CONSELHOS AMOROSOS | Parte 3 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

VII. Sobre a alma de uma mulher. Já percebestes, nas manhãs frias, como embaça o espelho quando o calor mais-ou-menos do chuveiro atinge sua superfície de prata e, por mais que o material seja por si mesmo intrinsicamente apto a refletir tua imagem, ele não a mostra e mesmo só a demonstra quando passas as mãos sobre o vidro dando cabo da fina penugem cinzo-aquosa que o recobre? A mulher que amas é um espelho em embaçamento. O calor: é o relacionamento. É aquilo que está entre tu e ela mas não é tu ou ela: é o meio, é o caminho, é o que vem e o que vai entre tu e ela fundindo-os sem confundi-los. O calor deve ser forte o suficiente. Quando as coisas embaçarem, embaçarão porque o calor é pouco. Quando a temperatura da água não supera a temperatura do ambiente, tudo se nivela em anuviamento vaporoso. Então, quando já nos olhos dela não mais distinguires a ti mesmo e sobrar apenas um pouco discernível vulto de sombras irreflexas, é hora de acaricia-la não só com tuas mãos (coisa importante, anota); é momento de acaricia-la com o teu ser completo, de passar as mãos nela — naquela alma — com aquilo que em ti (ou seja, tu integralmente sendo o que és) fez com que ela te refletisse por completo. O amor feminino reside nesta constância: sempre que tu não te veres nela, na tua mulher, não é porque o espelho não funciona. É porque o teu calor mediocremente não superou o frio do lugar e, morno, apagou-te no espelho.

VIII. Nunca deixes chorar sozinha a mulher que amas. Por que tu permitirias que qualquer coisa arrancasse dela lágrimas em solidão? Se o mundo cai em trevas, é teu dever proteger (com o preço da tua vida) a única chama — a pequenina chaminha — que permanece acesa. Ela é a tua candeia. Aprende a enxugar lagrimas com Bob Marley: “No woman, no cry…” Seja o choro de tristeza ou de alegria, de ira ou de ternura sentimental ou mesmo motivado por qualquer outra emoção capaz de fazer nela aflorar estas gotas salgadas que põem o teu coração na mão, esteja por perto. Esteja ali, pertinho. Não, não te é necessário discursar palavras sensatas, conselhos de ocasião ou amenidades complacentes. Não, não te é necessário abrir a boca para demonstrar a ela e ao mundo que o dom da fala acompanha tua língua. Se possível, nada dize. Senta próximo, a um canto, e mira-a com aquela mesma atenção que tinhas quando miravas a bicicleta desejada na vitrine da loja da cidade grande. Mais: mira-a como se, outra vez, pela primeira vez a tivesses visto. Mira-a, dizendo sem falar, que não chore… O choro daquela que amas, meu caro aprendiz, tem a potência do choro que chorou Eva e do choro que chorou a Virgem Maria: ele comove a natureza animália (já vistes os cachorrinhos domésticos como ficam quando veem a pessoa querida aos prantos?), comove a natureza divina (lembras de como as lágrimas de Ana refizeram a interpretação do espírito profético de Eli?) e poderosamente comove a natureza humana (todos poderão parar para enxergar a tua mulher que chora, mas apenas tu és capaz de limpar-lhe os olhos).

IX. Deves saber “cair fora” — desistir e não insistir. Do não acatamento deste conselho procedem toda sorte de desilusões incuradas, traumas crônicos e obsessões capazes de fazer da tua existência amorosa um inferno terreno. Sebo nas canelas!, se são incompatíveis os valores, os projetos, os futuros e, sobretudo, os quereres acerca dos valores, dos projetos e dos futuros. Há, como diria São Paulo, um “jugo desigual” a desnivelar-vos — tu e ela? Pernas pra que te quero! Na mesma medida: quando uma mulher não quer, ela não quer. Se ela sutilmente finge que não quer, ela apenas diz de boca que não e, de certa forma, diz que quer mas diz que antes de consumar o querer tu deves pontualmente se “adequar” nisto ou naquilo. Por isso, se ela realmente finge que não quer, ela certamente dissimulará o “não” que sai da boca com um olhar mais languido, com um sorriso mais acanhado entre os dentes, com um tom de voz que paira entre a ironia e o dengo. Trata-se de um “sim” falsamente tímido, via de regra. Entretanto, quando uma mulher efetivamente não quer, desde logo tal decisão fica clara como água de fonte polar: uma mulher quando não quer, não quer totalmente; não há frestas na muralha dos seus olhos, não há fenda na armadura da sua boca, não há vácuo no silêncio da sua voz. Vai-te embora, oh rapaz! Poupa-te de vergonha e vexação, de tristeza à toa, de choramingos inférteis. Sê homem e admite logo que — por incompatibilidade ou por rejeição — o caso é um caso perdido.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 2 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

