Esponjas de sol — XL

  1. Se tu não escolhes um caminho e nele pões enraizados os pés, qualquer direção incerta te escolherá: ou marcas no mapa a tua caminhada, a linha reta ou ali e aqui bifurcada mas lá no horizonte convergente à missão proposta, ou qualquer placa falsamente direcionada a atalho ou qualquer anúncio de roteiro mais barato te lançará naquela cova aonde vão cair os incautos cuja bússola são as paixões tão instáveis quanto a adrenalina que no sangue lhes envenena a alma. Quem lê, entenda. Et tu, Calvinista!
  2. O que um dia nos diz quando a luz entra pela fresta da janela; quando um pardal pia e bate os pezinhos na calha; quando qualquer silêncio é anormal porquê a vida tem que correr pela rua. O que um dia não nos diz quando o sono ainda cansa as pálpebras; quando o grilo cantador ainda deveria de longe (cúmplice do mosquito, de perto) violar o repouso; quando sequer o eco do eco sussurra a queda duma gota de orvalho na grama, sob o espanto da formiga insone…
  3. A fortaleza cristã consiste em ser afável por fora e sólido por dentro, como um tronco de carvalho: gentileza nos gestos comuns no dia-a-dia, mas possante e resoluto no combate naqueles dias necessitados de vigor e decisão “fulminante”. Brando por fora, cavalheiro amortecedor; duro por dentro, cavaleiro lutador: assim age o homem digno de sua hombridade, na alternância contextualizada do lenço e da espada, do escudo e da pena. O problema é que a imensa maioria de nós, caros senhores, têm sido duro por fora (bronco e grosseiro) e mole (jujubinha-de-jesus) por dentro. Conselho do rei Davi ao seu filho Salomão: “Esforça-te, pois, e sê homem!” (I Reis 2:2)
  4. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  5. Oh, minha alma, tanto antes calva,

Porquê sobre o vento vi a luz, vi a alba;

E se a nuvem escureceu a estrela,

Daqui da terra esculpi uma estela:

Gravei o movimento fixo do astro

Como se o girar fosse uma palavra,

Como se a amplidão em seu círculo

Fosse uma rima num verso perfeito.

  1. A minha alma — da tua a ferida benigna — rasgou-se em pó; verteu luz, seu pus. Enigma.
  2. Põe-te em pé, diante da tempestade. Faz das mãos os remos e da alma a vela. Tu és a nau e o capitão. Tu és a âncora e o marinheiro. Oh, deixa Deus soprar! Oh, deixa a onda arrebentar!
  3. A água a que chamais incolor, se muito se movimenta nada através se vê. Este espírito turbulento, que na quietude etéreo se apresenta, constrói e derruba na terra. Estrelas distantes brilhando iluminam; mas de perto, dos olhos a um palmo, elas cegam.
  4. Tu sabes que este dia um pouco te reviveu ou um pouco te matou? Se de segunda à segunda-feira tu divides os dias entre aqueles que deves trabalhar sofregamente e aqueles que deves descansar em diversões, se o tempo passas assim repartido entre labor penoso e fim de semana entretido, dize-me: de que qualidade fecal é a tua existência? Nada além de tempo em vão, perdido como se fosses um porco, um cão ou um vírus estirado na placa de petri — perdidos todos, cada um a seu modo, para a Eternidade. Agrada-te o fato de que chegarás à idade dos velhos apenas velho pela deterioração, apenas passado pela entropia atuando sobre o teu físico, como um assento de privada que por décadas serviu à latrina pública ou como uma lata de pêssegos reaproveitada para guardar pregos mais ou menos enferrujados? Agrada-te que entre tua concepção e teu funeral quase nada se terá acrescentado ao teu espírito? Sem vida interior (zoë), esta que sob a superfície do ordinário revolve em seu âmago o extraordinário oceano das fontes do abismo divino, a vida exterior (bios) logo te afogará com uma só gota… Uma só bastará. A sinfonia desprezada como “música que dá sono” te fará falta quando teus ouvidos estiverem ocos. O poema esquecido como “frescura de moças” te fará mais solitário quando os olhos estiverem opacos. Não terás apegada à tua memória e sentido as imagens, os sons e as letras da vida superior: então, no inverno, poderias recordar dos campos floridos de Van Gogh e das paisagens douradas de Caspar Friedrich; e nos domingos sem possibilidade de ir carregado à igreja, terias na alma cada trecho de sermão de Calvino, de Barth, de Vieira e de Balthasar, e recomporias no altar a música de Pérotin, de Bach, de Byrd e de Palestrina. Mas, para além da beleza que te ajudaria a consolar, te faltará mais, muito mais; te faltará a companhia da sossegada vida comum que todo homem deveria ter na carne e no espírito, que é a beleza mais alta: recompor, sarado, os passos e feitos de Adão e sua Eva; comer, com a descendência à mesa, torta de maçã, doce de figo e cordeiro assado — luzes e perfeições, símbolos engenhosos e fatos crus, terra e céu, transcendente e imanente. Pagarás, porém, o preço da solidão lancinante por te negares a amar uma só mulher e, com ela, santamente criar filhos como a videira presenteia de frutos as mesas e os altares, os copos e os cálices. Nestas segundas, terças, quartas, quintas e sextas-feiras e nestes sábados e domingos que passas como se não fossem dias especialmente únicos; mas uma mesma segunda e uma mesma terça, quarta, quinta e sexta repetidas ad infinitum, e então uma só coisa, um só bloco de “dias da semana”, de “dias úteis”; como também sábados e domingos não te são este sábado e este domingo específico, mas sábados e domingos igualmente atabulados na rasidão duma mesma nomenclatura e finalidade ourobóricas. Não vês que tens nome de vivo, mas estás morto? Do Senhor sequer preciso dizer-te: Ele é em tudo e para tudo indispensável. A Suprema Beleza que perpassa cada ato teu e cada ação tua, como uma linha de luz atômica que vai e volta do Ocidente ao Oriente dentro da alma. Do contrário terias cultura e erudição ou incultura e ignorância sem sentido, esposa e filhos sem missão extra-genealógica, existência socialmente acomodada à regras em si corretas mas sem o amor livre à Lei que gera a Realidade. Se o mundo assim tão cheio de fama é condenado com aquele brado altissonante (“Sic transit gloria mundi”), a ti este mesmo mundo sussurra ao pé do ouvido: e tu passarás comigo, oh homem anônimo e ludibriado! Hoje, reviveste ou morreste?
  5. Se tu não tens Deus, não tens a ti mesmo: és folha solta, folha petrificada de árvore extinta num só golpe de mandíbula. Sem Deus, que és? Não és… Um desenho no pó delineado, um sopro pareidólico, uma miragem sútil na penumbra demiurga. Se tu não és possuído pelo Senhor, como um cálice se realiza acolhendo o vinho da ceia vespertina, como a pena só tem sua missão quando a asa lhe movimenta nos céus, como a letra só se lê ao se irmanar ao alfabeto na palavra… ||| Oh, Senhor, fonte eterna que gera as fontes perenes, útero da substância da certeza que é real, coração de luz que fora do universo pulsa o puro ser! Sê seiva e enxerta-me na árvore. Outra vez me diz ao ouvido: “vive!”; e sopra nas minhas narinas a pneuma imortal. Assenta sobre as colunas da existência a casa do meu espírito. Desenha-me — no mármore intangível do Teu pensamento, pela concretude da Tua invisível paleta fazedora — e prova-me Tua paternidade. Deus meu, Senhor meu… tem-me em Ti!
  1. Tu podes conquistar um castelo inteiro com seus feudos — das torres góticas à esmerada alcova real. Por que sucumbir por um seixo arrancado do calçamento da rua onde pisou Lady Guinevere? Tu podes juntar todos os quadros e cenas humanas e retábulos e imagens divinas. Por que tudo trocar por um esboço mal desenhado da segunda ou terceira cópia duma bela mas falsa tela? Tu podes compor sonetos como Dante e escrever versos tão métricamente puros como Shakespeare. Por que tudo trocar por insossos poeminhas dedicados à trigueirinha mundana e imbecil? Tu podes, sob Deus, riscar nos mapas o destino eterno dos povos cristãos. Por que tudo trocar por um tabuleiro de xadrez com peças gastas, quando o peso da idade te curvar a coluna idosa? Tu podes fazer tuas preces no Santo Sepulcro e jejuar junto ao altar de Santa Sofia. Por que tudo trocar por rezas pela conversão de almas iníquas, irmãs de Saul? Tu podes gerar uma descendência vigorosa, cheia do viço milenar da raça dos godos cavaleiros e lavradores. Por que tudo trocar pela desonra duma aliança com cepa desarmoriada e preguiçosa? Tu podes ouvir o canto dos rouxinóis nos jardins imperiais e o piar das águias no topo do Himalaia na companhia duma moça virtuosa. Por que tudo trocar pelo gorjear cacofônico do rádio de pilha e pela ralhação duma mulher rixosa? Tu podes viver os dias dum Adão restaurado, empunhando o cetro do auto-domínio e do governo de si, nomeando regiamente a tua porção da Criação. Por que tudo trocar pela pulverização de tuas forças e por esforços hercúleos para no lugar manter minimamente são o centro de tua consciência, a todo tempo desequilibrada pelo mundo exterior? Tu podes ser rei e sacerdote, coroado e ungido entre o insenso da justiça e a glória do amor. Por que tudo trocar pela servidão laical, onde a espada te decepa a cabeça e a balança te pesa o coração, como se Maat e não o Cristo julgasse os homens? Tu podes ser o que podes ser, ato factual da potência possível, máximo e excelente no limite que o Céu te impôs. Por que tudo trocar por pedriscos e rabiscos, por pés de barro e esterco, por ninharias no instante atraentes mas cujos prazeres tanto valem quanto uma flatulência animal guardada em vidro de perfume caro ou um confeito apodrecido vendido sob o preço do maná dos anjos? Tu podes. Por que tudo trocar?
  2. Quando a proverbial sabedoria caipira nos diz que uma palavra às vezes dói muito mais que um murro, muito mais que um soco, muito mais que um tapa, enfim, dói muito mais que uma violência física qualquer, ela nos diz a verdade. Deus é Logos e nós somos nano-logos: as palavras criam, em nós e nos outros, ações, situações e reações. Elas ferem e curam, atam e desatam, libertam e escravizam: correm em disparada do positivo ao negativo, e entre estes pólos amornam inação. Qualquer coração se movimenta (de dentro para dentro ou de dentro para fora) quando outro coração-e-mente se movimenta em sua direção verbalizando-se. Quantas vezes, por isto, não queremos o silêncio supremo, sem contato com quem quer que seja!, sem conversas e sem diálogo, como que almejando um completo vácuo e uma total suspensão do mundo da fala? Não à toa, Shakespeare confessou no ato V da cena I do seu Timão de Atenas: “Lábios, fazei cessar o amargo verbo, pondo fim à linguagem!” A palavra dói, dói desde o âmago mais abissal do espírito humano, porquê no fim também é o verbo e o Verbo sangrou no Calvário.
  3. Olha pela janela, mesmo quando for alta noite e os assovios do vento e das corujas te encherem de medo. Talvez vejas lá por baixo passar a alma que o destino conduz pela rua porquê é a tua rua, e porquê é a tua alma! Olha, olha porquê o mundo quer que os quartos não se fechem apenas para a intimidade; olha, porquê Deus mesmo quer que para o lado de fora haja uma abertura pelo lado de dentro.
  4. O primeiro sinal duma alma atacada pelo diabo é seu fracionamento. A pessoa está toda dividida, despedaçada em pedaços quase sem encaixe: há vários “eus” reunidos num mesmo ente, mas cada “eu” (o profissional, o familiar, o afetivo, o isto e o aquilo) é uma qualquer coisa que quase que age por si mesma, sem coesão, sem unidade. Papéis diferentes, personalidades distintas, funções diversas e caráteres divergentes num só bloco individual, num só indivíduo, variando conforme tempo e lugar. As partes acéfalas, mas autônomas, não pertencem ao todo, já que o todo não é um tudo — é um nada. “Qual é o teu nome?” Respondeu ele: “Meu nome é Legião, porque somos muitos.” (Marcos 5:9). Quem está sob o poder do diabo pouco se conhece e, por isto, pouco se reconhece a si mesmo em si mesmo. Há ação, há impulso, há energia fazendo e acontecendo por meio de si no mundo, mas não há consciência, não um querer da vontade sobre a realidade, não há sequer um desejo (porquê o desejo se sente sempre em paralelo ou contraposto ao intelecto): age apenas o instinto encavalado pela perversão — ora jorrando e ora vazando um comportamento tão impetuoso e forte quanto improdutivo e sem finalidade. A alma assediada pelo diabo olha para o horizonte e não enxerga o porvir, lê o calendário e não mede o tempo pelos propósitos de prazo mais longo, cheira o ar úmido anunciando a chuva e não percebe que o campo está pronto para o plantio. Um “eu” trabalha o dia todo, outro “eu” trabalha odiando o trabalho, um “eu” sai de volta para casa para descansar o corpo, e um e outro e mais outro e outro “eu” prepara o jantar, toma banha, assiste a novela, manda mensagens no WhatsApp, paquera os contatinhos, acorda ainda com sono, acorda também os filhos, compra e lava e passa roupas, vai à igreja esquentar o banco, faz isto e aquilo e só faz; e qualquer um dos “eus” objetivamente apenas e só faz — porquê fazer por fazer é o que faz o diabo. A pessoa se perde num movimento cíclico sem fim no qual todo dia a vida começa e acaba. Há tantos “eus” que não há “eu” algum… Cada pecado que cometemos nos tira lentamente do centro de nós mesmos, nos tira e arranca (gradualmente) um pouquinho do controle que temos sobre nosso “eu”, dividindo-o. E dividido o “eu”, o diabo impera. Ao pecar, batemos a talhadeira do mal na rocha e vamos nos quebrando, nos fracionando e nos esmigalhando até que, em grau absoluto de iniquidade, sejamos e estejamos espalhados em cada pedra, pedrisco, pedaço de pedra e pedaço de pedrisco, e em cada grão de areia que restar pulverizado daquela grande pedra original (petra que es, guardadas as devidas proporções, petrus).
  5. Se não tens controle de ti mesmo, se não és senhor de tua alma, o mundo te controlará e em ti mesmo tu não serás mais que um inquilino com vaga posse do teu corpo. Se não dispões tuas ações, alguém as disporá sob o império duma consciência decidida e duma vontade férrea que não as tuas — porquê estás inconsciente, alienado, e cheio de inconstantes desejos. Se não te controlas, és peça de xadrez no grande jogo mundano; peão ou rei, não importa a hierarquia com suas penas e confortos, uma mão invisível te controla. Sê de ti mesmo o mestre, para que sejas causa e ação, e não joguete inerme de efeitos e reações que desconheces porquê não conheces a ti mesmo!
  6. Um pequeno mal gera mais e outros e maiores e mais fortes males. Se tu não deres fim ao pequeno trinco (tapando-o) que ameaça expor tua mente e teu coração, ele logo crescerá até que se torne rachadura e, então, muro após muro e muralha após muralha, desmoronará todo o teu castelo interior. Duma semente de cardo não queimada pelo jardineiro de pronto surgirá um jardim logo feito bosque e após transformado em floresta, em selva, de ervas-daninhas! Quando identificares um mal, um pecado aqui e ali confinado em ti, trata de eliminá-lo para que ele não venha, depois, a fertilizar teu espírito e neste esparrarmar-se indefinida e incontrolavelmente; assim, perderás as rédeas dos infinitos efeitos e das infinitas reações desta causa e ação primária que poderias, santificando-te, ter exterminado. Anota.
  7. A paixão é de si tão inferior ao amor que não somente é um estado patológico psiquiátricamente comparável à loucura, é também muito mais sem graça no nível consciente (porquê a paixão, ora, é feita de inconsciência pura e refinada). É sem graça porquê lhe falta, entre muitas coisas, o enigma e o mistério. No amor, sorrisos recatados e olhares de cores sentimentais mais cheias de nuances que uma tela de Van Gogh; na paixão, lábios-e-bicos caricaturais e caras eróticas de hiena no cio. No amor, detalhes silenciosamente entregues aqui e ali no perfume borrifado no papel e na gola, na letra mais esmerada, no apertado de mão sem jeito, no encabulamento amplo, geral e irrestrito, na timidez que sabe porém o que quer; na paixão, o exagero atirado dos feromônios, a comunicação sem-vergonha dos toques, contatos e mensagens retas e diretas (mas espiritualmente tortas e oblíquas), a desinibição que sequer sabe o que quer. Na contramão dos versos de Camões: paixão é fogo que arde e se vê, é ferida que dói e se sente. A paixão é o suprassumo do aparente, do alcançável, do evidente; e, como tal, é solucionável. O amor é de si tão superior à paixão que não apenas é um estado de saúde espiritual, é também muito mais cheio de graça!
  8. Faz o que é certo. Deixa os resultados com Deus. Semeia, planta e rega, porquê ao Senhor cabe dar o crescimento. Faz a tua parte, sem terceirizá-la ou dividi-la, para que depois a culpa ou o mérito não sejam injustamente compartilhados no todo. Guarda tua consciência e nunca arreda em nada, sequer numa vírgula ou til. A covardia de ceder por conveniência psicológica ou social não cabe a um homem redimido. A única opinião que importa é a da tua consciência julgada por Ele. Faz o bem, o elevado, o melhor: e que se lasque o mundo amante do mal, do baixo, do pior. Se estão acostumados à lavagem dos porcos, mostra-lhes as pérolas e depois joga-as aos leões da terra e às aves do céu. Faz o que é correto. Deixa as reações com Deus.
  9. Vida feliz é vida com Deus. O resto é desespero existencial camuflado. Um buraco na terra tapado com concreto ou geléia ainda assim é um buraco. Um buraco na terra tapado com terra deixa imediatamente de ser buraco. O buraco é o vazio que todo homem carrega. Deus é a terra para nossa terra, é o preenchimento perfeito que extingue o vácuo, que acaba com o buraco — porquê em Sua semelhança se funde nossa imagem. Qualquer outro material é placebo tampador, que nada promove senão um disfarce tapeador. Sem Deus a gente não passa de animal ansioso por saciar imediatamente seu instinto sedento por prazeres desordenados ao preço de tristeza rigorosamente paga em prestações intermináveis e cada vez mais caras, mais doídas. Isto deveria fazer você perder o sono!
  10. Há muita beleza numa face trigueira, de carne ondulada e harmoniosa. Há muita beleza nuns olhos da cor e da forma da amêndoa, de íris alada e fulgurosa. Mas há muito, muito mais beleza numa expressão sincera, de espírito reto e angular. Há muito mais beleza num olhar colorido de pureza translúcida e moldado na integridade de mãos livres. A partir do momento em que a pessoa deixa de ser uma estátua de carne e osso, um objeto para o julgamento estético à distância, e torna-se um indivíduo de alma e espírito no contato e no relacionamento direto, a ética da proximidade altera completamente nossa percepção de sua beleza. Conclusão, que aprendi lendo Ortega y Gasset e, muito melhor, que aprendi lendo as mulheres: a beleza que atrai muito raramente coincide com a beleza que enamora.
  11. Sinta, só hoje, saudades de passados que não foram; de namoro, noivado e casamento que não aconteceram; de filhos que não tivemos e com os quais não brincamos, e que nunca conhecerão a fé em Nosso Senhor porquê eles não são, porquê eles não foram; sinta saudades de jantares que nunca comemos, cúmplices, à luz de velas, de estrelas e de comuns lâmpadas incandescentes, na cozinha apertada do apartamento do começo inexistente das moedas contadas e depois na longa e elegante sala de jantar do casarão que nunca foi comprado na abastança; sinta saudades dos poemas não compostos mas de alguma forma decorados, das canções orquestradas entre duas sombras no cerebelo mas nunca ensaiadas para platéias silenciosas, dos sonhos desesperados e das esperanças que foram cair num buraco — o abismo do que poderia acontecer e não aconteceu, a câmara secreta do possível transmutado em impossível. Sinta, só agora, saudades destas possibilidades tão simples e douradas, tão caras e singelas, inundadas por complexidades assassinas, prateadas, tão custosas e presunçosas; sinta, porquê se qualquer fio de luz ainda te restar na alma, ainda hoje e agora és capaz de reviver estas possibilidades. O presente é ausente quando não se move para o futuro por culpa das ansiedades do passado. Estou ouvindo aquela Romanza melancólica, de solitudes suaves e profundas, de Bacarisse: escuta ela também, para que sobre o teu espírito desçam as mesmas preocupações que inundam o meu. O violão, assim ponteado, desnudou a nós dois, como se a pele mesma fosse rasgada e mais nua que o corpo se encontrasse desvestida a própria alma; mas os violinos, e a orquestra toda com eles suspirando, nos cobrirão, nos cobrirão!
  12. A maioria das pessoas sequer conhece o significado do próprio nome. Daí (início mínimo do conhecimento sobre os aspectos formais acerca de si mesmo enquanto terráqueo), até o auto-conhecimento fundamental de seu significado individual no cosmos, há um abismo quase que intransponível pela imensa maioria das pessoas. Tudo começa e termina com nomes: com aquele que está na Certidão de Nascimento e cujo registro nos identifica entre os membros sociais da espécie, e com aquele que Deus nos chama em oculto e depois nos chamará publicamente e cujo escrito nos assinala como filhos Seus. Começa aprendendo o porquê de teu nome Aqui, para que, então, te prepares para o porquê de teu nome Lá. Será assim tão à toa e casuísticamente despropositado teu nome, fruto dum capricho de gostos paternos ou maternos? Não! Teu nome é teu símbolo impermanente no imanente e permanente no transcendente, tua sina fatídica no físico e fática no metafísico. Sê minoria: sabe o porquê e o significado; conhece-te a ti mesmo!
  13. Qualquer coisa grosseira se muito e repetidamente tocada acabará delicada. A madeira mais rústica se tornará lisa e tão polida quanto uma mesa envernizada de convento de freiras idosas. A pedra mais dura se tornará lapidada e tão luminosa quanto um fragmento de estrela ou uma gema de coroa imperial. E o coração mais escamoso e congelado, toque a toque, no toque digital e individual que desgasta o metal carnoso e lhe transfere um poucochinho do seu calor, se tornará tão aveludado e quente quanto o colo materno. O toque puro de uma alma é capaz de descascar, lapidar e polir outra tão melhor que as milhares de mãos que diariamente, há séculos, lustram o pé da estátua de São Pedro em Roma. Com muita sabedoria diz o caipira: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Se no carvão há centelha de diamante e sob o tronco se delineia obra de arte: goteja teu afeto! E repara bem, porquê o brilhante pode ser negro e a escultura o entalhe de uma árvore…
  14. Tenho notado que, das coisas que uma alma mais sente falta em outra, a falta maior é de companhia para conversar aquelas conversas tão longas e profundas que se começam falando, vá lá, por exemplo, do mistério da Santíssima Trindade, passam pela povoação de todas as galáxias e terminam numa boa receita de spaghetti alla carbonara. Encontrar companhia para olhar as estrelas como Kant olhou e como os aborígenes ainda olham o céu noturno e, depois, conversar sobre; companhia para ficar perplexo com a última notícia proseada no pinga-sangue sensacionalista do Datena e com a crueza poética de Macbeth e, depois, conversar ainda mais sobre; companhia para se encantar com uma idéia bem pensada, com uns versos bem limados, com uma pancada de chuva na diagonal molhando justamente o pedaço de chão mais seco do jardim, com uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite, enfim, com isto: com o mundo real que parece imaginário para a maioria que mal sabe que, entre o coração e o cérebro, existe uma alma da cor do primeiro gole d’água que Adão deu na moringa logo depois que suou sua primeira gota de suor. E depois? Conversar mais e mais sobre! Companhia adequada para falar, aparelhada para dizer, alinhada para… conversar. O silêncio é importante como a digestão e a conversa como a comida. Tem alma quem não precisa assim, assim tão profundamente, conversar?
  15. Descobri que eu tinha qualquer coisa na vida mais a ver com o passado que com o presente quando, moleque, eu olhava pras pedras e pensava (sentindo) que elas não eram tão pedra quanto o seixo que Davi meteu na testa de Golias, quanto qualquer rocha tocada pelos pés dum eremita anônimo nos desertos da Síria ou da Capadócia; menos pedra que uma pedra lapidada pelas mãos de Moisés ou esculpida por Michelangelo, e mesmo menos pedra que as pedras que faziam o menino Jung meditar e menos pedra que as pedras que meu bisavô jogava ricocheteando no lago de Hinterburgseeli. Reacionarismo, romantismo, idealismo platônico temporal? Nada disso! Apenas a intuição de que, hoje em dia, nós mal olhamos pro chão e que a natureza das pedras nos diz qualquer coisa como: “vocês se vão daqui e nós ficamos por aqui, onde somos permanentes; aqui vocês se deterioram e lá, onde vocês são permanentes, nós nos desmanchamos.” Uma noção infantil, mas bem sincera, de Eternidade. Será por isto que o Senhor nos advertiu que se nós nos calarmos as pedras clamarão?
  16. Há pessoas completas muito complexas e pessoas complexas muito incompletas; e há pessoas completas muito simples e pessoas simples muito incompletas. Pessoas complexas são pessoas cuja estrutura de personalidade é filigranada — cada parte se desdobra, nuancentemente, em outra, como numa mandala, como a geometria molecular. Pessoas simples, por sua vez, têm estruturas com menor número de componentes, como a geometria das formas puras, como o Stomachion de Arquimedes. As pessoas completas descansam em Deus, encontraram a unidade de espírito e têm em si mesmas um mundo ordenado. As incompletas, vadiam pelo mundo esfacelando-se no caminho, com a alma esburacada e desencaixada dos pedaços que ela mesma soltou. Complexidade sem Deus é confusão do eu. Simplicidade sem Deus é fusão do eu.
  17. Um mau-caráter racional é como merda congelada: a frialdade, contendo a essência da bosta nela mesma, meio que aprisiona o fedor. Daí, o perigo da conservação do mau restrito ao âmago do ente que o carrega. Um mau-caráter emocional é merda como ela é no pós-intestino: na densidade, na cor e no cheiro, enfim, no crivo dos sentidos — de pronto reconhecível e, por isto, quase nada prejudicial a um homem bem armado dos “apetrechos higiênicos” da alma. Merda congelada é objeto contundente: pode matar. Merda in natura é inofensiva: no máximo suja. Entre fezes ferinas e logicamente reprimidas e excrementos molengas e extrovertidos, prefiro lidar com o pessoal deste segundo naipe, de rápida decomposição; contudo, quanto ao primeiro, Deus pode nos armar com o lança-chamas do “Discernimento de Espíritos”. Anota.
  18. Se você conhece a Deus, deve simplesmente agir segundo a Lei dEle sem calcular as complexas reações do mundo. As coisas darão certo, rápido ou devagar, porquê o Senhor vela sobre Sua palavra para cumpri-la (Jeremias 1:12). Mas, se você, conhecedor, resolve medir e ponderar sua ação não em função do Eterno, mas da lógica terrena das possíveis perdas e danos ou dos ganhos e lucros, as coisas necessariamente, agora ou depois, darão errado. Para qualquer outro mortal até que poderia dar “certo”, mas para você não: porquê você tem que ser e estar certo para, então, agir certo e, daí, o efeito ser o certo. O homem natural, desconhecedor da Lei, freqüentemente pode se dar ao luxo de avaliar e contar os caminhos do “efeito dominó” probalístico duma ação, jogando os dados do cálculo racional e tentando obter o desejado termo das coisas sob a ótica da sorte (O Fortuna, velut luna statu variabilis!). Mas, você não! Quando o movimento do seu espírito partir do errado (a tibieza, o egoísmo e a dúvida calculando…), mesmo que formalmente tudo pareça tremendamente certo, tudo dará errado para você; enquanto que, paralela e eventualmente, poderá dar tudo “certo” para os outros. Se Deus lhe conhece, Ele complexamente agirá para que Sua Lei calcule em você suas simples reações no mundo.
  19. Feto no infecto. Educação vem de útero.
  20. Três conselhos: i) Nunca minta para alguém em favor de ninguém. Não ajuda quem escamoteia ou esconde a realidade apenas para assegurar coleguismo ou segurança psico-social. Ajuda quem diz “sim, sim e não, não!” sem o temor de desagradar, porquê o que é, é, e o que não é, não é; e é a Deus que se deve agradar; ii) A mentira só ilude quem depositou seus afetos num certo conforto/estabilidade que ela pode, temporariamente, gerar. A “pulga atrás da orelha” fazedora de cócegas sempre crescerá até se tornar um dragão cuspidor de fogo. Melhor ceder de pronto à fricção irritante da consciência e da intuição que, depois, acabar com a alma incinerada; iii) A verdade às vezes é tão simples e evidente que, aos olhos duma pessoa hipersensível, ela pode ser tomada por mentira, já que lhe falta altas doses de adrenalina, teatralidade grandiloquente e histerismo. Para quem se impressiona com pranto e ranger de dentes, com juras e bateção de pezinho, melhor deixar que a mordida e a picada, que a queda da máscara e a “dancinha da vitória” sejam o remédio dolorido da realidade.
  21. Julgar se isto ou aquilo é certo ou errado é fácil. Porém, julgar se esta ou aquela pessoa que faz isto ou aquilo é moral ou imoral, é difícil senão impossível. As reações externamente muito se assemelham, mas nunca se igualam as ações que as geram. A dor de cabeça (na nuca, digamos) sempre é corporalmente equivalente na área atingida e no sintoma, mas a causa é sempre variada (tensão muscular, meningite, pressão arterial, etc), como variado também é o tratamento dispensado uma vez identificado o motivo. O roubo, o homicídio e o adultério levam absolutamente ao inferno. Mas não se pode dizer se tal ladrão, aquele assassino e este adúltero irão ao inferno por este roubo, por aquela morte e por tal traição, porquê rouba-se para comer e para minar o trabalho alheio, assassina-se levianamente e em legítima defesa, trai-se o cônjuge por luxúria e por coação. Entre Robin Wood e Catilina, entre Mao Zedong e Claus von Stauffenberg, entre Anna Karenina e Lucrécia, há nuances mil: há Al Capone e Lampião, Guilherme Tell e o Rei Davi, Messalina e Madame Bovary — há pessoas e pessoas com suas circunstâncias e circunstâncias.
  22. O eco sempre superará a própria voz enquanto ela não for consciente, ou seja, enquanto ela não for usada com propósito. Abrir a boca ociosamente, sem negócio objetivo a tratar, é atitude típica de gente cuja personalidade individual em nada ou quase nada (senão em detalhes inferiores) se diferencia da indigência da multidão. O homem superior não fala à toa; ele diz com intenção missionária. Se Deus é Logos, a Palavra, tua imagem-e-semelhança deve se ordenar na ação à partir dEle: o logos espiritual controla o caos carnal e ambos se equilibram (cosmos) na alma. O uso da língua e, consequentemente, da linguagem, é o primeiro sinal de auto-domínio do homem sobre si mesmo e sobre sua vontade vocacionada atuante. Enquanto nossa consciência não produzir as palavras que decidirmos lançar no mundo (transformando-o, sob a Vontade Divina), palavrório inconsciente nos arremaçará contra o mundo (fortificando-o através de sua própria destruição, sob o desejo satânico), porquê o mundo é o próprio “reino dividido” e a divisão, antes de tudo babéica, se insurge polissêmica e espiritualmente contra Deus. Por isto, o Cristo exorta: “Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.” (Mateus 12:36). Controla tua língua e o mundo não te controlará!
  23. A verdade (estado essencial das coisas) liberta, mas também se liberta: ou ela alforria o homem da mentira (contingência momentânea das coisas) e o submerge na realidade ou ela se desprende do homem e o expõe em sua mentira. Mas, este escândalo da exposição é também Graça divina. Por isso, quando a Escritura nos diz que tudo o que está oculto ou escondido virá à luz do dia, enfim, será revelado, ela simplesmente promete redenção: o que é deve ser conhecido absolutamente; e o que não é, reconhecido totalmente para que, logo em seguida, seja completamente esquecido. A verdade permanece. A mentira, desaparece. Deus e sua criação inifinita continuam eternamente. O diabo e sua transformação provisória cessam temporalmente. Todo este processo acontece e ocorre o tempo todo. Prestem atenção e perceberão o quanto conversas particulares e discursos públicos, em pequena e grande escala, se fazem e se desfazem e se compõem e se decompõem em idas e vindas de dados e informações que, de repente, confrontados entre si (na afronta dialética do ser contra seu ente), nos revelam a realidade das coisas — a verdade. A mentira cria uma tensão no âmago da coisa por ela negada que (latejando, palpitando e pulsando desde dentro) logo acumula uma força que irrompe poderosamente para fora. É o que dizem, complementarmente, estes dois provérbios caipiras: “A verdade existe, só se inventa a mentira” / “A verdade sempre vem à tona”. Apenas o que existe permanece evidente.
  24. Nunca ceda (crendo) à conversas idas e vindas sem emissor e receptor identificáveis, mas cuja mensagem é papo louco e perigoso. Nunca ceda (acreditando) à blá-blá-blá de lá e de cá cuja ação não tem causa[dor] aparente, mas cuja reação é efeito devastador. Quem conta um conto não só aumenta um ponto: quem conta um conto descontrola a própria contagem e perde as rédeas dos próprios pontos aumentados ou diminuídos. A perna da mentira às vezes é longa, mas é curta a faca que num zás-trás a amputa.
  25. Ontem fui a um e hoje fui a dois velórios. Guardei Eclesiastes 7:2 (“Melhor é ir à casa onde há luto…”) e recordei que sou pó. Só lhes posso dar este conselho: não vivam o hoje como se ele não pudesse terminar ainda hoje; não vivam como se não fossem morrer; não vivam por viver como se esta vida, através da morte, não levasse à uma nova vida ou à uma nova morte eternas. Brahms entendeu isto e compôs esta beleza, consoladora.
  26. Você se sente bobo e ingênuo diante da platéia fuxicadora? É incapaz de interpretar tudo com malícia e na base das segundas e terceiras intenções? Você ainda acredita em olho-no-olho, na Lei de Deus e na liberalidade de fazer as coisas apenas por amor? Fique feliz, por mais que seja incompreendido: você ainda tem uma alma para chamar de sua.
  27. Atira uma pedra aos pés do teu próximo e ela voltará, célere e robusta, como rocha sobre tua cabeça. Atira pedriscos nos olhos do teu próximo e eles voltarão, leves e afiados, como toneladas de areia soterrando todo o teu corpo. Recorda — antes de empunhar o seixo, antes de preparar o estilingue: “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” (Mateus 7:2)
  28. A grande beleza da música medieval consiste em que cada composição é um todo formado de partes que são por si todos, que por sua vez são partes de outros todos até que a Parte indivisível finalmente se aconchegue no Todo uno. É música composta de células de harmonias em escala infinita, filigranada de eternidades, gradual e hierárquica como os coros angélicos.
  29. Cheguei à conclusão de que 99,9% das brigas entre casais por WhatsApp tem origem na interpretação enviesada do texto pela mulher. Vejam, senhoras e moças, que quase sempre vocês lêem a mensagem já grudando à cada palavra ali utilizada um suposto tom de voz e à cada frase ali usada um suposto estado emocional, ou seja, vocês lêem o que nós escrevemos supondo não só nossa voz dizendo o escrito (vocês lêem “ouvindo”), mas supondo sua exata tonalidade vocal e supondo toda uma carga psicológica e mesmo gestual conexa. Daí, se seus pensamentos estão/são positivos e favoráveis ou negativos e desfavoráveis em relação ao interlocutor, o fato é que o texto é imutavelmente o mesmo, ipsis litteris; mas suas conclusões acerca dele são absurda e absolutamente antagônicas, divergentes e contraditórias. Por isto, caros confrades, fica aqui o meu singelo conselho: escrevam descrevendo seu estado de espírito o máximo possível, usando e abusando de gifs, emojis, memes, repetição de letras e pontuação, etc. Elas vão lhes entender mais e melhor — sem ver grosseria, melosidade, ironia ou qualquer outro sentido (e condição psico-vocal) que não aquele desprendido pelo significado quase puro, estrito e dicionaresco da palavra que vocês utilizaram e usaram apenas para dizer o que ela apenas e tão somente quer dizer. A comunicação com as belas filhas de Eva é, anotem, muito mais sútil e complexa que a tradução de qualquer uma destas línguas proto-indo-iranianas que quebram a cabeça dos eruditos de Oxford! Espero ter ajudado. Boa noite.
  30. Entre o certo e o duvidoso, só é certa a dúvida. Cambalear na escolha entre possibilidades mais ou menos já julgadas é o suprassumo da indecisão. Evidência de que a segurança do certo não é tão segura e de que o duvidoso tem em si qualquer pilar de sustentação…
  31. Li alhures que as últimas palavras de Arnold Schönberg, o compositor, foram na verdade uma só e sólida e solitária palavra: “Harmonia”. Não, ele não contemplou a “harmonia das esferas”, numa inspiração pitagórica de gênio moribundo; não, suas cordas vocais não articularam, último estertor da língua!, variando sob o tema da alucinação, a palavra que mais e melhor define a essência mesma da arte musical; não, o artista não intuiu a forma e a fórmula suprema da linguagem musical — uma “lingua ignota”, no esteio daquela iluminação verbo-sonora alcançada pela Santa de Bingen. Tampouco aflorou seu ocultismo numerológico, coisa de judeu atavicamente cabalista obcecado por comparações e coincidências, tentando definir o destino final-e-inicial das coisas criadas no molde da Geometria Originária. Tenho para mim, porquê senti isto no âmago dos neurônios, que o velho se arrepiou em Deus e desatou seu último suspiro… harmônico!
  32. Aconselha com justiça e fervor próximos à ira, mas aconselha com o amor de um pai que é irmão: palmada dolorida mas didática de quem ama, como um bê-á-bá soletrado (em alta voz, ao pé do ouvido!) som a som em busca do significado mais profundo do verbo na língua de quem ainda está (por culpa própria!) aprendendo que detém o dom da fala — o dom de ser moral.
  33. Dá ao rato o queijo todo e vê se, faminto, ele consegue roer dos vinte quilos algumas gramas para além das beiradas! A ambição que dilata a íris dos olhos grandes não é capaz de alargar a boca e o estômago.
  34. Leva-me aos Teus mais altos montes, onde as águias se aninham em família, onde os anjos se assentam para confidências.
  35. Idealizadas, as coisas vão se tornando “pomos de ouro”, tão superiores mas tão abstratas e inalcançáveis. Quanta gente, bem intencionada (e por isto muito tola), enche a alma de sublimações acerca das decisões, pessoas e quereres da vida! Pensar por arquétipos, por modelos prontos, por padrões engessados que o intelecto falho desenvolveu impulsionado pela perfeição sentimental do coração, conduz à infertilidade existencial; conduz à insipiência e, então, à frustação. Então, olha-se para o mundo encurralando suas possibilidades concretas pela régua interior, pela foice das idéias castradoras, como se o que se carrega desenhado na mente pudesse moldar a realidade independente dela mesma. Platonismo infantil! Manter concepções elevadas importa quando elas são orientadoras e transformadoras das coisas, mesmo que leve, poucamente; porém, quando os ideais impedem a fruição da vida porquê não se coadunam com as coisas, eles são instrumentos do Mal, afinal, se neles e por eles é inalcançável a Felicidade e o Bem, como justificá-los e quere-los e ansiá-los?
  36. Quando deixamos de ver na mulher um enigma e no olhar um mistério, quando o sorriso dela abandonou o contorno sútil do imediatamente indecifrável e o olhar brilhante mas obscuro tornou-se tão óbvio quando a volição relampejante da córnea duma hiena no cio, nós nos tornamos animais. Trocado o perfume pelo feromônio e o amor pela carnalidade, tudo é possível: e tudo é só “tiro, porrada e bomba.”

Esponjas de sol — XXXIX

  1. O sentido se reveste do véu invisível da aparência verdadeira, como a brancura etérea segue ao colorido no dente-de-leão e nas fotografias antigas. Acaso pensas que o amarelo enrubescente e as cores quaisquer no papel revelam-te a realidade última e profunda do vegetal e do retrato? Para o branco que ascende ao céu quando o vento sopra e para o branco que emerge da natureza celulósica da folha (como um prisma inverso, reunificador das suas tintas), desliza aquilo que é eterno naquilo que se vê. Também por isto os velhos ficam com os cabelos brancos: o corpo está deslizando em direção ao espírito. As coisas vão, cada vez mais, se parecendo com luz.
  2. O tempo não é linear.
  3. Usa a palavra sem usura, como tecido sem costura, como conselho que cura.
  4. O divino 1-QUE-É-3, desde o princípio da Criação se faz acompanhar pelo 12 humano. Deus e seu relacionamento individual e coletivo com seus comissionados. O Triângulo, ao gerar imagens e semelhanças geometricamente refletidas ao seu [r]estrito redor, gera doze triângulos.
  5. Distância, às vezes, só aumenta a ânsia. Por que de longe desperta o coração quando de perto adormece a paixão? O dia-a-dia relaxa apenas o já lasso, mas aperta e tensiona quando é demorado o contato. Manter na rotina a afeição sentida na extensa espera é a pedra de toque da verdadeira relação. Ao lado, um minuto que dura uma era? Hormônio desarmônico é. Colado, horas a fio que passam num instante? Alma em harmonia é.
  6. Toda ação é uma reação, perpetuada numa descendência infinita, à Primeira Ação.
  7. Tu te perguntas: e o que poderia ter sido se então eu tivesse dito o sim ao invés do não? Seria outra a vida ou mesmo a disposição do universo? As coisas e seus passos teriam se encaminhado por linhas mais retas que estas que hoje, enviesado pelo contexto que te julga, supões tortas? As planícies teriam alçado pés até tocar os planaltos? Subjugados os planaltos e os picos e depois os topos superiores das montanhas, seria talvez o céu mais próximo ou suas cores mais vibrantes que daí do solo nu? Tua voz teria outro tom e as coisas que hoje dizes seriam ditas neste tom? Como seria teu dia de hoje se o caminho escolhido tivesse sido o outro e não este de cujas pedras reclamas? Como seria tua existência se as circunstâncias que acolhestes tivessem no teu espírito encontrado a devida e antagônica resolução contrária? Por que te perguntas, afinal, se até este perguntar altera a essência mesma do espírito que o gera, mudando e variando a alternativa como num radial labirinto infinito? Se tivesses escolhido Beatriz e não Helena. Se tivesses ido visitar tua avó e não caminhar pelas trilhas. Se tivesses lido Petrarca e não Proust. Se tivesses comido amendoins salgados e não amendoins doces. Se tivesses aguentado o primeiro semestre, persistindo na faculdade de Medicina. Se tivesses desenhado mais retratos e menos paisagens. Se tivesses isto, se tivesses aquilo, se tivesses… oh sacra merda da inquietação que é supor! Eu te respondo: nada teria sido, porque o ser das coisas ditas e não ditas se conjugam para o mesmo destino.
  8. Aquilo que começa mal, termina mal. Se o início foi errado, o fim será errado. Se principiou no engano, seu termo será no engano. A origem é pecaminosa? O destino também o será, necessariamente. O efeito da causa ruim será sempre ruim e a reação da ação funesta será sempre funesta. Maquiavelismos do tipo “os fins justificam os meios” não existem senão na retórica sedutora do diabo. E tem de ser assim, porquê Ele, além de instituidor da Lei da Semeadura, é também Alfa e Ômega — Princípio e Fim como Palavra e Primeiro e Derradeiro como Pessoa: todo o dito age, da partida à chegada; o plantar, o regar e o ceifar necessariamente constituem-se no processo de labor pessoal pelo qual se dilata, se extrai e se revela a espécie da semente escolhida.
  9. Neste mundo digital-e-online infernalmente “celularizado”, indício de amor é salvar a foto e mandá-la ao estúdio para ser revelada e colocada num porta-retratos à moda antiga. Nesta seara etérea dos pixels, concretizar uma imagem em papel-fotográfico e enquadrá-la em vidro e madeira esculpida é ato sentimental revolucionário.
  10. Cada dia, para cada pessoa, tem sua melodia. Cada dia é uma música: é um período de 24 horas dominado por uma canção, por um hino, por um estribilho, por uma composição — por uma personalidade musicalmente específica que lhe revela o tom. Ontem foi o Adagietto da 5a Sinfonia de Mahler, hoje foi uma gaita sussurrando um country incerto e melancólico na companhia dum banjo amuado, amanhã poderá ser o dia dum samba do Noel Rosa, dum clarim barroco italiano, dos sinos espelhados de Arvo Pärt ou mesmo dum assovio improvisado. Se você é chegado em música, em boa música, faça o teste: a música que teu espírito quiser escutar (a cada dia com seus ontens, hojes e amanhãs) estará calibrada nele próprio. Cada pessoa, para cada dia, tem sua melodia.
  11. Se eu fosse outra vez menino, criança com meus dez anos e meus cinco sonhos (um castelo nas terras altas da Escócia, uma armadura igual a do imperador Maximiliano, uma namorada como Rebeca de York ou Bárbara Radziwill, a coleção completa das moedas romanas e o Prêmio Nobel de Literatura — sim, eu era uma criança “esquisita”), trataria de me escrever cartas, admoestações sinceríssimas, mandando-me manter cada um destes sonhos infantis com as devidas e necessárias adaptações à Realidade. A gente fica adulto e o castelo torna-se um apartamento caro e apertado, a armadura o sistema de segurança e as aulas de krav-magá, a namorada a moça ou gostosa por fora ou gostosa por dentro (onde, se possível, o meio-termo do “jugo igual”?), a numismática é substituída pelo colecionismo de extratos bancários e a honraria da Academia Sueca se contenta com estes textinhos bocós cá no Facebook. O negócio, o ponto da curva do nó, é este: no dia-a-dia, sê castelão do teu próprio espírito fortificado sobre outonos infindos; cavaleiro nas justas que a rotina arroja contra teu escudo; enamorado de boas-moças-boas; colecionador de curtos mas contínuos períodos de tempo bem cunhado; escritor de pequenas e até voláteis palavras, mas capazes de despertar o fons honorum, os elogios, dos teus amigos.
  12. Faze as contas contigo mesmo, de agora em diante até o último dia em que possas raciocinar acerca do teu eu: perceberás que, mesmo evoluindo (seguida e gradualmente ou aos trancos e barrancos), mesmo avançando nas melhorias que cada recôndito do teu ser carece, ainda assim serás um tolo consumado. A tolice é a condição humana por excelência: ela apanha o iníquo e o santo, ela acompanha o erudito e o analfabeto, ela está pespegada na alma mais lívia e no espírito mais tenebroso, ela balança o berço e sacode a maca hospitalar. “Ai de mim!”, escreveria hoje em dia o profeta, “porquê sou um homem tolo e habito no meio de um povo tolo”. Que é ser tolo? É ser incompleto nas ações e no entendimento delas. Mas a tolice do homem bom, apesar do desajeito, é sempre alegre e dotada de certas profundidades: sua incompletude o faz bem-humorado, palhaçal, risonho como aquelas crianças das pinturas de Frans Hals. O homem mau, porém, de sua tolice arranca perversidade. Escárnio e barbárie o acompanham, como lepra: ele é incompleto no significado, no sentido, no “way of life”; por isto, sua tolice julga mal e faz mal desde sua abissal rasidão. Irmãos, da tolice homem algum escapará. Então: sede tolos, mas sede santos!
  13. As conversas que temos frequentemente acobertam ou desnudam as coisas, sobretudo nossos problemas mais problemáticos. Conversamos com alguém frouxo e superficial, e é como se um véu, um anestésico véu espesso, caísse sobre o fato, coberto por uma grossa mas quase invisível camada de nada, um nada que traz a amenidade da despersonalização, um nada neutral cobridor que extingue no ninho da nossa volição toda a possibilidade de ação e reação, um apaziguamento falso, alienante, embotador. Conversamos com uma pessoa “sangue nos olhos” e a ira cai sobre nós — emerge cruentamente do núcleo do ser, respinga fogo no ambiente e nos inflama a tal ponto que revivemos no presente todo o fato passado, reinterpretando-o coléricamente; então, saímos à guerra, marchando para a vingança. Por isto, diante de questões sérias geradas por fatos sérios que exigem soluções sérias, converse com Deus: só Ele nos amenizará na realidade para a paz ou nos fortalecerá na realidade para a guerra.
  14. Há dois meses não consigo escrever um único verso. Poema nenhum de poesia nenhuma. Por que? Porquê o coração é quem verseja. Coração oco só produz falso silêncio e eco barulhento. O cérebro por si é mudo e analfabeto quando lhe mandam trovar solitário, sem o sangue inflamado do órgão que pulsa a vida mais crua. Nada de palavras bonitas e musicais com rimas, ritmo e sonoridade espiritual. Nada. A prosa prossegue como dantes — vigorosa, bem “almada” e até apegada aos mesmos componentes líricos e psicológicos da poesia. Mas… poesia, mas a poesia não consegue aqui em mim parir sequer um “batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão.” Nem mesmo a mediocridade dos versos tolos, infantis e despropositados me ocorre. Há dois meses… Calhou d’eu ler, agora de pouco, esta frase de Benetti, o grande poeta uruguayo: “Si el corazón se aburre de querer, para qué sirve?”
  15. Viver um dia após o outro, num movimento existencial indefinidamente cíclico, é uma espécie de pena infernal. Uma vida sem tesão diário, que não sinta a tensão por cada pedacinho de tempo passando e que aí não perceba com atenção o que vem a médio e longo prazo, é um tormento digno dos círculos demoníacos. Não suponho nada mais infeliz que a rotina entediante de quem usa suas 24 horas apenas para mastigar sem se deliciar, dormir sem sonhar, transar sem amar e defecar sem filosofar (porquê um homem decente é, ao menos quanto à pose pensativa à Rodin, um filósofo sobre a privada). Viver o dia como se ele fosse o último; como se dele dependesse a salvação de toda a Criação; como se Cristo, e não Horácio e depois os epicuristas, tivesse dito o “Carpe Diem”: é nisto que eu acredito.
  16. Foge do olhar que foge. Olho no olho — íris contra íris — continua sendo a melhor peneira para separar trigo de pedrisco. Tudo está lá, entre um globo ocular e outro, na tensão que desvia e na serenidade que encara, na culpa que se nega à fixação da alma na córnea e na inocência que ultrapassa a carne da órbita e chega ao espírito. Tudo está no olhar. Eu gosto de gente que escoa suavemente tudo o que é e que sente pelos olhos, como uma libação do melhor vinho à Divindade. Quanto aos maus, mentirosos, por mais que eles se esforcem para segurar o fluxo, seus olhos vazam como esgoto a céu aberto.
  17. É preciso que ames o complexo e seus detalhes, que te afeições às filigranas, às minúcias e aos pormenores caso desejes passar a vida ao lado duma mulher. Exercita-te no desenho das iluminuras e dos arabescos e também das caligrafias, no estudo das formas geométricas dos cristais de neve e do gótico das catedrais, no exercício pneumológico de respirar e inspirar com mais e menos ar em mais e menos tempo, no cuidado com a quantidade de sal e açúcar e de temperos ao cozer para variados paladares, no preparo das tintas da paleta à imagem das cores no universo, na atenção ao volume que acompanha o subir e o descer das notas musicais nos motetos barrocos, na força gradual empregada no martelo para se chegar a tal e qual espessura segundo a espécie do metal, no sentir a variação de umidade no ar conforme a temperatura e a estação… Exercita-te na polivalência das proporções da Criação do Senhor. E é preciso que ames estas coisas com pura simplicidade: então, sendo simples ao amar (ao amar com este amor bem adestrado no complexo), num relance distinguirás na mulher as finíssimas variações de humor, as quase imperceptíveis alterações no tom de voz, as etéreas mudanças na expressão que do coração e da mente vão à pele da face, as modificações quase inaparentes na cor do cabelo, enfim, serás capaz de nela amar as “variazioni sullo stesso tema”. Perceberás aquilo que ela quer que percebas que nela é passageiro, para que sejas capaz de conhecer aquilo que nela é permanente. Exercita-te na visão, na audição, no gosto, no toque e na fala desta fina e elegante ourivesaria das coisas sutis, porquê elas te darão a dourada e prateada chave capaz de abrir-te, um a um, os segredos do coração daquela tua amante filha de Eva.
  18. Tu pagarás o preço. O preço alto, o preço caro, o preço doído da inautenticidade, do escambo do momento atraente mas frágil pelo resto de tua vida e, pior!, pela poderosa eternidade. Não quisestes ouvir a razão do melhor sentimento? Pagarás o preço. Mentistes por dó ou velhacaria? Chamar-te-ão, nos céus e na terra, de mentiroso. Casastes sem amor? Teu desejo não será para tua aliança e teu coração palpitará a todo instante ansioso em pecar. Folheaste os livros entre bocejos e indolência? Tua inteligência atrofiada terá sua paga no holerite. Destes teus melhores anos à frivolidade noturna? Tuas vazias tardes de velhice sofrerão de insônia. Comestes muito ou pouco? Teu corpo seboso ou esquelético mal se nutrirá de fármacos. Para tudo e em tudo, nas ações e reações em ti e por ti cometidas, um preço será cobrado. Agirás? Recorda, então, que cada um de teus feitos é uma nota promissória, sobre a qual um anjo carimba “Lasciate ogni speranza voi che entrate” / “Deixai toda esperança vós que entrais.” Tu pagarás o preço.
  19. O mundo é imundo, e mudo. Tudo nele é oco e vacuoso, sem sabor nem paladar, sem graça nem humor, entendiante como a contagem duma dízima periódica, sujo como a ramela dos olhos de um porco velho e cansado. É desordem de rumos sem direções definidas, sem caminhos objetivos, sem horizontes capazes de nos dar sequer o prazer retilíneo de um pôr-do-sol silencioso em si mesmo. É caos. Mas o amor é uma espécie de bomba nuclear que, ao invés de pulverizar e tudo destruir até o limite das beiradas do átomo, ao inverso faz o seu trabalho: é uma bomba que constrói do nada, que organiza do zero, que engendra do vazio, que cria do inexistente. É explosão de logos. O mundo, então, passa a ter gosto, passa a ter ânimo, passa a estimular o eu até que, de repente, o estômago gostosamente dói de tanto gargalhar. No amor, o mundo fica sendo digno dos dois últimos versos daquela canção: “Yes, I think to myself / What a wonderful world.”
  20. Caráteres fracos se reúnem, em coleguismo, quando descobrem abruptamente antipatias que lhe são afins: desgostam e odeiam as mesmas coisas e pessoas. São como aquelas agitadas moscas varejeiras que zumbem ao redor do mesmo monte de estrume. Caráteres fortes se unem, em amizade, quando simpatias que lhe são afins são lentamente descobertas: gostam e amam as mesmas coisas e pessoas. São como aquelas andorinhas que cantam ao redor da mesma fonte de água. Idem velle, idem nolle.
  21. Ter dois pães numa mesa, um para cada um, não faz uma comunhão através do alimento; faz apenas uma reunião de fomes individuais. Homem e mulher reunidos corporalmente por uma certidão civil não fazem um casamento; fazem apenas um concerto de interesses patrimonialmente atendidos. Não se deve dividir o “pão nosso”, um diante do outro, se o objetivo é apenas a nutrição física do organismo. Não se deve unir “numa só carne”, um no outro, se o alvo é tão somente a satisfação orgânica do físico. Sem o suporte do coração, não há mesa e cama que valham a pena.
  22. Não te preocupes com a vergonha, que é pública e por isto nada é senão a opinião desintegrada e parcial que vem de fora. Preocupa-te, antes, com a culpa, que é julgadora íntima e por isto tudo discerne quando unida à tua consciência. Não te envergonhes senão quanto o teu próprio dedo, direcionado desde dentro, te apontar a falha, o erro, o pecado. A superfície da poça da reputação é o habitat natural dos mosquitos (e quantos eles são ao nosso redor!), atores no frenesi mais agitado e infértil da existência biológica. A profundidade do oceano do caráter é a morada dos grandes, autores de legados duradouros mesmo quando mediocremente escondidos na calmaria duma vida anônima (mas quão fecunda e produtiva!). Quanto vale tua alma? Vale o silêncio da santidade modesta que só Deus, Senhor de Todos os Eus, conhece; porquê só Ele conhece as batalhas que diariamente travamos contra nós mesmos na luta pela Alegria que não tem fim. Quanto vale teu espírito? Vale a quietude da inocência tão odiada pelo mundo, quando ele cochicha de ti como outrora cochichou de José: “Eis lá vem o sonhador-mor!”
  23. Problema sério da nossa psiquê associada ao nosso ego: projetar interpretações positivas e/ou negativas (conforme nosso querer íntimo) nas ações e reações alheias. Tentar observar as coisas como elas são — a realidade dura e nua e crua — é um exercício diário no qual devemos nos esmerar por dois motivos, sobretudo: (I) para não nos enganarmos a nós mesmos e, conseqüentemente, (II) para não enganarmos os outros. Olhar para as pessoas a partir do que esperamos delas é erro perigoso, que frustra e desespera. António Machado, o poeta, já ensinava: “Peor que ver la realidad negra, es el no verla.”
  24. O homem deve se comportar como advogado de sua mulher, deve agir como seu defensor contra o mundo acusador, contra a multidão maldosa de dedo e língua em riste. É este o papel masculino e varonil, mesmo que ela esteja errada na “briga”. E estando, discuta seriamente com ela em privado, entre quatro grossas paredes; mas nunca, em hipótese alguma, a censure (a favor de tudo e a favor de todos) em público. Se você não age assim, tu é um castrado bem frouxildo e não passa dum bunda-mole mais preocupado em manter uma suposta coerência com os de fora em detrimento daquela que, contigo, é uma só carne. Não cacareje de cabeça baixa diante da turba que não trata bem aquela que te ama. Seja um leão e vá pra cima, ô seu mané!
  25. Quanto à interpretação de sonhos, José está para Freud assim como Daniel está para Jung.

Esponjas de sol — XXXVIII

  1. Se por mil casas passássemos, o lar conosco ainda habitaria. E se centenas fossem as mesas, ainda assim um seria o jantar.
  2. Quis para mim jurar que este seria o último poema e que verso algum, desta pena e coração, teus olhos veriam. Mas é assim tão louca a desilusão, e tão variante a canção, que outra vez tomo papel e escrevo sobre a paixão. Ainda que negues ver neve sobre os umbrais da casa, chamando amarelidão à brancura em montanha, como se nos afligisse o sol em verão, desperta sob a lareira e vem ler esta ilusão.
  3. Jurei ouvir passos onde não haviam pés e sentir o calor do sol quando não havia dia. Por que discernir distintamente o andar e na pele o candor dos raios se tais não são? Outrora jurei que nela eu tinha a amiga e que o tempo tratava de compor sua valsa, e que num fim de tarde a dança moveria todo o aguardado em pensamento e emoção. Mas de juras não pode a realidade viver, porquê a verdade é este permanente escolher: aqui tens o caminho e os teus pés, aqui tens o inverno onde a sombra não chega. Juro-me, para poder jurar-te depois, que há existência além de nós dois. Tu tens de mim o que de mim te dou e eu de ti tenho o nada que me deste. Apreendida ficará para sempre esta lição: jurar para quê quando há confiança? Jurar, então, já não é uma quebra de aliança?
  4. Pessoas de pensamento instável, cuja ansiedade movimenta o julgamento, quase sempre assumirão como verdadeira a última versão à qual tiveram acesso no contexto dum “puxa-puxa” de conversas, boatos e falatórios acerca dum mesmo fato-assunto. Em bom português: gente de miolo mole frequentemente aceita e acata, por força da impressão psico-emocional mais recentemente causada, os supostos argumentos da última pessoa com quem conversou. Julgo que 99,9% dos indivíduos padeça deste mal cá no Brazil-zil-zil. Doravante, fica diagnosticada a “Síndrome do Pós-Julgamento Recarregado”. Popularmente, podem chamá-la de “Síndrome do Ouvi-Agora-Logo-É-Verdade.” E também já podem inscrevê-la no CID. Meditem aí.
  5. Na Criação, a mulher vem do homem. Na Redenção, o homem da mulher.
  6. Joana d’Arc é a Judite da Idade Média.
  7. Escarlate ou rubra é a cor. Vermelha, direi. Eis a face quente em cor, o sangue gotejando na flor, a imagem sanguínea do amor. Coração pulsando humor e rubor, espinho rasgando a pétala da pele: também é carmesim.
  8. Arquétipos são sequestradores do ser, da personalidade real.
  9. O santo é o homem logosoficado. Seus gestos e ações são puros como idéias-palavras. São essências excedendo o próprio ente.
  10. A justaposição de imagens cria uma imagem inexistente. A justaposição de idéias cria uma idéia em si mesma existente.
  11. Haverás de calar por um instante, e entenderás que o silêncio é relevante como um eco do universo bem no peito, como um brado de mil deuses em respeito. E então caminharás bem vacilante, na alegria inesperada do levante, como ébrio de razão e devoção à verdade deste nosso rei-peão.
  12. Cavalguei pelas colinas florescentes, sob as estrelas douradas.
  13. Confiar é fiar-se no coração alheio.
  14. Ourivesando palavras, ando lavrando maravilhas, vendo douradas nuvens, ouvindo serafins.
  15. Qualquer covarde pode manejar um revólver. Mas a bravura sempre estará apegada (porquê indistinta) à espada. A bala é distância. A lâmina é contato.
  16. A flor perfeita é rara, / cor branca de nata / para a régia receita. / Pura e sem mácula.
  17. Estava com as narinas entupidas. Então, vi ela. O nariz logo ficou livre, desentupido. Sem Sorine nem assoamento no lenço. O amor, bem sei, é uma espécie de pneuma.
  18. Quando os passos a si mesmos se guiarem, entre o descalvado monte e a reta avenida, saberás que o caminho marcha dentro de ti como bússola pelo Santo Espírito imantada. Escuta a harpa que a musa futura dedilha, a harmonia que à alma traz som e calma, porquê ouvirás ainda poucas vezes o hino que o Rei mesmo compôs na invernada. A guia dos teus sonhos e melhores ilusões é o labor que o dia-a-dia desenha em mapa, é o amor que, farol superior, do eu se aparta. Se a primavera vier forte porém atrasada, entre o lastro do frio a bela rosa apertada, terá chegado o kairós desta santa jornada.
  19. O tamborim e o ventre da dançarina: eco de mútuos vais-e-vens de couro e corpo.
  20. Sob as abóbodas celestes, as abóboras terrestres.
  21. Ler todo dia algo que valha a existência das palavras: um poema de mil anos, a Bíblia, uma mensagem escrita ainda ontem por quem nos quer bem, um livro qualquer que não te faça ser um qualquer. Ouvir todo dia algo que vá além dos tímpanos e chegue ao mundo das esferas musicais: uma sinfonia de Mozart, um samba do Cartola, uma missa de Byrd, um modão de Tião Carreiro e Pardinho, um oratório de Bach. Contemplar todo dia a beleza de Deus no mundo: uma mulher bonita sorrindo, uma árvore se desfolhando, uma criança aprendendo a andar, uma ninhada de cãezinhos cheirando à leite. Provar todo dia, nos cinco sentidos, que há um sentido na vida, e que a beleza se impõe como meio de salvação diante da rudeza ordinária e vil que tenta deformar a imagem e semelhança dEle em nós. Faço isto todo santo dia. Funciona.
  22. Apenas quem for capaz de ler tua alma será capaz de te amar. Algumas pessoas, poucas pessoas, poderão bem entendê-la em certos aspectos principais e até mesmo compreendê-la em certos detalhes mais profundos, mas nunca te amarão integralmente, fecundamente, totalmente: no máximo ter-te-ão carinho, paixão e bons afetos. Porém, apenas quem for capaz de ler teu “textus vitae” (aquela narrativa oculta e misteriosa que a alma individualíssima encerra) com a gana de querer relê-lo para sempre (sem tédio, sem enfadar-se com a rotina, sem fastio) te amará. Cada alma é uma esfinge: decifra-a e ela também te amará. Recordo, à propósito, Valéry: “Il y a une sorte de réciprocité entre le besoin et l’objet qui le satisfera.” / “Há uma espécie de reciprocidade entre a necessidade e o objeto que a satisfará.”
  23. Frequentemente quer-se demonstrar como presença aquilo que é ausência. Quer-se demonstrar que se ama e se está amando e sendo amado porquê a falta real de amor agoniza a alma. Quer-se demonstrar inteligência porquê a falta fática de razão e tirocínio embaça o pensamento tão diariamente que a fala chega a parecer-se com o zurro asinino. Quer-se demonstrar sucesso, elevação e posição como adereços capazes de enfeitar aquilo que no fundo é medíocre e por enquanto insuscetível de subir para além de certo e “baixo” status. Então, pára de te comportares como titã da paixão e do sexo, como mito e gênio do intelecto, como exemplar maquiado e macaqueado da realeza mediatizada alemã ou de super-executivos de Wall Street! “Conhece-te a ti mesmo”, profetiza o oráculo socrático. “Examine-se o homem a si mesmo”, pontifica o Evangelho. Sê tu mesmo a ponto que, conhecendo-se e examinando-se, teu eu efetivamente (de eco fraco a eco forte do ser) chegue ao fundo final do teu eu-si-mesmo. Estes vernizes mundanos, a quem enganam senão a ti mesmo? Não te comportes como don juan ou femme fatale, como Tomás de Aquino ou Simone Weil, como Dostoievski ou Flannery O’Connor, como arquiduque d’Áustria ou lady vitoriana, como Steve Jobs ou Huguette Clark. Nas baladas, no câmpus universitário, na sociedade e no trabalho (e também no Facebook) é certo que és apenas um zé-mané/mariínha-manoa. Teus anseios de subida são legítimos. Tuas pretensões de ascensão são cabíveis. Mas o fingimento nada alcança senão uma fina película de mentiras meticulosamente tramadas que qualquer perguntinha à mamãe ou ao Google desfaz. Concentra-te em saber quem és e, então, a partir do ponto-radicular da verdade, poderás dilatar tua potência e aí serás de fato um adulto amante, sábio, culto e, sabe-se lá o que isto quer dizer, enfim serás um adulto “importante”.
  24. O ritual é a base social da sanidade moral do indivíduo. Do culto ortodoxo russo ao haka dos maori, estou convencido desta realidade.
  25. Há tantas grandezas por conhecer, tantas alturas por alcançar, tantas belezas por criar… e nós (e eu, e eu mesmo, quantas e tantas vezes!) nos deblaterando por ninharias, por tolices tão nulas quanto implicantes, por coisinhas ranzinzas e “inhas” de infindos diminutivos, por minúsculas partículas de nada com nada e mais nada. Há tanto por viver entre uma meia-noite e outra. Há tanto por viver entre uma pessoa e outra. Há tanto! Há tanto, que nada destas desgastantes tolices diárias e nada destas desenergizantes idiossincrasias cotidianas vale à pena. Nossa rigidez lógica é frequentemente um lago de breu; um lago de breu, reverso daquela má e velha “tempestade em copo d’água”, perturbando a razão natural das coisas — profundas, vastas, oceânicas. Há tanto por viver. Tanto…
  26. O homem salvo por Cristo não foi feito para viver como a maioria dos homens. Se o calo aperta, continuamos a caminhada com os pés sangrando. Se a boca seca, engolimos saliva em benefício de cada palavra que ainda precisa ser dita. Se a tentação mastiga ferinamente a carne, nós nos jogamos no espinheiro até que o auto-domínio floresça. Se os homens comuns desejam apenas existir como entidades biologicamente controladas por aquelas necessidades da Pirâmide de Maslow, nós suportamos as carestias físicas e metafísicas com os olhos pregados na vida que é eterna. Um homem cristão não foi feito para passar a vida se arrastando entre cama-e-ronco e sofá-e-bocejo entremeados por trabalho profissional, fadigas corporais e rotinas mentais: nós fomos feitos para avançar audaciosa e corajosamente o Reino de Deus entre esses outros homens em cuja humanidade a “imagem e semelhança” dEle está embaçada. Há um mandamento sacrificial por guardar: “Ide!” Lembra-te.
  27. Apenas gente muito boa ou muito má calcula com certo rigor de detalhes suas ações, seu minucioso procedimento diante do mundo das coisas e dos homens. Atenta-te para o caráter de quem observas: se é virtuoso, tal cálculo é sua temperança e prudência no agir; se viciosa a alma, ali tens um enxadrista a calcular cautelosamente seu ataque.
  28. Se é o olhar que te seduz, que farás com ela inteira? Se é o sorriso que te cativa, que farás com todo o resto abaixo e acima da curvatura dos lábios? Se é isto ou aquilo ou qualquer outra “parte” do conjunto que especialmente te atrai, que farás com o “todo” harmônico ou desarmônico que carrega o detalhe encantador? Que farás com o todo interior, com tudo aquilo que carrega seu corpo pelo mundo? Que farás com sua genealogia e atavismos, com seus modos e usos e costumes, com sua impostura diante do altar de Jeová? Que farás com seu desdém por livros e música, por arte e vida interior, por viagens por terras cheirando incenso e canela, macarrão e doce de maçãs, sal desértico e gelo ártico, lã no curtume e carneiro na brasa, tâmaras e pato de Pequim? Que farás quando quiseres gastar dobrões a mais numa iluminura medieval e ela outra-e-outra-e-outra vez desejar a grife milanesa? Que farás no domingo quando tu quererás acompanhar as crianças na escola bíblica e ela quiser dormir mais e mais, atordoada pela ressaca? Que farás com sua existência anterior toda marcada, toda chagada, pelo sistema coator das massas? Tu quererás a 5ª de Shostakovich e polvo e vinho verde e quererás na semana seguinte o forró pé-de-serra pernambucano e baião-de-dois com buchada de bode e batida de cocô com jurupinga; ela te arrastará perpetuamente para qual pub, para qual balada, para qual rolê, para qual night de Skol Beats e cacofonia entre o cheiro do cigarro barato e o gosto rançoso da porção mal feita? Tu quererás ler e gastarás algumas horas lendo; ela irá para o shopping. Tu quererás que teus filhos estudem música, aprendam línguas antigas e cacem e cavalguem e acampem; ela lhes dará celulares, babás e conselhos falsamente maternais sobre como “não perder tempo com estas bobagens” e sobre o quanto “é perigoso ficar correndo por aí.” Tudo por um reflexo momentâneo dum olhar tentador e brilhante? Tudo por duas mandíbulas bem providas de dentes e graça estética? Dalila é sempre um pesadelo perfeito: sentimento de sonho que ao pensamento é horror.
  29. Só se ama quando tu és tu e só tu mesmo com a pessoa, sem vernizes cobrindo e recobrindo tua personalidade, sem brumas anuviando teu ser. Ser e só ser, de espírito nu. Sem os melindres de parecer isto e insinuar aquilo, sem a preocupação de impressionar falando ou calando, sem o medo de fazer a coisa certa do jeito errado. Sem as “folhas de figueira” da persona projetada no mundo: sem vergonha. Só se ama na nueza da alma toda despida dessas preocupações de não ser bom o suficiente, porquê o outro basta na sua [in]adequação. Só se ama quando ali, um diante do outro, homem e mulher se enfrentam e se encaram sem que frontes e caras se despistem no olhar mútuo — olhar que carrega, leve e densamente, tudo o que eles foram, são e serão porquê passado, presente e futuro comungam do mesmo destino. Todo o resto, senhoras e senhores, é bobagem sentimental que não vale a pena.
  30. O amor não carece de dia, mas o dia, um em especial como hoje, sempre carece de mais amor. A lógica do Dia dos Namorados, por mais que pretensos racionais a neguem sob gastos argumentos de que se trata dum evento comercial dedicado a varejismo sentimental, é a lógica que sempre guiou o ritual, a liturgia: determinar especialmente um tempo para, com melhor consciência e atenção, se dedicar mais intensamente àquilo que já se dedica silenciosamente no dia-a-dia. Então, não chorem as amargas pitangas contra a data se o andarilho cupido ainda não lhes acertou o miocárdio. É feio!
  31. Os ideólogos dum lado atiçam o povo contra o povo atiçado pelos ideólogos dum outro lado. Os dois povos são um só povo, que uma verdade (igualdade) numa grande mentira (igualitarismo) opôs à outra verdade (liberdade) numa outra grande mentira (individualismo).

Esponjas de sol — XXXVII

  1. Aprende, todo santo dia, a cortar as pequeninas amarras que se vão enraizando bem devagarinho, tiquinho por tiquinho, no teu coração. Se permites que o teu maior sentimento seja presa dos teus afetos menores, se assim deixas o que é passageiro deitar a mão suja sobre aquilo que em ti é puro, se consentes que cresça contradição à força de sedução sorrateira quando mais e mais deveria a coerência fulgurar em teu espírito; se assim ages, oh homem, como lograrás cingir nesta existência a verdadeira felicidade e no além a vida que é alegria eterna? Aprende a libertar-te destes grilhõezinhos que, ao cabo dos dias, serão para ti um calabouço: coração esganado, louco e desencaminhado, sucumbente ao mundo e aos deleites mais efêmeros. Vide cor tuum!
  2. Coincidências não existem. Na vida, esta nossa vida sobre o planeta, tudo é incidência da mão ordenadora de Deus. Nada é acidência dum acaso cego e mecânico com suas causas e efeitos subsidiários — tão desconhecidos quanto despropositados. Então, quando tu te perguntares “por que?”, mesmo que não seja possível distinguir um qualquer sentido racional para o fato que te molesta a consciência, sabe isto: o Senhor, o Deus Todo-Poderoso que nos formou do quase etéreo pó da terra, trabalha para enxugar dos olhos toda lágrima. E quão sólidas são nossas lágrimas! Em tudo, para todos, há um propósito (uma purgadora intenção salvífica) a ser cumprido. É a Graça, soberana Graça!
  3. Byron, aquele grande poeta, escreveu desde o estábulo do seu coração que “but the test of affection’s a tear” / “mas o teste da afeição é uma lágrima.” Belo verso, mas enganado verso. Pode-se chorar por qualquer coisa — na ira ou no amor, na dor ou na cólera, na alegria ou na desgraça, no positivo ou no negativo. Mas sorrisos, mas um sorriso!, só se pode dar, só se pode transparecer na face perante o mundo, quando a afeição é sincera e, então, é de fato afeição. A prova melhor do carinho é um sorriso, porquê facilmente consegue-se discernir (pela curvatura dos lábios, pelo rubor das bochechas, pelo tencionamento da pele, pelo estado dos olhos…) o que verdadeiramente sai da alma daquilo que amarelamente uma postura social introjetada na psiquê obriga por na cara. A lágrima é líquido vazando da biologia corporal, esteja o espírito como estiver. Enganar-se acerca da natureza fontanal duma lágrima é facílimo. O sorriso, no entanto, nasce dum estado bruto e puro e muito específico do espírito humano; não se dissimula, por mais que teatralmente se tente.
  4. Durante o processo de amadurecimento (de aperfeiçoamento real para esta vida), com todas as suas tentativas e erros e acertos, nós sempre nos machucamos uns aos outros. Ferimos e somos feridos, mesmo querendo acariciar. Sangramos o outro, que também nos sangra. Um coração canibaliza outro coração por pura inépcia, por falta de jeito, por despreparo, por criancice geniosa. Então, de ferida em ferida e depois de cicatriz em cicatriz, nós um dia acordamos conscientes do turbilhão de causas e efeitos que gerem o mundo do outro. Assim, concluímos nossa questão: já não há muito o que fazer, senão tentar não repetir os mesmos erros. Amadurecemos, pois.
  5. Todos nós, pouco ou muito sinceramente, somos montadores de quebra-cabeça. Os outros são nossos quebra-cabeças. As mulheres, sobretudo, são dificílimos quebra-cabeças. A gente se achega à “grande mesa das montagens”, o palco da consciência onde interpretamos o mundo e o mundo dos outros, e, com as peças que as pessoas nos vão disponibilizando a esmo e aleatoriamente (aos gritos e aos silêncios, aos berros e aos sussurros, com gestos miúdos e espalhafatosos, em hecatombes e vácuos), tentamos montar a imagem, a figura, o símbolo, o significado, enfim; aquele complexo “ideo-imagético” que quer assim nos dizer aquilo que não foi explicitamente dito. Toda mensagem muito séria que não se quer tornar completa e evidente a quem ela se destina acaba quebrada em cacos, atirados como pedras ou espalhados como a trilha de pães de João e Maria. E os cacos, como ciscos ou como lascas, nos caem nos olhos de dentro (o coração) e nos olhos de fora (a mente). Enigmas e sombras que compomos, pedaço a pedaço: tudo “sotto il velame” não dos versos estranhos, como diria Dante, mas sob o véu das “azioni strane”, das ações estranhas. Tudo muito cansativo, mas muito rotineiro e permanente. Fadigoso ofício: montar quebra-cabeças, humanos.
  6. Duas vidas freqüentemente se emparalhelam e assim devem permanecer por toda a vida: pararelas, lado a lado, caminhando numa mesma trilha fraterna; sem se cruzarem e então se fixarem numa intersecção de destinos unidos para serem existencialmente “uma só carne”. Há distâncias, de perto e de longe, que foram feitas para um mútuo auto-aperfeiçoamento que de modo algum — por mais que a diferença seja sútil — se confunde com mútuo aperfeiçoamento. Relutância, melancolia, frustração e alguma tristeza surgem, mas é assim que as coisas (Deus o sabe!) são e estão organizadas para o nosso bem.
  7. De vez em quando, aquele menino de cinco aninhos que eu fui há vinte e quatro anos passados aparece, com o dedo levantado e bem apontado para o meu nariz, e passa pito sem cerimônia: “E então, Dayher, o que é que você está fazendo com a minha vida, seu moleque existencialista?” Machado de Assis tinha razão, e lá está ela bem inscrita como título num capítulo do seu Brás Cubas: “O menino é o pai do homem.”
  8. Um olhar não olha outro olhar. Os olhos assim olham-se como espelhos que se refletem. Donde a luz? Qual caminho percorre o facho, a linha cintilante de duas íris, o élan da mirada de dois corações? Um olhar para outro é lúmen e também uma labareda cegal: se a um tempo liberta das trevas, noutro é densa escuridão capaz de tolher qualquer apelo, luminescente ou não, da razão. Estes faróis que antigamente guiavam naus em calmaria e tempestade; estas fogueiras diante do sol e das luas, estas córneas, apontam para portos e altares, para pedidos e promessas, para juras e confidências. Que é um olhar? Que são dois pares de olhos justificando-se em silêncio? Olhos olham outros olhos. E apenas no relance, o instante pequenino em que o ângulo de intersecção arranca das cavernas das retinas o extremo clarão do amor, apenas neste relance pouco mais que instantâneo, uns olhos ficam sabendo que outros olhos existem em si mesmos, porquê, sabei vós, na maior e mais larga medida do tempo disposto, eles lá estão ocupados no ofício hipnótico de olhar, de olhar e olhar, mas não de ver o próprio olhar. O olhar, os olhares, são qualquer coisa acima da biologia do globo ocular. O olhar, os olhares, são aquela íntima visão-de-além-corpo que Adão e Eva compartilhavam entre si quando ainda não se percebiam nus. A alma, a alma enxerga.
  9. Quem mente no pouquinho, mente no montão. Mente no pequenino? Mente também no grandão! As minúcias e pormenores da vida desenham suas grandes estruturas. Impossível ser verdadeiro no principal e no superior se se é falseado no subsidiário e no inferior. És amante da verdade, custando o que custar?; da verdade libertadora, doendo como doer? Então, teus lábios não provam a mentira no menor detalhe, porquê tudo é curva e linha no maior entalhe. Anota, recordando do nono mandamento.
  10. Entranha-te na realidade. Cria raízes nas coisas como elas são. Esquece e dá cabo de ilusões pueris, de ventos vãos que cintilam desejos em oásis também miragens. Apega-te à terra, que é como é e está como está. Apega-te àquela sensação superior da qual és capaz de perscrutar a origem — o amor. Destrói as baixas impressões que apenas impressionam, e cujas raízes pairam solitárias plantadas no éter das emoções, no nada comovente — a paixão. Procura a solidez da permanência, da estabilidade da coluna ereta diante da sordidez mundana, da dignidade espiritual que vem com o bipedismo. Entranha-te na realidade porquê a vagueza cai bem apenas ao mar, porquê “quizás, quizás, quizás” apenas comovem os tolos e os insonsos, porquê o homem foi formado da terra, máxima realidade…
  11. É grande quem vive no mundo e para o mundo aquilo que se vive no íntimo silencioso da própria consciência. É grandeza, grandeza libertadora, que uma alma consiga se despir das aparências, das futilidades, das mascaradas supérfluas que revestem as personas sociais. É grande (três vezes grande como três améns), é soberanamente grande exercer os destinos da própria existência em respeito ao que vai no coração sentimental e na razão mental. É grande, porquê é verdadeiro, porquê é real, porquê há muito deixou de ser animal soprado e levado ao sabor dos vendavais da aspiração-e-respiração alheia. Como é bom — sob a Providência preparando o mar, a rota e o porto para nosso barquinho — poder navegar e declamar para si e poder remar e recitar para o mundo: “I am the master of my fate: I am the captain of my soul.” / “Eu sou o mestre do meu destino: Eu sou o capitão da minha alma.”
  12. É preciso muito esforço e muita força de vontade para não cair seduzido pelo fingimento. Nunca fingir ser o que não se é, para si mesmo nem para o mundo. Quem finge, apenas finge, e com isto ganha, por pouco tempo, algum conforto psíquico (que tenta dar substância às idealizações próprias, congelando na alma certas “gelatinas” emocionais e fornecendo-lhes a aparência de solidez) e algum conforto social (a veneração ignorante das massas adoradoras de ícones, aos quais, ao mesmo tempo, elas votam concomitantemente o ódio mais cruel: palmas à realeza daquele a quem condenam à cruz). Quem finge, constrói para si uma maquetezinha romântica e toda empoada do Palácio de Neuschwanstein na escala 1:1000, que a coletividade, em seguida, saúda atônita fotografando-se e deixando-se fotografar ao lado das coloridas muralhas deste novo Castelo da Disney. O cristão, porém, o homem equilibrado que é efetivamente o que é (tanto individual quanto socialmente), deve resignar-se à arquitetura original que Ele quis dar às suas “quatro paredes.” Daí, conforme ensina Teresa d’Ávila, ele tem pleno acesso ao castelo da sua alma. Fantasias caem; e sempre cairão muralhas de papelão abstrato e torres frágeis de ilusão isoporada — as de dentro e as de fora. Anotai: o diabo não apenas assedia; ele sempre conquista fortalezas edificadas sobre a areia (segundo a Mineralogia, não é também rocha um grão de areia?) do fingimento; Pai da Mentira, sem ler Sun Tzu ele sempre soube que demonstrar ser nunca é efetivamente ser. Todos somos castelos quanto à dignidade, quanto ao “fortitudinis spiritus”, mas na arquitetura dos frutos (da missão do ente segundo à natureza do ser) cada qual é cada qual. Eu, p.ex., sou uma simples casa de família, de pedra e madeira, construída no topo duma montanha onde primavera e inverno predominam. Cada qual, porém, é uma morada diferente e específica para o retiro do Espírito Santo. Cada um de nós tem uma vocação já engendrada pela engenharia celeste, um sentido estruturado para trilhar o Caminho da Verdade na Vida. Por isto, “To be or not to be, that is the question.”
  13. O diabo ataca sempre em várias frentes aparentemente autônomas e desconectadas. Faz isso para não dar à “presa” o senso das proporções do golpe tramado. Mas, há um fio invisível na medida em que inquebrável conectando cada atacante a um grande ataque final (depois que os ataques individuais e ocasionais não logram efeito). Há uma estrutura metafísica demoníaca gerando complôs silenciosos. Então, busque discernir o espírito das pessoas e o mundo ficará claro como um tabuleiro de xadrez. Discirna os afetos que elas depositam em seus interesses, anseios e desejos (sobretudo os frustrados) e você verá limpidamente cada peça na sua casa e cada peça harmonizada ao lance da outra numa “avant-première” do xeque-mate: os até então dispersos unem suas escaramuças e reúnem suas demandas num ataque orquestradente grupal. E tudo faz sentido, porquê, como diz o salmista, “abismo chama abismo”; ou ainda, como ensina perguntando São Paulo, “poderão estar juntos se não estiverem de acordo?” O diabo, eu já o dizia semana passada, é um mestre da estratégia. Ainda bem que o Espírito Santo está conosco. Dominus Deus Sabaoth!

1116: Quem se apega à verdade, faz aliança implícita com o próprio Deus. A verdade, nunca excessiva e por isto nunca má, constrói no caráter a humildade: ensina que as coisas acontecem como acontecem e são e estão como são e estão porquê o mundo é coator de tudo e de todos, ou seja, sobre nós caem definitivamente certas ações e reações inalteráveis. Porém, a despeito de todo este poderio, o mundo não nos pode impedir de conhecer seus movimentos e natureza. Conhecemos aquilo que não podemos alterar concretamente, e cuja negação formal é a mentira, abstrata. Entretanto, além: o mundo não nos pode impedir de contra sua verdade (imutável, humanamente) combater pela Verdade (plenamente imutável): II Coríntios 13:8. A verdade da terra pode, quando Cristo o manda, ser conformada pela Verdade do Céu. O conteúdo-de-Ser que desce do Alto até o baixo, aqui, transforma a estrutura-do-ente. O homem que ama a verdade-informação será amado pela Verdade-Pessoa. Eis algo da metanóia, que se explícita.

  1. Se tu aceitas qualquer coisa, qualquer resto e migalha, tu aceitas ser uma coisa — restinho e migalhinha. Se não escolhes o melhor para ser melhor, contentando-te com o “menos pior”, com aquilo que na escala das delícias está abaixo da vibração da tua alma, acabas escolhido pelo pior e, então, irremediavelmente, ficas pior. Quando compreendes que assim como as estrelas têm cada qual sua glória particular (I Coríntios 15:41) e tu também tens a tua, percebes a grandeza da individualidade e o quanto tal grandeza dignifica-te e honra-te pelo que és. Não aceita o que sobeja vil e podremente. Come, mastiga e digere o manjar todo do amor. Come, mastiga, digere e te nutre de todo o banquete da paixão. Não permitas que requentem sequer o prato principal. Não permitas que teu paladar prove o fruto murcho, o vinho quente e cheio de borra, a carne seca e fibrosa, o pão duro e inutrível. Aceita a superior coisa, o primeiro e o principal, a primeira fatia, a primeira colher, o primeiro corte, o primeiro gole.
  2. O teu eu verdadeiro onde está, que faz, que é? Em que núcleo bem denso e duro do teu espírito está escondida a tua personalidade, esganada pelo mundo malemolente? Quem és tu, entre as personas visíveis e invisíveis que envernizam tua ação entre os homens? O teu eu verdadeiro às vezes rompe a caricatura, não percebes? Não percebes quando tu e tu mesmo dizes algo, falas algo, pronuncias algo, pensas algo, meditas algo e refletes algo que estava assim tão aguilhoado no profundo do teu espírito porquê abafado pela personagem que se apresenta ao mundo como se fosse tu, tu mesmo? O teu eu verdadeiro dorme nas sombras, quando na verdade é mais luzido que o meio-dia. O teu eu verdadeiro faz discursos imortais enquanto tu balbucias concordâncias servis com a massa numericamente forte. O teu eu verdadeiro é um obelisco de dignidade antiga enquanto tu te enraízas no lodo vil e baixo da modernidade envelhecida. O teu eu verdadeiro brame hinos misteriosos, canções diletas aos profetas e sábios dos desertos, enquanto tu aqui entre os tolos e mortais assassinas a eternidade em infecundos falatórios sem fim. O teu eu verdadeiro está onde não estás, fazendo o que não fazes, sendo quem não és.
  3. Apenas o que é verdadeiro vale à pena. Todo o resto, dispensável. Todo o mais, digno de descarga antes mesmo que o produto fétido das entranhas psíquicas submerja na água limpa da privada do esquecimento. Pelo verdadeiro, enfrenta audacioso o mundo, atravessa oceanos, aventura-te nos continentes, sobe as cordilheiras, dá a cara (limpa e lavada) diante do Céu. Pelo que é mentira manifesta ou mentira disfarçada de dúvida, não entrega sequer o teu mais fraco pensamento de atenção. Pelo verdadeiro, batalha a peleja até que tua alma sangre luz. Pelo dúbio gangorreiador, pelo periclitante insosso, por aquilo que contradiz malignamente a realidade disfarçando-se com o manto denso, cinza e trevoso da falsa sinceridade, nada faz senão virar tua face em direção ao sol. Vale à pena o que é verdadeiro, apenas.
  4. Mulher que não se comove com poesia e homem que não se atreve a rabiscar versinhos para quem ama, estão condenados à infertilidade espiritual. Eis aí dois corações que vão se ressecar assim que a pele secar, dois cérebros prontos a raciocinar um “fui!” assim que a emoção passional perder sua fonte feromônica. O relacionamento pode até durar em termos cronológicos, mas dificilmente aspirará à eternidade: “vou aguentar mais um pouco, mais um dia, mais uma semana, mais um tempo.” E por poesia entenda-se, simplesmente: palavras bonitas que ninguém mais poderia (querer) dizer, estejam elas arranjadas na forma de soneto italiano, estribilho de música popular ou bilhete escrito no guardanapo da lanchonete. Sem palavras formadas pela beleza, ecos diários e infindos daquela palavra dada no cartório ou jurada no altar, a feiúra da realidade do mundo carcome a certidão e expõe a promessa copiada do Google. Sem o Logos, sem o Verbo, sem a Palavra: logo o vento sopra a palha. Se não tem palavra bonita, não tem alma bonita; e se não tem alma bonita, não tem nada.
  5. Tudo passa e passará. O corpo, belo ou feio, se desfará. As linhas bem proporcionadas, harmônicas e geométricas, se desalinharão conforme o caos tomar a pele, fazendo do tônus fragilidade e da melanina uma profusão de fraqueza celular. Tudo passa, e está passando. Da beleza e da feiura do lado de fora, só restarão poucos traços estruturais e muitas lembranças saudosas num espelho trincado não no vidro mas na pele refletida. Quando tudo aquilo que hoje é firme e matematicamente gracioso se desfizer, o que sobrará do lado de dentro? Quando o presente for passado e o futuro um pretérito há muito conjugado, que será da alma? Que permaneça, pelo menos, aquela beleza que brilha nos olhos mas que às vezes ricocheteia na íris. Que permaneça, ao menos, aquela formosura de valores que hoje vaza silenciosamente apenas nos sorrisos e na fala sincera. Que permaneça o permanente, porquê, como dizia o apóstolo, “as coisas que se veem são passageiras e as que se não veem são eternas.” Tudo passa e passará, mas a beleza que vem lá do âmago, do espírito ainda luzindo inocências, esta ficará.

Esponjas de sol — XXXVI

  1. Uma das coisas mais gostosas deste mundão é escrever poesia para quem sensivelmente é capaz de compreender que ali, entre versos e estrofes, está o próprio coração na mão. E uma das melhores imagens nesta vida é ver olhos femininos enternecidos diante dum pedacinho de papel que custodia, com letras bem caligrafadas, um poucochinho de tudo aquilo que este coração sente; que sente e que sentiu ao se desnudar rimando, destemidamente, seu espírito enamorado.
  2. O fanático não é tão perigoso pela sua idéia (“Timeo hominem unius libri”) quanto pela troca repentina de uma idéia por outra, enfim, por sua substituição — quase sempre num estado de “conversão” pseudo-metanóica. Pode-se discernir em caracteres patológicos certa ascensionalidade crescente de obsessões ideológicas menos abrangentes (nível pessoal) para obsessões mais abrangentes (nível social). O stalinista idealista justificador dos Julgamentos de Moscou nas redes sociais que torna-se “nazista romântico” e vai fazer coro aos loucos negacionistas nas praças, o crente moralista fiscal-da-vida-alheia que torna-se ateu eticamente laxo e vai às assembléias legislativas atirar ovos e tomates nos crucifixos, ô… oh… e muito mais! Eis por aí tanto chato-de-galochas que abandona a pouco duradora tolerância mínima em direção a definitiva intolerância máxima. O mundo está perigoso para os homens de muitos livros.
  3. A gentileza só é gentileza de verdade (e não mera cortesia social) quando é levíssima de tão suave, quando é diluída no gesto (mutatis mutandis, Bilbo Bolseiro diria “esticado como manteiga espalhada por um pedaço muito grande de pão”) tanto quanto o beijo na testa que a gente deu pela primeira vez na primeira namorada. Quando se parece — porquê é — com ritual formulário, quando é caricatura formalesca, não é gentileza coisa nenhuma: trata-se apenas de urbanidade habitualmente introjetada. Dâmasos de Salcede há a valer por aí!
  4. A política externa brasileira deveria prestar triplicada atenção nestes três países: Rússia, Tailândia e Polônia. No primeiro, pela movimentação ideológica eurasiana (maior bloco de poder no mundo oriental); no segundo, pela mutação político-econômica que fará crescer a população islâmica; e no terceiro pela lugar-tenência eurocética. A sério que “o silêncio é um espião”, Mário Quintana? Abin! Abin! Abin!
  5. Tem todas as idéias e todas as opiniões! Contudo, não permitas que elas façam de ti uma idéia e uma opinião. O homem livre, o homem bom, é um decanter de pensamentos docemente tintos, e não um barril de borra mental vinagricenta.
  6. César, ao recepcionar de muito má vontade uma delegação de senadores que lhe viera anunciar a concessão de novas e mais lustrosas nobilitações, ficou regiamente sentado em sinal de desdém pela aristocracia lambe-botas. Caiu em si: grave erro estratégico mexer com os brios de homens senis mas poderosos. Teve que fingir (e mandar espalhar em forma de boato verossímil) uma diarréia para justificar a postura altiva. Resultado: vinte e três facadas. Provérbios 16:18, of course.
  7. A glória das coisas está em ser o que elas são. “Cada estrela tem sua glória”, Ele nos diz. A glória é o ser.
  8. Olhos carinhosos e sensíveis, olhos que superam olhares, olhos profundos feito oceanos de céu e céus de mar. Minha voz fica embargada e meu coração apertado — como se o dom da fala me faltasse e as batidas fossem badalas de pêndulo gigantesco em sineta doméstica — diante dela. Os teus olhos, sabe, são os luzeiros da minha esperança.
  9. Aliança de prata e aliança de ouro: o refino ascencional do relacionamento — do até certo ponto provisório para o totalmente permanente.
  10. O Velho da Invernada. José Bernardo da Silva, meu bisavô.
  11. Quero casar num domingo, só para poder olhar para minha amada e dizer: “A voz do anjo / Sussurrou no meu ouvido / Eu não duvido / Já escuto os teus sinais / Que tu virias / Numa manhã de domingo / Eu te anuncio / Nos sinos das catedrais.” Daí, no altar duma catedral, eu vou dar um sinal para que badalem os sinos.
  12. Um dia, o próprio Deus irá caminhar conosco pelas ruas da nova terra depois duma corrida nos novos céus. Pois, sim! Depois de uma maratona, mano a mano, indo do transcendente “mais além” e vindo para o imanente das galáxias “além”, Deus mesmo nos explicará o “porquê” metafísico do “como” físico: não existirá Teologia nem Ciência, porquê as primeiras coisas serão passadas. Abstrato e concreto: palavrório indicionarizado. Um dia, não haverá sequer esta espaçadela de 24 horas que sem muito critério ontológico nós simplesmente chamamos de dia. O dia será um infinito de eternidades rompendo eternidades infinitas, como uma gota d’água que goteja para cima ou como uma pareidolia numa nuvem que toma a forma de toda e qualquer imagem que simplesmente nossa mente concebe no instante: sem fim, sem começo, sem meio, sem início, sem término, sem entremeio — completamente criativo, totalmente criando, integralmente “fiat!”. Um dia, o próprio Deus deixará, conosco, suas pegadas no solo lunar e na fossa das Marianas e no Everest e no tal do planeta OGLE-TR-56b. Um dia, em corpo glorioso (em unidade completa do eu-eu-mesmo), com Deus nós iremos singrar Tudo, feito pai e filho que construíram um barquinho para, pelo resto de suas vidas, navegarem pelo lago sossegado que a floresta guardou em silêncio para uns poucos. Isto não lhes consola e comove? A mim sim.
  13. O martírio nestes tempos pós-modernos é psíquico.
  14. Tentei quebrar o silêncio jogando pedras na janela, assoviando versos ao luar, sorrindo tonto para ela. Consegui quebrar a janela, acordar os cachorros e ser tomado por louco. Não, não há mais o que fazer. Há sim este passado que há pouco é pretérito e que vai passando como um balde d’água que escorreu pela ladeira até encontrar o bueiro mais distante do quarteirão. Agora, tudo seria simplesmente falar o que foi dito, emitir sons mais ou menos silvados na boca, sorrir amarelo na cor da gemada azedando em cima da pia. Ouve-me, ouve-me a ti mesmo! Fica sabendo que este mundo, este mundo de hoje em dia, não está organizado para que o teu coração tenha o quê fazer: os corações que por aí estão, com exceção do coração de Helena, são bombas de sangue empurrando e distribuindo sangue quente; só isto é o que são. Anatomia mamífera! Se nas tuas artérias flui o elixir passional e incoagulável do amor, melhor que durmas no sereno uma noite para que o frio do ambiente, do ambiente real, te gele um pouco o cérebro e ele se faça gangorra, balança e contrapeso deste teu coração que insiste em bater estas coisas que são “sentimentos”! “Some they think only to marry. Others will tease and tarry.” Ouça-me cá: guarda o teu silêncio e os teus versos e os teus sorrisos para a anunciação de Helena. Do contrário, adquirirás o hábito — e depois o vício — de quebrar vidraças e vandalizar janelas, de uivar aos cães e incitá-los à “pega!” contra os gatos de rua, de ter sempre nos lábios o riso dos sacanas e velhacos.
  15. A realidade esmaga ilusões como minha avozinha esmaga nas unhas os carrapatos do seu cãozinho. A realidade é uma prensa que impressiona o indivíduo até que ele fique sem expressão — lívido e sem meios de agir, mas sanguíneo e reativo. A realidade é um copo de água que tem o gosto doído da pinga mais queima-goela da roça. A realidade é a mensagem na garrafa lançada ao mar que, depois de milagrosamente ser empurrada pelos sete mares, acaba nas mãos do destinatário. A realidade é um sonho para o qual se acorda depois que, no quadro negro da sala-de-aula onírica, a professora escreve que 1+1=2 com giz cor de breu. A realidade, meus amigos, a realidade (esta fantasma espectral de luzes e sombras etéreas) conquista-se diariamente!
  16. Nada em mim, insisto, pode acusar outra chama a refulgir no olhar. Apenas o teu fogo, de calor reverente como a fogueira confortável que aqueceu na primeira noite com Zípora os pés de Moisés, me pode corar o pensamento e me enrubescer a face. Eu aqui sou contigo, e estou aquecido. Faz frio, mas no peito brota a fagulha filha do cristal que outrora incendiou as florestas do antigo Saara tropical. E minha poesia te é mais sincera e amante conforme no papel ela jorra um poucochinho aquém da excelência na lírica métrica, no polimento ourivesador dos versos, na cadência sonora dos fonemas dez ou cem vezes antes recitados. Quanto mais bonito tu julgas o poema, minha mourinha, sabe que estética mais comum ele detém. É o coração — menos geométrico, menos harmonioso na física das disposições sensíveis — que te diz “é belo!”, quando os mais belos para a Literatura são aqueles que tu julgas menos bonitos, porquê sentes afinal o quanto o fulgor de dentro se perdeu nas rimas exigidas pela arte cá do mundo de fora. Tu discernes, vejo, a literalidade palpitante que bombeia caligraficamente meu sangue quente em cada estrofe que, se por um lado renuncia à imortalidade das letras pela forma mais bruta com que cai na folha, por outro conquista a eternidade porquê entoa a simples verdade profunda e real, esta realidade da profundidade do meu espírito: cá tens meu amor. Nada em mim, outra vez o digo, pode acusar outro brilho a faiscar no olhar. Teus cílios, escuta, são meus círios.
  17. A verdade é que sou ainda uma criança, um camponês disposto à cavalheirescas alianças, uma cria sem maldade soprando suas bolhinhas em direção aos espinhos que não vejo. A santa simplicidade do ingênuo assim só alegre, a maravilhosa inocência de quem ainda cora; este presente, dádiva do alto, que me ganha o futuro. A verdade é que assim outras crianças aparecem e a metrópole pouco a pouco se esverdeia em povoados, em vilinhas, em casinhas de tijolo vermelho e hera. As bolinhas de gude do passado rebrilham nas pedrinhas algo mais caras que na coroa brotam, uma a uma. A verdade é que hoje o Cordeiro ressuscita, hoje os balidos do Sepulcro reverberam na boca do sacerdote, hoje sangue e vinho se misturam em símbolo e substância; a verdade é que sou um caçula egípcio feito primogênito da raça de Abraão!
  18. Uma vez te pedi para ficares comigo para sempre. Declinaste, não sei porquê, o pedido. Mas, coisa estranha, inda assim me queres por perto quando aniversarias, quando é Páscoa, quando Cristo aniversaria, quando uma data qualquer merece (ou carece de) presença e compartilhamento. Pedes-me que fique. Por que? Não sei… Mas comprei teu presente e não entreguei, comprei chocolates e guardei-os; e assim me vou esgueirando para fora destes teus desejos memoriais para que, talvez, nestas minhas ausências intencionais, tu reencontres tua vontade cotidiana, teu querer natural que os temores fantasmagóricos do inconsciente minam sem mais nem menos. Châteaux en Espagne ou castillos en Francia? Proponho-te uma casinha branca escondida na praia quase deserta… E então, até quando seguraremos rijo este mútuo silêncio mortificador? Vamos, deixa que o ministro primeiro, por nós dois, o quebre: Christos anesti, alithos anesti!
  19. A suma felicidade é um “caminhar” que apenas a via da santidade pode oferecer aos nossos passos, às nossas decisões. “O salário do pecado é a morte”, nos diz o apóstolo Paulo. Inversamente, a justa paga da virtude é a vida — vida plena, vida total, vida integral, vida que é vida porquê é Céu. Todo o mais é existência inerme e inerte, é pura existência estagnada como o inferno paralisado, que sozinho existe só existindo em solidão (sem o dínamo relacional da alegria e do amor que movem a Criação). A santidade é a única felicidade. Santidade é felicidade. Lembra-te disto!
  20. Este mundo vai passar. Esquece a política miserável nossa de cada dia e olha para o Céu. A Eternidade vale mais que quaisquer Lula, Bolsonaro, STF e tutti quanti se matando por poder e apenas poder. Não esteja entre os tolos militantes terrenos deste ou daquele lado dextro ou sinistro. Este mundo vai passar: transpassa-o, então, com tua alma e guarda teu coração da corruptibilidade do ouro, da prata e da opinião irracional postada no Facebook…
  21. Há dia em que a gente fica com a alma calibrada naquele clima daquele verso de Miguel Torga: “Apetece cantar, mas ninguém canta.” Tudo é silencioso e cheio de expectativas como uma orquestra tocando no vácuo sideral para uma constelação de surdos com o talento potencial de Beethoven. É tudo e qualquer coisa entre a afirmação dum sim e a negação dum não. É a suspensão e a derrota da lógica pela intuição voraz. Lá diz um outro verso: “Apetece fugir, mas ninguém foge.” Fugir da aparência do mal ou do bem aparentemente disfarçado? Há dia e… há dia.
  22. A verdade é que sou ainda uma criança, um camponês disposto à cavalheirescas alianças, uma cria sem maldade soprando suas bolhinhas em direção aos espinhos que não vejo. A santa simplicidade do ingênuo assim só alegre, a maravilhosa inocência de quem ainda cora; este presente, dádiva do alto, que me ganha o futuro. A verdade é que assim outras crianças aparecem e a metrópole pouco a pouco se esverdeia em povoados, em vilinhas, em casinhas de tijolo vermelho e hera. As bolinhas de gude do passado rebrilham nas pedrinhas algo mais caras que na coroa brotam, uma a uma. A verdade é que hoje o Cordeiro ressuscita, hoje os balidos do Sepulcro reverberam na boca do sacerdote, hoje sangue e vinho se misturam em símbolo e substância; a verdade é que sou um caçula egípcio feito primogênito da raça de Abraão! Graças a Ti, Senhor e Deus de mim.
  23. Julgar superficialmente é um exercício de emburrecimento: quem julga a superfície das coisas (e dos outros, sobretudo) torna-se incapaz de descer à própria profundidade. A mente do julgador superficial passa a fazer juízos de valor tão automáticos que ele perde o senso das proporções (sobretudo dos efeitos semelhantes de causas dissemelhantes) e, insensível para com as nuances do objeto de seu julgamento, acaba então com a própria mente restrita à superfície do próprio eu aparente. Quem se nega a aprofundar-se nas questões externas a si ante a qualificação das coisas (e dos outros…) necessariamente não poderá aprofundar-se nas questões internas de si, porquê a auto-qualificação vale-se da mesmíssima estrutura de consciência. Quem muito julga, e muito julga com rapidez meramente neural, julga mal. O julgamento do homem prudente é, antes de tudo, produto de reflexão demorada, silenciosa e empática. Julgar superficialmente não apenas emburrece o indivíduo privadamente: além, tal dá lastro à injustiça coletiva e pública. O “Não julgueis!” aconselhado pelo Senhor é, por isto, não apenas uma lei moral e espiritual que salvaguarda nossa salvação eterna; é também um remédio para a inteligência humana nos porquês do aqui-e-agora terreno.
  24. “Rebaixar-se” que é e que fica sendo quando se trata, na verdade, de vergar a coluna ao solo, de abaixar-se até a terra, para pegar uma jóia caída (chafurdando) numa pocilga infecta? Sujar completamente as roupas e embeber-se de mau cheiro, que significa diante da possibilidade tão real de ganhar para si o prêmio precioso, o pomo de ouro? Quem desdenha a beleza e o valor de algo/alguém pelo seu estado aparentemente deplorável, sem se dar conta da realidade essencial que repousa sob toda a “sujeira”, não aprendeu de Cristo a mais importante lição salvífica: “Porque o Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido.”
  25. Guardar as coisas para si, em silêncio e em quietude, é um exercício de mistério — é, efetivamente, mistério. Chegar a conclusões cujo instrumento de raciocínio é espiritual e cujo sentido é rastreado apenas pela alma é um dos grandes gozos de quem tem “vita abscondita cum Christo in Deo”. A virgem Maria, no Novo Testamento, é a primeira personagem que o texto bíblico dá conta deste diálogo misterioso entre o “eu” e o “si mesmo”. Está lá no Evangelho de Lucas, no capítulo 2, versículo 19: “Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.” Ela guardava as coisas para si porquê, se as contasse, se as publicizasse, seria tomada por louca, por foliã em devaneio megalomaníaco. Devemos nós também silenciar quando Deus nos der um mistério Seu para custodiar em nosso íntimo. Paul Valéry, à propósito, bem o disse em verso: “Chaque goutte de silence est la chance d’un fruit mûr.” / “Cada gota de silêncio é a chance dum fruto amadurecer.”
  26. Coisa mais rara neste mundo tem sido encontrar olhos puros (gente que vai achar piegas este adjetivo, p.ex., já não os têm), sinceros e limpos como um dia fresco e de céu aberto. As íris estão quase todas embotadas, opacas, desbotadas de luz. Eu olho por aí e… fico triste (o caipira diz melhor e mais bonito: “jururu”) como caboclo sem rede ao perceber que os olhos de muita gente (muita mesmo) nada são senão dois globos oculares vacuosos rastreando biologicamente o mundo físico na mesma medida em que um cão fareja as fezes de outro. Olhos puros, profundos e simples, fazem muita falta. Olhos puros porquê de almas puras. Não falo de santarronice idealizada, nem de beatice inatural. Nada disto… Trata-se é de vida autêntica em Deus — consciente, isto sim, e portanto capaz de primeiro enxergar o Invisível mais Real. Mas, repito: estas palavras te parecem piegas e assim tão ingenuamente infantilóides? Teus olhos não estão puros…
  27. Sou um poetinha chinfrim, mas subo ao topo da alegria deste ofício que exerço nos tempos vagos quando uma moça não frívola e de coração ainda romântico (o que hoje em dia é um achado metafísico) lê algum destes meus poemastros de quinta e sorri, como dizia o Ariano Suassuna, “com cara de alma que tá pedindo reza.” Vale tudo e não tem preço.
  28. Quanto à compreensão, as mulheres são como os livros: algumas mais fáceis e outras mais difíceis de entender. Elas são, em todo caso, complexas. Um livro de palavra, enredo e papel, a gente aprende a desvendar através de boa exegese, enfim, através da nossa pessoal atividade e esforço compreensivo. Uma mulher de espírito, alma e corpo, apenas se chega a (mais ou menos) entender se ela mesma quiser nos ensinar os rudimentos da sua personalíssima “Pedra de Roseta”: há uma hermenêutica para o coração feminino na qual somos alunos passivos. Daí, um livro tão difícil quanto “Em Busca do Tempo Perdido” se transforma, num zaz-traz de olhares didático-pedagógicos, num gibizinho todo colorido da Turma da Mônica. Anotem.
  29. O tipo de vida que você decide ter implica na renúncia (como ganho e como perda, seja de bens ou de males) de outros modelos e possibilidades de vida. Se o futuro é semeado no presente e você está diante do imenso paredão das escolhas existenciais, não exite em tomar para si aquilo que agrega à consecução da sua grande missão e sequer por um relance de segundo tosqueneje em lançar fora qualquer objeto (por mais atrativo que ele seja) que impeça seu grande objetivo. Fuja da danteana/drummoniana “pedra no meio do caminho” como o diabo foge da cruz. Fuja, fuja daquilo que é, no dizer paulino, “a aparência do mal” — porquê, ali, o aparente indica concretamente o mal, o mal que seguramente vai lhe desviar do caminho querido e pretendido. A vida que você tem e terá nasceu e nascerá da sua consciente escolha diária (por isto, saia do conforto do “piloto automático” subconsciente), das coisinhas pequeninamente nanicas às coisas gigantescamente grandes. Tome sobre si a oportunidade da decisão! Conselho muito simples e modesto para nós todos, que somos demasiado complexos.
  30. Sob as arcadas, meus ideais, que sustentam no rosto a serena expressão, o Espírito martela as pedras, tijóleos granitos, do meu coração.
  31. Em Ti descansa meu espírito, como terra sólida pairando sobre as águas. Em Ti repousa minha alma, como luz de diurna lua iluminando o sol. Em Ti meu corpo se embebe da natureza gloriosa (e física) do Princípio.
  32. Deus meu, Deus meu, por que me abraças?
  33. Todos os homens são afetáveis e passíveis. Apenas Deus é inafetável e impassível.
  34. Atividade do intelecto não é produção intelectual…
  35. A memória determina o indivíduo.
  36. Enigma: Os lírios conforme secam ficam dourados, / dourados diante do brancor do céu amanhecido.
  37. Um conservador caricato (quer dizer: um reacionário) é um sujeito que se imbuiu superficialmente dos arquétipos cronológicos (pretéritos, via de regra) dos valores eternos.
  38. O tempo existe onde eu existo.
  39. O indivíduo deve sentir acerca do básico-estrutural o que pensa a espécie a respeito deste.
  40. Ultimamente, tenho crido que o maior dos grandes feitos de Napoleão (se é que ele operou, de fato, mais do que meia dúzia de “grandes feitos”) talvez tenha sido propiciar aos Estudos Clássicos a Pedra de Roseta.
  41. Se nós fôssemos fotografados em todo momento e instante da vida e da existência, quais fotografias seriam coloridas e quais preto-e-branco?
  42. Vida sem Deus é razão sem Logos.
  43. É a adequação do ente ao ser que o faz verdadeiramente perfeito.
  44. Que os arroubos de ser se confundam com os silêncios do que é, e então não sobre nada senão o ente, puro e sublime imaginando e semelhando Deus.
  45. Escuta, Abraão: Deus ama a teu filho mais do que tu mesmo o amas!
  46. Poder é princípio organizador externo. Amor, interno.
  47. Ansiedade é um frenesi letárgico.

Esponjas de sol — XXXV

  1. Todas as gotas de chuva que se puderam retirar, com esponjas, de sobre o túmulo de Napoleão, os russos conseguiram destilar, beber e com elas se embriagar. Imagem que me ocorre ouvindo a parte final da 5ª Sinfonia de Shostakovich.
  2. O último luar que tu verás, aprende bem, será entremeado dalgum dourado. O argênteo noturno abandona a natureza quando uma alma da terra se vai despedir.
  3. O silêncio voluptuoso das noites quentes que nos pede senão carne para o vinho, a nossa carne tenra para ser refrescada pelo calor do mosto, da fria vide etérea?
  4. Nada além de contornos, de vagas formas, de luminescências cerebrais paisageando minha mente. Nada, senão poeira semelhante à fumaça. Nada, como uma mina secando feito aguardente em cálice de ouro sob o sol do deserto. Assim se me vai a última imagem com a última memória, assim se esvai qualquer líquida pintura da alma amante na tela translúcida do córtex. Adeus, moça!
  5. O símbolo sempre te atrairá ao objeto [a]signado. Mesmo quando, por suposto e superficial erro primário teu, tu te puseres no encalço do símbolo e este se mostrar imediatamente condutor a outro objeto, mediatamente neste mesmo caminho darás de cara (ele ficará demonstrado, então) com o teu objeto. O símbolo atua, não raramente, com pseudo coincidência retro-significante, ou seja, como condutor da imagem-meramente-igual para o especial-fato-teu. 
  6. A Verdade é a fiadora do Bem e a Mentira é a credora do Mal.
  7. Quem te engana, não te ama: te algema a alma na lama. Quem te seduz, te induz como morcego branco à luz que é chama… Quem te manipula, te estrangula até a gula! Quem te ilude, adultera toda a mente e a leva à sepultura. Quem te burla, falsifica a sementeira do dia-a-dia no coração. Quem te ludibria, se esguia insaliente à danação. Anota. Faz-te de tonto, de bobo, de tolo. Sê o Príncipe Idiota (como aquele santo de Dostoiévski), para que não suspeitem que sequer tu suspeitas; porquê tudo sabes, tudo vês e tudo discernes sob sorrisos mornos e palavras insonsas.
  8. Via de regra, em se tratando de relações amorosas, a mulher praticamente só não “manipula” (ou seja, filtra as reações dele através de suas ações mais ou menos planejadas) o homem que ela real e verdadeiramente ama. Isto é bom. Dissertação para depois.
  9. A ilusão é a aluvião da esperança. Coisa de criança construindo seu castelo de areia entre a penúltima e a última vaga do mar: uma expectação de restolhos metafísicos que vão se desvanecendo pelas bordas do cérebro até que sobre, soçobrado, o principal — até que sobre o material do faticamente esperado, até que sobre mesmo a pura e nua esperança: a Realidade, feita garrafa mensageira lançada (em séculos ascendentes) no mar — a Realidade, querida por Deus mas nem sempre por ti.
  10. Caim/chipanzé. Abel/bonobo. Sete/homo. Está aqui um paralelismo simbólico para o pessoal criacio-evolucionista.
  11. Na mulher até a loucura é mistério. Por loucura entenda-se o indiscernível, o irrastreável e o imponderável que faz de qualquer atitude feminina aparentemente irracional e ilógica uma centelha mesma da “absconditude” divina. Logo, não se trata de loucura verdadeira, clinicamente discernível e tratável: trata-se, antes, duma realidade mais profunda e algo inacessível ao nosso masculino olhar de superfície. Não à toa, toda comunicação feminina é tão mais simbólica conosco — os homens — quando ela é mais sincera, e tão menos oral e mais gestual quando ela é mais verdadeira (e pura). A suma disto tudo, meus caros e bestas confrades da Irmandade Adâmica, é que nós não passamos sequer de neandertais diante nem do fogo: nós não passamos de hominídeos sem metafísica diante das estrelas. E para o limitado, viagens no espaço em direção a astros cativantes é coisa de louco (e, oh, loucas estrelas). Na mulher, todo mistério é para o homem uma forma de loucura.
  12. Pedra antiga, lavrada na casca,

Como estela de vitória ancestral.

Eis da esquecida canção o memorial.

Entre os campos altos da Escócia anciã,

Na direção do cardo celeste caminhando,

Li no romano granito a lápide talhada,

O poema que limou iletrado escultor

Para o pobre rei que fora rico pastor:

“A gaita do cordeiro foi feita,

A música da ressurreição é a eleita.

Sabei todos vós que o grito desta terra

É a saudação ao Reino chegado.

Alba gu bràth!”

  1. A potência com a qual se comete pecados na juventude corresponderá, proporcionalmente, quando da velhice, à fraqueza em padecer seus efeitos. Para cada pá de terra fértil arrancada do jardim (do éden do eu verdadeiro), uma pá de terra infértil sobre o caixão no cemitério.
  2. Podem me chamar de quadrado e reacionário (coisa que sempre ouvi nesta minha vida), mas a felicidade, a felicidade que é boa e permanente, está depositada naqueles velhos ideais pelos quais viveram nossos avós: trabalhar, amar e casar, ter filhos; e neste “tripé” sossegar, serenar, sublimar. Nestas coisas simples, cheias de coração, reside a felicidade que Deus quer nos dar cá na terra. Nestas coisas, aliás, está a verdadeira santidade. Que me perdoem meus confrades e confreiras de geração, mas vocês todos estão muito errados (e por isto, muito tristes e muito entediados e muito sem rumo) se pensam que sombra e água fresca, pegação sem compromisso na balada e individualismo à moda “pai/mãe de pet” serão capazes de fartar de alegria os anos que lhes restam pela frente. É esta a equação.
  3. Como é raro poder conversar (dialogar puramente) desarmado — sem suspeitar de primeiras, segundas e terceiras intenções, sem recear papos colaterais e falatórios subsidiários, sem maquiar expressões tornando-se uma caricatura, sem temer parecer obtuso ou tolo ou fraco ou débil ou nu em si mesmo. Como é raro isto! Como é bom não “sorrir amarelo”, não ser meramente gentil para não ferir os protocolos do bom tom, não dissimular nem teatralizar as palavras querendo agradar por agradar. Como é raro… Como é raro um bate-papo entre pessoas que, mesmo adultas pela cronologia dos tempos, nada são senão inocentes crianças entre si (quer dizer: profunda e visceralmente verdadeiras) fazendo da existência, tão complexa, um ba-be-bi-bo-bu de almas simples. Como é raro. Como é raro!
  4. Sê o que és ao relacionar-se com os outros, puramente. Não sejas teatral, nem quanto às grandes nem quanto às pequenas coisas e acontecimentos. Que cada movimento teu, corporal e espiritual, seja integralmente nascido da tua consciência alinhada à Verdade. Atende ao teu âmago, este cálice de nano-logos que derrama libações (que tu chamas metafisicamente de “intuições”) sobre o teu pensamento opaco. Sê cauteloso e não dize muitas palavras, grandes períodos sobretudo, entre uma respiração e outra. Não tentes a qualquer influenciar valendo-se de simulação: até mesmo simular bondade, praticando-a oficialmente, é dissuadir do ato aparente o fato gerador. Se não tens palavra ou gesto genuíno, fica silencioso e inerme diante do mundo. Fica ali, ao canto, como um ente cósmico que se nega a ressoar o silvo dos corpos imanentes. Sê estátua de carne e osso para estas outras estátuas de sal (teus semelhantes) que passeiam pelo mundo; e ora o teu particular “noli me tangere!” Sê, apenas sê. Que de ti e por ti não passe nem transpasse laivo algum de imitação, brasa alguma de atuação. Sê, com simplicidade, o teu eu — sendo. Sê Quixote de la Mancha, sê Myschkin, sê Kerkhoven, sê Paulo Apóstolo, sê imagem e semelhança do Cristo! Anota.
  5. O gênio de Wagner foi o ocaso irrecuperável — última chama azul no fogareiro de Euterpe — da Música Clássica Alemã. Ele é elevado na medida em que é patológico e é mítico na medida em que é fenecente. Das war’s Leute!
  6. Verdi, agnóstico-quase-ateu, deitou no seu Réquiem toda a densidade (ou etericidade?) das suas idéias. Há um “je ne sais quoi” de dúvida e melancolia perpassando toda a obra — católica, ma non troppo. O Dies Irae é, por exemplo, um misto de desespero de penitente póstumo com horror de condenado permanente. É um artista que ourivesa filigranamente aquilo (a Vida Eterna) que para ele nada é senão um mito passível de ser humanamente trabalhado para o deleite psico-cultural dos homens cultos.
  7. Um dos sentimentos mais plenos (mais totalizantes de amor, quero dizer) que nosso coração pode sentir é a cumplicidade. A cumplicidade completa. É ouvir a voz de Deus num poço destapado. Pelo vácuo da queda — distância entre o eu sedento e o fundo do poço onde repousa o líquido precioso –, transita o balde indo-e-vindo. A cumplicidade é este balde, é o balde cheio de água. “Apresso una fontana / Vidi sentar la bella”, canta a velha canção italiana. A cumplicidade carinhosa é, para o dia-a-dia na sequidão mundana, a fonte perene do amor que é capaz de hidratar o “para sempre” prometido no altar. Depois, a reciprocidade entre a língua seca e a fonte limpa: minha língua é para ti fonte e fonte para mim é tua língua, oh mulher. A água brota do coração.
  8. Se encontrares um campo verde, deita-te sobre ele. E se o céu for azul como o azul dos afrescos de Giotto, deitado então no campo verde contempla a vastidão de nuvens incrustada. A paz, aquela que do céu traz o ramo de oliveira, sussurrará as cantigas esquecidas no teu ouvido jovem, as canções que os sábios murmuram apenas no leito de morte, os hinos que cedo embalam os meninos destinados ao ofício de Salomão.
  9. Cada passo em falso leva ao cadafalso.
  10. Alto es Alto (Alba de Tormes es Álvarez de Toledo). Título alternativo para o conto “O Bastardo de Alba”, que nunca escreverei.
  11. Candelabros de prata

Abrindo as trevas da cadeia,

Desaferrolhando celas,

Atraindo luz às ervas

Crescendo no chão de pedra.

  1. O amor é um sortilégio que elegemos na dor.

Esponjas de sol — XXXIV

  1. O homem salvo não estagna na infância, na juventude, na adultez ou na velhice. Ele passa resoluto por cada uma destas fases e elas, por sua vez, lhe impregnam com o lastro das suas virtudes específicas. O homem salvo, eterno, é a um só tempo o melhor da criança, o melhor do jovem, o melhor do adulto e o melhor do velho. Podemos olhar para nossa infância com saudades, mas, se estamos conscientes da realidade da vida, nossos olhos ainda mais brilham quando pomo-los no presente e no futuro — para o além.
  2. Recordo-me bem da primeira vez que fiz, acordado, uma viagem de carro à noite. Eu tinha uns quatro para cinco anos. Olhei e vi do alto da serra as lâmpadas acesas da multidão de postes duma cidade (não sei qual), bem distante e abaixo do nível da estrada. Pensei comigo: “As estrelas ficaram com sono e resolveram deitar na terra para dormir.” Eu não sabia porcaria nenhuma de Astronomia, logo, cientificamente não sabia da impossibilidade gravitacional e física de estrelas baixarem calmamente sobre os montes para uma soneca. Porém, intuitivamente, eu já sabia do poder da poesia, do poder metafísico da imaginação brincando com idéias impossíveis para os adultos, mas possíveis e mais do que reais para a inocência de uma criança ignorante de Ptolomeu, Copérnico, Newton e tutti quanti. Coisa boa!
  3. Abri para ti meus braços, estes laços de carne e espírito, luz e sangue sobre ossos afilados à espera de silêncio e amor. Saí ao mundo, à tua procura, peneirando na mina a loucura entre o restolho e o ouro, na profunda, mineral lavrura.
  4. Um oceano flutuando sobre a terra é apenas uma gota d’água…
  5. Todas as primaveras se vão a cair sobre as campas / E os velhos lenhos quedam solitários ante a chuva, / Que apaga a fogueira dos novos galhos orgulhosos.
  6. A Realidade se apresenta menos emocionante, geralmente. É uma aparição fria. A realidade que queremos (aquela que nos faz sair à cata de pseudo pistas desconexas para montar, através de interpretação confortavelmente enviesada, nossa estrutura credente de verossimilhanças) é ardorosa, quente como o sangue que bombeia adrenalina nos veios cerebrais de nossa lógica vã e alienada.
  7. Diagnóstico duma baladeira: inibição, vergonha e timidez para o amor — para o sentimento; desinibição, desvergonha e ousadia para o sexo — para a emoção.
  8. Os últimos trechos das trilhas e das canções são assim as mesmas notas para pés e ouvidos. Se há triunfo ou derrota triunfal, soam clarins; se há vergonha de vitória roubada, apoteoses; se há qualquer coisa exceto honra, ilusões.
  9. Olhos cegos são os que mais olham fixamente em direção a outros olhos. Não veem, mas são vistos; e por quem são vistos às vezes eles são tidos — e mal interpretados — por olhos enamorados. Na dúvida, procura por brilho, mesmo aquele ínfimozinho que centelha nos cantinhos das piscadelas. Se esses olhos que te olham não detiverem faíscas carinhosas e de ti não fugirem de vez em quando, em pequenos eclipses de afeto, creia: estes olhares demorados nada são senão cegueira que calhou volver coincidentemente seus orbes de carne impotente em direção aos teus, sem saber que teus olhos estavam vivos, límpidos, e… videntes. Anota: às vezes, os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e os “olhos de ressaca” pertencem a uma Capitu mais cega que os três ratos cegos. “Los ojos porque suspiras, / sábelo bien, / los ojos en que te miras / son ojos porque te ven”? Cala-te, poeta, e não sê um maldito Dom Casmurro! Anota.
  10. Interpretação é tudo.
  11. Em matéria de amor, nada pior do que dar certezas e só receber dúvidas. “En la duda, ten la lengua muda”, diz o velho ditado espanhol.
  12. Acorde às 4h30min ao menos durante um dia na semana (sábado ou domingo, se possível). Toma um bom e fresco copo d’água. Vai orar pontualmente às 5h. Ora até que o papo com Ele acabe naturalmente num “até logo!” filial. Permanece o dia todo longe das redes sociais e do frenesi falador do mundo. Encontra um bom caminho e… vai caminhar — fazendas, sítios, valados, campos, enfim, pedaços de terra onde a natureza ainda reina. Jejua, ao mesmo tempo. Permite que o Espírito depure o teu espírito. Fala pouco; se possível, silencia. Ao cabo do dia, quando o horizonte escurecer, para ti as coisas estarão bem mais claras. Recomendo.
  13. Amor leva a sexo. Sexo não leva a amor.
  14. Em matéria de amor, quanto mais uma voz sussurra mais ela quer gritar.
  15. Choro pelos nossos mortos. Porém, mais que pelos mortos já entregues à terra da sepultura, eu choro sinceramente é pelos vivos que ainda estão mortos. A lágrima vertida pela morte física de alguém não pode ser comparada a tristeza da lágrima derramada pela morte espiritual de alguém. “O salário do pecado é a morte”, diz o apóstolo Paulo: morte em vida, sobretudo. Mais que réquiens pelos definitivamente defuntos, é preciso orar pelos mortos-vivos que ainda respiram o ar sulfuroso deste mundo sem esperança de ressuscitar também no aqui-e-agora.
  16. Se eu fosse hinduísta, eis minha contribuição para os Upanishads: Não se diga que o Espaço seja oco como a casca do ovo sem sua clara e sem sua gema, mas que o vácuo talvez seja a própria coisa. A matéria, em si, é um vazio do que resta a mais no Universo.
  17. Não, o porto não te quer agarrado às suas cordas; / A âncora mesma detesta descer ao fundo do mar: / Quer navegar, encostada na madeira de Trafalgar. / Ide ao antigo oceano buscar do universo as bordas.
  18. Com suas obras médias, o crente torna-se um homem ordinário, ou seja, ordenado para o diário. A cada dia basta o seu mal e o seu bem.
  19. Quantos poemas escritos e não entregues, quantos discursos escritos e não orados, quantas palavras ditas no banho, na cama, no silêncio preparador de triunfos [que não foram] da palavra. Quantas palavras germinadas em oculto, nos recônditos do cérebro, nas esquinas da língua, em papéis que viram o crepitar duma fogueira e que jamais foram tocados pelos olhos curiosos daqueles aos quais se destinavam. Mas, quantos assomos de coragem formulados em retórica da mais límpida, em estilo do mais elegante, em caligrafia da mais arquitetada, em sentimentos os mais… bobos! A sina não de bem lidar com as palavras, mas de querer com elas bem lidar publicamente, é esta: a cada verso e a cada parágrafo que teu coração adúltero do teu cérebro põe no mundo, o mundo apresenta-os como provas irrefutáveis, contra ti mesmo, no Tribunal dos mudos desverbados — mudos que, eis o ai!, calham ser vitoriosos no palco do Silêncio besta, cruel e inumano dos tímidos de si. Melhor dizer, melhor escrever, melhor acatar as palavras amantes daquela Palavra: doa o quanto doer. Pange lingua!
  20. Mandando a real: o pessoal vai pra cama facinho-facinho, mas se pela de medo de um “eu te amo!”
  21. Um homem orando sempre se parecerá com aquilo que ele é: apenas um homem orando. Uma mulher orando, porém, sempre se parecerá com aquilo que ela deve ser: um anjo balbuciando seu amor a Deus. Coisa bonita de ver.
  22. A palha, o vento espalha.
  23. Fala muito quando o silêncio alheio for apenas ausência de barulho. Mas, silencia ainda mais quando o mundo resolver produzir falatório. Trata as multidões como vagantes almas fugindo do Seu ambulatório, trata cada dimensão obtusamente sonora como fogo do purgatório.
  24. Intuição: o “formato” do Universo corresponde a um círculo oco como um cano.
  25. Se tu pudesses dar alguns passos para trás, entre o ontem de anos idos e a semana anterior. Se tu pudesses desfazer os feitos lá de trás, como a tapeçaria à noite desalinhada pelo amor. Se tu pudesses ouvir o murmúrio das letras, soluçando discursos prudentemente escondidos. Se tu pudesses alterar do bom tom as regras e então ao canalha chamar “canalha!”, ah iludidos, vós seríeis bem-aventurados com tal revelação.
  26. A consciência, meus amigos… É ela a última instância de julgamento. Nada mais tenebroso que alcançar a idade dos velhos e, já com os cabelos brancos, negar ao próprio eu a possibilidade de não mentir pelo quê quer que seja apenas e tão somente porquê sua alma aderiu a Deus tão profundamente quanto uma gota de água salgada foi descansar na imensidão dum oceano doce. Ficar velho e insensato: maldição.
  27. A vida existe e a existência vive.
  28. Um homem realmente torna-se Homem quando se angustia por aquilo (a virtude) que os outros meramente desdenham e ainda assim tem alegria bastante capaz de fazer-lhe contente, quando sente-se solitário diante do que pensam e gritam as maiorias contra o Bem (a verdade) e ainda assim consegue nutrir silenciosamente seu coração individuado para os dias maus que vêm mais duros, quando prefere as penas terrenas dos chistes e grosserias dos demais por escolher o caminho difícil (a honra) que não aufere lucros mas que ajunta tesouros no Céu.
  29. Força de vontade e auto-domínio: binômio do homem que é Homem.
  30. Nos versos tabacarianos de Fernando Pessoa, esta ária (“Non piangere, Liù”) de Puccini ficaria assim resumida: “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira / Talvez fosse feliz.” A ópera Turandot é um compêndio de psicologia sócio-afetiva.
  31. Decepcionar-se, nesta nossa vida, é condição para atingir a maturidade, é condição para abandonar ilusões pueris, é condição para julgar (com fidelidade à verdade e à sua realidade) o caráter humano. Decepcionar-se é esvaziar-se de suposições, sobretudo. Decepcionar-se é, mesmo com tristeza, agradar-se do descobrimento do concreto que confronta a fantasia e a ficção. Toda decepção inocula em nós o remédio da sinceridade, da sinceridade que devora (para depois regurgitar e cuspir) a mentira. Numa alma sincera, a decepção é o extremo-oposto da esperança: de decepção em decepção, dá-se cabo de quaisquer expectativas levianas. Toda decepção é um livramento divino. Anota.

Notas do Silêncio — I

O silêncio convém apenas a espíritos que mergulharam no profundo da Linguagem. Todos os demais, superficiais na Palavra, precisam do barulho para sobreviver ao próprio vácuo de Significado.

À inteligência convém o silêncio, porque a alma é serena e fluidamente pacífica nos homens conscientes. Ouvi-la, a inteligência, requer atenção sob-espiritual. Sob-espiritual: o fluxo comunicativo entre o homem e a Imagem-e-Semelhança. Uma atenção que dispensa a ação sonora exterior.

Poucos homens prestam atenção aos seus sons corporais. Não distinguem os batimentos cardíacos e são incapazes de entendê-los como correspondentes às batidas das percussões musicais que às vezes lhes movimentam a psiquê. No máximo, ouvem a própria flatulência quando se preocupam com a possibilidade de que alguém lhes tome por broncos incivilizados. Preocupação superficial, cosmética — a-ética. O som dos movimentos dos braços, das mãos, das pernas, dos pés, dos dedos, das articulações e juntas. O som do átomo.

A burrice está para o pensamento como a feiura está para os ângulos. No pensamento, o silêncio é a vírgula da dízima periódica do infinito posto na imaginação.

Estoure todo a energia num boom de nada!

Há níveis sub-animalescos e eles correspondem à anti-espiritualidade demoníaca. Níveis sonoros. O sub-animalesco é o demoníaco, porquê na hierarquia das criaturas ela corresponde à degeneração do mais elevado. Não há animal que não seja, pois, bom. Não há perversão animal. Há, isto sim, graus de perversão humana que a nivela aos animais pelo instinto. O sub-animal, contudo, ultrapassa o instinto (que, em certo sentido, mantém estrutura boa) e desce à degeneração consciente, nivelando o homem a específicos animais — daí, a simbólica dos vícios valendo-se da fauna planetária.

Esponjas de sol — XXXIII

  1. Em 2009, depois de uma decepção das grandes, tomei uma resolução na vida. Ela só me trouxe coisas boas e melhores até hoje. É esta, que subdividi em três preceitos: (I) Aquilo que não puder ser apenas teu, exclusivamente teu e apenas por ti tocado para sempre, não queiras para ti, ainda que te amargures e sofras; (II) Não desejes fazer aquilo que qualquer outra pessoa possa fazer, porquê a tua vocação é só tua e só tu a poderás desempenhar com fidelidade adequada à Providência; (III) Quando existirem muitas e inúmeras possibilidades de escolha, não te decidas por nenhuma delas, afinal, tu queres o melhor, que é uma e única e só coisa — e que sozinha deverá se apresentar ao teu arbítrio. Agora, em 2017, atualizo e adiciono mais esta regra, a quarta: (IV) Estes três preceitos têm prazo de validade ilimitado e aplicam-se a tudo aquilo que na vida te tomar pelo menos meia dúzia de minutos na oração.
  2. O povo reage à realidade, não às explicações acerca da natureza da realidade. Via de regra.
  3. Passei o machado nos treze nós. / O tronco ficou liso para o corte, / Como um broto recém-nascido. / O lar surgiria assim desta morte. / Serrei as tábuas e fiz o quadrado, / Perfeito alicerce para nossos pós.
  4. Se tentares sepultar um jardim, que fim levará cada planta e flor? Ora, renascerão e florescerão mais fortes ainda: porquê de si mesmas volverão. Quando és para ti mesmo um adubo, mais te pareces com Deus.
  5. Troco as buzinas disparadas e os alarmes estridentes pelos sinos que anunciam e badalam o transcendente. Troco o v8 do carro possante pelo cavalo caminhante, trotando elegante como quando marchava às gentes. Troco as ficadas de balada com tantas moças carentes pelo altar silente que me dará a mulher pura ofegante. Troco a taça de cristal do mais caro dos restaurantes pelo fogão à lenha que construiu meu bisavô viridante. Troco as notícias dos sites, nestas internets alienantes, pelo livro de página amarela no sítio quieto dormente. Troco os quatro cãezinhos sofrendo alergias doentes pelas dúzias de cachorros correndo no mato contentes. Troco o filho único solitário aprendendo física ausente pelas três meninas e pelos dois meninos lendo cientes. Troco tudo, toda a glória da civilização dos continentes pela natureza assente duma família livre e consciente. Troco cada parafernália, invencionice e pus atraente pela terra, pela água, pelo ar, pelo fogo dos inocentes. Troco, mil vezes troco, cada falso prazer delinquente pelo gozo permanente de ser gente almal no imanente. Troco o concreto armado de cinza em linhas incipientes pelo traçado original dos tijolinhos vermelhos fulgentes. Troco a idéia oca de igualdade materialista e demente pela sã hierarquia de cada coisa em seu lugar potente. Troco o estrondo do relógio que acorda maquinalmente pelo canto dos sabiás piando seus hinos normalmente. Troco a pressa das paixões que avassalam etereamente pelo amor que se constrói assim lenta e serodiamente. Troco os diplomas das novas disciplinas putrefacientes pelo pergaminho que a Sócrates condenou repelente. Troco a teologia dos clérigos sem a fé de antigamente pela oração daquela velhinha de véu e olhar vidente. Troco, troco já, só não troco o meu eu intransigente por qualquer outra anomalia à maioria conveniente.
  6. Amor é renúncia. Renúncia de barulhos cacofônicos para a conquista de silêncios alternando-se àquela “música só nossa”. Renúncia de diversões sazonais que se repetem igual e indefinidamente, semana após semana, em ganho de alegrias permanentemente renovadas, que se diferem no fruir do tempo fluindo. Renúncia de todas as alternativas abstracionalmente medíocres repousando nas cores estagnadas na paleta em favor da concreta e inspirada criação duma obra prima irretocável pelo pincel humano. Renúncia de todas estas falsas possibilidades estatísticas que são os “contatinhos” em troca de um só e certeiro e decorado número. Renúncia de paixões emocionalescas (que nada são senão modinhas afetivas) por um amor “clássico” — enraizado nos fatos sentimentais que se mantêm desde a Eternidade. Renunciar a todas, em função de uma, é ganhar tudo numa só pessoa. O amor é a renúncia da escravidão a inúmeros senhores tiranos em proveito da servidão voluntária a um só seu e único servo. Homem e mulher que, por e para si, mutuamente, não renunciam ao mundo, renunciam à única possibilidade de terem o mundo depositado em suas juntas, justas e entrelaçadas mãos.
  7. Uma alma forte é aquela que se sente a mais fraca, entre todas, quando vai ter com Deus…
  8. Que é a luz, quando o reflexo é mais sombra que clarão? / Que é a treva, quando a fresta ilumina toda a escuridão? / Escuta-me, porquê o silêncio do universo diz-me dúvida / Enquanto a voz do cosmos brada seu cântico de certeza!
  9. Talvez, nos santos, os cabelos brancos sejam a alma tomando conta do corpo. O princípio, o gérmen da ressurreição! E quanto aos demais homens? Talvez seja o corpo entropicamente tornando-se etéreo, incolor no nada…
  10. Que é sinceridade? É empregar toda a realidade da alma em cada ação.
  11. A alegria do dia. Ouvi uma velhinha cantarolando, com voz suave mas firme, enquanto punha a roupa no varal, o refrão de um hino que, quando menino, eu ouvia e também cantava na igreja: “Fica, Senhor, já se faz tarde. Tens meu coração para pousar. Faz em mim morada permanente. Fica, Senhor, fica Senhor, meu Salvador.” Ouvi e parei, me encostando no poste, atrás do muro da casa dela. Assim que ela terminou, eu disse um amém baixinho pra ela não ouvir e se assustar e, então, fui-me cá para casa. Coisa boa. Coisa bonita. Coisa rara… Minha senhora, dona de nome que desconheço: muito obrigado!
  12. Um gole d’água na boca do trabalhador: quanto mais prazer que nas garrafas todas de álcool engolidas pelo vagabundo!
  13. Uma lamúria ouvia o rei da boca do camponês: contava-lhe como a alma telúrica dos campos estava se esgotando na bolsa cheia do burguês. “Vede, majestade, que a terra que põe a mesa, a tua e a minha, será mais fraca que os bancos?” Assim nasceu o Absolutismo. Generalizações trovadorescas de idealistas, por um lado, legitimadas por idéias maquiavélicas de dominação, por outro.
  14. O país que se furtou a ter Dona Isabel como Imperatriz teve que engolir Sinhá Dilma como “Presidenta”.
  15. Honrar pai e mãe (digo por mim mesmo) é condição indispensável para crescer e se dar bem na vida. Se tu não ouves os conselhos dos teus pais, tu serás cego para a realidade. Apenas quem nos ama é capaz de perceber que sob nosso caminho há alçapões, buracos, arapucas e armadilhas. Se teu pai e tua mãe dizem “filho, não faça isto!”, “filha, não seja assim!”, ouça e obedeça mesmo que, de momento, tu não entendas o porquê. Gente cega — e, pela idade, geralmente, filhos são cegos em relação à experiência existencial dos pais — não tem condições de avaliar se vai ou não cair no abismo. Quem simplesmente avisa, amigo é. Mas quem avisa e instrui aos berros, pai ou mãe é. A gravidade do perigo eminente exige de quem ama não que envie mensagenzinha educada e serena do tipo “se você fizer isto, perecerá, mas a escolha é sua”; exige que se puxe abruptamente o desavisado, com força e alarde, da beira do precipício. Se tu queres ser feliz, honra teus pais. Eles não são “chatos”, “quadrados”, “calhordas”, “coroas” e “ignorantes”: eles são as únicas pessoas capazes de, sabendo quem tu és, impedir que o mundo te transforme numa pessoa fracassada.
  16. Nós nos arrependemos de certos amores, mas nunca dos poemas que eles nos fizeram criar.
  17. Não tenha tempo para as coisas que não têm alma.
  18. Entre o porvir e o futuro, / Escolho o primeiro, seguro / De que o tempo é crente / Na eternidade que recolho.
  19. Há na terra uma tapera, um palácio de madeira, onde os anos eu passaria, lendo e vivendo, amando e vivendo, comendo e vivendo, fazendo a vida e vivendo. Ali, deitado sob o zimbro. Ali, deitado à margem do rio. Ali, deitado com ela sob o luar.
  20. Ou tu te encontras com Deus ou nunca te encontrarás contigo mesmo…
  21. O céu começa no coração; ali, onde o inferno termina.
  22. Quem te vê como Deus te vê? Quem te vê como tu, no íntimo, a ti mesmo te vês? Quem assim te vê, te ama. Porquê vê o quê tu és: vê quem tu és. E quem te vê como o Diabo te vê? A multidão, certamente, tem para ti os mesmos olhos do Maligno. Quem te vê como tu, no íntimo, a ti não te vês? Quem assim te vê, não te ama. Quem assim te vê, sequer te vê: porquê vê a carcaça pseudo-personalitária que está caricaturizada no mundo. Toma nota!
  23. Gênios não têm qualidades próprias de máquinas, estas sim criadas por gênios. Gente que desempenha tarefas fenomenais/extraordinárias à moda “memória de computador”, p.ex., não é genial. É cérebro-maquinal. Não é capacidade (para conhecimento) mental. É armazenamento de dados num hd orgânico; patológico. Gênios têm algumas poucas limitações proporcionais às suas muitas profundidades. Superdotados tem muitas limitações desproporcionais às suas poucas alturas.
  24. Sabedoria é uma tradição experimentada.
  25. O mundo está podre. Escolha não apodrecer com ele.
  26. Amo aquela que é dúvida? Não, já não a amo. Decresce o amor, vagarosamente, à nível anterior. Agora, estão saindo uma a uma as borboletas do panapaná estomacal. E os calafrios são meras cócegas que em si guardam lonjuras tanto do quente quanto do frio. A temperatura ambiente chega com nano-estalos.
  27. Implicância, modalidade de carinho.
  28. A inteligência se desfaz a si mesma quando conscientemente o homem decide acolher a alienação que lhe tolhe o sofrimento.
  29. O mundo está organizado de modo a triturar a inteligência de quem decide desprezar a Deus.

Esponjas de sol — XXXII

  1. O Decálogo é uma espécie de “Kama Sutra” existencial que funciona.
  2. O cristão é aquele sujeito que põe a rotina prazenteira no mundo acima de todas as glórias mundanas. Dou-lhes um exemplo. Se a ele é dado escolher entre (I) erigir qualquer grande obra de genialidade artística tendo sua vida pessoal destituída do prazer ordinário dos comuns e (II) passar seus dias pacificamente amando, casando, criando filhos e morrendo quietinho na cama quentinha depois de uma vida consagrada a labor honesto e anônimo, certamente sua escolha consciente recairá sobre a segunda opção. Não lhes digo que exista oposição entre um estado de vida culturalmente elevado e a pura vida natural do homem natural. De modo algum! Digo-lhes que, se a ele imperiosamente for mandado escolher entre uma e outra vida, é a possibilidade da felicidade originária que o cristão abraçará de pronto. Por que? Porquê no espírito do cristão está o “pó do Éden”, que o dirige — feito bússola magnetizada pelo Céu — em direção ao [Re]Começo Perfeito.
  3. O mundo desabará para ser levantado. Como uma lua de quatro fases apagada, a Humanidade se iluminará de repente, depois, quando já não acreditarem mais em lua.
  4. Dá tudo, nada espera. Sê bom, mesmo que isto te faça algum “mal”. Aceita na tua mente e assimila no teu coração tudo aquilo que acontecer contigo nesta tua vida sob o sol. Nada espera, então, e sê tudo para todos — ajuda-os sempre! Ainda que te sintas desconfortável, faze o bem mesmo consciente de que provavelmente este teu agir irá incomodar teu ego. Meios e fins. Meios e fins: Deus não é maquiavélico. Ele harmonizará todas as coisas em ti, para que sejas verdadeiramente um homem bom.
  5. O mundo está muito raso. E no raso apenas o raso se afoga. Sê, ao menos, um pouco profundo e não te afogarás; e então submergirás o raso e ele aumentará ainda mais a tua profundidade, e assim tu farás mais profundo o mundo e o mundo em ti mergulhará até que um dia, pela sua proporção potencial germinada e com tua ajuda atingida, o mundo retornará a ti abissalmente profundo e tu — ainda que ao princípio tenhas sido maior que ele quando do início desta mútua fluência — finalmente serás como deves ser: infinitamente menor que o mundo e, enfim, tu poderás entranhar-te nas águas da realidade e nadar à braçadas sobre e sob sua imensa superfície.
  6. Quando tu amas e assim amante enxergas na amada um virtuoso potencial que ela própria não consegue enxergar (ou que talvez opaca e vagamente enxergue), muito certamente ela nenhum pouco sofrerá por isto. Mas tu sofrerás por ela — e sofrerás quase sempre com as “mãos atadas”. Isto é uma espécie de amor não correspondido.
  7. Quando eu era menino, pontificava imperiosidades o tempo todo. Dava ordens aos soldadinhos de plástico (não de chumbo — estes eram caros e, por isto, moleque nunca os tive), fazia dos coelhinhos da índia que meu pai criava monstros contra os quais movimentava os tanques de guerra de brinquedo, era diretíssimo e mandava cartinhas de amor às meninas da igreja e da escola, cavoucava os jardins alheios em busca de pedras para a coleção e berrava contra quem tentasse me dissuadir desta empreitada pseudo-mineralógica, brigava na rua e cometia contra meus oponentes manobras dignas dum Clausewitz. Era rei e sacerdote. Fiquei velho (cabelos amplamente brancos aos 28 anos) e, prestando atenção ao meu dia-a-dia, às vezes penso que embestei nestas virtudes: mais quieto, menos dinâmico, mais tímido, menos briguento. Estou camponês e paroquiano. Sabedoria da idade adulta ou entropia da idade infantil?
  8. Uma nação que não tem funerais de estado dignos nunca terá ascensões de estado dignas.
  9. Fugir da aparência do mal é olhar [e neste instante rapidíssimo que nos demonstra a poderosa natureza duma tentação presente-e-quase-futura] e correr.
  10. O caipira diz: “Quem vê cara, não vê coração.” E eu digo: quem vê coração, faz da cara um coração. Se você é um ser desperto para as coisas da consciência e do espírito, logo perceberá, depois do primeiro olhar, que a impressão estética que uma mulher lhe causar logo cederá lugar a uma intuição ética, cujo julgamento afetará a beleza ou a aparente feiura dela — positiva ou negativamente. A bela viola perderá a afinação e o pão bolorento parecerá apetitoso, a depender do âmago das suas cordas e da essência do seu trigo. Tudo isto, metaforicamente, quer dizer o seguinte: os valores de uma pessoa (já depois que a beleza ou a feiura fizerem seu trabalho de atração e de repulsão, respectivamente) refarão cada linha no rosto dela. Se houver virtude na alma, a aparente deselegância facial cederá lugar àquela beleza que vem de dentro, num crescendo encantador. Se houver vício na alma, a harmonia das formas se transformará e nos parecerá muito menos bela e, como tal, muito menos atraente, num diminuendo desencantador. Tanto na alta literatura antiga quanto na baixa expressividade interneteira moderna, esta realidade está bem sedimentada. Se por um lado o livro de Provérbios (11:22) nos diz que “Como jóia de ouro no focinho de uma porca, assim é a mulher formosa que não tem discrição”, os memes do Facebook afirmam o seu “É bonitinho, mas ordinário” no que tange a nós homens sob o julgamento feminino, p.ex. Minha opiniãozinha: o “método científico” do Senhor nos assevera que pelos frutos nós conhecemos a árvore. Aplique-se este método à beleza de alguém, esperando alguns dias, semanas e meses: na face, a disposição das linhas simétricas ou assimétricas será fisicamente a mesma, mas a metafísica da alma não nos engará a médio e a longo (e às vezes até a curto) prazo: as moças menos bonitas nos parecerão lindas e as lindas nos parecerão menos bonitas. A virtude aformoseia o rosto, o vício enfeia. Boileau-Despréaux bem o disse: “Rien n’est beau que le vrai: le vrai seul est aimable”Nada é belo senão o verdadeiro: só o verdadeiro é amável.
  11. Se Elizabeth II pensasse um poucochinho mais na sua dinastia, estabeleceria domiciliarmente netos seus pelo menos na Austrália, no Canadá e na Nova Zelândia e, até, incentivaria que eles fossem coroados reis e rainhas destes países. A Monarquia extra-Britannia está com os dias contados e semear as terras da Commonwealth com o “blaue blut” dos Windsor é sua única tábua de salvação. Mais: e do jeito que andam as coisas pela antiga Albion, se a monarquia não exercer seu papel de Fidei Defensor, os cardos brotarão outro Cromwell para ser seu Defender of the Faith.
  12. Chegará o dia em que o Brasil carecerá dos discursos de um Winston Churchill nascido sob o Cruzeiro do Sul, com português elevado e acessível, com língua forte e elegante, com oratória ardente e sincera. A luta política e bélica que um dia vem requisitará, para nossa vitória, uma verve poderosamente fluente e épica.
  13. O mundo simples, simples de tudo, é este que quero todo dia cedinho. Sol amarelo, céu azul, árvore verde, cada coisa no seu lugar e prontinho. O mundo em que a luz não se perde entre a meia-noite e o amanhecer, o mundo que repete sua novidade, o mundo simples que vai aparecer…
  14. Um ambiente que não melhore tua alma ou que pelo menos a conserve pacificada não deve ser frequentado, a não ser que ali tu sejas o profeta. Ambientes coletivos, sobretudo, onde se adensam as forças biológicas primitivas e seus impulsos mais baixos, não farão de ninguém um ser humano feliz na plena acepção da palavra. No máximo estarás ali neutramente, feito uma garça branca no lamaçal: fazendo inspeções sociológicas, antropológicas, teológicas, espirituais… Ambientes que servem à alienação para esquecimento de problemas, inclusive, apenas adiam a prestação de contas do homem consigo mesmo. Se o lugar e aquilo que acontece no lugar não servem ao gozo do teu espírito em união com teu corpo, dá o fora!
  15. Guarda o teu coração, puro e quieto, longe da mão-espinhal que o dilacera. Guarda o teu coração, limpo e santo, próximo do coração de quem o libera.
  16. Este sentimento de ter nascido em época errada esteve (e está) incrustado no coração de todo homem que foi (e é) chamado a transformar sua época.
  17. Se é indigno dos olhos de uma criança de cinco anos, é também indigno dos teus olhos.
  18. Os sonhadores cansam os acordados com seus discursos intermináveis sobre tais e tais planos, sobre tais e tais detalhes de cada um dos seus planos. Os sonhadores são enfadonhos, mas tais enfados são a glória do mundo, glória que sempre será numa e noutra geração parida porquê definitivamente “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
  19. Todo dia faço perguntas a quem encontro por aí. Hoje, de manhãzinha, perguntei à uma moça (muito bonita, por sinal): “Por que você pensa assim?” Resposta: “Não sei”. Perguntei: “Que pensa de Filosofia?”. Resposta: “Coisa de louco!” Perguntei: “Você gosta de ler?” Resposta: “Odeio!”. Perguntei: “O quê você quer fazer da vida?” Resposta: “Ganhar dinheiro e gastar tudo”. Perguntei (a última pergunta): “Você é feliz?”. Resposta (a última resposta): “Todo final de semana, bebo e transo até esquecer toda a semana. Esta é a minha felicidade.” Este é o retrato da minha doente, fraca e triste geração. Registro, apenas.
  20. O poder humano é a teia hierarquizada dos interesses (maiores e menores) dos homens (grandes e pequenos). Decida-te a não fazer de tua alma um fio vivo nesta teia de morte e ela desabará e, então, tu não serás aranha nem inseto. Tu serás homem livre!
  21. Elias sentiu-se só. E eu, Pai, mesmo sabendo que não estou só, sinto-me só. Fala comigo e traze-me o pão e a carne. Nutre-me com a refeição eterna. Que o terremoto trema a terra do meu coração, que o vendaval tire o fôlego dos meus pulmões, que a saraiva queime minha pele, mas… que ao fim tua voz mansa e suave console meu espírito! Senhor, sabes que tenho coração ingênuo: sou como a criança que a todo dia descobre a inexistência do mito que até a pouco lhe enchia de sonhos. A solitude, Pai, é grande quando nos outros não descubro o mesmo brilho e ideal, quando o que é fugaz e de irrisório valor toma o lugar do sol dourado que resplandece esperança no meu pensamento. Senhor, Tu deste ao profeta a capa e a virtude. Tira de mim a mantinha infantil e costura sobre meus ombros o manto da Tua proteção. E, então, ainda que desabrigado sob a tempestade, ainda que sozinho a peregrinar pelo caminho estreito, dar-me-ás a força do meu pó, o alento do meu sopro, o calor do meu sangue. Senhor, toma para Ti meu eu e faze-o livre da ilusão, livre da miragem, livre da quimera: entrega meu coração à comunhão real de duas solidões. Amém.
  22. Quanto mais distante de Deus, mais sofrerá a pessoa e menos ela saberá porquê. Que deve o cristão fazer diante disto, querendo ajudar? Corrigir com amor, quando possível e oportuno; e orar, sempre e em silêncio. Apenas o Espírito Santo argumentando (e com o sofrimento redarguindo a consciência) poderá despertar o morto. Não é um trabalho humano, para ti. É um trabalho divino que, talvez, possa servir-se de ti.
  23. Se te comove, te diz respeito.
  24. Apenas o pecado desumaniza.
  25. A grande felicidade, a suma felicidade, que é passar todos os dias com a alma pacificada, com o coração pronto e aberto ao bem, com a mente acesa e penetrante, com o espírito desperto para a verdade!
  26. Quem não ama pelas qualidades, se apaixona pelos defeitos.
  27. Quem não deseja as coisas para sempre, sequer as terá momentaneamente. Ou tu pões teu coração na eternidade ou o relógio consumirá tua existência num abrir e fechar de olhos. Quem não deseja amar alguém para sempre, escrever poesia para sempre, comer a macarronada da avozinha para sempre, cantar a música preferida para sempre, enfim, fazer aquilo que de fato toca o coração para sempre, não amará verdadeiramente mesmo que queira amar de vez em quando, não rabiscará nada além de frases desconexas no WhatsApp e compartilhará citações mambembes de terceiros no Facebook, comerá miojo sabor legumes como se fosse o único macarrão do mundo, balbuciará o hit do momento no chuveiro e gritará a música do instante no show. Escolhe ser humano para sempre e Deus se encarregará de te fazer imortal.
  28. Sentir-se tolo, besta, ingênuo, simples, piegas e bobo faz parte do processo de santificação. Tu vês as coisas como elas deveriam ser se a “maçã” não tivesse sido mordida, enquanto os outros veem as coisas como se elas sempre tivessem sido assim e árvore alguma tivesse sido violada.
  29. O preço que se paga por manter a consciência no lugar é alto. É alto porquê conduz ao Alto.
  30. “Para sempre!” — minha expressão preferida.
  31. Perguntaram-me por aí, jocosamente, se eu sou um “santo”. Negativo. Sou um cara cheio de defeitos e pecados. Tenho “la sangre caliente” e melancólica da velha raça castelhana, sou teimoso feito burro empacado, rigidamente prussiano com horários e mais detalhista que mosaísta bizantino, fortemente tentado pela gula da mesa farta e pela luxúria das belle donne, etc. Provavelmente, se o Espírito Santo não tivesse me tomado desde a mais tenra infância e então não tivesse me remido na Alegria, eu seria um bon vivant niilista, dissipador e provavelmente alcoólatra à moda “Tornei-me um ébrio” (lembram da música do Vicente Celestino?). Mas, de mim, nunca poderão acusar a insinceridade, a mentira e a desonra da fala dúbia e atravessada por interesses baixos. Sou da malta publicana do “mea culpa”, não da tribo dos fariseus. Esta (a sinceridade) deve ser minha melhor e mais bem equilibrada qualidade; e é ela que, por isto, me [re]salva de todo o resto — e me faz almejar e lutar, diariamente, pela santidade.

Esponjas de sol — XXXI

  1. É do ar dar à luz seu altar de expansão, sem tudo perder, sem nada cobrar. Dá e ergue ao lúmen o sacrifício do vácuo: geme neste século e a eternidade é tua.
  2. Tua voz, Senhor, ouvi quando a tempestade mais forte caiu, quando trovões e raios de breu e prata luzidos desabaram, quando no jardim os lírios fizeram-se algas do grande Rio. Tua voz, Senhor, era a cantiga que fez ninar toda a Criação; era a melodia que o Bebê embalado recitava para embalar. Tua voz, Senhor, ouvi entre as flechas de energia poderosa, entre as montanhas que sobrevoavam os ares barulhentos.
  3. Luz que ascende ao espaldar de Cristo, o Rei. O inimigo foi da luz o carniceiro e o comedor, até que nos mostrou, então, o Ser seu corpo de terra…!
  4. Quem vence, ergue monumentos altissonantes para o futuro: livros, sobretudo; todas as suas gerações lerão e ouvirão seus discursos explícitos em letras bem discerníveis. As biografias de Grant no Norte. Quem perde, levanta monumentos silenciosos num presente indefinidamente estendido: estátuas, sobretudo; todas as suas gerações mirarão no centro dos jardins e praças a mudez estática do discurso implícito, o discurso do bronze que vai se tornando enigma e arte. As estátuas de Lee no Sul. No meio, entre ambos, outra categoria: o vencedor-perdedor — Lincoln.
  5. Haverá um Moisés moderno, liderando alguma nação de reis e sacerdotes na batalha contra o Globalismo do Anticristo. Parafraseio, ao avesso (e salomonicamente), Menéndez Pidal: Os feitos da História se repetem e o homem que realiza a História é sempre o mesmo.
  6. O Grande Compromisso relacional que Homem e Deus têm entre si é este: compartilhar a mesma Grande Angústia (que em ambos inverte-se no que diz respeito à “agência”). Deus tem a Sua, que é o Homem; e o Homem tem a sua, que é Deus.
  7. O cavaleiro, em régio e alvo corcel, cavalga ao som do clarim prateado. Herói, herói desta terra de mil sóis! Ainda que caia e levante arqueado, é dele a mão que aponta para o céu.
  8. Ao Brasil? Falta liturgia heróica — e cristã. Uns bons hinos marciais e processionais fariam mais pela alma e pelo intelecto do povo brasileiro que trezentos anos de qualquer pedagogia escolar universalizante atualmente praticada pelo Estado. Um “I Vow to Thee, My Country” e um “Jerusalem”, à moda nossa, na boca de meia nação, quase que por si só arribariam nosso moral diante de qualquer grande adversidade civilizacional.
  9. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim terás sempre o fogo que tu me deste: a chama que aniquila a palha e refina o ouro, dia após dia. Eu te prometo, oh minha alma, que de mim não ouvirás queixumes diante da palavra reta que puseste em meu coração: hei de errar de tempo em tempo, mas querendo acertar o alvo que lá no horizonte aconselha-me “ajusta os óculos, ô rapaz!” Eu te prometo, oh minha alma, que meu proceder, ainda que comparável ao das crianças, será sempre valoroso: aos trancos e barrancos, verás que avanço pelo caminho ascendente e reto. Eu te prometo, oh minha alma, que os meus suspiros de paixão nunca haverão de expelir a pneuma divina dos meus alvéolos cerebrais: minha razão é meu sentimento e meu sentimento é minha razão. Eu te prometo, oh minha alma, que a consciência que palpita anúncios e mensagens de Deus aqui no peito, abrirá sobre os montes sua boca e sua língua dirá o necessário. Eu te prometo, oh minha alma, que teu sangue prateado não se poluirá com a covardia uréica da espécie vacilante: ser forte e corajoso é meu propósito contigo aliançado. Eu te prometo, oh minha alma, que não te trairei com vergonhas e iniquidades, que não adulterarei tua densidade eterna e imortal: os relógios do mundo não cronometrarão meus batimentos e passos. Eu te prometo, oh minha alma.
  10. Um dia, a rasidão vem cobrar seu preço. Uma pessoa oca pode ser vazia por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, dá-se de cara com a Realidade e ela, peça à peça, despe o indivíduo fútil das marcas e das grifes que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente nonsense, sem saber porquê, afinal, toda a vaidosa acumulação de roupas, de carros, de jóias e disto e daquilo, vale menos que qualquer sorriso besta daquele cristãozinho caipira e roceiro que deu um “Deus te abençoe!” junto com o pesado saco de batatas que se comprou na feira naquela semana em que a empregada precisou faltar. Uma pessoa supérflua pode ser inútil por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre. Um dia, o ritmo da existência corriqueira é interrompido por qualquer acontecimento (doença, acidente, falta de grana, etc) que a obriga a passar dias e dias sentada, parada, desligada do mundinho que lhe obrigava a comportar-se assim ou assado, adornada assim ou assado, teatralizando assim ou assado: a festança alienante se retira com seus fumos e sobra o ar puro da realidade que impregna a mente até esganar o coração com dúvidas — primeiro com furos nos furinhos, depois com buracos nos buraquinhos e por fim com abismos nas crateras de nada no peito, até que a pessoa berre e esbraveje contra si mesma um libertador “Putz, o que é que eu tô fazendo com a minha vida!” Um dia “cai-se em si” (queda quebradora e esparramadora de crânio) e os valores antigos começam a brotar do chão à partir daqueles pedaços de massa cinzenta da qual se foi abdicando conforme ia-se moldando à turma, à patotinha, à roda escarnecedora das amizades tão irrelevantes quanto os sapatos, quanto as bebedeiras, quanto às baladas, quanto aos camarotes, quanto às ostentações. Um dia, acorda-se (ainda jovem ou de meia-idade ou já velho) e dá-se de cara com Deus e Ele, pecado a pecado, despe o indivíduo superficial das idéias e ideologias triviais que há tanto lhe esganavam o espírito. Um dia, acorda-se completamente blasé, sem saber porquê, afinal, tudo aquilo que dantes se prezava passou a não ter valor, a não fazer diferença, a não botar sentido no calendário. Uma pessoa nula pode ser infrutuosa por algum tempo, mas não o tempo todo e nem para sempre.
  11. O homem natural vive numa gangorra erótica: divide-se, sucessivamente, entre várias mulheres; porquê numas vê a “cavala” que lhe acende o sangue e a carne (o útil, biológicamente), e noutras enxerga a “amélia” que lhe sereniza o coração e a mente (o agradável, afetivamente). Ora deseja a paixão daquela que apenas é capaz de lhe estremecer sexualmente, ora anseia pelo amor daquela que apenas é capaz de lhe apaziguar o espírito sedento de carinho. Quando percebe isto, enfim, quando percebe que esporadicamente é vítima desta [repito] “gangorra erótica”, o homem pode libertar-se e, então, pode conscientemente escolher unir o útil ao agradável: uma só mulher, que lhe satisfaça o corpo, o espírito e a alma. Mas, leva tempo encontrá-la. Leva tempo, mas vale à pena. Leva tempo, porquê “o amor é uma longa paciência”, conforme bem poetou o velho portuga Vergílio Ferreira. O grande ideal da gangorra é equilibrarem-se seus lados — os dois lados da mesma tábua — que descem-e-sobem e, outra vez (lembra quando eras criança?), ficar com os pés suspensos e parados acima da terra, flutuando no ar, porquê ali dois pesos equivalentes transformaram a gangorra em balança…
  12. Tu finalmente saberás que definitivamente encontraste a Deus quando encontrares qualquer pessoa nesta vida e em cada uma delas sentires que reencontraste um irmão.
  13. Fui olhar pela janela porquê latiam os cães. Chovia, e os latidos se sobrepunham aos trovões. Por que cargas d’água tanto cachorro fora da casinha, e da casa, em pleno toró? Ghost riders in the sky… Eles viam o que eu não via.
  14. Sexo ilícito causa extrema irritabilidade.
  15. Entre os salvos, há uma categoria de pessoas que só consegue se afastar do pecado porquê Deus a aproxima constantemente do sofrimento. Quando se diz que “alguns vêm pelo amor e outros pela dor”, a realidade é esta mesma — e tudo vai muito além deste jargão da soteriologia gospel. Tem gente que só se acalma, que só se pacifica, que só consegue viver livre de irritações e violências, quando Deus as faz passar (esporadicamente) por determinadas dores físicas e metafísicas. Pedagogia espiritual.
  16. Ouvi hoje, por duas vezes, os dois sons mais belos que existem neste “mundão véio sem portera”: as gargalhadas de um bebê de colo e as gargalhadas de uma mulher apaixonada. Bach ou Mozart ou Handel nenhum seriam capazes de por em partitura melodias tão elevadas. Deus compõe. Deus compôs.
  17. A liberalidade de dar, de doar, é indício de desapego material. Porém, a liberalidade (que é libertação) de dar-se, de doar-se, é prova inequívoca de apego espiritual. As melhores pessoas que conheci, e que conheço, são aquelas que não apenas estendem suas mãos caridosas cheias de meios a quem precisa de ajuda; são aquelas pessoas que estendem-se com mãos, braços, pés, pernas, tronco, enfim, que com o corpo todo (então, com a alma e o espírito todos) estendem-se total e integralmente a quem necessita ser ajudado.
  18. O teu valor, oh homem, é medido pela gravidade das tuas renúncias.
  19. Tu chegas a ser o que és quando tua maior felicidade individual é… seres quem és! Quando já não quiseres parecer-te com este ou aquele, quando outros não forem para ti modelos, então, finalmente, serás o que és e sempre foste: tu serás tu mesmo, e a alegria de sê-lo te completará de gozo indizível e profundo. Grande gáudio é não querer ser outro, é não almejar ter outra vida, é em ti mesmo teres o prazer de ser — e assim é porquê tu és no Ser, porquê tu és do Ser.
  20. Dentre as três tradições cristãs, a liturgia ortodoxa é insuperavelmente a mais bela e também a mais espiritualmente solene e viva.
  21. A imagem, a alegoria. A arca que pousa sobre o Ararat é lenha para o altar de pedra, que é a própria montanha. Noé e sua mulher, seus filhos e noras, e os animais — são o sacrifício. O sol, no horizonte, é o fogo que não queima nem calcina. Ele aquece a vida que desce do altar e volta para a casa, e volta para o mundo. Sacrifício que respira a salvo o ar limpo e puro, úmido. É o sacrifício da morte, o sacrifício do sacrifício, o caminho inverso do sacrifício: o costume é subir para morrer; ali, desceu-se para viver.
  22. A paz que Deus nos dá, quando nada pedimos a Ele senão que possamos amá-Lo, supera todos os gozos deste mundo. Os presentes graciosos (Sola Gratia!) que Deus nos dá, quando renunciamos às baboseiras deste mundo, excedem nossos melhores e mais inspirados sonhos. A Ele eu sou grato por poder amá-Lo sem “contrapartidas”. A Deus eu sou grato por ganhar tudo merecendo nada. A alegria de agir com consciência livre neste mundo — sabendo como ele funciona — é a maior alegria a que pode aspirar um descendente (resgatado) de Adão.
  23. Quando tu te decidires escolher a Deus e deixares os deuses deste mundo, estes deuses passarão logo a propor-te parceria; se a rejeitares, eles te proporão coleguismo; se o rejeitares, a proposta será amizade; e se ainda esta rejeitares, os deuses propor-te-ão apaixonadíssima sociedade plena com direito a lucros e dividendos nas pilhagens físicas e metafísicas, querendo-te fazer também um deus. Então, se desta proposta também te furtares, tu serás dos deuses um inimigo capital — tu serás para eles um satanás, um satanâs para os diabolos; e, então, serás amigo de Deus; e então serás irmão e filho de Deus. Teu nome, oh Imagem-e-Semelhança, é Philotheos.
  24. Que bela esperança eu queria ter quando o vento levava a lágrima. Que bela chance de o luto conter quando toda obra era arte prima. A Civilização é um container sujo: arca de ouro custodiando merda…
  25. Luz na Babilônia ou trevas em Jerusalém. Escolhe, pois!
  26. Um rato não nasce com o coração de um leão. Se aí dentro de ti as luzes mais escondidas vez ou outra emergem e brevemente faíscam em meio à tua própria escuridão e por um instante o pulso firme da tua consciência esgana a loucura do teu pecado e tu por isto vislumbras o céu clarinho da verdade pacificando teu ser inquieto, sabe logo isto: tu tens uma vocação à grandeza verdadeira. Deixa ela ressurgir no teu peito. Deixa ela germinar no teu espírito. Deixa rugir o leão!
  27. Se tu não entendes porquê teu coração é bobo. Se tu não entendes porquê teu coração é ingênuo como o coração das crianças. E se tu não entendes porquê, ainda assim (sendo bobo e infantil), contra ele se batem toda a esperteza e toda a malícia do mundo, sabe pois isto: o teu coração é “bobo” porquê tens nele qualquer especial pureza, o teu coração é de “menino” cheirando a leite porquê tens nele algo da fé dos inocentes. Se contra o teu coração forças terríveis e poderosas raposeiramente se lançam em guerra, sabe que assim acontece porquê o Senhor te quis provar “para saber o que estava no teu coração” (Deuteronômio 8:2). Tua bobeira é tua grandeza e virtude; ela te dará a suma sabedoria! Tua criançolice é tua arquinha de salvação num mundo velhaco e adultesco à espera de outro dilúvio; ela te renderá a suma santidade!

Que pergunta, heim Luísa?

“Como julgar, de forma completa, a personalidade de uma mulher, com uma só pergunta?” Pergunta-me, justamente, uma mulher: a cara leitora Luísa Schultz. Respondo à partir do meu ponto de vista masculino. Mas… Com uma só pergunta? Impossível, heim! Bom, bem.. Difícil (e perigoso) resumir tudo numa única questão, Luísa. Arrisco, porém. Talvez esta — O que é mais bonito e preferível, num sábado noturno: um jantar sob o céu estrelado do sítio à meia-noite ou a atmosfera iluminada da cidade às três da madrugada no bar?

A pergunta tem uma perspectiva espiritual. De um lado, está o natural singelo, algo inocente e cândido; está a capacidade de aceitação das coisas conforme elas são no mundo original, está a capacidade do maravilhamento de poder viver sob o signo da realidade e também a preferência pelo mistério (algo infantil, certamente) de admirar a realidade. Este espírito bucólico de “volta à casa” numa mulher compreende em medida substancial, ao meu ver, aquilo que se poderia chamar de “aura pra casar” de uma mulher, um certo “espírito de Hera” primordial. Ela pode gostar da cidade, pode morar na cidade, mas sempre terá um apreço idealista pelo campestre. Afinal, a urbe não tem útero. É disto que falo. Se você leu “A Cidade e as Serras”, certamente me entenderá. Por outro lado, está a paixão por Mordor (lembra de Tolkien?), pela civilização maquinária de fumaças e frenesi. Se ela preferir a metrópole simplesmente porquê o cinza das multidões citadinas lhe causa o prazer do movimento e porquê a agitação anônima constantemente lhe insufla adrenalina nas artérias mentais, ela pode ser o docinho de coco mais doce da terra, mas até a beleza dela fica artificialmente afetada e certamente ela envelhecerá mais precocemente. Pode parecer firula e besteira pseudo-psicológica para quem nunca prestou atenção nisto, mas é uma verdade das mais densas. Jung talvez tenha passado perto destes dois simulacros de arquétipos que, sem querer, eu acabo propondo. Entretanto, é certo que a mulher que prefere estrelas puras tem uma personalidade diferente daquela que prefere neóns anuviados — sobretudo se por personalidade entende-se uma macro-atitude básica para com as únicas duas possibilidades de habitat [metafísico-e-físico] planetário. No meio deste caminho entre o sítio no mato e a cidade que mata, há um caminhar patologicamente degradado (no sentido de graduação mesmo: o graduar diminuído) de materialismo e misticismo, pessimismo e otimismo, niilismo e fideísmo, etc. Então, é isto: Personalidade Celeste-Telúrica e Personalidade Atmosférico-Terrena. Como alegorias, inclusive, as duas possibilidades também podem servir para uma diferenciação religiosa da personalidade. Por fim, cara Luísa, ressalto que estas duas categorias, in structura, aplicam-se também a nós homens, mas por meios e questões substancialmente diferentes, diversas e divergentes. Mas tome, cara leitora, tudo isto como besteirol e palpiteirismo de alguém que não tinha resposta melhor para dar assim tão em cima da hora.

Esponjas de sol — XXX

  1. Nunca contei minutos para nada. De que serviria isto? Fazer contas constantes com o tempo, com seus números e vácuo, de nada serve para quem decide correr o “terrível risco” de entregar-se à vida para fazer frente ao tempo fátuo. O tempo é uma palha no agulhal, uma reserva de nada, um rabisco de escuridão enraizada na nuvem, um nada. Vive em Deus, apenas. É preciso que te importes com tua vida, mas cronometrá-la, sendo tu um filho dEle, que É Eterno, é fardo à toda, é imbecilidade, é matemática insubstancial, é nada!
  2. Se tu amas a Deus e tens com Ele uma vida em “jardim”, uma vida interior em que apenas tu e o Senhor dialogam (e da qual, então, está excluído o falatório mundano), a tua alma viverá em paz perfeita e constante. O Mundo desabará em sua própria loucura e ranger de dentes, mas tua alma estará de pé diante da tempestade, toda cheia de consciência e serenidade ensolaradas. Se tu amas a Deus, teu silêncio externo testemunhará este teu diálogo interno e, consequentemente (como é consequente que a água faça brotar a semente), levará consciência aos que te rodeiam e aos que te odeiam, aos que te circundam e aos que te circulam, aos que te escutam e aos que de ti se ocultam.
  3. Pode parecer besta como o cachorro correndo atrás do próprio rabo, mas é isto mesmo: o sentido da vida é existir e o sentido da existência é viver. O teu desempenho metafísico tem valor à partir do fato de que és fato físico e o fato físico de que és ente tem valor à partir do teu desempenho enquanto ser.
  4. As branquíssimas luvas de arminho de Sua Majestade Graciosíssima estão manchadas com o sangue do pequeno Charlie Gard. Sangue carmesim. God save Charlie!
  5. Não é difícil reconhecer uma pessoa insubstancial. Quero dizer: uma pessoa de alma flácida, malemolente, espiritualmente desnutrida, superficial como verniz fino em tronco podre. Basta prestar atenção em como ela gasta o próprio tempo. É batata! E a tempo gasto com qualidade de modo algum refiro-me a “desportos intelectuais” (como leitura e demais modalidades olímpicas da Alta Cultura). Tempo bem gasto é tempo em que a pessoa faz bem verdadeiro a si e aos outros — de dormir corretamente a obedecer conscienciosamente à Lei de Deus, de trocar de canal ou desligar o celular quando baixarias de qualquer tipo vêm tomar atenção a dar um copo de água bem cheio e fresco a um mendigo, de não comer porcaria antes do almoço a não passar os finais de semana mergulhado na lama baladístico-rivotrilizada do mundo. Uma pessoa substancial em si condensa, ao mesmo tempo, autodomínio e destemor, serenidade e galhardia, profundidade e bom humor. Uma pessoa substancial empenha sua vida em ser melhor segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia…
  6. O orgulho das próprias misérias é, de longe, o maior sinal de degeneração espiritual. A pessoa vive irritada e cheia de inquietude, com a alma cuspindo sangue e pneuma, não tem paz consigo e com os outros e, transbordando a própria concupiscência, ainda é iniquamente capaz de rir da retidão e da santidade, debochando [petulante e acidamente] contra a Lei de Deus e Seu Sumo Bem e ostentando soberbamente seus pecados como se estes fossem douradas medalhas de honra ao mérito. Pois é… O Senhor mesmo deu a dica: “pelos frutos os conhecereis.” Mais ainda, disse o Cristo: “Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis.” (Lucas 6:25)
  7. Quanto mais tu entregas tua vida a Deus, mais tua vida a ti mesmo pertence. Quanto mais tu te submetes aos desígnios do Senhor, mais teus próprios desígnios te fazem livre. Glorioso paradoxo!
  8. A Fé em Deus é a gotícula d’água que me inunda, e que por imersão me batiza o tempo todo.
  9. De decepção em decepção, bom Mestre, ensinaste-me a distinguir no firme a ilusão e na mais concreta rocha o núcleo de dispersão.
  10. Entre as visões dos olhares, entre os sorrisos das bocas, entre as coisas sãs e loucas, entre os deuses e os versos, entre qualquer coisa e nada, entre o espírito o os nervos, entre a alma e os intestinos, entre os lírios e as daninhas, entre a janela e o sétimo céu, entre o cérebro e o sanitário, entre tudo e todas as coisas, uma voz meiga vocifera: eu.
  11. O homem que, quando menino, nunca sonhou-se senhor dum castelo, talvez nunca será, adulto, senhor da própria alma. Na infância, enquanto cavava meu fosso e erguia minhas muralhas e torreões à partir da terra molhada retirada no fundo do quintal, eu marcava meu espírito com estas idéias de soberania e liberdade, de valentia e consciência, de luta e paz, de tempo e eternidade. O homem que, quando menino, nunca foi senhor dum castelo, nunca será, adulto, senhor da própria alma.
  12. Um flautim tocou solitário ao meio dia. / Se fosse à meia-noite, haveria contexto. / Mas, não: escolheu o pico do sol e soou. / Soou para anunciar o toque da trombeta.
  13. Sem Deus, nada que é humano pode por si mesmo se sustentar. Do ritmo pulsador do coração aos sentimentos do coração, tudo vira poeira ou cimento (quer dizer, esvai-se para além da própria natureza nas suas opostas possibilidades de ser) se não está lá o Senhor para harmonizar em unidade orgânica e fecunda o espírito à alma e ao corpo. Por isto, bem-aventurado é o homem que “constrói sua casa [sua unidade de consciência] sobre a rocha” (Mateus 7:24) e que é “árvore plantada junto às águas [que bebe da água da vida constante e permanentemente, quer dizer: que se nutre da Alma Divina], que estende as suas raízes para o ribeiro” (Jeremias 17:8). Não à toa, está escrito: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15:15). Sem Deus, tudo que é humano não pode por si mesmo se sustentar.
  14. Escolhe Deus, e a boa dúvida carcomerá todas as tuas falsas crenças — exceto a Fé, real e racional como o teu eu. Escolhe a Esperança, e o pessimismo que mórbido espera o Fim e o teu fim se desfará ao mínimo sinal do sol particular do teu coração quando ele vier abrasar teu ser. Escolhe o Amor e, então, as afeições egoístas e os afetos desordenados e as proporções plúmbeas da tua alma se desfarão em justo sentimento espiritual. Escolhe o Céu, e a Terra perseguirá teus rastros, farejando a vida que escapará de cada existente pegada que caminhardes rumo à Sião. Ora, assim, ao Pai: teus olhos volvei nos meus, Senhor, porque eles despregam as escamas de Treva — estas armaduras de ceticismo! — que me impedem de ver, de olhar, de reconhecer o Invisível.
  15. Alguém disse: “Niilismo é coisa para crianças.” CARAMBA!!! Niilismo é coisa para adultos. Que miserável, desgraçada e infeliz criança já concatenou a densidade oca de um “Assim falou Zaratustra”? A negação do soninho primordial às 15h, o ódio racionalista ao vácuo da Ruffles no recreio, a dúvida pós-cartesiana do “amigo invisível”, a dubiedade entre as versões de mamãe e vovó acerca da natureza metafísica do bicho-papão à hora da cantiga de ninar, enfim, a incerteza de comer papinha sem saber da molecada somaliana, de dormir pra caramba sem saber o que é ansiolítico, de brincar com soldadinhos de chumbo sem saber de Auschwitz e Treblinka? Não. Niilismo é coisa de criança que nasceu adulta e que, por isso, precisa ser mais criança. O Niilismo, filosoficamente, é uma desgraça existencial (uma desgraça muito mentirosa, não obstante a atratividade que exerça sobre espíritos menos ontológicos e mais suspensos). Mas, é coisa de adultos.
  16. Os heróis são estátuas vivas. Apesar de todos os movimentos do corpo e da alma, neles predomina a pausada segurança da Eternidade: parecem estar postados e parados diante dos mares humanos e das tempestades divinas, mas apenas parecem estar postados e parados. Imagem de resolução e sabedoria estáticas, eles vibram tão rapidamente de um ponto a outro [ida-e-vinda do ser-no-ente] do próprio espírito que parecem estar centralizados altaneiramente sobre o globo, plantados e enraizados na terra. É “ilusão de ótica”: eles estão estatuados porque estão, a todo instante, se auto-esculpindo num velocíssimo ziguezague imperceptível. O herói não estagna, temeroso, diante do desafio. Este é o proceder do estúpido que faz-se inerte diante do colosso inimigo. O herói, valoroso, conscientemente escolhe fazer frente a quem e àquilo a que se lhe opõe. Os heróis são estátuas vivas que, mortas, tornam-se estátuas (em bronze, em granito) da vida e… por isto também se movem.
  17. A suavidade das lânguidas mãos da amada

Deixou do cálice dourado três gotas cair.

Titubeou té da borda reluzente se ir esvair.

Um’a terra absorveu. Outra da boda o altar

No alvo tecido sorveu — linho cor de marfim.

A terceira, lanceada, esta pousou em mim:

Na língua que o pão já havendo ceado ali,

Foi descansar do sangue a sua vera parte.

E aqui, nestes versos, celebro-a em arte.

Oh, doce gota do espinho em dor vertida,

De Adão a velha sede cessou no coração.

O eu que me destes é Tua maior adoração.

  1. Não há dúvidas de que, popular e culturalmente, o Nazismo cresceu sobretudo em solo protestante. Por que? Ainda não sei. Perda do místico diário? Talvez.
  2. Uma das coisas mais imbecis no “jogo do amor” atualmente dominante é o fato do interesse amoroso ser aguçado ou despotencializado com base, justamente, no grau positivo ou negativo de interesse do outro. Explico: se aparenta ter sido “fácil” a aderência à pessoa, esta desconfia do apego e o repudia empinando o narizinho com um ar do tipo “se gostou de mim, boa coisa não é”; porém, se se distrata e se desdenha com boas doses de desprezo (então, é-se “difícil”), ela imediatamente fica gamada e, com o rabo entre as pernas, se humilha e corre atrás porquê “se não gostou de mim, boa coisa é”. Esquisita necessidade de rejeitar quem aceita e de aceitar quem rejeita. Em suma, entre bestas quadradas, fazer-se de difícil ou parecer-se fácil afeta completamente o julgamento do outro — atraindo ou repelindo. É um julgamento irracional, que descarta por atacado sem crivos de realidade individual, como se o valor da possibilidade de relacionamento repousasse neste “cartão de ouro” cujo maior preço é o da mais bem teatralizada repulsa e cujo menor preço é o da abertura menos dificultosa ao amor (o da atração pura e simples). Balzac nos ensina: “Parler d’amour, c’est faire l’amour.” O que é, é: age por que é e não reage pelo que não é. Conselho oportuno: menos orquestração abstrata de carências (entre baixa e alta auto-estima soberbas) e mais realidade afetiva e efetivamente palpáveis, pessoal.
  3. Em tempos de correção, o Brasil deveria bombardear Míraflores e todas as bases-fortes principais venezuelanas. Sic semper tyrannis! [5.8.2017]
  4. Refazendo Mateus 21:13: “A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de arquitetos.”
  5. A beleza de uma mulher boa aguça e potencializa, com amor, a inteligência do homem. Eis a “mousa” (a musa). A beleza de uma mulher má faz imbecil, com paixão, até o mais elevado gênio. Eis a “femme fatale” (a mulher fatal). Estão aí toda a Literatura e História dos milênios humanos para prová-lo abundante e fartamente. A beleza, então, que é, em matéria de atração, senão uma consubstanciadora do espírito? Da “bela viola” haverá de sair boa música e o “pão bolorento” será dado em ração aos porcos. A boa irá, contigo, viver até que a morte os separe; a má, contigo e talvez com outros, mastigará teus anos até que a existência os separe. Salvação e perdição pela beleza.
  6. Um pouco triste sempre serás se teu coração a verdade quiser deter. Mas, olha, que a alegria viverás mais que todas as gerações ao nascer. Um pouco triste sempre serás se teu espírito afiado e decidido viver a guerrear contra o vil Satanás. Maior gozo e júbilo é em paz morrer.
  7. O barco viking é uma iluminura de madeira.
  8. O Estado não compõe o Estado. A Sociedade, esta sim, é chamada a compor o Estado. Por isto, também contra o financiamento público de campanha.
  9. Para o gênio, aprender o errado é dificílimo. Ele se parecerá com um asno dos mais chucros quando tentarem lhe ensinar besteiras e tolices escolares e universitárias — por mais alegadamente “científicas” e “acadêmicas” que elas sejam.
  10. Nimrod, de Elgar: partícula de Eternidade que calhou desabar no Tempo, música-tema para um sermão sobre o Kairós na vida de santos e heróis.
  11. Não restará uma única basílica, uma única catedral, um único santuário, uma única igreja, uma única capela quando vier o “Dies Irae”. Os afrescos da Sistina se despregarão do teto ardente, o Muro dos Reformadores cairá para não se levantar, a Hagia Sophia se auto-implodirá como Jericó, enfim, todo velho altar nosso se desfará para que venha “Siló”. Nosso coração arde de zelo pela “Casa de Deus” — pelo templo –, mas tudo isto é aqui figura passageira. Tudo se fará novo um dia. Antíoco sacrificou um porco no templo. O Inimigo sacrificará o próprio templo. Recorda, recorda.
  12. O mundo é uma espécie de bolha de pedra, que infla petreamente, e que vai estourar petreamente.
  13. A vida não se compromete com quem corre de compromisso. Se tu queres viver, então, corre de quem corre de compromisso. Corre quando te forem ofertados apenas uma noite, apenas um fim de semana, apenas algumas semanas, apenas uns meses, apenas um ano ou mesmo apenas um bom punhado de anos: corre quando te forem ofertadas algumas miseráveis e esvaentes calendas da existência. Corre de quem não quer “viver a vida” toda amorosamente comprometida, porque não quer entregá-la definitivamente à outra vida — e, então, fazer de duas vidas uma só vida para sempre. Corre, porque nada que valha a Eternidade tem o começo tão próximo do fim, com prazo de validade materialmente prescrito feito rótulo de comida congelada. Sem compromisso (com juras de boca e de coração) que almeje passar do mármore quente do altar ao frio granito do sepulcro? Corre! Sem compromisso (com juras em ações e reações) que deseje desgastar vagarosamente o ouro da aliança na pele do dedo anelar envelhecendo? Corre! Sem compromisso (com juras para si e para ti) que entronize o amor a Deus como avalista permanente do amor conjugal? Corre! Quem não se compromete para o amanhã, anota, apenas promete o hoje. Compromisso é lealdade, sabes? Corre como Forrest Gump, corre como Fidípides, corre como deve correr o atleta cristão. Dura é esta palavra: a vida se compromete com quem corre para o compromisso.
  14. O mundo, senhoras, deveria estar assim organizado para o valor vos louvar, mas as trevas e a ignorância e também a ânsia da maldade, do pecado e da amorosa injúria, arranca da maioria imensa a merecida loa. Pois aqui este homem vil e à toa eleva rimas e versos à vossa formosura.
  15. O porco e a jóia de ouro, o porco e as pérolas: a comparação entre o baixo e o elevado, entre a miséria e a riqueza, entre o pecado e a virtude. Mas, será metal dourado o tal ouro e branco-prateada a pequena bolinha preciosa? Não. É seu inverso: é a terra úmida e fértil, a terra que não é o barro lamacento… do porco! É a humanidade original resgatada: o rio passa sobre o leito, mas, onde o chão de pocilga?
  16. Eu ouvia já tantas belas palavras, mas qual haveria de comover-me se tanto virtuosismo e preciosismo atiçavam-me com retórica e desejo intelectual sem o mínimo traço de sinceridade, sem o mínimo rastro de espiritual verdade no coração? Do púlpito, Senhor, tanta grandeza arqueológica, tanta apologia científica, tanta prova e indício e sinal de que o Escrito era sim realidade. Mas, Senhor, onde Tu? Onde, naquele jogo bonito de fraseados com seus efeitos tão potentes à emoção, Tu? Onde? Em vão eu Te procurava nos testemunhos da lógica racional. Crente, não duvidava. Mas, duvidava: porquê incrédulo no âmago do que dizia-se de Ti e do Teu passeio por aqui. Sabia-Te existente, o Ser. Mas, onde Tu? No grego da semântica, no latim da acepção, no aramaico do vernáculo — não estavas. Eu Te encontrei, Senhor, naquele dia em que oito mãos ergueram o caixão de meu avô e sob o velho sepulcro depositaram um antecessor de meu pai, um antecessor meu, um antecessor que será de meu filho que um dia vem. Reconheci-me no pó de carne fria, de sangue frio — pó frio. O Teu plano de salvação para os dois anos de meu avô, o Teu plano de salvação para as muitas décadas de meu pai e o Teu plano de salvação para toda minha vida. O silêncio da beleza fúnebre converteu-me. Ali a ressurreição fulgurante; e ali pude tocar tuas chagas, oh Senhor de mim e Deus de mim. Então, naquele tempo de quatro velas e coroas de flores e lágrimas mal colhidas em lenços amarrotados, a Tua voz que eu não podia escutar no púlpito dos doutores, na sala-de-aula dos mestres, no valado igrejal dos pastores, a Tua voz eu escutei: Vem para fora!
  17. Apenas a luz reconhece (e pode conviver com) outra luz, enquanto as trevas entre si mesmas se desconhecem em cegueira dual e antagônica (porque nenhuma treva é igual à outra e uma escuridão não pode se ajustar à outra). A luz que encontra a treva ou a ilumina, compartilhando de si a incólume partícula flamejante capaz de acender fogo no breu vacuoso, ou se desnuda, fulgor a fulgor (penumbrando-se, ao mesmo tempo), até que acabe também treva. O “jugo desigual” referido por São Paulo em II Coríntios 6:14 é isto e só isto.
  18. Conforme tu avanças na vida espiritual, tu avanças em discernimento acerca das coisas visíveis (a humanidade, porquê horizontal, entre elas está) e invisíveis (aquilo que tem poder, vertical apenas, sobre a humanidade). Compreenderás a profundo — o interno — as coisas que afetam o homem pelo que ele mesmo é e compreenderás a fundo — o externo — as coisas que afetam o homem para ser o que ele ainda não é (divinas e boas ou demoníacas e más). Então, decifrando-as sob a tutela do Espírito Santo, tu te tornarás um enigma para todos. O chaveiro exímio tem chave para todas as portas, mas ninguém tem a chave que abre sua porta, a porta da chavearia. A tal lugar se chega quando, primeiro, tu sabes quem és. Como Quixote, tu deves antes verdadeiramente dizer “Yo sé quién soy” para que, então, depois, efetivamente digas: “Eu sei quem sois!”. Recorda, a propósito: “Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido.” (I Coríntios 2:15)
  19. A medida que se perde o alto sentido de Deus, o homem perde seu próprio sentido interior e, então, se entrega à busca dos baixos sentidos no mero nominalismo que o mundo exterior chama “sentido”: o nada, o nada excruciante.
  20. Moço, moça — jovens do Senhor: é preciso que tenhais a coragem salvadora de mirar nos olhos de quem vos enamorais e, então, em breve ultimato espiritual, dizer: se tu não amas a Deus, não poderei amar-te!
  21. Cristo crucificado, Cristo morto, Cristo ressuscitado: espírito, alma e corpo.

Provérbios à moda salomônica III

  1. Quando dança o sábio lhe tomam por louco, mas dançando o louco ninguém presta atenção.
  2. Quando desce o sol, desce também o trabalhador à sua cama. Mas o preguiçoso com a lua põe-se de pé.
  3. A morte do justo pranteia o justo, mas morrendo o iniquo pranteia todo o povo.
  4. Aborrece seu pai e entristece sua mãe o filho que não deseja para si gerar filhos e filhas.
  5. Um prato de dor é o adultério: um pão suave de formas, mas que ao paladar é sangue pisado.
  6. A voz do arauto não será ouvida quando invadirem os inimigos se sua boca a todo tempo profere mentira e diz “foi brincadeira”.
  7. Doce é a uva e amargo o fel, mas o profeta ao amargo prefere quando deve guardar-se das corrupções da mesa do rei.
  8. O canto da congregação alegra os justos, mas aos rebeldes enche de furor.
  9. A palavra do justo empenhada diante do profeta mais vale que todas as reses do rei no altar do sacerdote.
  10. Se dormita o vigia, perece todo o povo; mas, se dorme todo o povo, perece o vigia e também todo o povo.

Provérbios à moda salomônica II

  1. O vinho alegra o coração do sábio, mas confunde o pensamento do insensato.
  2. Sepultura para sua família é o mal proceder dos seus moços.
  3. No caminho do jovem há deleite quando seus passos avançam pela vereda dos antigos.
  4. A jornada do iníquo logo acaba no deserto, mas a peregrinação do justo aí se inicia.
  5. Mais puro que a água das montanhas é o coração daquele que teme a Deus e guarda seus estatutos.
  6. Quinhão de formosura acrescenta à própria beleza a mulher que teme ao Senhor.
  7. Na reta senda da justiça caem as pedras dos maus juízes.
  8. O fruto doce que se colhe antes do tempo constrange a língua e enfraquece o corpo.
  9. Flor que não desabrocha é a reta intenção que a concupiscência desorienta.
  10. Como voz solitária entre trombetas altissonantes é o conselho do velho sábio exilado em corte estrangeira. Mas, a ela o rei escuta.

Provérbios à moda salomônica I

  1. A faca de ouro destroça a espada de prata, mas o gládio de bronze com ambas arrebenta.
  2. Como vento sobre o roseiral, assim é a respiração do justo quando tomado de cólera.
  3. A gargalhada do iníquo, a risada do gentil e o sorriso do justo: água da mesma fonte.
  4. Como um pequeno buraco no casco de um grande barco, assim é a nódoa no espírito do príncipe.
  5. Brasa vermelha na língua do falador é o boato que dele se espalha.
  6. Como águia cega no alto da montanha, tal é o homem de ciência sem sabedoria.
  7. Como fonte de água salobra que engana a semente, tal é a língua do astuto que do engenho das suas palavras persuade o símplice.
  8. Mais alto que a montanha mais alta é o pensamento do homem cujo pensamento é seu trabalho.
  9. No caminho escuro e vazio encontraram-se a tocha, a lâmpada e a fagulha. Qual delas é a maior?
  10. O rico e o pobre trabalharam juntos durante toda a ceifa. Assentaram-se, depois, numa mesma mesa. Um pão da flor da farinha para o rico e um pão de cevada velha para o pobre. Ambos se fartaram.

Esponjas de sol — XXIX

  1. Tu exercitas teus pulmões e mergulhas no profundo mar para — sob o risco de morte, na dor do ar que te petrifica a respiração sob a pressão das águas frias — recolher tantas centenas de conchas e entre estas colher uma ou outra dezena de pérolas para cuidadosamente obrares um refinado colar para a mulher que tu amas. E ela, que faz, galardoada? Joga o precioso presente a um canto, enquanto muito se exaspera desejando as ordinárias coleiras caninas que outros lhe vendem caro. Está aqui o significado da exortação evangélica que manda não deitar pérolas aos porcos. O Senhor quer que gastes tuas forças em tão bela e heróica empresa. Não quer Ele, porém, que tua dedicada obra seja rebaixada à condição de bijuteria suína.
  2. Não gastarás tua poesia com quem tem alma de lama. Não gastarás as belezas do teu espírito com quem compra molduras para a feiura do mundo. Não gastarás tua voz que ora aos céus com quem se deleita em ouvir a gritaria da terra. Não gastarás teu olhar que terno transpassa o cosmos com quem apenas vê globos oculares lascivos. Não gastarás teu amor com quem mastiga afetos como Baal canibalizava os fetos hebreus. Não, não te gastarás com quem quer passar pela vida como a frouxa flatulência duma hiena moribunda à meia-noite. Não gastarás tua vida que aspira a Deus com quem respira o enxofre do próprio eu. Não, não te gastarás com quem não quer escrever a história própria e do mundo e, antes, prefere apodrecer junto ao calendário que a existência a todo tempo troca. Não. Não gastarás. Não te gastarás.
  3. Muitas das coisas mais bonitas e gostosas desta vida são as coisas que menos parecem deter beleza, que menos parecem ser capazes de gerar gozo. Digo, então: só quem está atento aos pequenos detalhes e minúcias do dia-a-dia é capaz de fruir certas delícias existenciais. Uma pequena lista, minha: o café que minha mãe passa às 6h, o som da voz das pessoas que quero bem, a lambida da cachorrinha e o afago ronronante da gatinha, o caminho semeado de cheiros (a construção, a praça, a padaria, o rio) até o trabalho, o bom dia sincero e o bom dia insincero (este último, me ajuda a melhorar até extrair da pessoa gentileza verdadeira), etc, etc, etc. Só vive entediado quem é incapaz de obter poesia extraordinária da prosa ordinária.
  4. Senhor, minha igrejinha é uma catedral. Está lá, no velho púlpito de madeira, a cátedra donde o Espírito doutora. E o alfarrábio do teólogo acaso sabe que no coração daquela senhorinha gemem mistérios dourados e loucos? Eu vi, Senhor, quando o pardal voou por cima das cabeças nossas e pousou no tanque de batismo de fria ardósia. Eu vi, Senhor, porque os olhos da ave, mirando a ceia na mesa toda posta, correram pelas ovelhas e se fecharam. Quem já viu passarinho com os olhos cerrados? Quem já viu a meditação de um serzinho de asas? Senhor, minha igrejinha é uma catedral. É uma escadaria de poucos degraus que me arremessa, feito estilingue de luz, para a terra suspensa no ar.
  5. Se uma coisa aprendi até agora, é que, em amor, fugas físicas (de passos para trás a caretas) correspondem justamente ao oposto do que materialmente parecem demonstrar: são sinais de paixão contrariada.
  6. Todos nós temos fome. Mas, o principal sobre a fome é a comida. É, própria e especificamente, o valor nutricional e prazeroso da comida. Veja: tu estás com uma fome avassaladora que te prega o estômago nas costas, uma fome felínea de leão jejuando no deserto. Aí, vem o capeta e te oferece todos os cachorros-quentes que tu podes comer (com Coca-Cola) em cinco míseros minutos. Comê-los implica, anota, em pagar seu preço: tua bússola. E a vendedora é uma sensualíssima capetinha de rabo vermelho! Porém, a sete quilômetros de caminhada está o sítio confortável, está a aldeia onde está o poço em que Rebeca retira água, está a mesa dos parentes diariamente cheia de arroz, feijão, ovo frito, bife, bata frita, salada de alface com tomate e suco de limão. A sete quilômetros do hot-dog do tinhoso está Rebeca. E Rebeca está, bem-aventurada, à mesa. Esta é a minha metáfora sobre amor e fidelidade.
  7. A genialidade dispensa bibliografia. Ela apela ao Real, não à estagnada manuscripturação da realidade como argumento para provar a si mesma.
  8. O Anticristo é a sombra de sua própria sombra.
  9. O caminho antigo que contei a ti / Quando íamos juntos pelo Minho, / Ele antevê o futuro final que vem / Quando o começo ainda é vazio.
  10. Os poucos pássaros que vi revoarem o céu / Corriam para o Leste em fuga do novo breu. / O colorido das penas em relance desapareceu / Diante do sombrio cinza que cindiu todo eu.
  11. O espelho mostra o que tu de ti demonstras.
  12. Tu, que não tens a Deus do nascente ao poente; tu que não tens a Deus desde quando soubeste que algo em ti te magnetiza em direção às coisas que acontecem nos céus, porque decidistes volver para baixo, para a terra, os olhos; tu que não apanhas da Eternidade um pouca da paz iluminante nestas borboletas depositadas, antes, caças os escaravelhos mofados nas tumbas antigas. Tu… és um louco!
  13. Para cada passo, um caminho de quilômetros se abre. Não decidirás por impulso, portanto. Mede teu pulso, mede o latejar das tuas sinapses, mede o espaço entre uma pegada e outra. Para cada passo, um caminho de quilômetros (talvez perigoso atalho) se abre. Não decidirás, portanto, impulsionado por corridinhas que serão maratonas ao cabo, infusionado por carreirinhas que serão peregrinações ao final. Para cada passo, um novo destino se fixa.
  14. Quando a Basílica de Santa Sofia / Voltar para o Altar de Cristo Jesus, / E quando na Terra de Santa Cruz / A Constelação roer no pendão o lema, / O Deus dos Exércitos nos dará a Guerra.
  15. O Credo de algumas igrejas há muito que superou em loucura o Credo dos Apóstolos do “Not the Nine O’Clock News”…
  16. O Manuscrito Voynich me parece ser uma peça de erudição criativa que amalgama ocultismo cientificista, alquimia, cabala e ficcionismo imagético-literário. De modo que apenas quem o escreveu saberia dizer-nos o que ele significa ou o que não significa ou mesmo se ele significa, propriamente, alguma coisa além dum engenhoso organismo semiótico.
  17. Tu, que sonhas sonhos tão altos, não percebes tua tolice? Tu não vês que o olhar humano não poderá romper os céus? As estrelas e a lua ao centro do teu coração, apaga da alma! Apaga enquanto a ilusão não te encarcera no calabouço das nuvens, apaga enquanto a sublimação não te arrasta para o lírico sótão abissal. / Eu, que sonho sonhos tão altos, percebo a tolice da tua razão. E vejo que meus olhos cortam os siderais do infinito ao além. As estrelas e a lua ao centro do meu coração iluminam-me a alma. Ilumino para que não haja “enquanto”, para que ele dure como o castelo do conto; ilumino para que o momento seja eterno como os corais da Natividade, que ainda cantam.
  18. É próprio do amor fazer tolice, mas não é próprio da tolice ser amorosa.
  19. Há muito de errado com um mundo onde a poesia já não toca o coração das mulheres e onde o heroísmo já não move o coração dos homens. Há muito de errado com um mundo onde o encanto, o charme e os olhares versificados já não entram no jogo da conquista. Onde as damas? Há muito de errado com um mundo onde a valentia, a honra e a dignidade não fazem do homem um sujeito pronto para os combates épicos. Onde os cavaleiros? Infelizmente, as mulheres estão dispensando a corte dos generosos de espírito em benefício destes farrapos humanos que mal conseguem galináceamente piar nos terreiros azonados da existência. Infelizmente, os homens estão dispensando a virilidade espiritual em detrimento destas hedonistas pseudo-conquistas boiadeiras, passat-rebaixadeanas e funknejas da existência. Há muito de errado com este mundo — que não quer viver.
  20. Quereria ensolar-se nos prados frios, / Sabendo que o gelo é pai dos calafrios / E que o gene do calor não é da estrela / E que o ancestral do fogo não é o sol.
  21. Dela amei a sombra grandiosa, / O potencial dourado e fulgente, / Aquilo que nela era pura luz. / Outra trigueirinha escuridão…
  22. O vai-e-vem da vida são badaladas de améns ao Pai. Tu és um sino.
  23. Pensamento existencialista dum profeta: O conhecimento das coisas que ainda não são, não terei jamais enquanto respirar aqui, aqui. É preciso que meu espírito se exercite quieto entre o relógio e os quereres dos que vivem. É preciso que meu espírito caminhe silencioso até que descubra em si mesmo a final canção.
  24. Não argumentarás com energúmenos.

Esponjas de sol — XXVIII

  1. Três mandamentos que adoto e aconselho que adote quem quiser levar vida livre e piedosa: I. Perdoa tudo a todos sempre, com coração sincero e humilde. Isto não só te libertará da violência da tua própria alma quando ela for injustiçada, mas te fará um abrigo de graça divina para a redenção dos próprios injustos. Com isto, de Deus também alcançarás melhor perdão e terás um espírito pacificado; II. Livra-te de todo melindre acerca do julgamento do mundo. O que importa é tua consciência diante de Deus, o que importa é tua conduta terrena aspirando à Eternidade, o que importa é tua ação reta e varonil; III. Nada espera de ninguém, senão que esperem de ti o melhor. Tu realmente não deves esperar bondade ou maldade das gentes, em suma, não deves esperar quaisquer coisas (benéficas ou maléficas) de quem quer que seja, mas espera, isto sim!, que de ti esperem todas estas boas coisas. Sê um exemplo para os exemplares, um exemplo para os inexemplares e um exemplo para os sem exemplo.
  2. Uma vida bem vivida é uma vida bem escolhida. Nossas escolhas atuais serão nossas alegrias ou nossos fardos futuros. Cada cabeça, uma sentença, e, a cada sentença, um juízo existencial inalterável. Por isto, quando fores decidir isto ou aquilo para “agora”, não te esqueças que tal decisão redundará nisto ou naquilo para “depois”. A tua semeadura será a tua colheita e a tua colheita — deliciosa ou detestável — será o teu alimento para todos os demais dias que viveres sobre este planetinha ordinário. Escolher é a força-motriz da tua glória venturosa ou do teu infame fracasso. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser via para o Céu ou atalho para o Inferno. Escolhe, pois, o teu caminho, certo de que ele poderá ser mesa de fartura no deserto ou fome seca em floresta tropical. Escolhe, pois!
  3. Chorar o leite derramado é, definitivamente, grande tolice, se não for para prevenir futuros “derramamentos”. Seja o leite uma gota solitária ou o fruto da ordenha de toda uma manada, o pranto será infértil se for mera manifestação emocional de sofrimento e não for tratado como deve ser tratado: uma oportunidade de padecer pedagogicamente para, no futuro, não derramar o leite (ou, se derramá-lo novamente, não chorar tanto).
  4. Chegará o dia em que me cantarão os anjos um réquiem. Eu saberei e direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor! Mas Tu, ao meu lado e ao lado do féretro meu, cantará também, cantará tão bem: “…et perducant te in civitatem sanctam Ierusalem.” E eu centenário já, no corpo prestes a volver ao pó; e eu, recém-nascido em leito de carne gloriosa, direi: isto é tão belo e tão imerecido, Senhor!
  5. Não existe grande amor para toda a vida que não seja acompanhado de pequenas e de pequeninas gentilezas diárias. No tempo, o amor é um micro conta-gotas que adiciona e subtrai diariamente suas nano-gotículas de carinho.
  6. É na liberdade que se prova qualquer amor. E é na ausência dos olhos que se prova o valor e as ações de quem ama (ou, mais frequentemente, de quem deveria amar, de quem diz amar). Ser incapaz de lealdade é ser incapaz de amar. Amor, teu sobrenome é lealdade!
  7. Vinte e oito anos é a minha idade. E desde os seis anos (logo depois dos meus cinco) eu vou tentando continuar a ser aquele “niño frente a Dios” que então sonhava com anjos jogando futebol e que agora, bem acordado, ora um “sólo le pido a Dios” para que os homens joguem menos futebol e pensem mais no mundo dos anjos.
  8. O maior sinal de infelicidade é o frenesi de querer ocupar o tempo. Minha geração é também infeliz por isto: porque, não tendo consciência da boa vida que escorre quieta no dia-a-dia, se aferra no ativismo desesperado de “fazer alguma coisa” o tempo todo, para não ter que olhar-se, em silêncio, diante do espelho ou para não ter que conviver consigo mesmo um ciclo de 24 horas completas. São incapazes de passar um dia livre consigo mesmos, porque senão adoecem em tristeza e depressão. Por isto, ocupam-se com frenesis barulhentos (talvez eles abafem o megafone da realidade que pulsa desespero no peito, certo?). Vide a dinâmica perversa duma balada: um poço de carências altissonantes, de traumas dourados por pose e enrijecidos pelo álcool que lhes amolece as almas. Não percebem o vácuo de significados que lhes martela a cabeça quando vocês vão dormir as 5 ou 6 ou 7 da manhã? Ouçam este bobo: vocês não serão felizes enquanto não olharem para a existência com aquele olhar que vocês tinham quando passavam “domingos medíocres” comendo a macarronada na casa dos avôzinhos, brincando com os primos a tarde toda, dormindo sossegados das 10 da noite às 10 da manhã, pondo o pé na terra onde a bola rolava e a cabeça no céu onde a pipa voava, esquecendo das necessidades do ego que lhes obriga a mostrarem-se o que não são (felizes, vocês não são). Ouçam este bobo, pelo amor de Deus e por amor a vocês mesmos.
  9. Dizer coisas bonitas não importa muito para o amor: fazer coisas bonitas, sim, importa muito para o amor. Mas quando fizeres coisas bonitas dirás inevitavelmente beleza. Impossível que tua ação não crie seu reverso em palavra.
  10. Tudo bem, os calendários se acabarão / E os relógios um a um pararão silentes. / Tudo o que conta o tempo e o mastiga, / Tudo o que anuncia em número a vida, / Tudo bem, isto no mal acabará um dia. / Os marcadores se desfarão no inferno / E sobrará, total, na terra a eternidade.
  11. O horizonte caminha comigo de ponto a ponto. / Se lhe volto as costas, ele gira e caminha comigo. / Se os meus pés são meu particular promontório, / Se o meu caminhar é meu limiar para o tempo, / O horizonte nada pode, senão caminhar comigo.
  12. A pedra de toque de qualquer pessoa são seus olhos. Nestes dois órgãos repousam toda a complexidade e toda a simplicidade humana: vê-se tudo ali, no movimento do globo e no fulgor da íris. “Olhos d’alma”, disse algum poeta anônimo. Deus proveu aos percebedores e sensíveis que pudessem perceber e sentir o quanto, às vezes, a palavra falada contradiz a palavra guardada no fundo dos olhos, o quanto aquilo que passou pela língua e pelas cordas vocais contraria o dito no profundo dos olhos.
  13. Oração de um velho patriarca ortodoxo georgiano: “Oh, Deus Eterno, aqui dos meus altos anos, canto-te estas palavras em voz vacilante, mas ouve-as mesmo assim, porque se a língua fraqueja é inda pronto meu coração. Oh, Deus Benevolente, Tu que consagraste-me a este ofício, dá-me Tua piedade e estende sobre minha alma Tua mão. Oh, Deus Pastor, Tu que és verdadeiro e vê nua minha mente, dá-me para que bem use o Teu cajado. Sê pai para mim, meu Pai. Dá-me a Ti, dá-me para Ti. Sê calor para meus pés frios neste inverno. Oh, Deus Santo, fazei-me santo a cada copo d’água e a cada cálice de vinho que eu der de beber aos teus santinhos. Isto te pede este teu servo, pequenino e suplicante. Ouve-me. Amém!”

[Assisti Ilia II cantando (https://www.youtube.com/watch?v=HuWAkADPV4Q). Não tenho a mínima idéia do significado das palavras cantadas, mas é isto que me caiu no espírito.]

  1. As piores angústias espirituais da existência, creio, passam os velhinhos que tiveram vida juvenil e adulta dissipada. Vi isto no olhar de alguns idosos num asilo. A pele enrugada (e fria) sente rolar a lágrima quente e o silêncio retoricamente discursa: “O que eu fiz da minha vida?”
  2. A palavra gera a ação, o abstrato gera o concreto, o metafísico gera o físico: “As más conversações corrompem os bons costumes.” (I Coríntios 15:33)
  3. Ou a vida será esta aventura que pregam os teólogos ou ela será esta lama animada que pregam os biólogos. Mas, vede, que se é uma coisa ou outra, porque a escolha? Se tu optas pelo caminho metafísico, serás nele feliz. E se escolhes perambular pelo físico, serás nele infeliz. Neste andar mesmo já se entende, já se compreende tudo.
  4. O indefinido é a rabiola “visível” do infinito.
  5. A angústia é um sentimento fenomenal. Ela é um choque distendido de consciência. Só se angustia quem tocou com o pensamento verdadeiro nalgum sentimento verdadeiro, fazendo com que ambos se chocassem, unidos, contra pensamentos e sentimentos falsos (mas tidos por verdadeiros) acerca da realidade — coletiva ou particular. A angústia te obriga à avaliação do mundo e à reavaliação de si. A angústia é uma graça do Espírito Santo; é uma agente da metanoia.
  6. Briga (não debate filosófico-teológico, importantíssimo, que é bem lá outra coisa) de católico com evangélico é uma das coisas mais contraproducentes não só em matéria espiritual pessoal, mas é, mesmo, questão de sobrevivência civilizacional coletiva do Cristianismo. Os fanáticos islâmicos quando matam cristãos não perguntam antes se eles são romanos ou protestantes, não diferenciam teologicamente tradicionalistas de calvinistas e carismáticos de pentecostais quando explodem bombas em igrejas. Basta chamar Cristo de “meu Deus e meu Senhor!” que te cortam a garganta, seja você copta, adventista, ortodoxo ou mesmo um “desigrejado”. E vocês, aí, infantilmente se “matando” com seus porretes e estilingues? O nome disto é fratricídio, meus irmãos!
  7. Questões teológicas e doutrinárias podem certamente levar o Papa, o Arcebispo de Canterbury, o Patriarca de Constantinopla e o Pastor de Wittenberg para o Inferno, mas, muito dificilmente, levarão os simplórios fieis (que ocupam bancos e que amam a Cristo e que apenas esperam viver quietos em Deus a “verdade” das suas igrejas) quando estes se põem a debater acerca de tais assuntos sem muito estudar e saber, infernizando seus irmãos.
  8. Vida boa é aquela que, espiritualmente, concentra em todas as suas fases, momentos e instantes todo o seu sentido, toda a sua completude e unidade de significados. Quando se tem um norte bem calibrado na alma, todos os acontecimentos existenciais (sobretudo as agruras) são “felicizadas” por este sentido que é Sentido, por estes significados que são Significado. É como se pululassem “paraísinhos de logos” a cada passo consciente; paraísinhos às vezes lacrimosos, inclusive, mas paraísinhos que apontam e fazem sentir o Paraíso do Verbo. Vida boa, porém, só se obtém quando se está determinado a preferi-la a tudo.
  9. O enorme contingente de maus católicos no Brasil deve-se ao enorme contingente de maus padres do Brasil. O grosso dos católicos nacionais não sabe o que é o Catolicismo porque seu clero brasileiro também não sabe o que é e, quando sabe, esconde o que é porque prefere uma visão mais “soft” de moral.
  10. A rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos.
  11. Qualquer religião subsiste sem inteligência (capacidade de apreender “as coisas visíveis e invisíveis”, certo?). Até a seita “atéia-teen” do Monstro do Espaguete Voador pode ser levada a sério. O Cristianismo, porém, existe-na-Inteligência porque emerge da própria Realidade: nele, o senso-comum (tão odiado, porque naturalmente cognoscível, pelos petulantes complexificadores) é capaz de fazer as vezes do Q.I. até mesmo na Mula de Balaão.
  12. Em termos de Pedagogia extra-escolar (doméstica, pois), sou da opinião de que não se deve bater de modo algum em crianças como meio de punição. Os pais devem, isto sim, amá-las tão fortemente que a simples demonstração de desaprovação por eles seja para seus filhos o maior e mais temível dos castigos. Castigos físicos apenas criam medo, não respeito verdadeiro. Impedem malcriações e erros morais (até certo ponto) pelo trauma inconsciente, não pela consciência livre. No entanto, para isto, a família deve ser singularmente sólida: pai e mãe devem ensinar pelo próprio exemplo de retidão, de caráter e de espírito elevado. E isto começa com um casamento igualmente bem instituído entre marido e mulher. Difícil? Mas é este o caminho, o caminho do amor que — por ser amor de fato — dispensa varas, chinelos, palmadas, socos, tabefes e toda sorte de barbárie em nome da correção legalista.
  13. O poema “Quadrilha” de Drummond é, no contexto do amor natural, a suprema realidade relacional.
  14. O único e grande medo que deve atribular nossa alma é o medo de passar pela vida como se ela fosse apenas existência: deixando pegadas de símio milenarmente envelhecido (do parto ao cemitério) e não o eternal legado de ser humano (da concepção à ressurreição).
  15. A renúncia cristã consciente (não a traumática da ascese dos fanáticos que em tudo veem pecado) é paradoxal: logo após, ela nos premia com o superlativo qualitativo das coisas quantitativamente renunciadas. Vem o mundo e te oferta uma coroa dalgum reino expansionista; vem Deus e te concede a soberania da tua alma. Vem o mundo e te oferta um harém de musas e ninfas deliciosamente inférteis; vem Deus e te concede a esposa, bela videira de seios frutíferos. Vem o mundo e te oferta uma mesa de finos manjareis palacianos; vem Deus e te concede o “pão nosso de cada dia” que mais saboroso fica conforme mais se trabalha por ele. A renúncia cristã que é, então, senão a renúncia de prazeres concentrada e temporalmente etéreos (cujo impacto imediato não passa dum polvilhar atômico de ilusões muito densas) em benefício de verdadeiro prazer permanente? A renúncia cristã é ganho de verdadeira, de verdadeira alegria!
  16. Nem tudo o que não brilha não é ouro.
  17. Tu trocas o certo pelo duvidoso quando, sucessiva e decrescentemente, duvidas da certeza. A certeza se esvai gradualmente quando olhas para trás — onde está o desejo abandonado.
  18. Pouca gente quer escalar a Grande Pirâmide de Gizé. Pouca gente quer pedalar sua bicicleta na Grande Muralha da China. Pouca gente quer voar de balão sobre o Saara. Pouca gente quer singrar mares e oceanos e caminhar pelas planícies e planaltos e pelas montanhas do planeta. Pouca gente quer comer na marmita dos berberes, na prataria dourada dos czares, na porcelana fina dos nipônicos; na verdade, pouca gente quer comer as comidas da terra. Pouca gente quer compor, quer escrever, quer erigir, quer pintar, quer esculpir, quer filmar. Pouca gente quer namorar, quer noivar, quer casar e quer gerar filhos. Pouca gente quer ser gente e perscrutar a Humanidade com suas obviedades patentes e seus mistérios insondáveis. Mas, ainda assim, há esta pouca gente que não é “pouca coisa”. Louvo a Deus por este pugilo de homens e mulheres que, ainda que poucos, diariamente salvam o mundo da pouquidão.
  19. Nunca obrigarás alguém à nada. Nem (e sobretudo) ao Bem. O que se faz coagido não tem valor espiritual e moral algum. Afinal, não é feito em função da consciência livre; mas é feito pela necessidade desalmada de cumprir um “requisito” externo ou de ceder à uma retórica molestante. Pergunta e aconselha: propõe, mas não impõe. Respeita as decisões alheias com severidade.
  20. Se diariamente tu te sentes mal porque és e pensas e acreditas em ideais mais elevados e tens em ti sentimentos e “aspirações altas e nobres e lúcidas” e o mundo não te compreende e as pessoas te olham de soslaio, dê-me a mão: tu és mais um dignitário desta invisível confraria de peixes fora d’água. Não te sintas mal por sentires aquilo que o coração de Deus também sente — esta angústia de querer ser bom. Sente, antes, o Bem que o Senhor depositou em ti: este bem de querer ser aquilo que Adão deveria ter sido, este bem de querer tocar o Ser por detrás do Ente, este bem de honrar a tua consciência podendo olhar reta e diretamente no fundo e no profundo dos olhos de qualquer ser humano. Não te entristeças. Te alegra, sobretudo, te alegra porque és e pensas e acreditas…
  21. Agora, que os pastos estão secos na terra acinzentada. / Agora, que o pastor está jogando às chamas seu cajado. / Agora, que tu és a ovelha perdida na noite mais escura, / Que farás senão ansiar por sacrifício a Deus no templo?
  22. Homem, as coisas para as quais tu diariamente vives honram a morte do teu Senhor?
  23. Nós homens somos naturalmente mais “abrutalhados” (o que não quer dizer menos preparados) para o amor. Mas, que coisa terrível e monstruosa é uma mulher insensível ao amor?
  24. Se prestares atenção mais meditada e pela intuição medida, perceberás que nas pedras há qualquer coisa de misterioso. Mistério místico e transcendente? De modo algum: mistério imanentíssimo, porquê mistério que revela a necessidade de constituir verdades aparentes. Erigir pirâmides, altares, totens e construções sólidas que nos ultrapassem no tempo… A rigidez da pedra talhada é uma concretização das nossas certezas abstratas, porque existem e existirão e superam e nos superarão?
  25. Sintoma número 1 de infelicidade disfarçada com entretimento: inquietude.
  26. O Trump tem lá o lema dele. O meu, para agora (já que o inglês engoliu o francês, que engoliu o latim), é este: make the West great again!
  27. Entre o dogmatismo ideológico do ferro enferrujado e a liquidez descompromissada da diarreia subjetiva, goteja eternamente para o alto o mercúrio cristão.
  28. Dizer que a idéia de “vida eterna” deriva necessariamente do desejo auto-conservativo de prolongar metafisicamente a existência material (contra a morte), equivale a dizer que o paladar deriva da mastigação deleitosa do nosso prato preferido.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 4 (e última) – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

X. Quando tu tens certezas certeiras para tua vida, não podes te submeter às incertezas desacertadas: quando tu tens um futuro mais ou menos posto por Deus no horizonte, não podes jogar tudo a perder por paixão em si mesma. Por isto, haverás de aprender a diferenciar um “rabo de saia” altamente sedutor de uma mulher para a vida toda, a diferenciar Dalila de Raquel. Talvez quererás que a Raquel do ideal seja a cavala Dalila de carne-e-osso que atiça teu âmago todo santo dia, que a mulher adequada para tua vida elevada seja aquela que vive ali e lá uma existência rebaixada que “bate com a bunda no chão”. Talvez tu mesmo te auto-enganarás com artimanhas piedosas: mentirás para ti mesmo inventando desculpinhas evangélicas de conversão e liberalidade para com aquele docinho de coco requebrante. Provavelmente, não terás condições imediatas de discernir se Luísa (ou Helena ou Beatriz ou Ana Clara ou Fernanda ou outra de nome outro) é uma Raquel ou uma Dalila, porque Dalilas também podem parecer-se com mulheres com disposição mental para uma vida profunda a dois, podem frequentar a tua igreja com ar de graça divina, podem ser pudicas beatas de quatro costados ortodoxos e, inda assim, serem Dalilas nervosinhas, Dalilas com piriguetice histericamente recalcada por escrúpulos pseudo-religiosos; ao passo que a moça danada — cabrita levada — pode carregar dormente no peito desabotoado e na cabeça avoada tal profundidade de riquezas que a ti pertencerá o garimpo, a fundição e a ourivesaria — a ti pertencerá todo o processo de mudança, de melhoria, de transformação, da metanoia dela. Por isto, anota bem: discernirás a Dalila nem tanto através das estéticas caricaturais, das imagens prototípicas, dos estereótipos 8-80. Discernirás Dalila na revelação silenciosa do dia-a-dia, quando perceberes que ela retira tuas forças morais, que ela mina tuas forças espirituais, que ela extrai tuas forças de ser e sentido e te faz alguém pior diante do Senhor; o teu coração sofrerá exaustões, padecerá fraquezas e anemias a ponto de te distanciares do Bem Maior, o Bem Maior que te chamou à uma vocação de Eternidade. Se não construir vida em ti, crê: estas diante de Dalila e deves largar mão! Quando for Raquel, a tua Raquel verdadeira e única, ela provocará em ti o tesão que Dalila costumeiramente provoca (que apenas e só isto provoca, anota também): teu corpo se fartará, mas se fartará porque também se fartam teu espírito e tua alma. Recorda aquele verso de António Machado: “No mar da mulher, poucos naufragam de noite. Muitos, ao amanhecer.” O mar de Dalila e Raquel é o mesmo. O que muda, o que tanto muda, é que Dalila vender-te-á, para que nela tu tentes navegar, uma canoinha com o menor e mais imperceptível furinho no casco (pelo qual irás a pique, mais cedo ou mais tarde); ao passo que Raquel dar-te-á para cada dia a nau necessária para singrá-la. Ela confirmará certeiramente tuas certezas e será tua companheira no horizonte diurno e noturno. Tu também terás que escolher o teu eu: serás para ela Sansão ou Jacó?

Esponjas de sol – XXVII

  1. Sexo sem amor é como sabor sem nutrição: você mastiga (você come), mas não se alimenta. A língua se extasia no paladar endorfínico, mas o corpo não recebe as proteínas, os nutrientes e as vitaminas. Não é outro o motivo causador dessas multidões de anêmicos (de carentes) ambulantes, que procuram diariamente nos buffets palacianos aquilo que apenas os pratos da rotina serena podem propiciar. No pensamento, o pessoal não quer amar e se casar no altar e então ter filhos (porque isto, afinal, inibe certos cardápios de prazer); mas no sentimento, deseja ainda a praxe encantada e pragmática do semanal amor romântico à moda arroz-com-feijão-e-ovo-frito-e-bife na mesa larga entre os tios e tias, primos e primas, irmãos e irmãos, pai e mãe, avôs e avós. As carências desta geração — dos homens e, principalmente, das mulheres — derivam disto: batata frita é coisa boa, mas dela você apenas tem os pluri-multi gostos das mil lanchonetes que frequenta, onde come todas as espécies de batatas fritas (das chips inglesas às bratkartoffel alemãs), mas onde também logo após as cospe anoréxicamente, fatia à fatia. Não crê que está hora de encontrar a “batata frita tradicional” de algum antigo fogão caseiro e, na mesma mesa por décadas a fio, mastigar, comer e se nutrir daquela que, entre todas, será definitivamente “a melhor batata frita do mundo”? Pense nisto.
  2. Dada a atual conjuntura das nações, a única forma de evitar uma guerra [definitiva?] entre Ocidente Cristão e Oriente Islâmico é a rendição incondicional do primeiro ao segundo. Caelum denique!
  3. A situação das nações ocidentais [cristãs] frente ao Globalismo ficará tão terrivelmente perigosa para suas soberanias que, para defenderem-se de um poder global centralizado, monarquias precisarão ser instauradas/restauradas e-ou “ditaduras” à moda romana (caveant consules!) deverão surgir para concentrar poder eficiente na luta contra o Anticristo.
  4. Os ingleses de outrora cantavam os versos de William Blake — Jerusalem — nas suas pelejas nacionais. Hoje em dia, sussurram Imagine e sopram bolhinhas de sabão.
  5. ONU? Anathema!
  6. Os sinceros são quase sempre ingênuos. Nós cremos que os outros depositam nas palavras que saem da boca a verdade que está lá dentro deles quando eles falam e dizem. Particularmente, talvez minha sorte consista em que, não obstante ser sentimentalmente ingênuo, não o seja intelectualmente. Aquilo que me abala o coração pouquíssimo comove meu cérebro — forte com a alma que o envolve. Afinal, quando se está de fato interessado no conhecimento “das coisas visíveis e invisíveis”, não se é pego de supetão no pensamento e aquilo que pega de surpresa no sentimento logo é simbioticamente aderido à razão e apenas vem servir como mera e posterior comprovação prática da realidade teórica anteriormente sabida. Deus julgará a História da Humanidade e as histórias e as estórias de cada um dos homens e, então, sinceros ou dissimulados, ingênuos ou velhacos, o tudo de todos virá à luz. Alegremo-nos quando o Senhor resolve aluminar um poucochinho das coisas encobertas no dia-a-dia, gotejando homeopaticamente a verdade com o conta-gotas do Espírito Santo.
  7. Nossa consciência diante de Deus vale mais que o mundo inteiro. Todo o resto é dispensável como o são aqueles pequenos pontinhos amarronzados que encontramos nas fechaduras dos banheiros públicos: é dispensável como são dispensáveis as fezes de um mosquito.
  8. A biografia de Henrique VIII é um denso líbelo contra o adultério e pecados conexos. Ana Bolena foi amante do rei enquanto este era casado com Catarina de Aragão (excelente esposa, acabou seus dias piamente depois do divórcio década depois) e, quando esposa, acabou decapitada a mando dele sob a acusação de adultério. Joana Seymour foi amante do rei enquanto este era casado com Bolena e, depois enquanto esposa, morreu sofrendo num parto difícil. Catarina Howard foi amante do rei enquanto este era casado com Ana de Cléves (que não foi amante de ninguém, por isso também sobreviveu década ao divórcio) e, já esposa, foi decapitada a mando dele sob acusação de adultério. Ele se casou ainda uma sexta vez com Catarina Parr, que sem frequentar as alcovas indecentes do rei antes de ir com ele ao altar, morreu velha e em muito sobreviveu ao marido. E o luxurioso rei Henrique, que a todas estas traiu regular e concomitantemente? Sifílico, enlouquecia ano a ano; carregado de dores lancinantes nas juntas, nos ossos, nos órgãos, no espírito. Basta dizer que seu corpo morto, cheio de putrefação gerada em vida, explodiu no caixão. Pouco, para aquele que ainda martirizou tantos e tantos e também martirizou a Thomas More. “O salário do pecado é a morte”, diz lá o Evangelho.
  9. Os príncipes Ricardo e Eduardo, os “Príncipes da Torre”, creio que foram mortos por Henrique VII (também assassino doutros tantos pretendentes à coroa). O quanto padeceu existencialmente a descendência do Rei Tudor interpreta “constelacionalmente” todo o caso.
  10. Não me agrada em absoluto a idéia de uma dinastia estrangeira governar um povo no qual não está imantando seu espírito e sua alma e seu corpo. Podem passar séculos, mas o assento do trono sempre está aquecido.
  11. A Sinfonia n.o 1 de Rachmaninoff: densamente bela, como o último (e consciente) gole de vinho de um bêbado antes da conversão — a conversão que lhe permitirá cear o “sangue”. Visceralmente escatológica, profundamente augúrica.
  12. O pessoal se esquece, recorrentemente, que o mesmo Deus que erigiu o Céu para os arrependidos também criou o Inferno para os impenitentes. E lá não é lugar “de pranto e ranger de dentes” apenas para demônios e teletubbies (que sequer têm dentes)…
  13. Quisera poder agarrar cada filho-da-puta e canalha libertino pelo pescoço e torce-los como se torcem na roça caipira os pescoços das galinhas para o caldo dos doentes. Quisera poder, diante de tanta malícia e leviandade, aos socos quebrar um a um os dentes dos velhacos labiosos. Quisera, com espada na mão, retalhar “pichações de ferimentos” nas costas e frontes dos cafetões que levam moças de bom coração para o mau caminho. Quisera açoitar cada destruidor de lar em praça pública, diante da assistência de outros tantos bons pais de família. Quisera capar cada depravado mal encaminhador de meninas ingênuas com a lâmina que deu cabo dos cães que mastigaram a carne de Jezabel. Quisera buscar pedras no topo do Ararat para lapidar o crânio de todo e qualquer malandro assaltante de inocências e fragilidades femininas. Quisera… Mas, olho para tua fronte, oh Cristo!, e já não quero… Quero, já agora, que tu enxugues toda lágrima e que céus e terra passem o mais rápido possível. Quero que sofram! Ah, isto ainda o quero. Mas já não o quero para vingar cóleras e iras. Mas já não o quero para fartar-me de justicismo visceral e impiedoso. Quero que sofram para que acordem desta profunda letargia, para que estas consciências cauterizadas te ouçam através do megafone do sofrimento e, então, parem de sofrer e de fazer os outros sofrerem. Quero — desejo e anseio — que cada um destes seja “entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.”
  14. Dignidade espiritual implica em estar livre o suficiente para, de si mesmo, contar as pequenas verdades inconvenientes com o mesmo ímpeto e glória com que se anuncia as grandes verdades lisonjeiras acerca de si mesmo. Nenhum verniz, nenhuma superficialidade de pseudo “bom tom” ou de “desculpinha para não pegar mal” é capaz de anular no homem que está se fundindo (sem se confundir com) em Deus a verdade de mostrar-se falho também nas coisinhas mais nânicas. Ora, tu xingas aqueles que te irritam com o barulho da mastigação? Tu tens medo de altura como aos cinco anos de idade tinhas medo de escuro? Tu és desastrado a ponto de quebrar copos e pratos toda santa semana? Pois é. Sou eu. Somos nós todos, com ou sem a indignidade de importar-se em deixar estar na reclusão das aparências da vida estas pequeninas falhinhas da nossa humanidadezinha.
  15. Quando crianças, nós temos todos os sonhos do mundo. Adultos, mas não menos sonhadores se conscientes da existência, a gente chega à conclusão de que o dourado celeste dos sonhos não vale tanto à pena quanto por as mãos no vermelho sujo da terra: a terra que é a perpétua memória presente e constante da [nossa] realidade. A realidade — nua, dura e crua — é um sonho que se escolhe sonhar se nós nos despimos daquilo que São Paulo chama “coisas de menino” e, então, resolvemos construir os abrinquedados castelos de areia com o barro conspurcado do mundo.
  16. Com meu pai, aprendi como se deve tratar uma mulher. Com minha mãe, aprendi com quais tipos de mulher não devo tratar. Com meu pai aprendi quais tipos de homem não devo ser: não ser, sobretudo, um abutre “secando” a presa desavisada no alto calor do deserto para comer-lhe as carnes e depois jogar a carcaça numa montanha de ossos. Com minha mãe aprendi quais tipos de “mulher” aceitam ser destratadas por aqueles tipos de “homem”: aceitam ser uma bisteca suculenta pendurada no gancho de aço do açougue a espera da gula sem paladar dalgum filho-da-puta ruminador de corações. Em suma, aprendi a não ser um bostinha obsessivamente materialista. Com meu pai aprendi a ser homem integral como ele o é — varão cristão, todo honrado, plenamente bom. Com minha mãe aprendi a valorizar e querer sumamente bem a uma mulher integral como ela o é — varoa cristã, toda elevação, plenamente bondosa. Com meu pai e com minha mãe aprendi (e eles aprenderam dos pais e mães deles) que certos valores fundamentais — eternos e permanentes num mundo fugaz e passageiro — não se transigem de jeito maneira. Aprendi que as coisas boas não são fáceis como o Facebook, não são baratas como o Instagram, não são veniais como o WhatsApp. Aprendi que a vida boa não é superficial e que um casal a sério só se forma a sério e só permanece formado a sério com valores sérios. Não há coisa mais séria que o Amor. Não há valor mais elevado que o Amor. O ordinário das baladinhas suadas e alcoólicas que acabam atrás do banheiro químico não me interessa. O ordinário com o qual os neanderthais raveanos pós-modernos estão acostumados não me interessa. Podem me chamar de reacionário, de conservador, de quadrado, de antiquado. Eu sou das antigas mesmo. E é isto. E Feliz [resto de] Dia dos Namorados pros cêis.
  17. O auge da maturidade é saber escolher conscientemente entre dois (ou entre vários) caminhos; é ter a capacidade de agir livremente ao apontar para as rotas de existência e dizer “quero isto!” e “não quero isto!”; é ter senso de proporção qualitativa para com suas possibilidades de vida no Mundo e, a partir dos critérios para si e por si em Deus estipulados, o indivíduo dizer acerca de sua atuação na Realidade justamente aquilo que nos diz, exortando, o célebre poema de Henley (Invictus): “Eu sou o mestre de meu destino: eu sou o capitão de minha alma.” Só é maduro o suficiente para ser feliz quem é capaz de deslizar por entre os poderes construídos na própria alma pela Queda. É maduro quem derruba estes poderes. E é maduro quem se levanta por sobre os escombros da “arquitetura do desejo” que o Contexto erigiu em seu próprio espírito e, desde o quase nada, recomeça as obras de “engenharia da vontade” que farão de si mesmo esta Obra: ser um Ser que é imagem e semelhança Daquele que É.
  18. Curioso. Os dias cinzas de frio tem qualquer coisa de proximidade afetiva e intelectual com o Eu e com Tempo. Preste atenção em como nossa rotina fica mais consciente, menos atrapalhada, mais retilínea, menos anárquica: como nossa rotina fica mais “entre-pautada” por nós mesmos — nos dá sensação de maior individualidade (talvez porque o calor mais próximo seja o nosso). A gente põe a cabeça pra fora das cobertas com uma sensação de que o mundo lá fora tem qualquer coisa que nos é estranha; coisa que, quando a temperatura é mais alta, nos faz mais do que nunca pertencentes ao mesmo mundo da grande massa material fundida e confundida. Os dias cinzas de frio nos afastam dos objetos e da matéria alheios aos nossos próprios objetos e matéria, meio que nos retro-catapultando para o calor telúrico primordial que habita nosso peito. Curioso em como, nestes dias cinzas de frio, o tempo se parece mais com algo que passa efetivamente (mas com destino fixo, com um fim mais conhecido). Curioso em como, nos dias quentes de calor, dias mais coloridos — ou mais amarelos, laranjas e vermelhos –, o tempo se parece mais com algo que não passa senão no calendário, um calendário que apenas marca a insignificância de segundos, minutos, horas, dias, meses e anos. Em dias frios, o tempo é uma linha quilométrica e nós discernimos (porque nos ensimesmamos) seu começo e sentimos que caminhamos até seu fim. Em dias quentes, o tempo é um novelo quilométrico e nós mal sabemos (porque estamos diluídos nos coletivos existenciais) se há de fato começo, meio e fim e mesmo mal sabemos se há de fato um novelo. Curioso.
  19. Com o perdão da palavra, mas… em adultos (critério cronológico válido para homens e mulheres) rebeldia e porraloquismo é coisa de criança mal desmamada. Não há nada de transgressor em mostrar o dedo do meio para os pais em casa e para o mundo inteiro no Facebook e vomitar — entre cuspes vociferantes — suas opiniões birrentas “na cara da sociedade” como se elas constituíssem um novo decálogo para a salvação de nós outros. O tipo “rebelde sem causa” já era um saco em tempos mais ideológicos (aqueles que pariram hippies para Woodstock e pichadores para as paredes das catedrais parisienses em Maio de 68), mas, agora, em tempos de dissolvência digital, estes idealistas de dedo em riste são ainda mais chatos; mais chatos porque sequer têm, propriamente, qualquer coisa para chamar de “minha opinião”, por mais lesada que ela seja. Ô… fio, ô… fia: o dedo do meio significaria alguma coisa na mão de Winston Churchill (o qual, contudo, preferia o “V” armado pelos dedos indicador e médio) e na mão da Iron Lady Thatcher (que costumava apontar para seus amigos e inimigos com o indicador); mas, na sua mãozinha bem nutrida pelo trabalho dos pais que você despreza, isso é apenas um tosco sinal de falta de educação e de burrice caricaturalizada. Transgressão das boas, transgressão verdadeira, é postar-se diante de um tanque de guerra na Praça da Paz Celestial, é dar sua vida nas florestas do Congo para pregar o nome de Cristo, é compor uma sinfonia à Shostakovich num meio musical que ainda aplaude minuetos afrescalhados, é… fazer, construir, erigir, levantar, criar… é ser densa e orgulhosamente humano quando já poucos têm coragem de abraçar a Realidade, mesmo que aos prantos. Mostrar o dedo do meio para as câmeras até um macaquinho mamando é capaz de mostrar, certo?
  20. Sobre a tal profecia contra Reuel Bernardino, apenas uma única palavra me interessou, dado o bradado “Homem, a tua capa vai cair!”: Quetzal. Em língua proto-nahua (asteca, vá lá), quetzal ou quetzalli significa “manto sagrado”. É o nome de um pássaro; nome que, em grego (pharo-machrus), significa “manto largo.” Curioso, não?
  21. Suposta carta que se encontrou no bolso direito da camisa de um soldado russo que, em luta, morreu agora a pouco no Iraque: “Glorioso Deus, para vós a escuridão nada significa. Para nós, é o breu que nos faz esquecer quem somos. Quando é tudo treva, mal sabemos de fato quem somos. O pânico nos desumaniza. Senhor, escutais o ricochetear dos tiros de fuzis do ISIS? Eles nos des-individualizam. Porque nossas armas são para a defesa de muitos eus; e as deles são para o extermínio dos nossos eus. Eles todos são um eu que não é um eu, são um conjunto de dados reto-raciocinantes que agem instintiva e matematicamente furiosos. Tu és um Eu; afinal, que medo terias? A escuridão é ser de carne e osso e existir como existem os olhos estalados do búfalo que se viu solitário diante do bando centeliar dos leões. O meu eu se amedronta diante dessa hoste. Todos os homens do meu batalhão pereceram. Todos. Fiquei eu. Fiquei eu só, aqui atrás da parede principal do trono dalgum príncipe mesopotâmico, adornado de leões que daqui a pouco aqueles frenéticos rugidores, que estão lá foram, implodirão com dinamite. Entendes este meu linguajar, certo? Não sou filósofo. Mal li Wittgenstein. É que meu vocabulário só consegue expressar estes pensamentos a Ti recorrendo a certos artifícios de linguagem… Glorioso Deus, para vós que significo? Porque vejo em meu peito o abismo negro do medo… Nós! Nós. Nós… Eu… Eu. Eu! Decidi-me: vou já para fora, porque sou luz do mundo. Urah!”

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 3 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

VII. Sobre a alma de uma mulher. Já percebestes, nas manhãs frias, como embaça o espelho quando o calor mais-ou-menos do chuveiro atinge sua superfície de prata e, por mais que o material seja por si mesmo intrinsicamente apto a refletir tua imagem, ele não a mostra e mesmo só a demonstra quando passas as mãos sobre o vidro dando cabo da fina penugem cinzo-aquosa que o recobre? A mulher que amas é um espelho em embaçamento. O calor: é o relacionamento. É aquilo que está entre tu e ela mas não é tu ou ela: é o meio, é o caminho, é o que vem e o que vai entre tu e ela fundindo-os sem confundi-los. O calor deve ser forte o suficiente. Quando as coisas embaçarem, embaçarão porque o calor é pouco. Quando a temperatura da água não supera a temperatura do ambiente, tudo se nivela em anuviamento vaporoso. Então, quando já nos olhos dela não mais distinguires a ti mesmo e sobrar apenas um pouco discernível vulto de sombras irreflexas, é hora de acaricia-la não só com tuas mãos (coisa importante, anota); é momento de acaricia-la com o teu ser completo, de passar as mãos nela — naquela alma — com aquilo que em ti (ou seja, tu integralmente sendo o que és) fez com que ela te refletisse por completo. O amor feminino reside nesta constância: sempre que tu não te veres nela, na tua mulher, não é porque o espelho não funciona. É porque o teu calor mediocremente não superou o frio do lugar e, morno, apagou-te no espelho.

VIII. Nunca deixes chorar sozinha a mulher que amas. Por que tu permitirias que qualquer coisa arrancasse dela lágrimas em solidão? Se o mundo cai em trevas, é teu dever proteger (com o preço da tua vida) a única chama — a pequenina chaminha — que permanece acesa. Ela é a tua candeia. Aprende a enxugar lagrimas com Bob Marley: “No woman, no cry…” Seja o choro de tristeza ou de alegria, de ira ou de ternura sentimental ou mesmo motivado por qualquer outra emoção capaz de fazer nela aflorar estas gotas salgadas que põem o teu coração na mão, esteja por perto. Esteja ali, pertinho. Não, não te é necessário discursar palavras sensatas, conselhos de ocasião ou amenidades complacentes. Não, não te é necessário abrir a boca para demonstrar a ela e ao mundo que o dom da fala acompanha tua língua. Se possível, nada dize. Senta próximo, a um canto, e mira-a com aquela mesma atenção que tinhas quando miravas a bicicleta desejada na vitrine da loja da cidade grande. Mais: mira-a como se, outra vez, pela primeira vez a tivesses visto. Mira-a, dizendo sem falar, que não chore… O choro daquela que amas, meu caro aprendiz, tem a potência do choro que chorou Eva e do choro que chorou a Virgem Maria: ele comove a natureza animália (já vistes os cachorrinhos domésticos como ficam quando veem a pessoa querida aos prantos?), comove a natureza divina (lembras de como as lágrimas de Ana refizeram a interpretação do espírito profético de Eli?) e poderosamente comove a natureza humana (todos poderão parar para enxergar a tua mulher que chora, mas apenas tu és capaz de limpar-lhe os olhos).

IX. Deves saber “cair fora” — desistir e não insistir. Do não acatamento deste conselho procedem toda sorte de desilusões incuradas, traumas crônicos e obsessões capazes de fazer da tua existência amorosa um inferno terreno. Sebo nas canelas!, se são incompatíveis os valores, os projetos, os futuros e, sobretudo, os quereres acerca dos valores, dos projetos e dos futuros. Há, como diria São Paulo, um “jugo desigual” a desnivelar-vos — tu e ela? Pernas pra que te quero! Na mesma medida: quando uma mulher não quer, ela não quer. Se ela sutilmente finge que não quer, ela apenas diz de boca que não e, de certa forma, diz que quer mas diz que antes de consumar o querer tu deves pontualmente se “adequar” nisto ou naquilo. Por isso, se ela realmente finge que não quer, ela certamente dissimulará o “não” que sai da boca com um olhar mais languido, com um sorriso mais acanhado entre os dentes, com um tom de voz que paira entre a ironia e o dengo. Trata-se de um “sim” falsamente tímido, via de regra. Entretanto, quando uma mulher efetivamente não quer, desde logo tal decisão fica clara como água de fonte polar: uma mulher quando não quer, não quer totalmente; não há frestas na muralha dos seus olhos, não há fenda na armadura da sua boca, não há vácuo no silêncio da sua voz. Vai-te embora, oh rapaz! Poupa-te de vergonha e vexação, de tristeza à toa, de choramingos inférteis. Sê homem e admite logo que — por incompatibilidade ou por rejeição — o caso é um caso perdido.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 2 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

IV. Quando te atraíres por uma mulher a ponto de tua pulsação voltar aos batimentos do primário ou dalguma taquicardia anterior, segura-te imediatamente no chão! Gasta pelo menos duas ou três semanas (ou um mês ou muito mais se necessário) a observá-la antes de propores seriedades. Mira os gestos e os gostos, as falas e os dizeres e, principalmente, com o que ela sorri, com o que ela ri, com o que ela gargalha. No humor da mulher reside densa parcela da sua alma. Observa-a e anota-a nos teus pensamentos. Aquieta os sentimentos, então. Observa de perto e de longe, como os ornitólogos põem os olhos nas aves raras do Tibet: com reverência profundamente religiosa e ao mesmo tempo com habilidosa curiosidade científica — com coração e cérebro calibrados. Se ires logo “pra cima”, não verás o que necessitas imperiosamente ver: ela como é na rotina, no dia-a-dia, na normalidade do tempo ordinário. Quando uma mulher sabe que tu a cativas, enfim, quando tu demonstras explicitamente tua atenção e intenção, ela assume outros ares — os ares da amante deliciosa e da amorosa penitente. Espia calmamente, porque nenhuma mulher é assim tão “mobile qual piuma al vento.”

V. Não é assim tão indispensável recordar datas se tanto amares a ponto de constantemente surgirem novas datas, que no calendário do amor efetivo acabarão sendo uma só coisa: o fato de que se ama no tempo. O “primeiro isto”, o “primeiro isso” e o “primeiro aquilo” só muito ficarão marcados na afetividade relacional de uma mulher se tu não te esforçares para sobrepujares cada acontecimento com outro de intensidade tão elevada quanto. Por que a primeira música do encontro deveria ser assim tão superior em importância à música que se ouviu (e comoveu) na rádio chiada do interior durante uma viagem na madrugada domingueira ou tão superior a música que vier embalar as idosas Bodas de Diamante? Apenas há tal hierarquia de datas importantes quando a relação vive de recordações e lembranças memoráveis do passado que não conseguem se manter no presente. A medíocre necessidade de decorares dias, meses e anos sob as naturais exigências (sim, a mulher detém este direito) dela, demonstra que tu não conseguiste fazê-la tão plena de datas que ela mesma não teria memória para guarda-las todas.

VI. Presentes são quase nada. Presença é quase tudo. Porque, nota bem, a presença implica em livremente presentear. Não: nada que ver com por sempre a mão na carteira e dispender somas vultosas com coisas caras e capazes de levares à falência até tuas miseras moedinhas engavetadas. Caro, para uma mulher, é o carinho. São singelos os presentes capazes de encantar uma mulher. E é o encantamento dela teu alvo. Mulher não é cara. Mulher é valorosa. Já experimentaste escrever-lhe versinhos nem que à moda “batatinha quando nasce”? Valem mais que sapatos, experimenta! Já roubaste no roseiral da vizinhança a mais vistosa flor e arrancando cada espinho com teus dedos (feridos, of course, mas que ditosos ferimentos!)? Valem sentimentalmente mais que os diamantes azulados vendidos pela Graff londrina. Estar ao lado dela dando o que se pode dar, dando o que se quer efetivamente dar, sendo a si mesmo o melhor que se pode dar é o ápice da conjugação do verbo presentear num namoro, num noivado, num casamento. A tua letra no papel e os teus versos bestas no papel valem mais que um soneto de Shakespeare; não porque sejam os teus rabiscos literários mais valiosos que as rimas preciosas do bardo, mas porque são teus para ela. A flor irisada do jardim de Dona Manuela vale mais que um estojo aveludado recém-saído do cofre; não porque os quilates custem na bolsa de valores menos que aquelas vistosas pétalas que em um dia já murcham, mas porque são tuas para ela.

CONSELHOS AMOROSOS | Parte 1 – Da Série Pessoalíssima: “Vivendo e Aprendendo”

I. Quando amares uma mulher, tu não deves apenas amá-la com seu presente e (suporta esta realidade com varonilidade!) não deves amá-la no presente se o futuro estiver comprometido pelo presente. Tu certamente sofrerias em vão e estragarias uma existência mais prazerosa à ela e a ti mesmo. Não sejas sadomasoquista. Quando amares uma mulher, tu deves amar também aquilo que no coração dela brotará no porvir — porque hoje é já semeado: os desejos, os valores, os projetos, enfim, os movimentos todos em direção à comunhão de corpos, de espíritos e de almas que é um casamento. É preciso que saibas discernir o quanto o “hoje-fazendo” abalará o “amanhã-a-fazer” que será o “ontem-feito”. Tua paixão atual será tua desilusão vindoura se não souberes conter o ardor dos teus sentimentos com o “balde d’água fria” dos teus pensamentos.

II. Não escrevas poesia em bilhetes, nem em e-mails e muito menos em mensagens de WhatsApp. Escreve, como o Michel Temer, cartas; escreve os poemas que dedicares a ela em cartas bem feitas. Afinal, cartas são coisas que não se consomem nos bolsos com os outros papeizinhos e tickets, nem que com um “delet” vão à lixeira ou com uma passada no “touch” do celular se consomem no nimbo virtual. Escreve em cartas e escreve com teu mais refinado esmero para que, à primeira briga, ela olhe para aquele pedaço de papel (tão cheio de ti e tão cheio dela) e perceba que, se o rasgar em mil pedacinhos como ela quer, estará rasgando carne sanguinolenta, a carne sanguinolenta e humana dos dois corações ora brigões. Até porque (e há nisto uma pontinha de orgulho literário e moral), tu quererás certamente que teus filhos e netos e bisnetos e teus descendentes todos ponham os olhos naquilo e digam “é assim que tem que ser!”

III. Seja gentil e cala a boca diante da brabeza dela. Mas, seja tão gentil a ponto de tudo dizer apenas… calando a boca. A mulher quando irada/raivosa/revoltada/furiosa/encolerizada/ fala muito e compulsivamente querendo atrair não a reação adequada ou inadequada das tuas palavras, como que convidando a um diálogo (coisa para dois, sabes disso, não é?). Ela quer, a valer, é a tua atenção: atenção que concorde ou discorde através do teu olhar aprovante ou desaprovante, mas atenção sincera, atenção que não seja um mudo “piloto automático” de inércia física e metafísica, atenção refletida e silenciosa que atenda à necessidade dela de desabafar o que bem entender na tua cara. Se quiseres argumentar e “discutir a relação”, perderás a oportunidade mais do que gostosa de admirar o movimento ensandecido dos lábios de uma mulher quando ela demonstra amor fingindo ódio. Cala a boca, energúmeno!

Esponjas de sol – XXVI

772. A inteligência humana se limita a si mesma quando as certezas — positivas ou negativas — são demasiada e abarcantemente obsessivas. Quem muito (e em quase tudo) crê, pouco sabe. Quem pouco (e em quase nada) crê, pouco sabe.

773. O que na vida vale à pena, diziam nossos avós, passa por nós como oportunidade uma só vez: é o “cavalo encilhado” que não passa duas vezes. Se não pulamos sobre o corcel e o cavalgamos com energia, passam logo atrás seus potros e pangarés degenerados de mesmo caminho-e-linha; e nalgum deles nós tomamos destino: surge a oportunidade de ser rei dalgum estado nacional nascente e, se não tomares para ti a coroa, acabarás chefe de medíocre partido interiorano ou mesmo o “rei do frango frito” de Pitangueiras. Está ali, porém, o mesmo “destino equídeo”: governar sobre alguma coisa — nobre, insonsa ou vil. Surge a oportunidade de amares a mais elevada e importante (ao menos certamente para ti) mulher entre as mulheres: se não a amares, acabarás amando a mais esperta trigueirinha de toda a paróquia ou a amante do amante da amante do senador fulano-de-tal. Surge a oportunidade de, tendo talento para a pintura, te matriculares na mais prestigiosa academia de artes dalguma capital europeia: se não vais tomar lições com os mestres consagrados, tornar-te-ás retratista nalgum gueto suburbano asiático ou pintarás com desvelo os rodapés dalgum burguês abastado quando este quiser reproduzir no seu triplex soteropolitano o teto da Capela Sistina. O que na vida vale à pela, digo para ser também avô, passa como oportunidade uma só vez.

774. O que quero e desejo, respectivamente, é entender a compreensão e compreender o entendimento. Tal é o meu “sagrado graal” em matéria de Cognição.

775. Se um medo te atormenta, cuida para que ele não povoe teus sonhos. O medo nada é senão teu pavor; um pavor que pode abastecer de narrações as tuas noites. Mas se tu enredas fortemente tal temor no teu espírito, mas se tu o energizas com a potência criadora dos teus sonhos (e pesadelos…), há sempre a possibilidade de estares ou profetizando teu futuro viandante ou, à força da tua capacidade mental, recriando realmente o medo abstrato no theátron do mundo concreto.

776. Quando o mundo acabar, não acabará. / Não pode ter fim se não teve começo, / Não pode findar se não pôde respirar. / O mundo que acabará é só a semente / Que apodrecerá para a árvore brotar.

777. Quem mais chega a compreender uma língua, aproximando-se do Verbo por detrás dos verbos, é também aquele que mais percebe o quão pouco o significado verdadeiro das palavras tem a ver com o pseudo-significado venial e ordinário do dia-a-dia. A linguagem é a base da vida mística.

778. Saul e Saulo — benjamitas: o primeiro, odiou Davi e morreu[-se] em seu ódio; o segundo, odiou o Filho de Davi e renasceu em Seu amor.

779. Para um gênio (ou um sábio-fazedor), a vida é uma caminhada de fim de tarde na aldeia que se faz com a força despendida numa maratona metropolitana. É uma “blitzglatt” — um relâmpago suave. É como se o tempo fosse outro: um gêiser escoando para cima como um fio d’água de goteira para baixo.

780. O coração do homem sincero se encontra sempre entre o céu e a terra, entre a santidade e o pecado, entre a luz e a escuridão, entre Deus e o eu (não o diabo, que é um “atravessador existencial”). Há uma dialética tremenda puxando a alma do homem consciente ora para o pico da montanha ora para o fundo do abismo. É como estar, ao mesmo tempo, amando uma mulher e apaixonado por outra. Trata-se de uma duplicidade inerente à constituição mesma da nossa natureza, que nos alinha a pensamentos e sentimentos auto-dúplices de mesmo fulgor atrativo, de mesmo fervor passional e de mesmo penhor desejante. Perguntaram-me o que é tentação na vida cristã. É isto.

781. O artificial só auxilia a beleza quando “anima” aquilo que é natural. Mulheres cá das plagas facebookeanas, escutem-me: a opinião que vocês fazem comumente do nosso gosto (o gosto masculino) acerca de vocês mesmas é excepcionalmente distorcida e quase sempre não corresponde à realidade. A gente prefere as coisas como são (sem muitos rebocos da cosmética e plástisquismos). Vocês podem e até devem se adornar, mas o adorno — de quaisquer ordens estéticas — é e sempre será subsidiário, no máximo “micro-auxiliar”. Vocês é que nos agradam, nãos o barangandãs que vocês põem sob ou sobre a carne.

782. A nossa triste geração é aquela que consegue passar horas a fio no WhatsApp, mas que é incapaz de orar um singelo Pai-Nosso à hora de deitar-se porque já “está muito cansada”. Vai tudo muito mal…

783. A inteligência engessa a ciência quando é ingênua perante a ligeireza da intuição.

784. O que é, nesta vida, um mal entendido? Talvez mastigar isopor como  se pipoca sem sal fosse? Eu me engano quando chamo um urubu de “meu lôro” ou quando não distinguo o canto do canário do canto do curió? É mal entendido ouvir um “não, nunca!” na medida de um [meu] inconsciente  “não nunca!”?

785. No centro da clareira a fogueira ilumina mais?

786. Quem percebe um grão de sal na sobremesa e um grão de açúcar no prato principal? Só na receita…

787. Mestre, que é um homem errante?
É um homem que erra, aprendiz.

788. Grande crueldade: chamar de vagabundo a um homem cansado.

789. Com o coração numa mão, que se pode fazer com a outra? Libertá-la jogando seu carregamento no mar ou afagar este seu precioso depósito?

Chamado à Contemplação — I

  1. Aquilo que tu crês que te farias louco se te pusesses a completamente investigá-lo: esta aí o caminho da tua sanidade. O novelo confuso da Eternidade tu desenrolarás quando puxares o primeiro fio quilométrico e não desistires té que o caminho do Início finalmente encontres.
  2. Olhar para o céu faz parte da rotina de quem não se deixou perder na rotina. Quem ainda levanta, segundinhos a fio, os olhos para o azul clarinho raiado dum amarelo serenado da manhã; quem ainda olha para o alto ricocheteando água gelada nos dias e noites de tempestade e encara sem temor o céu acinzentado; quem olha para o céu não perdeu a esperança de “num abrir e fechar de olhos”, quando Ele permitir, rasgar com braços de carne refulgente os ares e os ares anuviados que guardam a entrada invisível daqueloutro Céu.
  3. Nos olhos da tua amada, homem fiel, tu verás o assombro de Maria quando Gabriel lhe cantou “Ave, agraciada”. Diga à pombinha de tu’alma, diga à amante que dorme no teu coração aninhada: Eu te amo!