Esponjas de sol — XLIV

  1. Cachorro algum gosta de osso. O bicho adora é a carne que estava grudada no osso. Ele cheira, lambe e rói não porquê seu paladar tenha predileção por cálcio duro e poroso. Ele quer é a carne tenra e suculenta que envolvia aquele canudo branco. Ele não gosta da caveira do boi. Ele gosta e quer, quando passa desesperado a língua e os dentes no osso, o tecido vermelho e a gordura amarela. Tenho para mim que a devassidão sexual de muita gente nada é senão um farejar desesperado dos afetos: querem amor, mas no açougue das baladas só encontram os restos cadavéricos da nutrição; querem carinho, mas no abatedouro das festinhas só encontram as poucas calorias duma refeição famélica. Mudar os “hábitos alimentares” é preciso!
  2. Teste de fogo: se você não tem assunto suficiente para passar no mínimo duas horas seguidas de papo empolgante com seu par, vocês dois não vão ter “gás” para ir muito adiante. Língua que só beija e não diz “las cosas del alma que despiertan rutinas” está condenada a falar merda na primeira mordida. Adão estava todo jururu solitário no Éden não porquê lhe faltasse fêmea para a cópula mamífera, mas porquê não tinha companhia. E a companhia fala, tem que falar, vive de falar, ama de falar. A companhia fala até calada, se esgoela até sem língua. Sem o vai e vem que chega e que volta dum gostoso diálogo tão natural quanto a nudez, tudo termina em mudez.
  3. A vocação do marido deve ser a vocação da mulher e a vocação da mulher deve ser a vocação do marido.
  4. A serpente do Éden sempre foi excelente gastrônoma. Grand maître de cuisine há milênios…
  5. Nunca suponha nada. Acumular suspeitas e raciocínios apriorísticos na tentativa de julgar uma pessoa ou cenário é burrice. A realidade das coisas pode ser, além do comum, muito simples ou muito complexa. O meio termo quanto ao desconhecido não existe: ou é evidente ou não é evidente; e se não é evidente, não o é justamente porquê não entra na escala do normal corriqueiro. E mais: o “e se…” trabalha contra essas duas possibilidades, porquê o simples é de pronto descartado por sua natureza demasiado fácil, e o complexo por sua natureza demasiado difícil. Junte cada detalhe, intuição, indício e rastro ao seu Catálogo Geral de Modos & Comportamentos, mas nunca faça deles o contorno duma solução. Não conclua na base do “parece ser, porquê isto e aquilo” ou do “já foi assim e assado, então…” Nunca suponha nada. É burrice.
  6. O auto-engano é uma modalidade açucarada de masoquismo. Você dá murro na ponta da faca, mas se deslumbra com o brilho da lâmina. Você dá com a cabeça na parede, mas gosta da nova cor do látex. Você se afoga na piscina, mas se encanta com o peixinho dourado estampado no fundo. Ilusão e insistência. Repetição da própria burla. Looping da própria quimera. Toda vez que você se engana, você racha um tiquinho sua consciência, que vai capengando entre o desejo e a realidade até que um dia a realidade, toda concreta, soterre de repente todo o desejo, abstrato, e duma vez por todas te enterre em tristeza, amargura e, não raramente, em depressão.
  7. Deus ama os esquisitos, os diferentões, os heterodoxos, os tipos “figurinha carimbada”. Deus ama os Forrest Gump deste mundão. Doidos às vezes varridos, mas estrambólicamente autênticos. Loucos às vezes de pedra, mas grandiosamente íntegros. Deus ama as personalidades “sui generis” quando puras. Não à toa, Ele escolheu entre os estranhos seus melhores santos e profetas: malucos-beleza gritando vaticínios nas praças, comendo gafanhotos no deserto, caindo no chão diante de visões do além. Tu deveria ficar preocupado caso esteja assim todo perfeitinho no gel, todo engomadinho feito miniatura de mordomo inglês em dia de chá gourmet…
  8. Pornografia não é coisa de homem não. Pelo contrário: depõe ferozmente contra a masculinidade. É coisa de moleque em ebulição, não de homem pronto para o altar e para enfrentar o mundo com mulher e filhos. Erotismo calcado em imagens e fantasiagem mental é faminto tentado aplacar a fome salivando sobre panfleto de supermercado. Homem que é homem cumpre a rota natural do corpo-a-corpo depois do caminho alma-à-alma. Sujeito que se satisfaz na artificialidade neurônio-a-papel e sinapse-a-pixel está condenado à perpétua puberdade. A pornografia embota e aliena o cérebro e, então, retirando do coração toda a ternura da realidade e toda sensibilidade do toque erótico autêntico, faz do seu usuário um viciadão ao estilo “craqueiro orgásmico”. E todo viciado é necessariamente auto-centrado; como tal, incapaz de amar.
  9. Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. E você aí se exasperando feito pavão despenado para chamar a atençãozinha da Beltraneja ou do Ciclopiano… Adão dormia enquanto o Criador lhe providenciava Eva. A obsessão por alguém ou por um estado sentimental nunca lhe trará pessoas e coisas boas: porquê uma idéia-fixa incapacita a razão, corrompe seu julgamento e cega sua visão espiritual. “Durma”, então. Sossegue, espere e não fique em estado de vigília, à espreita e cata de possibilidades em contatinhos ou ansiedades duma falsa escolha tão definitiva quanto a sobrancelha da moça. Durma como Adão dormiu: não precise, não queira obstinadamente, não deseje ardentemente, não foque nesta ou naquela pessoa tão freneticamente. Nada de alarmes. Nada de alertas. Durma, e quando você acordar — revigorado, despreocupado, serenado — Deus já terá arrancado uma costela do seu lado. Chame a atenção do Pai, porquê a atenção dele sempre e sempre é correspondida com afago, carinho e amor que não tem fim. Com Deus a reciprocidade é lei e, assim como ele é Trino, tratará de “imaginar sua semelhança” em você, fazendo de um indivíduo (você, você mesmo!) um trio com mulher e filho(s). Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. Chame a atenção dele.
  10. Há tanta gente que se ama e se odeia ao mesmo tempo que fica impossível dizer que se desgostam. Quem ama, gosta. Quem odeia, também gosta. Gostar é atribuir importância e focar a atenção e a força da consciência no importante; se positiva ou aparentemente negativa (digo aparentemente porquê tenho quase certeza de que o ódio é sempre qualquer sentimento originalmente bom depois não adequadamente “correspondido”), não importa: importância é que importa. O ódio não é cruel, porquê é inflamado — é passional. A indiferença é cruel, porquê é fria — é desumana. Pois, é isto: o extremo oposto do amor é a indiferença.
