Gênesis 2:20

Belinda was mine…
O último poema que a linha pode ver,
Endireitado sobre a vista dum querer,
Até que outra vez o luar faça regresso
E nada seja mais do pouco que peço.
Then Sue came along…

Don’t know that I will…
A cabeça que agora baixo em relevo
Não quer mais em verso esmorecer,
E nada pede senão o claro escurecer
Doutra noite querendo o amanhecer.
I’ve had it to here…

I know it’s been done… 
O coração cambaleado eu descrevo
Com palavra qualquer que enlevo
Entre as vis manchas do disperso,
Do esquecido, do fim sem regresso.
Don’t know that I will… 

Don’t know that I will… 
E à esta chaga sem vulto de cicatriz
Eu consagro a esperança, tua atriz,
Rogando que no palco atue sincera
O roteiro da dor de quem tudo espera.
A solitary man, solitary man… 

Tricórnio

I.
Não só o céu, criança, está nublado.
Está assim também minha esperança.
Não só as estrelas estão apagadas.
Estão escuras e frias aquelas ilusões,
Aquelas linhas coloridas no tecido cinza,
Aqueles bordados de ânimo na realidade.

II.
Oh, tu, rasa opinião:
Que mísera fauna te deu razão?
Animal sempre é quem zurra
Com fala de humana turba!

III.
Tudo é um profundo fluir.
Um leite azul,
Um lírio transparente.
Oh, vem doce e quieta descer do além para cá, minha luz.
Vem quietinha espreitando entre as estrelas minha sombra.

Vocação

Um oceano vem com a alma
E ele goteja em qualquer coisa,
Naquilo que irrita e acalma,
Na letra dourada e na loisa.

Um poço que mina os mares,
Uma fonte que seca o abismo,
Como herói voando nos ares
Sem asas, no puro holismo.

Em cada pedrinha e lugar,
Sobre a terra e no lagar,
Sou de Deus a libação.

Em cada amor e desilusão,
Sobre a carta selo e aspersão,
Sou de Deus o respingar.

Essência mística

Ser que és não sendo,
Pedra no caminho que vai morrendo.
Toda terra no mar vai dormir,
Todo ser submerge antes de surgir.
Marca os pontos no céu
E no papel as alvuras do véu.
Porquê saem as estrelas
A dar-se ver
Como as virgens de Antioquia
No Amanhecer.
Se o alaúde tocar mistério
Como poderei ler teu saltério?
Nas linhas e contornos
Da alma antiga,
Nas frestas vagas
Onde goteja leite morno;
Está lá, bem escondida,
A rosa que o mel
Num milênio nutriu.

Lamento sobre a Alexandria Brasílica

O galo-da-serra viu subir a lua vermelha.
Cantou, medroso, a melodia que aprendera com o dono antigo, rei e poeta:
Ré do si lá sol fá mi ré…
Dum esquisito paço no centro da nação,
Custodiada por infame mão,
Veio descer a centelha duma brasa que Alexandria incendiou.
Os ossos da Eva do Novo Lácio, calcinados com o faraó inominado.
Os pergaminhos de Cícero e Brutus, enrolados pela labareda insone,
Consomem a letra carmesim, rubricando de brasa a velha liturgia.
Quem é teu Nero, que harpejava enquanto Roma ardia?
Ah, mármore e dourado modestos dum soberano sábio,
Que pode o Clássico, na quinta rural,
Contra o mundo de aço, de pó cinza, artificial?
Eleva teu canto ancestral, poeira de glória,
Como sobre o Ararat Noé balbuciou a História,
E diz ao povo órfão até de avós
A genealogia do homem, da pedra à mó.
O gládio romano e a cimitarra do Islã,
O espadim dos Luíses e a adaga de Lampião,
Tudo fundido, na pedra e no chão,
Sob a força do férreo, espacial torrão;
Outro meteoro da Extinção?
Como cantiga de exilado no próprio lar,
Caipira meto a viola debaixo do alqueire,
Junto à candeia da fé que vem renascente.
Rezo a Deus o pedido final:
Que Idade permanente e medianeira chegue,
De luzes como aquela da gótica catedral,
E escreva, com letras de iluminura,
Sol de caligrafia e altura,
O futuro deste Império Milenal.

[2.9.2018]

Poesia Orgânica — I

A impressão causada às vezes dispersa o ímpeto, como água fria em calçada cálida sobre as fezes.

Figura de verdades ocultas: o figo verde e suas agruras, a nuvem sem forma e a mente nua, a tentativa de comer e enxergar significado, de ter tento no sabor e na variação do vento, sem avaria na boca e alucinação neural.

Paranóico, partiu para o ócio feito rei, potentado estóico em terra de delícias, para tentar a toada do poeta com leite banhar, para no círculo encantado o quadrado da lucidez encontrar: qual luz e verso, a acidez do líquido e a limpeza do místico.

Teus olhos reféns dos meus troféus: lhe dou os méritos, os três lugares do pódio, o lagar sem vinho, a ira sem ódio, a vida sem pretéritos.

Deus deu seu sangue sem cálice, na boca nua, na língua crua, na boa hélice das papilas. O trigo assado, motivo da carne, molhado no corpo, arde votivo no estômago, no âmago.

O professor refez as letras, as palavras na terra desenhadas. Confesso, Senhor, que lavro no papel, o ser da árvore. Vê do alto as nuvens, que vêm todas chover sobre o texto daqui. Tua obra, luz sem breu, que abra o livro à cruz.

Deitei na areia, ali onde reina o mar, onde os ramos se aninham nos pássaros e as leis não doem na teia da civilização. Viril, mantenho a mania de somar proezas e remar sozinho: quero alcançar fama com Deus e zerar a lonjura do horizonte. Juro, ontem e hoje, que rumo da poesia vil ao poema raro.

Caro, li na parede a mensagem, o ágio dos deuses, mentindo à mente, rede de lambaris neurais. O texto, peixe de Jonas, jaz no ventre das arraias: raro sentido para este comum intérprete. Se pedra fosse, preto granito, que alfabeto eu teria? Tédio, são enguias!

Alça vôo, criança! O vô alcança tuas mãozinhas, amorzinho. Maior alegria, raio pacífico ao luar, ilumina a imensidão do agreste. Assim, antes e depois, fica numa geração e noutra cindido o mundo debaixo do mundo de cima. Nós unimos o universo, na ascensão e na queda, ao céu e à terra. E o sol, na cor, crepita na fogueira. Cessa o brilho noturno e o grilho anuncia o galo.

Acostuma-te com as constelações que se apagam. Tem contidas tuas ações, como se no céu os santos, em grandes telas, te assistissem a vida. Tão nuas lágrimas e prantos são assim os eus se unindo na lida. Volta ainda as costas às tímidas jornadas e vai correr, na esgrima dos anjos, com as asas e os arreios dos pássaros e dos cavalos.

O caráter dela é éter, cara! Mas sê com ela gentil, ainda que seu gentílico seja etílico melado ou ácido. Assim dominas os lados éticos do espírito, assim alivias sem lítio o cérebro.

Dê à vida aquilo que te deleita. Sê o Aquiles do teu meio, e não débil cheirando à leite e chorando-o derramado. Sê duma mulher o amado, sê aquele cujo nome sem lamúrias é honrado, ainda que estejas na metade do caminho e te rias do rábula que tenhas te tornado. O furacão da existência, cão de fúria, sopra nas almas prenhas seu gérmen de caos. Mentem as gentes: mentem de língua nos dentes, mentem té aos mendazes!

Dividiremos um túmulo, a dívida do tumulto do Éden. Para lá iremos muito tarde, quando as folhas já forem pedra e os rios rastros na areia, quando os astros medrarem luz fora do universo, no antro onde rema o barqueiro ou no empíreo onde o Rei verseja unidade o Rei.

Eu, arvrinha

Esconde-te do mundo.
Faz-te comportado e mudo
Como a árvore que solitária
É agora a chama mais fraca na fogueira.
Regula a seiva da tua madeira
E sê, como quiseres, o rei da eira.
Se te querem cortar e usar,
(Galho e graveto,
Tronco e raiz),
Não dês aos maus
O fogo dos teus ossos
E o calor da tua alma.
Resiste na fornalha,
Porquê contigo,
Entre a brasa e a labareda,
Caminham o Jardineiro,
O Lenhador e o Carpinteiro.

Aquella dolçor amarga

Aquilo que contemplas te completa.
Onde passas tempo está teu templo.
Se os meus olhos não te escapam
E se contigo minhas horas voam…

Alta mirada de fecunda jornada,
Altar mais alto donde jorra alma:
O mapa do mundo recosturado;
Coração calmo, canta meu salmo!

Como é cedo e como é tarde agora…
Preenchido o vazio, foste embora?
A sombra abandonou já o relógio

E do mosaico caiu o vidro dourado.
Um suspiro oculto que só anjo ouviu,
Raio bruto que outro buraco pariu.

Versos livres — IV: César e Cleópatra

Uma estátua primeiro eu vi,
Divinizada em ouro e rubi,
No estuário do grande rio
Reluzindo fogo nas águas,
Suando sol em suas lágrimas.
A cidade, teu baluarte, passei;
Sobre o cavalo do lácio montei
E nas ruas cheirando a jasmim,
Sob o incenso e o perfume dalém,
Fui arriar diante do portal teu,
Morada da neta-ninfa de Ptolomeu.
Corredores de pintura rajados,
Frescos pelo granito sepulcral,
Prenúncio de dor no bem e no mal.
Uma estátua de carne eu vi,
Humana da cor do leite acanelado,
No trono de carvalho ancião,
Entre as sombras do palácio janelado.
Braseiro de estrelas, teus olhos,
Corpóreos assomos de espírito
Atribulado por desespero e paixão.
O protocolo por dois poderosos seguido,
Teatral arranjo de acordo e coação.
Despedi-me com aceno de elmo posto,
Conquistando terras e talvez teu rosto.
Crepitava a chama e o sono já me vinha
Quando a ama me chamou à tua cama.

E o que se fez, isso se fará

O brilho primitivo se move entre o neon:
Por sob as lâmpadas de química avançada,
De eletricidade científica, fulgura a fogueira;
E grita Prometeu: “theon, theon, theon!”

No areópago que ampara a luz mal pensada,
De velocidade sideral controlada, se esgueira
A chama que centelha no átomo toda a alba.
O moderno, oh deuses, é fábula transloucada!

Sha naqba īmuru: tlahtoāni

As folhas continuam caindo,
Como se no Iraque o zigurate ainda estivesse de pé,
Como se Montezuma oferecesse sacríficos cruentos,
Como se as árvores ainda fossem as mesmas.
As folhas caem porquê caem,
Assim como a chuva, mais alta, também se lança sobre a terra,
E lava e corrói os tijolos milenares de Babel,
E lava e enxagua a pedra americana ensanguentada.
Caem porquê caem, porquê há aí o acaso?
Caem, porquê caindo sob o ocaso do Sentido
Ainda cintilam seu significado mais profundo
De soberania e divindade.

Bella fantina, i’t’ho donato il cor

Se por muito tempo pensas,
Terei logo a cabeça suspensa
E os olhos dormidios cerrados
Em direção ao teu telhado.

A atenção logo se acaba,
Como grande vela em pequeno mastro,
Quando a mente desaba
Sobre o coração seu intelectivo lastro.

Se por muito tempo pensas,
Amenizas sim as desavenças,
Mas o preço duas vezes pago
É o de perder também o afago.

Enquanto meditas da torre marfínica,
Enquanto supões quimeras
De sonhos livres da penumbra empírica,
Os castelos louvam taperas.

[10.4.2006, segunda-feira]

