Esponjas de sol — XLIII

  1. Há dentro de cada um de nós um lugar onde nós somos nós mesmos com nós mesmos. É lá onde nosso silêncio tem interpretação pura e imediata, onde a palavra na língua nada comunica. É lá, nesta gruta aberta (antítese permanente de espaço e tempo), que o eu ricocheteia suavemente nas paredes de espelho que o refletem infinitamente para si mesmo. Vocês não percebem que há no centro do próprio eu um recinto no qual, circundado por Deus, nós somos nós mesmos por nós mesmos, numa espécie de solidão acompanhada, uma solitude presente de si, como aquela que a Trindade Santa vivia consigo mesma antes que qualquer outra coisa além de si existisse? Há dentro de nós um cenáculo onde nós nos reunimos conosco mesmos e deliberamos com o eu unificado, com a consciência leve a ponto de tocarmos o nada e então criarmos para nós (cada um para si, como Deus criou) um mundo inteiro de solidões completas de coisas e sonhos instantaneamente realizáveis. Há dentro de cada um de nós um lugar onde não há eco para o que vem de fora, um lugar onde nosso mistério particular soa uma mesma nota num mesmo tom sem que o ouvido imortal se enjoe da melodia. Há dentro de cada um de nós um lugar onde a luz pulsa, pulsa como coração da própria alma. Lá, neste pedaço de Eternidade que de alguma forma guardamos dentro do peito de carne, nós estamos nus e, como na inocência original, lá nós não vemos que estamos nus. Lá, a suprema, a inefável, a tão procurada Realidade.
  2. Nas suaves curvas das asas das aves, / O suor dos pássaros voa e toca o céu. / A gota que pinga não desce, não cai; / Ela sobe e avança nas nuvens e seca. / Seca como relâmpago no raio de sol.
  3. O homem autêntico age no mundo como se estivesse sozinho nele. Anda livremente sem medir a elegância métrica do passo. Fala sem empostar a voz em gravidade e falsete. Do primeiro pé no chão ao primeiro bocejo na cama, tudo é natural e espontâneo. Maneja os objetos do mundo e se relaciona com tudo e todos sem imaginar como lhe enxergam, como lhe julgam, como lhe crivam os movimentos visíveis. O homem autêntico é e só é, como se nada o acompanhasse senão a companhia de Deus. Nenhuma consciência lhe condiciona senão a sua própria. O homem autêntico é o homem mais livre e, porquê é o mais livre, é o único que é efetivamente homem.
  4. Lembrar é levantar a memória informativa das coisas, pô-las de volta no centro da atenção mental; é uma prática cerebral na qual os dados guardados são desengavetados da competente repartição burocrática neural; lembrar é acessar registros formais e oficiais do tabelião sináptico. Recordar é abrir um álbum, é passar os olhos e sentir de novo cada passado com a força dum acontecimento presente; é abrir o baú dos tesouros ou a caixa de pandora de nossa alma; recordar é aceder à biblioteca de pergaminhos da qual nós mesmos somos os escribas.
  5. A mulher conhece-se e ganha-se nos detalhes. A alma feminina é como uma toalha de renda: toda filigranada, toda cheia de minúcias e partes em si mesmas completas e aparentemente “autônomas”. É como um vitral gótico, como uma partitura tintinnabulum, como se Escher pintasse mandalas hindus e iluminuras ocultistas medievais valendo-se, ao mesmo tempo, de microscópio e telescópio para mais precisamente desenhá-las no mesmo papel. Uma mulher não é irracional, não senhor! Sua extrema sensibilidade e ultra-volatilidade não provém duma alma complexa porquê ilógica. Quando nós homens não entendemos (rotina nossa de cada dia!) bulhufas do comportamento feminino, isto se dá porquê nós via de regra apenas notamos as estruturas principais (da personalidade, das suas ações), enfim, nós padronizamos as ações duma mulher por sua regularidade quando, como no espaço-tempo da Física, aplica-se ao coração feminino a Lei da Relatividade, que, in caso, Verdi ironicamente resumiu nestes versinhos da ópera Rigoletto: “La donna è mobile qual piuma al vento / Muta d’accento e di pensiero” | “A mulher é volúvel qual pluma ao vento / Muda de voz e de pensamento”. Longe de ser um caos desamparado de padrões e uma anarquia desprovida de coerência, o coração duma mulher na verdade está assim tão semeado de micro-lógicas internas, que bem se parece com um ouroboros infinitamente clonado em versões pequeninas e grandonas que se auto-integram e comunicam. A mulher é fractal; é “alquímica”. As proporções de Pi e Áurea, as raízes de 2 e de 3 e de 5, as séries de Fibonacci e as escalas musicais e quaisquer outras coisas como as “medidas sagradas” totalmente fundidas mas não confundidas: bata tudo isto no liquidificador vórtico da alma e você terá uma mulher. A mulher não é ininteligível, porquê irracional. É inefável, porquê ultra-racional. Por isto, a nós, filhos de Adão, cabe conhecê-la como a um mistério e ganhá-la como a uma graça espiritual.
  6. Não são meras poéticas bíblicas as afirmações de que Deus têm contados os fios do nosso cabelo e que de folha alguma se desprende duma árvore sem que Ele expressamente o permita. É uma realidade profunda e às vezes imperceptível. Se você parar para prestar atenção na sua vida (nos acontecimentos externos, nos tempos e nas ações internas), verá que sua história pessoal é uma biografia escrita de cima para baixo e que, embora você tenha a sensação de que decide e escolhe o que fazer com seus passos, seus pés caminham por uma estrada previamente determinada. Portanto, também não é lirismo teológico afirmar que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”. É realidade pura e refinada: tudo, absolutamente tudo, inclusive nossos pecados mais sórdidos e erros mais dolorosos, colaboram para a salvação de nossas almas segundo a vontade soberana do Senhor.
  7. O ridículo é a faceta mais evidente do amor quando estamos nos dias dos começos, quando ainda não há intimidade suficiente para não se preocupar com as primeiras, segundas e terceiras impressões. E o ridículo só nos acomete porquê idealizamos uma liturgia passo-a-passo para causar esta ou aquela impressão. O ridículo acontece como conseqüência da “média artificialidade” (porquê se por um lado a ação não é natural, sua motivação certamente é) do proceder que fazemos para demonstrar sermos assim ou assado. O ridículo ocorre quando nossa caricatura não se encaixa com a realidade do nosso ser autêntico, afinal, todo script falha e não há gênio de Stanislavski morto ou vivo capaz de atuar quando o coração quer saltar como géiser pela boca… O ridículo faz parte. O ridículo é coisa bonita de se ver e, principalmente, é coisa bonita de se sentir; porquê quando efetivamente se vê e se sente no outro, ambos se encontram “nus”, e nesta visão e sentimento que coram as bochechas, a timidez e a vergonha se beijam e, então, a intimidade nasce. Nascida a intimidade, acaba o ridículo e em seu lugar surge a cumplicidade de loucuras e doideiras próprias dum casal. O ridículo é a prévia superficial do profundo, é a avant-première externa do relacionamento que ocorrerá no âmago mais interno do coração.
  8. A Graça Comum, pilar da nossa doutrina calvinista, é de longe um dos mais belos dogmas da Teologia. Ela está tão amplamente enraizada em nossa vida ordinária, esta das rotinas silenciosas e modestas, que mal a percebemos. A Graça Comum é uma série infinita de “cafunés” divinos. Uma série de minúcias de contentamento e conforto diluída na existência mais quietinha do nosso dia-a-dia: a primeira xícara de café forte pela manhã, o cheiro de leite na boca dos filhotinhos, o sorriso das moças sonhadoras, a sombra do ipê carregado de flores ainda no verão, o copo grande e açucarado de limonada com bolo de chocolate no meio da tarde de férias, um filme antigo que há muito se queria assistir e que de repente qualquer canal resolve exibir bem quando estamos zapeando com o controle remoto… A Graça Comum é Deus acariciando a alma de todos os homens com gentilezas e elegâncias tão sutis quanto poderosas.
  9. Confiança é a pedra-de-toque de todo e qualquer relacionamento. Confiando, a distância de oceanos e continentes não demove a alma de sua paz. Desconfiando, na presença um do outro, supõe-se que embora o corpo não aja, lá está o pensamento traidor voando dum neurônio ao outro. Confiando, a integridade do sentimento está custodiado contra as setas e os laços da imaginação criadora de traições. Desconfiando, o coração é o alvo preferido de quaisquer suposições de deslealdades e emboscadas sentimentais. A desconfiança aterroriza a alma de quem está afeiçoado à outra pessoa: faz ver fantasmas, espectros e alucinações que, às vezes, dor das dores!, efetivamente são “penumbras” de carne e osso armadas com o antigo punhal da infidelidade. A par das obsessões e neuroses dos apaixonados, nunca se poderá amar sem que o ânimo esteja aquietado no sossego da confiança.
  10. Haverá dias em que nos “perderemos”. Sentiremos uma suspensão dos significados das ocorrências da vida. Não será possível compreender os rumos e a existência nos parecerá absurda neste ou naquele ponto. Não conseguiremos distinguir o porquê das coisas e como elas se encaixam ou se desencaixam no trajeto de pedras que temos trilhado. Haverá dias em que tudo parecerá estranho. Porém, apesar da angústia das nossas inconclusões, é preciso humildemente entender que Deus age estranhamente e que Ele mesmo trata de nos por nesta condição “para fazer a sua obra, a sua estranha obra, e para executar o seu ato, o seu estranho ato” (Isaías 28:21). Nenhuma obra grandiosa, por dentro ou por fora, pode ir adiante se o vaso a todo tempo for capaz de discernir os motivos de cada toque operado pelo oleiro no barro. Cristo nos consola, contudo. Recordo das palavras que ele oportunamente dirigiu a Pedro, quando este também se viu atordoado: “O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois.” (João 3:7)
  11. Pode-se viver sem versos, mas não sem poesia. Aquela dose diária de qualquer coisa que faz brilhar os olhos e aquecer o coração é “poiesis”– porquê cria beleza, porquê goteja o Ser naquele pequeno buraquinho de não-ser que diariamente ameaça corroer nossa alma. Pode-se ser analfabeto e então estar incapacitado de ler os sonetos de Dante a Beatriz, as epopéias de Homero e de Milton, os poemas de T. S. Eliot e Pirandello. Mas não se pode pertencer à raça humana e não sentir tudo o que os grandes sentiram e… depois escreveram. Você pode viver sem escrever e declamar poesia pra morena, mas não pode viver sem ler a poesia dos olhos da morena. A poesia precede o poema como o número precede a matemática e o sentimento precede a declaração.
  12. Se você não aprender a diferenciar seus pensamentos, você não exercerá o necessário controle sobre si mesmo e, então, não prosseguirá muito além no caminho da santidade. Tudo o que voa-e-vaga na cabeça parece ser duma mesma substância e ter você como única fonte produtora. Mas, não. Há pensamentos que são genuinamente seus, há pensamentos que são setas malignas e há pensamentos que procedem de Deus. Aí dentro do seu crânio tudo é pensamento e é próprio do imediatismo natural das impressões dos nossos julgamentos supor que todos os pensamentos são produtos diretos do nosso eu. Mas, não. Com tempo e cuidado, você perceberá que estas três categorias exercem sobre sua consciência uma força diferenciada enquanto propostas de ação virtuosa ou viciosa: (i) seu próprio pensamento provém dum impulso resistível pela razão e pela vontade; (ii) o pensamento demoníaco provém dum impulso resistível pela razão e pelo desejo; (iii) o pensamento divino provém duma proposta resistível apenas pela consciência espiritual. Diferenciar a origem da “formação das idéias” que passam pelo nosso intelecto é primordial para crescer em graça e conhecimento. É sério, muito sério.
  13. Uma coisa esquisita mas bonita: semana passada, fui calçar os sapatos para vir pro trabalho e, ao por duma vez o pé, senti que tinha esmagado algo. Era uma crisálida de borboleta. Fiquei me sentindo mal. Hoje, no mesmo dia da semana, quinta-feira, fui por o mesmo sapato e, no mesmo par, antes da ponta do pé atingir o fundo do calçado, senti qualquer coisa lá dentro. Não levei o pé direito adiante e, com a mão, retirei lá de dentro outra crisálida. Guardei a pupa num outro calçado. Recordei então do primeiro livro que li na vida, no prézinho, presente de minha mãe. Está lá nO Pequeno Príncipe: “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.” Se vivêssemos entre os persas antigos ou entre os gregos, decerto algum oráculo haveria de enxergar nisto um sinal, o sinal místico de que vêm por aí mudanças de ordem espiritual. Mas, claro: não é nada, nem diz nada senão que há pequenos e esquisitos acontecimentos de beleza no mundo — até mesmo surpresas dentro dum sapato. [18.10.18]
  14. A média da nossa moral é a média da moral de quem nos circunda. A média da nossa espiritualidade é a média da espiritualidade de quem se ajunta à nossa mesa. A “roda dos escarnecedores” (Salmo 1:1) e a “assembléia dos justos” (Salmo 111:1) interferem na alma de tal forma que, ainda que o salvo não seja um completo produto do meio, uma certa “homeostase” deforma pontualmente o barro onde Deus previamente começou a moldá-lo. Há um “efeito gangorra” nos nossos pecados que deriva, em certa medida, dos habitats espirituais que frequentamos e do quanto suas empatias, antipatias e simpatias agem sobre nossas passividades (convivência em grupo implica em passividade, sobretudo pela tolerância e moderação exigidas no relacionamento igual tido com os diferentes). O uso das expressões “roda” e “assembléia” por si já demonstra os critérios reunitivo e unitivo, respectivamente: no primeiro, um voltar-se de costas para o externo em direção a um centro de interesses egoístas que liga o grupo; no segundo, abertura ampla e arejada diante do mundo a partir dum ajuste interno reconhecidamente virtuoso. Em bom português: “quem com porco anda, farelo come.”
