Diário em Midgard — X

Ao abrigo das luzes que de onde vêm não sabemos, caminhamos silenciosos em direção ao horizonte mais dourado entre todos os quatro. Se é redonda e circular como a hóstia estelar, já não posso dizer; mas esta terra que pisamos hoje parece ser quadrangular e plana. Há um norte definido pelas alturas celestes e o caminho é tão reto que talvez o sumido geômetra da aldeia o tenha traçado quando ainda era criança.

Há murmúrio ou mesmo um canto a emanar dos raios dourados e prateados que dançam, alados, no céu. Estranho: como ali estão se não se vê o fio de luz que os conecta ao sol? E onde está o sol? A luz é tremenda, mas… onde está o arqui-astro? Espera. O menino que vai a frente cantarola: “Sol da justiça, sol da justiça, temos agora teu resplendor!” O padeiro, que caminha ao meu lado, e ao lado do senhor das vinhas, dá-me um cutucão e sussurra: “É meia-noite, homem! Não notaste que dormiste menos?”

Estamos aos pés de uma pequena montanha. Parece-se, na forma, com o domo de uma daquelas catedrais renascentistas. Chamam-na a “Casa de Enoque”. Ao pé direito, atrás de uma gigantesca oliveira de aparência milenar, está um curral. Todo o povo caminha para lá. Estamos já a soleira da entrada. Todos, um por um, entram. Estou já próximo. Sou agora o próximo. Entro. De joelhos: meu Deus e meu Senhor, então toda a luz do universo provém deste cordeirinho recém-nascido?!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *