Diário em Midgard — XIII

Avisto o primeiro e provavelmente o único e solitário e último túmulo de toda Terra. Nunca vi — mas agora o vejo diante de mim — um jazigo como este. É arredondado como o dos vikings anteriores a Kodransson. E é sereno e acolhedor como uma toca. A relva o encobre. Nada tem de tosco: é arquitetado por quem sabe construir com beleza. Sobre ele, ergue-se imponente uma tamareira antioquitana.

Uma pequenino portal piramidal, de calcário nas beiradas e de granito no centro mesmo da portinhola, parece fazer as vezes de entrada. Trata-se, percebo tocando-o, apenas de desenho finamente esculpido. Não há como abrir o túmulo. Ao lado dele, uma estela branca escrita em quéchua e latim diz: “Hanaq pachap kusikuynin: hic iacet David, rex quondam, rexque futurus.”

Na lateral da estela, em semítico antigo, está gravada esta data: “Primeiro dia do primeiro mês do primeiro ano”. Recordo-me de algo. Há três dias, na aldeia, foi dito pelo profeta (que é sapateiro e então martelava três taxinhas em cada pé das minhas botas de sete-léguas) que daqui três milênios não mais haveria morte entre aqueles que comeram o pão de trigo vermelho. Um clarão!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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