Esponjas de sol — XLVI

1419. Um assovio mais baixo que um sussurro e mais alto que o respirar, contínuo e constante como uma águia que encontrou a corrente infinita dos ventos. Som de eternidade, como uma canção de ninar que os anjos compuseram para o bebê que não se tornará criança. Por que deixaste-me ouvi-la, Senhor?

1420. Excesso de prudência é imprudência.

1421. O fanático é um fã da ação lunática em favor da causa. O radical é alguém cuja alma está radicada na causa.

1422. Os homens que almejam ser simples e modestos: Deus os faz grandes.

1423. Chupar uma bala ao invés de escovar os dentes, borrifar perfume ao invés de tomar banho. É isto o que faz o hipócrita.

1424. Afio-me no desafio, desfazendo o fio da moira.

1425. Das entranhas da terra, o grito me estremece como o pálio pelo vento assoprado. Telúrico pensamento de ser constante e inconstante, como a rocha que o martelo esmigalha.

1426. A montanha de cume branco, cujo ventre carrega o abismo de fogo. Como age o diabo, “O Um Anel”: alfabeto élfico e língua de Mordor. O superficial do Bem e o conteúdo do mal.

1427. Nós já fomos, de certa forma, enterrados. Células nossas, pele, cabelo, já foram para o túmulo. Nos velórios, enterros e funerais dos quais tomamos parte, qualquer partícula do nosso físico (no abraço, no aperto de mão ou repouso dela no defunto, nas flores, no véu, enfim) se pegou ao morto e ao caixão do morto e com ele virou pó, o pó deitado da morte.

1428. Alguém disse que “a coroa do rei está sobre sua cabeça, não sob seu coração.” Guardo aqui.

1429. Por que eu pisaria numa formiga?

1430. Abdução é a farsa demoníaca do arrebatamento.

1431. Enquanto uns se guardam, outros aguardam. Enquanto outros se poupam, outros apalpam.

1432. Os covardes rugem miados. Os corajosos, precavidos, miam rugidos.

1433. Missionário não cria heresia. Teólogo cria. Arival dixit.

1434. A causa da natureza (efeito) é sobrenatural.

1435. Apenas a assinatura falsa é “igual” à original.

1436. O amor é pegajoso e pesado, mas vem o Pégaso alado e o enleva como pena.

1437. Até o aço, bem aquecido, desfolha sob o martelo.

1438. Os crentes andam morrendo no Domingo.

1439. A inveja e o ciúmes se encontraram e se beijaram.

1440. Grande não é quem é grande. Grande é quem obra grande.

1441. Só se idolatra aquilo que se conhece superficialmente.

1442. A sarça ardente estava acesa nos fornos crematórios dos campos de concentração.

1443. No final é sempre o fim.

1444. Se Deus é contra nós, quem será por nós?

1445. Todos e todas as coisas são frágeis. Até o machado de bronze sangra.

1446. Poder às vezes não é tão prazerosos quanto querer.

1447. Isto de dizer amor, sabes? É de corar a alma, alargar sorrisos, beijar a testa das estrelas, esperar assovios das flores, levitar com frases, lustrar silêncios, amar. 

1448. Os homens que regem a Igreja não devem governar o Estado. Os homens regidos pela Igreja devem governar o Estado.

1449. Que alma rubra, / Que alba negra, / Leva a nação / À uma guerra? / Que é a bravura / Quando pedem trégua?

1450. Adolf Hitler não gostava de pérolas. Dizem que as odiava. Isso deve lá querer dizer alguma coisa…

1451. Outro dia, tentando traduzir do hebraico um manuscrito cabalístico do século VIII, li isto: “Deus tem asas azuis, para que voe invisível no céu.” Agora à tarde, no supermercado, uma menininha de no máximo 6 anos disse pra mãe: “Deus deve pintar as asas de azul para não ser visto.” É por isto que digo: o gênio autêntico, cheio de beleza e realidade, se esconde justamente nos cérebros mais ingênuos.

1452. A inconsistência interna via de regra procura solidez nas aparências externas. A falta interior sempre tenta se compensar no excesso exterior. Daí estes fenômenos de tatuagens intermináveis, corpos excessivamente malhados músculo a músculo, apego desmedido e ostentatório à marcas e grifes, etc. Falta imaterial dentro cria presença material fora. São fenômenos do ego, da auto-estima, em termos psicológicos. Espiritualmente, é idolatria. Essa moça que tatuou o Bolsonaro e os lemas de sua campanha pelo corpo está doente: precisa de divã e altar. Orem por ela ao invés de incentivá-la ou ridicularizá-la (ambas atitudes idiotas).

1453. A verdade não é mera descrição formal da realidade. Ela é sua própria força de manutenção. De modo que a mentira, então, não é uma simples oposição abstrata à tal descrição: ela é um enfrentamento energético, adverso e dialético à toda a estrutura do real. Cada vez que uma mentira é contada, uma tensão comprime e desestabiliza a própria realidade, deformando-a temporariamente. Esta tensão, porém, cria uma força de recuo e oposição, como numa mola, cuja potência necessariamente contra-avança em direção à mentira a fim de rearmonizar e reequilibrar a realidade. Esta restabilização é, não raro, explosiva, traumática e, nas palavras do Evangelho, “causa de escândalo.” Por que? Porquê, como dizem os franceses, “Chassez le naturel, il revient au galop” | “Expulsai a natureza, ela voltará à galope.” São Paulo apóstolo resumiu a força restabelecedora da verdade ao ensinar que “nada podemos contra a verdade, senão pela verdade.” A verdade é a super-estrutura do super-ser da realidade. A mentira é uma inadequação artificial que não se encaixa perfeitamente e, por isto, como micro-engrenagem, dura até que o macro-maquinário lhe estoure. Mentir é ofender este organismo cujos anticorpos (os acontecimentos) logo tratarão de esmigalhar a folia e o folião, a fantasia e o fantasiado, a farsa e o farsante. Deus é o pai da verdade. O diabo, o da mentira. Deus criou tudo. O diabo, quer recriar o nada. A força que o cosmos ordenador exerce sobre o nada caótico é a mesma força que a verdade exerce sobre a mentira. Tudo isto para fazer voz uníssona com o caipira e berrar: mentira tem perna curta! Mas não é que ela tenha por si perna curta: é que, Procusto às avessas, vem a verdade e amputa a perna-de-pau até o limite sanguinolento do cotoco…

1454. Que o teu sim seja o teu sim. Que o teu não seja o teu não. Isto basta.

1455. O sono não só descansa o corpo: ele purifica e desembaraça nossa consciência. Não é raro que eu acorde de repente tendo os meus “eurekas!” — conclusões certeiras e límpidas sobre as coisas e as pessoas; conclusões que, acordado, talvez eu não atingisse em nível de compreensão, argúcia e racionalidade. Quem realmente se importa com a existência trata dela consigo mesmo até quando ronca. Dorme e pensa. Pensa e acorda. Acorda, repensa e faz. O sono esclarece a psiquê, ilumina a vigília do inconsciente, anima a alma à realidade.

1456. Toda mulher, da mais santa à mais iníqua, tem o desejo da aventura no coração. Desejo legítimo. Portanto, trate de ser um pouco Dom Quixote, um tanto 007 e um quanto Indiana Jones. Depois não fique por aí (e por aqui) reclamando se um Frestão, um Dr. No ou um Belloq levar a morena para brincar de tiro-ao-alvo nalgum moinho de vento jamaicano. Dispierta, fierro!

1457. Nunca ocupe um lugar que qualquer outra pessoa poderia ocupar. O chão e o galho são para qualquer ave, mas o pico da montanha pertence à águia. As pombas, os pardais e os abutres dividem presença no mesmo solo em qualquer lugar do planeta. Mas quem sobe e plaina sobre o cimo do Everest? O que é só teu tem a medida exata do teu espírito. O que é para qualquer um, cabe em qualquer um. O homem ordinário em tudo se iguala aos outros. Mas o homem que arrasta após si as gentes diverge, diferencia, desiguala: ele afirma a força da própria personalidade e constrói com Deus o seu lugar no mundo.

1458. Não há salvação com idolatria. E nós temos as nossas pequenas idolatrias, nossos ídolozinhos. Temos que perdê-los ou vê-los de alguma forma perecendo para não nos apegarmos a estes “amuletos da existência”. Você gasta horas polindo seu carro? Uma batida na esquina vai colocar a lataria dele no lugar devido no seu coração. Você exibe para os outros ou para si mesmo seu novo iPhone? Ele vai cair na piscina ou a tela vai se partir todinha no chão. Você olha em demasia para seu novo relógio? Ele vai ganhar meia dúzia de riscos profundos na caixa. Você se jacta da sua coleção de livros, vinhos ou bibelots? Uma página vai se rasgar e uma gota de café (ou a garrafa toda) vai manchar a obra magna; uma criança vai derrubar as safras intocadas de 1961 e 1989; um cachorro vai pular sobre a cristaleira: todos instrumentos de Deus para lhe afastar daquilo que não é essencial, daquilo que não é a Realidade, daquilo que lhe afasta das coisas do Alto. Você precisa perder seus ídolos e ver o quanto eles são frágeis. E você vai perdê-los todos, um a um.

1459. Quem faz as contas de perdas e ganhos quando deve decidir sobre certo e errado, já se decidiu moralmente pelo errado. Uma pessoa digna sempre decidirá pelo certo, ainda que cortando na própria carne, ainda que sendo tomada por “errada.”