  11. A verdade não é uma narração descritiva, literária e abstrata das coisas. Ela é uma força absoluta e total, uma força física até. Preste atenção no gestual do mentiroso (o clássico — nem sócio nem psicopata): gagueira, coçadas no nariz e na orelha, garganta seca, olhos voando por todos os lados e se negando a encontrar os teus, pés e mãos inquietos, tom de voz anormal, tronco em postura defensiva, coração acelerado e desritmado, etc. Se o corpo biológico fica assim tão constrangido com a verdade, como não ficará o espírito?! A verdade, a potência da realidade, é tão poderosa que contraria materialmente todo aquele que se lhe opõe. A verdade constrói e estrutura a natureza humana, harmoniza o metafísico interno com o físico externo; a mentira, destrói e desestrutura, quebra a coerência dentro-fora. É como se o barro que Deus moldou feito vaso fosse desmoldado pelo diabo em pinico e, em fase final de degeneração, é como se o barro modelado voltasse aos montes de argila da beirada do rio, à sua condição original — cheio de bolhas de ar, cheio de palha e mato, cheio de pedrisco, indigno do oleiro…
  12. Você é vocacionado a ser você mesmo. Nenhuma vocação é um encontro posterior com uma ou outra versão sua melhorada ou piorada. Vocação é o caminho que você faz hoje em direção ao seu eu eterno que pode ou não ser conquistado amanhã — o seu eu puro e essencial sonhado e planejado por Deus desde antes do ventre de sua mãe, desde antes do espermatozóide fazer a corte ao óvulo. Não se trata de ocupação ou profissão. Sua vocação é o seu específico chamado à integralidade, à completude, à unidade de consciência e personalidade: ao [pre]enchimento da sua estrutura genética com o máximo de espírito capaz de fazer com que você seja o seu máximo em corpo e mente sãs. Sabe aquele mito pseudo-científico que diz pela boca dos tiozões da Barsa e do Google que as pessoas só utilizam 10% do próprio potencial neural? Pois é a mesma coisa quanto à vocação, só que num nível espiritual. Você é vocacionado a ser aquilo que é. Porém… eis o terrível fato: provavelmente muito daquilo que você chama e diz ser você, não é você. É uma caricatura psico-social (uma personagem mais ou menos introjetada) que o mundo, o diabo e a carne produziram em você. Ninguém pode negar-se a si mesmo durante muito tempo: sua vocação, traumática ou serenamente, hora ou outra vai emergir. Resistir à própria vocação é senda de infelicidade e, caso ela seja poderosa, é caminho de transtornos que beiram à loucura. Você é vocacionado a ser você mesmo: seja!
  13. Esconder sua fé dos seus amigos é como estes maridos infiéis que guardam a aliança no bolso quando vêem passar uma gostosa qualquer na rua. Chega um momento no qual a gravidade já não é a falta da aliança (porquê todos sabem que eles são casados), mas a falta completa da marca da aliança: tanto saem à cata de rabos-de-saia pelas esquinas que o sol mal tem tempo de queimar desigualmente a pele do dedo anular. A gravidade já não é que eles não saibam que você crê de alguma forma em Deus (porquê eles sabem que você frequenta a igreja), mas a falta integral das chagas de Cristo no seu caráter de crente: tanto você está igual a todo mundo que ninguém mais — a não ser nominalmente o pesquisador do IBGE — nota a diferença.
  14. O Diabo é o maior psicólogo/psicanalista/psiquiatra que existe. Freud, um bostinha. Jung, um merdinha. Adler, um bestinha. Lacan, um idiotinha. Rank, um nadinha. Quem manja da psiquê humana é o Tinhoso. Mas, de maneira geral: ele conhece apenas o comportamento padrão do Homem, bem como suas variações excepcionais igualmente padronizáveis. Ele só pode ser pego de surpresa (ser sabotado, então) pelo comportamento de um homem caso este se conheça a si mesmo a ponto de quebrar seus próprios movimentos cíclicos de causa-e-efeito. Satã conhece as estruturas mentais e seus gatilhos, sabe como brincar de “efeito dominó” com as ações e reações humanas internas e externas, sabe metodicamente construir e prever cenários a longo prazo, sabe jogar xadrez com nossas emoções e pensamentos, sabe cruzar por paralelismos idéias conscientes com o inconsciente sem que nós percebamos que estamos rodando a roda do hamster e que, lá na frente, a falsa e nenhum pouco casuística Roda da Fortuna acabará nos esmagando no moinho do pecado. O Diabo não brinca em serviço. Ele fez a anamnese de Adão e Eva e ainda agora põe no divã o seu Zé Pedreiro, a Duquesa de Kent, o professor Yang Hui, a atriz pornô Abella Apple, você, eu e todos os outros 7 bilhões de almas no planeta. Ele anota seus jeitos e trejeitos, suas caras e taras, seus movimentos e inércia, seus gostos e desgostos, enfim, ele põe na ponta do lápis tudo o que for possível sobre o seu todo aparente (porquê, por dentro, só tu e Deus). O Diabo quer roubar sua personalidade, matar seu ser, destruir seu eu: ele quer embaçar sua imagem e desfigurar sua semelhança. Enquanto Deus não for seu oleiro, o Demônio vai tratar de, miligrama a miligrana, arrancar de você a argila limpa e pronta para a roda e substituir por barro sujo de beira de brejo sujo… O Diabo é o maior conhecedor da Humanidade depois do Criador. Invejoso, ele quer recriar a espécie segundo seu reflexo e aparência: para fazê-lo, ele deve transtornar o espírito humano, pervertendo-o o máximo possível; ele deve e efetivamente (ontem, hoje e nos amanhãs que restam) o faz. Para isto, pega um homem de cobaia e o trata como seu camundongo de laboratório: condiciona, desconstrói, reconstrói, recondiciona — destrava latências, lança anzóis ópticos e fisga neuróticos, aperta os calos para ouvir os ais, passa Gelol onde convém amainar, sussurra esganando e sugere coagindo, etc, etc, etc. Em resumo, meu conselho: acerte-se com Deus, “conhece-te a ti mesmo” e escolha a santidade pra já! Com o Diabo a cura é a doença, porquê a loucura humana é a sanidade infernal.
  15. Não. Você não tem que ter sempre e só e apenas “papos inteligentes” com quem ama. Nem só de tiradas geniais e frases de efeito que impressionam a audiência (nos inícios da paquera) vive um relacionamento. Namoro/noivado/casamento não é congresso de iniciação científica com carinho e erudição. Tem que falar sobre tudo um pouco porquê a vida é, sobretudo, o pouco que sobra de tudo que encontramos no dia-a-dia da existência: falar sobre a última leitura, sobre como estava diferente o gosto do sorvete de sempre, contar piada sem graça para rir da própria falta de graça, falar “olha lá o super-homem no céu — passou!”, narrar segundo a segundo como foram as últimas 24 horas, falar sobre o jeito esquisito do comportamento de não sei quem no trabalho, sobre o preço do shampoo de babosa e da costela premium, falar “à toa”: falar sobre tantas pequenas, médias e grandes coisas que fazem da rotina comum e normal de todo santo dia a coisa mais extraordinária para o amor: que fazem querer ouvir a voz do outro falando — partilhando o som do próprio eu, compartilhando o próprio eu. O ordinário ordena o prazer. E é a coisa mais gostosa do mundo você contar para ela uma bobagenzinha qualquer do tipo “você não sabe o que aconteceu hoje!” naquele clima confidente de Romeu e Julieta no balcão. Papo não é tanto o tema formal quanto o conteúdo real; e não é tanto o conteúdo real quanto a intenção espiritual. Uma boa conversa diária salva qualquer relacionamento do buraco, o buraco que começa com o furinho do silêncio seco. Sim. Papo inteligente é a gente sendo gentil e… papeando!
