Esponjas de sol — XLII

  1. Creio que o maior esforço espiritual nestes nossos dias seja a luta para não se tornar uma caricatura de si mesmo. As personalidades estão tão afetadas por certas “facetas de estrutura”, dominantes, que é impossível não perceber o quanto tantos e tantos outros componentes (responsáveis por estabilização psíquica) estão sendo deixados de lado. Está tudo muito burlesco. E quando alguém está levando uma ideologia pra cama, muito pior a coisa fica: com causa, qualquer abortista ou pró-vida, eleitor do Bolsonaro ou do Boulos ou do Amoedo e do PT, vegano ou proto-carnívero, adepto da Intervenção Militar ou da Alienígena numa nova Woodstock galática, se torna um rascunho muito mal feito (kitsch, eu diria) de si mesmo. Conclusão: há mais pessoas que indivíduos. A existência desta maioria, por isso, pode até se parecer com uma charge, mas a vida… ah, a vida sequer é uma tela de Manet: a vida é a nossa carne e nosso osso como estão carregando nossa alma e nosso espírito como eles serão! Lute para não ser uma caricatura. É das coisas mais desprazerosas ter que passar algum tempo ao lado de um cartoon que calhou pertencer à espécie dos homo sapiens.
  2. Atirar politicamente rótulos sobre os outros (com todos os seus pré-julgamentos psicológicos e ideológicos) é coisa de fanáticos incapazes de argumentar. Toda barreira que você cria contra uma idéia e contra uma pessoa, sem se dar ao trabalho de racionalizar a primeira e de se relacionar com a segunda, depõe contra você mesmo: diz que você é, no mínimo, bocó; e que esta bocózice camufla a instabilidade daquilo que você pensa/defende. Apenas quem não está seguro de si e do que carrega na cabeça pode espernear tão histéricamente quando alguém lhe indaga o porquê de sua opinião/credo. E não há nada mais óbvio, mais sintomático disto, do que apontar e deitar fogo com a metralhadora dos pré-conceitos.
  3. Nossa intimidade profunda foi feita para ser dividida com duas pessoas, apenas: Deus e nosso cônjuge. Se você não é casado, só com Deus. Não é prudente contar a ouvidos humanos que não tenham contigo o mais alto grau de relacionamento (espiritual, almal e corporal) as coisas que teu eu produz desde o âmago. Cala a boca! Guarda teus sonhos, anseios e preocupações para compartilhar com o Senhor, sempre, e com a pessoa que receberes no altar. Silêncio para todos os outros.
  4. Eu te quero encontrar, Senhor, onde da minha alma sai a fagulha de sol. Eu te quero encontrar, Senhor, no silêncio desprendido do último suspiro de Adão. Eu te quero encontrar, Senhor, entre dois reflexos que se anulam até o infinito. Senhor, encontra-me quando faz frio e meu espírito gela em si mesmo; encontra-me quando respiro o oxigênio do mundo sem o ar do teu pulmão; quando a vaidade dos olhos-espelhos é a visão que mais anseio.
  5. Sei dizer tantas coisas, meus amigos anjos e homens, mas é esta a única que me tem comovido: “Eu prefiro o Paraíso!”
  6. Pisa o teu passo. Se na terra encontrares o rastro doutros pés, passa ao largo. Dá a volta sobre a pisadura alheia e percorre, e corre, a maratona dos teus próprios pés. Não te voltes a olhar e seguir a medida do caminhar alheio, porquê outros são os mapas e outros são os tesouros. O “x” que procuras, em dourado marcado sobre o pergaminho do Texto Sagrado, foi ditado pelos sábios, pelos profetas e também por Deus: sê tu mesmo! Pisa o mundo, calca teus pés, impõe tuas linhas à face do solo. Passeia, de passo largo e firme, e faz de cada naco de chão fronteira alargada de Sião!
  7. A seresta que mais a comovia / Não era a flor que eu juntava, / Não era o dourado do mimo. / Era eu, eu mesmo, / Dando na cara que a via, / Mostrando tudo quando sorria.
  8. Há dois encantamentos que a mulher produz no homem: i) o encantamento de catarse, que vem do coração e é capaz de purificar os sentimentos até dum australopithecus; ii) e o encantamento de animalização, que vem da baixa biologia e conspurca as emoções até dum querubim ungido. Você pode se apaixonar pelas duas, mas só conseguirá amar uma: aquela que te deixa bobo ao mesmo tempo que consciente, idiota ao mesmo tempo que racional, bestão ao mesmo tempo que sapiente. O encantamento de catarse é um permanente “je ne sais quoi” que de alguma forma sabe o quê é, e que, feito aqueles perfumes espirituais dos desenhos animados, arrasta a atenção, o olhar e o pensamento até que os sentidos todos se narcotizem na realidade.
  9. A arrogância é, de longe, o mais poderoso inimigo da inteligência.
  10. Que dificuldade maior tens que a de suportares a ti mesmo em teus acertos e desacertos, em tuas trapalhadas e mancadas? Sabotar-se é da condição humana, filho. Nossa natureza, indômita e xucra como estes cavalos arredios que vês naquele monte acima, pisa e sapateia nas coisas, pisa e sapateia com o ímpeto dos titãs do mito malhando os crânios dos deuses no lagar. Mas sabe antes que todos os teus pecados e infrações, cada maldade e tolice, colaboram para que sejas homem mais santo, mais preparado, mais Homem! Cada lança quebrada, cada flecha vergada, cada desastre quando desastrado e cada ira quando estivestes irado, são para ti o que para o vaso são as mãos do hábil mestre ceramista. Olhas para ti mesmo como um menino da Antiguidade mirava inquieto o próprio reflexo turbado pelo tosco polimento do espelho de latão! Tu não és teu reflexo, de linhas tortas e vagas! Tu não és a aparência refletida, de tonalidade metálica e pardacenta! Espera porquê ainda tens que passar pelo espelho do vidro banhado de prata e pelo espelho da água pura antes que finalmente possas dar de cara contigo mesmo, na montanha mais alta, no cume mais elevado, no centro do mundo onde céu e terra se beijam. Então, meu filho, quando tua mão mesma te machucar, quando tua ação em ti reagir dolorosamente, quando teus porquês forem causa de respostas amargas, sê feliz: porquê aprendes, e mudas!
  11. Cabe ao homem completar o silêncio da mulher não com um discurso, mas com outro silêncio. Quem silencia, silencia ou para se fazer notar ou para se esconder. A mulher age no silêncio querendo, ao mesmo tempo, estas duas condições de espera: quer que lhe percebam a quietude, mas quer que esta quietude não seja por qualquer coisa (senão pela sua resolução) perturbada. Respeita o silêncio feminino como o observador da ave-do-paraíso mal toca a relva por medo de vê-lo bater asas e ir silenciar em outro lugar. O canto do pássaro, quanto mais raro, não será ouvido por um homem ansioso — porquê as aves, como as mulheres, quando observadas, só cantam quando seu silêncio é quebrado por outro silêncio.
  12. Vou buscar nas auroras os raios altos, rabiscar vôos, soltar sorrisos presos, sonhar surpresas ouvidas só pelos anjos, ajustar orações. Vou buscar nos rios os sopés das montanhas, as estranhas mornas das águas calmas, a alma da sopa, o núcleo de paz de todas as coisas.
  13. Senhor, eu te seguirei até a primeira estação da via. Depois, medroso, te deixarei. Irei até o limiar da primeira acusação. Ouvirei, escondido atrás da mureta do quartel, o primeiro e o último estalar do flagelo: ao segundo até o trigésimo-nono estrondo do açoite, estarei mastigando tâmaras na vendinha de um dos sacerdotes. Beberei vinho impuro e esfregarei as mãos na fogueira enquanto o Cireneu te carregar o lenho. Senhor, eu te abandonarei sempre que me sentir ameaçado, sempre que meu egoísmo subir à superfície das minhas prioridades particulares. Senhor, mas tu me segues pelas minhas vias dolorosas, tu és meu defensor ante o tribunal do mundo, tu cauterizas com amor as feridas com que sou ferido em casa de meus inimigos, tu vens a visitar-me quando sou para mim mesmo uma cela, quando sou de mim mesmo o carcereiro. Porém, cá estou admirando-te as chagas, contemplando o quão vermelho é o sangue de Deus; aqui estou, sentado aos pés da cruz como diante dum quadro, donde tu pendes como se o sono de Adão outra vez tivesse prostrado um mortal…
  14. O tempo que vai por aí perdido… Quanta proeza soterrada pelo alarme do WhatsApp, quanto sentido escorrido na válvula de escape do bate-papo eletrônico, quanto doce não cozinhado, quanta unha não cortada, quanto versinho pela metade ficou para trás anotado nas margens dobradas do caderno de Direito Constitucional, quantas idéias e ideais de possibilidades o cuco do aplicativo não sepultou na memória e na realidade. Artur deixou de sonhar com o reinado em Camelot para jogar Clash of Clans no Facebook. Rapunzel não ouviu o príncipe gritando seu nome porquê há semanas está deitada na cama e não desliga os fones de ouvido do Spotify de jeito maneira. Dante deixou de treinar seus sonetos no “stil novo” para focar nos 140 caracteres do Twitter. Van Gogh está brincando de acende-e-apaga no Paint. Bach está viciadão no Guitar Hero. Perdidos, nós vamos por aí no tempo. Nunca pensei que chegaria a usar aquele lema batido dos epicuristas, mas vá lá e lá vai: “Carpe diem”, turma!
  15. Das centenas de sonhos que temos na vida, uma dúzia e meia são factíveis, quatro ou cinco são realizáveis e apenas um ou dois acabam vingando. Lei natural, uma espécie de “filtro entrópico” que purga as pequenas coisas que sublimamos das grandes coisas que podemos. No fim das contas, é desejável que apenas um sonho se realize — o grande sonho que abarque e complete nossa vida, que é também apenas uma. Você pode ter centenas de desejos, dúzias de anseios, umas poucas vontades, mas apenas naquilo em que tua alma concentrar a densidade duma aspiração humana inspirada por Deus o teu eu será feliz, feliz como num sonho, o “sogno di volare.”
  16. Por mais que a gente cresça e vire adulto, que a gente avance na idade e na experiência das coisas, resta em nós uma “rapa de tacho” de infantilidade autônoma. Sabe quando você está lá, comportado e centrado, com a mente preparada para devastar a selva escura da própria vida e o deserto iluminado da existência dos outros e, de repente, a criançola (misto de bobo-da-corte com Loki na puberdade) que habita silenciosamente aquela porção do teu cérebro que ainda é caverna pula pra fora e põe tudo a perder? Até um tempo atrás, eu via nisto uma espécie de auto-sabotagem ou mesmo uma área do espírito não suficientemente domada pela metanóia, uma faceta não alcançada pela regeneração salvífica. Percebi, com o tempo, que eu não devia esganar este pequeno Bart Simpson interior, que fala bobagem quando o momento é de gravidade, que prega peças quando é hora de [com]postura, que dá vexame quando há uma liturgia a seguir (seja ela qual for). Ele, como todo o mais em nós, também amadurece e, se bem entendido, serve beneficamente à unidade do nosso ser individual. Este bicho peralta (tolo e bocó, idiota saltimbanco, louco mas com laivos geniais de racionalidade) é, para quem o aceita, um “algo além” misterioso, um grão de sal que compõe a receita das personalidades grandiosas e fascinantes.
  17. Este negócio de “dedo podre” é simplíssimo: você se afeiçoa (e continua afeiçoado) amorosamente à pessoa que lhe “reapresenta” ao seu próprio nível moral. Digo reapresenta porque, via de regra, a si mesmas as pessoas (se auto-enganando) se apresentam no mínimo como de médio senão como de alto nível moral. Nós amamos aquela pessoa que representa proximamente o mesmo nível que o nosso. Em bom português: se o seu tipo erótico-afetivo é uma porcaria e você re-correntemente cai no mesmo buraco, não é porquê você simplesmente se atrai por porcaria, como se fosse um destino sofrer, de foça em foça; é porquê você também é (mais ou menos, aparente ou ocultamente) uma porcaria. Se o seu padrão é baixo, você se atrairá por gente de padrão baixo. O seu arquétipo se inclinará a outro igual ou semelhante. Melhore como gente e você gostará de gente mais decente. Continue sendo quem você é que a podridão do dedo logo se estenderá não apenas a todo o corpo, mas também ao seu espírito (porquê a meleca toda já sai da alma). Abismo chama abismo, diz lá o salmo. E montanha invoca montanha. Recordo do famoso conselho de Ibn Hazm: “Guarda tu alma de lo que la vicia, y desecha la pasión, pues la pasión es llave de la puerta de los pecados.”
  18. No mesmo dia em que escrevi aquele que considero o mais belo dos meus poemas, usei desta minha língua para dizer palavras das mais pérfidas contra meu próximo. No mesmo dia em que mais carinhosamente toquei um coração e um corpo, destruí outro com o desprezo imerecido duma virada de face. No mesmo dia em que dei cem contos a um mendigo embriagado, neguei cinco moedas ao gazofilácio do Senhor. No mesmo dia… É esta a nossa grandiosa e miserável natureza: entre o céu e o inferno, anjo e demônio em vinte e quatro horas; mas bem-aventurado, porquê somos terra convidada à Eternidade!
  19. A nitidez dos olhos sinceros. O embaçamento dos olhos insinceros. Nuns, tudo é cristal da cor da água; noutros, tudo são córneas espelhadas de cinza. Não me esqueço da primeira vez que vi uma galáxia em um par de olhos autênticos, duas gemas de luz — o urim e o tumim do amor. E sempre quero me esquecer quando vejo, quando sempre vejo, um buraco negro incrustrado nas órbitas falsas dalguém. Por mais belos que sejam aos cílios e a íris, neles eu só consigo ver o que os pequenos hobbits viram no Olho de Sauron: vacuidade, o vazio niilista da mentira.
  20. Será triunfal ver o homem comum de senso comum triunfando. O roceiro agricultor suplantando o universitário guevarinha de coletivo, a dona de casa modesta vitoriosa sobre a atriz messalina do Projac, o caminhoneiro semi-analfabeto com um sorriso de orelha à orelha e o intelectual uspiano chorando fel, o pai e a mãe trabalhadores vencendo a guerra ideológica contra a filha sustentada vagabunda e revoltada “contra mundum”. Será triunfal que o homem comum de senso comum chamado Jair Messias Bolsonaro triunfe nestas eleições.
  21. Como se eu fora um daqueles velhos galeões, de madeira e ferro, velejo entre as tormentas e as calmarias. O mundo, oceano imenso e não mapeado, bate rijo no casco ancestral de minha estrutura antiga. Na noite dos tempos, ora de bandeira no mastro ora anônimo na surdina dos litorais virgens, eu persigo o fogo de santelmo que meu astrolábio (herança dos reis-magos) indica. A âncora não quer descer, submergindo na água salgada que a corrói; ela quer subir, como se o céu fosse o fundo dum mar maior e mais vasto e doce, o profundo inverso dum empíreo que também é caverna, qual aquela em que Elias dormiu nos dias de sua melancolia. Navio de antiga forma eu sou, duma engenharia que mistura as formas da galé bizantina com a serenidade dos bergantins brancos que carregam os príncipes em dia de boda real, que une os canhões potentes da nau-capitânia de Filipe II com a ligeireza da liburna romana. Ao mar, ao mar! Que Camões jamais escreveria versos a estes krakens de aço e fogo que percorrem a água do mundo sem notar que no horizonte o pôr-do-sol é mais belo. Que fariam João d’Áustria e Horatio Nelson comandando barcos tão grandes quanto fastiosos na sua tecnologia e inumanidade? Ah, Lepanto! Ah, Trafalgar! Guardo no coração, coração de velho barco (tão barco quanto os botes tailandeses, tão barco quanto o cruzador ignoto que levou a pique os sonhos de grandeza dum reizinho de brincadeira), a proeza e a poesia de quem ousa dizer: “I am the master of my fate: / I am the captain of my soul.”
  22. Jung exagerou no seu arquétipo da sombra, dando-lhe feições demasiado exotéricas e místicas maniqueístas. Mas acertou que em cada um de nós subsistem trevas, negrores, horrores de penumbras malignas que sobem e descem na superfície e na profundidade da consciência, da subconsciência e da inconsciência. Nós cristãos bem podemos chamá-la “carne”. Trata-se, para todos os efeitos, da mesma estrutura de maldade que convive com nossa vida ordinária e mais ou menos boa. A grande questão, porém, é outra. E é uma pergunta: o quanto a luz em nós é capaz de sobrepujar as sombras, ainda que estas decorram daquelas, “brilhando mais e mais até ser dia perfeito”? (Provérbios 4:18). Porquê a Luz Inacessível, quando toca nosso espírito, brilha e brilha acessando nossa alma até que a candeia seja acesa e as trevas sejam alumiadas (Salmo 18:28). A grande batalha espiritual, a grande e maior, creio, é esta: lapidar a abstração da própria sombra até que do escuro brote o claro; é devolver a chama a Prometeu e esperar na caverna o raiar da Estrela da Manhã.
  23. O uso de “frases de efeito” é diretamente proporcional à incapacidade de argumentação lógica, racional e sistêmica. Quanto mais comprometido afetivamente com um causa, maior o número de memes, tiradas, chavões e instrumentos retóricos (emocionais e imagéticos, sobretudo) que um indivíduo utiliza. Quanto mais se tenta condensar toda uma gama de questões complexas numa frase tiro-e-queda, numa imagem caricatural que força o sentimento contra o pensamento, numa espécie de “anzol” ou “gancho” que prende mais pela força impressiva do humor (bom ou mau) despertado que pela estrutura que ele parece re[a]presentar, mais a pessoa se afasta da realidade e, com isto, mais mentirosa e canalha é a mentira defendida. Visite e reviste a timeline alheia nestes dias eleitorais e averigue por si mesmo.
  24. O coração de pedra fria e o coração de sangue quente se parecem numa coisa: um precisa de carne e sangue, o outro de dureza e solidez. No confronto destas duas forças aparentemente antagônicas, irreconciliáveis na superfície de pele e mineral, acontece o milagre: o coração de carne bombeia pedra até diluí-la; o coração de pedra bombeia sangue até que ele a consuma. Então um só coração, natural na biologia e no espírito, pulsa e palpita a razão e a emoção; um só coração, cálido e gélido num extremo e noutro, se equilibra na temperatura da normalidade. Eis o extremo possível do que consiste o “e sereis ambos uma só carne.” Há ajustes entre estados, personalidades e almas que, por mais contraditórios que pareçam entre si, não incorrem em “jugo desigual” (que não raramente se dá entre carne e carne e pedra e pedra, infecundas entre si).
  25. Sentimento e ressentimento. A capacidade de saber quando estamos com um ou outro no coração é a chave para julgarmos a autenticidade daquilo que experimentamos afetivamente. O sentimento é sempre originário, primário: por mais que já tenha sido experimentado no passado em contextos tão diversos quanto distintos, ele sempre se apresenta com tal intensidade como se fosse a primeira vez. Você ama a mulher, adulto, como amou pela primeira vez a menina na infância. Isto é real e verdadeiro. O ressentimento é sempre uma repetição, uma volta cíclica: ele é uma tentativa de reproduzir, por vero-imitação, o sentimento. Você tenta amar a mulher, adulto, como amou pela primeira vez a menina na infância; tenta recuperar o autêntico que aconteceu no passado e pespegá-lo, e implantá-lo, no presente pela contínua projeção ideal no futuro. Isto é irreal e falso. É preciso, por isto, perscrutar sem cessar as disposições do nosso coração e o quanto ele tem entranhado desejos que, na ânsia de acontecerem, acabam criando espantalhos sentimentais naquelas pessoas com as quais nos relacionamos por fartura ou carência afetiva.
  26. Conta das misérias do teu coração as obras que as eras nele deitaram. Conta das grandezas do teu coração os feitos que os séculos nele frutificaram. Não sabes que nas tuas ações agem os atos dos teus ancestrais? O gosto pela gordura do porco é cinco gerações à mesa e ao prato. A ira, fecunda de violência é cólera, é a fúria dos cruzados teus avós. Te encantam as ruivas do Norte e as morenas do Oriente? Não tens dos godos a predileção do próprio povo e das terras conquistadas? Mas, são gostos teus também, porquê entre ti e Adão há um e só homem: tu mesmo.
  27. Pisa o teu passo. Se na terra encontrares o rastro doutros pés, passa ao largo. Dá a volta sobre a pisadura alheia e percorre, e corre, a maratona dos teus próprios pés. Não te voltes a olhar e seguir a medida do caminhar alheio, porquê outros são os mapas e outros são os tesouros. O “x” que procuras, em dourado marcado sobre o pergaminho do Texto Sagrado, foi ditado pelos sábios, pelos profetas e também por Deus: sê tu mesmo! Pisa o mundo, calca teus pés, impõe tuas linhas à face do solo. Passeia, de passo largo e firme, e faz de cada naco de chão fronteira alargada de Sião!
  28. Para ser considerado civilizado o suficiente pelo establishment, e então ser um bom político, o homem deve ser um eunuco. “Moderação”, hoje em dia, é uma outra palavra da novilíngua para castração. Quanto mais emasculado, mais tido por cheio de virtudes cívicas e sobriamente administrativas é o sujeito. O negócio desta laiada é ser uma espécie de Gríma Língua-de-Cobra misto com Luís Roberto Barroso. Leônidas de Esparta, Churchill, Reagan, Trump e Bolsonaro mandam lembranças aos frutinhas Demarato, Chamberlain, Carter, Clinton e Alckmin.
  29. Eu te quero encontrar, Senhor, onde da minha alma sai a fagulha de sol. Eu te quero encontrar, Senhor, no silêncio desprendido do último suspiro de Adão. Eu te quero encontrar, Senhor, entre dois reflexos que se anulam até o infinito. Senhor, encontra-me quando faz frio e meu espírito gela em si mesmo; encontra-me quando respiro o oxigênio do mundo sem o ar do teu pulmão; quando a vaidade dos olhos-espelhos é a visão que mais anseio. Amém.
  30. A gente só ama quando há murmúrio e silêncio. O barulho da exposição destes relacionamentos “ostentados” no Facebook como provas cabais de felicidade valem tanto quanto o berro dum mudo. No muito ruído há pouca substância: é tudo oco de superfície e caro, como um kinder ovo. Calcule, objetivamente, o “custo-benefício.” Quanto mais real, mais tempo se gasta com a coisa por ela mesma e menos tempo se tem para dar a [in]devida publicidade. Quanto mais ilusório, mais tempo se gasta em se mostrar e demonstrar que a coisa não é ilusória, porquê ambos bem sabem que qualquer brisinha praieira derruba o castelinho disneylândiano. A meia-voz os amantes se amam entre si. No estrondo das declarações publicamente declamadas, eles amam o fato de que o mundo pensa que eles se amam.
  31. Você come o arroz e o feijão e não distingue a diferença do sabor do comido ainda ontem. Você acorda, põe o pé no chão e não sente se ele está mais ou menos frio que ontem. Você olha pros olhos de quem diz amar e não percebe se eles estão, na cor e no humor, mais claros ou escuros. Você perdeu o ontem hoje e, por isto, não tem futuro amanhã. Todo o dia a mesma coisa, todo o dia que é dia nenhum. Esteja o sol no começo ou no fim do horizonte, na verão ou no inverno, é o relógio do celular que apenas te diz, vibrando: faz isto e aquilo porquê está estipulado. O teu hábito te fez habitual, tão habitual quanto um bacilo de Koch mastigando o pulmão dum cadáver. O tempo te corrói. O mundo te consome. Os outros te devoram. Você é comida do nada. Até quando? A cerveja bebida no sábado passado, a redação escrita na aula anterior, a boca beijada na última balada, etc, etc, etc. Liste aí tuas realizações, tuas ações reais e irreais. Liste e perceberá que você é um autômato sem eira nem beira que duma caveira se distingue apenas pelo funcionamento biológico. Até quando? Hoje, mais arroz e feijão na marmita ou no prato, mais pisos e solos de cerâmica ou barro, mais relacionamentos insossos que apenas se mantêm pela comodidade afetiva e social de ter qualquer coisa pra fazer ao se ocupar de ocupar o outro. Hoje, mais nada de nada em função do nada. Até quando? Pense nisto.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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