Durante as aulas de terça-feira

Amanheceu o mar na fragrância da luz de agosto, como o dourado lusco-fusco dos dobrões sepultados no Atlântico. Os pés na areia eram limpos das escamas do pó moribundo — a pele, da cor da lepra.

Ela não sabe mas sabe
Que a amo desamando,
E que ela a quem ama
Ama tanto e odiando.
Bom espanto e acalanto
É o olhar que mira desviando
Na fresta, na fechadura sem chave.
Rita, tão pura e impura:
Virgem de beijos de amor,
Com os lábios gastos no bolor
De contatos desalmados. 

Esponjas de sol – XXII

610. Nas artes visuais, a Beleza é um conjunto de afetos elevados cuja manifestação dá-se através de uma unidade estética apurada. Doutra forma, que se diria das pessoas notoriamente “feias” retratadas por Rembrandt, p.ex?

611. Enigma. Alva beatitude cantará douradas estrelas — fervorosas guardiãs, hirtas impassíveis — jejuando labaredas menores (neófitas!), orbitando pulcras questões sorridentes: tempestades uterinas vergando xistoso zênite. Which killjoy are you?

612. A Democracia é um cadáver pútrido que jorra sangue quente sem parar. É, ao mesmo tempo, vida e morte. Todas as demais alternativas são morte pela morte: um corpo social há milênios apodrecido, com sua seiva vital coagulada friamente em pó na ágora, na corte, no parlamento, no paço, nas arquibancadas políticas — verdadeiras poças de pó. A Democracia, contudo, banha de calorosa crueza humana a ágora, a corte, o parlamento, o paço, as arquibancadas políticas: o Poder das Gentes é morto enquanto possibilidade de existência acional plena (o fazer através do corpo), mas sua substância vital (o querer da alma) nunca conhecerá sepultura. 

613. O cristão não deve se acovardar diante das vicissitudes. Por isto, ele não quer estar no meio daqueles que correm dos grandes conflitos: o cristão corre desafiadoramente em direção aos conflitos. A coragem de enfrentar o mundo em nome do justo, do correto e da verdade é o penhor da vida de um homem digno da própria humanidade. Atanásio de Alexandria sem dúvida é para nós crentes o arquétipo superior do varão destemido — um amigo certa vez lhe disse: “Atanásio, o mundo está contra ti!”; ao que ele resolutamente respondeu: “Assim seja, Atanásio contra o mundo.” Dar a cara a tapa não é para homens em cujas veias corre urina em vez do sangue de Adão.

614. Ser consciente é compreender-se no mundo e é poder discernir com certa acuidade as causas e os efeitos dele em nós e nele mesmo. Só é consciente o homem que não é presa de si nem do mundo, que não tem o coração tangido pelos impulsos baixos da biologia nem mesmo pelos supostos quereres altos da ideologia. Só é consciente o homem que é escravo da realidade. Só é consciente o homem que é livre para submeter-se à verdade. Todos os outros guerreiam pelo conforto da caverna escura, pela satisfação frenética e entrópica da alienação, pelo ópio fugaz da diversão que anestesia a alma, pelos vícios em endorfinas existenciais, pela inconsciência que faz do homem um parente despenado do avestruz fujão.

615. Não se deve jamais perder o espírito de criança, mas é imperativo, uma vez que se chegue à “idade da razão”, perder a infantilidade nos afetos. É constrangedor perceber que muita gente adulta faz birra, bate o pé e grita descontroladamente aplicando às questões da existência adulta as emoções e o modus operandi do jardim da infância. Ter o espírito de criança é possuir as virtudes delas — inocência, candura, ingenuidade, alegria multiforme, etc — e não os vícios inerentes à raça humana quando ela ainda chupa chupeta e bebe leite morno açucarado na mamadeira. 

616. Quando as Sagradas Escrituras nos dizem que os “tímidos” ficarão de fora do Reino de Deus, elas não se referem à timidez psico-afetiva, enfim, à timidez daquelas pessoas que sentem-se introspectivamente bloqueadas pelo mundo e não conseguem reagir apropriadamente à determinadas situações psico-sociais. A timidez da qual fala a Bíblia é a mesmíssima covardia omissiva que fez Dante Alighieri duramente afirmar que “Os lugares mais quentes do inferno são destinados aos que, em tempo de grandes crises, mantêm-se neutros.”

617. O ateu que passou do primarismo filosófico já não se pergunta se Deus existe ou não. Ele sabe que é impossível provar a inexistência na mesma medida em que é “empiricamente” impossível provar a existência dEle. O ateu sincero é aquele que agora já se pergunta: “Por que deveria ou não existir?” Quem chegou a este ponto (ontológico) está a um passo de abraçar Deus na próxima esquina da Razão, porque passou da lógica materialista songamonga para a intuição espiritual.

618. O conhecimento é um grão de areia (democraticamente encontrável em todos os lugares), a inteligência é uma pedra (menos plural na forma mas igual no conteúdo, tem certa abundância), a sabedoria é uma rocha (só se topa com ela nas jornadas que nos levam para longe do conforto do lar-planície), a humildade é uma montanha (para além do horizonte, só se alcança pela escalada). O grão-de-areia, pisa-se com os pés. A pedra incomoda os pés. A rocha obriga a desviar os pés. Porém, a montanha pisa-se com os pés, incomoda os pés e obriga a desviar os pés; afinal, ela é um todo que agrega as contradições do caminhar humano. Assim é também com o intelecto: apenas a humildade é capaz de congregar saudavelmente as divergências (e diferenças) funcionais da mente sem, contudo, desordenar nossos afetos. A humildade faz do homem um ser conhecedor, inteligente e sábio sem torná-lo vaidoso, orgulhoso e soberbo. É facílimo deter conhecimento, é fácil nascer inteligente, é difícil atingir a sabedoria, mas é dificílimo (uma vez dotado na cognição de certos conteúdos acerca das “coisas visíveis e invisíveis” — a Realidade) ser humilde.

619. Simplicidade é virtude. Humildade, idem. Simples é o homem “bruto” natural, é a pessoa mais próxima da sua espécie. Humilde é o homem que discerne o seu ser como ele é, sem dourados e vernizes. Ambos os estados nada têm a ver com ignorância ou poucas possibilidades financeiras. Quanto à ignorância, ela só é reprovável naquelas pessoas que não são simples nem humildes, enfim, não são conscientes daquilo que não sabem e por isso supõem saber. Maldito (e perigoso) é o ignorante orgulhoso — o sujeito que não conhece mas ousa crer sincera e vaidosamente que conhece. Este deve ser combatido, porque é um perigo para os simples e para os humildes, para os sábios e para os conhecedores: é inimigo da atividade do Logos na sociedade.

620. A Pindorama-mirim e a grã-Pindorama nacional só serão desenvolvidas quando Língua, Religião e Alta Cultura forem a base sólida sobre a qual os indivíduos escolherem edificar suas vidas. Língua: além de mera comunicação, instrumento de civilização espiritual e intelectual. Religião: os valores atemporais que nos ensinam que o tempo cessa com a eternidade e que toda ação material tem efeito metafísico — porque a Salvação vem de Deus. Alta Cultura: vida interior repleta de beleza (e arte), capaz de abastecer plenamente a alma humana de alegria e serenidade.

621. A coisa mais artificial no Éden seria uma biblioteca. Para que livros quando se convivia com Ele? Para que palavra escrita quando se tinha junto de si, pessoalmente, o Verbo? Adão consultaria a Barsa para descobrir se determinado cogumelo o envenenaria e Eva viraria página após página dalgum livro de melancólicas poesias românticas? Para que letra desenhada com o suco das amoras e a pena de um gavião? A necessidade de re-conhecer o mundo provém do pecado. Pecando o homem, do lenho da Árvore do Conhecimento extraímos a celulose para os papiros, para os pergaminhos, para os tomos de papel dos quais necessitamos para chegar à definitiva conclusão: “não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne.”(Eclesiastes 12:12).

622. A música cristã ortodoxa é cheia de filigranas vocais; cada uma delas carrega o peso do mundo.
623. O átomo está estruturado conforme os quatro pontos cardeais.

624. O indivíduo está para a Humanidade como a caligrafia particular de cada homem está para as padronizadas letras de forma que a ele e à sua classe foram ensinadas no Início, na [proto-]alfabetização.  

625. A noite: metafísica. O dia: físico, materialista. A escuridão das 12 horas sem sol remete à nossa incapacidade de ir além nas veredas da razão, porque a todo período de discernimento alumiador acerca de determinada questão segue-se, sobre o mesmo plateau consciencial, o ensombrecimento das idéias de quando se acorda por outras idéias mais espessas (intuídas) de quando se espera o sono imaginativo — idéias que repelem qualquer completa coerência das anteriores. A noite subsiste no mesmo terreno em que reina o dia; e como é outra a atuação dos homens, da fauna e até da flora, de todo o mundo, morto ou vivo, neste mesmíssimo ambiente quando as trevas irrompem no horizonte! O observador diurno só pelo dia mede os homens. O observador noturno, idem. Porém, apenas a Revelação concilia empirismo evidente (explícito) à realidade inevidente (implícita) e demonstra a razão de ser das Vinte e Quatro Horas.