IV. Quando te atraíres por uma mulher a ponto de tua pulsação voltar aos batimentos do primário ou dalguma taquicardia anterior, segura-te imediatamente no chão! Gasta pelo menos duas ou três semanas (ou um mês ou muito mais se necessário) a observá-la antes de propores seriedades. Mira os gestos e os gostos, as falas e os dizeres e, principalmente, com o que ela sorri, com o que ela ri, com o que ela gargalha. No humor da mulher reside densa parcela da sua alma. Observa-a e anota-a nos teus pensamentos. Aquieta os sentimentos, então. Observa de perto e de longe, como os ornitólogos põem os olhos nas aves raras do Tibet: com reverência profundamente religiosa e ao mesmo tempo com habilidosa curiosidade científica — com coração e cérebro calibrados. Se ires logo “pra cima”, não verás o que necessitas imperiosamente ver: ela como é na rotina, no dia-a-dia, na normalidade do tempo ordinário. Quando uma mulher sabe que tu a cativas, enfim, quando tu demonstras explicitamente tua atenção e intenção, ela assume outros ares — os ares da amante deliciosa e da amorosa penitente. Espia calmamente, porque nenhuma mulher é assim tão “mobile qual piuma al vento.”

V. Não é assim tão indispensável recordar datas se tanto amares a ponto de constantemente surgirem novas datas, que no calendário do amor efetivo acabarão sendo uma só coisa: o fato de que se ama no tempo. O “primeiro isto”, o “primeiro isso” e o “primeiro aquilo” só muito ficarão marcados na afetividade relacional de uma mulher se tu não te esforçares para sobrepujares cada acontecimento com outro de intensidade tão elevada quanto. Por que a primeira música do encontro deveria ser assim tão superior em importância à música que se ouviu (e comoveu) na rádio chiada do interior durante uma viagem na madrugada domingueira ou tão superior a música que vier embalar as idosas Bodas de Diamante? Apenas há tal hierarquia de datas importantes quando a relação vive de recordações e lembranças memoráveis do passado que não conseguem se manter no presente. A medíocre necessidade de decorares dias, meses e anos sob as naturais exigências (sim, a mulher detém este direito) dela, demonstra que tu não conseguiste fazê-la tão plena de datas que ela mesma não teria memória para guarda-las todas.

VI. Presentes são quase nada. Presença é quase tudo. Porque, nota bem, a presença implica em livremente presentear. Não: nada que ver com por sempre a mão na carteira e dispender somas vultosas com coisas caras e capazes de levares à falência até tuas miseras moedinhas engavetadas. Caro, para uma mulher, é o carinho. São singelos os presentes capazes de encantar uma mulher. E é o encantamento dela teu alvo. Mulher não é cara. Mulher é valorosa. Já experimentaste escrever-lhe versinhos nem que à moda “batatinha quando nasce”? Valem mais que sapatos, experimenta! Já roubaste no roseiral da vizinhança a mais vistosa flor e arrancando cada espinho com teus dedos (feridos, of course, mas que ditosos ferimentos!)? Valem sentimentalmente mais que os diamantes azulados vendidos pela Graff londrina. Estar ao lado dela dando o que se pode dar, dando o que se quer efetivamente dar, sendo a si mesmo o melhor que se pode dar é o ápice da conjugação do verbo presentear num namoro, num noivado, num casamento. A tua letra no papel e os teus versos bestas no papel valem mais que um soneto de Shakespeare; não porque sejam os teus rabiscos literários mais valiosos que as rimas preciosas do bardo, mas porque são teus para ela. A flor irisada do jardim de Dona Manuela vale mais que um estojo aveludado recém-saído do cofre; não porque os quilates custem na bolsa de valores menos que aquelas vistosas pétalas que em um dia já murcham, mas porque são tuas para ela.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 1 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

I. Quando amares uma mulher, tu não deves apenas amá-la com seu presente e (suporta esta realidade com varonilidade!) não deves amá-la no presente se o futuro estiver comprometido pelo presente. Tu certamente sofrerias em vão e estragarias uma existência mais prazerosa à ela e a ti mesmo. Não sejas sadomasoquista. Quando amares uma mulher, tu deves amar também aquilo que no coração dela brotará no porvir — porque hoje é já semeado: os desejos, os valores, os projetos, enfim, os movimentos todos em direção à comunhão de corpos, de espíritos e de almas que é um casamento. É preciso que saibas discernir o quanto o “hoje-fazendo” abalará o “amanhã-a-fazer” que será o “ontem-feito”. Tua paixão atual será tua desilusão vindoura se não souberes conter o ardor dos teus sentimentos com o “balde d’água fria” dos teus pensamentos.

