Diário em Midgard — IX

A noite cai esbranquiçada. O inverno reúne todas as cores — prisma invertido que é quando verte seus cristais sobre a terra — na placidez alva da neve. O vento não compete com os lobos. É tão suave o som do ar-avançando que faz supor que a maresia das águas orientais vaga nas campinas do vale.

Os chefes das famílias repicam os sinos nos jardins ao anúncio da meia-noite. O ancião-mor toca o galo de prata e corre à cerca da igreja para incomodar o galo dormente até que ele acorde e cante a plenos pulmões. O coral das crianças entoa, tão logo, uma composição dos tempos rúnicos.

Uma grande mesa é posta. Sentam-se apenas as crianças. Os adultos (seus pais e mães, seus avôs e avós), em jejum, servem-lhes azeitonas cozidas, suco de uva e pão quente com manteiga. Está comendo a última criança: quis mais pão e vinho. Toda a aldeia o espera em silêncio. Ele acaba de comer a última migalha e beber a última gota. Eis o novo pastor. Todos saúdam: Tu es sacerdos in Aerternum!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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