1460. Estejam conscientes de que vamos criar filhos ingênuos para um mundo malicioso. Saibam que eles serão bobos diante da esperteza dominante, que eles serão inocentes num meio velhaco, que eles serão ovelhas entre lobos. Mas… ainda assim, nós colocaremos no mundo meninos e meninas que serão homens e mulheres honestos, regrados e de olhos brilhando do berço à sepultura. Teremos filhos que vão sofrer mais do que nós e nossos pais sofreram, porquê o caminho estreito ainda mais se estreitará. Mas a terra ainda terá em si plantada um pouco da carne e do sangue que foram feitos para o Céu.

1461. O Bem não é fácil. Mas é o único caminho possível.

1462. No amor (com a mulher, com Deus, com os pais, com os amigos), todo diálogo é mais confissão do que conversa.

1463. Se você realmente entregou sua vida a Deus, você não pode reclamar e se preocupar permanentemente com aquilo que acontece nela. Alguém te injustiçou? Então, injustiçou a vida que você entregou a Ele. Te enganou? Enganou a vida que você entregou a Ele. Te roubou? Roubou da vida que você entregou a Ele. Não se ofenda pralém do razoavelmente natural, nem busque retribuir vingativamente. Entregue-se à Providência e descanse. Se a sua vida já não é propriedade e possessão suas, mas dEle, você não tem um único porquê para reclamar e se preocupar. Deixe tudo com Ele.

1464. Utilidade pública: no mundo emocional feminino, raiva é uma forma de sinceridade.

1465. Há tantos cristãos que de Jesus só conhecem o nome… Conhecem muito o Cristianismo católico e sua liturgia, o pentecostal e seus gritos, o reformado e sua equação teológica, o ortodoxo e sua mística, mas desconhecem o próprio Senhor. Nada de amor, de piedade, de paz, de renovação, de justiça, de misericórdia, de santidade. Só religião: só um Cristo de crucifixo, de curandeirismo, de racionalidade, de sentimentos. São crentes na própria crença. Não têm fé viva na Pessoa e suas obras são piores que as do mais vis descrentes. Melhor seria que fossem ateus sinceros e incrédulos éticos do que sectários infames.

1466. A voz é a substância sonora da personalidade. Há uma simbiose inter-causal entre ambos.

1467. Haja o que houver, mantenha-se fiel: a Deus, ao cônjuge, a si mesmo, ao amigo, à fé.

1468. Assim como não se escuta Bach ou Mozart em boteco, não se procura por casamento em balada.

1469. Desfruto do silêncio de Deus como quem em sua surdez vê o movimento e enxerga a mensagem através dos lábios do pai e da mãe dizendo um inconfundível “Eu te amo, filho!”

1470. Gente que em tudo põe “panos quentes” geralmente tem a alma fria. Apaziguadores radicais, cuja missão é fazer com que os corretos engulam sapo a fim de manter o ambiente aparente e falsamente “em paz”, são o pior tipo de gente. Os governos corruptos estão lotados de pessoas desse naipe. Indivíduos falsos, destituídos de carácter e compromisso com o justo — querem a harmonia do “céu” no inferno.

1471. Toda vez que vejo alguém empinando o nariz, lembro da sentença bíblica: “a soberba precede a ruína”. A arrogância leva ao buraco: o orgulhoso sempre cai.

1472. Utilidade pública pros zé-manés: mulher não respeita homem que ela pode controlar e não ama homem que ela não respeita.

1473. Essas mulheres que alimentam gatos e cachorros de rua, que correm pra cima e pra baixo tentando salvar algumas das criaturas de Deus, elas não são loucas, nem fanáticas, nem zooxiítas, nem luísas-mell-desequilibradas. São só pessoas boas. Não são “velhas dos gatos” (como aquela dos Simpsons) inspiradas por estorinhas de São Francisco de Assis. São gente que faz o que todo mundo deveria fazer: cuidar do mundo com mais carinho.

1474. Se você se esconder, perderá e não fará História. Mas se você se expuser, ganhando ou perdendo, terá escrito ao menos uma página só sua.

1475. Se o ambiente envenena sua alma, ou você muda o ambiente ou muda de ambiente. Só não fique como está: o preço é adoecer.

1476. Não ajude desleais. Gente ingrata merece aprender, sentada solitariamente na privada, que “dor de barriga não dá uma vez só.” Não se estende a mão, consecutivamente, à pessoa de caráter fajuto.

