Tudo é e está no sertão

Está sol.
Segue a sege no agreste.
O casco que bate no solo
Afunda e risca meu rastro:
A linha seca passa e agride
Os passos desarrumados
Deste boiadeiro engripado.
O pasto para bípedes não é.

Está lua.
Sigo a pista na caatinga.
Pia frio aquela coruja aflita:
Jururu, despista a lágrima
Com o colírio do orvalho,
Rugindo um hino alpino
Sobre o agulhão do cacto.
A coruja tem dois pés.

Tríduo sabatino

I.
Sonhei que dormia e que acordava
E então sonhando logo cheguei
Às portas da antiga Jerusalém.
Olhei e vi a luz espreitando
As sombras do templo,
A vela vacilante
Que aquecia
A cegueira
De Eli.

II.
Tua terra que é, eu pergunto,
Senão três punhados de chão?
Tudo o que carregas nesta mão
É o teu pó esmiuçado em tudo.
Fortifica-te com o elixir de lírio,
Com o pão extraído dos lagares.

III.
Se tu pudesses estar com Ele,
Quando as coisas foram criadas,
Como seriam as estrelas
E as esferas siderais?
Teriam as rosas
A mesma fragrância no outono?
Os touros seriam valentes?
E as nuvens leves assim?
As águas cantariam
Como rouxinóis ao ocaso?
O leite seria branco
E a lã quente ainda?
Oh, diga filho dEle,
Tu vês imperfeição?
Não é inconclusa ainda
A perfeita criação.
Velozes são os anjos
Como os guepardos de África
E límpidos os regatos
Como as lágrimas
Das últimas fadas.

Perfecto odio

“Je perdrais ma vengeance en la rendant si prompte.” ~ Jean Racine

Abrumados estandartes,
Bandeiras enevoadas pela areia,
Trevas de linho negro
Caligrafadas em prata,
Flâmulas de ódio unoteísta…
Ajoelha-te, cavaleiro paladino!
Ajoelha-te, templário palatino!
Sobre a alta cúpula do Sepulcro
O crescente dourado vos admira.
Nunca saberá o rei Saladino,
Califa e profeta do Islam,
Que o sangue nobre dos curdos
Será derramado por Osman.

A Queda de Bizâncio

O sopro da luz
Eterna caiu sobre nossos filhos…
A última gargalhada que foi senão
O grito estridente de Sybilla?
Ouvi, vós os cegos
Que se recordam da luz de Jerusalém,
Das velas altivas do tabernáculo infiel.
Vede, vós os surdos
Que intuíram o antigo hino triunfal
Pelo vibrar dos lábios secos do patriarca.
Está marcado o teu dia
Pelo piar da coruja simbólica:
O luar abandonando o céu,
A Virgem caindo pela alameda,
O granizo dizimando tua catedral:
O crescente e o pentagrama,
Tatuados pelo demiurgo no peito do Sultão,
Alçados outra vez ao firmamento,
Darão cabo da romana ilusão.