  15. A solidão degenera até as almas mais sólidas. A não ser que você seja um ermitão daqueles que peregrinavam santa e misticamente no deserto acompanhados apenas da Trindade, você vai se tornar um brucutu do mato se não mantiver relacionamentos profundos e intimamente sinceros. Isolamento é o primeiro passo para a amargura e o segundo para a soberba: sem contatos de afeto, carinho e amor (neste escala ascendente), a pessoa logo se torna um purgante de chata e, em seguida (como tentativa de proteção da auto-estima), o umbigo da galáxia de orgulhosa. Almas fortes o são na medida em que convivem, como os elos da corrente, como os ângulos da pirâmide, como o trançado da corda. Recordo duma frase de Bécquer: “La soledad es muy hermosa, cuando se tiene a alguien a quien decírselo.”
  16. Um pensamento que é seu surge e cresce por acumulação: uma idéia a esmo na qual sua consciência vai acrescentando e retirando nuances, informações, dados, conclusões, juízos e julgamentos; você meio que tem domínio do processo de desenvolvimento dele e sente que é por ele diretamente responsável (dure quanto durar) e que te liberta ou coage conforme você mesmo o conduz. Um pensamento que é demoníaco aparece abruptamente na sua consciência, como um choque imperativo (e tão urgente quanto fatal: um “deus ex machina” coator, um dado completamente inexpugnável que ordena e que, por isto, mal se pode tentar ser raciocinado passo-a-passo, ou seja, que só se impugna por completo, como um todo, porquê não é inteligível — logo, porquê é confuso – enquanto sistema), mas já com uma “arapuca” de base: uma idéia pronta e acabada que cai como bomba na sua cognição e, ao invés de destruir dividindo o que tem por lá, reúne as partes do “boom” e te obriga à qualquer mal; é a famosa gota d’água, mas uma gota d’água minuciosa e milimetricamente planejada a tal ponto de entornar um copo ou oceano que talvez você sequer tenha percebido existir dentro de si. Um pensamento que é divino aparece apresentando-se como idéia externa a você: uma idéia que é depositada na sua consciência com a delicadeza dum conselho fraternal; ele também surge pronto, mas não é um bloco sólido que não esteja aberto à análise e à discussão; ele brota de repente, mas como um regato manso de rio pequeno, como o toque vagaroso mas imediato do carinho de mãe; você escolhe o que fazer com ele.
  17. Cristo tem seu rosto estampado até numa lata de Coca-Cola. Você bebe o refrigerante e sequer percebe se é a efígie do Nazareno, do Luan Santana ou do Pablo Vittar que está ali. E a latinha vai pro lixo. Cristo tem seu corpo pregado a esmo em qualquer pingente à venda na 25 de Março. Você pendura a corrente no pescoço e sequer nota que, enquanto você mente, adultera e peca, o crucifixo mantém os olhos fechados pelo estatismo do metal, enquanto o Filho de Deus lá do Alto os cerra de tristeza. Como os santos do primeiro século, neste instante (agora!) nossos irmãozinhos chineses, escondidos nas suas “igrejas das catacumbas”, passam de mão em mão desenhos de gibi e recortes de revistas com a “fotografia” do Salvador. Guardam estes “ícones” escondidos sob o peito para, nos momentos de privacidade do Grande Irmão Estatal, olhá-los ternamente não como a ídolos, mas com aquela mesma reverência e carinho com os quais nós de vez em quando miramos cheios de saudade as fotos daqueles a quem amamos na vida ou na morte. A imagem do Rei do Universo, do Emanuel, foi banalizada no Ocidente. Nos museus ela é profanada com urina, fezes e mil ignomínias. Nas repartições públicas ela é um pedaço de madeira e bronze relegado ao alto das paredes que silenciam as vilezas e corrupções que ali se cometem contra os órfãos e as viúvas. Jesus Cristo tem seu rosto, sua carne e sangue, seu corpo chagado, pintado nas camisetas, tatuado nas peles, transformado em logomarca… |-| Jesus Cristo: e eu, e eu miserável, tenho-te ainda pintado em meu coração? Senhor, que eu não me esqueça do teu rosto. Senhor, eu não vi tua face “real”, a tua mesma que passou cá pela terra há dois milênios e nós esbofeteamos e então ferimos até que se desfigurasse. Mas, Senhor, eu tenho te visto por aí: os povos da Europa desenham-te branco e dolicocéfalo como eles o são, os asiáticos pintam-te sem aquela dobra na pálpebra superior, os negros retintam tua pele; e cada povo que te ama, bom Pastor, cada aprisco que te serve, lembra-se de que é tua imagem e semelhança, e então sobre ti ele carinhosamente põe a própria imagem e a própria semelhança. Que eu sempre me recorde do teu rosto impresso naquela primeira lição da Escola Bíblica Dominical em 1994… E embora eu não seja um novo Moisés pedindo para ver tua face, mostra-a, revela-a a mim sempre que qualquer figura apontar para quem és na terra ou no céu. Amém.