  16. Eva envelheceu sob o peso de meia dúzia de séculos. Maria ficou velhinha já aos cinquenta. Nossas avós, quase todas, ainda envelhecem à moda antiga: cabelos brancos variando entre um prata leitoso e um cinza azulado, pele fina e sedosamente enrugada, o corpo e a idade harmonizando-se numa beleza toda digna e capaz de inspirar reverência, autoridade e sabedoria. Envelhecer, passar dos 70 quero dizer, está esquisito hoje em dia para as mulheres. Está também muito esquisito o próprio viço da juventude nelas, que anda retalhando as formas em busca duma beleza algo “equina” (é “cavala”, que fala?): a suavidade das curvas está cada vez mais muscularmente definida e angulosa, a pele adocicada por água e perfume está rebocada de cremes atômicos, os cílios de sombra e luz estão crescendo como bambu e… a beleza com a qual se nasce e cresce está oculta, quietinha e envergonhada pelas modas produzidas (sejamos francos!) por homens que não gostam de mulher. E vocês, musas e prima-donnas da nossa vida, sucumbem aos delírios duma estética anti-feminina! Não se obriguem a padrões cujos patrões não lhes podem tocar com amor erótico. Vaidades: tenham-nas todas, porquê nós em vocês nelas nos deleitamos. Embelezem-se com as matérias e maneiras mais atrativas dos reinos do planeta! Mas… na adequação temporal, para que não se tornem caricaturas. Volto ao princípio, com uma pergunta: como serão as avózinhas daqui duas ou três gerações? Os netos poderão lhes tocar nos rostos e olhar nos olhos com a doçura quase adoração de quem vê na brancura dos cabelos e nos sulcos da pele um poucochinho da imagem de Deus? Não, vocês não têm que ser Donas Bentas de coque, camafeu e cadeira de balanço à espera do réquiem. Ninguém quer isso. Ninguém com os miolos da alma no lugar [talvez, só aqueles doidões reacionários que não sabem nada de vocês porquê não têm vocês]. Só sejam, se quiserem (sempre, se quiserem), filhas da própria cronologia. A beleza da idade é, paradoxalmente, eterna. A beleza do tempo com suas marcas é imortal.
  17. Você chega a ser um homem bom quando, consciente de que o mundo não se importa contigo, você persiste se importando com o mundo. É a mesma angústia que dói no coração de Deus. O mundo é de certo terrível e odioso, mas ainda assim você o ama.
  18. Não tenha pressa. O café às vezes tem que esfriar, o ônibus tem que ser perdido, a camisa não tem que ficar passada, o médico tem que faltar à consulta, as coisas da existência têm que passar para que fique a vida. Não tenha pressa, não se afobe, não fique ansioso. O café quente é para ser dividido, o caminho tem que ser feito num passeio à pé, a camisa não é a roupa mais adequada e a dor no tendão vai passar por si mesma sem que você precise gastar uns trocos além do orçamento. Não tenha pressa. O que vai de nós e se esvai nos outros é porquê tem que ser, às vezes. Se você esquenta a água, põe o pó, coa e serve na caneca e ainda assim esfria, é porquê era para esfriar. Se você acorda no horário, corre cinco quarteirões e chega no ponto vazio, era para perder. Se você passa o linho todo retinho e assentado pelo ferro e ainda assim as rugas se embrenham no tecido, era para enrugar. Se o médico não aparece para o check-up, era para faltar e a dor persistir. Todo acontecimento — atos ou fatos — está eivado de porquês que desconhecemos. Só não tenha pressa, faça sua parte: Deus ajuda quem cedo madruga, mas Ele é quem dá o sono e o galo despertador. Não tenha pressa e labute dentro das suas possibilidades, que o melhor (para sua alma, sobretudo) sempre acontece.
  19. Organize primeiro seu mundo físico. Ponha seu quarto em ordem. Dê jeito na pia. Arrume os livros na estante. Regre-se com horários e datas. Limpe, distribua, catalogue, disponha, estruture, componha, asseie. Elimine o caos. O ritmo e o hábito físico vão vagarosamente se impregnar no seu metafísico: a vontade vai se fortificar, o desejo vai amainar; você espelhará sua conduta corpóreo-material no seu incorpóreo-imaterial. Seus afetos vão se racionalizar, suas paixões e vícios vão recrudescer; sua moleza, sua preguiça, sua vagabundice — sua acídia! — vão se esvaziar até que a fortaleza, o auto-domínio e a consciência assumam o controle.
  20. Não é coisa desejável fazer testes para avaliar o relacionamento, mas… parece-me que o “tiro e queda” seja mesmo a ausência. Se você sumir do mapa, desaparecer do nada, o outro deve ficar desesperado caso realmente se importe contigo, afinal, teoricamente, a rotina dele foi tremendamente alterada com sua falta. Se ele, porém, não mover senão uma ou outra palha e mal esboçar um ou outro “hei, cadê você?” (direto ou indireto), você tem tanto valor quanto um punhado de sal na boca do cavalo.
  21. Nós somos como aqueles bonecos russos, as matrioskas: uma camada superficial, uma cópia inflada e oca mais imperfeita por fora, recolhida dentro de outra e de outra e de outra até que se chega à original, menor mas maciça e refinada no desenho. Perceba como você age e reage no dia-a-dia. Perceba a desconexão entre seu sentimento profundo em relação às coisas e o quanto e como você o transparece. Dos sorrisos amarelos e meramente educados diante duma piada sem graça, que lá no fundo às vezes gera antipatia e até asco, às simulações completas (teatrais, caricaturais, empurradas com a barriga do ego) que quebram a autenticidade da sua personalidade. Entre seu “eu central” e o seu “eu periférico” há um filtro, o filtro do condicionamento psíquico-social. É preciso rompê-lo. É preciso que você não sorria apenas por educação. Não, não é para fazer uma cara feia condizente com seu estado interior objetivo. Tem que sorrir sim. Porém, é necessário que seu estado interior, que sua consciência, admita que subjetivamente quem lhe contou a piada o fez talvez com bom grado e que esta atitude gentil merece um sorriso. Daí, você terá um sentimento genuíno (interno) capaz de gerar uma igual ação genuína sua (externa). O filtro não tem que deixar de filtrar. As camadas do boneco não podem deixar de existir, mas entre uma e outra o que passa por uma tem que fluir necessariamente por todas as outras, feito um fiozinho retilíneo e intangível do seu eu que é, que foi e que será — sendo, sendo e sendo.
  22. Só podem durar as coisas, as pessoas e as situações que surgem imperceptivelmente. Tudo aquilo que é arroubo, que é de repente, que é epifânico: se esvai no ar com a rapidez com que deu as caras. Aquilo que começa de mansinho, na serenidade que avança tateando no espírito, dura muito e quase sempre dura para sempre. Você está lá e, conforme tudo passa, aquilo fica, aquela pessoa fica, aquela situação fica. Você mal viu o começo, mal discerne o ponto de largada: e por isto não verá o fim, e por isto não verá a chegada. O amor tem mesmo que se esgueirar na alma, como um banho dado gota a gota em cada grãozinho de areia do deserto. O amor tem que ser aquela lava telúrica que percorre toda a cama oceânica entre as águas geladas sem muito amainar na temperatura, naquele vagar constante próprio dos poderosos. Quase não se notou, mas está ali no esplendor da própria grandeza, bombeando vida na própria vida. Só dura o que se acrescenta no dia a dia segundo a segundo, o que se aumenta no passo a passo milímetro a milímetro, o que se adiciona de invisível a invisível toque a toque.