Sei que faz dia e noite

Até quando se dirá, entre sóis mal despertos e noites mal descidas,
Que o amor é este raio quente e frio entre dois corações confusos?
Porquê o tempo, anota bem para ti esta verdade esclarecida,
O tempo que é diante da cronologia dos gestos e olhares?
O rei de ouro que acorda e a rainha de prata que deita
São dois lusco-fuscos cintilando e piscando no universo-escuridão.
Estas moedas, minha bela, eu as tomei do antigo baú mitológico,
Fundidas dos adornos mais bem esculpidos dos escudos de Salomão.
E estas setas tuas, argênteas gotas dos teus olhos, que são?
Ah, minha doce menina, eu bem sei da poesia que o choro produz
E eu bem sei das palavras que trabalhei enquanto dormias em luz.
O cálice oferecido, libação para duas bocas secas, de alegria encheu a ceia;
Cantando elas nos prenunciam a tão mútua salvação, como os arautos
Antigamente aos pés do trono soavam melodias de anunciação.
Eu te direi, em silêncio e com voz sussurrada,
Que vidente certeza foi por mim alcançada,
E que entre escombros de ilusões varridas,
Entre assomos de anseios maltrapilhos,
Encontrei-te quando tocavam os sinos da conversão.
Com versos em pequenos lenços escritos,
Manuscritos da dialética eu-tu,
Papéis de rimas metricamente incomuns,
Com estes versos, puro anjo,
O sol beija na fronte a casta lua,
E eles se vão a reinar no dia que é noite e na noite que é dia.
O amor reúne, na una carne dos espíritos entrelaçados,
E amalgâma, na justa aliança das almas enamoradas,
O ouro e a prata. O electro do amor é esta fusão inconfusa
De paz e paixão, de sossego e frenesi, de distância e união.
As sombras são o véu da realidade que pia com a coruja,
Este pássaro que conosco detém as córneas do infinito.

Propter officium – II

Fui olhar os lírios do campo.
Era inverno e estavam nus.
Lá estava o lírio, único lírio.
Apenas o caule açoitado demonstrava
Da sua flórea vocação os contornos.
A lira, esta minha de poesia,
Pouco desta visão poderá cantar,
Senão a verdade de que a nudez,
Também nas plantas e vegetais,
A nudez pobre e casta,
Vem de Deus.
3.1.2018

Das memórias que não se vão,
Fica apenas o derradeiro senão.
As aves que subiram ao paraíso
Ovo infértil deixaram no ninho.
3.1.2018

Partindo conversas como feixes
E pensamentos como vivos peixes,
Conversei sem pensar à mesa
Enquanto sobre o Cristo versava.
9.1.2018

A poeira eterna,
De glória impermanente,
É esta palavra
Que agasalha o tempo
Numa sentença
Desenhada
Em papel perecente.
11.1.2017

Os meus sóis serão miragens
Entre sombras e luzes eternas.
E meus lagos e oceanos
No espírito um só firmamento.
Nada que eu diga e veja,
Senão a realidade Aqui disposta,
Uma esperança tardia!,
Consumirá do Mundo o Facto.
Mistério chamarei a todo o inaudível
Quando o Cosmos vociferar
No ventre o Caos mal digerido,
Quando a saraiva das gentes
Pelo Logos bradar.
17.1.2017

Conforme andarias entre mortais,
Descobrindo signos e insígnias
Para a Eternidade compor,
Dizei-me se o ocaso dispensou
Cada indício de enigma
Inscrito no portal
Das estrelas antigas.
23.1.2018

Se as coisas principais, ao menos, fossem assim tão certas,
Se o giro dos planetas se alinhasse ao movimento de nossas cabeças
E de repente tudo fizesse sentido porquê óbvio o metafísico,
Os amores seriam imediatos e para sempre,
As mesas de domingo estariam todas abarrotadas de macarrão e vinho,
O galo que canta às três da madrugada cantaria ao meio-dia
E eu aqui não derramaria medíocres versos em poesia.
24.1.2018

Dantes a golpes seja posto o espinho sobre minha fronte
Que o ouro de pagão e rico diadema me adorne a cabeça.
Defendo, eis aqui meu sangue, a santa Cruz do santo monte.
Defendo, eis cá a cicatriz, o frio sepulcro que jaz aberto.
Godofredo de Bulhão eu sou. Não sou rei: minha sentença!
25.1.2018

Propter officium – I

O mundo enluarado do meu pensamento
Constela de quietude qualquer teu lamento.
Olha que as estrelas reverenciam o silêncio
De quem se atribula e faz de si sacrifício.
5.5.2017

O mundo é uma pira de ação:
Consome o ato com emoção,
Consome o átomo sem ação.
O mundo é uma piração à toa.
2.6.2017

Eu me canso de estar cansado
Quando cansado só me canso
De cansar-me e cansando-me
Cansado, enfim, eu me canso.
14.6.2017

Senhor, tu sabes quanto sou paupérrimo em constância.
Tu sabes, porém, que minh’ânsia é dormir no teu arrimo.
22.6.2017

Sê fiel à dama da tua vontade, à senhora do teu ideal,
Porque a mulher da tua vaidade nada é senão teu mal.
7.7.2017

Céu e terra no horizonte se encontram.
Apenas lá, onde a linha solitária tudo une e toca.
O azul, fresco e suave, o vermelho tanto acaricia
Que no calor gerado, o telúrico fogo,
A amplidão celeste num beijo abrasa.
12.7.2017

O repente do sertanejo é sua graça d’alma,
É uma toada na viola que todo mal acalma.
14.7.2017

Leio tantos gênios, tanta gente versada em bem prosear,
Que caio de cabeça nesta minha oca de feios palavreados:
Eu não sei escrever, não domino minha língua! Ai de mim.
Capitão de versejadores ruins, um puro trovador chinfrim.
E estes sonetos de sons imortais, estes elegantes períodos
Que me alegram o coração, eles também me fazem chorar.
17.7.2017

A silhueta que eu via em carne-e-osso,
Valsando diante destes meus olhos sedentos,
De repente fez-se miragem de sombra
Entre as fagulhas dum amor besta e doido.
18.7.2017

Anelo à uma Gabriela, uma sem muita canela,
Uma que não goste muito de cravo na panela.
Uma Gabriela para por belo anel na mão dela,
Uma de quem eu retire a tristeza com aquela
Cantiga do “dorme, dorme minha filha.” É ela!
25.7.2017

Não temerás que te temam ao entrar.
Temerás, antes, que te temam ao sair.
26.7.2017

Decidi decorar o que agora recordei:
A imagem e o som unidos antigamente
Sob o cheiro de cânfora e de café
Sobre o piso de ardósia e a mesa de mogno.
Decidi contemplar na memória
Este resto de vida na história,
Este lampejo de paz imortal.
11.8.2017

A vida que escorre
Na existência que corre.
A Eternidade goteja
Líquido sólido no
Tempo.
31.8.2017

Se a noite é escura,
Persevera.
Arranca o pó da sepultura,
Faz do breu iluminura.
A vida é eterna fartura,
É terna formosura,
É pura altura.
5.9.2017

Não te direi
Novamente
Coisas passadas.
Sequer novidades
Das quais te lamentes.
Antigo amor
É todo dia nova paixão.
Oh, Deus,
Dai-me disto libertação!
11.9.2017

Quanto tu amas, respiração dormente é grito,
Sussurro é longo discurso, ação é terremoto.
Tudo que é silente, e mesmo a inação, é fato.
Nada é à toa, rotina perdida no mero gesto.
14.9.2017

Quem ao céu deseja ir,
Que se encontre consigo mesmo.
Quem ao céu deseja ir,
Que esteja pronto para o cerco.
Desejo ir ao céu,
Mesmo que sem idílio, no ermo.
Desejo ir ao céu,
Fazendo frente ao fátuo esterco.
15.9.2017

Argumento comigo mesmo,
Contra mim mesmo. Argúcia de pensar
E de repensar o istmo que une o lagar
Desta alma arquejante
Ao espírito altivo e forte.
15.9.2017

Resigna-te ao silêncio,
Ao silêncio sem linha coerente,
Ao silêncio em si mesmo disperso,
Ao silêncio do vácuo insignificante
Como o mudo silencio
De quem por qualquer uma fez verso.
29.9.2017

Criança ainda eu sou.
Um sopro infantil na tempestade velhaca,
Um ouvinte de soul,
E da mais antiga e atual música clássica.
Atiro farelos aos peixes no lago,
Refaço os desenhos que estrago,
Comungo dos ideais do náufrago.
O mundo é um laço,
É um laço e um tiro.
Satã, passarinheiro e atirador,
Que fique sabendo:
Tua moeda é falha pataca,
É pena de gralha esganada
Em insano ritual alquímico.
10.10.17

Doce e firme,
Anjo verdadeiro.
Tua fala mimosa e altiva
Ao mundo teu caráter
Celeste assevera.
Alva alma
De palavra relampejante,
Tua postura é gótico entalhe
Na catedral deste mundo.
19.10.17

O cume da mais alta montanha da cordilheira,
Branco mas não de geleira,
Brilhando altivo sobre a penumbra bem cinza,
Tocando o céu: brincadeira
De Deus fazendo ponta de lápis
Sempre apontado pela brisa.
20.10.17

Tu me rejeitas porquê rejeitas o que em ti eu sou: contradição.
Contrais teus lábios e passos.
Passas por mim mordiscando o cantinho da boca
E acelerando teus pés indecisos.
O caminho é por aqui, é aqui, é comigo.
O beijo é por aqui, é aqui, é em mim.
Foi pra isso que eu vim:
Pra encher de paz tua alma oca.
23.10.17

Do que te posso dizer, isto só te digo: quando?
Não há o que fazer, senão ir arrumando
Pretextos para nos crermos lógicos,
Contextos para interpretarmos
O que nós mesmos escrevemos.
Dizendo e repetindo que não pode dar certo,
Mais a razão nos diz que dará
E mais nos contorcemos solitários,
Espasmados de paixão,
Diante dos olhos um do outro.
24.10.17

Num momento, sei que te amo e que tu me amas,
Noutro tu me amas e eu me sinto assim indiferente,
Depois nós dois nos amamos e nunca nos amamos.
E sempre não sabemos o que dizer um ao outro…
Somos Adão e Eva saindo do Éden
Numa madrugada cega e fria.
Eu sou aquele pedaço de céu
Onde dorme a Estrela do Norte,
Tu, solitária, do espaço guardada.
24.10.17

Versos livres — III: O Cavaleiro e a Sarracena

É noite em Jaffa.
Cintilam pelos céus — o de seda e o de fora —
As estrelas dantes escondidas.
É um ninho este mundo,
Uma alcova e uma cama de campanha.
Sultão ou soldado,
Poeta ou mudo,
Está no amor certa guerra
E na guerra certo amor.
Os olhares das virgens lascivas
E os olhares das odaliscas donas de casa:
A íris da antiga companheira
É no deserto
A íris da amante mais nova.
Os véus iluminados por velas
E as ruas clareadas pelo luar:
Despida antes da despedida,
Coberta antes do reencontro.
Onde está ela, pura de rena rajada?
Onde está, nua de pele acobreada?
Sumiste por entre o incenso
Quando a bela cidade caiu,
Quando a rota de comércio
Desfez das tâmaras a venda paterna.
Já é dia e o sol sobre todas levantou
Seu linho mais negro, a capa anônima,
A renda miúda que veda à minha terra
O resplendor do teu acastanhado céu.

Versos livres — II: Otelo e Desdemona

Quando as noites mal dormidas assim são porquê anseias o dia,
Quando os sonhos tornam-se pouca coisa diante da fábula acordada:
Olha, que é paixão!
Há nesta peregrinação de viradas e reviradas no colchão sentimento,
Alguma variação de “verei!” com “não verei…”
E de “bem-me-queres” permanentemente permeados de “mal-me-queres”.
Então, deitado acordas sem dormir, velando ilusões apressadas em morrer na alvorada.
Então, levantando corres a enfrentar o conto de carne e osso e… só isso!
Porquê ali está o nada
E nada poderás obter contra a realidade da auto-imposta agonia:
O dia é a razão arrastada contra o sentimento da vagueza alada,
É como aquela vela furada que do nauta arranca o vento e a sombra.
Não te lamentes. Rema com tua mão.
Rema até o porto criado pelo sedimento da sabedoria acumulada,
Esta epopéia empírica de empíreos derrubados até o chão.
À noite, ide dormir após o último pensamento puro;
Para que o dia te conceda o primeiro sentimento puro.