626. Para gravar no umbral de toda universidade — Defende as tuas fronteiras, guarda o trigo mal crescido: porque aí vêm os bárbaros, os midianitas e os hunos. Corre à meia noite pelo campo, tu, escudeiro do grande Leão, e cava fossos sobre o pasto. Incendeia a cabana e a lama, desvia o curso do regato; bebe, soldado de Gideão, e vai comer a carne crua do último gado flechado.

627. Antigamente, toda a energia animal humana era depositada na guerra: o sujeito liberava as tensões biológicas da auto-preservação no enfrentamento direto e massivo contra outros sujeitos. Espada contra espada e as pessoas eram menos violentas no dia-a-dia justamente porque expurgavam sua libido grosseira nos campos de batalha. Hoje, ausentes as pelejas bélicas, os indivíduos mais selvagens (portanto, mais necessitados de briga) descobriram o Facebook e brincam de espadachins uns com os outros gritando “touché!” a cada post imbecil que alcança a incrível marca de meia dúzia de curtidas entre a molecada de meia-idade do “partido político” do MiMiMi.

628. O covarde sempre põe a culpa no outro: “Não fiz, porque fulaninho não deixou!” / “Não agi, porque fui impedido por ciclanildo!” /“Não pude, porque beltranejo fez cara feia!” Um homem digno da própria hombridade não foge ao primeiro “boo!” fantasmagórico que lhe dão na cara. Por a culpa no outro é expediente indigno, sobretudo para aqueles que pretendem assumir qualquer posto de liderança; liderança que é qualidade pespegada à intrepidez, à audácia, à coragem de enfrentar e fazer valer suas prerrogativas. Quem se submete quando deveria se insurgir, sempre que melar as calças (porque sempre as melará) porá a culpa não na própria fricção intestinal intimamente associada ao seu caráter gelatinoso, mas a porá no outro, a porá nos outros. Na vida privada, o covarde é um tolo tolerado pelos que lhe circundam (e protegem, via de regra). Na vida pública, é um perigo para a prosperidade social.

629. O amor consiste também na suprema exaltação da amada, individualizando-a a tal ponto que a universaliza. A particular mulher que se ama torna-se a única e superior mulher entre todas as outras no mundo, torna-se Eva para um filho de Adão. Salomão dá o exemplo ao escrever no seu livro dos Cânticos — capítulo sexto, versículos 9 e 10: “Porém uma é a minha pomba, a minha imaculada, a única de sua mãe, e a mais querida daquela que a deu à luz; viram-na as filhas e chamaram-na bem-aventurada, as rainhas e as concubinas louvaram-na. Quem é esta que aparece com a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?” Cantada bíblica, of course.

630. Shakespeare escreveu, no seu Macbeth, que “A vida é uma simples sombra que passa.” Poético e forte em termos de impressão no senso comum, mas errôneo como chamar biscoito de bolacha e vice e versa. A vida é simples, sem dúvida. Mas, não é uma sombra. Ela passa, mas não empurrada pelo espirro de um qualquer agente físico. “A vida é uma simples luz que permanece”, se diria com maior verdade. É luz porque foi criada pelo que habita na Luz Inacessível. E permanece não porque não transite de lugar para lugar, de ambiente para ambiente, de condição para condição. Permanece porque nunca será outra coisa e jamais terá outra essência de ser que não luz, luz que condiciona a própria sombra.

Esponjas de sol – XXI

591. Como se manter coerente diante da incoerência sistêmica? Como se manter racional diante da irracionalidade generalizada? Como se manter lógico diante do ilógico ideologizado? Apenas a fé em Deus e na superioridade da consciência sobre a inconsciência é capaz de nos apaziguar o espírito quando a loucura reina.

592. O poder financeiro tem seu limite em si mesmo, ou seja, o dinheiro bloqueia o dinheiro e, por isso, após comprar “tudo e todos”, ele se autodestrói e dialeticamente fortalece justamente a causa oposta e adversa. 

593. A crença em Deus não é propriamente crença. Não é crendice ou crentice ou cretinice ou crentinice. A crença em Deus é uma cegueira profunda causada por um grande choque de luz — da mais potente luz, a luz que contrai as pupilas e arranca a prata do cognitivo espelho ocular, a luz que Paulo chamou “inacessível”. Nós, crentes, apesar de não vermos aquele a quem chamamos Pai, nem por isso deixamos de tocá-lo, assim como um cego toca tateando as faces da pessoa amada. E como o cego serve-se do bastão-guia para trilhar seu caminho cambaleante mas certo, nós temos em nossas mãos trémulas um livro-guia que nos avisa a respeito dos obstáculos da vida — a Vida que está no Caminho que é Verdade. “A crença em Deus”, dizia outro dia um ateu, “é cegueira!” E não é que nós concordamos? Estamos cegos diante do Ignoto e do Abscôndito. Mas, se sabemos que é Desconhecido e que está algo Escondido, já não também sabemos que é Conhecido e Revelado? Deus seja sempre louvado!

594. Não se deve refletir a vida inteira. Há um momento em que a reflexão naturalmente se encaminha para uma ação racionalizada de caráter perpétuo. Deve-se sim pensar durante toda a vida. A todo homem consciente chega o dia em que o perscrutamento das “coisas visíveis e invisíveis” cede lugar à labuta nas coisas “visíveis e invisíveis”. As milhares de perguntas arrefecem e são submergidas por algumas poucas mas densas respostas.

595. A Literatura Universal é a mais sólida e vasta reserva de Humanidade. Desconhecê-la e propor-se a ser “ponta de lança” em termos de influência sócio-cultural (e política) é se auto-abortar intelectualmente. Não sai da linha de largada o sujeito que tem idéias e não sabe/consegue ver (e então revelar) nelas a Idéia. Quem não leu Dom Quixote não sabe o que é o Idealismo que moveu cavaleiros andantes e move jovens de bicicleta na Avenida Paulista. Quem não leu Dostoiévski não sabe o que é o Realismo que moveu filósofos no século XIX e move velhos ranhetas que assistem ao Datena. Quem não leu Homero não sabe o que é o Ceticismo que moveu Descartes e move alas conservadoras e liberais em Pindorama, em São Paulo, em Brasília e nos confins da terra. Suma de tudo: quem não lê adequadamente jamais poderá alavancar a Realidade; desperdiçará energia por todos os lados sem jamais mover-se um mísero yoctômetro para além do próprio eu-lugar.

596. Em política, sem sobriedade e certo “accountability”, num instante a poça torna-se abismo. Quem não se pautar por idéias e descer o nível (o nível, que é emanação do caráter) vai amargar merecida derrota. O povo é inteligente e sabe discernir gente séria de gente histérica.

597. A obrigação número 1 de quem tem um cérebro é pensar. A obrigação número 2 é impedir que espertalhões pensem por você. A obrigação número 3 é desmascarar estes espertalhões.

598. A verdade é sempre uma e una: “esta caneta bic é azul”, portanto. Mas, a mentira é múltipla e polivalente: “a caneta não é azul, é preta”; “não, é amarela”; “é cinza”; “é incolor”; “é da cor do cavalo de Napoleão”; “é azul, mas é Montblanc”; etc, etc, etc, até uma “isto não é uma caneta, é um meteoro de Júpiter”. Entenderam? Ou o Cristianismo é a Verdade ou não é nada além de tagarelice de religiosos abestados e medrosos. Ou Jesus Cristo era Deus ou ele era um charlatão ou Elvis Presley ou um curandeiro palestino que tomava o chá do santo-daime ou um alienígena da Galáxia GN-z11 ou qualquer outra coisa que não Deus.

599. Ninguém terá vida enquanto Ele não conceder vida. O homem sem Deus é um zumbi existencial, é um arremedo de átomos organicamente energizados, é um boneco de ventríloquo cuja voz é o eco do urro do Adão caído. Só vive quem é consciente. Só está realmente vivo quem foi despertado para a Realidade. Só detém vida quem foi batizado na Vida. Quão fácil é a idiotia de estar no mundo sem saber o que é o mundo e para onde se vai arrastado com o mundo. Quão fluidamente indolor (e tolo!) é atirar-se para o abismo com a manada que insiste em dizer que alguém falou que o caminho da libertação é “ali”; ali para onde todos os cascos marcham morbidamente acelerados. Ninguém vive se não bebe da água da vida e nela não lava os olhos. Enquanto as escamas não caírem, você será apenas mais um número de RG e CPF à espera da certidão de óbito. Decida-se por Deus e tudo ganhará a cor exata, o significado exato, a luz exata. Você viverá como ser que sabe das “coisas visíveis e invisíveis” e não mais como ente que mal suspeita da própria grandeza.

600. O ser humano vicia-se na medida em que não usufrui de prazeres verdadeiros. Então, não tendo alegria e felicidade puras (que são coisas do espírito), ele se apega às poucas e falsas “delícias” que a carne pode temporariamente fornecer, alienando a alma. O problema é que a matéria não consegue fornecer entretenimento corporal por muito tempo. Chega uma hora em que, para conseguir o mesmo efeito, aumenta-se a dose do álcool, aumenta-se a dose do pó, aumenta-se a dose do sexo, etc. Porém, chega ainda uma outra e já derradeira hora: a hora em que, por mais que sejam gigantescas as doses, elas deixam de produzir o efeito almejado. Então, o prazer acaba e fenece juntamente com os litros de álcool, com os quilos de cocaína, com as perversões todas. Sobra apenas o vício frenético e suas decorrentes loucuras. Por isso, quando o Cristianismo ensina e diz que isto ou aquilo é pecado, ele não o faz porque quer nos arrancar um prazer; antes, o faz porque nos quer conservar sentindo prazeres verdadeiros e perenes (cheios de “potência existencial”), alegria e felicidade que fruem do interior imaterial para o mundo material. A virtude da santidade, ao contrário dos vícios da iniquidade, nos permitem usufruir de todos os prazeres com harmonia e funcionalidade. Quem peca, anula todos os demais prazeres em nome de um que aos demais rapidamente consome e, feito um buraco negro, logo se auto-consome. Sobra o vácuo do insignificado — da depressão que suspende o sujeito do mundo e o faz provar o inferno ainda na terra.

601. Pode o cristão amedrontar-se diante da morte? Não há, no computo geral da Realidade, verdadeiros motivos para tal, não obstante seja um sentimento do homem natural o encher-se de pavor diante da própria finitude terrena. Mas, cheios de medo ou plenos de serenidade, eis diante de nós o irremediável fato supremo: toda carne, nua como veio, retornará ao pó. É bíblico e histórico: o fruto do Éden em nós frutificou destruição corporal. Contudo, da cruz fúnebre ao sepulcro vazio, eis o Senhor vencendo a morte, aniquilando-a e, por fim, destruindo-a através da ressurreição. Podemos chorar. Devemos chorar. Todavia, Ele nos pacifica o espírito e amorosamente limpa dos nossos olhos toda lágrima. A Vida venceu. Um cristão, portanto, não precisa temer a morte. Ela já não existe, propriamente; trata-se simplesmente do segundo e final parto — o parto para a Eternidade.

602. A leitura dos clássicos é indispensável tanto para o político quanto para o povo que gera o político. Se todo efeito deriva de uma causa, ao menos no plano físico, tal lei não se aplica rigorosamente às relações sociais — que vivem de altos e baixos, de sístoles e diástoles psicológicas. Então, consumir a boa literatura ocidental e oriental dos últimos três milênios é um meio razoável para que se compreenda a natureza do poder e o porque dele ser o “doce mel” a que aspiram as gentes. Compreendendo o mecanismo, compreende-se facilmente toda a sistemática política, seja ela democrática (hoje, eleitoral), monárquica (hoje, constitucional e parlamentar) ou aristocrática (quase extinta). Os clássicos são o resumo adensado da alma humana. Sem prestar atenção à esta sábia produção intelectual, tanto povo quanto político se auto-enganam; daí, nascem as aberrações.

603. Um cristão não fica feliz, não rejubila, não exulta com o pecado do seu próximo. Um cristão não sorri, não ri, não gargalha com a queda de quem quer que seja. Um cristão não sente orgulho de qualquer suposta virtude sua, afinal, isto é coisa de fariseus auto-justificadores, de pagãos orgulhosos, de escribas legalistas. Um cristão quer saquear o inferno e não, com o dedo em riste, tomar o lugar de Satã e condenar os homens às chamas eternas. Um cristão deve se parecer com Deus e não com o diabo…

604. Lei inexorável: em qualquer contexto humano, a inteligência virtuosamente utilizada e o preparo mental sempre vencerão a ignorância e a desorganização intelectual dos indolentes. Há um momento em que toda retórica iníqua (sobretudo a do dinheiro) não avança e por si mesma é freada. É aí que, no dizer de Provérbios 21:22, “O sábio escala a cidade do poderoso e derruba a força da sua confiança.”

605. Não se pode julgar a qualidade de um vinho pela sujeira do cálice que o acolhe. Semelhantemente, não se pode julgar a qualidade e a veracidade de uma idéia simplesmente pondo os olhos na má conduta de quem a defende. O homem sábio é aquele que sabe discernir a ideologia do ideólogo e o ideal do idealista. Portanto, o Cristianismo não pode ser julgado tomando-se como parâmetro o péssimo exemplo de muitos “cristãos.” Que tem o Cristo a ver com os cafetões da Fé que fazem do templo de Deus covil de ladrões e salteadores? Que tem o Pobrezinho de Nazaré a ver com aqueles que iludem corações susceptíveis a ilusionismo simoníaco? Que tem o Deus Crucificado a ver com toda sorte de canalhas que falam em seu nome? Por isso, é indispensável a leitura da Bíblia Sagrada: nela encontramos Ele — que é Caminho, Verdade e Vida.

606. É mais do que importante: é necessário freqüentar uma boa igreja. O Cristianismo distingue-se das demais religiões justamente por pregar uma vida comunitária — de comunidade, “de dois ou três reunidos” em Seu Nome. A palavra igreja, aliás, evoca vida organicamente coletiva. Igreja vem do grego ekklesía, cujo significado é “povo”. É na igreja que o indivíduo torna-se parte de uma família e, nela, recebe os sacramentos da vida integral. Um cristão não é apenas um batizado que crê em Jesus Cristo. O cristão é aquele que recebe e cultua o Senhor em espírito e em verdade num culto racional e institucionalmente estabelecido. Vá à igreja. Nela reúnem-se os filhos de Deus, os salvos, aqueles que na terra anseiam pelo Reino dos Céus.

607. Saibamos prestar atenção às mensagens de Deus. Ele fala o tempo todo — seja com silêncio amoroso ou através do megafone do sofrimento. Deus sussurra ao pé do ouvido e brada severamente na alma. Não passa um dia sem que o Senhor nos diga algo, sem que nos mande bilhetes, sem que nos ponha em contato direto com o Céu. Não diga que Deus não fala com você. Você é que é insensível — surdo, cego e mudo — à conversa que Ele quer ter contigo ontem, hoje e eternamente.

608. Cristo mandou negar-se a si mesmo. Que quer isto dizer? Certamente, não se trata de uma guerra ao próprio ser, à própria personalidade, àquelas qualidades individuais que nos fazem singulares. Negar-se a si mesmo é negar o ego supremacista, é abjurar aquela parte da alma que nos faz orgulhosos e soberbos. Negar-se a si mesmo é afirmar a plena centralidade da Divindade na formação integral da Humanidade (Gálatas 4:19), afinal, diz a Escritura que somos “imagem e semelhança” dEle. Ao contrário do totalitarismo islâmico, que submete o sujeito à tabula rasa da religiosidade cega e padronizada, o Cristianismo ressalta o eu verdadeiro, resgata a pessoa real da suas personagens irreais, faz subir ao verniz da superfície o âmago do espírito, anula a caricatura culturalmente fabricada em série e exalta a obra-prima celestialmente planejada. Negar-se a si mesmo é, então, não ser o que não se é.

609. Tenho a impressão de que poucos cristãos olham para o céu — este alto e azulado céu atmosférico — e ainda se vêem cortando os ares, singrando as nuvens, saltando depois pelas galáxias iluminados por supernovas e anjos com tochas eternas, e enfim chegando ao Terceiro Céu, às portas de Sião, aos braços de Deus. Maranata!, a despeito da incredulidade dos crentes. Maranata!, ainda que os púlpitos não esperancem as almas com vislumbres da Nova Jerusalém. Maranata!, mesmo que o Arrebatamento já não passe de metáfora mística para teólogos ateus.

Esponjas de sol – XX

584. Senhor, a tua face ensangüentada eu busco. Por que estaria limpo o meu rosto? Faz da lágrima humana gota de suor divino. Por que é salgado o choro e o trabalho? Senhor, este teu silêncio me amedronta. O teu silêncio me angustia até a medula, me faz desesperar o espírito em dores de morte. Tu, Oleiro, sabes que mais que pó eu sou caco — caco de um vaso pelo Mundo quebrado, caco esmigalhado pelas pedras do Inimigo furioso. Por que silencias? Senhor, se tu te ausentas da minha visão carnal, se tu te escondes destes meus olhos materiais, inda assim tua presença é notada. És permanente Ser-e-Estar. Na penha da alma eu te vi pelas costas. Não saiu de ti virtude? Tu és Pai — tu que arrancastes as rodinhas da minha bicicleta e, mudo ao lançar-me no reino terreno, disseste-me: “Vai, filho! Vai pedalar no meu Caminho. Vai, filho! Vai ser livre na minha Verdade. Vai filho! Vai existir na minha Vida.”

585. O arco dispara sem flecha quando o ardil é injusto. / Confusa é toda queixa lançada contra o justo.

586. Cristo mandou negar-se a si mesmo. Que quer isto dizer? Certamente, não se trata de uma guerra ao próprio ser, à própria personalidade, àquelas qualidades individuais que nos fazem singulares. Negar-se a si mesmo é negar o ego supremacista, é abjurar aquela parte da alma que nos faz orgulhosos e soberbos. Negar-se a si mesmo é afirmar a plena centralidade da Divindade na formação integral da Humanidade (Gálatas 4:19), afinal, diz a Escritura que somos “imagem e semelhança”dEle. Ao contrário do totalitarismo islâmico, que submete o sujeito à tabula rasa da religiosidade cega e padronizada, o Cristianismo ressalta o eu verdadeiro, resgata a pessoa real da suas personagens irreais, faz subir ao verniz da superfície o âmago do espírito, anula a caricatura culturalmente fabricada em série e exalta a obra-prima celestialmente planejada. Negar-se a si mesmo é, então, não ser o que não se é.

587. “Por que desejo ser um escritor?” Quero ser escritor porque quero ser íntimo do Logos, porque quero deitar a cabeça no peito da Palavra e ouvir sua respiração, e ouvir sua pulsação — a substantiva Pneuma divina, a adjetiva sístole e diástole Verbal. Quero escrever porque Deus escreve. 

588. Ouço Bob Marley e sou contrário à liberação da maconha. Leio Nietzsche e não sou ateu. Canto a Marselhesa e sou monarquista. Recito o Kol Nidre e não sou judeu. Dialogo com todas as pessoas, bem como com todas as suas idéias e pensamentos. Porém, sempre tendo a racionalíssima verdade do Cristianismo como crivo inerrante, como pedra de toque. Como o apóstolo Paulo, examino tudo e retenho o bem.

589. Da caverna branca poderá sair escuridão? A não ser que o dia se rebele contra o sol e a lua se amotine contra a noite, jamais brotará treva do interior iluminado por Deus.

590. Ajoelha-te, homem! Pede chuva ao teu Deus. / Pede que água desça do céu e ágüe o sertão. / A temporã e a serôdia pede de mãos ao alto. / Que sejam regados todos os canteiros teus. 

Triste pueblo sin ventura

Carpirás o mato dos túmulos vazios?
A enxada enferrujou no poço de lágrimas.
A lima? Perdeu-se no meio do laranjal.
Conta aos mundos a épica falsidade
Dos versos aos tiranos dedicados.
Conta aos mundos e aos três céus
Que rimas adornaram cadafalsos
E que redondilhas douraram prisões.
Chora antes pelo corpo dilacerado
Do ladrão não pranteado,
Do pobre envergonhado e aguilhoado.
Chora pelos criminosos sem réquiens.
Deixa aos menestréis do poder
A ode fúnebre nas catedrais. 
Uma marcha para Maria a Sanguinária! 
Um discurso para a pira de César Augusto!
Vou ali no canto, preparar a foice.
Vou ali no campo, decepar o trigo.
Quem o suor sempre bebeu,
Nunca ouvirá o conselho de Aitofel.

Diário em Midgard — VIII

As cerejeiras não querem florescer enquanto o vinho não acabar no banquete. As taças espumam e os cálices transbordam. Bebedeira? Nenhuma. Embriaguez? Que é isto, afinal? O sábio Khayyām está escandalizado: quer correr ao lagar e comer o mosto das cólicas do espírito.

Ensinaram os prussianos a empunhar pincéis orientais? Ensinaram-nos a carpir os campos de batalha e chorar longe dos jardins? Os reis são estalajadeiros e os nobres servem pães de cevada aos camponeses. O 777º barão de Shim’on é um dos melhores jardineiros da aldeia.

Os cães comem grandes bocados de pão-de-ló e os gatos lambem o mel que escorre da colmeia do nonagenário Napoleone. As cerejas estão maduras e cozidas no vinho dos vales altos? Mas… onde estão as flores?  Comamo-las antes que se tornem sementes-em-broto.

Bilhete à Ela [trecho do quase acabado conto “Sob o Sol do Inverno”]

Que clichê, dirás, é falar da luz do olhar. Mas que outra coisa poderia eu dizer destes luzeiros de alma vibrante que destilam paz em minha alma? Que te poderia dizer senão os versinhos antigos, as riminhas infantis e os sussurros de sempre? O amor é igual desde o Éden, Helena. São iguais as juras entre o casal de Verona e as promessas que te fiz sob o ipê branco. Estas palavras usadas pelos românticos e pelos parnasianos surradas, são as melhores. Se não são refinadas em literatura, são apuradas para o coração. 

The Two Towers

Calvo calcário das frias praias inglesas,
Onde Cromwell molhou os pés de Darwin.
Quem, afinal, é bípede? O ogro puritano
Ou o cético anglicano? À confusão vim,
À marchar contras as singelas purezas.
O cavalo manso e o Natal com maçãs doces.
O caco de porcelana azul e a concha barroca.
A carga de cavalaria arruinou a mesa pronta.
A proporção áurea abandonou a mística idéia.
Ser a criança que galopava sobre os campos?
Ser o menino colecionando as sobras do mar? 

Quarta tardia

I. 
Interpretas o símbolo com oriental denodo, mestre?
O ocidente que é senão a alegoria da velha metáfora?
Se lêssemos todos os pergaminhos perdidos no fogo…
Talvez mais débeis seríamos agora. Mais atonteados!
Deixa que os gregos componham haicais na porcelana
E que os magiares mastiguem os brioches palacianos.
Estas idéias que purgam o mundo são pústulas de luz,
São cinzas que, tão gloriosas, servem-nos de esterco.
É um jogo de paciência concentrar-se na expectação.
A tosse de um querubim há de dar cabo do ré menor.  


II. 
Quanto consolo o barulho cheio do ônibus pode trazer
Às almas que silenciaram sem motivo, no vazio coletivo.
Se contemplares a multidão no contado tempo esvaído,
Quando as chaminés apitam esfumaçado ranço noturno
E os proletários picam cartão para que durmam os filhos,
Entenderás porque silenciam certas almas sem gemido.
Entenderás que só há motivo quando dele se apercebe,
Quando um fato cai na cabeça e não a mói em lentidão. 


III.
Preocupam-se os mordomos com o negro verniz dos sapatos.
Alguém tem que dilacerar o couro dos bezerros berlinenses…
Não são dourados os cascos, nem tão fúlgidos quanto o altar.
O incenso pagão e o protocolo burguês veneram o rei Minos,
Arrastam sobre nós nuvens de sândalo e borrões de graxa.
O tempo cromou a cronologia: se te atentares para o símbolo,
Verás que de novo nada há neste deserto de ídolos reinantes. 


IV. 
Dos gritos sobrou o chiado pulmonar, a bronca aguda.
De tanto conjurar os povos, de tanto exortar as tribos,
A voz desesperada minguou na noite de Corpus Christi.  
Quem quer ouvir profecias na praça central da cidade,
Contristar-se entre cinzas e rasgar as vestes preciosas?
Ao deserto silencioso, ao manjar de mel e gafanhotos,
Ao sono frio das cavernas de Sião, à tosse da aflição. 

Diário em Midgard — VII

Não há biblioteca municipal ou pública por aqui. Todas as bibliotecas são caseiras. Mas, nem por isso pode-se dizer que sejam propriamente particulares. Ainda que cada uma delas pertença fisicamente à cada família que as custodia em cômodos especiais em seus lares, as prateleiras são livres e abertas aos amigos, aos caminhantes amigos e aos vizinhos amigos. “Vem e lê”, anuncia, a propósito, uma tabuleta afixada no umbral da porta lateral de uma grande cabana.

Estou numa dessas. A da casa da pintora de afrescos. Sua biblioteca é, como a maioria, especializada. Trata de Arte e Filosofia da Arte, sobretudo. Há alguns manuscritos muito antigos de Vitrúvio, Dante, Xenócrates e Xie He. Porém, há outros livros-assuntos preciosos. Observo uma iluminura do Liber Divinorum Operum de Santa Hildegarda de Bingen. Leio uma página do Temporum Ratione de São Beda, obra magna do século VIII: “A redondez da Terra, não sem razão chamada ‘o orbe do mundo’ nas páginas das Escrituras Sagradas e da literatura ordinária. É de fato, como uma esfera em metade do universo inteiro.”

Saio para o jardim. Carrego comigo um pequeno volume caligrafado do Eclesiastes. Já não quero lê-lo. Encontro Helena no caminho e, entre a leitura de Salomão e a prática dos conselhos por ele escritos, decido pelas vias de fato com a existência: gozar a vida com a mulher que amo todos os dias da minha vida vã, os quais Deus me deu debaixo do sol. 

Esponjas de sol – XIX

562. Mais de Deus e menos dos deuses. Mais do Céu e menos das ideologias. Mais da Fonte e menos das garrafas térmicas. Mais da Lenha e menos do propano. Mais da Ferramenta e menos das máquinas. Mais da Palavra e menos dos gramáticos. Mais da Lua e menos dos néons. Mais do Conforto e menos da arquitetura moderna.
 
563. Cativo é o homem da própria imaginação, arrastado pela imagem que lúdica se revela. A Realidade? É a brisa da tarde quente de verão, é o sopro cálido do vale da loucura que enleva. Quão leves são as pedras! — pétreas nuvens de ilusão. Construirás castelos de não densa percepção?
 
564. A isca no anzol sempre carrega uma verdade para o peixe: a nutrição da mísera porção de comida no mortífero metal enganchada.
 
565. Moisés com o rosto radioso e eu com as faces sujas com as cinzas do carvão da queima do Bezerro de Ouro. Calvino.
 
Pedro crucificado de cabeça para baixo e eu com as duas chaves amarradas à cintura rasgada do hábito. Lutero.
 
Jeremias chorando por Jerusalém em chamas e eu regando com lágrimas os cardos frios da Escócia. Knox.
 
566. A Madalena arrependida foi, antes de ser a Madalena adúltera, uma Madalena traída.
 
567. Todos os “grandes crimes” da História foram praticados no mínimo com o placet do Estado. Os crimes que mais mataram foram os crimes no qual o Estado foi o assassino. A estrutura que quer impedir um homem de ser o lobo de outro homem freqüentemente é o lobo da Humanidade.
 
568. Entre os soldados americanos que libertaram o Campo de Dachau certamente havia membros anti-semitas da Ku Klux Klan. Assim como, possivelmente, vários dos oficiais generais alemães criam, no íntimo, na igualdade racial entre os homens. Alguns destes americanos receberam comendas e talvez até tenham os nomes inscritos no memorial Yad Vashen, enquanto que alguns daqueles alemães foram mortos pelo Mossad. O agir-pensamento estatal dos EUA e da Alemanha nunca foi o agir-pensamento de todos os indivíduos “ianques” e “nazistas”.
 
569. Conforme se afasta da terra, da madeira e das pedras dos campos rurais (meio mais natural), encastelando-se no piche, no aço e no concreto das grandes cidades (meio mais artificial), menos conservador o homem se torna — mais culturalmente libertino, então. O habitat coopera para determinar o pensamento: do livre-arbítrio da floresta à livre-agência do zoológico. Impedido pelo meio de ser o que se é, o homem mutilado nas suas potências passa a agir mirradamente, enfim, uma vez deformado, atua deformando o mundo, enchendo-o de vazio, de nada. O peixe nada na água, que é líquida, mas não pode nadar em qualquer líquido. O natural trás significado e impele à uma existência mais próxima das necessidades corporais do homem, saneadoras das necessidades mentais. O artificial, por sua vez, retira do homem o meio que lhe propiciaria contato íntimo com estas necessidades. O homem não sente o próprio suor, não sua; não sente forme através da fadiga do trabalho, não tem apetite. Até que ponto os grandes centros não são o nosso zoológico? Não tendo que lidar com as suas questões mais primárias, o indivíduo fica restrito a simulacros, a caricaturas, a deformações secundárias. É uma crise de significados, em suma.
 
570. Quem ainda sabe o que é sede e o que é fome? Poucos as sentem. Dada a abastança de substâncias líquidas e nutrícias para o corpo, a rotunda maioria das pessoas que conheço tem, no máximo, apenas vontade de beber e de comer, ou seja, trata-se de habitual volição concatenada a prazer. É preciso, alguma vez, padecer seca sede e dolente fome para, efetivamente, dar-se valor à água e à comida. Assim poderá saber-se o que é e como é o frescor mais natural aliviando a boca até à garganta e o que é e como é ter farto o estômago mamífero.
 
571. Ou nós viemos da lama ou do pó da terra. Compreensível que os evolucionistas tanto se apeguem à lama e, nas suas conjecturas algo artísticas, nos desenhem escorregadiamente saindo dela. Afinal, a lama parece-se muito com aquela “sopa protéica” de lodo genético que eles teorizam como sendo nossa fossa ancestral. Difícil mesmo seria, dentro desta lógica materialista, imaginar que do tão asséptico pó da terra (tão mais infértil que a mais fina areia!) pudesse ser formado o ser humano — tão para além do húmus.
 
572. Preocupa-te com os fiapos e terás inteiro o tecido. Não disseram os antigos que o Mundo era a grande tapeçaria de Deus? Ele nos quer fiando mesmo os nossos trapos e panos mais imundos: será novo o tecido velho pelo qual passar linha nova. Um sudário de luz brotará da imundície das vestes rotas. 
 
573. A Arte sempre deforma, mesmo que suavemente, a Realidade. Afinal, a Realidade nunca será um símbolo, que é um elemento semi-descritório da abstração do real, logo, é incompleto e não totalizante porque não pode (e não consegue) abranger a completude total da própria Realidade — inapanhável na sua integralidade, seja por tinta, por palavra, por pedra, etc.
 
574. Platão, ao falar das idéias universais, falava sem saber do processo criatório divino ex nihilo. Toda primeira coisa que Deus criou foi a idéia-da-coisa (essência primordial) depois reproduzida nos seus exemplares posteriores. Pena que o filósofo não pôde ler sequer o Pentateuco!
 
575.  Atenção gera tensão que gera tesão. Sexo.
 
576. Eu falo muito com Deus. Muita besteira, certamente. Deus fala pouco comigo. Muito pouco. Mas, quando fala…
 
577. A Sincronicidade da qual fala Jung não existe como estrutura autônoma de significação, enfim, como “avisos coincidentes” que tendem à manifestar determinado significado verdadeiro acerca da Realidade. Trata-se de mera emanação do nosso pessoal e dirigível “núcleo de logos.” Eventos mentais ou fáticos sincronísticos são um muco metafísico da nossa consciência-credulamente-em-volição, seja ela pautada pelo real ou pelo irreal, pela verdade ou pela mentira, pelo que é pelo que não é, pelo substancial existente ou pelo ilusionismo imaginativo.
 
578. Não existe inconsciente. Existe apenas consciência. Neste sentido, os sonhos são apenas reações oníricas voláteis emanadas (como descrição cênico-imaginativa) da nossa consciência igualmente volátil. Todo sonho é a narração de uma crença (permanente e/ou impermanente) consciente.
 
579. Atração sexual existe apenas entre homem e mulher. O resto — todo o resto das perversões — não passa de reação sexual auto-centrada.
 
580. Desventurado para o mundo, porque sou pobre de espírito; mas meu é o reino dos céus. Desventurado porque choro, mas serei consolado. Desventurado porque sou manso, mas herdarei a terra. Desventurado porque tenho fome e sede de justiça, mas serei farto. Desventurado porque sou misericordioso, mas alcançarei misericórdia. Desventurado porque sou limpo de coração, mas verei a Deus. Desventurado porque sou pacificador, mas serei chamado filho de Deus. Desventurado para o mundo, porque sofro perseguição por causa da justiça; mas meu é o reino dos céus…
 
581. Adão era analfabeto. De que lhe serviria leitura e escrita, afinal? A necessidade pós-edênica de ambas é para nós uma patente recordação da imperfeição humana.
 
582. Pecado é tudo aquilo que atenta contra o ser e o Ser.
 
583. Como provar a existência do imaterial abstrato? Ora, todo o concreto goteja um substrato cuja composição é estranha à sua aparente fonte material. Espírito? No cérebro subsistem sonhos, pensamentos, visões, imaginações, etc. 

Uma breve apologia da Advocacia Cristã

Nem todos crêem no “Pecado Original”. Nem mesmo boa parcela dos advogados. Entretanto, para além de qualquer questionamento de ordem teológica ou filosófica, crer ou descrer da existência desta mácula carnal (e espiritual) não afeta este poderoso fato: ele existe. Existe sob vários nomes e titulaturas ideológicas, metafísicas ou não, mas existe como existe o átomo invisível e ao mesmo tempo visível; invisível como entidade teórica individual subjacente a todas as coisas que se albergam no Universo e visível como o próprio Universo e as próprias coisas por ele custodiadas. A questão, a dura e final questão acerca deste desmoronamento do ser — no dizer de Santo Agostinho — que é a natureza adâmica, é tão simples quanto complexa: trata-se do Mal imanente, a despeito de quaisquer explicações transcendentes. Quem, ateu ou crente ou agnóstico, poderá negar que o Mal existe imediatamente ao homem e que ele é mau? A pálida razão do mais obtuso dos homens jamais lhe poderá ocultar os sofrimentos e crueldades que operam neste nosso planetinha. Ecce mundus!

No mediato mundo científico do Direito, a materialidade do mal é facilmente identificável quando expressões tais como crime, pena, infração, ato ilícito, dolo e contravenção, p.ex., emergem dos textos normativos. Por mais que se esforcem os puristas kelsenianos e os mais renitentes positivistas ao postularem neutralismos lógicos e axiológicos, a própria terminologia jurídica denuncia que há algo de podre no Reino da Terra. O Direito não é puro: é sujo e conspurcado pela natureza humana, revelando-a como ela é: nuamente imperfeita como Adão e Eva após a última mordiscada no fruto proibido. Teorias puras, portanto, são abstrações sanitaristas da assepsia laboratorial de teóricos encapsulados em bunkers de marfim.

Mas, que é também o Direito enquanto instituto social senão um logos que pretende transformar o caos em cosmos? Não é, pois, um refletor daquele processo de Criação ordenada (funcional: com sentido) a partir da “bagunça” (disfuncional: sem sentido) descrita por praticamente todas as religiões? Não é o retrato da peleja entre desordem e ordem, esta mantida pela lei? E o que são os “operadores do Direito” senão serviçais daquela vidente cegueira que, nos pratos de sua balança, ordena Justiça, enfim, re-ordena temporalmente (daí, o khrónos como instrumento do logos) a Realidade com medidas proporções de ajustes na desordem das coisas?

Neste contexto, que é o advogado senão o único destes operadores que se insurgem pela Justiça em favor (e a partir) da Sociedade e do Indivíduo, contra a entropia do “estado de guerra” promovido pela ausência de Lei, seja na presença (lei positivada) ou na ausência (lei natural) do Estado?

O advogado é mais que um terceiro chamado para defender alguém perante o juízo. O advogado é o primeiro homem chamado – convocado como pessoa e invocado como profissional — para defender a Justiça Humana diante de um juízo de homens. Na contramão da Trasímaco, ele critica a justiça não porque teme sofrê-la, mas porque receia praticá-la. Afinal, trata-se da atividade virtuosa e positiva da Justiça, enfim, de um cristão “faze aos outros o que queres que te façam” e não de um negativo confuciano do tipo “não faze aos outros o que não queres que te façam.” Quem advoga a causa alheia deixa de ser moral e pessoalmente neutro, de modo que, na defesa do ofendido (esteja ele onde estiver no que diz respeito à dialética posicional das partes), o advogado torna-se ofendido, incorporando em si todas as tensões humanas próprias da condição de injustiçado.

Afirmar isto é dizer que o advogado lida com os efeitos do Pecado Original mesmo que, como aludido, para ele tal “pecado” não passe de convenção social e culturalmente estabelecida em função dos vínculos gregários que colaboram para a manutenção harmônica da espécie e dos membros da espécie num determinado habitat. Afirmar isto, portanto, é dizer que o advogado exerce certo sacerdócio diante de Deus, diante Daquele que a Sagrada Escritura chama de “Justo Juiz”. Ora, que se dirá do homem que gira na funda suas pequenas pedras e as lança contra as potestades mundanas que querem no altar mamônico sacrificar os órfãos e as viúvas? É um sacerdote, um guerreiro mitrado. Que se dirá de toda uma classe de homens que erguem suas espadas e se lançam contra os inimigos do Caminho, da Verdade e da Vida? É uma tribo, é uma tribo de Levi — mesmo quando se pretender “laica.” Tu serves a Deus, advogado! A propósito, certamente diria São Josemaría Escrivá: “Dios os llama a servirle en y desde la tareas civiles, materiales, seculares de la vida humana.” Curiosamente, o católico travestiu-se de um marco singularíssimo da “filosofia luterana”: o supremo valor dos simples ofícios diários. Que disse o grande reformador a um sapateiro que lhe indagou acerca do serviço a Deus? Isto: “Faze um bom sapato e vende-o por preço justo.”O ordinário medra o extraordinário. 

“Excesso de lirismo e mitificação de uma profissão dada às banalidades e pragmatismos do dinheiro e da desvirtuação malcriada dos ideais”, dirão alguns destas palavras minhas. Piegas? Um pouco, assumo. Não nego que aqui prego um ideal e que os desacertos dos sucessores de Santo Ivo são tão claros e evidentes como é claro o sol e evidente sua luz. Não nego que trevas e borrões maculam o espírito de não poucos bacharéis inscritos na Ordem. Porém, como predicar em favor da Justiça (e às vezes, por isso, contra o Direito) se não valer-se de palavras encharcadas de certo “pedantismo de estilo”? Um salmo não seria um salmo se pudesse ser lido como bula de remédio ou manual de instruções, se usasse de expressões vulgares e comuns a qualquer inicial, contestação ou réplica desalmada… É preciso falar e escrever com o coração na mão. É preciso, então, ser abobalhado e falar e escrever crendo naquilo que o establishment descrê: na metanoia, na mudança de mentalidade que nos faz crianças diante do Senhor e, por isso, nos muda também o vocabulário — dando-nos palavreado infantil, ingênuo, inocente.

Citei esta palavra: Ordem. Palavra que remete à significação medieval e, por isso, cristã do termo. Um exército de soldados-generais, eu diria da nossa OAB. Ao menos, deveria ser. É? Creio que sim. Nela, em rígida igualdade entre um e todos, superam-se as hierarquias sociais do protocolo fuori le murapara assentarem-se os homens numa távola redonda. É assim? Creio que sim. Aqui, outra vez, predico e, ao predicar, faço a apologia de uma função social a partir da qual um homem decente pode trazer para sua mesa o pão nosso de cada dia e, ao mesmo tempo, colaborar ativamente para que o agricultor, o moleiro (“Ainda há juízes em Berlim!”, afinal), o comerciante e o padeiro vivam tranqüilamente mesmo quando, entre si ou contra os outros, querelas se avivarem sobre os respectivos caminhos do trigo em suas vidas. 

Aos advogados todos que me lerem, espero que me leiam acreditando naquele fato que deu início a este simulacro de artigo: o Pecado Original. Saibam que a simples crença numa açãooriginária afeta poderosamente a forma de se lidar com sua reação decorrente. Quem discerne a má causa melhor pode dar cabo do mau efeito. O cancro existe; é um fato. Porém, como operar o devido diagnóstico com o subseqüente tratamento específico se o elemento gerador da doença é desdenhado ou descrido? Só lhes posso dizer isto: apenas o Cristianismo pode explicar o mistério da Injustiça e apenas um advogado cristão poderá lutar, com armas efetivas, por Justiça — que vai além do palavrório com que todos terminam seus pedidos de “deferimento” na peça processual… 

“Sotto il velame delli versi strani”

O esquisito frear no cênico
Mundo. De louco e médico…
A má letra é doença fatal,
Febril. Li temperatura feia.
O gelo acusar na jacuzzi
De Marat. Shema, Dreyfus!

Eu ri pelo destino
Das letras eternas.
Pitaco nas ágoras?
O cheiro que espero
Dos números
É bolor material. 

Só crateras na lua?
Sabedoria: château en Espagne
Como perder nisto consolo?
O sol é plebeu. 

Esponjas de sol – XVIII

541. Se Jesus Cristo não é Deus, Deus não existe.

542. Não existe o tal “inconsciente-sombra” teorizado por Jung. Existe, isto sim, uma contra-consciência dialética, cuja potentíssima mola propulsora é [via de regra] o medo arrebatado pela memória. Os cristãos, mais realistas, com razão a chamam simplesmente de “a carne.”

543. Deus da Eternidade te mira perdido na vacuidade, do Seu “Eu-Sou-O-Que-Sou” te olha com Significado, te admira quando não sabes para onde irás fatigado. Deus te contempla como tu contemplas Van Gogh nas galerias empoeiradas dos museus acinzentados. Deus, o Quem que desbastou o informe vazio do Caos, te chama ao Logos, às águas vivas da Realidade, à pura estrutura do Ser — Imagem e Semelhança. Contempla a tua consciência dizendo o que é e o que não é; percebe depois tua carne gritando louca contrariedade. Vem repousar nas colinas de Sião, vem dormir sossegado nas praias quentes da Luz Inacessível. Vem sem demora! Ele te quer encarar face à face, para que se espelhem os sorrisos, para que se encontrem o Pai, o Filho e o Espírito Santo com o espírito, com alma e com o corpo.

544. Quem é capaz de entender os tempos? Quem será capaz de compreender os tempos? Quem lerá a escrita que está na Parede do Mundo e na particular parede de cada homem? Lá, está a mesma mensagem: “Mene, mene, tequel, ufarsim.” Sempre o mesmo dito escrito pela mesma mão — os dedos de Deus. Na parede do teu quarto, na parede do teu escritório, na parede do teu banheiro, na parede da tua sala, na parede da tua cozinha, nas paredes todas tuas e nas paredes todas do mundo que os teus olhos acompanham pelos caminhos da existência individual e coletiva. Lá está o dito, julgando-te e julgando-nos: “Contou Deus o teu reino, e o acabou. Pesado foste na balança, e foste achado em falta. Dividido foi o teu reino, e dado a outros.” A escrita está na parede, para bárbaros e civilizados! Quem lê, entenda. 

545. Quando o martelo for batido e for a última noite da tua vida, quando o anjo da morte vier te arrancar da cama quentinha, quando mastigares tua saliva nos corredores do hospital, quando as luzes se apagarem porque teus olhos se apagaram, quando a multidão gritar “gol!” e o jornal publicar teu obituário, quando teu suor for espoliado e quatro velas forem acesas… Para onde vais, afinal? Como estás com teu Deus? Escolhe já, agora, antes que seja tarde demais, porque a ponta da tua língua não será molhada…

546. “Eu sou quem sei?” — perguntou o recém-nascido, não o sábio ancião de barbas brancas.

547. O ato-falho não expressa uma realidade inconsciente. Expressa, isto sim, uma crença do consciente (geralmente, arraigada — situação mental que, todavia, como dito, não expressa necessariamente uma realidade de fato) que a memória “deixou” (daí, lapso) vir à boca ou ao pensamento.  

548. A ideologia de Satã? O anti-Logos: almeja safar-se das estruturas inamovíveis e eternas da mente e dos conteúdos que substanciam e das formas que consubstanciam o Ser.

549. Oh, vós, mentes inquietas do passado que inquietastes as mentes do futuro — este presente inquieto sem eternidade. A inquietude diante da resposta final que é, senão dúvida trevosa e doentia? Vós, céticos e niilistas das eras introdutórias! Vós, pessimistas e descrentes primevos! Vós sois os algozes do nascer do sol, vós sois os carrascos da comum verdade!

550. Nos primórdios da Igreja, os teólogos excessivamente alegoristas e simbolistas assim o eram porque também eram excessivamente místicos — ou seja, credulíssimos. Hoje em dia, são alegoristas e simbolistas justamente os teólogos mais descrentes, aqueles para os quais tudo é “linguagem mítica” e “arcaica”, aqueles que fingem ter fé em Deus quando precisam fazer valer o salário que a congregação lhes paga pelos sermões domingueiros mas que, tão logo se afastem do púlpito, começam a cusparar nas Sagradas Escrituras com a fétida saliva gestada na boca de Zaratustra. Com razão dizem os italianos: “Certuni si fanno scrupolo di sputare in chiesa, e poi ucciderebbero il prete in sacrestia.”

551. Oh, Flor de Luz e Sapiência, / Dourado Lírio da Revelação, / Revela em nós tua Verdade: / A doce candura da Iluminação.

552. Entre a inteligência íntima e a indigência pública, o ego.

553. Não é a descrença dos ateus e céticos de todas as escolas, mas é a crendice estúpida dos “crentes” sem Credo o maior inimigo da boa Apologética. Na contramão da recomendação petrina, eles se negam a estar “preparados para responder com mansidão e temor a qualquer” que lhes “pedir a razão da esperança” que há em nós. Por isso, respondem com violência e medo a todos aqueles que tentam com eles estabelecer um debate, desperdiçando, conseqüentemente, a oportunidade (uma “propícia plenitude”) de racionalmente semear as Boas-Novas. O verdadeiro crente crê porque sabe— nele operou-se a metanoia.

554. Relendo Darwin, outra vez percebi isto: que a Vida prescinde dos seres viventes, na medida em que há um dinâmico impulso que objetivamente impele o indivíduo a reproduzir-se, com seu próprio sacrifício quando não há “destinação moral” em seus miolos (daí, freudianamente, Eros pare Thanatos), em benefício não só da própria espécie, mas de todas as outras espécies (que, por sua vez, assim também operam). Em outras palavras, há uma poderosa idéia-vontade mantenedora da Vida “custe o que custar”, mesmo que sobre o cadáver dos vivos. Paradoxo: eis aí um argumento contra quaisquer materialismos — científicos ou filosóficos. Afinal, “algo” obriga que a Vida exista apesar daqueles que vivem. Aí está o rastro da questão: existirá Vida mesmo que não existam os vivos? É o que o Darwinismo sugere.

555. O Cristianismo é a religião do ordinário. Em suma, ele pertence ao cotidiano. Ideologia, porém, é aquilo que se distingue do dia-a-dia.

556. Pensamento: forma. Sentimento: conteúdo.

557. Nada me tira das idéias este vislumbre: a memória é um caracol, meticulosamente estruturado pela proporção áurea.

558. Primeiro os homens fizeram jaulas para si próprios. Só depois vieram as gaiolas para os pássaros. Nós nos aprisionamos antes de aprisionar um animal.

559. O instinto é um estilingue natural que a cultura mundana pode transformar numa metralhadora mortífera e que a fé cristãmantém sendo apenas um estilingue — pragmaticamente útil para quando for moralmente útil utilizá-lo.

560. Coragem é corar (de medo ou de vergonha) mas agir. 

561. O Homem é um núcleo de caos e logos — carne e espírito. O processo de ordenação da Terra também se opera naquele que é pó da terra. 

Carta à Ela [trecho do inacabado conto “Sob o Sol do Inverno”]

Helena,

Quando pela primeira vez te vi, na disparada dos últimos minutos da despedida coletiva, não digo que te amei “à primeira vista”. Não se ama à primeira vista porque a primeira vista nada é senão um choque apresentativo — uma parusía da qual talvez não se tenha muita consciência — para quem poderá amar verdadeiramente no futuro. É na segunda vista que as coisas podem começar a acontecer, que o coração pode romper com seu gládio sentimental qualquer precaução mental e, então, o anjo cupido dos nossos comuns anseios pode operar sua missão: gerar um casal.

Pois nós nos revemos segunda vez. E outra vez, e mais uma vez e ficaram sendo uma rotina estes “encontros”. No convívio, àquela estrutura de imagens e idéias se somaram detalhes gestuais, corporais e faciais que vieram desaguar num… “aí, como ela é bonita!” Progrediram as descobertas, especializando-se mais: o sorriso comedido diante de uma gentileza, o riso um pouco forçado quando da piada que eu sabia tosca, a gargalhada livre e aberta arejando o maçante calendário; o raro sussurro com semi-confidências, a fala venial para o trato público, o dominante grito arisco que põe “ordem no coreto”.

O caminho foi se estendendo e, medrado por não sei o quê de venturoso, criou para nós dois percursos idênticos na vocação e no ideal. Dois percursos que cada um de nós dizia querer trilhar para o mesmo lugar, mas inda assim eram dois percursos, enfim, duas trilhas que, não obstante paralelas, não se expunham a cruzar-se no horizonte; tampouco parecia possível uni-las numa estrada única…  Poderiam assim verdade e vida caminharem em caminhos outros que não “o-um caminho”? Via, veritaset vita, Helena, é o triunvirato da felicidade proposta pelo próprio Cristo.

Não poderia (e não queria) supor que aquela fosca arruela prateada era uma aliança de compromisso. Ah, talvez um velho anel de uma velha avó viúva! Não era. “Que pena!”, queixei-me chateado. Afinal, obedecia e obedeço à Lei. Resolvi voltar para o meu lugar, para o canto destinado ao reverente observador de pássaros raros, aquele que quer ver a ave voando em liberdade celestial. Se lestes “Quadrilha”, poema de Drummond, entenderás o que falo. Se lestes “O Lírio do Vale”, romance de Balzac, compreenderás o que digo. Nem sempre se pode ter correspondido um amor. Nem sempre a boa mulher vai descansar nos braços do homem que verdadeiramente a quer e deseja. Melhor fosse que, matematicamente, se equacionasse o amor; permitindo-se que um homem não se interessasse por moça noutro sujeito interessada ou que, mesmo não interessada em seu par oficial, obrigada à uma relação já permanentemente estabelecida. Seriam as coisas mais fáceis. Seria o mundo muitíssimo mais agradável. Muitos pobres coitados ainda haverão de valsar estes versos: “E os olhos / Escuros / Tão puros, / Os olhos / Perjuros / Volvias, / Tremias, / Sorrias, / P’ra outro / Não eu!”

Eis o fato próximo: vou-me embora para a Lingüística. Talvez também para a Filologia. Disseram-me os entendidos que um doutorado na área poderá me ajudar nas pesquisas teológicas que bem sabes consomem todo o tempo que eu desejaria consumir contigo. Gênesis é-me claro quanto às implicações do “crescei e multiplicai-vos.” Imaginava-te mais religiosa. Pois… Viver é preciso e navegar é viver. Espero ao menos, naquela fria rigidez berlinense, aprender a escrever versos etílicos às louras bávaras. Tu, morena! Por que o dulçor deste nosso idioma não te comoveu quando cantado? Por que fui eu quem tantos poemas cantou? Se escrevesse de ti “chove nela graça tanta, que dá graça à formosura”, ainda me deixarias ir ao degredo? Pois igual a Camões escrevi, moura lusitana. Versejarei muito neste outubro que se avizinha. Há entre os germanos muita festa em outubro… E tu gostas tanto de festas!

Escrevi-te o suficiente.

Com o coração pensando e com o cérebro sentindo,
Eu. 

“A Terceira Margem do Rio” e o seu paralelo com o Terceiro Setor [especulação e reflexão]

[FIPA]

A terceira margem do rio é o próprio rio, é a água corrente que intermedeia as margens direita e esquerda — para o lado de cá e para o lado de lá do aqui (para quem está na terceira margem) e do ali (para quem está na primeira e na segunda margens, conforme o ponto de vista geográfico ou das idéias). A terceira margem é onde a canoa está; então, é onde o homem que está na canoa também está. É onde a água cobre a terra, na ralidão espraiada das beiras ou no profundo leito central. A terceira margem do rio é onde o pó não é seco, porque não mais apegado à terra; é o pó molhado, é o barro-argila do qual se serve o Oleiro que forma todos os homens — tanto aqueles cujo pó seco chora lágrimas de mar salgado no rio doce quanto aqueles cujo pó molhado chora lágrimas de rio doce no mar salgado. A personagem principal do conto parece ser um estóico membro desta primeira cepa, a dos introvertidos.    
O homem (o pai) fugiu para lá (para a terceira margem, a qual passou a pertencer) como se fora um Robinson Crusoé às avessas, que não saiu da Civilização para, na crueza natural primitiva, reconstruí-la na medida das suas possibilidades: é o homem que foge da pouca civilização da sua aldeia para a caverna sem segundas-terças-quartas-quintas-Sextas-Feiras-sábados-e-domingos, a caverna atemporal da qual não gostaria de ter saído — espécie de sacra e superior “barbárie primordial” destituída do khrónos convencionado, onde há o fazimento de um kairós capaz de encaminhá-lo para o aíôn; foge-se do movimentado relógio da sociedade criando-se uma oportunidade (fluvial, no caso), capaz de conduzir o homem ao intemporal-estático, à negação da entropia coletiva que apodrece os homens em conjunto na grande placa de petri do Mundo, quando ele, indivíduo atomizado, quer é se desfazer com a Natureza, como uma manga amolecendo madura e passando à terra que a irrigou na mangueira, sendo descumpridor, desordeiro, natural
Este exílio, porém, pode ser mais: uma espécie de “meta-estado de natureza” no qual, feito um voltaireano bon sauvage, ele poderia conviver apenas consigo mesmo, como único indivíduo-para-si num monólogo dialético e silencioso com seu espírito arcano. Daí, como ser membro da espécie abdicando do calor e conforto gregários? Ele parece não querer ser membro da espécie. Como desdenhar da descoberta do fogo, adorado até pelos neanderthais? Ele parece não querer guardar do frio a própria carne ou mesmo assar a carne dos animais a fim de obter alimentação mais protéica (e, decorrentemente, ganhar gordura para se guardar do frio). É tudo cru e nu. Todo engenho, técnica e arte humanas sucumbem à esta auto-infligida solidão.
Ou teria ele, como Nabucodonosor, enlouquecido? Do rei de reis babilônico a Escritura Sagrada semelhantemente atesta: […] e foi tirado dentre os homens, e comia erva como os bois, e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceu pêlo, como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves.” (Daniel 4:33). Eis um homem-bicho, um proto-lobisomem, um bípede ruminador que quer andar com as próprias pernas, alguma coisa bruta porém consciente (um esquizóide je ne sais quoi existencial?) caída entre o sapiens e o sapiens-sapiens — um elo perdido não da evolução biológica hominídea, mas da alma não mapeável que envolve as cadeias do DNA humano. 
Por que não um grito de liberdade tão drástico que quis se libertar não apenas do rolo compressor dos poderes mundanos constituídos (das “diversas sensatas pessoas”), mas ainda se liberar de qualquer vínculo com a opressão oriunda das próprias impressões do homem (dele, do pai) acerca do mundo desde sempre instituído? Sartre provavelmente diria que ele estava condenado a ser livre (vide “O Ser e o Nada”), todavia bem se pode afirmar que nós nos livramos de todo peso condenatório quando simplesmente aprendemos o que é condenação e o que é liberdade, ou seja, aprendemos o que é absolvição e o que é escravidão. Talvez aqui esteja a linha-mestra do mistério que arrebatou o sujeito para a canoa, para o rio, para a sua consciente diluição nos Quatro Elementos: uma busca algo panteísta e libertária por redenção, que, infelizmente, por sua própria natureza anti-logos, lançou a personagem na vacuidade absoluta do caos.
Dito isto, comparar a Terceira Margem do Rio ao Terceiro Setor é, em efeito espelho, dizer que o Terceiro Setor (que é aquele emancipado do Estado Coletivista e do Privatismo Particular; por influência deste último, inclusive) é a realidade almejada pelo Primeiro Setor através de oficialismo burocrático e pelo Segundo Setor através de certo “egoísmo positivo”[1]. Diz-se “realidade” porque o Terceiro Setor é aquele que se propõe a, livremente (note-se que a Liberdade é um valor do Segundo Setor), realizar/oferecer serviço(que é a missão governamental do Primeiro Setor) em prol do Bem Comum.  
O Terceiro Setor é uma terceira margem porque corre, como o rio e como a canoa com o pai, entre duas margens opostas, antagônicas até — a margem do coletivo e a margem do individual. O Estado vive do rio: arrecada impostos dos peixes pescados e vendidos, das canoas que pescam os peixes e dos pescadores. A Iniciativa Privada vive do rio: pescadora, ela pesca e vende os peixes, bem como fabrica, compra e vende canoas. O rio, porém, tudo realiza; é na terceira margem que nascem os peixes, é nela que os peixes são pescados, ou seja, é dela que surge a sardinha frita para os lares ribeirinhos e a enlatada (taxada pelo governo) nos supermercados. O Primeiro e o Segundo Setores acabam sendo, portanto, subsidiários e, por que não?, intrusos. Afinal, o rio liberalmente tudo oferece.


[1]Acerca do assunto, pronunciou-se a Dra. Felícia Ayako Harada: “O terceiro setor surgiu com a deficiência do Estado em atender questões sociais nos mais diversos segmentos, quer sejam filantrópicos, culturais, recreativos, científicos, de preservação do meio ambiente e outros. Em regra, o terceiro setor é constituído por organizações sem finalidades lucrativas, não governamentais, gerando serviços de caráter público. O primeiro setor é o governo e o segundo setor são as empresas privadas.”

Diário em Midgard — VI

Será o luar mais forte que a própria lua? O luar, sabei, persiste sendo coisa do sol. O sol, ignoto por doze horas, ainda assim dá as caras. Então, que é a lua senão o espelho refletor de uma glória que não a sua? A fogueira que aquece nossos pés e assa nossas batatas é, por si, mais refulgente que a adorável rainha noturna.

Ah, quereis saber qual é a particular glória da lua? É a humildade, crianças. A lua é uma virgem ajoelhada diante da hóstia galáctica, é como aquele profeta que descia do monte com o rosto resplandecendo — um poucochinho — Ele.

Todavia, quem ousará dizer que a lua é inferior à estas fagulhas natimortas ou mesmo de qualidade severamente mais modesta que qualquer espirro das anãs negras? A lua nos está sorrindo, radiosa como o grande prato de latão do ourives da aldeia, porque também esta fogueira nos ilumina a face. 

Eterna entropia

Dentro da caixinha, uma galáxia.
Dentro do frasquinho, um oceano. 
Todo líquido escoando pelos anos.
Toda matéria gastando-se solitária.  
O sol mirrando no horizonte.
A mirra escorrendo na fronte.
A hora esvaindo-se pelo dia.
A soledade gotejando a noite.
As estrelas têm ainda um nome?
Já se evaporaram os sete mares?
Toda água, terra, fogo e ar: adeus.
Todas as coisas voltam para Deus.