  23. Cada qual com sua miséria, com seu calo onde lhe aperta, com seu pecado, com sua falha. Cada um com sua canequinha de mendigo diante do mundo passante. Há qualquer coisa de pedinte em todos nós. Estamos maltrapilhos diante de Deus. A madame veste Dior, o porteiro TorraTorra, o príncipe tem alfaiate próprio, o playboyzinho JohnJohn, a menina pobre sequer etiqueta tem no vestidinho de chita. Farrapos do Éden. Panos de imundície. A mesma mortalha de indigência espiritual a todos veste sem cobrir: ao cabo, estamos todos nus diante do Rei do Universo… Onde está, ó marca, a tua vitória? Onde está, ó grife, o teu aguilhão? Louvado seja o meu Senhor, Jesus de Nazaré, o da túnica inconsútil!
  24. Gente de coração mole, “manteiga derretida”, é coisa linda de se ter do lado. Não, vocês não são bobões chorões não. Vocês são a parte doce da lágrima salgada. Continuem pondo para fora a alminha de vocês, porquê este mundão está carente desta afetividade inocente. Melhor suar emoção pelos poros que bombear gelo no peito. Melhor se comover diante de “coisinhas sem importância” que ter a sensibilidade dum cacto.
  25. A vaidade da moça de sutiãs abertos com seios arfando e com sua boca-bico à Angelina Jolie tirando selfie diante do espelho da boate é maior que a vaidade da moça pudica que desfila toda-toda exibindo sua “modéstia” de grife italiana pelos corredores da igreja? A vaidade do playboyzinho pseudo-fazendeiro tirando racha com a Hilux do papai é maior que a vaidade do pastor todo empoado com sua oratória de locutor do Love Songs, seu terno de duzentas pilas e seu sapato de cromo paraguaio reluzindo à graxa de R$ 1,99? A vaidade, a vaidade das vaidades, não tem nada a ver com o que vai por fora. Tem a ver com aquilo que está lá dentro e vai brotando para fora… O exterior é mero indício do interior. O Evangelho muda o exterior, mas muda primeiro o interior.
  26. Mulher de temperamento difícil é, quase sempre, um grande desafio que vale a pena. Por detrás de toda ferocidade, de toda explosão passional, de toda “violência”, repousa silencioso o fato que geralmente nos escapa: um amor tão desmedido que excede a “linearidade” dos comuns (e chatos) bons sensos. Sabe como elas tratam as crianças de colo, com apertões insistentes, beliscões pontiagudos e com outros aumentativos de substantivos tão substanciais quanto bem “físicos”, que chegam às raias das mordidas e da “brutalidade” mais destemperada? É a mesma coisa conosco. E quem se atreverá a negar sua alta natureza amorosa? Claro que estes ímpetos não são para sempre e para todo o tempo, mas aquilo que os move (e porquê os move) é para sempre e para todo o tempo. Mulher de temperamento difícil, uma vez domado e apaziguado com mais amor, é fonte do carinho mais poderoso para um homem bom. É deste amor que Salomão falava quando escreveu que “o amor é mais forte do que a morte.” Por que? Porquê ele é todo vida — vida abundante, vida ardente, vida temperamental, vida difícil…
  27. Compartilhar seus buracos, suas brechas, seus trincos, suas frestas, seus pequenos vácuos, as arestas onde as peças não encaixam. O grande desafio dos relacionamentos: ser capaz de por terra fértil no buraco e ali cultivar um jardim, lapidar granito para a brecha da muralha, encher o trinco da porcelana com ouro como fazem os ceramistas japoneses, arranjar argamassa para a fresta ou expandi-la como uma janela-mirante, retirar da própria oquidão matéria para cobrir o vácuo, recortar a peça que falta para compor este sempre inconcluso quebra-cabeças do coração. Se você não está disposto a isto, cairá no buraco, a flecha lhe acertará, o chá vazará ao primeiro gole, o ladrão roubará o tesouro da torre, o vazio se encherá com o monturo do mundo, peça alguma se encaixará e sequer se chegará a saber qual era o desenho delineado nestes mistérios de incompletude. Cada qual chega diante do outro com suas questões inconclusas e não haverá possibilidade de serem uma só carne enquanto a compatibilidade for meramente anatômica, enquanto o feromônio corporal não se ajustar ao perfume do espírito, enquanto aquilo que entre um e outro existe é o tanto e o quanto da própria solidão despistada com companhia e tempo repetidamente perdidos.
  28. Deus nos faz chorar. Ele nos faz sofrer. Ele nos suscita dores. Deus revolve espinhos em nossa carne, salga nossas feridas, cauteriza a ferro e fogo nossas chagas. E Ele colocará e tirará pessoas do nosso entorno para isto: gente boa e gente má. Ele lhe fará ter a companhia dos santos e dos ímpios a um só e mesmo tempo: e aí, a sua conduta se amoldará pelo bem no mal. Ele lhe fará ser traído pelos injustos para que você se apoie nos justos que desprezou e seja também um justo. Ele lhe fará ser beijado pelos hipócritas para que você valorize o ósculo dos sinceros que abandonou e seja também um sincero. Ele lhe fará comer e vomitar o bolo confeitado pelos exóticos da terra para que você coma com satisfação o pão dos simples e seja também um simples. Deus lhe fará derramar lágrimas salgadas e quentes para que você refresque aquela sua alma outrora doce, agora amargamente abrasada pelo mal. Ele lhe fará gemer. Ele lhe fará berrar ais silenciosos e sonoros. Deus mexerá com seu corpo para remexer seu espírito: de fora para dentro, do exterior para o interior. Ele lhe fará primeiro perder objetos materiais; depois, acontecimentos e pessoas. Ele lhe alijará daquilo que lhe impede de ser santo. São avisos: de início, sussurrando, pequenas perdas; depois, falando, médias perdas; por fim, bradando, grandes perdas. Seu carro lhe movimenta em direção ao vício? O motor fundirá. Seu computador lhe catapulta para o pecado? A placa-mãe estourará. A festa será ocasião para mais iniqüidade? Você não conseguirá ir ou ela não acontecerá; e caso aconteça acabará mal. Seus amigos lhe desencaminham? Você os perderá; de uma forma ou outra, cada um deles será neutralizado. Quem ou aquilo que lhe afastar de Deus será removido, permanente ou provisoriamente, para que Ele substitua a pessoa e a coisa na sua existência e, então, lhe conceda vida real. Deus fechará o cerco com choro, sofrimento e dor. Ele tomará seu falso eu de você para que você seja efetivamente você. Ele baterá severamente no barro sujo para que a argila fique limpa e suave para sua roda de oleiro. A pedagogia divina, principalmente para turrões e teimosos recalcitrantes, é literalmente “flagelo no lombo”. Deus lhe ama e, por isto, como Pai que é, precisa arrancar do marmelo uma boa e rija varinha…
