Do Livre-Arbítrio

Poderás escolher entre o fundo do poço e o chão do abismo, entre as entranhas trevosas da terra e as profundidades escuras do solo. Poderás arbitrar entre o gosto amargo do fel e o paladar acre da bílis. Em copo de vidro, em taça de cristal, em cálice de prata e ouro atesourado, do mesmo líquido, espesso líquido, beberás das mil e uma versões iguais. Na mutação das palavras, apenas, a diferença entre os caminhos bifurcados no início separam-se em opostos destinos; mas, lá no horizonte da realidade final, onde convergem as linhas todas das escolhas aparentes, encontram-se no mesmo cavoucado sepulcro o querer dos homens, o teu querer e desejo e vontade. Poderás escolher e arbitrar entre a morte do corpo e a extinção da biologia, entre sepulcro de mármore esculpido e vala rasa no canto anônimo do campo santo. Poderás decidir entre velas amarelentas de cera apiária e de parafina branca, entre coroa de rosas vermelhas e arranjos de lírios alvos. Poderás deliberar sobre o cântico fúnebre: se o Dies Irae de Mozart ou o de Verdi ou ainda qualquer assobio triste na gaita rouca ou pagode entretido no estéreo. Poderás sentenciar os detalhes indetalháveis das tuas exéquias, se na luxúria das telas pornográficas eletrônicas ou nos caros bordéis monegascos, se no licor decantado nos barris das Terras Altas ou na ordinária cachaça dos jacus, se na lâmina prateada de espadachim palaciano ou no tiro exterminador de brigão de pocilga, se erguendo o punho ideológico cerrado contra as Duas Tábuas ou calando passivamente a voz da lei eterna que palpita consciência. Eia, ao labirinto dos trezentos e sessenta e cinco atalhos conduzindo para o único portal, caminho por onde o barqueiro das chamas distribui suas moedas aos cegos. Poderás deliberar e sentenciar, resolutivamente, sobre qualquer aspecto fatal do decreto imperecível: estás morto e ainda uma vez mais morrerás.

Que é este facho de luz, puro como a água da primeira fonte a irrigar aquela árvore de cognição perfeita? Por que escoam centelhas e farelos de estrelas sobre o cerebelo que me atina sentido? Que é esta escada, faiscando direções longínquas até o topo celeste? Por que sinto os sentidos sensíveis à imensidão, querendo o que nunca quis e tendo prazer em não ter os prazeres que agora pouco me excitavam a carne? O choro com suas lágrimas, lágrimas densas de terra por saliva umedecida, rompeu nos meus olhos visão plena de quem sou, de onde estou e para onde ia e agora já não vou. O sono da campa fria vai-se embora num nevoeiro de espectros e arquétipos fantasmagóricos e dentro de mim, no centro nuclear do espírito moldado do pó da terra, ergue-se — ergo-me! — o eu mesmo. A espada cessou de guardar sentinela a entrada do meu éden; conduz-me uma Mão através da fronteira, passo ao largo do foço, atravesso as muralhas custodiadoras das formas originais da alma, adentro o portão ameado pelas lanças e bandeiras dum “Faça-se!” que é palavra-e-ação, chego ao pátio do domínio, posto-me no grande salão real, sento-me num banco que ladeia um trono em doze degraus assentado. De repente, grande mesa de dois manjares, pão e vinho, estende-se; e brancura celeste toma o recinto. É de barro ourivesado o cálice, o graal da Verdade. A doce bebida vinificada jorra do lado dum cordeiro estendido e o pão é a carne trigal do seu corpo. As vozes invisíveis dos arautos dizem-me: “nasceste!” Escolho? Arbitro? Decido? Quero? Desejo? Mas, quê? Escolho escolher e arbitro arbitrar decisões de quereres desejados? Há só e solitariamente uma direção que me pode impulsionar, um só trecho que é também única estrada: o teu querer, Senhor. Se assim sou tua imagem que o físico quis refletir em semelhança de veroparecimento, não sou contigo fundido sem ser confundido? Não sou um exemplar tão acabado como aquele pai meu, pai nosso, erguido da vermelha fuligem terrenal? Despertaste-me. Ah… e se ainda não é em glória o corpo reformado, se ainda não está elevado à estatura maior que o aguarda, ainda assim escolheste-me para a Vida que não tem fim. Vivificaste-me e ainda uma vez viverei.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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