Trecho do conto “Com um dos teus olhares”

Ter algum brilho nos olhos não é distintivo de pureza no olhar. Um par de bolinhas de gude refletidas por uma lâmpada de mil watts também brilha. Os olhos das hienas brilham quando circundam as fogueiras dos acampamentos bérberes. Muitos círculos, de carne e de pedra, brilham vulgarmente quando qualquer tocha lhes toca a superfície polida. À distância, os fótons duma bituca de cigarro no que diferem duma brasinha tirada do altar do próprio Deus? Não se trata de medir os lúmens das coisas, porquê frequentemente a força da luminosidade é visualmente a mesma e a óptica não distingue um farolete paraguaio do Farol de Alexandria. Mas só pode reconhecer que por detrás de dois globos oculares brilham dois pequenos fragmentos do “Sol da Justiça” quem em si também os detém ocultos na retina. O brilho da pureza é a pureza do brilho: ele está no misterioso lugar onde a córnea saúda a alma e a íris beija o espírito, onde bem no extremo fim do túnel da pupila rebrilha a glória da Luz Inacessível.

Esponjas de sol — XLIV

  1. Cachorro algum gosta de osso. O bicho adora é a carne que estava grudada no osso. Ele cheira, lambe e rói não porquê seu paladar tenha predileção por cálcio duro e poroso. Ele quer é a carne tenra e suculenta que envolvia aquele canudo branco. Ele não gosta da caveira do boi. Ele gosta e quer, quando passa desesperado a língua e os dentes no osso, o tecido vermelho e a gordura amarela. Tenho para mim que a devassidão sexual de muita gente nada é senão um farejar desesperado dos afetos: querem amor, mas no açougue das baladas só encontram os restos cadavéricos da nutrição; querem carinho, mas no abatedouro das festinhas só encontram as poucas calorias duma refeição famélica. Mudar os “hábitos alimentares” é preciso!
  2. Teste de fogo: se você não tem assunto suficiente para passar no mínimo duas horas seguidas de papo empolgante com seu par, vocês dois não vão ter “gás” para ir muito adiante. Língua que só beija e não diz “las cosas del alma que despiertan rutinas” está condenada a falar merda na primeira mordida. Adão estava todo jururu solitário no Éden não porquê lhe faltasse fêmea para a cópula mamífera, mas porquê não tinha companhia. E a companhia fala, tem que falar, vive de falar, ama de falar. A companhia fala até calada, se esgoela até sem língua. Sem o vai e vem que chega e que volta dum gostoso diálogo tão natural quanto a nudez, tudo termina em mudez.
  3. A vocação do marido deve ser a vocação da mulher e a vocação da mulher deve ser a vocação do marido.
  4. A serpente do Éden sempre foi excelente gastrônoma. Grand maître de cuisine há milênios…
  5. Nunca suponha nada. Acumular suspeitas e raciocínios apriorísticos na tentativa de julgar uma pessoa ou cenário é burrice. A realidade das coisas pode ser, além do comum, muito simples ou muito complexa. O meio termo quanto ao desconhecido não existe: ou é evidente ou não é evidente; e se não é evidente, não o é justamente porquê não entra na escala do normal corriqueiro. E mais: o “e se…” trabalha contra essas duas possibilidades, porquê o simples é de pronto descartado por sua natureza demasiado fácil, e o complexo por sua natureza demasiado difícil. Junte cada detalhe, intuição, indício e rastro ao seu Catálogo Geral de Modos & Comportamentos, mas nunca faça deles o contorno duma solução. Não conclua na base do “parece ser, porquê isto e aquilo” ou do “já foi assim e assado, então…” Nunca suponha nada. É burrice.
  6. O auto-engano é uma modalidade açucarada de masoquismo. Você dá murro na ponta da faca, mas se deslumbra com o brilho da lâmina. Você dá com a cabeça na parede, mas gosta da nova cor do látex. Você se afoga na piscina, mas se encanta com o peixinho dourado estampado no fundo. Ilusão e insistência. Repetição da própria burla. Looping da própria quimera. Toda vez que você se engana, você racha um tiquinho sua consciência, que vai capengando entre o desejo e a realidade até que um dia a realidade, toda concreta, soterre de repente todo o desejo, abstrato, e duma vez por todas te enterre em tristeza, amargura e, não raramente, em depressão.
  7. Deus ama os esquisitos, os diferentões, os heterodoxos, os tipos “figurinha carimbada”. Deus ama os Forrest Gump deste mundão. Doidos às vezes varridos, mas estrambólicamente autênticos. Loucos às vezes de pedra, mas grandiosamente íntegros. Deus ama as personalidades “sui generis” quando puras. Não à toa, Ele escolheu entre os estranhos seus melhores santos e profetas: malucos-beleza gritando vaticínios nas praças, comendo gafanhotos no deserto, caindo no chão diante de visões do além. Tu deveria ficar preocupado caso esteja assim todo perfeitinho no gel, todo engomadinho feito miniatura de mordomo inglês em dia de chá gourmet…
  8. Pornografia não é coisa de homem não. Pelo contrário: depõe ferozmente contra a masculinidade. É coisa de moleque em ebulição, não de homem pronto para o altar e para enfrentar o mundo com mulher e filhos. Erotismo calcado em imagens e fantasiagem mental é faminto tentado aplacar a fome salivando sobre panfleto de supermercado. Homem que é homem cumpre a rota natural do corpo-a-corpo depois do caminho alma-à-alma. Sujeito que se satisfaz na artificialidade neurônio-a-papel e sinapse-a-pixel está condenado à perpétua puberdade. A pornografia embota e aliena o cérebro e, então, retirando do coração toda a ternura da realidade e toda sensibilidade do toque erótico autêntico, faz do seu usuário um viciadão ao estilo “craqueiro orgásmico”. E todo viciado é necessariamente auto-centrado; como tal, incapaz de amar.
  9. Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. E você aí se exasperando feito pavão despenado para chamar a atençãozinha da Beltraneja ou do Ciclopiano… Adão dormia enquanto o Criador lhe providenciava Eva. A obsessão por alguém ou por um estado sentimental nunca lhe trará pessoas e coisas boas: porquê uma idéia-fixa incapacita a razão, corrompe seu julgamento e cega sua visão espiritual. “Durma”, então. Sossegue, espere e não fique em estado de vigília, à espreita e cata de possibilidades em contatinhos ou ansiedades duma falsa escolha tão definitiva quanto a sobrancelha da moça. Durma como Adão dormiu: não precise, não queira obstinadamente, não deseje ardentemente, não foque nesta ou naquela pessoa tão freneticamente. Nada de alarmes. Nada de alertas. Durma, e quando você acordar — revigorado, despreocupado, serenado — Deus já terá arrancado uma costela do seu lado. Chame a atenção do Pai, porquê a atenção dele sempre e sempre é correspondida com afago, carinho e amor que não tem fim. Com Deus a reciprocidade é lei e, assim como ele é Trino, tratará de “imaginar sua semelhança” em você, fazendo de um indivíduo (você, você mesmo!) um trio com mulher e filho(s). Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. Chame a atenção dele.
  10. Há tanta gente que se ama e se odeia ao mesmo tempo que fica impossível dizer que se desgostam. Quem ama, gosta. Quem odeia, também gosta. Gostar é atribuir importância e focar a atenção e a força da consciência no importante; se positiva ou aparentemente negativa (digo aparentemente porquê tenho quase certeza de que o ódio é sempre qualquer sentimento originalmente bom depois não adequadamente “correspondido”), não importa: importância é que importa. O ódio não é cruel, porquê é inflamado — é passional. A indiferença é cruel, porquê é fria — é desumana. Pois, é isto: o extremo oposto do amor é a indiferença.
  11. A verdade não é uma narração descritiva, literária e abstrata das coisas. Ela é uma força absoluta e total, uma força física até. Preste atenção no gestual do mentiroso (o clássico — nem sócio nem psicopata): gagueira, coçadas no nariz e na orelha, garganta seca, olhos voando por todos os lados e se negando a encontrar os teus, pés e mãos inquietos, tom de voz anormal, tronco em postura defensiva, coração acelerado e desritmado, etc. Se o corpo biológico fica assim tão constrangido com a verdade, como não ficará o espírito?! A verdade, a potência da realidade, é tão poderosa que contraria materialmente todo aquele que se lhe opõe. A verdade constrói e estrutura a natureza humana, harmoniza o metafísico interno com o físico externo; a mentira, destrói e desestrutura, quebra a coerência dentro-fora. É como se o barro que Deus moldou feito vaso fosse desmoldado pelo diabo em pinico e, em fase final de degeneração, é como se o barro modelado voltasse aos montes de argila da beirada do rio, à sua condição original — cheio de bolhas de ar, cheio de palha e mato, cheio de pedrisco, indigno do oleiro…
  12. Você é vocacionado a ser você mesmo. Nenhuma vocação é um encontro posterior com uma ou outra versão sua melhorada ou piorada. Vocação é o caminho que você faz hoje em direção ao seu eu eterno que pode ou não ser conquistado amanhã — o seu eu puro e essencial sonhado e planejado por Deus desde antes do ventre de sua mãe, desde antes do espermatozóide fazer a corte ao óvulo. Não se trata de ocupação ou profissão. Sua vocação é o seu específico chamado à integralidade, à completude, à unidade de consciência e personalidade: ao [pre]enchimento da sua estrutura genética com o máximo de espírito capaz de fazer com que você seja o seu máximo em corpo e mente sãs. Sabe aquele mito pseudo-científico que diz pela boca dos tiozões da Barsa e do Google que as pessoas só utilizam 10% do próprio potencial neural? Pois é a mesma coisa quanto à vocação, só que num nível espiritual. Você é vocacionado a ser aquilo que é. Porém… eis o terrível fato: provavelmente muito daquilo que você chama e diz ser você, não é você. É uma caricatura psico-social (uma personagem mais ou menos introjetada) que o mundo, o diabo e a carne produziram em você. Ninguém pode negar-se a si mesmo durante muito tempo: sua vocação, traumática ou serenamente, hora ou outra vai emergir. Resistir à própria vocação é senda de infelicidade e, caso ela seja poderosa, é caminho de transtornos que beiram à loucura. Você é vocacionado a ser você mesmo: seja!
  13. Esconder sua fé dos seus amigos é como estes maridos infiéis que guardam a aliança no bolso quando vêem passar uma gostosa qualquer na rua. Chega um momento no qual a gravidade já não é a falta da aliança (porquê todos sabem que eles são casados), mas a falta completa da marca da aliança: tanto saem à cata de rabos-de-saia pelas esquinas que o sol mal tem tempo de queimar desigualmente a pele do dedo anular. A gravidade já não é que eles não saibam que você crê de alguma forma em Deus (porquê eles sabem que você frequenta a igreja), mas a falta integral das chagas de Cristo no seu caráter de crente: tanto você está igual a todo mundo que ninguém mais — a não ser nominalmente o pesquisador do IBGE — nota a diferença.
  14. O Diabo é o maior psicólogo/psicanalista/psiquiatra que existe. Freud, um bostinha. Jung, um merdinha. Adler, um bestinha. Lacan, um idiotinha. Rank, um nadinha. Quem manja da psiquê humana é o Tinhoso. Mas, de maneira geral: ele conhece apenas o comportamento padrão do Homem, bem como suas variações excepcionais igualmente padronizáveis. Ele só pode ser pego de surpresa (ser sabotado, então) pelo comportamento de um homem caso este se conheça a si mesmo a ponto de quebrar seus próprios movimentos cíclicos de causa-e-efeito. Satã conhece as estruturas mentais e seus gatilhos, sabe como brincar de “efeito dominó” com as ações e reações humanas internas e externas, sabe metodicamente construir e prever cenários a longo prazo, sabe jogar xadrez com nossas emoções e pensamentos, sabe cruzar por paralelismos idéias conscientes com o inconsciente sem que nós percebamos que estamos rodando a roda do hamster e que, lá na frente, a falsa e nenhum pouco casuística Roda da Fortuna acabará nos esmagando no moinho do pecado. O Diabo não brinca em serviço. Ele fez a anamnese de Adão e Eva e ainda agora põe no divã o seu Zé Pedreiro, a Duquesa de Kent, o professor Yang Hui, a atriz pornô Abella Apple, você, eu e todos os outros 7 bilhões de almas no planeta. Ele anota seus jeitos e trejeitos, suas caras e taras, seus movimentos e inércia, seus gostos e desgostos, enfim, ele põe na ponta do lápis tudo o que for possível sobre o seu todo aparente (porquê, por dentro, só tu e Deus). O Diabo quer roubar sua personalidade, matar seu ser, destruir seu eu: ele quer embaçar sua imagem e desfigurar sua semelhança. Enquanto Deus não for seu oleiro, o Demônio vai tratar de, miligrama a miligrana, arrancar de você a argila limpa e pronta para a roda e substituir por barro sujo de beira de brejo sujo… O Diabo é o maior conhecedor da Humanidade depois do Criador. Invejoso, ele quer recriar a espécie segundo seu reflexo e aparência: para fazê-lo, ele deve transtornar o espírito humano, pervertendo-o o máximo possível; ele deve e efetivamente (ontem, hoje e nos amanhãs que restam) o faz. Para isto, pega um homem de cobaia e o trata como seu camundongo de laboratório: condiciona, desconstrói, reconstrói, recondiciona — destrava latências, lança anzóis ópticos e fisga neuróticos, aperta os calos para ouvir os ais, passa Gelol onde convém amainar, sussurra esganando e sugere coagindo, etc, etc, etc. Em resumo, meu conselho: acerte-se com Deus, “conhece-te a ti mesmo” e escolha a santidade pra já! Com o Diabo a cura é a doença, porquê a loucura humana é a sanidade infernal.
  15. Não. Você não tem que ter sempre e só e apenas “papos inteligentes” com quem ama. Nem só de tiradas geniais e frases de efeito que impressionam a audiência (nos inícios da paquera) vive um relacionamento. Namoro/noivado/casamento não é congresso de iniciação científica com carinho e erudição. Tem que falar sobre tudo um pouco porquê a vida é, sobretudo, o pouco que sobra de tudo que encontramos no dia-a-dia da existência: falar sobre a última leitura, sobre como estava diferente o gosto do sorvete de sempre, contar piada sem graça para rir da própria falta de graça, falar “olha lá o super-homem no céu — passou!”, narrar segundo a segundo como foram as últimas 24 horas, falar sobre o jeito esquisito do comportamento de não sei quem no trabalho, sobre o preço do shampoo de babosa e da costela premium, falar “à toa”: falar sobre tantas pequenas, médias e grandes coisas que fazem da rotina comum e normal de todo santo dia a coisa mais extraordinária para o amor: que fazem querer ouvir a voz do outro falando — partilhando o som do próprio eu, compartilhando o próprio eu. O ordinário ordena o prazer. E é a coisa mais gostosa do mundo você contar para ela uma bobagenzinha qualquer do tipo “você não sabe o que aconteceu hoje!” naquele clima confidente de Romeu e Julieta no balcão. Papo não é tanto o tema formal quanto o conteúdo real; e não é tanto o conteúdo real quanto a intenção espiritual. Uma boa conversa diária salva qualquer relacionamento do buraco, o buraco que começa com o furinho do silêncio seco. Sim. Papo inteligente é a gente sendo gentil e… papeando!
  16. Eva envelheceu sob o peso de meia dúzia de séculos. Maria ficou velhinha já aos cinquenta. Nossas avós, quase todas, ainda envelhecem à moda antiga: cabelos brancos variando entre um prata leitoso e um cinza azulado, pele fina e sedosamente enrugada, o corpo e a idade harmonizando-se numa beleza toda digna e capaz de inspirar reverência, autoridade e sabedoria. Envelhecer, passar dos 70 quero dizer, está esquisito hoje em dia para as mulheres. Está também muito esquisito o próprio viço da juventude nelas, que anda retalhando as formas em busca duma beleza algo “equina” (é “cavala”, que fala?): a suavidade das curvas está cada vez mais muscularmente definida e angulosa, a pele adocicada por água e perfume está rebocada de cremes atômicos, os cílios de sombra e luz estão crescendo como bambu e… a beleza com a qual se nasce e cresce está oculta, quietinha e envergonhada pelas modas produzidas (sejamos francos!) por homens que não gostam de mulher. E vocês, musas e prima-donnas da nossa vida, sucumbem aos delírios duma estética anti-feminina! Não se obriguem a padrões cujos patrões não lhes podem tocar com amor erótico. Vaidades: tenham-nas todas, porquê nós em vocês nelas nos deleitamos. Embelezem-se com as matérias e maneiras mais atrativas dos reinos do planeta! Mas… na adequação temporal, para que não se tornem caricaturas. Volto ao princípio, com uma pergunta: como serão as avózinhas daqui duas ou três gerações? Os netos poderão lhes tocar nos rostos e olhar nos olhos com a doçura quase adoração de quem vê na brancura dos cabelos e nos sulcos da pele um poucochinho da imagem de Deus? Não, vocês não têm que ser Donas Bentas de coque, camafeu e cadeira de balanço à espera do réquiem. Ninguém quer isso. Ninguém com os miolos da alma no lugar [talvez, só aqueles doidões reacionários que não sabem nada de vocês porquê não têm vocês]. Só sejam, se quiserem (sempre, se quiserem), filhas da própria cronologia. A beleza da idade é, paradoxalmente, eterna. A beleza do tempo com suas marcas é imortal.
  17. Você chega a ser um homem bom quando, consciente de que o mundo não se importa contigo, você persiste se importando com o mundo. É a mesma angústia que dói no coração de Deus. O mundo é de certo terrível e odioso, mas ainda assim você o ama.
  18. Não tenha pressa. O café às vezes tem que esfriar, o ônibus tem que ser perdido, a camisa não tem que ficar passada, o médico tem que faltar à consulta, as coisas da existência têm que passar para que fique a vida. Não tenha pressa, não se afobe, não fique ansioso. O café quente é para ser dividido, o caminho tem que ser feito num passeio à pé, a camisa não é a roupa mais adequada e a dor no tendão vai passar por si mesma sem que você precise gastar uns trocos além do orçamento. Não tenha pressa. O que vai de nós e se esvai nos outros é porquê tem que ser, às vezes. Se você esquenta a água, põe o pó, coa e serve na caneca e ainda assim esfria, é porquê era para esfriar. Se você acorda no horário, corre cinco quarteirões e chega no ponto vazio, era para perder. Se você passa o linho todo retinho e assentado pelo ferro e ainda assim as rugas se embrenham no tecido, era para enrugar. Se o médico não aparece para o check-up, era para faltar e a dor persistir. Todo acontecimento — atos ou fatos — está eivado de porquês que desconhecemos. Só não tenha pressa, faça sua parte: Deus ajuda quem cedo madruga, mas Ele é quem dá o sono e o galo despertador. Não tenha pressa e labute dentro das suas possibilidades, que o melhor (para sua alma, sobretudo) sempre acontece.
  19. Organize primeiro seu mundo físico. Ponha seu quarto em ordem. Dê jeito na pia. Arrume os livros na estante. Regre-se com horários e datas. Limpe, distribua, catalogue, disponha, estruture, componha, asseie. Elimine o caos. O ritmo e o hábito físico vão vagarosamente se impregnar no seu metafísico: a vontade vai se fortificar, o desejo vai amainar; você espelhará sua conduta corpóreo-material no seu incorpóreo-imaterial. Seus afetos vão se racionalizar, suas paixões e vícios vão recrudescer; sua moleza, sua preguiça, sua vagabundice — sua acídia! — vão se esvaziar até que a fortaleza, o auto-domínio e a consciência assumam o controle.
  20. Não é coisa desejável fazer testes para avaliar o relacionamento, mas… parece-me que o “tiro e queda” seja mesmo a ausência. Se você sumir do mapa, desaparecer do nada, o outro deve ficar desesperado caso realmente se importe contigo, afinal, teoricamente, a rotina dele foi tremendamente alterada com sua falta. Se ele, porém, não mover senão uma ou outra palha e mal esboçar um ou outro “hei, cadê você?” (direto ou indireto), você tem tanto valor quanto um punhado de sal na boca do cavalo.
  21. Nós somos como aqueles bonecos russos, as matrioskas: uma camada superficial, uma cópia inflada e oca mais imperfeita por fora, recolhida dentro de outra e de outra e de outra até que se chega à original, menor mas maciça e refinada no desenho. Perceba como você age e reage no dia-a-dia. Perceba a desconexão entre seu sentimento profundo em relação às coisas e o quanto e como você o transparece. Dos sorrisos amarelos e meramente educados diante duma piada sem graça, que lá no fundo às vezes gera antipatia e até asco, às simulações completas (teatrais, caricaturais, empurradas com a barriga do ego) que quebram a autenticidade da sua personalidade. Entre seu “eu central” e o seu “eu periférico” há um filtro, o filtro do condicionamento psíquico-social. É preciso rompê-lo. É preciso que você não sorria apenas por educação. Não, não é para fazer uma cara feia condizente com seu estado interior objetivo. Tem que sorrir sim. Porém, é necessário que seu estado interior, que sua consciência, admita que subjetivamente quem lhe contou a piada o fez talvez com bom grado e que esta atitude gentil merece um sorriso. Daí, você terá um sentimento genuíno (interno) capaz de gerar uma igual ação genuína sua (externa). O filtro não tem que deixar de filtrar. As camadas do boneco não podem deixar de existir, mas entre uma e outra o que passa por uma tem que fluir necessariamente por todas as outras, feito um fiozinho retilíneo e intangível do seu eu que é, que foi e que será — sendo, sendo e sendo.
  22. Só podem durar as coisas, as pessoas e as situações que surgem imperceptivelmente. Tudo aquilo que é arroubo, que é de repente, que é epifânico: se esvai no ar com a rapidez com que deu as caras. Aquilo que começa de mansinho, na serenidade que avança tateando no espírito, dura muito e quase sempre dura para sempre. Você está lá e, conforme tudo passa, aquilo fica, aquela pessoa fica, aquela situação fica. Você mal viu o começo, mal discerne o ponto de largada: e por isto não verá o fim, e por isto não verá a chegada. O amor tem mesmo que se esgueirar na alma, como um banho dado gota a gota em cada grãozinho de areia do deserto. O amor tem que ser aquela lava telúrica que percorre toda a cama oceânica entre as águas geladas sem muito amainar na temperatura, naquele vagar constante próprio dos poderosos. Quase não se notou, mas está ali no esplendor da própria grandeza, bombeando vida na própria vida. Só dura o que se acrescenta no dia a dia segundo a segundo, o que se aumenta no passo a passo milímetro a milímetro, o que se adiciona de invisível a invisível toque a toque.
  23. Cada qual com sua miséria, com seu calo onde lhe aperta, com seu pecado, com sua falha. Cada um com sua canequinha de mendigo diante do mundo passante. Há qualquer coisa de pedinte em todos nós. Estamos maltrapilhos diante de Deus. A madame veste Dior, o porteiro TorraTorra, o príncipe tem alfaiate próprio, o playboyzinho JohnJohn, a menina pobre sequer etiqueta tem no vestidinho de chita. Farrapos do Éden. Panos de imundície. A mesma mortalha de indigência espiritual a todos veste sem cobrir: ao cabo, estamos todos nus diante do Rei do Universo… Onde está, ó marca, a tua vitória? Onde está, ó grife, o teu aguilhão? Louvado seja o meu Senhor, Jesus de Nazaré, o da túnica inconsútil!
  24. Gente de coração mole, “manteiga derretida”, é coisa linda de se ter do lado. Não, vocês não são bobões chorões não. Vocês são a parte doce da lágrima salgada. Continuem pondo para fora a alminha de vocês, porquê este mundão está carente desta afetividade inocente. Melhor suar emoção pelos poros que bombear gelo no peito. Melhor se comover diante de “coisinhas sem importância” que ter a sensibilidade dum cacto.
  25. A vaidade da moça de sutiãs abertos com seios arfando e com sua boca-bico à Angelina Jolie tirando selfie diante do espelho da boate é maior que a vaidade da moça pudica que desfila toda-toda exibindo sua “modéstia” de grife italiana pelos corredores da igreja? A vaidade do playboyzinho pseudo-fazendeiro tirando racha com a Hilux do papai é maior que a vaidade do pastor todo empoado com sua oratória de locutor do Love Songs, seu terno de duzentas pilas e seu sapato de cromo paraguaio reluzindo à graxa de R$ 1,99? A vaidade, a vaidade das vaidades, não tem nada a ver com o que vai por fora. Tem a ver com aquilo que está lá dentro e vai brotando para fora… O exterior é mero indício do interior. O Evangelho muda o exterior, mas muda primeiro o interior.
  26. Mulher de temperamento difícil é, quase sempre, um grande desafio que vale a pena. Por detrás de toda ferocidade, de toda explosão passional, de toda “violência”, repousa silencioso o fato que geralmente nos escapa: um amor tão desmedido que excede a “linearidade” dos comuns (e chatos) bons sensos. Sabe como elas tratam as crianças de colo, com apertões insistentes, beliscões pontiagudos e com outros aumentativos de substantivos tão substanciais quanto bem “físicos”, que chegam às raias das mordidas e da “brutalidade” mais destemperada? É a mesma coisa conosco. E quem se atreverá a negar sua alta natureza amorosa? Claro que estes ímpetos não são para sempre e para todo o tempo, mas aquilo que os move (e porquê os move) é para sempre e para todo o tempo. Mulher de temperamento difícil, uma vez domado e apaziguado com mais amor, é fonte do carinho mais poderoso para um homem bom. É deste amor que Salomão falava quando escreveu que “o amor é mais forte do que a morte.” Por que? Porquê ele é todo vida — vida abundante, vida ardente, vida temperamental, vida difícil…
  27. Compartilhar seus buracos, suas brechas, seus trincos, suas frestas, seus pequenos vácuos, as arestas onde as peças não encaixam. O grande desafio dos relacionamentos: ser capaz de por terra fértil no buraco e ali cultivar um jardim, lapidar granito para a brecha da muralha, encher o trinco da porcelana com ouro como fazem os ceramistas japoneses, arranjar argamassa para a fresta ou expandi-la como uma janela-mirante, retirar da própria oquidão matéria para cobrir o vácuo, recortar a peça que falta para compor este sempre inconcluso quebra-cabeças do coração. Se você não está disposto a isto, cairá no buraco, a flecha lhe acertará, o chá vazará ao primeiro gole, o ladrão roubará o tesouro da torre, o vazio se encherá com o monturo do mundo, peça alguma se encaixará e sequer se chegará a saber qual era o desenho delineado nestes mistérios de incompletude. Cada qual chega diante do outro com suas questões inconclusas e não haverá possibilidade de serem uma só carne enquanto a compatibilidade for meramente anatômica, enquanto o feromônio corporal não se ajustar ao perfume do espírito, enquanto aquilo que entre um e outro existe é o tanto e o quanto da própria solidão despistada com companhia e tempo repetidamente perdidos.
  28. Deus nos faz chorar. Ele nos faz sofrer. Ele nos suscita dores. Deus revolve espinhos em nossa carne, salga nossas feridas, cauteriza a ferro e fogo nossas chagas. E Ele colocará e tirará pessoas do nosso entorno para isto: gente boa e gente má. Ele lhe fará ter a companhia dos santos e dos ímpios a um só e mesmo tempo: e aí, a sua conduta se amoldará pelo bem no mal. Ele lhe fará ser traído pelos injustos para que você se apoie nos justos que desprezou e seja também um justo. Ele lhe fará ser beijado pelos hipócritas para que você valorize o ósculo dos sinceros que abandonou e seja também um sincero. Ele lhe fará comer e vomitar o bolo confeitado pelos exóticos da terra para que você coma com satisfação o pão dos simples e seja também um simples. Deus lhe fará derramar lágrimas salgadas e quentes para que você refresque aquela sua alma outrora doce, agora amargamente abrasada pelo mal. Ele lhe fará gemer. Ele lhe fará berrar ais silenciosos e sonoros. Deus mexerá com seu corpo para remexer seu espírito: de fora para dentro, do exterior para o interior. Ele lhe fará primeiro perder objetos materiais; depois, acontecimentos e pessoas. Ele lhe alijará daquilo que lhe impede de ser santo. São avisos: de início, sussurrando, pequenas perdas; depois, falando, médias perdas; por fim, bradando, grandes perdas. Seu carro lhe movimenta em direção ao vício? O motor fundirá. Seu computador lhe catapulta para o pecado? A placa-mãe estourará. A festa será ocasião para mais iniqüidade? Você não conseguirá ir ou ela não acontecerá; e caso aconteça acabará mal. Seus amigos lhe desencaminham? Você os perderá; de uma forma ou outra, cada um deles será neutralizado. Quem ou aquilo que lhe afastar de Deus será removido, permanente ou provisoriamente, para que Ele substitua a pessoa e a coisa na sua existência e, então, lhe conceda vida real. Deus fechará o cerco com choro, sofrimento e dor. Ele tomará seu falso eu de você para que você seja efetivamente você. Ele baterá severamente no barro sujo para que a argila fique limpa e suave para sua roda de oleiro. A pedagogia divina, principalmente para turrões e teimosos recalcitrantes, é literalmente “flagelo no lombo”. Deus lhe ama e, por isto, como Pai que é, precisa arrancar do marmelo uma boa e rija varinha…
  29. Aprofundar-se numa alma é muito mais difícil do que penetrar um corpo. É por isto que estão todos aí babando carência na mesma proporção em que comem e se mastigam uns aos outros. Todos canibais e vampiros, ainda que incapazes de digerir carne e sangue. Todos se regurgitam, entre vômitos e cuspes que vêm e vão conforme o paladar da líbido baixa — conforme eles se rebaixam. Fertilizar um óvulo é tão fácil quanto estourar um balão, e os chimpanzés adestrados de qualquer circo sabem fazer tão bem um quanto outro. Você pretende, então, ser um bicho paritário a um macaco, um hominídeo destes desenhados nas cronologias da Evolução? Só um macho com um “porrete”? Semear um coração e torná-lo livremente cativo da chuva, do arado e da foice é coisa apenas dada a homens tementes a Deus fazê-lo. Uns preferem estufas e boates, tubos de ensaio e camisinha, manipulação genética e anticoncepcionais. Nós, que ainda somos gente com alma, fizemos a opção pelo caminho antigo das estações e das igrejas, do sexo com amor e totalmente nu, da abertura à vida terrena e à Eternidade. A menina definha porquê lhe cortaram a beleza para o vaso antes que terminasse de desabrochar; depois a substituem por uma cópia de “plástico”. O rapaz mirra porquê lhe amputaram a fortaleza para o pragmatismo antes que terminasse de amadurecer; depois o substituem por uma réplica de “halteres”. Esta conversa de confessor e penitente não é sobre moralismo, sobre céu e inferno ou sobre qualquer teologia barata baseada em punição ou em mecanismos de repressão mental. Nem religião, nem psicologia. Nada além da realidade toda crua e toda nua alertando para o ponto do cozimento da sua existência e para a temperatura da sua vida. Estou lhe dizendo estas coisas porquê elas delimitam ainda mais os seus limites enquanto indivíduo. E certamente chegará o dia, fatídico e terrível, em que você já não poderá refazer o caminho de volta…
  30. Ajudar com as pequenas tarefas domésticas, tornando-as prazerosas não pelas ações em si (limpar, passar, cozinhar), mas através dos porquês aos quais elas se destinam (confortar, vestir, alimentar), é um dos ingredientes prévios que homem e mulher devem levar das suas existências de solteiro para sua vida de casados [atenção aos plurais e singulares!]. Aspirar pó pode ser chato, labutar com o ferro elétrico pode ser maçante, esquentar as panelas pode ser aborrecido; mas dormir num quarto asseado é agradável, mas usar uma camiseta cheirosa é estimulante, mas comer o prato preferido é delicioso. Rapaz que não ajuda a mãe com a louça na pia e moça que não ajuda o pai com a caixa de ferramentas, e vice-versa, não sabem o valor de um copo limpo na mesa de jantar e da água quente do chuveiro depois de um dia de suor. Assim, eles não chegarão a ser esposo e esposa. Sem varal e varreção, não há varão nem varoa. Não basta ser casal e acasalar para casar: tem que saber cuidar da casa. Juntos, apenas juntos nestas atividades rotineiras, eles serão efetivamente os senhores do lar.
  31. Todo intelectual verdadeiro tem apegada à sua vocação para lidar com as coisas imateriais uma vocação para lidar com as materiais, um talento para “ofícios mecânicos”. Um grande literato pode também ser um cuidadoso jardineiro, um filósofo pode passar dias inteiros na forja como mestre ferreiro, um professor universitário é capaz de ser esmerado marceneiro, um estadista pode ser exímio ceramista, um poeta pode ser excelente lenhador. Não só podem, deveriam e devem. Por que? Porquê a abstração sem o contato constante com o real, com o mundo físico, cria aberração. A genialidade das mentes com alta capacidade imaginativa (capaz de fazer malabarismos com o “ser”) precisa ser contida e moldada pelas estruturas das coisas como elas são (os malabares dos “entes”).
  32. Quem te faz ser menos você, não pode te fazer feliz. Quem suprime da tua personalidade as características mais profundas e naturais (aquelas que são seu potencial máximo e melhor de grandeza humana), por conveniências pontuais ou por exigências pseudo-morais, não pode naturalmente se aprofundar em você. Anular no outro as belezas tão diversas quanto especiais da individualidade é negar à pessoa os presentes que Deus lha concedeu antes mesmo do espermatozóide fazer a côrte ao óvulo. É deprimente a quantidade de homens e mulheres que levam “vida dupla”: são expansivos, vivazes e extraordinários no desempenho do próprio ser quando estão libertos do olhar castrador do “companheiro”, mas basta que as retinas da censura marital surjam no ambiente para que a alma se recolha à sua ostra de silêncio e melancolia. Quem te faz ser menos você, não pode ser um com você: ser “uma só carne” não é ser “uma só personalidade”.
  33. Quantas pessoas bobas de tão boas nós não ignoramos simplesmente porquê babamos por pessoas malandras de tão más. Quando nós nos afastamos de quem presta por quem não presta, fica evidente que nós não apenas nos aproximamos dos ruins por mera atração: fica evidente que nós nos atraímos pela nossa ruindade espelhada nos outros. A malícia cá de dentro milita pela malícia aí de fora. Quem chama o meigo de tolo, quem repele o ingênuo, quem desfaz do inocente, quem se estimula com a astúcia: quem isto faz é que é tolo e bruto, é velhaco e repelente, e é malicioso ainda que despiste isto (oh egóico auto-engano!) com discurso virtuoso.
  34. Papai e mamãe levam os filhos para ver o Papai Noel no shopping. Mas papai e mamãe não levam os filhos à igreja para saber do tal do “aniversariante”. Vocês estão dando presentes e mimos porquê (vamos ser sinceros?) vocês são pais ausentes de filhos mimados. Onde a “noite feliz” nesta diária infelicidade mercantil? Cadê o “sino pequenino” nesta surdez espiritual? O presépio não tinha renas, nem duendes, nem pisca-pisca, nem regalo algum senão o pobre Menino-Deus entre gado e pastorinhos sob uma estrela. Um dia, talvez logo ou talvez só na longínqua velhice (nas suas e nas deles), ainda vão ter que orar muito para o Bebê-Crucificado. O ho-ho-ho pode acabar num ai-ai-ai.
  35. Eu entendo perfeitamente o coração do Daciolo. Tem dias que minha vontade mais visceral também é só dizer (repetidamente, até sem parar): “Glória a Deus!” É assim mesmo.
  36. Deus está em todos os lugares. O diabo, em qualquer lugar.
  37. Diariamente nós afugentamos da nossa mente centenas de pensamentos “incômodos”. Pensamentos ternos, pensamentos tenebrosos, pensamentos bons e pensamentos maus, alternativas nunca testadas e obsessões que não podem sequer serem provadas, amores confinados a sentimentos aqui e ali reprimidos, ódios soterrados no abismo da consciência, possibilidades desejadas e medos pavorosos com seus terrores e suores. Nós temos pensamentos de todas as ordens e desordens que incomodam e, porquê incomodam, covardemente nós damos logo um jeito de esquecer e, já no instante em que ocorrem, tratamos de “pensar outra coisa”; e nós artificialmente pensamos outra coisa, criando do semi-nada um assunto para nos distrair do enfrentamento com o outro pensamento, com “aquele pensamento”. E lá vamos nós a ziguezaguear a atenção pelos neurônios até que, de repente, voltamos ao tal pensamento, retrocedemos outra vez àquele maldito pensamento incômodo. Forçamos a barra e, a custo de muita força mental, empurramos mais uma vez o indesejado para debaixo do tapete psíquico. O dia acaba, dormimos, acordamos e a atenção acorda mais ou menos focada noutra e qualquer coisa. Mas, boom!: horas ou dias ou meses e tempos depois, sob a pressão da importância que nós atribuímos a ele sem contudo admiti-lo, ele volta. O pensamento incômodo sempre volta para incomodar. Solução? Conheça-se a si mesmo, passe em revista sua consciência, faça diariamente uma bem racional “operação pente-fino” na sua volição, na sua intuição, na sua (vá lá!) meditação. Pensamentos incômodos só incomodam gente acomodada.
  38. Esqueci teus olhos passando por eles todo os dias. A rotina apagou de mim tuas retinas. E aquilo que me era o farol entre águas e trevas, hoje é um par de olhos como os olhos de qualquer uma na multidão das rotinas ensolaradas. Esqueci me esforçando para esquecer, desaquecendo o coração, forrando o cérebro com as páginas sagradas. Esqueci teus olhos, piscada a piscada, como se aquela areia dos olhos sonolentos me tomasse a consciência da visão a cada encontro, cada encontro que se desencontrava a cada reencontro de íris reciprocamente cegas sob luz ideal.
  39. Como estão porcas e degeneradas as relações. Como estão porcos e degenerados os corações! As camas são lamaçais, as almas são pocilgas. Os corpos são belas mas ocas estruturas: os espíritos são carrancas e espectros de feiura. Puta que pariu!
  40. Então, eles apontam para você e dizem “lá vai o sonhador, o bobo, o louco, o esquisito”? Eles fazem piada da sua conduta, dos seus modos, do seu comportamento? Então, você desanima quando debocham da sua fé e dos seus princípios? Então, porquê lhe creem um palhaço, uma criatura exótica, você esmorece o coração? Sossegue! Não tergiverse, não ceda, não baixe a cerviz, não se renda. É tão melhor ouvir a gargalhada do mundo e ainda assim poder contar com o sorriso de Deus…
  41. O pecado dum santo é como um arranhão numa jóia de ouro. O risco é evidente, mas o dano, por outro lado, revela que sob a superfície dourada tudo é ouro. O pecado dum santarrão é um arranhão numa falsificação, numa bijuteria. Basta lacerar a superfície para descobrir que por debaixo do banho de ouro o material é ordinário e barato.
  42. Hurt é Salomão se lamentando. É o Eclesiastes do Cash.
  43. As coisas fáceis que vêm fáceis são só coisas que se vão facilmente. Coisas fáceis não exigem força de vontade, não pedem zelo, se dão como putas de esquina de estômago vazio. As coisas difíceis, estas sim, pedem que você seja destemido, que seu coração seja valente e um tanto puro, e só se entregam como a donzela da torre cuja alcova só se alcança depois que o cavaleiro degola o dragão. Se você não está preparado para renunciar às facilidades, tudo será dificuldades; tudo será mediocridades sem valor, inúteis e vazias. Se você renuncia às bobagens ordinárias e enfrenta a si mesmo e ao mundo, a grandeza cairá nos seus braços. As coisas difíceis que vêm difíceis são coisas que permanecem, que permanecem para sempre.
  44. À fórmula clássica da jura de casamento deveria ser acrescentada mais esta condicionante: “na sanidade e na loucura.”
  45. Meios-termos, conversas moles, papo pra boi dormir, vagueza. Poucas coisas são tão terríveis para a alma quando o suspense das indecisões, das conversas não terminadas, do não dito no dito. Quando a hesitação é permanente, quando não ata nem desata, quando não caga nem sai da moita, quando nem vai nem racha: toda dor, por mais miúda, se torna um suplício; e toda espera, ansiosa, devagarinho míngua em desesperança. O drama do saber-não-sabendo faz tanto ou mais mal que a certeza que entristece, machuca mais que a clareza afinal adversa. Só quem já ficou com a alma pairando neste vácuo de [in]significâncias, só quem já ficou vagando feito espectro caçador de corpo, sabe o quando a expectação que não termina é das angústias mais pesadas que o coração pode suportar. Por isto, cá meu conselho mais sincero: diga, fale, explique, converse, esclareça, verbalize, chame, conte, deponha, recite, declame, dialogue, responda, retruque, lecione, evidencie, exponha. Não deixe nada na penumbra, porquê as trevas da dúvida esganam…
  46. Mesmo as mulheres esteticamente muito parecidas podem ser muito diferentes quanto à percepção que temos de sua beleza. Dou um exemplo: conheço duas morenas, de cara e corpo praticamente idênticos no talhe físico: desenhos, ângulos, curvas e harmonias de igual medida e feitio. As duas são muito bonitas e, como dito, quase gêmeas na aparência. Uma delas é boa menina, a outra pertence àquela cepa das “da pá virada”: todo mundo que olha para a primeira diz que ela é linda e todo mundo que olha para a segunda diz que ela é “boa” naquele sentido mais sem-vergonha da palavra. Qual a diferença? O porte e a postura, o ser denunciado pela personalidade vazada tanto nos pequenos quanto nos grandes gestos. Não se trata da proporção áurea regulando os números e distribuições anatômicas. Não se trata de simetria material. É algo mais profundo, sob e sobre o véu da carne. Trata-se de caráter. E que coisa bonita é um caráter bonito!
  47. Esta é a geração que menos calafrios tem tido na espinha. Nada lhe excita a alma a ponto de fazer esse impulso de calor-e-frio percorrer a coluna dum extremo ao outro. Quem por aí ainda se arrepia de elevação, de maravilhamento, de admiração? Sequer os namorados têm sabido o quê é este deslumbramento que cavouca seu leito medular entre o corpo e o espírito, que atravessa a carne com um punhadinho de comichões feitos de luz eterna. Que tristeza…! O sujeito pode dormir sob um céu como aquele da “Noite Estrelada” de Van Gogh, pode dormir ouvindo a namorada lhe cantar, nota a nota e ao ouvido, o “Luar do Sertão”, bem depois dum banquete farto de carnes gordas e vinhos velhos, e… ainda assim o miserável não vai sentir nada de sideral no corpo. Nada, nada, nada…!
  48. A gente começa bebê balançando no berço e nos braços dos nossos pais, fica criança brincando no balanço da praça, fica adulto balançando de paixão a cama e, então, fica velho na cadeira-de-balanço. A vida é uma balança. Nós somos o peso. O balanço é o pêndulo do tempo e o prato da justiça. É o movimento de ir e vir da vida, que mede nosso envelhecimento e julga nosso amadurecimento. A gente balança no barquinho com Jesus e com Pedro. Aqui, a gente balança entre a fé e a descrença, entre a espada desembainhada e o canto do galo. E nós balançaremos, assim, até que um dia o colo seja o do Pai, até que o parquinho seja o Céu, até que o amor seja a visão pura dos santos, até que a serenidade não seja a quietude dum corpo alquebrado pela biologia entrópica mas sim aquela paz toda potente do corpo glorioso. Eu balanço porquê me balançam e porquê balanço os outros. Todo este balançar, porém, é um movimento ascendente em direção à Eternidade. Que cada um deles seja mais que um giro de 180o graus, físicos ou metafísicos. Que cada balançar seja a oportunidade dum sono de neném, duma alegria infantil, dum gozo carinhoso, duma sabedoria provada. Que seja a oportunidade de dizer “oi, Deus.”
  49. O desejo do bem faz surgir o bem. Não se desespere. Se o seu coração anseia sinceramente por coisas boas e bonitas, Deus tratará de por bondade e beleza na sua vida. O querer modesto, de aspirações legítimas e silenciosas, quer sempre aquilo que também quer Deus para nós. Sem grandezas falsas, sem megalomanias, sem as superficialidades vaidosas das cenas e contracenas do mise-en-scène das massas e maiorias. Você quer um amor, um lar, uma existência daquelas de “moringas de água fresca” e de “vestidos de linho azul da esposa amada”? Sossegue. Só continue a desejar e a querer. Pelo menos mantenha guardadas na alma estas “aspirações altas e nobres e lúcidas.” Desejar-e-querer é o primeiro passo para conquistar-e-obter, porquê estes nossos anseios íntimos moldam finamente nossas ações tanto quanto às finalidades da existência quanto aos finalmentes da vida. Não se desespere. Sossegue.
  50. Nem sempre é o objeto ou a pessoa. Às vezes é a distância que faz com que atribuamos valor às coisas. Se existíssemos na Lua, à noite nós olharíamos para a Terra e comporíamos canções, poemas e laudes à uma vida por lá. Ícaro teria querido atingir a imensidão azul a partir do satélite prateado. As óperas italianas não cantariam “que bella, que bella luna”, mas sim “que bella, que bella terra”. As crianças brincariam de missões espaciais para cá e os astronautas quereriam fincar suas bandeiras não nas crateras largas e cinzas da “rainha da noite”, mas nas nossas florestas oxigenadas e verdejantes. A imagem do queijo furado seria a do próprio habitat: a terra seria o disco azul lá em cima, quase boreal na cor de opala e aurora. Parte fundamental do amadurecimento da nossa vida adulta (afetiva, sobretudo) consiste em saber separar a aura romântica das coisas das coisas em si mesmas. Muitas vezes, o valor é dado às pessoas e aos objetos em função dos objetivos que ingenuamente idealizamos e do quanto eles são ou estão distantes. Queira o objeto por ele mesmo, esteja ele a centímetros ou a quilômetros de distância. Queira a pessoa por ela mesma, esteja ela a um passo ou a um continente de distância. Sonhar acordado, entabulando quimeras e miragens insufladas por afastamento (e, então, pelo critério disponibilidade/indisponibilidade), é tolice.
  51. Existe consciência pura. Não existe inconsciência pura. Existe consciência impura.
  52. Valor deve ser dado a quem sabe o preço das coisas, a quem sabe a quantas mls de suor equivale a xícara de café, o arroz e o feijão, o celular, o sapato, as coisas todas à venda. Valor deve ser dado a quem escolhe um tecido menos caro para poupar a carteira na carteira de poupança. Valor deve ser dado à menina que rala o dia todo para pagar a faculdade, que sai do serviço e vai direto (sem banho) para a sala-de-aula. Valor deve ser dado às donas de casa que remendam panos, que costuram colchas e tapetes com retalhos, para dar uma “roupa de missa” pros filhos. Valor, muito valor deve ser dado a quem, mesmo com o orçamento apertado, economiza para fazer gentilezas à esposa, aos filhos, a quem quer bem. Valor! Nada é sobre dinheiro. Tudo é sobre sentimento.
  53. Não é tão difícil: os olhos duma pessoa profunda são também profundos, e diante deles a gente estagna como se olhasse para dentro dum abismo, um vórtice infinito de segredos que se revelam conforme a visão é mantida íris-à-íris. São ternos e firmes, e mesmo que olhem fixamente para determinado ponto, parecem irradiar sua atenção por todos os ângulos e perspectivas. Olhos profundos parecem-se um tiquinho de nada cansados, mesmo que estejam totalmente dispostos: eles têm uma densidade metafísica, carregam o peso da consciência que, mesmo leve, pesa muito mais que a consciência dos frívolos. Olhos profundos se aprofundam nos nossos e aumentam nosso próprio limite de profundidade: eles cavam, escavam, cavam e escavam o limiar do nosso espírito até que a matéria dos nossos nadas fique palpável e a córnea translúcida como o véu do templo de Deus. Olhos profundos são dois fragmentos iguais e perfeitos daquela mítica pedra filosofal. Se você encontrar por aí um par destes, roube-o para si.
  54. Sou da opinião de que aos votos matrimoniais deveria ser acrescentada mais uma jura, esta: “na sanidade e na loucura.”
  55. Esteja pronto para não estar preparado. Imprevistos acontecem e o leite acaba derramado. Só não esteja despreparado para ajuntar os pedaços da xícara quando ela também for pro chão. A vida não é tanto sobre acertar: é mais sobre como passar o pano e recolher os cacos, é sobre como lidar com o erro. O passado, sempre passou e continuará passando. Mas, e o futuro? E o presente que embesta e desembesta o futuro? O mais importante é continuar comprando e esquentando o leite, é não trocar a porcelana por vidro grosseiro ou plástico, é não deixar de insistir nas coisas boas porquê um dia o percurso se acidentou com o nosso “mau jeito”.
  56. A gente também tem temperatura. A gente também fica quente, frio, morno, gelado, fervendo. E a gente sabe disso porquê nosso espírito é um termômetro: os graus celsius da consciência sobem e descem todo santo dia… A gente tem coração, onde cai fogo e saraiva. E a gente tem cérebro, onde neva e o vento corta. O amor, a ira, o carinho, a insensatez, o desprezo, a bondade, a maldade e todo o mais com ou sem simpatia e antipatia — também com ou sem empatia — queimam e congelam nossos afetos. A gente tem o verão e o inverno no peito e na cabeça. A gente… é gente. E gente tem destas coisas: estes 8-80, estas contradições, estas ausências de primavera e de outono, estas temperaturas de Saara e Ártico que por mais que se toquem raramente produzem uma alma morna, moderada. A gente geme por ser gente, gente polarizada, mas Deus sorri disto porquê hoje Ele também é “meio” gente. Deus é o nosso equilíbrio térmico: se a temperatura está baixa, Ele é a lareira quentinha do nosso quarto; se está alta, Ele é a fonte de água fresca do nosso jardim.
  57. Mais do que compatibilidade nas virtudes, é preciso ter compatibilidade nas imperfeições. É fácil simplesmente idealizar as coisas e dia e noite aspirar à perfeição, à uma vida tão “certinha” quanto irreal. O difícil, mas necessário, é aceitar o outro com seus pecados passados, com seus vícios presentes e com tudo aquilo que disso tudo ainda vai reverberar no futuro. Amar é acolher no outro seus erros e defeitos para construir na vida a dois uma parceria de acertos e aperfeiçoamentos. Amar é fazer ajustes permanentes, é cortar na carne, é amassar e moldar o barro sujo, é esquecer e tolerar, é acariciar as chagas e as feridas mal cicatrizadas que ainda marcam a pele sedosa: é sofrer e, sofrendo, encontrar até nas dores do pecado os motivos maiores dos prazeres e das alegrias da santidade. Qualidades afins valem muito para quem quer morar no céu. Mas as falhas em comum valem muito mais para quem quer levar consigo o cônjuge para o céu. Ainda estamos na terra. E aqui na terra o amor serve para purgar, para limpar, para purificar. A única coisa incompatível é o desamor. Todo o mais se ajeita. Todo o resto se ajusta.
  58. Vi agora à hora do almoço um velhinho engraxando os próprios sapatos. Descalço, aos pés duma escadinha, defronte à própria casa. Estava de meias, verdes ou cinzas. Roupa social: camisa branquinha como a neve, calças dum cinza amarronzado. Do lado, um chapéu puído de pele de lebre. Dava para ver, pendendo do lado, um velho relógio de bolso, um “patacão” prateado. Cabelos azuizinhos-céu de tão brancos. Mais de 80 anos, com certeza. Deu gosto. Depois dum sorriso feminino que vi pela manhã, esta foi a imagem mais bonita do dia. Já tinha um tempo que eu não encontrava, pelas ruas de Pindorama, um destes avôzinhos à moda antiga, cavalheirescos. Sobrou cá comigo uma pergunta: como seremos nós, os avôs do futuro?
  59. Há muito que percebi que, nas mulheres, certo sono, certos bocejos, certa letargia ou dengo corporal, estão intimamente ligados ao coração, a um desassossego interno que tanta energia consome no lado de dentro que pouca vontade sobra para os gestos do lado de fora. Este silêncio quase onírico acomete aqueles dias de reflexão. É um período muito sentimental, quando (talvez elas não saibam) a gente mais consegue enxergar o que de angélico elas carregam no coração. Muito sútil, mas muito forte. Muito sereno, mas muito poderoso. A beleza delas fica tão evidente quanto devia ser a de Eva nos primeiros segundos quando ela se percebeu existente.
  60. Há mais coisas entre o silêncio e o grito duma mulher do que pode sonhar nossa vã filosofia masculina. Engana-se o bocó que acredita que as coisas acontecem do nada com elas: a coisa não está “boa” e de repente fica “ruim” do nada, num zás-trás que transforma a ursinha-carinhosa num satanás de saias. É tudo muito gradual, mas duma gradualidade comprimida, ultra-compacta: é como se elas tivessem dentro de si um termômetro absurdamente progressivo, mas cuja velocidade entre o zero grau e o calor absoluto se atinge muito rapidamente. É um processo lógico, mesmo que suas etapas nos escapem pela ligeireza. Se elas mesmas fossem capazes de equacionar toda a cadeia de argumentos que se sucedem concomitante e sobrepostamente um ao outro, sim, senhores: nós muito frequentemente estaríamos ferrados.
  61. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  62. Pessoas temporárias são aquelas que marcam horário para você. Afinal, você é só mais um atendimento, às vezes incômodo. Pessoas para a vida toda desmarcam o relógio inteiro por você. Você merece atenção, então tudo sempre se acomoda. Toda importância é medida pelo tempo empenhado: importa o que não é cronometrado. O tempo só é relativo na teoria de Einstein. Cá no peito é a eternidade que governa, e a eternidade é sempre maior na sensação da carne quando se pode acrescentar mais um segundo, e outro minuto, e uma hora e… mais tempo. “Moro em Jaçanã, quero perder este trem!” Quanto mais alguém olha no relógio, quanto mais um compromisso compromete o papo, o conselho, o diálogo e até o silêncio, maior é a certeza de que o tempo importa e, porquê importa, ele não pode ser gasto naquilo que o calendário vai levar embora. Romeu se lamentou quando percebeu que o sol nascia. Julieta se lamentou quando percebeu que o sol nascia.
  63. Todo rosto tem marcas, rugas, pintas, linhas desiguais, pontos dum lado que não se compensam no outro, pequeninas desarmonias. Este desequilíbrio é justamente o elemento central da beleza. A total simetria, que prezasse por completude regular no desenho, faria duma face um exercício de purismo geométrico. E nós sabemos muito bem que não é assim. Um rosto bonito é um rosto onde as principais estruturas são proporcionais, mas cujos detalhes, cujos entalhes de personalidade individual, são semeados de maneira algo “dispersa” — relativamente desigual. A famosa pintinha sobre o lábio feminino, a covinha que se destaca mais dum lado que do outro, as expressões que desbalanceiam o maxilar, a penugem que toma mais um braço que o outro, a auréola maior ou menor nos seios, a verruguinha no pescoço, uma cicatriz, mais sardas aqui que ali, etc. Enfim, é certo que a beleza é um conjunto orgânico e simbiótico de positivação e negativação de padrões que se auto-ajustam no corpo. Os feios são os polarizados, são justamente os excessivamente geométricos e os excessivamente assimétricos.
  64. Gente carente vive assoprando fogo de palha, tentando reacender fagulha fria. Poderia queimar uma floresta toda de lenha até a Eternidade, mas prefere cronometrar os instantes luzídios duma qualquer poeirinha de carvão. Não tem duma chama senão um vislumbre estético, uma visão “pisca-pisca” que não esquenta nem conforta, ainda que iluda os sentidos com as “provas cabais” dos seus termômetros de paranóia e romantização. Auto-engano térmico. Se contenta com os pequenos “sinais” das cinzas que há muito já não são brasa… Se contenta em saber que o borralho provém do fogo. Tenho imensa compaixão de quem se apaixona por fogueiras de gelo e nevasca, que queimam, mas queimam pelo frio. Não se iludam, não se humilhem. Camões estava enganado: amor é fogo que arde e se vê. Apenas os carentes, susceptíveis e sugestionados de tanto ansiar, conseguem ver labareda onde só há lenha molhada, sequer capaz duns borbotões de fumaça mesmo que lançada num vulcão…
  65. O tempo nos consome. A pele de bebê de repente está enrugada. O cabelo, ralo e branco. As unhas, grossas e duras. O tempo depõe sobre nosso corpo suas crostas. Os velhinhos aí estão, com suas bengalas e doenças. A pele jovem, a pele adulta: é a nossa. Cabelo e cabelo com viço e cor: é o nosso. Unhas rosadas, flexíveis: as nossas. Nós estamos aqui, com a coluna ereta e os pés firmes, com saúde. Mas, e daqui a pouco? Hoje, temos 20, 30, e logo se passa dos 40 e então mais o dobro e já estamos aposentados, na terceira ou quarta idade, sentados debaixo de uma árvore olhando quietamente para o mundo. Então, eu que penso loucamente nestas coisas, me pergunto: como será a velhice daqueles que te abandonam, meu Deus? O tempo vai ruminar o corpo do crente até que ele se torne pó de ampulheta. Mas seu espírito se erguerá vivo na Eternidade. O tempo também tornará pó o descrente. Mas… e o que se fará da sua imortalidade para definitivamente decrépita? O corpo glorioso é para os salvos. Mas o corpo do infiel recém-saído da cripta é o mesmo corpo de sua morte, que nele estará pespegado para sempre e sempre.
  66. Tem poder sobre você não quem hierarquicamente, pela força da coação dum sistema, pode ordenar que você faça isto ou aquilo. Tem poder sobre você quem livremente, pela força dum coração que queima, pede que você faça isto ou aquilo e você irresistivelmente faz.
  67. Um dos preços de andar com Deus é caminhar já em nuvens sobre a terra: você flutua por dentro e os outros pensam que você está no mundo da lua, você levita no interior e os outros pensam que você é aéreo. Como é gostoso ter os pés sobre a terra e ainda assim sentir que até os espinhos são algodoados. Como é gostoso caminhar no solo do planeta e ainda assim ver que tudo são “pedrinhas de brilhante” numa das ruas da Sião celeste. Um dos preços de andar com Deus é ter um par de asas invisíveis que, como aquelas atrofiadas das galinhas, às vezes nos permitem alçar vôo por cima da cerca do mundo, sob o cacarejo atônito e debochado do galinheiro que mal pôde perceber que em seu meio havia uma águia…
  68. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  69. Meu TC do Curso de Direito foi mal feito. A falta de tempo é cruel comigo. Já há dois anos não leio um livro inteiro… Registro isto para perpétua memória da coisa.

O altar da noite escura [artigo para jornal]

A lua antigamente servia à localização noturna, à poesia e ao parto das grávidas. A lua afetava as ondas do mar, o crescimento do cabelo, a semeadura do campo. E muito mais. E ela continua a obrar estas coisas. É que a gente não sabe mais dessas coisas, nem de quase nada. Ontem, sentado no jardim cá de casa, lendo e respondendo bobagens no celular madrugada a dentro, percebi que a lua hoje em dia (e hoje em noite) mal inspira o miado dos gatos e o latino mal uivado dos cães que ainda guardam parentesco distante com os lobos. Séria pergunta: me diga, para que serve a lua na sua vida? No máximo, você curte ou compartilha fotos dela grandona ou vermelha no Facebook, quando os movimentos orbitais da terra aproximam ela de nós e os raios solares colorem sua superfície. Você já ouviu o Sinatra cantando “Fly Me To The Moon”? Você já quis ser astronauta da Apollo 11? Você já ouviu aquela musiquinha “Rato”, aquela em que o rato toma um “toco” amoroso da Lua? Você já viu alguém comparar um queijo suíço esburacado com as crateras dela? Você já ouviu a sonata “Clair de Lune” ao piano?

Bem… Mas não se trata da lua. Tem mais. Muito mais coisas feias e bonitas que nós nos esquecemos que existem por aí, dando mole pra nossa alma, dando sopa pro nosso espírito, mas que nós rejeitamos friamente, como se não precisássemos de nada além das coisas que estão ao alcance material das nossas mãos igualmente materiais. A gente não quer mais saber das “coisas inúteis”. A gente só quer aquilo que venha rápido pro bolso, que venha rápido pro estômago, que venha rápido pros genitais, que venha rápido porquê a rapidez é tão rápida que a gente precisa fazer uma rapidez seguir a outra até que surja rapidamente o dia da nossa morte (ah, e que seja rápida!). Então a vagabundice tem que ser bem remunerada, porquê suar é pra bestas de carga; então a comida pode ser a do micro-ondas ou a do fast-food, porquê cozinhar é praquela velhinha no sítio com seu fogão à lenha; então o orgasmo tem que ser vapt-vupt, quase precoce, porquê há muito mais vaginas pelo mundo e a noite é uma criança; então… é preciso correr, porquê o percurso desta existência acaba logo e é necessário não só tatuar o “Carpe Diem” na nuca — a gente tem que ser um epicurista que não leu Epicuro e tem que mandar a ver na existência!

Não é só a lua. É tudo. Você não percebe (vai, seja sincero) que você é um ralo pro mundo e que todas as coisas boas e bonitas da Criação te são inaproveitáveis? É, você é um ralo. Não, não é um abismo. Você é só um ralo superficial pelo qual escorre vômito, fezes e urina metafísica. Você não quer nada com nada e, quando o nada vem fazer arrepios na sua espinha, trazendo medo e depressão, o que você faz? O que você fará? Arre! Será que pelo menos você será consolado ao saber que tem uma ópera, La Bohème, que fala duma vida toda suja e também toda pseudo-romântica e alcoolizada entre amores, paixões e devassidão?, e, ah!, que também fala da lua numa ária bela e trágica? Sequer isto você tem. Sequer o vil consolo da cultura. “Ma per fortuna / È una notte di luna / E qui la luna / L’abbiamo vicina.” Admita: você não tem nada! Você não tem sequer isto a que você apelidou de você mesmo, o seu eu aparente. A gente está mal, muito mal. Quisera eu, pobre leitor, que você de fato soubesse que Deus criou a lua e que o fato dEle a ter criado é a informação mais importante a que você terá acesso em toda a sua vidinha. Porquê aqui está uma verdade — a Criação — e uma verdade sempre empurra a outra, sempre conduz à outra, como num efeito-dominó.

Esta noite, saia lá pra fora. Vá ver a lua. Chame alguém para vê-la contigo, entre queijos, vinho e boa música. Pesquise sobre ela na Wikipédia. Se necessário, leia até qualquer bobagenzinha sobre suas funções na Astrologia. Mas faça qualquer coisa de mais elevado com sua vida ainda agora e lembre-se disto: o tempo está passando e… também existe um calendário lunar, e ele tem menos dias que os 365 de costume!

[2.12.2018]

 

Boca cheia e coração vazio [artigo para jornal]

A gente chama de bonita aquela que agrada à vista: é estética corporal. A gente chama de linda aquela que encanta a cognição: é estética com ética, para a alma. Mas a gente só chama de bela aquela que simbioticamente agrada e encanta o espírito, a alma e o corpo, porquê, como dizia Urs von Balthasar, “o crítério da verdade é a beleza.” Só é belo o que é bom, também.

Os adjetivos dizem muito do que um homem procura numa mulher. Se o rapaz só te chama de gostosa, você não passa de um deleite gourmet facilmente categorizável num cardápio ou num catálogo. Se ele só te chama de cavala e de potranca, você é um execício lúdico para o fim de semana, que pode ou não incluir montaria. Pitéu, fruta e filé são matérias comestíveis que servem à língua e aos dentes no sabor do prazer, mas que logo vão parar no estômago, depois nos intestinos e, por fim, no en passant dos lençóis e do papel higiênico, na privada. Esta é a alegoria do ciclo pega-e-come[e caga]. Para boa entendedora…

Nosso palavreado é nosso ser se manifestando no mundo. Cristo, a propósito, disse que “a boca fala do que o coração está cheio”. A forma como eu me dirijo a você aqui neste artigo exprime o que eu quero de você: atenção. A forma como o Maurício Pit-Bull, o Jão Vaqueiro e o Tom Bombadinho falam com você demonstram o que eles querem de você e como eles vêem você: um bife a ser mastigado, uma vaca a ser coberta, uma fruta a ser descascada. O cara que é um estereótipo pronto e acabado, uma caricatura juvenil desta classe de galináceos que cacarejam apoleirados nos rebaixados e caminhonetes de cada esquina, vai, muito sinceramente, descrever a realidade do próprio desejo de macho configurado na sua realidade de fêmea.

Volto ao começo da conversa. Um dos dons concedidos ao homem por Deus é o de nomear as coisas, chamando-as pelo seu nome próprio. Heidegger dizia insistentemente que “só há mundo onde há linguagem.” Por que? Porquê nossas palavras estão limitadas pelos nossos pensamentos. Nós colocamos na língua aquilo que, por mais que seja abstrato, já é concreto na nossa mente. Os valores dados às coisas, sobretudo. Os valores que são nossos julgamentos das coisas. Se você não escuta constantemente que é bonita, que é linda, que é bela e, na proporção inversa, ouve que é isto e aquilo com estes e aqueles adjetivos dados aos substantivos comuns, Genival Lacerda adverte: “ele tá de olho é na butique…” Quem poupa carinho na palavra só quer apalpar a poupança.

Se é isto que você quer, legal. Beleza. Ok. Só faça um justo favor aos homens que têm alguma vergonha na cara: não fique por aí (no Facebook, no Instagram, no WhatsApp, na sua rodinha de luluzinhas baladeiras) reclamando que “homem é tudo igual.” Homem só é tudo igual para mulher que é tudo igual. E as coisas começam pela boca. Nem tanto pela boca que beija; mas mais pela boca que fala. Dê, você, nome aos bois; porquê eles andam te dando nome já há algum tempo…

[25.11.2018]

Trecho do conto “A Moça da Sétima Janela”

A chuva é sempre uma oportunidade de sono para as almas românticas. É fatal! Basta que tamborilem no telhado as primeiras gotas para que aqueles que detém um “sono primordial” na alma caiam sobre as cobertas. Este sono nada é senão um elemento de ligação entre a quietude de dentro com a de fora: uma alquimia de melancolia. E não, não se trata de modo algum de melancolia que se parece com tristeza. É aquela melancolia dos regatos se deixando absorver por rios maiores, é a melancolia doce das folhas secas e douradas caindo aos pés da própria árvore. Ela me dizia que um dia de chuva a aconchegava como o colo de sua mãe. Ela sempre me disse que ouvir o murmúrio da chuva na calha ao lado de seu quarto era narcotizante, quase morfínico. Isabel, romântica feito princesa de conto medieval, se encorujava na escola quando menina, com seu capuz de moletom; e se aninha desde sempre nos cantos do sofá, com ou sem a companhia dum livro, quando é sábado à tarde e o mundo do lado de fora está acinzentado, cheio de nuvens, sob chuva pouca ou cerrada. Minha conclusão, e que deliciosa conclusão, é que ela é tão “anacrônica” quanto eu: vive num castelo, com pedras, torres, musgos, montanhas, ar frio, bosques; dormindo e sonhando ora no travesseiro morno, ora com os olhos castanhos bem abertos diante do horizonte.

Trecho do conto “A outra possibilidade”

Quisera poder ter sido um fazendeiro. Medianamente alfabetizado, sem saber ler o barômetro mas capaz de olhar pro céu e dizer à terra dos próximos movimentos das nuvens. Eu não saberia de certo declamar os poemas latinos que decorei quando menino, não saberia escrever naquela caligrafia gótica aprendida na adolescência, não comporia sonetos elegantes às moças que amei ou quase amei. Mas nada me impediria de ser gentil, mesmo bronco, com as camponesas da colônia e colher rosas frescas no jardim da casa-grande para a pastorinha que fica sobre a pedra do outro lado da cerca. Não que eu tenha me tornado um protótipo daquele dândi tolo e envernizado por civilidade inócua que arrastou debilidade na Cidade até encontrar as Serras. De modo algum! Meu espírito nunca foi tomado por plumas e firulas. Acontece que, é verdade, sempre me atraiu muito mais a vida rural que a as questões físicas e metafísicas da metrópole. Sempre me achei mais próximo da sabedoria profunda dos velhos roceiros que da erudição universitária. Sempre me cri mais capaz de admirar as coisas calado, ruminando exclamações e mistérios, que descrevê-las em boa prosa literária. Mas, cá estou neste século e lugar; pronto para procurar eternidades no calendário, preparado para minar diamantes num pântano tão infértil quanto os desertos do norte da África. Não sou nem serei fazendeiro, destes que lavram a terra diretamente, destes que aram os veios e os semeiam estação após estação. Permitiu-me o Senhor, contudo, que eu fosse um cultor destas verdades incômodas à Civilização, da qual esta é a maior: quanto mais longe da terra, menos pó dela nós somos.

As Aventuras de João Burronenhum

VI. CAVALO XUCRO

Eu sempre dizia a plenos pulmões que não pretendia correr de briga alguma, que enfrentava o mundo inteiro sozinho naquela bravura de Santo Atanásio. Era um “galinho índio” dando murros até na brisa, como se ela fosse ventania. Quando punha o pé na rua, fazia questão de estufar o peito e amarrar a cara –marrento, queria marretar os outros na marra. Eu sempre dizia também que dava um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair dela. Um dia, encontrei no boteco do Zé Galhardo um tipo que poderia ter nascido irmão meu: a mesma postura de alma e jeito de lutador de vale-tudo. O sujeito quis começar uma discussão com a garçonete por causa duma pururuca que ele disse ter gosto de ranço. Ele queria paladar no rango: coisa de fresco. Pensei: se esse filho da mãe tivesse fome de verdade, mastigava o torresmo como se fosse maná. Tomei por insulto a reprimenda dada na Belena e, movimento de bote, em dois segundos deitei o miserável no chão. Ele saiu de lá carregado por dois outros mal encarados que fiquei sabendo serem funcionários seus numa fazenda do distrito de Vila do Arraial. Dois dias depois, sexta-feira, o brutamontes voltou. Estava de batina! O canalha, além de implicante, era sacrílego. Ave Maria! Se a carne de porco me tinha posto irado ao primeiro embate, agora o acerto de contas era com o filhote bastardo do próprio Antíoco Epifânio! Num estalo, cai com os punhos no sujeito. Ele desviou, como cobra. Só consegui ver, de relance, um brilho de fazer cair do cavalo. Um clarão. Apaguei. Acordei três horas depois, me contaram. E me contaram que assim que me levantei para deitar porrada no homem, ele retirou do bolso um crucifixo e soltou um “vade retro, Satana!” Eu estava possesso! O homem era padre-padre: frei Zenón, um galego vigário de São Bento do Arraial. Durante quase duas horas ouvi atônito o João Quincas narrando o quanto me debati, blasfemei e atanazei. O ritual do exorcismo foi feito e, ao último amém da pequena multidão que circundava atônita todo o frenesi, eu acordei. Estava leve feito pena sobre as nuvens, me sentindo um filhote de coruja despenado, mudado, sem vontade de abrir a boca, mudo. Sai de lá envergonhado, invertebrado; mas decidido a ser santo, santo, santo!

Trecho do conto “O muro que se guardava do mundo”

Olhos profundos não têm fundo. A gente sabe que anatomicamente acaba tudo ali no limite côncavo da íris e da córnea; e que atrás dele vem o cérebro. Então, todo o complexo da visão se restringe espacialmente ao seu pedaço de carne incrustado no crânio. São duas bolinhas brancas e coloridas entre miolos cinza-sangue. E pronto. Olhos profundos, porém, superam a prisão do globo ocular. Que deleite olhar nos olhos dalguém e sentir que, se na morfologia corporal eles se resumem àquele espaço, àquela órbita e cavidade óssea, o espírito que neles habita mostra-nos galáxias, mundos, sonhos e existências tão superiores que a gente chega a duvidar que estamos diante dum corpo físico; a gente chega a pensar que aqueles dois círculos além-pupila detém a eternidade e que cada piscadela é um eclipse de glória sideral. A ternura do olhar é tão mais infinita, e tão mais bela, que toda a progressão matemática que vai dum extremo do universo a outro. Depois que eu olhei nos olhos dela, Monsenhor, eu entendi dois versos do Pessoa que sempre lera batidos: “A noite não anoitece pelos meus olhos, / A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.” Com ela, é sempre dia e o sol não ousa deixar de brilhar. Mas esta ousadia fulgurosa, por outro lado, misteriosamente chama a lua ao dia; e a noite com ela vem para fazer das minhas vinte e quatro horas uma só e mesma coisa que não é nem totalmente dia nem totalmente noite. É um tempo lusco-fusco. Só tempo, cuja sombra é também labareda. Tudo por causa daqueles olhos profundos… Valha-me Deus de me apaixonar outra vez por alguma dessas moças de olhos rasos e embaçados, rasos feito um pires convexo e embaçados como espelho de banheiro de boate. Depois que eu olhei nos olhos dela, fiquei sabendo que os abismos que vão e voltam do centro do planeta não passam de poças d’água. Olhos profundos não têm fundo, Monsenhor Alfons! Não têm fundo!

O paraíso na terra do qual falam os cristãos

[Comentário a João 18:36]

A vida cá no planeta bem que poderia ser como num daqueles panfletos utopistas das Testemunhas de Jeová: união universal entre tudo e todos ao som dum piano variando restritivamente sobre sol-lá-si-dó (ou sobre um assovio hipongo acompanhado pelo chacoalhar búdico dum sino dos ventos), um comercial da margarina Doriana com a axiologia do comercial do cream cheese Philadelphia. Uma perfeição kitsch: caricatural porquê artificial, engendrada na patacoada forçada duma harmonia melada e tão certinha quanto bobinha. Não seria fenomenal que todos se tratassem festivamente com salamaleques superlativos, como o Ciro Gomes faz com quem lhe cai bem? “Oh, digníssimo e caríssimo ilustríssimo e excelentíssimo irmão!” Não seria grandioso que fôssemos assim todos perfeitinhos, e incapazes de levantar o dedo para discordar individualmente para o conforto da concórdia coletiva? Não seria maravilhoso que cada qual cuidasse dos alqueires invisíveis do próprio quadrado, moldando-se ao cubículo que o tabuleiro impõe às peças? A vida cá no mundo bem que poderia ser como nas páginas milenistas dos santos loucos e dos loucos santos e também dos pecadores loucos e dos loucos pecadores: Thomas More, Platão, Cabet, Francis Bacon, Evêmero, Marx, Saint-Simon e tutti quanti. Seria realmente bom que o Éden fosse por nós mesmos reedificado, que uma era dourada numa nova Arcádia fosse por nossas mãos obrada?

Não! Não seria. A vida só poderá ser boa no Bem quando não for assim tão facilmente descrita por papel e tinta, porquê se uma coisa o Cristo nos ensinou é que o “Reino não é deste mundo” porquê “a letra mata” (II Coríntios 3:6). Entre estes dois versículos articula-se a incapacidade humana de arrebatar a perfeição prometida lá e adequá-la aqui (seja na prática, muito mais difícil, seja na teoria, muito mais fácil). Estamos impossibilitados de construir uma terra de igualdade, liberdade e fraternidade como nunca jamais se viu desde que a maçã foi mordida justamente porquê a árvore secou e cá nós estamos escravizados à diferença (todas as maçãs são iguais entre si?) e à desigualdade (há maçãs iguais para todos nós, diferentes e desiguais?) do ego. A espada que foi posta para circundar o portão do Éden ideal é a mesma que circuncidou nosso coração real: entre nossa concretude falha e a abstração perfeita, está a espada — a espada da força, porquê só à força pode-se tentar obrigar à igualdade, só à força pode-se tentar obrigar à liberdade, só a força pode-se tentar obrigar à fraternidade. No dia-a-dia, quando estes belos conceitos ocorrem (alheios à quaisquer teorias político-filosóficas), já não ocorrem como conceitos; mas como gestos puros e amparados por resignação, consciência e auto-sacrifício de quem quis ser irmão do outro infringindo a si mesmo um nivelamento. Estas virtudes não são impostas pela coerção externa, seja da massa opressiva ou da longa manus estatal; antes, elas nascem do interior, do âmago individual, porquê se por um lado o “Reino não é deste mundo”, por outro “o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21).

Trecho do conto “Às portas do Paraíso”

Sou mesmo um esquisito! E não te parece ser a coisa mais fenomenal do mundo? Por que você vive como se não tivesse alma? Olha, eu percebi que era um “esquisito” quando consegui reconhecer, no meio do engarrafamento, horário de pico em São Paulo, o “Va, pensiero” assoviado por um pedreiro, a uns vinte metros de distância do meu carro. Olhei para o relógio, instintivamente. Lembrei que por aqueles minutos tinha acabado o horário eleitoral gratuito. Tratava-se, com certeza, duma reminiscência do jingle do Partido Liberal inspirando o velho da construção a assoviar. Desde então, sempre que encontro um “tesourinho auditivo” em meio à cacofonia da cidade, eu fixo nele minha atenção e deixo meu pensamento pousar “sobre as encostas e as colinas onde os ares são tépidos e suaves.” Pode ser qualquer coisa, desde que ela detenha uma beleza superior digna de atenção, digna da nossa condição de homens. Um radinho de pilha tocando um baião à moda antiga, uma criança gargalhando pra mãe toda estabanada entre sacolas, um naco de som que de alguma forma seja eco daquela música que toca desde que Deus compôs o mundo. Ah, como é delicioso ser “esquisito”!

Trecho do conto “O Último Sermão de Beda o Menor aos Náufragos”

A vida está escorrendo das suas mãos, como aquela água de mar que escorreu das mãos do menino que a Agostinho ensinou a resignação dos mistérios. A vida passa como tempestade na primavera, como brisa no inverno, como um jogo de xadrez no qual o movimento das peças é feito pelo acaso determinista das correntes de ar do planeta. Nós cá estamos, sentados em nossos cantos e tronos, no anonimato de nossos particulares reinados, à espera da lágrima final e do sorriso eterno. Tudo se encaminha pela entropia, pelo desgaste das pedras no fundo do mar e pela consumição dos gases de Júpiter. Tudo é uma grande mancha no espelho, uma casquinha de prata sobre o bronze polido, um véu rasgado duma noiva casta mas sem pretendente? Não, meus filhos, nós somos o espelho feito daquele cristal fluído que moldou as almas; nós somos já a imagem pura e irrefletível do Espírito que soprou; e nós estamos em festa de bodas desde que água batismal lavou nossas frontes e corpos. A vida aqui sob o sol está correndo contra àquela ampulheta que reúne um grão a mais que todos os desertos da terra. A vida aqui escoa como a chuva que desce do solo até às nuvens e contraria o ciclo das águas ao se reempregnar no acolchoado branco e silente do céu que está um pouco acima do céu. A vida aqui se torna permanente como os peões, os cavalos, os bispos, as torres e os reis e rainhas do mundo vindouro se enfrentam naquele jogo de pique-esconde que agora apenas os anjos jogam.

Trecho do conto “O laço e o nó”

Tu eras um desenho, pouco mais que rascunho, uma pincelada de guache na cartolina, um esfumado de grafite, linhas da estrutura ainda não completada pelos detalhes de lábios e íris. Poderias ter sido obra-prima, tela nas galerias e quadro sobre a lareira. Tu eras sinfonia inacabada, partitura em alegro ma non tropo que cuidava de anunciar aquelas notas de êxtase do vivace; notas esparsas e geniais, árias fulgurosas, harmonia superior mas incompleta. Poderias ter sido a opus fundamental dos consertos que me arrepiaram a espinha. Tu eras uma grande peça de mármore, extraída finamente daquela fonte toscana, delineada por fora no cinzel, só esculpida nas mãos e na face, com um certo polimento na ponta dos dedos mal talhados. Poderias ter sido uma Pietà casadoira, um monumento de pedra à tua carne rosada. Tu eras e poderias… Então vieram as novas de Viena e tive que correr a acudir minha mãe viúva. Pensei que, órfão, tu me acudirias o coração. Ausentei-me durante o inverno e a primavera. Bastou uma semana e as cartas então diminuíram primeiro no tamanho, na quantidade de palavras; depois, reduziram-se no número e no espaço de tempo entre uma e outra. Há dois meses nada vem daí e nada vai daqui. De minha parte, com a guerra na fronteira, tu sabes o quanto é raro encontrar papel nas imediações de Innsbruck. Da tua, sei que em Saint-Fargeau o papel não apenas é da melhor qualidade, mas está tão barato que a resma já se compra ao preço de dois francos.

 

 

Trecho do conto “A Penúltima Estrela de Annwn”:

O coração feminino também é selvagem. Apaixonado, é capaz de crimes inarráveis, de terrores míticos e trevosos, de loucuras que esfriam e esquentam a espinha de quem lhes ama ou detesta. Mas é duma selvageria doce, cheia de candura.
— Acende aí o candeeiro, interrompeu dando-lhe também o copo e apontando para a garrafa sobre a pequena mesa posta ao lado da lareira. —
A abelha que ferroa a cabeça, deita mel na boca. A rosa que violenta a pele, dá o perfume que estonteia. A mulher assim tremendamente apaixonada parece-se com aquelas crianças psicopatas dos contos e da realidade: beijam carinhosamente a testa que talvez escalpelassem e curam com seus unguentos as chagas que num minuto poderiam salgar. E os olhos, como agem nesta selva? Abertos, eles hipnotizam; fechados, erotizam. São medusas cujas serpentes se aninharam no cálice cerebral, invisíveis. Os faróis da Antiguidade também causavam esse estupor: se a fogueira flamejava, marinheiro algum ousava tirar dele a visão; mas se a chama sumia, seu desejo e oração eram, com obsessiva ansiedade, não de chegar seguro ao porto, mas de rever o ponto de luz que lhe guiava, nem que para tal tivesse que gastar propositadamente mais algumas horas ou talvez se fizesse, por alguns dias, náufrago consciente no mar. Sereias e naufrágios, meu filho, são amantes associados entre si; pactuaram o mesmo contrato visceral que sede e água mantêm ajustado desde que Deus criou os mundos.

Trecho do conto “Os Sinais”

Como caem secas as folhas e o vento a cada uma empurra à fogueira, com um pulo me levantei do divã e em três segundos já estava diante da porta dos aposentos de Leonora. O piso, apesar de diariamente barulhento, não rangeu. Madeira alguma estalou sob e sobre meu caminho. Talvez por obra do demônio, de repente, impulsionado por esses ares frios que, rastro do inverno, acometem violentamente certas noites de primavera, começou lá fora um vendaval capaz de abafar o barulho produzido por um pelotão de artilharia praticando tiro-ao-alvo no meio do salão. Também me recordei, porquê desde o começo da semana eu ainda estava acordado à esta hora, que a velha governanta costumava fazer uma última ronda antes que o relógio batesse à meia-noite. A Sra. Jenyns não apareceu e, por isto, também todas as velas que se acabam àquela hora não foram trocadas. Tudo ficou escuro. Que potestades do ar assim poderiam conspirar para que um tal pecado se cometesse em silêncio? Deitei o ouvido esquerdo à madeira da porta: discerni o som da pena no papel e a respiração ofegante de quem está tomada por ansiedade. Ela me esperava, e de certo rabiscava qualquer verso na tentativa de me impressionar novamente. Mas estes sinais, arautos das aparências do mal, aos quais eu sempre fora muito sensível desde a infância, me detiveram antes de bater à porta. Pela manhãzinha, pouco depois do último canto do galo, saí do palazzo alegando enfermidade na família. Deixei-lhes um bilhete, um bilhete oficial, no qual pela primeira vez opus o brasão pastoral e assinei o título de reverendo doutor. Passei pela mulher de Potifar sem sequer deixar-lhe as vestes nas mãos. O próximo passo, para ao qual eu já havia calçado as botas, era pedir Rebeca em casamento.

Trecho do conto “Num lugar de São Paulo”

O Quixote deste tempo forjou das latinhas de refrigerante sua armadura prateada; alumínio com o logo da Coca-Cola embaçado. Fez do bambu arrancado da decoração dum restaurante japonês sua lança. Arvorou bandeira dos trapos amarrotados duma torcida organizada. O escudo, retirou-o do tampão azul dos bueiros da Sabesp. E dum capacete de futebol americano fez seu elmo. Seu Rocinante? Mira o fidalgo cavalgando a Monark aro 26 resgatada do lixão! Ainda vejo cavaleiros. Homens de porte digno e medieval, trotando a pé seus alazões de almas antigas, seus espectros de puro-sangue equino estacionados nas baias das praças com catraca. Cavaleiros sagrados e ungidos pelo óleo que pinga do céu, o óleo duma gota gelada do filtro do ar-condicionado instalado no septuagésimo sétimo andar, o óleo duma cagada aérea de andorinha que dizem dar sorte. A Dulcinéia persiste sendo a mesma, debruçada do balcão da lojinha ou do consultório médico, moça igual as lavadeiras de Tebas, as enfermeiras de Gettysburg, igual as donzelas castas e não tão castas que as ruas, as igrejas e o mundo expõem na modéstia um pouco brega e um tanto cândida da normalidade feminina.

Os Vales de Fortún e o Pendão de Carolina

Granada parecia-me um pedaço de céu habitado por demônios. Jardins de querubins alojados de diabos e suas cimitarras. Azulejos, torres, zimbórios… Tantas e tantas graciosidades celestes servindo de espaldar para gentios. Granada era este Éden ocupado pela Serpente e suas crias. A romã que provei aos pés da colina maior deixou minha língua permanentemente marcada por um dulçor que até então desconhecia e talvez cria mesmo fisicamente impossível. A maça, o fruto da queda? Maná, que foi e que era? Notei também a quantidade de pedras bem polidas e de vidros lapidados. Natural, entre nós cristãos, que as pedras sejam lapidadas e os vidros polidos, porquê um já vem com brilho implícito e o outro nós homens fazemos brilhar porquê fazemos existir, e isto é explícito. Talvez seja esta a lógica do Islã com sua Sharia: o criado por Deus, mais duro e duradouro, deve ter seu brilho pouco revelado, quase embaçado na fricção irreverente das lixas grossas e finas; e o criado pelo homem deve ser elevado, posto numa proeminência de modo que a areia fundida mais refulja que os rubis e os diamantes. Porém, nós os súditos do Ressuscitado já há muito aprendemos com o querido Boi Mudo que a pedra deve ser burilada para sua ascensão e exaltação enquanto reflexo de Deus, e que aquilo que o homem cria deve permanecer como descendente de sua pequenez originária.

Tríduo da Segunda-Feira

I. A melancolia e o cheiro das pedras, estes minerais cinzas da cor das nuvens pouco antes da chuva, cobriram de neblina o jardim. O muito esforço da menina tinha enchido de tulipas alaranjadas, de camélias brancas e de rosas vermelho-sangue os pouco mais de dez metros de terra que lhe correspondiam sob o muro. Mas a cerração caiu fria e lentamente sobre a terra até que, dois dias depois, a geada tinha transformado aquele colorido num cemitério de caules retorcidos e pétalas queimadas. Talvez esta fosse a descrição ideal, mais bem narrada, do que foi todo o período de luto. Bastou trocar a roupa preta pelas que haviam sido deixadas no guarda-roupa desde a manhã do enterro para que, sem que ninguém revolvesse o solo ou nele jogasse qualquer adubo, as flores brotassem à partir do pedaço de chão onde por acaso pousara o lenço ainda úmido com a última lágrima.

II. Na penúltima página do livro ficou guardada a primeira flor, cor de cereja, odor de lírio. Como última lembrança da tarde fresca, de sombra rajada sob o zimbro azul. No ar o sândalo e o café, o limão e a baunilha, no doce de comer, no doce de cheirar. A toalha listrada de xadrez: tu aqui e eu aí, partida de duas peças, jogo de dois oponentes, entre blefes e poesia, entre confissões e ira. A penúltima palavra antes de “fim”, que é a última: “sonho”. O travesseiro me engana? Não há farol entre o nevoeiro? Na primeira prateleira, no primeiro lugar aberto, o livro dorme seu sono e eu deliro inquieto. E escrevo a primeira página, a primeira estrofe e a primeira frase, a primeira palavra e a primeira letra. Nas eiras da história, nas beiras da memória, teu rosto fresco, lavado. Mel com vinho e queijo, o céu sobre o Minho, o verso sem rima aparente, a música e a grama verde. Um e dois parágrafos, copos cheios e pratos limpos. Retiro a flor. Apegada a cada pétala uma, outra palavra ficou. No bem-me-quer uns verbos, no mal-me-quer uns substantivos. Na haste, cor de pó de jade, em caractere romano, um pronome: “tua”.

III. Quando ela ficava feliz, sua felicidade não era tão aberta como uma tarde de sol, brilhante em cada aspecto, iluminada em cada espaço, uma felicidade de passarinhos piando sobre fontes de água fresca e cristalina, e de flores desabrochando a cada passo no caminho. Aquela felicidade semeada de pequenas sombras, adornada de meios-tons crescentes e decrescentes na luz, no canto dos pássaros e também das aves noturnas, nas flores de perfume leve e também inodoro ou muito exagerado. A felicidade dela era aquela felicidade do Concerto de Aranjuez: uma alma castelhana, equilibrada mas de profundo melancólica, dedilhando caprichos árabes duma felicidade tão feliz, e por isto tão distante, que suavemente se alternava entre a melodia grave e longa e a melodia aguda e curta, até que sobrava o violão quase solitário, um violão taciturno, carregando a orquestra pela harmonia. Quando ela ficava feliz era noite, e a noite se iluminava não porquê a lua refletia as últimas fagulhas do sol, mas porquê, de tanto ser iluminada, a lua ganhara qualquer reserva infinita de luz, luz que se fazia própria.

Dois bilhetes dispersos a mim mesmo

I. É como ouvir um oboé tocando solitário uma qualquer melodia de taverna irlandesa, é como dos passos da bailarina soarem os trovões dum órgão de catedral gótica. Quem já mediu a temperatura duma lágrima recém-saída dos olhos daquela mulher, no instante entre a queda que vai do canalzinho no canto do globo ocular até o ponto que na face consegue sustentar o líquido, sem alterá-lo no sentimento, no calor e mesmo no ph ao contato da pele? É como ela cantando, duma campina distante e próxima, o “Baïlèro” de Canteloube; é como se, ainda que da cor da aurora presta, as maçãs amadurecerem sem antes o outono folhar a superfície do rio. Ninguém, de certo, jamais mediu a precisa porção de joules que aqueles olhos castanho-raiz entornam toda vez que resolvem meditar. O termômetro, o único termômetro, é teu coração.

II. Tu és estátua que fazes a ti mesma. Nesta dialética de movimento que faz a inamovibilidade, neste dinamismo que organicamente assenta e fixa, tu te esculpes. Mas podes sair deste trabalho obra-prima ou monturo de pedra com feições algo humanas: se te esculpes sozinho, mal se vendo e percebendo (porquê, recorda, o homem que esculpe é o homem que é esculpido), sem espelho sequer, tu pouco ou muito cortarás na lapidação e nenhuma harmonia conjunta surgirá; porém, se deixas que Deus conduza tuas mãos, confiando, cada aresta aparada dará forma à uma beleza superior. Por mais que no início nada vejas, quando as linhas se interligarem em suavidade e perfeita geometria, um qualquer espelho embaçado brotará do teu coração e, de olhos fechados e de íris cerradas, contemplarás o Senhor dizendo-te não aquele “parla, parla!” de Michelangelo nem aqueles versos homéricos que balbuciava Rodin aos ouvidos de suas estátuas; ouvirás, voz forte de brisa serena como se lua e sol compartilhassem o mesmo céu, aquele brado — “vive!”— que ouviu Adão.

Confissões — II

Quanto mais observas teu passos, mais percebes a deformidade dos teus pés. E na incoerência mínima das pisadas formando os passos no caminho, tantinho à direita e tantinho à esquerda, depois de tempo mais demorado, do Caminho chegas aos caminhos laterais e finalmente aos muitos e tortuosos atalhos; e então te perdes. Mas, porquê estás atento ao movimento que a mente ordena às pernas e aos pés, tu de pronto retornas à trilha radicular e dela sobes à senda colateral e, então, galgas outra vez o reto Caminho. Observa teus passos e vê como a terra eles marcam, como teus dedos sulcam rastros, como tu e tu mesmo imprime a força do corpo e do espírito sobre o solo. As falhas da anatomia da alma, pespegadas ao corpo, são para ti um mapa das rotas da existência. Se queres viver para além de falanges e metatarsos te obrigando a percorrer a corrida dos desejos, submete teus pés pela vontade, assente na maratona que se caminha toda a vida.

As incoerências que pairam disfarçadas sobre o coração, faiscando e atraindo sobre ele miragens reativas ou inertes, ou mesmo as incoerências mais profundas, e por isto mais próximas, que densamente repousam no baixo subsolo da alma… As incoerências são como aquelas linhas paralelas que os matemáticos mitólogos ou mitômanos sempre nos disseram não se encontrarem no infinito, mas que se cruzam, em algum momento, quando Deus o decreta, para unir as disparidades e contradições da biografia e reatá-las no fim almejado: a Eternidade.

Confesso, Senhor: deformado que sou, forma-me na tua forma — tuas mãos de oleiro darão à minha carne a contingência da alma; deformado, dá-me a forma da perfeição que aos santos é dada atingir ainda em corpo. Confesso, Senhor: incoerente que sou, tanto careço da tua linha de costurador de tecidos contrastáveis, de linhas mais finas e grossas, de toque macio e grosseiro; incoerente, faz que os ponteiros do relógio que correm nas horas pela direita, nos minutos pela esquerda e que nos segundos pulsam para o alto, conciliem-me no tempo para o tempo-que-não-se-conta. Deus meu, tece a tapeçaria de minha vida não pelo fiar inconsequente das moiras nem pelo fazer e desfazer das mãos amorosas mas humanas de Penélope: tece-me entre os fios coloridos da carne e os fios alvos da luz do espírito para que, ao cabo, eu te seja uma túnica inconsútil.

Tríduo da Quinta-Feira

I. Se a sede é pouca, dão-te um garrafão de cinco litros e exigem que o bebas num gole. Se a sede é muita, ministram-te uma gota d’água num conta-gotas, esperando que a engulas vagarosamente e que ainda a sintas percorrendo todo o caminho que vai da língua à boca do estômago. Este mundo é louco, bella fantina! É louco não na acepção brincalhona da palavra, aquela que nos fala de pinéis, juqueris e piadas conexas à camisas-de-força. É louco como Satã mesmo é louco: em seu íntimo o grão-demônio domina a verdade, mas ela é tão desproporcional nele quanto essa desconformidade entre sede e água. Cristo parece-te desproporcional quando do poço tu retiras no balde capaz quantidade para encher teu cantil, e Ele ainda te vem falar que essa água, suficiente para hidratar saudavelmente teu corpo, ainda te causará sede? E, mais ainda, julgas louco o Mestre quando diz ele que do teu interior fluirão rios de água viva? Ele, insano, que ainda ontem nos dizia que Seu reino não é deste mundo? A alegoria equilibra os pesos e medidas das coisas visíveis e invisíveis.

II. No meio do caminho, começo e fim se unem não pela pedra no meio do caminho, mas por mim mesmo admirando a pedra. Se estou no meio do caminho e vou daqui para aí e se tu estás no meio do caminho e vens daí para cá, teus pés e os meus pés estão juntos. Ora, gostas também de por demoradamente os olhos nas pedras. Estamos cá juntos no meio do caminho. Então, não há mais passos para serem caminhados. O caminho acaba aqui, neste milímetro entre pés descalços, que separa o meu dedão do teu dedinho. Esta pedra, moça, é mais que pedra: é rocha. Eu posso querer esculpi-la, porquê sou metido a artista e tu mereces uma estátua que no mineral faça um pouco mais permanente teu sorriso; tu podes querer implodi-la, porquê preferes fazer areia na beirada deste mar de nossos sonhos azuis. Então… Faz tua areia, faz, porquê este caminho converge com a eternidade e melhor me é passar o tempo todo que foi, é e será olhando para teu sorriso de anjo arrepiado que recordando, na pele de pedra duma Eva inanimada, estes lábios que na carne e no osso me encantam a alma!

III. Esta perambulação de “amor” em “amor” que é senão corrida, quase maratona!, numa gangorra, de paixão em paixão? Patologia do coração. Loucura sem cura, sandice, folia da anomia, esquizóidice. É como se um demônio, um fauno maligno, dançasse polca no útero das fêmeas. É como se fadas, salamandras do mal, mergulhassem nos bolsões dos machos. Os adjetivos masculino e feminino são, respectivamente, coisas de homens e mulheres; coisas de quem ama — amor apegado às sinapses. Na razão sentimental não há vagar errante no amor, com subidas e descidas tão altas e tão profundas num ziguezague de loucura vertical entre céu e inferno. Caminha-se, pois, naquele caminho estreito do qual Cristo falou. Mas que bonito caminho! Apertado, mas retilineamente avante, frondoso e harmônico na mistura de minerais para os quatro pés, vegetais para os quatros olhos e animais para uma só companhia (dois, um para o outro, são sempre um).

Trecho das “Baladas para a Dama das Sete Estrelas”

CANTO XII

E o tempo parou, e a pupila se abriu para o último raio de sol do Levante, entre a areia que o vento trazia e o subir do véu. Vem, vem aqui, sobre o monte mais alto, sobre a torre mais forte. Daqui verás o lugar que para nós dois conquistarei nos quadros, daqui ouvirás as canções e os poemas que deste dia farão seu recordo. Se o pergaminho se queimar e ainda da tela a tinta se despregar, um anjo e sua talhadeira escreverão diante de Sião os versos do meu e do teu coração. Que ressoe a fanfarria e que os tamborins marquem o tempo das flechas, mas que este nosso silêncio seja mais ouvido que qualquer clarim de prata e que esta pulsação acelerada mais se ouça que um hino marcial. O luar já vem subindo e o olhar com ele vai cedendo. O elmo levanto quando já a brisa devolveu às dunas cada grão-de-areia e a ampulheta faz o trabalho que o astro-rei há meia hora deixou de obrar. O tempo está parando. Não o sentes fugindo, suspenso outra vez no olhar recíproco e cândido? Se as dançarinas dançarem apenas sob o desejo de dançar e os soldados sem soldo lutarem, e se o ofício der lugar à vocação e a rotina diária for pelo prazer repetitivo vencida, o tempo, o tempo aqui neste monte, o tempo aqui nesta torre, terá neste leito a única fresta capaz de lhe revelar a eternidade.

Confissões — I

Talvez o grande chamado fosse despertar e dormir sob o canto do galo. Talvez lavrar alguns hectares de terra boa e roxa e criar os filhos ao lado do celeiro onde os patos, as vacas, os porcos e os cães têm suas ninhadas. Arar a terra úmida e ao fim da tarde bater a poeira das botas e do chapéu. Comer o guisado e beber o vinho como um fazendeiro micênico que passou sua vida desconhecendo Tróia e seus heróis. Talvez o grande chamado fosse contar coisas bonitas, causos da roça, para a amada, sem cantá-las em versos hexâmetros. Talvez ter calos nas mãos e não curvaturas mais robustas no cérebro fosse o ideal e esquecer os pergaminhos antigos e os livros modernos aquecesse mais o coração. Talvez nunca compor poemas, mas ter no peito a mesma chama que inspirou o soneto barroco de Camões e até aquela cançãozinha agourenta de Henrique VIII: porquê o “fogo que arde sem se ver” reduziria às cinzas as “mangas verdes”. Talvez ouvir a respiração dela e só, e mais nada neste mundo, fosse suficiente para esta alma que ainda hoje quer por os ouvidos nas composições dos gênios. Talvez o sabiá a ajudasse, e o bem-te-vi e o pintassilgo, e a coruja. Amar ela e só ela sem outra beleza a tentar, sem outra paixão flertando com carências despistadas, sem qualquer outro olhar com que sonhar quando uma viagem precisasse ser feita. Talvez o grande chamado fosse confiar no produto da terra, tão próxima do chão da casa larga com filhos fortes e sadios quanto a limpeza asséptica com sua química está apegada ao berço imunizado dos bebês filhos únicos. Talvez, então, o grande problema filosófico não fosse Deus e o nosso eu e o quê é a verdade, mas tudo se resumiria à certeza de que, um dia após o outro, quando o relógio batesse o primeiro segundo da vigésima-quinta hora, tudo estaria consumado na Eternidade. Talvez o grande chamado fosse uma caneca de café forte pela manhã e uma botija de água fresca da moringa para a tarde e uns goles de vinho doce à noite, e não estes líquidos açucarados que passam direto por sol e lua, por sangue e pâncreas. Dormir na rede, pescar no riozinho fino no fundo do sítio, comemorar as datas santas e os aniversários e os batizados e os casamentos, comer feijão e torresmo do fogão à lenha, passar manteiga saída da vaca que mugiu na noite em que o primeiro filho nosso nasceu, passear descalço no meio da plantação, cavalgar pelo campo feito um homem livre. A vida seria pastoral sem saber o quanto esta palavra, aparentemente bonita e jovial, comoveu poetas, pintores e músicos tão enervados com suas cidades… Talvez o grande chamado fosse acordar e sonhar sob o canto da vida.

Uns olhos

Uns olhos redondos, da cor da jabuticaba depois que acaba de perder o verde, firmes e doces como os favos de mel que as abelhas negras produzem no Himalaia. Uns olhos profundos e turbados, fundos como o lago do conto de Avalon e turbados como as águas purificadoras do Jordão. Uns olhos que olham para o alto mais que para baixo e para o horizonte. Olhos em que qualquer coisa de místico e niilista se fundem na crença do nada e na descrença do tudo. Uns olhos que arrastam anjos à perdição e demônios à santidade. Uns olhos vastos para uns e limitados para outros: os olhos da esfinge, os olhos da coruja de Atena, os olhos da chama do caldeirão e do relâmpago da primavera. Uns olhos imaginando galáxias nas poças d’água, fiando tapeçarias infindáveis, desvendando os enigmas dos magos antigos, caçando os bois de Gérion. Uns olhos onde um filho de Adão se perde para se encontrar.

Três trechos destes três dias

I. Eu me decepcionei com sua beleza como quando, menino de sete anos, pela primeira vez enxerguei uma borboleta imperial sugando as fezes de um cachorro lá da rua. Escândalo metafísico para uma alma toda tola e ingênua como a minha. Será que até mesmo este inseto naturalmente belo e colorido fora afetado pelo pecado original? Certo que meu bairro não era o Éden, mas me acostumei com a imagem constante de apenas vê-las no roseiral. Mas, e tu? Estranho, porém, era que eu te supunha como uma destas borboletas: pura, inocente, cândida. Então, eu te vi. Eu vi.

II. Anotei na última página limpa do caderninho estes versos, que nunca entreguei para o meu e o teu bem: “Sinto teus passos cambaleando, / Certos e incertos: teu pensamento. / E como a água fresca ardendo, / Ardendo na língua febril ao vento. / No íntimo do véu sob o peito, / Enclausuras meu nome ao relento. / E eu, neste espírito recôndito, / Custodio tua memória escrevendo.”

III. Deus também me deixou vê-lo na fresta dum penhasco. A fresta foi um sonho e o penhasco a consciência quando acordado. O sono foi pesado, mesmo depois de ter jantado macarrão e vinho como se meu estômago fosse o de um mamute. Foi na madrugada e na tarde duma sexta-feira, respectivamente. Sonhei que num tribunal um crucifixo caia sobre a cabeça do juiz e o feria de morte. Desperto, fui depois assistir à uma audiência criminal. Num bate-boca com o advogado, a maldita expressão soou do Bouche de la Loi: “Porco dio!” À noite, dirigindo seu carro de volta para casa, noutra cidade, o magistrado bateu de frente com uma estátua do Cristo Redentor instalada na rotatória principal da rodovia. Morreu…

Carta e trecho final do conto “Os Pequenos Sinos”

Bella:

À tua alma só anseio dizer meus nadas. Porque se me perguntas como andam as coisas, só me recordo das ausências das coisas, como o fato do sabor do queijo muito dever aos seus buracos, essas cavernas onde uma substância primordial em certo tempo agiu ocupando espaço e criando gostos. Contigo consigo ser o meu eu ideal. Não calculo palavras, não meço gestos e movimentos, não me articulo esperando ser interpretado de acordo com esta ou aquela idéia que causaria esta ou aquela impressão. Toda a fadiga da repetição não existe. Não há mecânica entre nós dois. Por isto, brotam-te de mim meus nadas; figuras eternas, idéias puras da essência mesma do meu amor. O amor, pequena, não é assim tão metafísico. É físico como a ausência de preocupações no cérebro do monge. Paradoxo? Contradição? O vocabulário está mudado, porquê desejo dizer a realidade que as palavras limitam na cadeia de suas formas sonoras e desenhadas.

Aquelas histórias sobre castelos nos céus, sobre pedras sustentadas por nuvens: é este o nada que te quero contar. O nada qual as sombras que a luz do vaga-lume gera por onde passa. Quais pequeninos entes ganharam, na terra e nas paredes da terra, figuras sombrias através do fogo químico deste inseto? Tal é um destes nadas. E também esta questão o meu nada encerra: em noite escura, quem vê as estrelas refletidas nas gotas d’água que umedecem a relva? A imagem dos astros o quê muda na natureza da água, seus espelhos? Tua alma escuta a minha nestes nadas que são tudo.

Então, eu te respondo: “mais ou menos.” Quão poucos são os seres de nossa espécie capazes de conhecer, nas vísceras do espírito, o significado desta expressão. Quem, pergunta por aí, já sentiu o mais do nada e o menos do mesmo nada a ponto de, tudo equilibrando no tudo, poder olhar para a situação, para sua situação, e dizer consciente como diante de Deus: “estou mais ou menos.” Este “ou” não é conjunção alternativa, segundo julga a gramática da língua lá de baixo. Porquê se diz por lá que o “ou” é isto ou aquilo e que ou está assim ou assado, de um jeito ou de outro, sendo x ou y; tudo bem estanque e limitado e definido. Mas, não: aqui se está, ao mesmo tempo, mais e menos. Este “ou” é, de certa forma, um “e” que adiciona. No entanto, não deixa de ser um “ou” efetivo, porquê funciona como uma balança, como uma gangorra, como um pêndulo, como um imenso cano que, deixando sem parar fluir água dum oceano a outro, durante a maior parte do tempo a retém neste caminho, em si. Pois, então, se estou mais e menos, um estado anula o outro e conclui-se que não estou nada. E este nada é tanto. É tudo. Por isto, à tua alma desejo dizer meus nadas.