  29. Aprofundar-se numa alma é muito mais difícil do que penetrar um corpo. É por isto que estão todos aí babando carência na mesma proporção em que comem e se mastigam uns aos outros. Todos canibais e vampiros, ainda que incapazes de digerir carne e sangue. Todos se regurgitam, entre vômitos e cuspes que vêm e vão conforme o paladar da líbido baixa — conforme eles se rebaixam. Fertilizar um óvulo é tão fácil quanto estourar um balão, e os chimpanzés adestrados de qualquer circo sabem fazer tão bem um quanto outro. Você pretende, então, ser um bicho paritário a um macaco, um hominídeo destes desenhados nas cronologias da Evolução? Só um macho com um “porrete”? Semear um coração e torná-lo livremente cativo da chuva, do arado e da foice é coisa apenas dada a homens tementes a Deus fazê-lo. Uns preferem estufas e boates, tubos de ensaio e camisinha, manipulação genética e anticoncepcionais. Nós, que ainda somos gente com alma, fizemos a opção pelo caminho antigo das estações e das igrejas, do sexo com amor e totalmente nu, da abertura à vida terrena e à Eternidade. A menina definha porquê lhe cortaram a beleza para o vaso antes que terminasse de desabrochar; depois a substituem por uma cópia de “plástico”. O rapaz mirra porquê lhe amputaram a fortaleza para o pragmatismo antes que terminasse de amadurecer; depois o substituem por uma réplica de “halteres”. Esta conversa de confessor e penitente não é sobre moralismo, sobre céu e inferno ou sobre qualquer teologia barata baseada em punição ou em mecanismos de repressão mental. Nem religião, nem psicologia. Nada além da realidade toda crua e toda nua alertando para o ponto do cozimento da sua existência e para a temperatura da sua vida. Estou lhe dizendo estas coisas porquê elas delimitam ainda mais os seus limites enquanto indivíduo. E certamente chegará o dia, fatídico e terrível, em que você já não poderá refazer o caminho de volta…
  30. Ajudar com as pequenas tarefas domésticas, tornando-as prazerosas não pelas ações em si (limpar, passar, cozinhar), mas através dos porquês aos quais elas se destinam (confortar, vestir, alimentar), é um dos ingredientes prévios que homem e mulher devem levar das suas existências de solteiro para sua vida de casados [atenção aos plurais e singulares!]. Aspirar pó pode ser chato, labutar com o ferro elétrico pode ser maçante, esquentar as panelas pode ser aborrecido; mas dormir num quarto asseado é agradável, mas usar uma camiseta cheirosa é estimulante, mas comer o prato preferido é delicioso. Rapaz que não ajuda a mãe com a louça na pia e moça que não ajuda o pai com a caixa de ferramentas, e vice-versa, não sabem o valor de um copo limpo na mesa de jantar e da água quente do chuveiro depois de um dia de suor. Assim, eles não chegarão a ser esposo e esposa. Sem varal e varreção, não há varão nem varoa. Não basta ser casal e acasalar para casar: tem que saber cuidar da casa. Juntos, apenas juntos nestas atividades rotineiras, eles serão efetivamente os senhores do lar.
  31. Todo intelectual verdadeiro tem apegada à sua vocação para lidar com as coisas imateriais uma vocação para lidar com as materiais, um talento para “ofícios mecânicos”. Um grande literato pode também ser um cuidadoso jardineiro, um filósofo pode passar dias inteiros na forja como mestre ferreiro, um professor universitário é capaz de ser esmerado marceneiro, um estadista pode ser exímio ceramista, um poeta pode ser excelente lenhador. Não só podem, deveriam e devem. Por que? Porquê a abstração sem o contato constante com o real, com o mundo físico, cria aberração. A genialidade das mentes com alta capacidade imaginativa (capaz de fazer malabarismos com o “ser”) precisa ser contida e moldada pelas estruturas das coisas como elas são (os malabares dos “entes”).
  32. Quem te faz ser menos você, não pode te fazer feliz. Quem suprime da tua personalidade as características mais profundas e naturais (aquelas que são seu potencial máximo e melhor de grandeza humana), por conveniências pontuais ou por exigências pseudo-morais, não pode naturalmente se aprofundar em você. Anular no outro as belezas tão diversas quanto especiais da individualidade é negar à pessoa os presentes que Deus lha concedeu antes mesmo do espermatozóide fazer a côrte ao óvulo. É deprimente a quantidade de homens e mulheres que levam “vida dupla”: são expansivos, vivazes e extraordinários no desempenho do próprio ser quando estão libertos do olhar castrador do “companheiro”, mas basta que as retinas da censura marital surjam no ambiente para que a alma se recolha à sua ostra de silêncio e melancolia. Quem te faz ser menos você, não pode ser um com você: ser “uma só carne” não é ser “uma só personalidade”.
  33. Quantas pessoas bobas de tão boas nós não ignoramos simplesmente porquê babamos por pessoas malandras de tão más. Quando nós nos afastamos de quem presta por quem não presta, fica evidente que nós não apenas nos aproximamos dos ruins por mera atração: fica evidente que nós nos atraímos pela nossa ruindade espelhada nos outros. A malícia cá de dentro milita pela malícia aí de fora. Quem chama o meigo de tolo, quem repele o ingênuo, quem desfaz do inocente, quem se estimula com a astúcia: quem isto faz é que é tolo e bruto, é velhaco e repelente, e é malicioso ainda que despiste isto (oh egóico auto-engano!) com discurso virtuoso.
  34. Papai e mamãe levam os filhos para ver o Papai Noel no shopping. Mas papai e mamãe não levam os filhos à igreja para saber do tal do “aniversariante”. Vocês estão dando presentes e mimos porquê (vamos ser sinceros?) vocês são pais ausentes de filhos mimados. Onde a “noite feliz” nesta diária infelicidade mercantil? Cadê o “sino pequenino” nesta surdez espiritual? O presépio não tinha renas, nem duendes, nem pisca-pisca, nem regalo algum senão o pobre Menino-Deus entre gado e pastorinhos sob uma estrela. Um dia, talvez logo ou talvez só na longínqua velhice (nas suas e nas deles), ainda vão ter que orar muito para o Bebê-Crucificado. O ho-ho-ho pode acabar num ai-ai-ai.
  35. Eu entendo perfeitamente o coração do Daciolo. Tem dias que minha vontade mais visceral também é só dizer (repetidamente, até sem parar): “Glória a Deus!” É assim mesmo.
  36. Deus está em todos os lugares. O diabo, em qualquer lugar.
  37. Diariamente nós afugentamos da nossa mente centenas de pensamentos “incômodos”. Pensamentos ternos, pensamentos tenebrosos, pensamentos bons e pensamentos maus, alternativas nunca testadas e obsessões que não podem sequer serem provadas, amores confinados a sentimentos aqui e ali reprimidos, ódios soterrados no abismo da consciência, possibilidades desejadas e medos pavorosos com seus terrores e suores. Nós temos pensamentos de todas as ordens e desordens que incomodam e, porquê incomodam, covardemente nós damos logo um jeito de esquecer e, já no instante em que ocorrem, tratamos de “pensar outra coisa”; e nós artificialmente pensamos outra coisa, criando do semi-nada um assunto para nos distrair do enfrentamento com o outro pensamento, com “aquele pensamento”. E lá vamos nós a ziguezaguear a atenção pelos neurônios até que, de repente, voltamos ao tal pensamento, retrocedemos outra vez àquele maldito pensamento incômodo. Forçamos a barra e, a custo de muita força mental, empurramos mais uma vez o indesejado para debaixo do tapete psíquico. O dia acaba, dormimos, acordamos e a atenção acorda mais ou menos focada noutra e qualquer coisa. Mas, boom!: horas ou dias ou meses e tempos depois, sob a pressão da importância que nós atribuímos a ele sem contudo admiti-lo, ele volta. O pensamento incômodo sempre volta para incomodar. Solução? Conheça-se a si mesmo, passe em revista sua consciência, faça diariamente uma bem racional “operação pente-fino” na sua volição, na sua intuição, na sua (vá lá!) meditação. Pensamentos incômodos só incomodam gente acomodada.