  18. O prazer de ter o tecido da roupa limpa e perfumada sobre o corpo recém-banhado. O prazer de ter na língua o gosto doce e azedinho do chá de hortelã com limão acompanhando um pedaço de bolo de chocolate. O prazer do silêncio eloquente entre quem se ama na mudez que sempre se segue a um diálogo sincero. O prazer dos pés descalços no chão frio de cerâmica fria da casa da avó num domingo de verão. O prazer de no bem-me-quer-e-mal-me-quer das dúvidas e ansiedades descobrir o sim ou o não definitivo. O prazer de de repente ouvir a música preferida numa esquina qualquer exatamente quando o ânimo era desânimo. O prazer do ócio dos rabiscos aleatórios da caneta no papel produzindo qualquer idéia bonita e útil. O prazer do abraço aninhante da mãe quando o coração quer ninho. O prazer de acordar pensando na mesma pessoa que embalou à noite o sono. O prazer de correr sem se cansar até parar simplesmente porquê a linha de chegada chegou. O prazer de ouvir do púlpito de Deus um raio-x da própria situação. O prazer de sair para fora numa noite insone e só de olhar para o céu conseguir voltar para a cama e dormir. O prazer de entender a letra e compreender a mensagem do bilhete amassado e quase rasgado que ficou no bolso da calça e foi parar na máquina de lavar. O prazer de sentir prazer por estes pequeninos prazeres.
  19. Todas as coisas são sinais. E uma coisa sempre será um sinal para outra.
  20. O amor não é sexualmente transmissível. Quanto mais “sexo sem compromisso” se faz, menos carinho está envolvido. Esta é uma geração que transa mais que os macacos bonobos do Congo e está ainda mais carente que filhotinho de cachorro solitário abandonado. Os olhos de “Gato de Botas do Shrek” das meninas não enganam: por mais lascívia a que se entreguem no mero corpo-a-corpo da luxúria sua de cada dia, mais elas necessitam ser efetivamente amadas. A rotina mecânico-química do rala-e-rola corporal esgana a alma se ela não estiver devidamente casada com o amor.
  21. Teu amigo nunca será teu cúmplice. Teu amigo vai por o dedo bem no meio do teu nariz, vai engrossar a voz contigo, vai te mandar tomar tento. Quem te auxilia nos teus pecados e incentiva tua degradação não é teu amigo. É teu algoz. Quem ouve teus planos e estratagemas imorais e neles é coadjuvante não é teu amigo. É teu carrasco. A necessidade natural de desabafar e de ter com quem dividir as agruras da vida tomando conselhos é boa, mas fazê-la acontecer aos ouvidos dum coração degenerado é loucura. Teu amigo vai te exortar, vai deitar o safanão na tua alma, vai te corrigir sem dó nem piedade. Teu amigo sempre será teu censor.
  22. Quantas vezes na vida eu pensei ter perdido uma oportunidade: pensei que o cavalo passou encilhado e eu não montei. Quantas vezes não deixei as coisas correrem por si mesmas e, então, depois, pensei arrependido: perdi o amor da minha vida, perdi uma carreira brilhante, perdi o grande acontecimento que poria tudo a ganhar. Quantas vezes! Mas, depois, passado todo o incômodo da frustração, com o tempo passando, percebi que o melhor sempre havia acontecido: aquele amor não era amor e coisa muito melhor substituiu a ilusão sentimental; aquela profissão não era vocação e coisa muito melhor substituiu a falsa percepção de trabalho; aquele grande acontecimento não era grande nem acontecimento e coisa muito maior, real e melhor substituiu a pseudo evolução existencial. Quando tu depositas cada palmo da terra do teu coração nas mãos de Deus, por mais que teus desejos vivam sapateando a tarantella das ansiedades no lagar do mundo, Ele mesmo vai tratar de fazê-lo fertilmente pulsar quando de ti mesmo faltar no peito a energia e a resolução para ir adiante no bombeamento dos teus “sonhos cardíacos”, para aceitar e acatar teu amor, tua vocação, tua vida!
  23. Ela não sabe sovar o pão como tua mãe sova? Ele não sabe instalar o chuveiro como teu pai instala? Ela não sabe usar aquela proporção de amaciante na roupa colorida como tua mãe usa? Ele não sabe cortar lenha e fazer uma fogueira para a costela como teu pai corta e faz? Ela não sabe passar a calça social e deixar a linha paralela como tua mãe passa e deixa? Ele não sabe usar a chave-inglesa no sifão da pia como teu pai usa? Um dia, teus filhos também olharão para trás, e do lado, e também idealizarão tuas capacidades, comparando-as, medindo-as, julgando-as em função de suas próprias mulheres e maridos. Talentos e capacidades domésticas são importantes para a rotina, mas não mantêm de pé casamento algum. Talvez até ela não saiba sovar o pão, lavar e passar a roupa. Talvez até ele não saiba instalar chuveiro, cortar lenha e usar ferramenta alguma. Mas, se houver talentos outros e capacidades outras compensando a falta dessas, nada estará perdido e, com amor, tudo estará ganho. O pão, o chuveiro, a roupa, a lenha, a costela e a pia o Youtube ensina a sovar, instalar, lavar, passar, cortar, assar e arrumar. E quanto ao namoro, o noivado e o casamento? Só você, com Deus.
  24. Todo sentimento verdadeiro se contradiz. O sentimento é imutável e permanente, mas quem o sente não. O amor verdadeiro se contradiz não porquê seja menos amor ou não seja amor, mas porquê quem ama se contradiz, mas porquê quem ama tem dentro de si a contradição máxima e imutável de ser humano. Trata-se, porém, duma contradição descompensada, onde o amor está sempre um [de]grau acima da raiva, por exemplo. O amor é dominante, mesmo que tenha que conviver com a soberba, com a ira ou com o “ranço”. Os sentimentos pelos quais o amor se “distende” são sempre antagônicos a ele na medida em que são, sobretudo, uma reação egóica a ele. Os sentimentos que contradizem o amor são seus subsidiários hierárquicos. Contradição aparente nas ações e emoções exteriores = coerência oculta e quieta nos sentimentos interiores.
  25. Todo homem é um pouco Sansão. Toda mulher é um pouco Dalila. Todo homem é biológico: deseja na mulher beleza corporal e sensualidade. Toda mulher é biológica: deseja no homem força corporal e poder. Isto é natural, e bom, desde que estes dois instintos masculino e feminino, respectivamente, estejam sujeitos à ordem da razão e do bem, que os moderará e encaminhará moral e espiritualmente. Do contrário, os vícios do narcisismo e do hedonismo animalizam homem e mulher, rebaixados a meros macho e fêmea. Como virtude, então, a vontade imprime à beleza estética a necessidade da beleza ética, e imprime à força física a necessidade da força metafísica: harmonia entre corpo e espírito. Assim, todo homem é muito Isaque, e toda mulher é muito Rebeca.
  26. Cada um de nós está um pouco solitário em si mesmo. A gente tenta remendar o rasguinho e tapar o buraquinho com uma taça de vinho, uma maratona na Netflix, um sono prolongado no domingo, uma mesa dividida com gente também cheia de rasgos e buracos, enfim, com qualquer peça do quebra-cabeça mundano que pareça ter a proporção da nossa “micro-solidão.” Isto é estar solteiro. Todos têm isto até que se encontre a “tampa da panela” para os vocacionados ao altar, até que se encontre a peça que à si completamente se ajusta no complexo e difícil quebra-cabeça de duas peças que é o amor. Os santos e os místicos, os psicopatas e os degenerados, estão todos esburacados no ponto onde a nudez homem-mulher é redescoberta sem aquela vergonha do Éden. Por que? Nos versos de Shakespeare em Romeu e Julieta, pode-se doutra maneira dizer: “pois nunca houve história tão triste como esta de Eva e seu Adão.” A história da quebra da unidade natural, que agora nos põe no jogo dos encontros e desencontros amorosos. Desde então — desde o Éden — apenas duas solidões são capazes de se anular e dar utilidade à esta tristezinha, criando uma “terceira presença”, a presença dos dois que se fazem um. Assim, um costura no outro a brecha nas vestes e cobre no outro a abertura da falta: duas taças para uma garrafa, uma série para dois lugares no sofá, um cochilo de conchinha, uma mesa para duas famílias que caminham para ter o mesmo sobrenome. O rasgo se torna abertura; e o buraco, toca. Isto é ser casado.
