Tríduo da Segunda-Feira

I. A melancolia e o cheiro das pedras, estes minerais cinzas da cor das nuvens pouco antes da chuva, cobriram de neblina o jardim. O muito esforço da menina tinha enchido de tulipas alaranjadas, de camélias brancas e de rosas vermelho-sangue os pouco mais de dez metros de terra que lhe correspondiam sob o muro. Mas a cerração caiu fria e lentamente sobre a terra até que, dois dias depois, a geada tinha transformado aquele colorido num cemitério de caules retorcidos e pétalas queimadas. Talvez esta fosse a descrição ideal, mais bem narrada, do que foi todo o período de luto. Bastou trocar a roupa preta pelas que haviam sido deixadas no guarda-roupa desde a manhã do enterro para que, sem que ninguém revolvesse o solo ou nele jogasse qualquer adubo, as flores brotassem à partir do pedaço de chão onde por acaso pousara o lenço ainda úmido com a última lágrima.

II. Na penúltima página do livro ficou guardada a primeira flor, cor de cereja, odor de lírio. Como última lembrança da tarde fresca, de sombra rajada sob o zimbro azul. No ar o sândalo e o café, o limão e a baunilha, no doce de comer, no doce de cheirar. A toalha listrada de xadrez: tu aqui e eu aí, partida de duas peças, jogo de dois oponentes, entre blefes e poesia, entre confissões e ira. A penúltima palavra antes de “fim”, que é a última: “sonho”. O travesseiro me engana? Não há farol entre o nevoeiro? Na primeira prateleira, no primeiro lugar aberto, o livro dorme seu sono e eu deliro inquieto. E escrevo a primeira página, a primeira estrofe e a primeira frase, a primeira palavra e a primeira letra. Nas eiras da história, nas beiras da memória, teu rosto fresco, lavado. Mel com vinho e queijo, o céu sobre o Minho, o verso sem rima aparente, a música e a grama verde. Um e dois parágrafos, copos cheios e pratos limpos. Retiro a flor. Apegada a cada pétala uma, outra palavra ficou. No bem-me-quer uns verbos, no mal-me-quer uns substantivos. Na haste, cor de pó de jade, em caractere romano, um pronome: “tua”.

III. Quando ela ficava feliz, sua felicidade não era tão aberta como uma tarde de sol, brilhante em cada aspecto, iluminada em cada espaço, uma felicidade de passarinhos piando sobre fontes de água fresca e cristalina, e de flores desabrochando a cada passo no caminho. Aquela felicidade semeada de pequenas sombras, adornada de meios-tons crescentes e decrescentes na luz, no canto dos pássaros e também das aves noturnas, nas flores de perfume leve e também inodoro ou muito exagerado. A felicidade dela era aquela felicidade do Concerto de Aranjuez: uma alma castelhana, equilibrada mas de profundo melancólica, dedilhando caprichos árabes duma felicidade tão feliz, e por isto tão distante, que suavemente se alternava entre a melodia grave e longa e a melodia aguda e curta, até que sobrava o violão quase solitário, um violão taciturno, carregando a orquestra pela harmonia. Quando ela ficava feliz era noite, e a noite se iluminava não porquê a lua refletia as últimas fagulhas do sol, mas porquê, de tanto ser iluminada, a lua ganhara qualquer reserva infinita de luz, luz que se fazia própria.

Dois bilhetes dispersos a mim mesmo

I. É como ouvir um oboé tocando solitário uma qualquer melodia de taverna irlandesa, é como dos passos da bailarina soarem os trovões dum órgão de catedral gótica. Quem já mediu a temperatura duma lágrima recém-saída dos olhos daquela mulher, no instante entre a queda que vai do canalzinho no canto do globo ocular até o ponto que na face consegue sustentar o líquido, sem alterá-lo no sentimento, no calor e mesmo no ph ao contato da pele? É como ela cantando, duma campina distante e próxima, o “Baïlèro” de Canteloube; é como se, ainda que da cor da aurora presta, as maçãs amadurecerem sem antes o outono folhar a superfície do rio. Ninguém, de certo, jamais mediu a precisa porção de joules que aqueles olhos castanho-raiz entornam toda vez que resolvem meditar. O termômetro, o único termômetro, é teu coração.

II. Tu és estátua que fazes a ti mesma. Nesta dialética de movimento que faz a inamovibilidade, neste dinamismo que organicamente assenta e fixa, tu te esculpes. Mas podes sair deste trabalho obra-prima ou monturo de pedra com feições algo humanas: se te esculpes sozinho, mal se vendo e percebendo (porquê, recorda, o homem que esculpe é o homem que é esculpido), sem espelho sequer, tu pouco ou muito cortarás na lapidação e nenhuma harmonia conjunta surgirá; porém, se deixas que Deus conduza tuas mãos, confiando, cada aresta aparada dará forma à uma beleza superior. Por mais que no início nada vejas, quando as linhas se interligarem em suavidade e perfeita geometria, um qualquer espelho embaçado brotará do teu coração e, de olhos fechados e de íris cerradas, contemplarás o Senhor dizendo-te não aquele “parla, parla!” de Michelangelo nem aqueles versos homéricos que balbuciava Rodin aos ouvidos de suas estátuas; ouvirás, voz forte de brisa serena como se lua e sol compartilhassem o mesmo céu, aquele brado — “vive!”— que ouviu Adão.

Confissões — II

Quanto mais observas teu passos, mais percebes a deformidade dos teus pés. E na incoerência mínima das pisadas formando os passos no caminho, tantinho à direita e tantinho à esquerda, depois de tempo mais demorado, do Caminho chegas aos caminhos laterais e finalmente aos muitos e tortuosos atalhos; e então te perdes. Mas, porquê estás atento ao movimento que a mente ordena às pernas e aos pés, tu de pronto retornas à trilha radicular e dela sobes à senda colateral e, então, galgas outra vez o reto Caminho. Observa teus passos e vê como a terra eles marcam, como teus dedos sulcam rastros, como tu e tu mesmo imprime a força do corpo e do espírito sobre o solo. As falhas da anatomia da alma, pespegadas ao corpo, são para ti um mapa das rotas da existência. Se queres viver para além de falanges e metatarsos te obrigando a percorrer a corrida dos desejos, submete teus pés pela vontade, assente na maratona que se caminha toda a vida.

As incoerências que pairam disfarçadas sobre o coração, faiscando e atraindo sobre ele miragens reativas ou inertes, ou mesmo as incoerências mais profundas, e por isto mais próximas, que densamente repousam no baixo subsolo da alma… As incoerências são como aquelas linhas paralelas que os matemáticos mitólogos ou mitômanos sempre nos disseram não se encontrarem no infinito, mas que se cruzam, em algum momento, quando Deus o decreta, para unir as disparidades e contradições da biografia e reatá-las no fim almejado: a Eternidade.

Confesso, Senhor: deformado que sou, forma-me na tua forma — tuas mãos de oleiro darão à minha carne a contingência da alma; deformado, dá-me a forma da perfeição que aos santos é dada atingir ainda em corpo. Confesso, Senhor: incoerente que sou, tanto careço da tua linha de costurador de tecidos contrastáveis, de linhas mais finas e grossas, de toque macio e grosseiro; incoerente, faz que os ponteiros do relógio que correm nas horas pela direita, nos minutos pela esquerda e que nos segundos pulsam para o alto, conciliem-me no tempo para o tempo-que-não-se-conta. Deus meu, tece a tapeçaria de minha vida não pelo fiar inconsequente das moiras nem pelo fazer e desfazer das mãos amorosas mas humanas de Penélope: tece-me entre os fios coloridos da carne e os fios alvos da luz do espírito para que, ao cabo, eu te seja uma túnica inconsútil.

Tríduo da Quinta-Feira

I. Se a sede é pouca, dão-te um garrafão de cinco litros e exigem que o bebas num gole. Se a sede é muita, ministram-te uma gota d’água num conta-gotas, esperando que a engulas vagarosamente e que ainda a sintas percorrendo todo o caminho que vai da língua à boca do estômago. Este mundo é louco, bella fantina! É louco não na acepção brincalhona da palavra, aquela que nos fala de pinéis, juqueris e piadas conexas à camisas-de-força. É louco como Satã mesmo é louco: em seu íntimo o grão-demônio domina a verdade, mas ela é tão desproporcional nele quanto essa desconformidade entre sede e água. Cristo parece-te desproporcional quando do poço tu retiras no balde capaz quantidade para encher teu cantil, e Ele ainda te vem falar que essa água, suficiente para hidratar saudavelmente teu corpo, ainda te causará sede? E, mais ainda, julgas louco o Mestre quando diz ele que do teu interior fluirão rios de água viva? Ele, insano, que ainda ontem nos dizia que Seu reino não é deste mundo? A alegoria equilibra os pesos e medidas das coisas visíveis e invisíveis.

II. No meio do caminho, começo e fim se unem não pela pedra no meio do caminho, mas por mim mesmo admirando a pedra. Se estou no meio do caminho e vou daqui para aí e se tu estás no meio do caminho e vens daí para cá, teus pés e os meus pés estão juntos. Ora, gostas também de por demoradamente os olhos nas pedras. Estamos cá juntos no meio do caminho. Então, não há mais passos para serem caminhados. O caminho acaba aqui, neste milímetro entre pés descalços, que separa o meu dedão do teu dedinho. Esta pedra, moça, é mais que pedra: é rocha. Eu posso querer esculpi-la, porquê sou metido a artista e tu mereces uma estátua que no mineral faça um pouco mais permanente teu sorriso; tu podes querer implodi-la, porquê preferes fazer areia na beirada deste mar de nossos sonhos azuis. Então… Faz tua areia, faz, porquê este caminho converge com a eternidade e melhor me é passar o tempo todo que foi, é e será olhando para teu sorriso de anjo arrepiado que recordando, na pele de pedra duma Eva inanimada, estes lábios que na carne e no osso me encantam a alma!

III. Esta perambulação de “amor” em “amor” que é senão corrida, quase maratona!, numa gangorra, de paixão em paixão? Patologia do coração. Loucura sem cura, sandice, folia da anomia, esquizóidice. É como se um demônio, um fauno maligno, dançasse polca no útero das fêmeas. É como se fadas, salamandras do mal, mergulhassem nos bolsões dos machos. Os adjetivos masculino e feminino são, respectivamente, coisas de homens e mulheres; coisas de quem ama — amor apegado às sinapses. Na razão sentimental não há vagar errante no amor, com subidas e descidas tão altas e tão profundas num ziguezague de loucura vertical entre céu e inferno. Caminha-se, pois, naquele caminho estreito do qual Cristo falou. Mas que bonito caminho! Apertado, mas retilineamente avante, frondoso e harmônico na mistura de minerais para os quatro pés, vegetais para os quatros olhos e animais para uma só companhia (dois, um para o outro, são sempre um).

Trecho das “Baladas para a Dama das Sete Estrelas”

CANTO XII

E o tempo parou, e a pupila se abriu para o último raio de sol do Levante, entre a areia que o vento trazia e o subir do véu. Vem, vem aqui, sobre o monte mais alto, sobre a torre mais forte. Daqui verás o lugar que para nós dois conquistarei nos quadros, daqui ouvirás as canções e os poemas que deste dia farão seu recordo. Se o pergaminho se queimar e ainda da tela a tinta se despregar, um anjo e sua talhadeira escreverão diante de Sião os versos do meu e do teu coração. Que ressoe a fanfarria e que os tamborins marquem o tempo das flechas, mas que este nosso silêncio seja mais ouvido que qualquer clarim de prata e que esta pulsação acelerada mais se ouça que um hino marcial. O luar já vem subindo e o olhar com ele vai cedendo. O elmo levanto quando já a brisa devolveu às dunas cada grão-de-areia e a ampulheta faz o trabalho que o astro-rei há meia hora deixou de obrar. O tempo está parando. Não o sentes fugindo, suspenso outra vez no olhar recíproco e cândido? Se as dançarinas dançarem apenas sob o desejo de dançar e os soldados sem soldo lutarem, e se o ofício der lugar à vocação e a rotina diária for pelo prazer repetitivo vencida, o tempo, o tempo aqui neste monte, o tempo aqui nesta torre, terá neste leito a única fresta capaz de lhe revelar a eternidade.

Confissões — I

Talvez o grande chamado fosse despertar e dormir sob o canto do galo. Talvez lavrar alguns hectares de terra boa e roxa e criar os filhos ao lado do celeiro onde os patos, as vacas, os porcos e os cães têm suas ninhadas. Arar a terra úmida e ao fim da tarde bater a poeira das botas e do chapéu. Comer o guisado e beber o vinho como um fazendeiro micênico que passou sua vida desconhecendo Tróia e seus heróis. Talvez o grande chamado fosse contar coisas bonitas, causos da roça, para a amada, sem cantá-las em versos hexâmetros. Talvez ter calos nas mãos e não curvaturas mais robustas no cérebro fosse o ideal e esquecer os pergaminhos antigos e os livros modernos aquecesse mais o coração. Talvez nunca compor poemas, mas ter no peito a mesma chama que inspirou o soneto barroco de Camões e até aquela cançãozinha agourenta de Henrique VIII: porquê o “fogo que arde sem se ver” reduziria às cinzas as “mangas verdes”. Talvez ouvir a respiração dela e só, e mais nada neste mundo, fosse suficiente para esta alma que ainda hoje quer por os ouvidos nas composições dos gênios. Talvez o sabiá a ajudasse, e o bem-te-vi e o pintassilgo, e a coruja. Amar ela e só ela sem outra beleza a tentar, sem outra paixão flertando com carências despistadas, sem qualquer outro olhar com que sonhar quando uma viagem precisasse ser feita. Talvez o grande chamado fosse confiar no produto da terra, tão próxima do chão da casa larga com filhos fortes e sadios quanto a limpeza asséptica com sua química está apegada ao berço imunizado dos bebês filhos únicos. Talvez, então, o grande problema filosófico não fosse Deus e o nosso eu e o quê é a verdade, mas tudo se resumiria à certeza de que, um dia após o outro, quando o relógio batesse o primeiro segundo da vigésima-quinta hora, tudo estaria consumado na Eternidade. Talvez o grande chamado fosse uma caneca de café forte pela manhã e uma botija de água fresca da moringa para a tarde e uns goles de vinho doce à noite, e não estes líquidos açucarados que passam direto por sol e lua, por sangue e pâncreas. Dormir na rede, pescar no riozinho fino no fundo do sítio, comemorar as datas santas e os aniversários e os batizados e os casamentos, comer feijão e torresmo do fogão à lenha, passar manteiga saída da vaca que mugiu na noite em que o primeiro filho nosso nasceu, passear descalço no meio da plantação, cavalgar pelo campo feito um homem livre. A vida seria pastoral sem saber o quanto esta palavra, aparentemente bonita e jovial, comoveu poetas, pintores e músicos tão enervados com suas cidades… Talvez o grande chamado fosse acordar e sonhar sob o canto da vida.

Uns olhos

Uns olhos redondos, da cor da jabuticaba depois que acaba de perder o verde, firmes e doces como os favos de mel que as abelhas negras produzem no Himalaia. Uns olhos profundos e turbados, fundos como o lago do conto de Avalon e turbados como as águas purificadoras do Jordão. Uns olhos que olham para o alto mais que para baixo e para o horizonte. Olhos em que qualquer coisa de místico e niilista se fundem na crença do nada e na descrença do tudo. Uns olhos que arrastam anjos à perdição e demônios à santidade. Uns olhos vastos para uns e limitados para outros: os olhos da esfinge, os olhos da coruja de Atena, os olhos da chama do caldeirão e do relâmpago da primavera. Uns olhos imaginando galáxias nas poças d’água, fiando tapeçarias infindáveis, desvendando os enigmas dos magos antigos, caçando os bois de Gérion. Uns olhos onde um filho de Adão se perde para se encontrar.

Três trechos destes três dias

I. Eu me decepcionei com sua beleza como quando, menino de sete anos, pela primeira vez enxerguei uma borboleta imperial sugando as fezes de um cachorro lá da rua. Escândalo metafísico para uma alma toda tola e ingênua como a minha. Será que até mesmo este inseto naturalmente belo e colorido fora afetado pelo pecado original? Certo que meu bairro não era o Éden, mas me acostumei com a imagem constante de apenas vê-las no roseiral. Mas, e tu? Estranho, porém, era que eu te supunha como uma destas borboletas: pura, inocente, cândida. Então, eu te vi. Eu vi.

II. Anotei na última página limpa do caderninho estes versos, que nunca entreguei para o meu e o teu bem: “Sinto teus passos cambaleando, / Certos e incertos: teu pensamento. / E como a água fresca ardendo, / Ardendo na língua febril ao vento. / No íntimo do véu sob o peito, / Enclausuras meu nome ao relento. / E eu, neste espírito recôndito, / Custodio tua memória escrevendo.”

III. Deus também me deixou vê-lo na fresta dum penhasco. A fresta foi um sonho e o penhasco a consciência quando acordado. O sono foi pesado, mesmo depois de ter jantado macarrão e vinho como se meu estômago fosse o de um mamute. Foi na madrugada e na tarde duma sexta-feira, respectivamente. Sonhei que num tribunal um crucifixo caia sobre a cabeça do juiz e o feria de morte. Desperto, fui depois assistir à uma audiência criminal. Num bate-boca com o advogado, a maldita expressão soou do Bouche de la Loi: “Porco dio!” À noite, dirigindo seu carro de volta para casa, noutra cidade, o magistrado bateu de frente com uma estátua do Cristo Redentor instalada na rotatória principal da rodovia. Morreu…

Carta e trecho final do conto “Os Pequenos Sinos”

Bella:

À tua alma só anseio dizer meus nadas. Porque se me perguntas como andam as coisas, só me recordo das ausências das coisas, como o fato do sabor do queijo muito dever aos seus buracos, essas cavernas onde uma substância primordial em certo tempo agiu ocupando espaço e criando gostos. Contigo consigo ser o meu eu ideal. Não calculo palavras, não meço gestos e movimentos, não me articulo esperando ser interpretado de acordo com esta ou aquela idéia que causaria esta ou aquela impressão. Toda a fadiga da repetição não existe. Não há mecânica entre nós dois. Por isto, brotam-te de mim meus nadas; figuras eternas, idéias puras da essência mesma do meu amor. O amor, pequena, não é assim tão metafísico. É físico como a ausência de preocupações no cérebro do monge. Paradoxo? Contradição? O vocabulário está mudado, porquê desejo dizer a realidade que as palavras limitam na cadeia de suas formas sonoras e desenhadas.

Aquelas histórias sobre castelos nos céus, sobre pedras sustentadas por nuvens: é este o nada que te quero contar. O nada qual as sombras que a luz do vaga-lume gera por onde passa. Quais pequeninos entes ganharam, na terra e nas paredes da terra, figuras sombrias através do fogo químico deste inseto? Tal é um destes nadas. E também esta questão o meu nada encerra: em noite escura, quem vê as estrelas refletidas nas gotas d’água que umedecem a relva? A imagem dos astros o quê muda na natureza da água, seus espelhos? Tua alma escuta a minha nestes nadas que são tudo.

Então, eu te respondo: “mais ou menos.” Quão poucos são os seres de nossa espécie capazes de conhecer, nas vísceras do espírito, o significado desta expressão. Quem, pergunta por aí, já sentiu o mais do nada e o menos do mesmo nada a ponto de, tudo equilibrando no tudo, poder olhar para a situação, para sua situação, e dizer consciente como diante de Deus: “estou mais ou menos.” Este “ou” não é conjunção alternativa, segundo julga a gramática da língua lá de baixo. Porquê se diz por lá que o “ou” é isto ou aquilo e que ou está assim ou assado, de um jeito ou de outro, sendo x ou y; tudo bem estanque e limitado e definido. Mas, não: aqui se está, ao mesmo tempo, mais e menos. Este “ou” é, de certa forma, um “e” que adiciona. No entanto, não deixa de ser um “ou” efetivo, porquê funciona como uma balança, como uma gangorra, como um pêndulo, como um imenso cano que, deixando sem parar fluir água dum oceano a outro, durante a maior parte do tempo a retém neste caminho, em si. Pois, então, se estou mais e menos, um estado anula o outro e conclui-se que não estou nada. E este nada é tanto. É tudo. Por isto, à tua alma desejo dizer meus nadas.

Do Livre-Arbítrio

Poderás escolher entre o fundo do poço e o chão do abismo, entre as entranhas trevosas da terra e as profundidades escuras do solo. Poderás arbitrar entre o gosto amargo do fel e o paladar acre da bílis. Em copo de vidro, em taça de cristal, em cálice de prata e ouro atesourado, do mesmo líquido, espesso líquido, beberás das mil e uma versões iguais. Na mutação das palavras, apenas, a diferença entre os caminhos bifurcados no início separam-se em opostos destinos; mas, lá no horizonte da realidade final, onde convergem as linhas todas das escolhas aparentes, encontram-se no mesmo cavoucado sepulcro o querer dos homens, o teu querer e desejo e vontade. Poderás escolher e arbitrar entre a morte do corpo e a extinção da biologia, entre sepulcro de mármore esculpido e vala rasa no canto anônimo do campo santo. Poderás decidir entre velas amarelentas de cera apiária e de parafina branca, entre coroa de rosas vermelhas e arranjos de lírios alvos. Poderás deliberar sobre o cântico fúnebre: se o Dies Irae de Mozart ou o de Verdi ou ainda qualquer assobio triste na gaita rouca ou pagode entretido no estéreo. Poderás sentenciar os detalhes indetalháveis das tuas exéquias, se na luxúria das telas pornográficas eletrônicas ou nos caros bordéis monegascos, se no licor decantado nos barris das Terras Altas ou na ordinária cachaça dos jacus, se na lâmina prateada de espadachim palaciano ou no tiro exterminador de brigão de pocilga, se erguendo o punho ideológico cerrado contra as Duas Tábuas ou calando passivamente a voz da lei eterna que palpita consciência. Eia, ao labirinto dos trezentos e sessenta e cinco atalhos conduzindo para o único portal, caminho por onde o barqueiro das chamas distribui suas moedas aos cegos. Poderás deliberar e sentenciar, resolutivamente, sobre qualquer aspecto fatal do decreto imperecível: estás morto e ainda uma vez mais morrerás.

Que é este facho de luz, puro como a água da primeira fonte a irrigar aquela árvore de cognição perfeita? Por que escoam centelhas e farelos de estrelas sobre o cerebelo que me atina sentido? Que é esta escada, faiscando direções longínquas até o topo celeste? Por que sinto os sentidos sensíveis à imensidão, querendo o que nunca quis e tendo prazer em não ter os prazeres que agora pouco me excitavam a carne? O choro com suas lágrimas, lágrimas densas de terra por saliva umedecida, rompeu nos meus olhos visão plena de quem sou, de onde estou e para onde ia e agora já não vou. O sono da campa fria vai-se embora num nevoeiro de espectros e arquétipos fantasmagóricos e dentro de mim, no centro nuclear do espírito moldado do pó da terra, ergue-se — ergo-me! — o eu mesmo. A espada cessou de guardar sentinela a entrada do meu éden; conduz-me uma Mão através da fronteira, passo ao largo do foço, atravesso as muralhas custodiadoras das formas originais da alma, adentro o portão ameado pelas lanças e bandeiras dum “Faça-se!” que é palavra-e-ação, chego ao pátio do domínio, posto-me no grande salão real, sento-me num banco que ladeia um trono em doze degraus assentado. De repente, grande mesa de dois manjares, pão e vinho, estende-se; e brancura celeste toma o recinto. É de barro ourivesado o cálice, o graal da Verdade. A doce bebida vinificada jorra do lado dum cordeiro estendido e o pão é a carne trigal do seu corpo. As vozes invisíveis dos arautos dizem-me: “nasceste!” Escolho? Arbitro? Decido? Quero? Desejo? Mas, quê? Escolho escolher e arbitro arbitrar decisões de quereres desejados? Há só e solitariamente uma direção que me pode impulsionar, um só trecho que é também única estrada: o teu querer, Senhor. Se assim sou tua imagem que o físico quis refletir em semelhança de veroparecimento, não sou contigo fundido sem ser confundido? Não sou um exemplar tão acabado como aquele pai meu, pai nosso, erguido da vermelha fuligem terrenal? Despertaste-me. Ah… e se ainda não é em glória o corpo reformado, se ainda não está elevado à estatura maior que o aguarda, ainda assim escolheste-me para a Vida que não tem fim. Vivificaste-me e ainda uma vez viverei.

Bewusstsein?

Ouço os meus passos. Mas não caminham estes meus pés sobre terra alguma. Eles estão quietos, estirados debaixo do manto. Quem vem lá, aderido ao timbre dos meus ossos e nervos caminhantes? Lá fora os pinheiros lamentam qualquer hino ancestral, na língua dos ruídos, entro os uivos dos lobos, que se vestem do lastro de prata que a lua asperge, a lua que iluminada pelo dourado solar é enigma e musa para a alcatéia. Qualquer coisa como palavras — não as minhas, porquê estou calado — formulam um discurso no parlatório desentranhável da minha mente.

Trecho do conto “Vendaval na Invernada” [1.1.2015]

Céu vermelho ao anoitecer, tempo bom. Tentei quebrar o silêncio jogando pedras na janela, assoviando versos ao luar, sorrindo tonto para ela. Consegui quebrar a janela, acordar os cachorros e ser tomado por louco. Não, não há mais o que fazer. Há sim este passado que há pouco é pretérito e que vai passando como um balde d’água que escorreu pela ladeira até encontrar o bueiro mais distante do quarteirão. Agora, tudo seria simplesmente falar o que foi dito, emitir sons mais ou menos silvados na boca, sorrir amarelo na cor da gemada azedando em cima da pia. Ouve-me, ouve-me a ti mesmo! Fica sabendo que este mundo, este mundo de hoje em dia, não está organizado para que o teu coração tenha o quê fazer: os corações que por aí estão, com exceção do coração de Helena, são bombas de sangue empurrando e distribuindo sangue quente; só isto é o que são. Anatomia mamífera! Se nas tuas artérias flui o elixir passional e incoagulável do amor, melhor que durmas no sereno uma noite para que o frio do ambiente, do ambiente real, te gele um pouco o cérebro e ele se faça gangorra, balança e contrapeso deste teu coração que insiste em bater estas coisas que são “sentimentos”! “Some they think only to marry. Others will tease and tarry.” Ouça-me cá: guarda o teu silêncio e os teus versos e os teus sorrisos para a anunciação de Helena. Do contrário, adquirirás o hábito — e depois o vício — de quebrar vidraças e vandalizar janelas, de uivar aos cães e incitá-los à “pega!” contra os gatos de rua, de ter sempre nos lábios o riso dos sacanas e velhacos. Céu vermelho ao amanhecer, tempo ruim.

Quadrante da sexta

I. Esta grama que vejo verde, resplandecendo qual fagulhas de sol, ela daqui a pouco será cinza e o céu mais escuro que o carvão. Vou ali por os pés e aproveitar a maciez tão pequena. Vou ali deitar sobre a relva e cochilar meu sonho de menino. [7h14min]

II. Branca de neve, lábios de vermelhas maçãs, branca, branca como neve de leite quente. Ah, cabelos negros de negros véus, de negros fios tão finos, tão finos e negros… [12h17min]

III. Uma fresta, feito pequeno rasgo nas muralhas troianas, entre um olhar e outro, entre olhares mutuamente desviados no instante do piscar retirante de duas lanças, de duas íris, se quebrando e se tocando, faiscando. Pequena rachadura de dois mundos que, contradizendo-se em ódio e amor, têm diante de si a visão do Paraíso. [12h47min]

IV. Nada senão os preceitos antigos, de antiguidade que se marca em marcos sobre a terra e seus domínios espirituais, poderão outra vez resgatar-nos destas novidades tão velhas quanto os fósseis amarronzados e pardacentos da prata e do ouro dos séculos passados em festins. Porquê antigo, antigo verdadeiramente, é o cálice há milênios ourivesado em barro e que ainda hoje, nos altares, ainda hoje é usado. [16h28min]

Terciário I

As talhas de pedra sentiram alguma eletricidade ou força transcendental aguçando seus cristalos celulares? Ressuscitaram, de repente, como quando do primeiro instante de existência sob o “Fiat!”, os minerais que o homem tornara vasos d’água? Continuou fria e inerme a pedra quando a água (sobre a qual o Espírito veio pairar para fermentar) fez-se vinho para nobre gosto.

Quando eu disse a Helena que a amava, não queria realmente dizer-lhe outra frase, melhor ou pior composta. Literariamente que se lasque a sentença, o estilo, o refino ou o desleixo da semântica. Não caberia qualquer outro dito, senão o tradicionalíssimo clichê que acompanha a boca de todo homem apaixonado desde o Éden: “Eu te amo.” Basta este simples — mas muito denso — arranjo frasal para por a alma de um homem no centro do coração de uma mulher.

Um cacho de uvas, pendente da cruz, que assentada sobre um ramo de trigo… Fazem do sangue e da carne símbolo para nosso estômago e comida para nossa mente. Goteja farinha do lenho e o vinho enrijece o monte.

Cartas a uma moça relutante em amar — III

Minha cara,

É já o terceiro domingo e é já a terceira carta, a última carta. Nada mais te direi além do que hoje, nas linhas adiante, te direi. A palavra será tua, então. Tu é que me dirás qualquer coisa, se quiseres dizer. Não consiste em persuasão e retórica meus parágrafos contigo argumentando. São conselhos bem testemunhados pela sinceridade. Agora, findemos pelo começo. Foi-se o fim invernal da velhice e a meia idade de veraneio outonal. Falo-te já na primavera: dos inícios do amor na juventude. Falo-te destes dias que ainda correm: quando te dizem que estás na “flor da idade”, é isto que, em parte, significa.

Tua beleza está ainda nova no tempo. Ela rebrilha a potência do teu corpo e o dínamo da tua alma, como se um pequeno sol aí no teu peito — e não um coração — bombeasse sangue pelo teu organismo. Tu estás forte como o caule do lírio em primeira florada. Ousará qualquer profanador arrancar-te do canteiro para, em leito estranho, coroar a morte do teu espírito? Eles te fazem isto, e tu pouco ou nada percebes: ceifam-te, pétala à pétala, para misturar-te com as flores de plástico que artificialmente fingem adornar os ambientes insalubres do planeta. Te digo simplesmente que tua beleza não foi criada pelo jardineiro para contaminar-se, sequer esteticamente, com o mundo. Tu eticamente foste feita para que apenas um conhecedor de fragrâncias raras se contentasse com um só (o teu) perfume; para que apenas um conhecedor de sutilezas acetinadas da pele se contentasse com uma só e específica (a tua) delicadeza ao tato; para que apenas um olhar conhecedor das belezas e harmonias das formas para sempre se contentasse com uma só (a tua) mirada. Percebes teu valor, menina? Um poeta, já não me lembro qual, ensinou que “As flores não deixam o mal ir adiante.”

Tu serias feliz, em verdade, se permitisses que os mistérios serenos, as idas e vindas mais bruscas, os olhares furtivos e os silêncios entrecortados do amor juvenil te contentassem os dias. Quanto mais apaziguado teu espírito estaria sem o frenesi biológico destas conquistas que não são conquista — que são saques físicos e nada mais senão qualquer atividade próxima de pilhagem sentimental. Tu ainda não sabes o que é um balcão, o que é estares neste balcão e o que é uma serenata para ti debaixo do balcão. Tu ainda não sabes o que são bilhetinhos espalhados pela semana. O WhatsApp é incapaz de prover-te das incertezas da caligrafia dos poemas meditados, da letra vacilante de quem depõe no papel a própria alma. Tu serias feliz se alguém detivesse tua companhia nos teus dias trigueiros de mocidade. A primavera é para o cantar dos pássaros acasalados, não para orgias de urubus e abutres, por mais jovens e fogosos que eles sejam… A primavera, a tua juventude, é para o colorido dos dias e não para o acinzentar das madrugadas sem sereno.

Te lembras quando teu estômago parecia guardar não uma borboleta acrobata, mas um panapaná inteiro de borboletas saltimbancas? Te lembras quando as mãos suavam frio como se tivessem tocado o glacial zero absoluto? Te lembras quando passavas horas esperando na porta da escola para que teus olhos de repente, num milésimo de segundo calculadíssimo, olhassem e logo se desviassem para o lado? Não queres mais isto? Como é bom este jogo-luta da conquista, quando duas solidões se encontram na órbita do tempo e vão fazer dos seus particulares vácuos unidos um altar de significado compartilhado. Como é bom amar e abandonar como resto e porcaria tudo aquilo que até o instante anterior parecia ser a máxima fonte de sentido para a existência! Te lembras quando coravas e tuas bochechas, quentes, ficavam mais vermelhas que os teus lábios escarlates? Te lembras quando dormias e acordavas com pensamentos fixos mas reconfortantes? A lembrar, depois recorda-te e mais luz te iluminará.

Quem fruirá do melhor da tua juventude e de quem tu fruirás, igualmente, o melhor do viço dos anos? Quem terá o teu perfume impregnado na alma, quando os passos te fizerem mais distante, recordando-se até donde em ti a fresta física encontra a fenda do transcendente? Quem te será leal quando no varejo e no atacado mundano a oferta de corpos e sexo é tão livre e barata quanto variável? Quem compartilhará contigo teus melhores anos de pujança corporal e sentimental, quando em cada ação e pensamento parecem residir toda a energia do cosmos? Tu renuncias à tanta alegria quando permites que seja puramente material o encontro de dois corpos: um êxtase químico e biológico, que nada desprende para o teu ser senão os pruridos comuns à classe mamífera. Apalpar não é acariciar, farejar não é cheirar, roçar não é tocar, labiar não é beijar, ver não é olhar, falar não é dizer. Quem? Uma vez perdidos e gastos estes dias, não haverá mais volta completa: a semente que perde a umidade do orvalho durante sucessivas manhãs será, se crescer, para sempre uma árvore mais anêmica e certamente menos frondosa do que poderia ser. O ápice da fertilidade corporal é também o ápice da fertilidade para o amor verdadeiro. És, por enquanto, terra por ti mesma adubada. Guarda-te.

Recordo-te que amar é primeiro deter o espírito do outro. Quem te ama, antes te amará pelas filigranas da tua personalidade, pelas nuances da tua individualidade, pelas pequeninas essências incrustadas na tua totalidade de ser. Quem te ama, sobretudo, te amará a ponto de querer-te por perto como se lhe estivesse amputado todo o ser, feito tronco desligado do contato nutridor com a terra. Isto que te escrevo não toca suficientemente teu coração a ponto de perceberes que amor é detenção da totalidade (o vôo) nas partes, enfim, que não existe amor naquilo que não amalgama-te à alguém como a pena à asa? Quem, hoje, por qualquer valor teu te admira? Dize-me quem em consideração leva teus talentos encubados, teus dons potenciais e tuas possibilidades elevadas para a vida quando te puxa pela cintura? Quem, quando se deita sob teus cabelos, encontra conforto para as agruras dum dia-a-dia implacável com os honestos? Quem discerne as expressões da tua face como apenas o próprio artista poderia desvendar o carinhoso mistério nas linhas do rosto da musa retratada?

Qual besta masculina tu podes dizer que um dia te amou? Sê contigo mesmo sincera e passa em revista por cada um daqueles que já te beijaram. Nenhum? Algum? Eu bem o sei; e assim sei porquê em ti percebo as ânsias aceleradas da carência, os frêmitos desesperados da alma com sede. Ouça-me. Se mais perguntas eu te fizer, se mais questões eu te propor, se mais dúvidas eu te levantar, nada além do que até agora angariei de ti acrescentaria às tuas idéias. Não te falarei sequer de namoro, de noivado ou mesmo de casamento. Não é necessário, pois. Todo o já escrito é caminho para estas fases que antecedem à feitura duma família. Todo o já escrito é via única para minha proposta inicial, a proposta que comissionei a mim zelosamente revelar-te: tu não queres amar porquê ainda não amaste efetivamente. Segue em silêncio por algum tempo. Cala-te durante as voltas do relógio necessárias para teu amadurecimento. Depois, vem a mim e dize-me se nalguma coisa te fraudei. A verdade, saberás, foi bem dita. E a verdade, disse-nos o Senhor, liberta.

Deste, que te quer bem porquê te ama.

Cartas a uma moça relutante em amar — II

Minha cara,

Espero que tenhas refletido e que, ao menos, estejas com os sentimentos mais acessíveis àquela questão. Continuo, agora, pelo meio do caminho. O meio do caminho são os anos firmes e maduros, os anos que vão dos trinta aos sessenta e poucos. Os anos nos quais em ti se deveriam integrar, meio a meio, idéias acerca dos sentimentos e sentimentos acerca das idéias. Os anos do verão e os do outono feitos uma só estação: abrasamento entrosado a cálido frescor, para os que amam; e decomposição ao sol e apodrecimento à sombra, para os que não amam. O inverno ficou para trás, na primeira carta de letras mais frias, a perguntar: lareira farta de lenha em casa confortável ou esfregação de mãos geladas na caverna úmida? Sei que entendes e compreendes minhas metáforas.

Vês a rotina dos teus pais? Vives a rotina dos teus pais? Viveste a rotina dos teus pais, entre eles e contigo? Queres coisa semelhante ou muito diversa ou um rígido meio termo ou mesmo queres talvez temperar tudo com novidades e tradições à tua maneira? Pois está aqui, neste período, a possibilidade de um relacionamento realista entre homem e mulher, de receita antiga: erotismo e companheirismo rotineiros, assentados no tempo ordinário. A rotina sobrevém a todos nós, menina. Ela é o tempero do inédito, do incomum, do extraordinário, do “de vez em quando” que surpreende. Ninguém pode sobreviver espiritual e fisicamente sem viver um dia após o outro compartilhando, de segunda à sexta-feira, uma rotina mais ou menos definida de pequenos e médios prazeres que desembocam nos sábados e domingos dos grandes prazeres. Ninguém pode sobreviver mastigando buffets de segunda à segunda-feira; por isto, arroz e feijão doméstico devem temperar a semana para propiciar a mesa “exótica” do fim de semana. Outro dia, eu já te dizia que a rotina é o deleite dos santos e o tédio dos iníquos. Por que te disse e te digo isto? Porquê o amor se prova pelo tempo passando: ele perpassa as idas e vindas dos dias, com suas ações medíocres e sublimes, como uma mesma água escorrendo sobre a areia (desde que com força suficiente para nela não se infiltrar) e sobre a rocha. Estes anos de vida adulta, de meia-idade, como dizem, são os anos do comum, os anos do sempre semelhante mas do sempre renovado. Estes anos sãos os anos em que se provam a consistência dos nossos sentimentos através da dissolvência do calendário. Se a rotina for restauradora e não corroedora, o amor sairá mais fortalecido e os beijos mais queridos que nos tempos da mocidade. Se não amares, anota: não terás estas coisas e passarás teus dias frustrada por dentro e encolhida por fora, tentando infertilmente reviver a juventude (duas vezes) perdida.

Considera o quê te pergunto. Quem te completará de significado nestes dias em que tua particular humanidade, adulta, estará no cume das forças do espírito mas também suscetível ao abismo das fraquezas da carne e, então, precisares de alento para não ceder às tolices da existência? Quem dançará contigo nas tantas festas de batizados, casamentos, aniversários e nas comemorações quaisquer que de ti exigirem um par especialmente conhecedor dos teus pés para os bailados? Mesmo sem música e platéia: quem dançará contigo na cozinha, quando a eletricidade faltar e tudo ficar iluminado por velas, até que tu possas voltar à sobremesa no forno e ele à churrasqueira no jardim? Quem te acordará com abraços seguros e sossegadores, quando um pesadelo noturno te fizer chorar como quando, ainda menina, acordastes perguntando por tua mãe? Quem rirá das tuas piadas sem graça, não fingindo que é boa a piada, mas rindo porquê é bom teu ânimo e é contagiante teu bom-humor? Quem te limpará o canto da boca quando, na mordida faminta, o molho te lambuzar os lábios? Quem soprará o ardido cisco do teu olho, depois da caminhada com pó e ventania na fazenda? Quem aguentará, com afagos e chocolates, teus acessos de cólera e cólica quando a TPM te transformar numa medusa mitológica? Tu realmente não almejas alguém “para sempre e sempre, aleluia”? Tu até podes não acreditar que existiram aquele homem e aquela mulher primordiais por Deus aninhados no Éden; mas, deverias viver (viverás?) como viveriam Adão e sua Eva…

Sexo após transa não é amor coisa nenhuma. É biologia afobada movida por coração desesperado e ansioso. É espirro de prazer que deseja e acredita ser ciclone de gozo. As imagens que uso para te ensinar estas coisas podem parecer-te algo “altissonantes”, mas são as melhores em didática que hoje sou capaz de arranjar. A balada te abala o espírito e o racha como a terra seca do sertão sem chuva. Não percebes que te aniquilas semanalmente e, ao cabo, persiste no teu coração o desejo ardente de andar pelo mundo de mãos dadas até o fim do horizonte de sol poente? Sei bem que bem sabes que apenas mal te faz esta existência entre os maus. Nenhum homem que contigo passa uma ou mesmo algumas noites poderá dar-te quaisquer destes regalos, porquê não pode dar-te amor. Nenhum. Eles às vezes te ofertam o quê não têm para, iludindo-te (como a um burro atrelado à cenoura que o obriga a trotar), te aproveitarem como a um pedacinho de toucinho salgado num infindo banquete de carnes suculentas. Tu queres, a valer, ser apenas este insignificante aperitivo no menu inacabável dos canalhas glutões, um ossinho de cálcio poeirento jogado ao ossuário das rezes passada e futuramente abatidas, cujo fim orgânico é também o vaso sanitário?

Escolhe ser uma só carne com alguém ou serás apenas uma peça à exposição no homicida açougue social, até que deste teu corte o mundo enjoe e acabes, feito Jezabel, comida de cães pelas ruas marginais da cidade. Para isto, deves amar antes a Deus. Se tu amares mais a Deus que a qualquer homem, tu terás apenas um para ti e, então, tu jamais o abandonarás. E se ele amar mais a Deus que a ti, ele jamais te deixará, porquê não poderá exilar-se da mulher que o santifica, que o faz homem eterno. O último imperador da Áustria, aquele país musical de valsas românticas e altares barrocos, sussurrou à sua esposa no leito de núpcias: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu.” Que alguém também isto te diga.

Quem te dará a mão quando a multidão apontar teus pecados esquecidos? Quem acalentará teus medos incrédulos quando a razão natural descrer do óbvio sobrenatural? Quem te encomendará à grandeza de uma vida dedicada a ladrilhar com pedras bem talhadas o lamaçal da existência venial? Quem não te esconderá do mundo e, feito Justiniano, far-te-á sua Teodora? Quem te dará filhos e filhas para crescer e multiplicar o Céu na Terra? Quem te limpará dos olhos toda lágrima — aquelas provindas da cebola mal cortada e aquelas vindas do âmago ferido? Quem não se irritará com tuas manias quando a convivência revelar as bobas e sérias idiossincrasias? Quem não procurará nas esquinas o corpo mais sarado quando tua pele se estriar e quando o cansaço numa cansativa quarta-feira não permitir sexo-de-subir-nas-paredes? Quem será homem-varão na tua vida, e não macho de fácil cio, quando a indecência alheia vier ferir tua dignidade com assovios e leviandade, quando ameaças físicas e metafísicas te fizerem frágil e impotente?

Medita. Espera mais uma semana e a correspondência terminará; e terminará também, queira Deus, com tuas sandices, com teus medos e… com tua relutância.

Deste, que te quer bem e que te diz: “If you intend thus to disdain, / It does the more enrapture me, / And even so, I still remain / A lover in captivity.”

Cartas a uma moça relutante em amar — I

Minha cara,

Ser-te-ei como sempre fui contigo: verdadeiro. E, por isto, vou já à coronária questão: a questão do teu coração. Começo pelo fim…

Quem te fará companhia quando a doença final, a última dor, tomar teu corpo? Quem assistirá teu fim com afagos, canja e conselhos imortais? Quem por ti derramará lágrimas quando o sacerdote oficiar o sermão fúnebre, na possibilidade de que ainda te rendas à Fé na eminência do momento supremo? Algum lenço noturno tomará para si como relíquia a fina camada do óleo santo sobre tua fronte deitado? Quem caminhará pesaroso ao lado do teu caixão, quando tua carne friamente estirada estiver a caminho do sepulcro? Quem poderá te escrever um digno epitáfio, derradeira carta de amor? Quem? Sabes e te recordas que morrerás? Sabes que as forças da tua mocidade um dia se dissolverão? Quem te amará quando tua pele já não for firme, cheia da queratina juvenil, e os teus olhos se parecerem com aquelas estrelas que explodem num último fôlego de luz? Só te beijará na velhice por amor quem hoje te beija por amor: porquê o sexo a partir de certa idade só se mantem, constante e verdadeiramente, quando as almas se gostam em seus corpos.

Tu agora plantas solidão. Ainda há tempo favorável para evitar que ela germine; porém, se te demorares muito, suas sementes logo haverão de brotar e se espraiarão nutrindo-se da tua fenecente aura; e quando crescerem — e elas crescerão ao teu redor — te encontrarás no centro de uma selva escura, a selva da qual fostes a culpada jardineira. A selva da oquidão: sem esposo, sem filhos, sem netos, sem bisnetos, sem o teu eu original pensado por Deus. Quem te dará o banho quente e confortável, quando ao menos da tua primeira cirurgia? (todos os velhos passam por cirurgias). Quem organizará a festa dos teus 83 anos? Quem te comprará flores em dias normais ou mesmo as recolherá do jardinzinho encostado na parede da garagem? Quem te fará chá fraquinho e açucarado aos sábados e café forte aos domingos? Não se trata, escuta-me, de ter apenas alguém que te sirva de babá para a senilidade corporal. Não, até porque tu também deverias (deverás, digo) sê-la. Trata-se da companhia querida e livre de quem tu amas e por quem tu és amada.

Quando hoje recusas um amor seguro e tranquilo, porquê preferes as paixões inconsequentes e tempestuosas, sabe, porém, que já recusas alegria em todos os teus anos a partir de amanhã. Preferirás que um estranho a quem pagues preço elevado te limpe as vergonhas? Que um desconhecido abra, por recomendação médica (e não para que tu vejas o brilho quente e amarelo do sol e respires o ar fresco da manhãzinha que traz os aromas da rua) a janela do teu asséptico quarto de hospital? Como te sentirás quando descobrires que todos os auxílios tidos serão feitos com indiferença rotineira por quem eventualmente te servir? Mais, ainda, pergunto-te: e quando teu coração te contar que todos não te devotam afeição alguma, mas que apenas cumprem (mesmo nos sorrisos cumprimentadores com seus sempre iguais bom dia, boa tarde e boa noite) com suas obrigações profissionais estabelecidas pelo Conselho de Medicina, pelas portarias regulatórias desta ou daquela categoria alinhadas com este ou com aquele estudo científico?

Repito, rumino: vê que de modo algum deves querer amar por conta destas coisas (o futuro solitário ou o futuro assistido); e sequer, e jamais, se ama por elas. Não se ama por estas coisas. Elas não geram amor — apenas produzem algum apego auto-centrado, egoísta. Na verdade, penso que o peso deste teu (por enquanto?) futuro necessário te sirva como “trauma” suficiente para fazer-te refletir sobre o amor. Não deves amar para ter qualquer dessas beatas benesses que relatei. Se amardes, tua as terás naturalmente. São consequências do amor tais gentis tratamentos, nunca causas. Do contrário, te apegarás ao bem-estar, e não a alguém que o trará porque necessariamente te ama. E nesta relação não serás sujeito de direitos, serás na mesma proporção — a inauferível mas conhecida proporção da eternidade — sujeito de deveres.

Medita. Receberás, no domingo próximo, a segunda carta.

Deste, que te quer bem.

Trecho do conto “A Carta Que Se Perdeu” [13.9.2007]

Não te entenderão quando amares. Os tempos são maus para quem ama. Eles entendem a paixão, porquê ela é patológica, é passional como uma hiena ferida que não morre e que, sedenta, suplica incessantemente por vinho impuro pela morfina. Não entendem o amor, porquê ele é são, é sadio como um leão dormindo e sonhando às margens silenciosas de fonte fresca. E se tu amares a quem apenas por ti puder se apaixonar? Tu te adoentarás e compartilharás — sem dela provares diretamente — dos efeitos deste mal: melancolia densa e desesperada, silêncios seguidos de gritarias, apego que arranha friamente e carícias que queimam feito saraiva, lágrimas secas engolidas por um estômago jejuante. E se tu amares a quem não te ama e pelo mundo todo se apaixona? Tu te adoentarás e compartilharás, provando indiretamente deste mal, dos efeitos da solidão desértica de olhar para olhos que não veem os teus, para órbitas de vazio cintilando desejo pela terra, menos pelo pó da terrinha que vivifica aí o teu peito e nele a eternidade palpita. Tu te sentirás desprezado, mas sabe disto: aqueles olhos não te veem porquê estão cegos, e o teu colírio faz arder antes de curar. Quem quer, paciente, provar da dor libertadora que traz visão ao espírito e que tanto alumia a íris da alma? E se tu amares a quem te ama? Por acaso escolhe-se a quem amar? Não. Escolhe-se por quem se apaixonar, porquê a paixão é pródiga com os defeitos: a paixão ama pacientemente no outro todos os erros, que atraem e arrastam como os olhos da Medusa e o canto das sereias; olhos e canto que, encantando, fazem do apaixonado um cadáver livre para, a qualquer momento, trocar de sepulcro, de cemitério e de coveiro. O amor, zeloso das qualidades, é que se apaixona ardentemente pelas virtudes. O amor se apaixona pelas virtudes; até pelas mínimas, até pelas ínfimas, até pelas diminutas e escondidas no mais imperceptível reduto vermelho dum coração repleto de negror. Então, o amor faz-te amar a quem não te ama e que, por isto, não merece amor. Eis o fato que é contradição, eis a realidade que excrucia. Medita nestas coisas. A paixão aliena: chama ao bem mal e ao mal bem. O amor tudo discerne: chama ao bem, bem; e ao mal, mal. E se tu te apaixonares, assim loucamente? Não! Enquanto mantiveres bem guardado este teu coração, não te apaixonarás em perdição. Se te apaixonasses, menos sofrerias, é verdade. Se fosses hiena, ririas facilmente ante qualquer facilidade. Mas, tu és leão: teu sorriso também ruge, e rugindo o mundo sorri. Tu verdadeiramente amas. E quem ama sofre no presente a medida suficiente da alegria que lhe cabe no futuro. Não te entendem, porquê amas. Tu, porém, vais além da mera cognição natural: tu tudo compreendes, e por isto amas. Amarás um dia aquela que te amar e este amor se levantará sobre os escombros dos afetos mundanos para organizar a reconstrução do mundo; e o teu amor será para os filhos de Adão e Eva o símbolo da mútua redenção entre homem e mulher, um memorial da boa parte da natureza humana. Lembra-te do sonho, lembra-te do sonho!

Poesia-proseada VI

Não querer ter te conhecido, não querer ter em ti me reconhecido, não querer ter em ti um pouco de mim. É por isso que estou aborrecido, é por isso que o coração está arrefecido, é por isso que qualquer não é um sim. Nada que eu diga para a mente soará desde agora coerente. Nada que eu recite ao coração parecerá razão neste instante. O cansaço de caminhar na tua direção e a direção pela piscadela mudar. O cansaço de correr no caminho oposto e o rumo pela cara fechada se alterar. Não sei, juro pelos céus, se o teu enigma é querer de adulto ou desejo de criança. Não sei, juro novamente, se o teu dizer é o que é ou é o que dizem as contradições. Confusão de olhares, fusão de não sei o quê, ilusão de procederes, alienação de consciências. Tu me machucas e num segundo me curas, tu me espancas e num segundo me medicas, tu me aniquilas e num segundo me ressuscitas, tu me aguilhoas e num segundo és a própria liberdade. É loucura ou qualquer variante de folia? É razão ao extremo ou qualquer espécie de melancolia? Dize logo a tua realidade, dize logo o que é verdade, dize logo o que é saudade… Não sei se teu cumprimento é doce nos olhos ou amargo na boca, não sei se teu aceno toca a mim quando passo ou é batida de mãos para a mosca que fica, não sei como decifrar, não sei como decodificar. Menina, pára com isto. Pára enquanto eu vivo de amores por ti, enquanto os amores e os dissabores são uma mesma coisa. Até quando, eu te pergunto, até quando ficaremos os dois assim?

Dois trechos de dois contos [que não serão terminados]

O CAMINHO DA ALVORADA

Deixei que a lenha queimasse o fundo da grande panela, que o alumínio escovado perdesse de si qualquer vestígio de semelhança com a prata. Deixei mais: deixei que o cozido de carneiro fervesse até que o líquido vermelho se recolhesse ao teto da cozinha em forma de fumaça branca e até que aquilo que de massal restasse da carne e das batatas se reduzisse à cinzas da cor e do peso do borralho deitado aos pés da lenha. Deixei que os estampidos da madeira queimando se confundissem com o farfalhar do zimbreiro: o violino foi fazer companhia à lenha. O abeto, o bordo, o salgueiro e o ébano dum Stradivarius, quanto à potência para ser combustível, em nada diferem da madeira frouxa dos pequenos pinheiros. Deixei não porquê quis conscientemente deixar. Deixei porque a fúria tomou-me; a fúria com a qual me tomei de mim mesmo. Não tive fome de comida e sequer me lembrei dos seus apetrechos então já em uso na casa. Três dias nada coloquei na boca. Não tive fome de música e sequer percebi que três semanas antes, pouco depois de o sino do correio me ter interrompido a courante da Partita n.o 2 de Bach, lida a carta, eu tinha lançado o caro instrumento às chamas. Três meses se contaram até que voltei a cozinhar (ao quarto dia, passei a comer na taverna). Três calendários completos se passaram silentes até que voltei a tocar. Tu não sabes, Beatriz, o mal que me fizeste. Tua carta está, sobrevivente, comigo. No verso — bom e limpo papel usaste — compus um Agnus Dei para minhas bodas com Helena.

 

SALVAÇÃO

O pouco dinheiro que o capitão trazia no bolso era insuficiente para comprar a mais fina aliança de casamento que algum aprendiz de ourives pobretão ousasse fabricar com as sobras esfareladas de ouro que lhe caíssem da lima. Tinha apenas meia dúzia de cobres e níqueis leves, que mal davam para uma semana de sopa rala de repolho na estalagem d’Os Três Patos. Como voltar para casa sem a jóia fundamental de qualquer matrimônio? Sem a aliança, não casaria. Havia prometido à ela que voltaria herói de guerra, condecorado, e que consigo e para si traria recuperada alguma suficiente parte do ouro das igrejas do Leste que os turcos haviam pilhado quatro séculos antes. “Ah, besta quadrada de alma redonda! Eu! Por que não casaste logo com a filha loira da tua lavadeira? Foste te enamorar logo da filha trigueirinha do Senhor de Allerheiligen! Ah, besta redonda de espírito quadrado! Ela! Como darás à donzela anel competente se as tuas terras confiscaram os franceses e a grã-cruz empenhoraste para dar de comer ao cavalo?” Sentou-se à beirada do rio que os aldeões chamavam d’Os Cisnes, bem embaixo duma macieira carregada de frutos ainda verdes. Comeu três inteirinhas, em fatias, adoçando-as com o açúcar amarronzado que lhe dera em salário a idosa viúva do general seu padrinho. Dormiu a tarde toda. Sonhou que era noite e que a lua estava apenas a 91,5 metros de si (em jardas, medida antiga, quanto dá?); e que na lua, sua noiva plantava e colhia as flores preferidas num jardim cuja forma geométrica resolvia o antigo problema da quadratura do círculo. Acordou risonho. Era já noite e a lua estava bem incrustada no céu. Pensou, gritando seu eureka: “Prata, prata, prata!” Meteu a mão no alforje e dele arrancou a relíquia — uma gota do sangue do Senhor. Já à manhãzinha do domingo, derreteu o metal e, por horas a fio, porquê era prata densa e forte como o aço, deu-lhe a forma de uma aliança. Quanto à gota, guardou-a num pequeno frasco de perfume. Iria diluí-la no cálice da comunhão, sem que o ministro notasse, pouco antes da marcha nupcial.

Cinco nanocontos — II

Calçou sua meia de lã. O pé encontrou algo duro no fundo: era um ninho de mafagafos.

Um tiro para o alto. E a bala, voltou, três anos depois, com um ET muito irritado incrustrado nela.

A dançarina de flamenco não tinha castanholas. Correu ao museu e cortou os cascos do cavalo empalhado de Napoleão.

O cardeal, que ouvia a partida pelo iPhone, esqueceu-se do Pai-Nosso durante a Solenidade de Guadalupe e gritou: ¡Gol! ¡Hala Madrid y nada más!

Jurou que não trairia a esposa enquanto porcos não voassem. No dia seguinte, comprou uma vara e um manual de Engenharia Aeronáutica.

Poesia-proseada V

Querer quieto o dia como é quieta a noite, ansiar por nuvens acinzentadas sob o sol. Esperar pela morte diária do globo de luz, porque a cor de prata para a lua foi feita e em meio às trevas sequer a vela desejo. Escuridão ampla, integrada à toda canção, organicamente presa à partitura escolhida. Tocar para Helena este Adágio de Albinoni e tocar em seguida a Fantasia de Vaughan. Querer quieto o lar ao crepitar da madeira, que o dourado consome em paz na lareira: o fogo, antiga fagulha da tocha do Olimpo, aquecerá apenas os pés que se irão à cama, porque estes dois corpos, de Adão e sua Eva, serão duas brasas salvas do antigo e frio altar, do antigo, frio e apagado altar da melancolia.

Diário em Midgard — XV

Não encontro mais papel. Nem que o encontrasse poderia escrever. O último carteiro, que acaba de se aposentar, entregou-me sua última carta. A última que ele entregou e a primeira que eu recebi, como resposta das tantas que enviei. Mais, ainda: foi esta a última carta que chegou, pelas mãos do capitão-general dos Tércios de Ir-Rakia, na estação dos correios da aldeia. “A estação dos correios cederá lugar a um jardim suspenso”, disse-me. A fabricação de papel (fiquei sabendo no último minuto da 11ª hora) foi encerrada por ordem da primeira deliberação universal tomada pelo Conselho, há pouco mais de dois milênios.

Deixei para abrir a correspondência depois do almoço. Pego a pequena lâmina de prata dourada e ponho minhas luvas de caçador; afinal, será esta a última vez que um envelope — e trata-se de um grande envelope — será aberto e que um selo será cerimonialmente quebrado. Corto o espesso papel do envelope. Quebro com os polegares, bem ao centro, o selo vermelho cujo desenho é uma cruz semeada de doze estrelas. Jogo a cera às brasas que cozem o permanente ensopado de favas vermelhas, primeiro prato em todo jantar meu. Puxo para fora a folha única que saiu do envelope. Ora, é uma folha limpa. Nada vem nela escrito. Mais branca que a sétima neve do inverno.

Que digo? Olho fixamente para o papel. Viro-o pelos quatro cantos e pelos dois lados. Levanto-o em direção à luz. Talvez ao alto, mais próximo de Lá, ele me diga o que agora não diz. Sim. E diz! Ele diz. Eu vejo, vejo e leio o escrito: “Alpha et Omega”. Letras desenhadas em traços austeros (algo entre runas e caracteres romanos, mas como que sulcadas à moda cuneiforme — mesmo que tenham sido pena e tinta que as tenham deslizado no papel), que se esvaem, que estão se esvaindo, que desaparecem, que se consumiram etereamente. Olho ainda fixamente para o papel, agora limpo de qualquer texto na sua textura física mais gradualmente oculta. Aproximo-o da lâmpada. Nada.

Tomo, nas mãos, a idéia que há muito intuo: o Senhor está separando esta terra de todas as porções vivas do Universo. Não uma separação física em que matéria se aliena de matéria, uma dissenção meramente concreta que empurra todo o resto ainda mais para fora. A aldeia, gigante galáxia no mapa estelar, não ganhou suas próprias muralhas espessas como tinham as outras terras. A separação ocorre, agora, porque todo o mais já não é. Tudo se fez novo. A idéia, esta idéia da aldeia, eu a depositei em versos na primeira página de minha primeira carta. Sei que aquela página é um dos lados desta folha. Afinal, para que precisamos de papéis, de folhas, de pergaminhos, de livros, de registros, de diários, de lugar onde por palavras quando aqui, tudo, está na Palavra?

Eternidade etária

Quando eu for velho, continuarei antigo como agora. Mas à minha antiguidade que me persegue desde o ventre, Deus somará a alegria de criança de barba branca, de menino de pele sulcada e sem melanina, de moleque de chapéu e bengala. Quando eu for velho, serei um velho que ainda juntará suas pedras, um velho que terá escalado as pirâmides dos egípcios e dos maias, um velho que porá no embornal os seixos colhidos no Jordão. Quando eu for velho, serei novo talvez pela primeira vez: sábio e falsamente desentendido das equações do calendário, farei de conta que os feriados são eternos e que a aposentadoria é uma seroada de fim de expediente que apenas começou e que durará pelo menos sete floradas da Youtan Poluo. Quando eu for velho, beijarei minha velhinha-mocinha até que ela perca o fôlego e careça de respiração boca-a-boca, até que ela rodopie e rodopie como na noite em que uma valsa mal executada fez com que ela dançasse feliz como se tocassem Strauss, até que a lâmpada se acenda pelas noites e as cortinas sejam fechadas pelos dias. Quando eu for velho, ah!, quando eu for velho, serei o mesmo homem de sempre.

Poesia-proseada IV

Tu não viste ainda lágrimas a tornam-se sal, tu não enxugaste ainda pequeninos cristais dos olhos sofredores de santos esquecidos. Ah, velha criança, ide aos bairros marginais, ide ver o caixote onde jaz o humano animal, onde cada suspiro é o mais lúbrico martírio. Eu vi, onde o horizonte não é de terra e sol, onde a refração das cores é o cinza visceral. Eu vi que os lenços são retalhos do sudário, mas também vi que uma luz brilha e brilha. Eu vi a luz, meu filho, a luz que me iluminou! A luz das sarjetas pútridas, dos cegos no frio, a luz das trevosas canções dos párias caídos, a chaga, a lepra, o tumor, o cancro, a latrina. Tudo, tudo na lágrima maior que tua matilha, tudo na gota-água doce e salgada dum olhar.