  38. Esqueci teus olhos passando por eles todo os dias. A rotina apagou de mim tuas retinas. E aquilo que me era o farol entre águas e trevas, hoje é um par de olhos como os olhos de qualquer uma na multidão das rotinas ensolaradas. Esqueci me esforçando para esquecer, desaquecendo o coração, forrando o cérebro com as páginas sagradas. Esqueci teus olhos, piscada a piscada, como se aquela areia dos olhos sonolentos me tomasse a consciência da visão a cada encontro, cada encontro que se desencontrava a cada reencontro de íris reciprocamente cegas sob luz ideal.
  39. Como estão porcas e degeneradas as relações. Como estão porcos e degenerados os corações! As camas são lamaçais, as almas são pocilgas. Os corpos são belas mas ocas estruturas: os espíritos são carrancas e espectros de feiura. Puta que pariu!
  40. Então, eles apontam para você e dizem “lá vai o sonhador, o bobo, o louco, o esquisito”? Eles fazem piada da sua conduta, dos seus modos, do seu comportamento? Então, você desanima quando debocham da sua fé e dos seus princípios? Então, porquê lhe creem um palhaço, uma criatura exótica, você esmorece o coração? Sossegue! Não tergiverse, não ceda, não baixe a cerviz, não se renda. É tão melhor ouvir a gargalhada do mundo e ainda assim poder contar com o sorriso de Deus…
  41. O pecado dum santo é como um arranhão numa jóia de ouro. O risco é evidente, mas o dano, por outro lado, revela que sob a superfície dourada tudo é ouro. O pecado dum santarrão é um arranhão numa falsificação, numa bijuteria. Basta lacerar a superfície para descobrir que por debaixo do banho de ouro o material é ordinário e barato.
  42. Hurt é Salomão se lamentando. É o Eclesiastes do Cash.
  43. As coisas fáceis que vêm fáceis são só coisas que se vão facilmente. Coisas fáceis não exigem força de vontade, não pedem zelo, se dão como putas de esquina de estômago vazio. As coisas difíceis, estas sim, pedem que você seja destemido, que seu coração seja valente e um tanto puro, e só se entregam como a donzela da torre cuja alcova só se alcança depois que o cavaleiro degola o dragão. Se você não está preparado para renunciar às facilidades, tudo será dificuldades; tudo será mediocridades sem valor, inúteis e vazias. Se você renuncia às bobagens ordinárias e enfrenta a si mesmo e ao mundo, a grandeza cairá nos seus braços. As coisas difíceis que vêm difíceis são coisas que permanecem, que permanecem para sempre.
  44. À fórmula clássica da jura de casamento deveria ser acrescentada mais esta condicionante: “na sanidade e na loucura.”
  45. Meios-termos, conversas moles, papo pra boi dormir, vagueza. Poucas coisas são tão terríveis para a alma quando o suspense das indecisões, das conversas não terminadas, do não dito no dito. Quando a hesitação é permanente, quando não ata nem desata, quando não caga nem sai da moita, quando nem vai nem racha: toda dor, por mais miúda, se torna um suplício; e toda espera, ansiosa, devagarinho míngua em desesperança. O drama do saber-não-sabendo faz tanto ou mais mal que a certeza que entristece, machuca mais que a clareza afinal adversa. Só quem já ficou com a alma pairando neste vácuo de [in]significâncias, só quem já ficou vagando feito espectro caçador de corpo, sabe o quando a expectação que não termina é das angústias mais pesadas que o coração pode suportar. Por isto, cá meu conselho mais sincero: diga, fale, explique, converse, esclareça, verbalize, chame, conte, deponha, recite, declame, dialogue, responda, retruque, lecione, evidencie, exponha. Não deixe nada na penumbra, porquê as trevas da dúvida esganam…
  46. Mesmo as mulheres esteticamente muito parecidas podem ser muito diferentes quanto à percepção que temos de sua beleza. Dou um exemplo: conheço duas morenas, de cara e corpo praticamente idênticos no talhe físico: desenhos, ângulos, curvas e harmonias de igual medida e feitio. As duas são muito bonitas e, como dito, quase gêmeas na aparência. Uma delas é boa menina, a outra pertence àquela cepa das “da pá virada”: todo mundo que olha para a primeira diz que ela é linda e todo mundo que olha para a segunda diz que ela é “boa” naquele sentido mais sem-vergonha da palavra. Qual a diferença? O porte e a postura, o ser denunciado pela personalidade vazada tanto nos pequenos quanto nos grandes gestos. Não se trata da proporção áurea regulando os números e distribuições anatômicas. Não se trata de simetria material. É algo mais profundo, sob e sobre o véu da carne. Trata-se de caráter. E que coisa bonita é um caráter bonito!
  47. Esta é a geração que menos calafrios tem tido na espinha. Nada lhe excita a alma a ponto de fazer esse impulso de calor-e-frio percorrer a coluna dum extremo ao outro. Quem por aí ainda se arrepia de elevação, de maravilhamento, de admiração? Sequer os namorados têm sabido o quê é este deslumbramento que cavouca seu leito medular entre o corpo e o espírito, que atravessa a carne com um punhadinho de comichões feitos de luz eterna. Que tristeza…! O sujeito pode dormir sob um céu como aquele da “Noite Estrelada” de Van Gogh, pode dormir ouvindo a namorada lhe cantar, nota a nota e ao ouvido, o “Luar do Sertão”, bem depois dum banquete farto de carnes gordas e vinhos velhos, e… ainda assim o miserável não vai sentir nada de sideral no corpo. Nada, nada, nada…!
  48. A gente começa bebê balançando no berço e nos braços dos nossos pais, fica criança brincando no balanço da praça, fica adulto balançando de paixão a cama e, então, fica velho na cadeira-de-balanço. A vida é uma balança. Nós somos o peso. O balanço é o pêndulo do tempo e o prato da justiça. É o movimento de ir e vir da vida, que mede nosso envelhecimento e julga nosso amadurecimento. A gente balança no barquinho com Jesus e com Pedro. Aqui, a gente balança entre a fé e a descrença, entre a espada desembainhada e o canto do galo. E nós balançaremos, assim, até que um dia o colo seja o do Pai, até que o parquinho seja o Céu, até que o amor seja a visão pura dos santos, até que a serenidade não seja a quietude dum corpo alquebrado pela biologia entrópica mas sim aquela paz toda potente do corpo glorioso. Eu balanço porquê me balançam e porquê balanço os outros. Todo este balançar, porém, é um movimento ascendente em direção à Eternidade. Que cada um deles seja mais que um giro de 180o graus, físicos ou metafísicos. Que cada balançar seja a oportunidade dum sono de neném, duma alegria infantil, dum gozo carinhoso, duma sabedoria provada. Que seja a oportunidade de dizer “oi, Deus.”