  27. Estão pintando as guias das ruas do cemitério municipal. Fui dar uma inspecionada no trabalho. Andei por cada uma delas. Acabei botando reparo na mudança da arquitetura dos túmulos conforme os anos. Os da década de 10, 20 e 30 têm na crença do além-morte sua tônica e são de longe mais refinados artisticamente: mármore talhado em vasos e arabescos, esculturas de anjos e do Cristo, só pedra polida, nada de metal, nada de fotografias, muitos epitáfios; um “campo santo”, enfim, como se fosse um anexo ora clássico ora barroco duma igreja. Conforme chegou a década de 40, e até meados da década de 70, os túmulos estão mais brutos e minimalistas com suas pedras rústicas, correntes de ferro e ladrilhos de cerâmica vermelho-chumbo todos com poucos sinais de religiosidade, um pouco mais de fotografias (em branco e preto) e os nomes em placas pequenas e simples; muitos dos jazigos parecem saídos do estilo Bauhaus, todo imanente. As décadas de 80 e 90 são o ápice do piso cerâmico e a inserção do granito lapidado e polido (mas anguloso e geométrico), surgem pequenas peças de bronze (devoções a santos entre católicos e versículos bíblicos entre evangélicos) com uma qualidade artística razoável, poucas cruzes e muitas fotos coloridas. Os anos 2000, que avançam até hoje, representam o ápice do granito polido e ondulado, o quase que fim das cruzes, a inserção das devoções marianas (Aparecida e de Fátima, predominantemente) com peças de bronze com uma qualidade artística altamente kitsch (brega) e o aumento drástico de fotografias (no tamanho, no colorido e na postura do fotografado) e capelinhas para velas que fazem lembrar os incensadores hindus; confusão metafísica e sincretismo. Dá para fazer uma leitura religioso-cultural e ideológica a partir dos túmulos cá do nosso cemitério. E, com o devido respeito, ela não é boa. A monarquia dos mortos prevê duras lições à república dos vivos… “Fomos o que és — Serás o que somos”, eles dizem silenciosamente. [29.10.18]
  28. Em amor há tipos. Há “modelos” mutuamente atraentes, em maior e menor grau. Por que? Porquê cada tipo corresponde à uma função/funcionalidade sócio-espiritual. Há tipos que se classificam por biótipo e há tipos que se classificam por arquétipos: predomínio do físico e do metafísico, respectivamente, do concreto e do abstrato que se entrelaçam, variando, num tipo específico. A moça de caráter mais romântico e feminino, de físico mais delgado, quase sempre se atrairá por homem de caráter mais nobre e intelectual com físico imponente. O rapaz de caráter mais prático e ativo, de físico mais franzino e mediano, se atrairá por mulher de caráter mais impetuoso e de físico corpulento. Os sentidos e os sentimentos se complementam tanto pela igualdade quanto pela oposição e, na combinação espiritual de homem e mulher, combinam-se também o aspecto corporal de macho e fêmea. Há tipos regendo, via de regra, o amor erótico. A mesma força que atraiu a maçã à terra para Newton e a maçã à boca para Adão é a força que atraiu Catherine Storer a Newton e Eva a Adão: a mesma força que, em padrões e paralelos, aos quatro uniu. Em amor há tipos, não estereótipos.
  29. Deus a si mesmo retratou-se como pomba. Mas a João, como águia. Deus entregou-se silenciosamente à cruz. Mas em favor de seu povo, quando ofendido, bradou: “Por que me persegues?”
  30. A Santa Aliança havida entre católicos, ortodoxos e protestantes no século XIX será em breve revivida para a defesa da Cristandade em terras brasílicas contra o Globalismo.
  31. O jejum é uma forma de auto-contemplação. Quem retira do corpo a nutrição, acrescenta ao espírito. Retira do entorno do ego os espelhos de vaidade, pelos quais vemo-nos em reflexos, por partes; acrescenta ao redor do eu olhos espirituais de realidade, pelos quais vemo-nos nus e crus, inteiros. O jejum é um exercício de auto-conhecimento. Quem retira da carne a comida, acrescenta à alma. Retira de dentro do ego as quinquilharias da personalidade, pelas quais enxergamo-nos em facetas, por partes; acrescenta ao centro do eu as estruturas autênticas do ser individual, pelos quais enxergamo-nos unos, integrais.
