Moisés e a Sarça

No campo branco as estrelas não têm brilho. São solzinhos como as fagulhas de pele que vemos suspensas quando a luz serenada da manhã rompe através das frestas da tenda. E eu aqui, diante do fogaréu que arde sem consumir o manázeiro, mesmo que seja a hora das trevas mais densas, pareço estar no lugar do escaravelho dorminhoco que acordou com o clarão da fogueira que construíram sobre sua toca.

Está ali em algum lugar, entre a labareda azul e a chama amarela, entre a flama vermelha e a língua violeta; está ali o ponto de branco puro, de branco que não é branco porque transcende o branco. Está ali aquela pedra intangível, aquela gema não física, aquela inlapidada rocha de eternidade. Ou não? Não, não é mineral. Brilha como o cristal do cetro do príncipe meu primo; contudo, é jóia para fulgurar na fronte de algum deus. É uma Voz Consciente.

El chama dentre as chamas. Arde o Eu no coração. Escutei, levantei o cajado e feri as folhas e os galhos: brotou óleo. Os deuses todos são apenas um? Um para terra, amor, céu, estrelas, árvores, animais, vinho, festas, guerra e tudo e o todo? O plural é um… O plural que é três — porque é alto de espírito, porque é profundo de alma, porque é largo sem corpo — é uno. Do centro da queima, as palavras dizem-me que é, que existe, que se torna, que se mostra.

Deitei no campo branco. A escuridão da mente embaçada pela poesia que estalava no lume cedeu lugar à visão de três grandes triângulos de pedra moendo doze feixes de trigo. O som do fazimento de farinha em meio ao deserto de areia lívia, o cântico chiado da arrastação de cubos de granito por esqueletos empoeirados. Choveu óleo sobre minha cabeça. Tenho que descer à terra onde os pastores são odiados, para libertar as ovelhas de Quem planeja ser o que somos!