  49. O desejo do bem faz surgir o bem. Não se desespere. Se o seu coração anseia sinceramente por coisas boas e bonitas, Deus tratará de por bondade e beleza na sua vida. O querer modesto, de aspirações legítimas e silenciosas, quer sempre aquilo que também quer Deus para nós. Sem grandezas falsas, sem megalomanias, sem as superficialidades vaidosas das cenas e contracenas do mise-en-scène das massas e maiorias. Você quer um amor, um lar, uma existência daquelas de “moringas de água fresca” e de “vestidos de linho azul da esposa amada”? Sossegue. Só continue a desejar e a querer. Pelo menos mantenha guardadas na alma estas “aspirações altas e nobres e lúcidas.” Desejar-e-querer é o primeiro passo para conquistar-e-obter, porquê estes nossos anseios íntimos moldam finamente nossas ações tanto quanto às finalidades da existência quanto aos finalmentes da vida. Não se desespere. Sossegue.
  50. Nem sempre é o objeto ou a pessoa. Às vezes é a distância que faz com que atribuamos valor às coisas. Se existíssemos na Lua, à noite nós olharíamos para a Terra e comporíamos canções, poemas e laudes à uma vida por lá. Ícaro teria querido atingir a imensidão azul a partir do satélite prateado. As óperas italianas não cantariam “que bella, que bella luna”, mas sim “que bella, que bella terra”. As crianças brincariam de missões espaciais para cá e os astronautas quereriam fincar suas bandeiras não nas crateras largas e cinzas da “rainha da noite”, mas nas nossas florestas oxigenadas e verdejantes. A imagem do queijo furado seria a do próprio habitat: a terra seria o disco azul lá em cima, quase boreal na cor de opala e aurora. Parte fundamental do amadurecimento da nossa vida adulta (afetiva, sobretudo) consiste em saber separar a aura romântica das coisas das coisas em si mesmas. Muitas vezes, o valor é dado às pessoas e aos objetos em função dos objetivos que ingenuamente idealizamos e do quanto eles são ou estão distantes. Queira o objeto por ele mesmo, esteja ele a centímetros ou a quilômetros de distância. Queira a pessoa por ela mesma, esteja ela a um passo ou a um continente de distância. Sonhar acordado, entabulando quimeras e miragens insufladas por afastamento (e, então, pelo critério disponibilidade/indisponibilidade), é tolice.
  51. Existe consciência pura. Não existe inconsciência pura. Existe consciência impura.
  52. Valor deve ser dado a quem sabe o preço das coisas, a quem sabe a quantas mls de suor equivale a xícara de café, o arroz e o feijão, o celular, o sapato, as coisas todas à venda. Valor deve ser dado a quem escolhe um tecido menos caro para poupar a carteira na carteira de poupança. Valor deve ser dado à menina que rala o dia todo para pagar a faculdade, que sai do serviço e vai direto (sem banho) para a sala-de-aula. Valor deve ser dado às donas de casa que remendam panos, que costuram colchas e tapetes com retalhos, para dar uma “roupa de missa” pros filhos. Valor, muito valor deve ser dado a quem, mesmo com o orçamento apertado, economiza para fazer gentilezas à esposa, aos filhos, a quem quer bem. Valor! Nada é sobre dinheiro. Tudo é sobre sentimento.
  53. Não é tão difícil: os olhos duma pessoa profunda são também profundos, e diante deles a gente estagna como se olhasse para dentro dum abismo, um vórtice infinito de segredos que se revelam conforme a visão é mantida íris-à-íris. São ternos e firmes, e mesmo que olhem fixamente para determinado ponto, parecem irradiar sua atenção por todos os ângulos e perspectivas. Olhos profundos parecem-se um tiquinho de nada cansados, mesmo que estejam totalmente dispostos: eles têm uma densidade metafísica, carregam o peso da consciência que, mesmo leve, pesa muito mais que a consciência dos frívolos. Olhos profundos se aprofundam nos nossos e aumentam nosso próprio limite de profundidade: eles cavam, escavam, cavam e escavam o limiar do nosso espírito até que a matéria dos nossos nadas fique palpável e a córnea translúcida como o véu do templo de Deus. Olhos profundos são dois fragmentos iguais e perfeitos daquela mítica pedra filosofal. Se você encontrar por aí um par destes, roube-o para si.
  54. Sou da opinião de que aos votos matrimoniais deveria ser acrescentada mais uma jura, esta: “na sanidade e na loucura.”
  55. Esteja pronto para não estar preparado. Imprevistos acontecem e o leite acaba derramado. Só não esteja despreparado para ajuntar os pedaços da xícara quando ela também for pro chão. A vida não é tanto sobre acertar: é mais sobre como passar o pano e recolher os cacos, é sobre como lidar com o erro. O passado, sempre passou e continuará passando. Mas, e o futuro? E o presente que embesta e desembesta o futuro? O mais importante é continuar comprando e esquentando o leite, é não trocar a porcelana por vidro grosseiro ou plástico, é não deixar de insistir nas coisas boas porquê um dia o percurso se acidentou com o nosso “mau jeito”.
  56. A gente também tem temperatura. A gente também fica quente, frio, morno, gelado, fervendo. E a gente sabe disso porquê nosso espírito é um termômetro: os graus celsius da consciência sobem e descem todo santo dia… A gente tem coração, onde cai fogo e saraiva. E a gente tem cérebro, onde neva e o vento corta. O amor, a ira, o carinho, a insensatez, o desprezo, a bondade, a maldade e todo o mais com ou sem simpatia e antipatia — também com ou sem empatia — queimam e congelam nossos afetos. A gente tem o verão e o inverno no peito e na cabeça. A gente… é gente. E gente tem destas coisas: estes 8-80, estas contradições, estas ausências de primavera e de outono, estas temperaturas de Saara e Ártico que por mais que se toquem raramente produzem uma alma morna, moderada. A gente geme por ser gente, gente polarizada, mas Deus sorri disto porquê hoje Ele também é “meio” gente. Deus é o nosso equilíbrio térmico: se a temperatura está baixa, Ele é a lareira quentinha do nosso quarto; se está alta, Ele é a fonte de água fresca do nosso jardim.
  57. Mais do que compatibilidade nas virtudes, é preciso ter compatibilidade nas imperfeições. É fácil simplesmente idealizar as coisas e dia e noite aspirar à perfeição, à uma vida tão “certinha” quanto irreal. O difícil, mas necessário, é aceitar o outro com seus pecados passados, com seus vícios presentes e com tudo aquilo que disso tudo ainda vai reverberar no futuro. Amar é acolher no outro seus erros e defeitos para construir na vida a dois uma parceria de acertos e aperfeiçoamentos. Amar é fazer ajustes permanentes, é cortar na carne, é amassar e moldar o barro sujo, é esquecer e tolerar, é acariciar as chagas e as feridas mal cicatrizadas que ainda marcam a pele sedosa: é sofrer e, sofrendo, encontrar até nas dores do pecado os motivos maiores dos prazeres e das alegrias da santidade. Qualidades afins valem muito para quem quer morar no céu. Mas as falhas em comum valem muito mais para quem quer levar consigo o cônjuge para o céu. Ainda estamos na terra. E aqui na terra o amor serve para purgar, para limpar, para purificar. A única coisa incompatível é o desamor. Todo o mais se ajeita. Todo o resto se ajusta.
  58. Vi agora à hora do almoço um velhinho engraxando os próprios sapatos. Descalço, aos pés duma escadinha, defronte à própria casa. Estava de meias, verdes ou cinzas. Roupa social: camisa branquinha como a neve, calças dum cinza amarronzado. Do lado, um chapéu puído de pele de lebre. Dava para ver, pendendo do lado, um velho relógio de bolso, um “patacão” prateado. Cabelos azuizinhos-céu de tão brancos. Mais de 80 anos, com certeza. Deu gosto. Depois dum sorriso feminino que vi pela manhã, esta foi a imagem mais bonita do dia. Já tinha um tempo que eu não encontrava, pelas ruas de Pindorama, um destes avôzinhos à moda antiga, cavalheirescos. Sobrou cá comigo uma pergunta: como seremos nós, os avôs do futuro?
