Dois bilhetes dispersos a mim mesmo

I. É como ouvir um oboé tocando solitário uma qualquer melodia de taverna irlandesa, é como dos passos da bailarina soarem os trovões dum órgão de catedral gótica. Quem já mediu a temperatura duma lágrima recém-saída dos olhos daquela mulher, no instante entre a queda que vai do canalzinho no canto do globo ocular até o ponto que na face consegue sustentar o líquido, sem alterá-lo no sentimento, no calor e mesmo no ph ao contato da pele? É como ela cantando, duma campina distante e próxima, o “Baïlèro” de Canteloube; é como se, ainda que da cor da aurora presta, as maçãs amadurecerem sem antes o outono folhar a superfície do rio. Ninguém, de certo, jamais mediu a precisa porção de joules que aqueles olhos castanho-raiz entornam toda vez que resolvem meditar. O termômetro, o único termômetro, é teu coração.

II. Tu és estátua que fazes a ti mesma. Nesta dialética de movimento que faz a inamovibilidade, neste dinamismo que organicamente assenta e fixa, tu te esculpes. Mas podes sair deste trabalho obra-prima ou monturo de pedra com feições algo humanas: se te esculpes sozinho, mal se vendo e percebendo (porquê, recorda, o homem que esculpe é o homem que é esculpido), sem espelho sequer, tu pouco ou muito cortarás na lapidação e nenhuma harmonia conjunta surgirá; porém, se deixas que Deus conduza tuas mãos, confiando, cada aresta aparada dará forma à uma beleza superior. Por mais que no início nada vejas, quando as linhas se interligarem em suavidade e perfeita geometria, um qualquer espelho embaçado brotará do teu coração e, de olhos fechados e de íris cerradas, contemplarás o Senhor dizendo-te não aquele “parla, parla!” de Michelangelo nem aqueles versos homéricos que balbuciava Rodin aos ouvidos de suas estátuas; ouvirás, voz forte de brisa serena como se lua e sol compartilhassem o mesmo céu, aquele brado — “vive!”— que ouviu Adão.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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