II. Não escrevas poesia em bilhetes, nem em e-mails e muito menos em mensagens de WhatsApp. Escreve, como o Michel Temer, cartas; escreve os poemas que dedicares a ela em cartas bem feitas. Afinal, cartas são coisas que não se consomem nos bolsos com os outros papeizinhos e tickets, nem que com um “delet” vão à lixeira ou com uma passada no “touch” do celular se consomem no nimbo virtual. Escreve em cartas e escreve com teu mais refinado esmero para que, à primeira briga, ela olhe para aquele pedaço de papel (tão cheio de ti e tão cheio dela) e perceba que, se o rasgar em mil pedacinhos como ela quer, estará rasgando carne sanguinolenta, a carne sanguinolenta e humana dos dois corações ora brigões. Até porque (e há nisto uma pontinha de orgulho literário e moral), tu quererás certamente que teus filhos e netos e bisnetos e teus descendentes todos ponham os olhos naquilo e digam “é assim que tem que ser!”

III. Seja gentil e cala a boca diante da brabeza dela. Mas, seja tão gentil a ponto de tudo dizer apenas… calando a boca. A mulher quando irada/raivosa/revoltada/furiosa/encolerizada/ fala muito e compulsivamente querendo atrair não a reação adequada ou inadequada das tuas palavras, como que convidando a um diálogo (coisa para dois, sabes disso, não é?). Ela quer, a valer, é a tua atenção: atenção que concorde ou discorde através do teu olhar aprovante ou desaprovante, mas atenção sincera, atenção que não seja um mudo “piloto automático” de inércia física e metafísica, atenção refletida e silenciosa que atenda à necessidade dela de desabafar o que bem entender na tua cara. Se quiseres argumentar e “discutir a relação”, perderás a oportunidade mais do que gostosa de admirar o movimento ensandecido dos lábios de uma mulher quando ela demonstra amor fingindo ódio. Cala a boca, energúmeno!

Esponjas de sol – XXVI

772. A inteligência humana se limita a si mesma quando as certezas — positivas ou negativas — são demasiada e abarcantemente obsessivas. Quem muito (e em quase tudo) crê, pouco sabe. Quem pouco (e em quase nada) crê, pouco sabe.

773. O que na vida vale à pena, diziam nossos avós, passa por nós como oportunidade uma só vez: é o “cavalo encilhado” que não passa duas vezes. Se não pulamos sobre o corcel e o cavalgamos com energia, passam logo atrás seus potros e pangarés degenerados de mesmo caminho-e-linha; e nalgum deles nós tomamos destino: surge a oportunidade de ser rei dalgum estado nacional nascente e, se não tomares para ti a coroa, acabarás chefe de medíocre partido interiorano ou mesmo o “rei do frango frito” de Pitangueiras. Está ali, porém, o mesmo “destino equídeo”: governar sobre alguma coisa — nobre, insonsa ou vil. Surge a oportunidade de amares a mais elevada e importante (ao menos certamente para ti) mulher entre as mulheres: se não a amares, acabarás amando a mais esperta trigueirinha de toda a paróquia ou a amante do amante da amante do senador fulano-de-tal. Surge a oportunidade de, tendo talento para a pintura, te matriculares na mais prestigiosa academia de artes dalguma capital europeia: se não vais tomar lições com os mestres consagrados, tornar-te-ás retratista nalgum gueto suburbano asiático ou pintarás com desvelo os rodapés dalgum burguês abastado quando este quiser reproduzir no seu triplex soteropolitano o teto da Capela Sistina. O que na vida vale à pela, digo para ser também avô, passa como oportunidade uma só vez.

774. O que quero e desejo, respectivamente, é entender a compreensão e compreender o entendimento. Tal é o meu “sagrado graal” em matéria de Cognição.

775. Se um medo te atormenta, cuida para que ele não povoe teus sonhos. O medo nada é senão teu pavor; um pavor que pode abastecer de narrações as tuas noites. Mas se tu enredas fortemente tal temor no teu espírito, mas se tu o energizas com a potência criadora dos teus sonhos (e pesadelos…), há sempre a possibilidade de estares ou profetizando teu futuro viandante ou, à força da tua capacidade mental, recriando realmente o medo abstrato no theátron do mundo concreto.

776. Quando o mundo acabar, não acabará. / Não pode ter fim se não teve começo, / Não pode findar se não pôde respirar. / O mundo que acabará é só a semente / Que apodrecerá para a árvore brotar.

777. Quem mais chega a compreender uma língua, aproximando-se do Verbo por detrás dos verbos, é também aquele que mais percebe o quão pouco o significado verdadeiro das palavras tem a ver com o pseudo-significado venial e ordinário do dia-a-dia. A linguagem é a base da vida mística.

778. Saul e Saulo — benjamitas: o primeiro, odiou Davi e morreu[-se] em seu ódio; o segundo, odiou o Filho de Davi e renasceu em Seu amor.

779. Para um gênio (ou um sábio-fazedor), a vida é uma caminhada de fim de tarde na aldeia que se faz com a força despendida numa maratona metropolitana. É uma “blitzglatt” — um relâmpago suave. É como se o tempo fosse outro: um gêiser escoando para cima como um fio d’água de goteira para baixo.

780. O coração do homem sincero se encontra sempre entre o céu e a terra, entre a santidade e o pecado, entre a luz e a escuridão, entre Deus e o eu (não o diabo, que é um “atravessador existencial”). Há uma dialética tremenda puxando a alma do homem consciente ora para o pico da montanha ora para o fundo do abismo. É como estar, ao mesmo tempo, amando uma mulher e apaixonado por outra. Trata-se de uma duplicidade inerente à constituição mesma da nossa natureza, que nos alinha a pensamentos e sentimentos auto-dúplices de mesmo fulgor atrativo, de mesmo fervor passional e de mesmo penhor desejante. Perguntaram-me o que é tentação na vida cristã. É isto.

781. O artificial só auxilia a beleza quando “anima” aquilo que é natural. Mulheres cá das plagas facebookeanas, escutem-me: a opinião que vocês fazem comumente do nosso gosto (o gosto masculino) acerca de vocês mesmas é excepcionalmente distorcida e quase sempre não corresponde à realidade. A gente prefere as coisas como são (sem muitos rebocos da cosmética e plástisquismos). Vocês podem e até devem se adornar, mas o adorno — de quaisquer ordens estéticas — é e sempre será subsidiário, no máximo “micro-auxiliar”. Vocês é que nos agradam, nãos o barangandãs que vocês põem sob ou sobre a carne.

782. A nossa triste geração é aquela que consegue passar horas a fio no WhatsApp, mas que é incapaz de orar um singelo Pai-Nosso à hora de deitar-se porque já “está muito cansada”. Vai tudo muito mal…

783. A inteligência engessa a ciência quando é ingênua perante a ligeireza da intuição.

784. O que é, nesta vida, um mal entendido? Talvez mastigar isopor como  se pipoca sem sal fosse? Eu me engano quando chamo um urubu de “meu lôro” ou quando não distinguo o canto do canário do canto do curió? É mal entendido ouvir um “não, nunca!” na medida de um [meu] inconsciente  “não nunca!”?

785. No centro da clareira a fogueira ilumina mais?

786. Quem percebe um grão de sal na sobremesa e um grão de açúcar no prato principal? Só na receita…

787. Mestre, que é um homem errante?
É um homem que erra, aprendiz.

788. Grande crueldade: chamar de vagabundo a um homem cansado.

789. Com o coração numa mão, que se pode fazer com a outra? Libertá-la jogando seu carregamento no mar ou afagar este seu precioso depósito?

Chamado à Contemplação — I

  1. Aquilo que tu crês que te farias louco se te pusesses a completamente investigá-lo: esta aí o caminho da tua sanidade. O novelo confuso da Eternidade tu desenrolarás quando puxares o primeiro fio quilométrico e não desistires té que o caminho do Início finalmente encontres.
  2. Olhar para o céu faz parte da rotina de quem não se deixou perder na rotina. Quem ainda levanta, segundinhos a fio, os olhos para o azul clarinho raiado dum amarelo serenado da manhã; quem ainda olha para o alto ricocheteando água gelada nos dias e noites de tempestade e encara sem temor o céu acinzentado; quem olha para o céu não perdeu a esperança de “num abrir e fechar de olhos”, quando Ele permitir, rasgar com braços de carne refulgente os ares e os ares anuviados que guardam a entrada invisível daqueloutro Céu.
  3. Nos olhos da tua amada, homem fiel, tu verás o assombro de Maria quando Gabriel lhe cantou “Ave, agraciada”. Diga à pombinha de tu’alma, diga à amante que dorme no teu coração aninhada: Eu te amo!

As três fases etárias do Amor

[Rascunho escrito há dois anos e reencontrado há dois minutos]

Somos crianças lançadas no mundo. Espécies de anjos com biologia semi-latente. De repente, nós vemos uma alma de carne-e-osso, de vestidinho azul e laço da mesma cor aliançando cabelos mais negros que os olhos do cosmos, mais negros que a malva, mais negros que aqueles “cabelos mais negros que a asa da graúna” de Iracema. Nós vemos o leite acanelado que lhe serve de pele e o sorriso de serafim mais ou menos acordado ao meio-dia. Eis uma menina! A gente cai prostrado como um búfalo do Serengeti que teve o coração atravessado pela lança prateada do cupido. Há nisso veneração a ideais: conhecemos Platão antes de lê-lo quando, crianças, nós nos apaixonamos pela amiguinha no Primário ou pela neta da vizinha. O amor é platônico porque não vai além dos rudimentos do próprio pensamento: Adãozinho encontrou metafisicamente Evinha. Nós somos menino e ela é menina. O corpo age porque o espírito o incita. O amor é nesta idade altamente simbólico e liricamente poético para o corpo: “borboletas no estômago”, “calafrios na espinha”, “mãos suando bicas”, “pés sapateando sem parar”…  Quase tudo é espírito dos 5 aos 10 anos. Duo des fleurs! Este estado acaba. Acaba e não volta mais, felizmente (porque incompleto e, por isso, menos perfeito). Idéias celestialmente sentidas.

O corpo se esparrama com força, se “espicha”. Nossos membros e nossos órgãos crescem em direção ao mundo físico para efetivamente poderem tocar no Mundo e nele laborarem a obra humana. Nós somos moleques e elas são garotas e pouco depois nós somos moços e elas são moças: somos adolescentes e jovens. Reúno as duas fases num mesmo “movimento” porque, salvo nas pessoas mais conscientes, é difícil perceber a passagem de uma etapa para outra (que, sim, não são ficções etário-psicológicas). Não tão de repente, a gente repara que o cabelo escuro é agora um cabelão preto e que a pele menos branca é na verdade morena. O vocabulário, perceberam?, muda quando tentamos definir aquela que nos atrai, afinal, já não é a beleza em si que atrai, mas a beleza que está depositada nela (na moça) e é nela e com ela uma coisa só. O macho encontra fisicamente a fêmea. Quase tudo é movido pela potência física dos 10 aos 20 anos. Na moça nós discernimos mais os traços, mais as curvas, mais a carne que a envolve — nós arrancamos o laço dos cabelos e queremos que o vestido encurte. Até no sorriso delas nós enxergamos um je ne sais quoi sexual: o apelo do nosso ser é sobrepujantemente afeito ao esplendor da matéria. O corpo age porque ele mesmo se excita. Emoções terrenamente experimentadas com um pouquinho de idéias celestialmente sentidas (o erótico fareja em si mesmo a ramela permanente de ideal). Para a maioria, a coisa estaciona aqui: estão misturados no coração a testosterona que nos chacoalha e o pensamento que nos aquieta.

O equilíbrio chega depois dos 20 anos. Quando se tem um cérebro em razoável funcionamento qualitativo, a alma põe-se nesta fase (a última) a harmonizar corpo a espírito. O fulgor do espírito faz-se um com o calor do corpo. O sentimento fruente de beleza funde-se ao pensamento entendente da beleza: “ela é linda como um serafim quando sorri, ah, quero beijá-la para sempre!”; “seus cabelos… seus cabelos negros feito carvão, ah, quero passar minhas noites debaixo deles!”; “sua pele de ninfa cheira a rosa, ah, quero tocá-la e respirá-la toda!” O homem finalmente encontra a mulher. A razão, enfim, ordena as coisas. Nós estamos, outra vez, no Éden, sentindo a vacuidade que Adão sentia antes de Eva; mas, nós a sanamos fazendo justamente o que fazia Adão com Eva depois que se descobriram nus, um para o outro, no planeta pós-pecado.  A nossa totalidade espírito-alma-e-corpo (a unidade, a pessoa, o sujeito) vai se completar com a totalidade dela. É a época do “Siempre que te pregunto / Que, cuándo, cómo y donde / Tú siempre me respondes / Quizás, Quizás, Quizás.” É o tempo venturoso em que há “jogos de amor”, jogos em que o que de jovem há em nós usufrui o que de criança há em nós: somos adultos, pois. O mistério e o transcendente estão entrelaçados com o evidente e o imanente: o céu e a terra estão unidos “até que a morte os separe.” Para uma pequena minoria, o deleite (o prazer de cima e o prazer de baixo) apenas começou.

O aguilhão enferrujou-se no Sangue…

O bebêzinho, filho de Mariinha e Seu Zé,  já nasceu chagado: no útero, já estavam pregadas as mãozinhas e os pesinhos, já estavam lacerados o dorsinho e as costinhas, já estavam feridas a testinha e a moleirinha, já estava cortado o ladinho com o pulmãozinho vertendo água pura. Deus foi concebido e nasceu morrendo entre os homens: sofreu até no sorriso mais cândido de criança. Tudo isto para nos libertar da “virose” da Morte. Tudo isto para nos por no reto caminho da eternidade que se espreguiça diante do relógio. Tudo isto para nossa alegria sem fim aqui e agora (na resignação santa diante dos infortúnios) e para nossa felicidade sem fim no porvir permanente dos olhos enxugados. Esta é a mensagem da Páscoa: a morte que parece vencer por algum tempinho, mas que logo fugitivamente se escandaliza com o fulgor dos mil sóis da Ressurreição. Cristo ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou!

Três definições

Dança Folclórica Armênia: Organismo de lírica pulsão levitatória, fileira de densa suavidade marcial, tamborins abuzinados ao amanhecer com cântico ósseo-espiritual, pés que assumem a assunção do espírito, colorida primavera de passos sob o Ararat, Ocidente e Oriente feitos uma só carne ondulante sobre a relva. Pés, calcanhares, pernas e joelhos que “vêm” como as cabras montesas. 

Hino da Índia: Cinco milênios de silêncio desencantados do vazio que resolveram assoviar uma marcha militar, castas de notas sobrepostas à si mesmas quando o cadáver sinfônico de um deus persiste vivendo nas árias, qualquer coisa entre a gana de jejuar consoantes imanentes e a mania de assoprar vogais transcendentes. 

Pinturas Rupestres: Cuspes acatarrados da mais pura tintura jamais feita por mãos humanas quando primevamente o cérebro vislumbrou dentro de si versões do que é e está fora de si, digitais riscando linhas adedadas de simulação da realidade pouco depois de geneticamente a imagem se borrar com suas próprias semelhanças. 

Resumo da semana

Domingo: churrasco em família e culto.

Segunda-feira: Não queiras com teu cérebro florescer no Céu. Nada há nos teus chispados neurônios senão véu. O Jardineiro colherá o que plantou na luz do breu. É mistério, toma-o com o desjejum de todo dia; é mistério — aproveita dele o sabor de café e alegria.

Terça-feira: As teclas do piano que dedilhou Chopin ainda menino eram feitas do marfim de um elefante que ouvia o piar da coruja e fechava os olhos, que ouvia o balançar noturno das folhas da amarula e dormia melhor, que ouvia o efeito da lua sobre a selva e aquietava-se ante o predador, que ouvia o choro e o lamento dos elefantes diante do cadáver real e marchava até o rio.

Quarta-feira: A heráldica japonesa, ultra-simbólica há milênios, regurgita uma densa elegância e simples complexidade de tal forma eterno-minimalista, que o nosso design ocidental apenas começou a chegar-lhe aos escabelos do tracejado na década de 30 do século passado.

Quinta-feira: Melhor uma devassa Madalena enjoada do trigo gorduroso de Jericó que uma destas pudicas Bovarys panificando os biscoitos litúrgicos do Primo Basílio.

Sexta-feira: Era exatamente meio-dia e um quarto quando um carcará passou rasando pouco acima do para-brisa do carro. Carregava um pobre pardal entre as garras. Ouvi o piado-gemido do coitado. All Creatures of Our God and King!

Sábado: trabalho, filmes e caminhada.

Esponjas de sol – XXV

  1. É preciso que, diariamente, te decidas a ganhar o Céu.
  2. “O que queres da vida?” Quero ser um homem bom.
  3. Uma prova de que a imensa maioria dos seres humanos está densamente insensível ao mundo que a rodeia é que se de repente toda essa gente ficasse cega, seriam pouquíssimas as coisas que esses homo sapiens pós-modernos reconheceriam pelo tato. Pensa por ti mesmo acerca de ti mesmo: tu és capaz de diferenciar, de olhos vendados, as diferenças sutis que existem entre a folha de caderno e o papel de pão, entre a pétala da rosa colombiana e o veludo, entre a pele da mulher que amas e a pele da mulher que não amas, entre o leite quente derramado na mão e a lágrima derramada na palma da mão, entre a porcelana grossa e o vidro fino, entre o metal menos duro e o plástico mais duro; enfim, se ficasses cego, tu saberias já ao primeiro momento de escuridão distinguir verdadeiramente a sensível “glória particular” material de cada uma das coisas nas quais tocas todo santo dia?
  4. O castigo dos imbecis consiste justamente em ser o que eles são.
  5. Esquerda e Direita não são apenas uma desgraça ideológica. São também uma desgraça retórico-matemática: ambas vivem fazendo as contas para aferir qual lado matou mais e qual lado matou menos — e vice-versa. Entre planilhas contadorescas de campos de concentração à destra e gulags à sinistra, só consigo me lembrar desta frase memorial de Michael Ende: “O horror perde seu espanto quando se repete muito.” E o que pode ser mais repetitivo que uma obsessão pato-ideológica movida a números?
  6. Militância Ideológica é um dos antônimos de Vida Consciente.
  7. Virtuoso é o homem que em si harmoniza Lei e Liberdade.
  8. Líder da Nação ou Herói da Pátria? Monarquia vs. República: dia-a-dia ordinário produtor de estabilidade vs. momento extraordinário produtor de estabilidade.
  9. Já tentastes ser bom para com os maus? Já tentastes pagar com bem o mal? Como é difícil e árduo e… doloroso cortar a carne do espírito entristecido — para ser humilde! — com a lâmina com a qual eles nos cortam a vingativa alma injustiçada, com a qual eles colhem as lágrimas de ira (santa e pecadora) diretamente dos nossos olhos. Mas, tenta ser bom. Tenta, tenta e outra vez tenta e, então, serás bom para com os maus e alegremente pagarás com bondade cada gesto de maldade.
  10. No ânimo dos nossos avós havia a grandeza da decisão aventureira. Por isto, eles cruzaram o Atlântico em busca de vida materialmente mais aprazível, porquanto eram homens existencialmente resolvidos: a civilização que empobrecera posteriormente sua bolsa de dobrões era também a civilização que anteriormente dourara sua mentalidade bárbara. Hoje, uma minoria dos seus descendentes economicamente bem estabelecidos compreende a necessidade de buscar uma vida espiritualmente mais aprazível e, por isto, volta à Europa, à África e à Ásia. O Velho Mundo tornou-se, para o neto do imigrante, o Antigo Mundo ao qual é imperioso ligar a alma sob pena de perecer física e metafisicamente neste Novo Mundo juvenilmente envelhecido.
  11. O Mundo está merecendo um novo dilúvio…
  12. Não se deve planejar todos os veios e sulcos que conduzem o regato da nossa vida pessoal ao Rio da Vida. O Superior, através dos declives naturais da terra (seu tao), sempre nos arrastará — a nós, inferiores — a Si, à sua corrente ordenada de significado, de ordem missioneira, de vida com propósito ascendente. É da natureza do espírito escorrer para o Espírito assim como é da natureza da água, da gota d’água solitária, juntar-se às águas com igual propósito e, então, voltar às nuvens para depois volver ao Aqüífero Primordial. Tentando riscar atalhos arbitrários, nós impedimos o Fluxo Soberano.
  13. Nós já não temos homens a quem honrar com estátuas. Então, nós gastamos nosso mármore e nosso bronze com vermes retorcidos e pústulas animalescas. Nossas praças estão regurgitando monumentos lombricóides. Quando escasseiam as virtudes entre nós e toda elevação da alma é vista como arranjo contextual de causas externas, grandioso fica sendo o gusano que dá cabo da nossa matéria fétida; afinal, não é ele o supremo e derradeiro devorador dos “feitores” da História?
  14. Não foi um terrorista — um “lone wolf” — que assassinou “ao vivo e a cores”, diante das câmeras televisivas do planeta, o embaixador russo junto à corte de Ancara. Foi o próprio Governo Turco, amigo-oculto de longa data do ISIS, quem atirou à traição contra o emissário do Kremlin. O Eurasianismo deixou de ser monopólio russo: com Erdogan, os otomanos estão de volta e vêem à peleja marchando aos gritos de “Ceddin deden, neslin baban!” Está armado o palco para a Terceira Grande Guerra. Logo mais, o Dragão Chinês cospe fogo.
  15. Uma morte sempre arrancará lágrimas de alguém. Ainda que o ceifado seja um injusto, alguma lágrima por ele rolará — de tristeza ou de alegria por seu passamento, mas rolará; porque é da natureza da morte expiar sentimentos (positivos ou negativos) através dos olhos.
  16. Nas mulheres louras, o calor libídico aparece sobretudo sob forma estética: o dourado da pele e do pêlo, denunciando o impacto imediato e físico de seu erótico “furioso ouro”. Nas morenas, a chama é interna, substanciosamente ideal — é um ethos sexual flamejante que se demonstra na ação mediata, porque, quanto à estética, elas são “suave prata”. Foi isto que William Blake quis dizer com seus versos, citados por Borges no conto “Ulrica.”
  17. A música árabe: flecha de haste de palmeira cortando vendaval em noite de lua crescente e estrela solitária.
  18. O Microtonalismo é um entorpecente musical.
  19. Ao fugir do seu destino, o homem o constrói.
  20. A pessoa mais forte é silenciosa. A mais fraca, tremendamente barulhenta.
  21. Se eu fosse fundar um partido, ele se chamaria simplesmente “Herança e Futuro.” Seu símbolo seria uma árvore com as raízes à mostra. O lema, a célebre frase de Victor Hugo: “Troque suas folhas, mantenha suas raízes.” Sigla conservadora e libertária.
  22. Já perceberam que há mais de um século os modernistas tentam (e às vezes conseguem) destruir, quebrar, explodir e esfaquear obras clássicas de Arte — como a Monalisa, tantas vezes atacada –, enquanto que ninguém jamais tentou arremessar ao chão o mais do que tosco urinol de Duchamp? Por que? Porque o “conservador” respeita até a iconoclastia do bárbaro travestido de artista.
  23. Eu me vou para o silêncio dos constantes segundos, / Que de tão rápidos acabam por ser eternos. / Eu me vou para a completude dos findos estudos, / Que de tão lentos acabam por ser passageiros.
  24. A Beleza anima a própria alma.
  25. Só é bela a arquitetura que é orgânica. E o que é “arquitetura orgânica”? É aquela cuja composição é universal, enfim, que é estruturada por um sentido e ser katholikós, logo, que é organizada a partir da idéia de que há um todo abrangente que contém (e soma) parte(s) e de que a parte é por si um todo pormenorizado. Trata-se de uma macro-estrutura que coliga micro-estruturas que, por sua vez, são macro-estruturas de segunda ordem que se fundem naquelas micro-estruturas — porque se auto-contêm — através de uma só coisa: uma casa, p.ex.
  26. O “1” é o único número que realmente existe. Já que uma coisa nunca é igual à outra coisa (logo, é única, não obstante gênero e espécie), as quantidades (os outros números) nada são senão conjuntos de unidades entre si associadas.
  27. Os príncipes devem continuar sendo príncipes de jure porque foram príncipes de facto et de jure e não mais serão príncipes de facto; foram principes e não mais serão primus capio. As altezas de antanho devem, com a ascensão natural das repúblicas parlamentares, constituírem uma das parcelas perenes das aristocracias sociais não-estatais, sendo, pois, capazes de estabelecerem-se como primus inter pares meritocráticos.
  28. A lavadeira de Cícero e o mordomo de Winston Churchill fizeram mais pela Civilização que a quase totalidade da intelligentzia brasileira — aqui existente desde que se escreveu uma carta e se rezou uma missa no Ano do Senhor de 1500.
  29. Os Sith estão para o Império Galáctico como a Sociedade Thule está para o Terceiro Reich.
  30. Se hoje nós tivéssemos que pegar em armas para defender nossas famílias, nossa religião e nossa liberdade, que tipo de soldados poderíamos tirar desta juventude besuntada de alienação? — de álcool, de som alto e de orgias. Os hércules marombados de academia seriam incapazes de levantar uma espada no campo de batalha, os valentões noiados seriam incapazes de se atirar em escaramuça contra a artilharia, os sertanejos universitários seriam incapazes de montar seus cavalos e avançar em carga contra as colunas de tanques inimigos. Estaríamos perdidos! Acabaríamos acocorados, em posição fetal, dentro das nossas casas-cavernas, esperando que a piedade do inimigo ao menos nos transformasse em escravos. Correr, avançar e cavalgar para à ruína em nome de um ideal não passa pela cabeça da imensa maioria dos nossos jovens. “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á…” Heroísmo? Heroísmo agora é levantar 200 quilos na competição, é dar tiro de fuzil russo pro alto na “comunidade”, é esporear o pobre do cavalo na arena de rodeio… O ISIS vem aí.
  31. Quem nada faz, tudo teme.
  32. Título para dois livros de poesias romântico-cabalísticas que nunca escreverei: “As Hordas das Horas” e “As Heras das Eras.”
  33. O herói é o homem anti-conjuntura.
  34. O sociopata quer árkhō. O psicopata, κράτος.
  35. Alterar a forma é, também, alterar o conteúdo. Cuidarás da liturgia! Semper reformanda, ma non troppo!
  36. No Ocidente, os teólogos são filósofos. No Oriente, são artistas.
  37. Não é condição da verdade que ela seja racional, muito menos lógica.
  38. A Vida não escreve a História. A História prescreve a Vida.
  39. Qualquer projeto de “renda mínima” é ilegítimo justamente porque existir não é um trabalho.
  40. Para o cristão, a um mesmo tempo, Cristo ainda está se encarnando através dos úteros cristalinos da Virgem Maria, ainda está pregando no Templo, ainda está curando os doentes, ainda está percorrendo as estações da via sacra, ainda está bebendo vinagre, ainda está sendo pregado, ainda está sendo morto, ainda está ressuscitando. A vida temporal do Cristo é eterna.
  41. Imagem espiritual: a água da mina colhida na moringa de barro.