  59. Há muito que percebi que, nas mulheres, certo sono, certos bocejos, certa letargia ou dengo corporal, estão intimamente ligados ao coração, a um desassossego interno que tanta energia consome no lado de dentro que pouca vontade sobra para os gestos do lado de fora. Este silêncio quase onírico acomete aqueles dias de reflexão. É um período muito sentimental, quando (talvez elas não saibam) a gente mais consegue enxergar o que de angélico elas carregam no coração. Muito sútil, mas muito forte. Muito sereno, mas muito poderoso. A beleza delas fica tão evidente quanto devia ser a de Eva nos primeiros segundos quando ela se percebeu existente.
  60. Há mais coisas entre o silêncio e o grito duma mulher do que pode sonhar nossa vã filosofia masculina. Engana-se o bocó que acredita que as coisas acontecem do nada com elas: a coisa não está “boa” e de repente fica “ruim” do nada, num zás-trás que transforma a ursinha-carinhosa num satanás de saias. É tudo muito gradual, mas duma gradualidade comprimida, ultra-compacta: é como se elas tivessem dentro de si um termômetro absurdamente progressivo, mas cuja velocidade entre o zero grau e o calor absoluto se atinge muito rapidamente. É um processo lógico, mesmo que suas etapas nos escapem pela ligeireza. Se elas mesmas fossem capazes de equacionar toda a cadeia de argumentos que se sucedem concomitante e sobrepostamente um ao outro, sim, senhores: nós muito frequentemente estaríamos ferrados.
  61. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  62. Pessoas temporárias são aquelas que marcam horário para você. Afinal, você é só mais um atendimento, às vezes incômodo. Pessoas para a vida toda desmarcam o relógio inteiro por você. Você merece atenção, então tudo sempre se acomoda. Toda importância é medida pelo tempo empenhado: importa o que não é cronometrado. O tempo só é relativo na teoria de Einstein. Cá no peito é a eternidade que governa, e a eternidade é sempre maior na sensação da carne quando se pode acrescentar mais um segundo, e outro minuto, e uma hora e… mais tempo. “Moro em Jaçanã, quero perder este trem!” Quanto mais alguém olha no relógio, quanto mais um compromisso compromete o papo, o conselho, o diálogo e até o silêncio, maior é a certeza de que o tempo importa e, porquê importa, ele não pode ser gasto naquilo que o calendário vai levar embora. Romeu se lamentou quando percebeu que o sol nascia. Julieta se lamentou quando percebeu que o sol nascia.
  63. Todo rosto tem marcas, rugas, pintas, linhas desiguais, pontos dum lado que não se compensam no outro, pequeninas desarmonias. Este desequilíbrio é justamente o elemento central da beleza. A total simetria, que prezasse por completude regular no desenho, faria duma face um exercício de purismo geométrico. E nós sabemos muito bem que não é assim. Um rosto bonito é um rosto onde as principais estruturas são proporcionais, mas cujos detalhes, cujos entalhes de personalidade individual, são semeados de maneira algo “dispersa” — relativamente desigual. A famosa pintinha sobre o lábio feminino, a covinha que se destaca mais dum lado que do outro, as expressões que desbalanceiam o maxilar, a penugem que toma mais um braço que o outro, a auréola maior ou menor nos seios, a verruguinha no pescoço, uma cicatriz, mais sardas aqui que ali, etc. Enfim, é certo que a beleza é um conjunto orgânico e simbiótico de positivação e negativação de padrões que se auto-ajustam no corpo. Os feios são os polarizados, são justamente os excessivamente geométricos e os excessivamente assimétricos.
  64. Gente carente vive assoprando fogo de palha, tentando reacender fagulha fria. Poderia queimar uma floresta toda de lenha até a Eternidade, mas prefere cronometrar os instantes luzídios duma qualquer poeirinha de carvão. Não tem duma chama senão um vislumbre estético, uma visão “pisca-pisca” que não esquenta nem conforta, ainda que iluda os sentidos com as “provas cabais” dos seus termômetros de paranóia e romantização. Auto-engano térmico. Se contenta com os pequenos “sinais” das cinzas que há muito já não são brasa… Se contenta em saber que o borralho provém do fogo. Tenho imensa compaixão de quem se apaixona por fogueiras de gelo e nevasca, que queimam, mas queimam pelo frio. Não se iludam, não se humilhem. Camões estava enganado: amor é fogo que arde e se vê. Apenas os carentes, susceptíveis e sugestionados de tanto ansiar, conseguem ver labareda onde só há lenha molhada, sequer capaz duns borbotões de fumaça mesmo que lançada num vulcão…
  65. O tempo nos consome. A pele de bebê de repente está enrugada. O cabelo, ralo e branco. As unhas, grossas e duras. O tempo depõe sobre nosso corpo suas crostas. Os velhinhos aí estão, com suas bengalas e doenças. A pele jovem, a pele adulta: é a nossa. Cabelo e cabelo com viço e cor: é o nosso. Unhas rosadas, flexíveis: as nossas. Nós estamos aqui, com a coluna ereta e os pés firmes, com saúde. Mas, e daqui a pouco? Hoje, temos 20, 30, e logo se passa dos 40 e então mais o dobro e já estamos aposentados, na terceira ou quarta idade, sentados debaixo de uma árvore olhando quietamente para o mundo. Então, eu que penso loucamente nestas coisas, me pergunto: como será a velhice daqueles que te abandonam, meu Deus? O tempo vai ruminar o corpo do crente até que ele se torne pó de ampulheta. Mas seu espírito se erguerá vivo na Eternidade. O tempo também tornará pó o descrente. Mas… e o que se fará da sua imortalidade para definitivamente decrépita? O corpo glorioso é para os salvos. Mas o corpo do infiel recém-saído da cripta é o mesmo corpo de sua morte, que nele estará pespegado para sempre e sempre.
  66. Tem poder sobre você não quem hierarquicamente, pela força da coação dum sistema, pode ordenar que você faça isto ou aquilo. Tem poder sobre você quem livremente, pela força dum coração que queima, pede que você faça isto ou aquilo e você irresistivelmente faz.
  67. Um dos preços de andar com Deus é caminhar já em nuvens sobre a terra: você flutua por dentro e os outros pensam que você está no mundo da lua, você levita no interior e os outros pensam que você é aéreo. Como é gostoso ter os pés sobre a terra e ainda assim sentir que até os espinhos são algodoados. Como é gostoso caminhar no solo do planeta e ainda assim ver que tudo são “pedrinhas de brilhante” numa das ruas da Sião celeste. Um dos preços de andar com Deus é ter um par de asas invisíveis que, como aquelas atrofiadas das galinhas, às vezes nos permitem alçar vôo por cima da cerca do mundo, sob o cacarejo atônito e debochado do galinheiro que mal pôde perceber que em seu meio havia uma águia…
  68. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  69. Meu TC do Curso de Direito foi mal feito. A falta de tempo é cruel comigo. Já há dois anos não leio um livro inteiro… Registro isto para perpétua memória da coisa.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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