Chanson du Baron Fortunat

O incenso das nuvens não quis esconder o luar,
Para que não se despisse em vão o negror de tua íris
E se confundisse com a escuridão das estrelas ausentes.
Que foram feitos dos enfeites de prata e opala?
A prata é em ti a permanente constelação
E a opala perpétua mutação de tua face.
Os sefarditas chegam e dizem: é virgem nossa!
Os mouros igualmente cantam: nossa odalisca!
Mas o cristão desde sempre decreta: donzela minha,
Camponesa das torres e princesa dos trigais e vinhas,
Que aras nas sedas finas o sono da comum jornaleira.
Um palácio de azulejos, retábulo gótico e chão barroco,
Um minarete para o Shema, uma capela para o Kyrie
Olha no dossel a efígie do santo maciço, não oco.
Olha que todo o dourado é metal puro, não pirita.
O harém duma só mulher, de véus aos milhares e únicos lábios.
O mel não te farta o dulçor!
O leite não te chega à saciedade!
Eia, desçamos à cidade
A carregar o régio andor dos florentinos favos,
Porquê Dante deu de beber a Beatriz o licor de Olinda
E de mim tu nunca lerás o parvo, o infame “oi, linda”.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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