Versos livres — I: Sansão e Dalila

O teu sorriso era [já não é] uma espiral de docidão,
Como se de uma linha à outra nos lábios repousassem
As curvas das galáxias, feitas da cera e do mel da primeira colmeia.
Então meu paladar se aguçava,
Então o cálice da ceia dos amantes
Se contentava com a água fresca da mina da roça.
O teu sorriso que me abalava o âmago e os ossos,
Que me alterava a temperatura como se febril no Saara eu sonhasse,
Que me acometia de risos e gargalhadas de expectação divina e infantil…
O teu sorriso deixou de ser, como as nuvens abandonam a pareidolia
Quando o vento vândalo e realista é mais forte que a brisa artista.
O teu sorriso era para mim um chamado ao silêncio devocional,
Uma convocação do arauto das alegrias amenas,
Um toque de clarim real ouvido apenas pelo espantalho do milharal.
Então, as formigas vieram e carregaram cada gota de mel
E as vespas desfizeram os favos hexagonais de luz e carne.
Então, cá eu contemplo a linha reta de tua expressão:
Inerte e muda, inerte e muda como uma estátua de sal.

Soneto VII

Se a brisa descer em tempo de inverno
Ou maresia de repente vier do deserto,
Escuta a cantiga que o amor expressa,
Porquê fora de estação surge a paixão.

Se uma pétala de rosa fresca cair morta
E for primavera colorindo a vida à porta,
Silencia diante duma provável traição,
Porquê na estação mais fecunda a ilusão.

Se o Senhor, porém, dois quiser no altar,
Se unir Ele desejar para sempre um casal,
A Calenda se desfará na chama eternal.

Se o Senhor deitar sobre estes dois dedos
O leve fardo e o suave jugo duma aliança,
Um a um o tempo desfará os idos medos.

Inquietud

El sonido de mis sueños
Por la noche se calla.
Sin mi coche, camino a pie
Sólo com Dios, sin baño.
Voy encontrando el tiempo
Como quien, por primera vez,
Encuentra su propia cara
En el espejo.
El sonido ahora es himno,
Alabanza al Significado.
Soy yo mismo,
Ante el tiempo desesperado.
El silencio compone la esperanza
Y la melodía aparece en la partitura
Como las letras en la pared figuran.

Dante a Beatriz, no século XXI

Um dia serás velhinha e o mundo te será, finalmente, real.
Mas da realidade do mundo, Beatriz, tu terás apenas o cinza.
Bela tola, tu serás tão feia quanto a santa Mãe de Whistler,
Mas não terás o calor da lareira familiar, do pincel familiar
Que te arranjaria em verde e amarelo a uma futura geração.
Preferiste a vergonha dos pixels anônimos e do mundo fácil,
Escolheste o fugaz que fraciona tua alma como a carne moída
Da ração dos cães que ficam no meio do caminho da reação.
Quando fores velhinha recordarás dos meus poemas gentis
E chorarás pela vida que poderia ter sido e não foi jamais.
Um dia, um dia o mundo te cobrará minha lágrima nas tuas.

Soneto VI

Tu te mirarás, um dia, velho ao espelho
E perguntarás se valeu à pena caminhar
Por cada terra atrás daquele livro velho,
Atrás das pegadas que indicavam o Lar.

Então, um anjo invisível te fará dormir
E de olhos cerrados verás a Jerusalém,
E, no dourado sonho, em pé acordado,
Verás tudo o que o profeta viu no véu.

Tu acordarás mais cedinho para vê-los:
Tua mulher, dormindo em paz amada,
Ao lado dos retratos dos filhos e netos.

Tu dormirás, na tardinha, para te veres:
Sonharás que estás diante dum espelho
E, refletido em prata, criança tu te verás.

Soneto V

Não te escreverei linha alguma nunca mais.
Este trabalho suadouro de rimas garimpar,
De fundir o metal dos versos e vogais limar,
Nunca mais, nunca mais sob estes meus ais.

Poesia que verte assim toda minha agrura
E que sob o manto do lirismo é tua tortura,
Nunca mais, nunca mais haverá de pagar
Com arte e louvação o desdém do teu ar.

Apenas as ricas frases para outras salvar,
Porque o elevado é anel para toda mulher
Cuja mão o coração do poeta sabe guardar.

Nunca mais, então, nunca mais o versejar.
Nunca mais o fino doce em dourada colher.
Nunca mais terás o quê às amigas mostrar.