Diário em Midgard — XII

Estou no Pátio dos Leões. Seu piso, colorido e oval como a mais perfeita opala daquele marajá que abraçou o crucifixo enquanto morria-lhe a filha única pelas mãos de um soldado pagador de promessas. Suas paredes, superiores em altura e brilho àquelas luzes encapsuladas nos vitrais que custodiavam os reis franceses quando eles iam fazer suas preces no Útero parisiense.

O centro do pátio é banhado por um pequenino lago — uma folha-quase-placa de água que emerge do chão tão lenta e vagarosamente quanto a areia da Ampulheta Dourada submerge em suas próprias dunas. No centro do centro do pátio, equilibrando-se sobre a água, está um enclave de terra branca, uma ilhota cujo tamanho não vai além de um milionésimo de 12 mil estádios.

Naquele solo rico como o roxo mas alvo como o calcário infértil do Saara, está plantada uma árvore, uma oliveira. Diz-me sussurrando o sacerdote: “Nosso Pai colheu meia semente da árvore original e plantou-a neste recinto, onde a madeira que brotava da montanha ruge aqui, pia ali, brame lá e fala aí. A raiz central, mais fina que o mais fino fio de cabelo, desce até o centro da terra.” É um bonsai.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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