meu Deus, Luz Suprema, como são trevas nossas certezas humanas!

1821. Cuidado com julgamentos precipitados! Não te impressiones com aquilo que te pressiona a iniciar qualquer mau comentário. Cuidado com juízos temerários! Não temas não ter respostas imediatas para qualquer pequena questão ordinária. Cuidado com suposições e pressuposições: imaginações, presunções, especulações e previsões! Não jogues dados com a vida alheia, como se uma roda de papo desafortunado e solto fosse espaço e momento para fofoca aleatória cuja única prova é a conjectura. Cuidado com tua língua e com teu pensamento! Não fales, mesmo que saibas tudo fato a fato. Não penses, ainda que só tu ouças tua cognição. O vício da maledicência principia no oculto das opiniões que mantemos quietas até que venha outro — mais covarde e corajoso — e abra sua boca. Toda boca fofoqueira é pior que uma bazuca; é um megafone de pólvora demoníaca: “Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã.” (Tiago 1:26)

1822. Para ter conjugalidade é preciso que marido e mulher se conjuguem.

1823. Uma das atitudes mais belas e raras é quando de fato o povo organicamente protesta e se rebela e se revolta contra a opressão. Porém, isso é raríssimo. Geralmente protestos, rebeliões e revoltas não passam de “revoluções” onde o coletivo público torna-se mera massa de manobra ensandecida e incendiária nas mãos de psicopatas-ideólogos. O povo reunido sempre dá a vitória aos seus “chefes”, pero… el pueblo unido jamás sería vencido…  

1824. Só alcança o equilíbrio quem se equilibra no ponto intermediário entre os pólos desequilibradores. O meio fixo em relação à movimentação circundante é o local-estado onde a sabedoria é medianeira entre o homem e o seu espírito e a sua alma e o seu corpo.

1825. Μεθ’ μν Θεός

1826. Aquilo que não é aceito pela razão gera irritação. O consciente berra suas mentiras quando o inconsciente fala suas verdades.

1827. A cada dia nós nos aproximamos ou nos distanciamos, menos ou mais, de Deus. Por isto, diariamente nós nos aproximamos ou nos distanciamos, menos ou mais, do nosso eu.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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