  32. A implicância é uma das multiformes ações do amor feminino. Homem que não compreende isto (e acha chato, insuportável, incomodante) está quase tamborilando as portas do armário. “Encher o saco” e “torrar a paciência” é carinho. Dê graças a Deus com mãos aos céus se ela implica contigo. Há fidelidade na implicância — a fidelidade mais infantil, mais inocente, mais sincera. Birrar e embirrar é uma delícia para quem está consciente do quanto há amor nestes gestos e sentimentos: de cutucões insistentes (a repetição é a força-motriz da implicância) a “onde você tá?” contínuos. Implicar é se importar. Nietzsche, a propósito, acertou: “Die gleichen Affekte sind bei Mann und Weib doch im Tempo verschieden: deshalb hören Mann und Weib nicht auf, sich misszuverstehn.” | “As mesmas paixões no homem e na mulher são diferentes em seu andamento e é por isso que o homem e a mulher jamais deixam de se desentender.”
  33. O mundo quer nos dispersar para, depois, nos dispensar. Quer que troquemos o amor pelo rabo de saia, a magistratura nacional por honorários de porta de cadeia, um vinhedo por alguns goles de batidinha, um púlpito junto ao altar por um palanque político… Daí, a ilusão se desfaz no ar e, depois do gozo pecaminoso, da remuneração gorda, do álcool batizado e da agitação populista, sobra o nada; o nada em nós, o nada que ficamos sendo, o nada que acaba na lixeira. Fixe seu coração nas coisas grandiosas e elevadas, nas promessas reais de felicidade verdadeira. Tenha força de vontade e nutra-se com o amor duma só mulher, com o pão ganhado na honestidade nossa de cada dia, no cálice bebido na moderação duma consciência reta, na vocação e no chamado para as coisas do Alto. Conselho que dei e dou a mim. Conselho que dei e dou a cada um de vocês.
  34. Oh, grandes mares, dai do pó dos ossos o rastro n’água! / Oh, desertos salgados, onde da areia se distingue o cálcio?
  35. Navego por entre mares internos, Senhor. Sou eu quem me sopra as vagas do coração e os furacões cerebrais. Sou eu, Senhor, quem navega contra as ondas do próprio eu, atirando raios furiosos com o braço arqueado e recebendo-os depois no peito. Se afundo, sou o abismo. Se subo à superfície e respiro, tu és a rocha portuária sobre as águas. Remo em mim mesmo, ainda que também seja eu o líquido escuro do oceano e a ventania que me amedronta.
  36. Os detalhes são as mais importantes estruturas da realidade.
  37. Quem nunca teve vontade de silenciar completamente por dias inteiros, de emudecer tão visceralmente como se nunca tivesse tido língua na boca e fala no cérebro, que atire a primeira palavra.
  38. Ouvir um hino numa língua desconhecida é um exercício de mistério. A gente sabe que aquilo ali, aquilo que ouvimos, é um cântico. Sabemos que ali temos um amor louvando o Amor. Mas se por um lado a literalidade dos significados imediatos nos falta, sobra na consciência espiritual a mediação da verdade última das palavras com sua música, do idioma desconhecido numa música algo conhecida (porquê as notas ricocheteiam na alma na mesma fluência cognitiva que une alemães a zulus, mongóis a judeus, tupis a belgas): é belo, é bom, é divino, é beleza, é bondade, é sobre Deus.
  39. Se te olhares primeiro numa fotografia de quando eras criança e depois num espelho, sentirás triste saudade como aquela do poeminha de Casimiro de Abreu. Partirás do passado para o futuro, que é o presente, e suporás o que poderia ter sido e não foi. Mas se primeiro olhares para o espelho, e depois para a imagem no papel, te sentirás catapultado lá para trás, quando as ânsias de crescer te povoavam a imaginação. Então, teu sentimento será consolador, porquê perceberás que daquilo que querias tu já tens um pouco e que a matutação duma criança, por mais doce que seja ao sabor do coração infantil e romântico, pouco discerne o quão difícil é enfrentar as abelhas e recolher nas montanhas o mel dos favos. Tu te deves ver como homem que um dia foi criança, não como criança que está sendo homem em infindas vinte e quatro horas.
  40. Quando em teu coração brotar [porquê tudo nele já está semeado desde o Éden, bastando que os fatos da existência e os atos da vida preparem sua terra] amor, trata de imediato de ir ter com as nuvens do teu cérebro. Acorda com elas o seguinte pacto: “Vós não chovereis se em lugar das vinhas, das oliveiras e dos trigais que desejo lavrar, eu mesmo vier lançar sementes de estranha procedência, rajadas de cores atrativas, porquê elas (ouvi-me, distintas cumulonimbus da razão!) empestearão o solo com os legumes da horta que Acabe tencionava plantar com Jezabel na quinta de Nabote. E se eu vier a mastigar seu cozido de lentilhas, Dalila servir-me-á na bandeja de Salomé a ceia da indigestão!”

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *