Esponjas de sol — XL

  1. Se tu não escolhes um caminho e nele pões enraizados os pés, qualquer direção incerta te escolherá: ou marcas no mapa a tua caminhada, a linha reta ou ali e aqui bifurcada mas lá no horizonte convergente à missão proposta, ou qualquer placa falsamente direcionada a atalho ou qualquer anúncio de roteiro mais barato te lançará naquela cova aonde vão cair os incautos cuja bússola são as paixões tão instáveis quanto a adrenalina que no sangue lhes envenena a alma. Quem lê, entenda. Et tu, Calvinista!
  2. O que um dia nos diz quando a luz entra pela fresta da janela; quando um pardal pia e bate os pezinhos na calha; quando qualquer silêncio é anormal porquê a vida tem que correr pela rua. O que um dia não nos diz quando o sono ainda cansa as pálpebras; quando o grilo cantador ainda deveria de longe (cúmplice do mosquito, de perto) violar o repouso; quando sequer o eco do eco sussurra a queda duma gota de orvalho na grama, sob o espanto da formiga insone…
  3. A fortaleza cristã consiste em ser afável por fora e sólido por dentro, como um tronco de carvalho: gentileza nos gestos comuns no dia-a-dia, mas possante e resoluto no combate naqueles dias necessitados de vigor e decisão “fulminante”. Brando por fora, cavalheiro amortecedor; duro por dentro, cavaleiro lutador: assim age o homem digno de sua hombridade, na alternância contextualizada do lenço e da espada, do escudo e da pena. O problema é que a imensa maioria de nós, caros senhores, têm sido duro por fora (bronco e grosseiro) e mole (jujubinha-de-jesus) por dentro. Conselho do rei Davi ao seu filho Salomão: “Esforça-te, pois, e sê homem!” (I Reis 2:2)
  4. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  5. Oh, minha alma, tanto antes calva,

Porquê sobre o vento vi a luz, vi a alba;

E se a nuvem escureceu a estrela,

Daqui da terra esculpi uma estela:

Gravei o movimento fixo do astro

Como se o girar fosse uma palavra,

Como se a amplidão em seu círculo

Fosse uma rima num verso perfeito.

  1. A minha alma — da tua a ferida benigna — rasgou-se em pó; verteu luz, seu pus. Enigma.
  2. Põe-te em pé, diante da tempestade. Faz das mãos os remos e da alma a vela. Tu és a nau e o capitão. Tu és a âncora e o marinheiro. Oh, deixa Deus soprar! Oh, deixa a onda arrebentar!
  3. A água a que chamais incolor, se muito se movimenta nada através se vê. Este espírito turbulento, que na quietude etéreo se apresenta, constrói e derruba na terra. Estrelas distantes brilhando iluminam; mas de perto, dos olhos a um palmo, elas cegam.
  4. Tu sabes que este dia um pouco te reviveu ou um pouco te matou? Se de segunda à segunda-feira tu divides os dias entre aqueles que deves trabalhar sofregamente e aqueles que deves descansar em diversões, se o tempo passas assim repartido entre labor penoso e fim de semana entretido, dize-me: de que qualidade fecal é a tua existência? Nada além de tempo em vão, perdido como se fosses um porco, um cão ou um vírus estirado na placa de petri — perdidos todos, cada um a seu modo, para a Eternidade. Agrada-te o fato de que chegarás à idade dos velhos apenas velho pela deterioração, apenas passado pela entropia atuando sobre o teu físico, como um assento de privada que por décadas serviu à latrina pública ou como uma lata de pêssegos reaproveitada para guardar pregos mais ou menos enferrujados? Agrada-te que entre tua concepção e teu funeral quase nada se terá acrescentado ao teu espírito? Sem vida interior (zoë), esta que sob a superfície do ordinário revolve em seu âmago o extraordinário oceano das fontes do abismo divino, a vida exterior (bios) logo te afogará com uma só gota… Uma só bastará. A sinfonia desprezada como “música que dá sono” te fará falta quando teus ouvidos estiverem ocos. O poema esquecido como “frescura de moças” te fará mais solitário quando os olhos estiverem opacos. Não terás apegada à tua memória e sentido as imagens, os sons e as letras da vida superior: então, no inverno, poderias recordar dos campos floridos de Van Gogh e das paisagens douradas de Caspar Friedrich; e nos domingos sem possibilidade de ir carregado à igreja, terias na alma cada trecho de sermão de Calvino, de Barth, de Vieira e de Balthasar, e recomporias no altar a música de Pérotin, de Bach, de Byrd e de Palestrina. Mas, para além da beleza que te ajudaria a consolar, te faltará mais, muito mais; te faltará a companhia da sossegada vida comum que todo homem deveria ter na carne e no espírito, que é a beleza mais alta: recompor, sarado, os passos e feitos de Adão e sua Eva; comer, com a descendência à mesa, torta de maçã, doce de figo e cordeiro assado — luzes e perfeições, símbolos engenhosos e fatos crus, terra e céu, transcendente e imanente. Pagarás, porém, o preço da solidão lancinante por te negares a amar uma só mulher e, com ela, santamente criar filhos como a videira presenteia de frutos as mesas e os altares, os copos e os cálices. Nestas segundas, terças, quartas, quintas e sextas-feiras e nestes sábados e domingos que passas como se não fossem dias especialmente únicos; mas uma mesma segunda e uma mesma terça, quarta, quinta e sexta repetidas ad infinitum, e então uma só coisa, um só bloco de “dias da semana”, de “dias úteis”; como também sábados e domingos não te são este sábado e este domingo específico, mas sábados e domingos igualmente atabulados na rasidão duma mesma nomenclatura e finalidade ourobóricas. Não vês que tens nome de vivo, mas estás morto? Do Senhor sequer preciso dizer-te: Ele é em tudo e para tudo indispensável. A Suprema Beleza que perpassa cada ato teu e cada ação tua, como uma linha de luz atômica que vai e volta do Ocidente ao Oriente dentro da alma. Do contrário terias cultura e erudição ou incultura e ignorância sem sentido, esposa e filhos sem missão extra-genealógica, existência socialmente acomodada à regras em si corretas mas sem o amor livre à Lei que gera a Realidade. Se o mundo assim tão cheio de fama é condenado com aquele brado altissonante (“Sic transit gloria mundi”), a ti este mesmo mundo sussurra ao pé do ouvido: e tu passarás comigo, oh homem anônimo e ludibriado! Hoje, reviveste ou morreste?
  5. Se tu não tens Deus, não tens a ti mesmo: és folha solta, folha petrificada de árvore extinta num só golpe de mandíbula. Sem Deus, que és? Não és… Um desenho no pó delineado, um sopro pareidólico, uma miragem sútil na penumbra demiurga. Se tu não és possuído pelo Senhor, como um cálice se realiza acolhendo o vinho da ceia vespertina, como a pena só tem sua missão quando a asa lhe movimenta nos céus, como a letra só se lê ao se irmanar ao alfabeto na palavra… ||| Oh, Senhor, fonte eterna que gera as fontes perenes, útero da substância da certeza que é real, coração de luz que fora do universo pulsa o puro ser! Sê seiva e enxerta-me na árvore. Outra vez me diz ao ouvido: “vive!”; e sopra nas minhas narinas a pneuma imortal. Assenta sobre as colunas da existência a casa do meu espírito. Desenha-me — no mármore intangível do Teu pensamento, pela concretude da Tua invisível paleta fazedora — e prova-me Tua paternidade. Deus meu, Senhor meu… tem-me em Ti!
  1. Tu podes conquistar um castelo inteiro com seus feudos — das torres góticas à esmerada alcova real. Por que sucumbir por um seixo arrancado do calçamento da rua onde pisou Lady Guinevere? Tu podes juntar todos os quadros e cenas humanas e retábulos e imagens divinas. Por que tudo trocar por um esboço mal desenhado da segunda ou terceira cópia duma bela mas falsa tela? Tu podes compor sonetos como Dante e escrever versos tão métricamente puros como Shakespeare. Por que tudo trocar por insossos poeminhas dedicados à trigueirinha mundana e imbecil? Tu podes, sob Deus, riscar nos mapas o destino eterno dos povos cristãos. Por que tudo trocar por um tabuleiro de xadrez com peças gastas, quando o peso da idade te curvar a coluna idosa? Tu podes fazer tuas preces no Santo Sepulcro e jejuar junto ao altar de Santa Sofia. Por que tudo trocar por rezas pela conversão de almas iníquas, irmãs de Saul? Tu podes gerar uma descendência vigorosa, cheia do viço milenar da raça dos godos cavaleiros e lavradores. Por que tudo trocar pela desonra duma aliança com cepa desarmoriada e preguiçosa? Tu podes ouvir o canto dos rouxinóis nos jardins imperiais e o piar das águias no topo do Himalaia na companhia duma moça virtuosa. Por que tudo trocar pelo gorjear cacofônico do rádio de pilha e pela ralhação duma mulher rixosa? Tu podes viver os dias dum Adão restaurado, empunhando o cetro do auto-domínio e do governo de si, nomeando regiamente a tua porção da Criação. Por que tudo trocar pela pulverização de tuas forças e por esforços hercúleos para no lugar manter minimamente são o centro de tua consciência, a todo tempo desequilibrada pelo mundo exterior? Tu podes ser rei e sacerdote, coroado e ungido entre o insenso da justiça e a glória do amor. Por que tudo trocar pela servidão laical, onde a espada te decepa a cabeça e a balança te pesa o coração, como se Maat e não o Cristo julgasse os homens? Tu podes ser o que podes ser, ato factual da potência possível, máximo e excelente no limite que o Céu te impôs. Por que tudo trocar por pedriscos e rabiscos, por pés de barro e esterco, por ninharias no instante atraentes mas cujos prazeres tanto valem quanto uma flatulência animal guardada em vidro de perfume caro ou um confeito apodrecido vendido sob o preço do maná dos anjos? Tu podes. Por que tudo trocar?
  2. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  3. Olha pela janela, mesmo quando for alta noite e os assovios do vento e das corujas te encherem de medo. Talvez vejas lá por baixo passar a alma que o destino conduz pela rua porquê é a tua rua, e porquê é a tua alma! Olha, olha porquê o mundo quer que os quartos não se fechem apenas para a intimidade; olha, porquê Deus mesmo quer que para o lado de fora haja uma abertura pelo lado de dentro.
  4. O primeiro sinal duma alma atacada pelo diabo é seu fracionamento. A pessoa está toda dividida, despedaçada em pedaços quase sem encaixe: há vários “eus” reunidos num mesmo ente, mas cada “eu” (o profissional, o familiar, o afetivo, o isto e o aquilo) é uma qualquer coisa que quase que age por si mesma, sem coesão, sem unidade. Papéis diferentes, personalidades distintas, funções diversas e caráteres divergentes num só bloco individual, num só indivíduo, variando conforme tempo e lugar. As partes acéfalas, mas autônomas, não pertencem ao todo, já que o todo não é um tudo — é um nada. “Qual é o teu nome?” Respondeu ele: “Meu nome é Legião, porque somos muitos.” (Marcos 5:9). Quem está sob o poder do diabo pouco se conhece e, por isto, pouco se reconhece a si mesmo em si mesmo. Há ação, há impulso, há energia fazendo e acontecendo por meio de si no mundo, mas não há consciência, não um querer da vontade sobre a realidade, não há sequer um desejo (porquê o desejo se sente sempre em paralelo ou contraposto ao intelecto): age apenas o instinto encavalado pela perversão — ora jorrando e ora vazando um comportamento tão impetuoso e forte quanto improdutivo e sem finalidade. A alma assediada pelo diabo olha para o horizonte e não enxerga o porvir, lê o calendário e não mede o tempo pelos propósitos de prazo mais longo, cheira o ar úmido anunciando a chuva e não percebe que o campo está pronto para o plantio. Um “eu” trabalha o dia todo, outro “eu” trabalha odiando o trabalho, um “eu” sai de volta para casa para descansar o corpo, e um e outro e mais outro e outro “eu” prepara o jantar, toma banha, assiste a novela, manda mensagens no WhatsApp, paquera os contatinhos, acorda ainda com sono, acorda também os filhos, compra e lava e passa roupas, vai à igreja esquentar o banco, faz isto e aquilo e só faz; e qualquer um dos “eus” objetivamente apenas e só faz — porquê fazer por fazer é o que faz o diabo. A pessoa se perde num movimento cíclico sem fim no qual todo dia a vida começa e acaba. Há tantos “eus” que não há “eu” algum… Cada pecado que cometemos nos tira lentamente do centro de nós mesmos, nos tira e arranca (gradualmente) um pouquinho do controle que temos sobre nosso “eu”, dividindo-o. E dividido o “eu”, o diabo impera. Ao pecar, batemos a talhadeira do mal na rocha e vamos nos quebrando, nos fracionando e nos esmigalhando até que, em grau absoluto de iniquidade, sejamos e estejamos espalhados em cada pedra, pedrisco, pedaço de pedra e pedaço de pedrisco, e em cada grão de areia que restar pulverizado daquela grande pedra original (petra que es, guardadas as devidas proporções, petrus).
  5. Se não tens controle de ti mesmo, se não és senhor de tua alma, o mundo te controlará e em ti mesmo tu não serás mais que um inquilino com vaga posse do teu corpo. Se não dispões tuas ações, alguém as disporá sob o império duma consciência decidida e duma vontade férrea que não as tuas — porquê estás inconsciente, alienado, e cheio de inconstantes desejos. Se não te controlas, és peça de xadrez no grande jogo mundano; peão ou rei, não importa a hierarquia com suas penas e confortos, uma mão invisível te controla. Sê de ti mesmo o mestre, para que sejas causa e ação, e não joguete inerme de efeitos e reações que desconheces porquê não conheces a ti mesmo!
  6. Um pequeno mal gera mais e outros e maiores e mais fortes males. Se tu não deres fim ao pequeno trinco (tapando-o) que ameaça expor tua mente e teu coração, ele logo crescerá até que se torne rachadura e, então, muro após muro e muralha após muralha, desmoronará todo o teu castelo interior. Duma semente de cardo não queimada pelo jardineiro de pronto surgirá um jardim logo feito bosque e após transformado em floresta, em selva, de ervas-daninhas! Quando identificares um mal, um pecado aqui e ali confinado em ti, trata de eliminá-lo para que ele não venha, depois, a fertilizar teu espírito e neste esparrarmar-se indefinida e incontrolavelmente; assim, perderás as rédeas dos infinitos efeitos e das infinitas reações desta causa e ação primária que poderias, santificando-te, ter exterminado. Anota.
  7. A paixão é de si tão inferior ao amor que não somente é um estado patológico psiquiátricamente comparável à loucura, é também muito mais sem graça no nível consciente (porquê a paixão, ora, é feita de inconsciência pura e refinada). É sem graça porquê lhe falta, entre muitas coisas, o enigma e o mistério. No amor, sorrisos recatados e olhares de cores sentimentais mais cheias de nuances que uma tela de Van Gogh; na paixão, lábios-e-bicos caricaturais e caras eróticas de hiena no cio. No amor, detalhes silenciosamente entregues aqui e ali no perfume borrifado no papel e na gola, na letra mais esmerada, no apertado de mão sem jeito, no encabulamento amplo, geral e irrestrito, na timidez que sabe porém o que quer; na paixão, o exagero atirado dos feromônios, a comunicação sem-vergonha dos toques, contatos e mensagens retas e diretas (mas espiritualmente tortas e oblíquas), a desinibição que sequer sabe o que quer. Na contramão dos versos de Camões: paixão é fogo que arde e se vê, é ferida que dói e se sente. A paixão é o suprassumo do aparente, do alcançável, do evidente; e, como tal, é solucionável. O amor é de si tão superior à paixão que não apenas é um estado de saúde espiritual, é também muito mais cheio de graça!
  8. Faz o que é certo. Deixa os resultados com Deus. Semeia, planta e rega, porquê ao Senhor cabe dar o crescimento. Faz a tua parte, sem terceirizá-la ou dividi-la, para que depois a culpa ou o mérito não sejam injustamente compartilhados no todo. Guarda tua consciência e nunca arreda em nada, sequer numa vírgula ou til. A covardia de ceder por conveniência psicológica ou social não cabe a um homem redimido. A única opinião que importa é a da tua consciência julgada por Ele. Faz o bem, o elevado, o melhor: e que se lasque o mundo amante do mal, do baixo, do pior. Se estão acostumados à lavagem dos porcos, mostra-lhes as pérolas e depois joga-as aos leões da terra e às aves do céu. Faz o que é correto. Deixa as reações com Deus.
  9. Vida feliz é vida com Deus. O resto é desespero existencial camuflado. Um buraco na terra tapado com concreto ou geléia ainda assim é um buraco. Um buraco na terra tapado com terra deixa imediatamente de ser buraco. O buraco é o vazio que todo homem carrega. Deus é a terra para nossa terra, é o preenchimento perfeito que extingue o vácuo, que acaba com o buraco — porquê em Sua semelhança se funde nossa imagem. Qualquer outro material é placebo tampador, que nada promove senão um disfarce tapeador. Sem Deus a gente não passa de animal ansioso por saciar imediatamente seu instinto sedento por prazeres desordenados ao preço de tristeza rigorosamente paga em prestações intermináveis e cada vez mais caras, mais doídas. Isto deveria fazer você perder o sono!
  10. Há muita beleza numa face trigueira, de carne ondulada e harmoniosa. Há muita beleza nuns olhos da cor e da forma da amêndoa, de íris alada e fulgurosa. Mas há muito, muito mais beleza numa expressão sincera, de espírito reto e angular. Há muito mais beleza num olhar colorido de pureza translúcida e moldado na integridade de mãos livres. A partir do momento em que a pessoa deixa de ser uma estátua de carne e osso, um objeto para o julgamento estético à distância, e torna-se um indivíduo de alma e espírito no contato e no relacionamento direto, a ética da proximidade altera completamente nossa percepção de sua beleza. Conclusão, que aprendi lendo Ortega y Gasset e, muito melhor, que aprendi lendo as mulheres: a beleza que atrai muito raramente coincide com a beleza que enamora.
  11. Sinta, só hoje, saudades de passados que não foram; de namoro, noivado e casamento que não aconteceram; de filhos que não tivemos e com os quais não brincamos, e que nunca conhecerão a fé em Nosso Senhor porquê eles não são, porquê eles não foram; sinta saudades de jantares que nunca comemos, cúmplices, à luz de velas, de estrelas e de comuns lâmpadas incandescentes, na cozinha apertada do apartamento do começo inexistente das moedas contadas e depois na longa e elegante sala de jantar do casarão que nunca foi comprado na abastança; sinta saudades dos poemas não compostos mas de alguma forma decorados, das canções orquestradas entre duas sombras no cerebelo mas nunca ensaiadas para platéias silenciosas, dos sonhos desesperados e das esperanças que foram cair num buraco — o abismo do que poderia acontecer e não aconteceu, a câmara secreta do possível transmutado em impossível. Sinta, só agora, saudades destas possibilidades tão simples e douradas, tão caras e singelas, inundadas por complexidades assassinas, prateadas, tão custosas e presunçosas; sinta, porquê se qualquer fio de luz ainda te restar na alma, ainda hoje e agora és capaz de reviver estas possibilidades. O presente é ausente quando não se move para o futuro por culpa das ansiedades do passado. Estou ouvindo aquela Romanza melancólica, de solitudes suaves e profundas, de Bacarisse: escuta ela também, para que sobre o teu espírito desçam as mesmas preocupações que inundam o meu. O violão, assim ponteado, desnudou a nós dois, como se a pele mesma fosse rasgada e mais nua que o corpo se encontrasse desvestida a própria alma; mas os violinos, e a orquestra toda com eles suspirando, nos cobrirão, nos cobrirão!
  12. A maioria das pessoas sequer conhece o significado do próprio nome. Daí (início mínimo do conhecimento sobre os aspectos formais acerca de si mesmo enquanto terráqueo), até o auto-conhecimento fundamental de seu significado individual no cosmos, há um abismo quase que intransponível pela imensa maioria das pessoas. Tudo começa e termina com nomes: com aquele que está na Certidão de Nascimento e cujo registro nos identifica entre os membros sociais da espécie, e com aquele que Deus nos chama em oculto e depois nos chamará publicamente e cujo escrito nos assinala como filhos Seus. Começa aprendendo o porquê de teu nome Aqui, para que, então, te prepares para o porquê de teu nome Lá. Será assim tão à toa e casuísticamente despropositado teu nome, fruto dum capricho de gostos paternos ou maternos? Não! Teu nome é teu símbolo impermanente no imanente e permanente no transcendente, tua sina fatídica no físico e fática no metafísico. Sê minoria: sabe o porquê e o significado; conhece-te a ti mesmo!
  13. Qualquer coisa grosseira se muito e repetidamente tocada acabará delicada. A madeira mais rústica se tornará lisa e tão polida quanto uma mesa envernizada de convento de freiras idosas. A pedra mais dura se tornará lapidada e tão luminosa quanto um fragmento de estrela ou uma gema de coroa imperial. E o coração mais escamoso e congelado, toque a toque, no toque digital e individual que desgasta o metal carnoso e lhe transfere um poucochinho do seu calor, se tornará tão aveludado e quente quanto o colo materno. O toque puro de uma alma é capaz de descascar, lapidar e polir outra tão melhor que as milhares de mãos que diariamente, há séculos, lustram o pé da estátua de São Pedro em Roma. Com muita sabedoria diz o caipira: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Se no carvão há centelha de diamante e sob o tronco se delineia obra de arte: goteja teu afeto! E repara bem, porquê o brilhante pode ser negro e a escultura o entalhe de uma árvore…
  14. Tenho notado que, das coisas que uma alma mais sente falta em outra, a falta maior é de companhia para conversar aquelas conversas tão longas e profundas que se começam falando, vá lá, por exemplo, do mistério da Santíssima Trindade, passam pela povoação de todas as galáxias e terminam numa boa receita de spaghetti alla carbonara. Encontrar companhia para olhar as estrelas como Kant olhou e como os aborígenes ainda olham o céu noturno e, depois, conversar sobre; companhia para ficar perplexo com a última notícia proseada no pinga-sangue sensacionalista do Datena e com a crueza poética de Macbeth e, depois, conversar ainda mais sobre; companhia para se encantar com uma idéia bem pensada, com uns versos bem limados, com uma pancada de chuva na diagonal molhando justamente o pedaço de chão mais seco do jardim, com uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite, enfim, com isto: com o mundo real que parece imaginário para a maioria que mal sabe que, entre o coração e o cérebro, existe uma alma da cor do primeiro gole d’água que Adão deu na moringa logo depois que suou sua primeira gota de suor. E depois? Conversar mais e mais sobre! Companhia adequada para falar, aparelhada para dizer, alinhada para… conversar. O silêncio é importante como a digestão e a conversa como a comida. Tem alma quem não precisa assim, assim tão profundamente, conversar?
  15. Descobri que eu tinha qualquer coisa na vida mais a ver com o passado que com o presente quando, moleque, eu olhava pras pedras e pensava (sentindo) que elas não eram tão pedra quanto o seixo que Davi meteu na testa de Golias, quanto qualquer rocha tocada pelos pés dum eremita anônimo nos desertos da Síria ou da Capadócia; menos pedra que uma pedra lapidada pelas mãos de Moisés ou esculpida por Michelangelo, e mesmo menos pedra que as pedras que faziam o menino Jung meditar e menos pedra que as pedras que meu bisavô jogava ricocheteando no lago de Hinterburgseeli. Reacionarismo, romantismo, idealismo platônico temporal? Nada disso! Apenas a intuição de que, hoje em dia, nós mal olhamos pro chão e que a natureza das pedras nos diz qualquer coisa como: “vocês se vão daqui e nós ficamos por aqui, onde somos permanentes; aqui vocês se deterioram e lá, onde vocês são permanentes, nós nos desmanchamos.” Uma noção infantil, mas bem sincera, de Eternidade. Será por isto que o Senhor nos advertiu que se nós nos calarmos as pedras clamarão?
  16. Há pessoas completas muito complexas e pessoas complexas muito incompletas; e há pessoas completas muito simples e pessoas simples muito incompletas. Pessoas complexas são pessoas cuja estrutura de personalidade é filigranada — cada parte se desdobra, nuancentemente, em outra, como numa mandala, como a geometria molecular. Pessoas simples, por sua vez, têm estruturas com menor número de componentes, como a geometria das formas puras, como o Stomachion de Arquimedes. As pessoas completas descansam em Deus, encontraram a unidade de espírito e têm em si mesmas um mundo ordenado. As incompletas, vadiam pelo mundo esfacelando-se no caminho, com a alma esburacada e desencaixada dos pedaços que ela mesma soltou. Complexidade sem Deus é confusão do eu. Simplicidade sem Deus é fusão do eu.
  17. Um mau-caráter racional é como merda congelada: a frialdade, contendo a essência da bosta nela mesma, meio que aprisiona o fedor. Daí, o perigo da conservação do mau restrito ao âmago do ente que o carrega. Um mau-caráter emocional é merda como ela é no pós-intestino: na densidade, na cor e no cheiro, enfim, no crivo dos sentidos — de pronto reconhecível e, por isto, quase nada prejudicial a um homem bem armado dos “apetrechos higiênicos” da alma. Merda congelada é objeto contundente: pode matar. Merda in natura é inofensiva: no máximo suja. Entre fezes ferinas e logicamente reprimidas e excrementos molengas e extrovertidos, prefiro lidar com o pessoal deste segundo naipe, de rápida decomposição; contudo, quanto ao primeiro, Deus pode nos armar com o lança-chamas do “Discernimento de Espíritos”. Anota.
  18. Se você conhece a Deus, deve simplesmente agir segundo a Lei dEle sem calcular as complexas reações do mundo. As coisas darão certo, rápido ou devagar, porquê o Senhor vela sobre Sua palavra para cumpri-la (Jeremias 1:12). Mas, se você, conhecedor, resolve medir e ponderar sua ação não em função do Eterno, mas da lógica terrena das possíveis perdas e danos ou dos ganhos e lucros, as coisas necessariamente, agora ou depois, darão errado. Para qualquer outro mortal até que poderia dar “certo”, mas para você não: porquê você tem que ser e estar certo para, então, agir certo e, daí, o efeito ser o certo. O homem natural, desconhecedor da Lei, freqüentemente pode se dar ao luxo de avaliar e contar os caminhos do “efeito dominó” probalístico duma ação, jogando os dados do cálculo racional e tentando obter o desejado termo das coisas sob a ótica da sorte (O Fortuna, velut luna statu variabilis!). Mas, você não! Quando o movimento do seu espírito partir do errado (a tibieza, o egoísmo e a dúvida calculando…), mesmo que formalmente tudo pareça tremendamente certo, tudo dará errado para você; enquanto que, paralela e eventualmente, poderá dar tudo “certo” para os outros. Se Deus lhe conhece, Ele complexamente agirá para que Sua Lei calcule em você suas simples reações no mundo.
  19. Feto no infecto. Educação vem de útero.
  20. Três conselhos: i) Nunca minta para alguém em favor de ninguém. Não ajuda quem escamoteia ou esconde a realidade apenas para assegurar coleguismo ou segurança psico-social. Ajuda quem diz “sim, sim e não, não!” sem o temor de desagradar, porquê o que é, é, e o que não é, não é; e é a Deus que se deve agradar; ii) A mentira só ilude quem depositou seus afetos num certo conforto/estabilidade que ela pode, temporariamente, gerar. A “pulga atrás da orelha” fazedora de cócegas sempre crescerá até se tornar um dragão cuspidor de fogo. Melhor ceder de pronto à fricção irritante da consciência e da intuição que, depois, acabar com a alma incinerada; iii) A verdade às vezes é tão simples e evidente que, aos olhos duma pessoa hipersensível, ela pode ser tomada por mentira, já que lhe falta altas doses de adrenalina, teatralidade grandiloquente e histerismo. Para quem se impressiona com pranto e ranger de dentes, com juras e bateção de pezinho, melhor deixar que a mordida e a picada, que a queda da máscara e a “dancinha da vitória” sejam o remédio dolorido da realidade.
  21. Julgar se isto ou aquilo é certo ou errado é fácil. Porém, julgar se esta ou aquela pessoa que faz isto ou aquilo é moral ou imoral, é difícil senão impossível. As reações externamente muito se assemelham, mas nunca se igualam as ações que as geram. A dor de cabeça (na nuca, digamos) sempre é corporalmente equivalente na área atingida e no sintoma, mas a causa é sempre variada (tensão muscular, meningite, pressão arterial, etc), como variado também é o tratamento dispensado uma vez identificado o motivo. O roubo, o homicídio e o adultério levam absolutamente ao inferno. Mas não se pode dizer se tal ladrão, aquele assassino e este adúltero irão ao inferno por este roubo, por aquela morte e por tal traição, porquê rouba-se para comer e para minar o trabalho alheio, assassina-se levianamente e em legítima defesa, trai-se o cônjuge por luxúria e por coação. Entre Robin Wood e Catilina, entre Mao Zedong e Claus von Stauffenberg, entre Anna Karenina e Lucrécia, há nuances mil: há Al Capone e Lampião, Guilherme Tell e o Rei Davi, Messalina e Madame Bovary — há pessoas e pessoas com suas circunstâncias e circunstâncias.
  22. O eco sempre superará a própria voz enquanto ela não for consciente, ou seja, enquanto ela não for usada com propósito. Abrir a boca ociosamente, sem negócio objetivo a tratar, é atitude típica de gente cuja personalidade individual em nada ou quase nada (senão em detalhes inferiores) se diferencia da indigência da multidão. O homem superior não fala à toa; ele diz com intenção missionária. Se Deus é Logos, a Palavra, tua imagem-e-semelhança deve se ordenar na ação à partir dEle: o logos espiritual controla o caos carnal e ambos se equilibram (cosmos) na alma. O uso da língua e, consequentemente, da linguagem, é o primeiro sinal de auto-domínio do homem sobre si mesmo e sobre sua vontade vocacionada atuante. Enquanto nossa consciência não produzir as palavras que decidirmos lançar no mundo (transformando-o, sob a Vontade Divina), palavrório inconsciente nos arremaçará contra o mundo (fortificando-o através de sua própria destruição, sob o desejo satânico), porquê o mundo é o próprio “reino dividido” e a divisão, antes de tudo babéica, se insurge polissêmica e espiritualmente contra Deus. Por isto, o Cristo exorta: “Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.” (Mateus 12:36). Controla tua língua e o mundo não te controlará!
  23. A verdade (estado essencial das coisas) liberta, mas também se liberta: ou ela alforria o homem da mentira (contingência momentânea das coisas) e o submerge na realidade ou ela se desprende do homem e o expõe em sua mentira. Mas, este escândalo da exposição é também Graça divina. Por isso, quando a Escritura nos diz que tudo o que está oculto ou escondido virá à luz do dia, enfim, será revelado, ela simplesmente promete redenção: o que é deve ser conhecido absolutamente; e o que não é, reconhecido totalmente para que, logo em seguida, seja completamente esquecido. A verdade permanece. A mentira, desaparece. Deus e sua criação inifinita continuam eternamente. O diabo e sua transformação provisória cessam temporalmente. Todo este processo acontece e ocorre o tempo todo. Prestem atenção e perceberão o quanto conversas particulares e discursos públicos, em pequena e grande escala, se fazem e se desfazem e se compõem e se decompõem em idas e vindas de dados e informações que, de repente, confrontados entre si (na afronta dialética do ser contra seu ente), nos revelam a realidade das coisas — a verdade. A mentira cria uma tensão no âmago da coisa por ela negada que (latejando, palpitando e pulsando desde dentro) logo acumula uma força que irrompe poderosamente para fora. É o que dizem, complementarmente, estes dois provérbios caipiras: “A verdade existe, só se inventa a mentira” / “A verdade sempre vem à tona”. Apenas o que existe permanece evidente.
  24. Nunca ceda (crendo) à conversas idas e vindas sem emissor e receptor identificáveis, mas cuja mensagem é papo louco e perigoso. Nunca ceda (acreditando) à blá-blá-blá de lá e de cá cuja ação não tem causa[dor] aparente, mas cuja reação é efeito devastador. Quem conta um conto não só aumenta um ponto: quem conta um conto descontrola a própria contagem e perde as rédeas dos próprios pontos aumentados ou diminuídos. A perna da mentira às vezes é longa, mas é curta a faca que num zás-trás a amputa.
  25. Ontem fui a um e hoje fui a dois velórios. Guardei Eclesiastes 7:2 (“Melhor é ir à casa onde há luto…”) e recordei que sou pó. Só lhes posso dar este conselho: não vivam o hoje como se ele não pudesse terminar ainda hoje; não vivam como se não fossem morrer; não vivam por viver como se esta vida, através da morte, não levasse à uma nova vida ou à uma nova morte eternas. Brahms entendeu isto e compôs esta beleza, consoladora.
  26. Você se sente bobo e ingênuo diante da platéia fuxicadora? É incapaz de interpretar tudo com malícia e na base das segundas e terceiras intenções? Você ainda acredita em olho-no-olho, na Lei de Deus e na liberalidade de fazer as coisas apenas por amor? Fique feliz, por mais que seja incompreendido: você ainda tem uma alma para chamar de sua.
  27. Atira uma pedra aos pés do teu próximo e ela voltará, célere e robusta, como rocha sobre tua cabeça. Atira pedriscos nos olhos do teu próximo e eles voltarão, leves e afiados, como toneladas de areia soterrando todo o teu corpo. Recorda — antes de empunhar o seixo, antes de preparar o estilingue: “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” (Mateus 7:2)
  28. A grande beleza da música medieval consiste em que cada composição é um todo formado de partes que são por si todos, que por sua vez são partes de outros todos até que a Parte indivisível finalmente se aconchegue no Todo uno. É música composta de células de harmonias em escala infinita, filigranada de eternidades, gradual e hierárquica como os coros angélicos.
  29. Cheguei à conclusão de que 99,9% das brigas entre casais por WhatsApp tem origem na interpretação enviesada do texto pela mulher. Vejam, senhoras e moças, que quase sempre vocês lêem a mensagem já grudando à cada palavra ali utilizada um suposto tom de voz e à cada frase ali usada um suposto estado emocional, ou seja, vocês lêem o que nós escrevemos supondo não só nossa voz dizendo o escrito (vocês lêem “ouvindo”), mas supondo sua exata tonalidade vocal e supondo toda uma carga psicológica e mesmo gestual conexa. Daí, se seus pensamentos estão/são positivos e favoráveis ou negativos e desfavoráveis em relação ao interlocutor, o fato é que o texto é imutavelmente o mesmo, ipsis litteris; mas suas conclusões acerca dele são absurda e absolutamente antagônicas, divergentes e contraditórias. Por isto, caros confrades, fica aqui o meu singelo conselho: escrevam descrevendo seu estado de espírito o máximo possível, usando e abusando de gifs, emojis, memes, repetição de letras e pontuação, etc. Elas vão lhes entender mais e melhor — sem ver grosseria, melosidade, ironia ou qualquer outro sentido (e condição psico-vocal) que não aquele desprendido pelo significado quase puro, estrito e dicionaresco da palavra que vocês utilizaram e usaram apenas para dizer o que ela apenas e tão somente quer dizer. A comunicação com as belas filhas de Eva é, anotem, muito mais sútil e complexa que a tradução de qualquer uma destas línguas proto-indo-iranianas que quebram a cabeça dos eruditos de Oxford! Espero ter ajudado. Boa noite.
  30. Entre o certo e o duvidoso, só é certa a dúvida. Cambalear na escolha entre possibilidades mais ou menos já julgadas é o suprassumo da indecisão. Evidência de que a segurança do certo não é tão segura e de que o duvidoso tem em si qualquer pilar de sustentação…
  31. Li alhures que as últimas palavras de Arnold Schönberg, o compositor, foram na verdade uma só e sólida e solitária palavra: “Harmonia”. Não, ele não contemplou a “harmonia das esferas”, numa inspiração pitagórica de gênio moribundo; não, suas cordas vocais não articularam, último estertor da língua!, variando sob o tema da alucinação, a palavra que mais e melhor define a essência mesma da arte musical; não, o artista não intuiu a forma e a fórmula suprema da linguagem musical — uma “lingua ignota”, no esteio daquela iluminação verbo-sonora alcançada pela Santa de Bingen. Tampouco aflorou seu ocultismo numerológico, coisa de judeu atavicamente cabalista obcecado por comparações e coincidências, tentando definir o destino final-e-inicial das coisas criadas no molde da Geometria Originária. Tenho para mim, porquê senti isto no âmago dos neurônios, que o velho se arrepiou em Deus e desatou seu último suspiro… harmônico!
  32. Aconselha com justiça e fervor próximos à ira, mas aconselha com o amor de um pai que é irmão: palmada dolorida mas didática de quem ama, como um bê-á-bá soletrado (em alta voz, ao pé do ouvido!) som a som em busca do significado mais profundo do verbo na língua de quem ainda está (por culpa própria!) aprendendo que detém o dom da fala — o dom de ser moral.
  33. Dá ao rato o queijo todo e vê se, faminto, ele consegue roer dos vinte quilos algumas gramas para além das beiradas! A ambição que dilata a íris dos olhos grandes não é capaz de alargar a boca e o estômago.
  34. Leva-me aos Teus mais altos montes, onde as águias se aninham em família, onde os anjos se assentam para confidências.
  35. Idealizadas, as coisas vão se tornando “pomos de ouro”, tão superiores mas tão abstratas e inalcançáveis. Quanta gente, bem intencionada (e por isto muito tola), enche a alma de sublimações acerca das decisões, pessoas e quereres da vida! Pensar por arquétipos, por modelos prontos, por padrões engessados que o intelecto falho desenvolveu impulsionado pela perfeição sentimental do coração, conduz à infertilidade existencial; conduz à insipiência e, então, à frustação. Então, olha-se para o mundo encurralando suas possibilidades concretas pela régua interior, pela foice das idéias castradoras, como se o que se carrega desenhado na mente pudesse moldar a realidade independente dela mesma. Platonismo infantil! Manter concepções elevadas importa quando elas são orientadoras e transformadoras das coisas, mesmo que leve, poucamente; porém, quando os ideais impedem a fruição da vida porquê não se coadunam com as coisas, eles são instrumentos do Mal, afinal, se neles e por eles é inalcançável a Felicidade e o Bem, como justificá-los e quere-los e ansiá-los?
  36. Quando deixamos de ver na mulher um enigma e no olhar um mistério, quando o sorriso dela abandonou o contorno sútil do imediatamente indecifrável e o olhar brilhante mas obscuro tornou-se tão óbvio quando a volição relampejante da córnea duma hiena no cio, nós nos tornamos animais. Trocado o perfume pelo feromônio e o amor pela carnalidade, tudo é possível: e tudo é só “tiro, porrada e bomba.”

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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