1477. Há uma imensitude de homens que são heterossexuais quanto ao tesão, mas que são tremendamente homoafetivos no aspecto sentimental: eles gostam muito do peito, da bunda, da coxa da fêmea, mas não do coração, da mente, da alma da mulher. São amigos dos amigos, mas não da própria namorada; são companheiros dos companheiros, mas não da própria noiva: a amizade e a companhia da esposa não interessam. Intimidade com ela só na cama, mas nada de papo no sofá, porquê o sofá serve apenas à algazarra do futebol na tv com os colegas; e a mulher ali só vai aparecer quando ele gritar um “traz a cerveja, meu bem!”. Fisicamente, tudo másculo. Metafisicamente, pouco varonil. Não: o cara não quer casar com o amigo do colegial e com o companheiro do carteado. Não: o cara não é viado, não é frutinha, não é atraído em nada por seus iguais — sua líbido caminha pelo bom caminho da natureza. Mas o cara só quer ser uma só carne com a mulher apenas na própria carne da mulher, enquanto é psiquicamente íntimo dos outros homens com os quais resolveu compartilhar sua vida. A turma da sinuca, a equipe do trabalho e o pessoal do RH sabem mais dele do que aquela que ele levou ao altar. Ele é grosseiro com aquela que lhe é apenas uma dona-de-casa com quem transa, mas é uma seda com a tropa. Ele é calado com aquela que lhe é apenas a mãe-dos-seus-filhos, mas fala pelos cotovelos com o bando. Boa parcela dos casamentos que por aí dão errado estão baseados nisto: o homem só quer saber da vagina e de todas essas delícias da cornucópia feminina, mas não suporta passar tempo (em silêncio ou com diálogo) junto à própria esposa porquê prefere ser extrovertido, conversador e gente boa no boteco junto a um bando de homens igualmente heterossexuais no corpo mas muito pouco machos no seu tesão pelo ser profundo da mulher.

1478. Espanta a quantidade de gente com formação universitária incapaz de ler e interpretar um post no Facebook. A quantidade de diplomas parece inversamente proporcional à capacidade cognitiva: quanto mais graduado, mais cheio de mi-mi-mi hermenêutico. Graças a Deus o povão lê e entende. Por que? Porquê a gente comum não perdeu o senso comum e quando lê “bola” entende bola e não qualquer outra coisa que transcenda à bola, com massa ou sem massa, com 360o de circunferência ou não. A postura vaidosa e tarada por complexificar o simples é hoje marca distintiva dos nossos letrados com Ensino Superior. Eles transplantam chifres em cabeça de cavalo e aparam os pêlos do ovo: vivem de abstrações projetadas, de quimeras tão emaranhantes quanto artificiais. Por outro lado, quão mais proveitosa, fecunda e sensata tem sido a conversa com tantos e tantos analfabetos que encontro por aí! Não à toa o próprio Cristo afirma que ocultou a Verdade dos grandes (doutores, ricos e poderosos da terra) e a revelou aos pequeninos.

1479. Você não ama aquilo que você não protege e não defende, seja sua mulher, sua fé ou sua coleção de figurinhas. Se você deixa a moça sozinha contra a agressão, se você permite que blasfemem do divino, se você cruza os braços quando rasgam a estampa: você não ama. Você usa, você instrumentaliza, você manuseia e… só ama egoisticamente a si mesmo.

1480. Em nome de Jesus há crimes e pecados sendo cometidos. É dever de quem o ama denunciar isso. Edir Macedo, Malafaia, Agenor Duque, Estevam Hernandes e tantos outros blasfemam e lucram, mentem e lucram. Bandidos de terno e gravata, nas igrejas e na política, fazem do Cristianismo motivo de chacota pública e causa de ganho pessoal. O Cristo vendido nas televisões em nada se parece com aquele que encontramos nas páginas sagradas. É antes um banqueiro de Wall Street, um cafetão da fé, um Dr. House divino: é qualquer coisa mais parecida com o próprio diabo que com o Senhor e Salvador dos homens. Não! A Fé não está na Record, na Band ou RedeTV. Não! O Evangelho não está disponível por dízimos e trízimos, por sacrifícios pagos à vista ou parcelados no cartão de crédito. Não! Jesus Cristo não é um boneco instruído pelas mãos de apóstolos e bispos sem missão e serviço que leiloam milagres e lugares do Céu. Não! Não! Não!

1481. A “Marcha Para Jesus” é uma ação midiática neopentecostal, cujas igrejas a criaram e a patrocinam. É uma demonstração de força e poder político, econômico e social da chamada “Teologia da Prosperidade”, que nada tem a ver com o Evangelho de Jesus Cristo. Igrejas evangélicas sérias (reformadas, sobretudo) não participam. Cristãos comprometidos com o Reino não marcham histericamente com heréticos como Valdomiro Santiago e Estevam Hernandes. Quem ama a Deus não o prostitui com César. A “Marcha Para Jesus” não é cristã: é pura e ímpiamente pagã.

1482. Na bonança todos os homens parecem-se bons. Mas o homem verdadeiramente bom o é quando os tempos lhe forçam e induzem a ser mau. É na resistência, em provação, que um caráter é realmente conhecido.

1483. O homem bom sempre parecerá contraditório aos olhos do homem mau.

1484. O amor, e não a beleza em si com seus agrados aos sentidos, está no centro do bem — da vida. Não me canso de recordar que o mesmo Deus que criou os querubins criou também a barata; criou tanto o cavalo (que o Mário Quintana dizia ser o mais perfeito animal) e a borboleta quanto a hiena e o urubu; criou a fragrância de todas as flores e também o odor dos gambás, da urina, da flatulência. Se a gente investigar direito, todas essas coisas, todas as coisas, “colaboram conjuntamente” para nosso bem. E quanta “feiura” com seus desagrados não nos tem feito bem!

1485. Aqui só tem eu. Sem personagens. Somente eu: bruto, mas sou eu e não outro.

1486. Torcer para que as coisas piorem é desde sempre o desejo do diabo. “Quanto pior, melhor” é a ideologia do inferno. Cuidado para que a vitória da sua causa não dependa da derrota dos outros. Cuidado. Uma coisa é ter opiniões duras, críticas e mesmo pesadas; outra é despistar o próprio ódio com elas.

1487. Não consigo ver folha de árvore como sujeira. Lixo enfeia. Folha, verde ou seca, embeleza.

1488. Não chame de amigo a qualquer um. Amigo é coisa boa, grande, do peito. A maioria é apenas gente com quem circunstancialmente se convive(u) e só, e nada além, e nada mais. Olhe para sua mão: seus amigos não superam o número destes dedos aí.

1489. Que o amor de Deus supere em você todas as antipatias e todos os ódios ocultos ou declarados. Que o amor de Deus o livre da escravidão da auto-justificação e do espírito de vingança sempre latente. Que o amor de Deus abunde em seu coração e você perdoe tudo a todos.

1490. Perguntei pessoalmente a 23 pessoas, durante dois dias: “qual seu objetivo supremo na vida?” Ninguém disse: “quero o Céu!” Ninguém. [nominalmente, todos cristãos…]

1491. Eu não pretendo ter filhos milionários. Quero filhos que amem e sirvam a Deus, ainda que obrando ofícios simples e trabalhos manuais. Não desejo que eles sejam homens de renome mundano nem que ganhem aplausos e fama. Desejo que eles sejam recordados por Deus na oração e tenham um lugar no Céu. Não espero ter filhos para o mundo. Espero ajudar a povoar o além. Toda a vida é redefinida a partir dessa perspectiva. Esta é a minha e pretendo mantê-la a despeito de qualquer dificuldade: criar dignamente meninos e meninas para serem homens e mulheres dignos. Não quero um “menino Ney” parido pra existência. Prefiro um zé-ninguém com brilho nos olhos e consciência pura. O resto é lucro e está nas mãos dEle.

1492. Nada fica encoberto, seja você o Neymar ou o rei Davi. Piriguete de WhatsApp ou mulher de general, o praticado em oculto sempre será revelado. O “crime” não compensa. Nunca compensa. Está na Bíblia e também lá na célebre canção de Leonard Cohen: “She tied you to her kitchen chair / She broke your throne and she cut your hair / And from your lips she drew the Hallelujah.” A vergonha do pecado mancha as biografias e as almas, sob o preço final dum assassinato ou da derrota numa Copa do Mundo… Nossa geração precisa urgentemente redefinir quem são seus “heróis”, quem é digno das nossas palmas e celebração.

1493. Beleza sem conteúdo é batata frita sem sal. Sem graça.

1494. A vida do Gabriel Diniz, do mendigo sob o viaduto, do Príncipe de Gales, da balconista da padaria, da minha amiga Florinda que faleceu ontem à noite, do líder da oposição japonesa, enfim, qualquer vida e a minha e a sua vida, têm diante da soberania de Deus o mesmo valor: nenhum. A mídia mais fala e mais lamenta a morte conforme a popularidade. Mas o que realmente importa é se fomos ou não remidos pelo sangue de Jesus Cristo. Importa a salvação. Todo o resto, com ou sem comoção pública, com ou sem plantão no Jornal Nacional, não passa de falatório passageiro. Daqui um mês, quem se lembrará do avião que caiu? Daqui à Eternidade, Deus se lembrará da sua alma? É isto que importa.

1495. Quem em muita consideração leva a beleza, já está planejando a “troca” no futuro. Porquê objetifica o outro e objetos perdem a atualidade da moda e envelhecem. Lei da Entropia, of course. Mas quem é tratado como objeto sabe que é tratado como objeto e sabe que objetos se trocam; e se não se importa muito com isso, o faz apenas porquê também trata como objeto; deixando claro que esses interesses baixos do usar-até-enjoar são mutuamente compartilhados. Pessoas que são mais coisas que gente primam excessivamente pela estética e, como tais, sempre quererão atualizar o modelo, a marca, o produto para outros mais bonitos. Resta saber se você é coisa ou é de corpo, alma e espírito.

1496. Tente ser bom e você saberá o quanto você é ruim.

1497. Quem não é fiel no pouco não pode ser fiel no muito. Então, não existe essa de “coisinhas sem importância”. Ou a gente faz o certo ou faz o errado. Diante de Deus não existem miudezas morais desculpáveis, justamente porquê são elas que elevam gradualmente à santidade ou rebaixam pouco a pouco à condenação. O pouco medra o caminho do muito. Você primeiro cuida de tostões para depois guardar tesouros, primeiro aconselha um amigo para depois apascentar multidões, primeiro se abstém da pornografia para depois ser fiel no casamento, primeiro cuida dos rebanhos escondidos para depois ser rei, primeiro faz a cama para depois governar toda a casa. Quem quebra as regras “pequeninas” não guarda as grandes. Quem não se importa com os detalhes da parte não pode viver pelas estruturas do todo. Quem não toma a gota do remédio amargo não pode beber o doce cálice inteiro da saúde.

1498. Não existe esse negócio de “deu valor porquê perdeu.” Esse valor dado a posteriori não é valor: é a pessoa fazendo contas da utilidade prática do que tinha e agora já não tem. Valor é dado antes de tudo na presença; na ausência, é apenas egoísmo bem ou mal disfarçado. Ou o valor é para hoje ou nunca será nada além de preço romantizado, idealizado. O que existe é “dou valor porquê tenho”. Tudo aquilo que não fecunda no presente não pode brotar no futuro quando aquele já for passado. Se ama, ama agora. Se quer bem, quer bem agora. Se preocupa, preocupa agora. Se importa, importa agora.

1499. O amor está nos pequenos gestos constantes, nos detalhes. Esqueça os discursos dramáticos, as performances de ocasião. Há amor no copo de leite quente e açucarado que se entrega toda a noite, até o fim da vida, pelo marido à mulher que sofre de insônia. O amor não está no drink de balada do sempre repetível fim de semana, por gente diferente à outra gente igual. O amor é uma rotina, um dia-a-dia, um continuar e um prosseguir sem fim. O amor é uma liturgia quietinha que se aprimora no cotidiano.

1500. COMO LIDAR COM PENSAMENTOS INCÔMODOS: 1. Nem todos os seus pensamentos são seus pensamentos. O fato de um pensamento estar dentro de sua mente, e por ela andar e rondar, não significa em absoluto que a origem dele seja você. Há pelo menos três origens possíveis: i. humana, ii. divina e iii. demoníaca. Não cabe aqui explicar cada uma delas (com suas muitas subdivisões e variações decrescentes), mas saiba isto de antemão: o fato dele estar aí dentro, aí na sua cabeça, não atesta que o pensamento tenha nascido do seu eu. Todos surgem no seu eu, mas não necessariamente provêm de você. Ou seja, você não deve se alarmar, sentido-se absolutamente responsável pelo conteúdo pleno do que pensa; 2. Um pensamento que incomoda é, antes de tudo, um pensamento que causa algum grau de medo. E porquê você teria medo de algum pensamento? Geralmente, um pensamento incômodo revela para nós um problema de auto-conhecimento: se você foge do que pensa, foge do seu eu tanto positiva (porquê não quer afirmá-lo) quanto negativamente (porquê não quer negá-lo). Só o mais ou menos desconhecido pode incomodar. Aquilo que conhecemos com profundidade do nosso eu é inofensivo em termos de incômodo, por mais que saibamo-lo bom ou mau. Afinal, saber (e conhecer) alguma coisa é, de certa forma, pelo menos restringir e até mesmo anular seu poder de ação, reação, afecção e infecção psíquica. Um pensamento que incomoda, incomoda porquê fica sufocado e reprimido no inconsciente; 3. Daí, segue que a fórmula para acabar com o poder dos pensamentos incômodos é justamente aceitá-los. Nunca tente pensar em outra coisa quando um deles aparecer. Jamais mude de assunto ou tente se distrair para que ele passe e você se esqueça dele. Não funciona se esquivar da análise. Quanto mais você jogá-los para “debaixo do tapete”, maior poder eles terão e… logo voltarão ainda mais poderosos e amedrontadores. Assim que um pensamento incômodo transitar por sua consciência, pegue-o com força e, exercitando as virtudes da coragem e da força de vontade, enfrente-o. Jogue luz sobre ele: raciocine, logifique, medite, reflita. Raciocine sobre sua origem e como e quando ele surge. Logifique sobre seu porquê, identificando seu estado de espírito no contexto. Medite em toda sua biografia e extraia dela as respostas causais para as emoções e sentimentos que o acompanham. Reflita sobre tudo e sobre todos na sua vida, sobretudo acerca de como as coisas e as pessoas te afetam; 4. Liberte-se do medo de ser você mesmo. Não ceda às quaisquer pressões do mundo, que quer fazer de você a imagem do caos e a semelhança da desordem. Você é singular, único, individualíssimo em sua personalidade e atributos. Estar pronto a viver autenticamente, integrado e unido em si mesmo, sem prostituir sua natureza mais elevada em nome da aceitação baixa da multidão, te liberará de um sem número de medos. Seja em tudo espontâneo. Deixe que o mundo se retraia patologicamente, atemorizado em refletir grandezas que aqui na terra parecem-se com “loucura.” Que você se levante corajoso diante da vida. Para tanto, perscrute-se sem medo: para cada possível trauma e para cada possível ferida há em Deus a “possível impossibilidade” da cura e da cicatrização. Seja uma equação para si mesmo, seja um pensamento para si mesmo. Quanto mais você pensar em si mesmo, destrinchando as estruturas e os detalhes da sua alma, mais você poderá ser você, até que um dia, como Dom Quixote, olhará para o espelho e, ultrapassando o próprio e fiel reflexo, dirá “Yo sé quién soy” / “Eu sei quem sou”; 5. Por fim, guarde esta verdade bem profundamente: você não é o que pensa, primeiramente. Antes de tudo, você é o que você faz. Pulsões ancestrais com seus atavismos e taras, sussurros demoníacos, condicionamentos sócio-culturais, falatório do zeitgeist coletivo, neuroses ambientais e todo o diabo-a-quatro físico e metafísico da existência e da vida que confluem para seu cérebro, que atam e desatam ligações neurais entre seu córtex e seu espírito, não são você. Você é o que você decide conscientemente fazer. Você é seu núcleo livre de consciência. Quando você descobrir isso, e crer fiel e firmemente nesta realidade, você retomará o controle da sua cognição e, com ela, tomará mais fôlego em Deus e, juntamente com Ele, poderá dizer em alta voz: “Eu sou o que sou”. Mas, para chegar a este estado, é indispensável orar. É preciso que você ore muito, que você dialogue com Aquele que poderá dizer a você mais perfeitamente coisas que você mesmo não sabe a seu respeito.

1501. Sabe quando você olha para certo dia da semana e, por algum descompasso da rotina, ele parece ser outro? Quando é quinta-feira, mas porquê é feriado ou porquê você ficou em casa, você sente o dia como sendo um sábado? Sabe aquela sensação de associar determinada inclinação da luz à tantas horas da tarde de tal dia e uma certa aura mista (e mística?) de “temperatura-altura-e-pressão” a um jeito específico dum outro dia de outra estação? Sabe quando você sente cada dia da semana de um jeito e, intuitivamente, atribui suas características específicas a outros dias? Penso que quanto ao coração as coisas também sejam assim. Nós que medimos mais o tempo pelas aparências relativas do peito que pelo calendário que fala ao cérebro, constantemente projetamos o que está cá do lado de dentro por sobre o que está ali do lado de fora. E nos enganamos. E interpretamos mal. Assim como é preciso olhar diariamente para aquilo que nos diz o calendário, a fim de sabermos aquilo que a data programa para a rotina e não sermos enganados por um domingo interno que é sexta-feira externa, é também preciso voltar os olhos para as coisas tais quais elas são no mundo dos olhares, sob pena de perder-se na sensação de que uma cortesia pega de relance na íris é ternura romântica, de que certo brilho que outrora tivemos num ser amado se repete noutro que não nos ama, de que o dantes vivenciado aqui por mais que na aparência se pareça com o vivido ali nada é senão uma sensação, uma dissociação entre a prática que os olhos vêem e a teoria que os olhos já enxergaram. Alguém, acho que um poeta italiano (não lembro quem), disse isto: “Meglio aggiungere vita ai giorni che non giorni alla vita.” / “Melhor acrescentar vida aos dias do que dias à vida.” Quanto ao amor, que se diga o mesmo: melhor acrescentar amor à vida do que vida ao amor. “O acessório segue o principal”, dizemos no Direito. Olhe para as coisas sem carências, sem pulsões de querências e sofrências, sem pespegar às aparências outras essências que não lhes pertencem, sem acrescentar uma existência à coisa quando é a coisa que deve acrescentar à existência. É sábado do lado de fora? Que seja sábado do lado de dentro. É amor do lado de dentro? Que seja amor do lado de fora.

1502. Não há amor maior que o de Cristo. Antes de se deslumbrar com qualquer “chamego”, olhe para a Cruz.

1503. Quem tem coração, tem ao mesmo tempo uma bússola e um maremoto no peito. O mesmo coração que indica o caminho, rasga o mapa. O mesmo coração que guia para o norte, confunde os pólos. O mesmo coração que ilumina feito farol, embaça as retinas com neblina. Quem tem coração tem certeza e, ao mesmo tempo, insegurança; tem convicção de amor e dúvida de paixão. O que fazer, então, se céu e inferno parecem coabitar o mesmo pedaço de carne e espírito que pulsa sangue e alma em nós? O que fazer, já que frio e calor lutam sobre as mesmas veias e emoções, sobre as mesmas artérias e sentimentos? Escolha para partilhar sua existência e compartilhar sua vida a pessoa que conseguir alcançar o porto ainda que a noite seja escura e temerosa. Escolha para singrar o oceano tempestuoso a pessoa que for capaz de manejar o leme com os olhos fechados, confiando na rota invisível que o Espírito ensina aos marujos mais valentes. Escolha a pessoa que, contra as lógicas do naufrágio e as razões do afundamento, nade, nade e nade até que o sol nasça, até que as águas se acalmem, até que já não seja preciso navegar, porquê, no altar, terra seca e segura surgiu sob os pés. Aceite que seu coração vai e vem com as marés. Só não aceite perder de vista o destino da jornada. Só não deixe de remar, com quem escolher. Esta é a glória da nossa humanidade. Esta é a glória da nossa fragilidade: temos um coração.

1504. Nenhum tempo é desperdiçado se você aprende a lição.

1505. Ore para que Deus arranque da sua vida tudo aquilo que não é real e verdadeiro. E aceite, depois, o fim das suas “ilusões de estimação.”

1506. 5 PEQUENAS COISAS para fazer seu dia bem melhor: I. Acorde com boa música. Não use o despertador padrão do celular, que é o equivalente sonoro do balde de água fria. Instale algum app despertador de música. Começar o dia ouvindo beleza e arte faz a diferença. A gente acorda em paz e sem o costumeiro sobressalto traumático que nos acompanha desde o “mãe, deixa eu dormir mais um pouquinho…!” do primário. Eu ouço o “Jesus, alegria dos homens” de Bach. Você pode e deve ouvir a sua preferida, aquela que te faz bem; II. Tenha ritos para as pequenas atividades. Disciplinar sua escovação de dentes, a troca de roupas e calçados, a ordem dos ingredientes na receita, a posição dos livros na estante e de tudo aquilo que embasa seu cotidiano é uma oportunidade para que você se discipline inconscientemente para as grandes atividades. Se você é fiel nas pequenas coisas, terá muito mais força quando tiver que executar as grandes. Quem não consegue arrumar a própria cama com zelo e constância não planeja uma existência empolgante e frutuosa, via de regra; III. Se você tiver que resolver pequenas questões domésticas e isso exigir que saia de casa, vá a pé. Procure caminhar o quanto puder. Olhe pra sua calçada, pra sua rua e pras outras ruas com atenção. Descubra e aprenda sobre os mundinhos que te cercam. Há crianças, pardais, pombas, gatos e cachorros. Há florezinhas crescendo nos pequenos trincos das sarjetas. Há aromas diferentes entre um CEP e outro. Há belezas e feiuras que se contradizem e se abraçam na Realidade. Se você andar mais a pé, terá a consciência mais afiada e afinada; IV. Use seu celular (de novo ele) para fotografar menos a si mesmo e mais ao mundo. O espelho do banheiro e da academia já estão cansados de selfies. Diminua os auto-retratos e ponha seus olhos na vida que te segue. Há passarinhos comendo farelos nas praças, velhinhas na feira, crianças correndo no campinho, o sol nascendo e se pondo no horizonte, lixo nas ruas (que em preto e branco, pela evocação da Eternidade, sempre fica bonito). Fotografe aquilo que te chama a atenção. Sua visão ficará mais pura, mais objetiva, mais crítica: se acostumará a procurar a Beleza sobre a qual o mundo se funda e sem a qual você se afunda. Não apenas seu gosto estético melhorará. Sua alma ficará éticamente mais sensível; V. Dedique 5 minutos para a leitura de algum texto literário. Indico sempre que se comece pelos livros poéticos da Bíblia (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares). Mas você também pode ler um soneto de Dante e Shakespeare, pode ler Drummond, Manuel Bandeira, Yeats e T. S. Eliot, enfim, pode ler palavras cheias de verbo e não só se empanturrar dessa verbosidade algo demoníaca que vem dos noticiários. Largue mão (um pouco, vai) dos memes e do Pânico à hora do almoço e use o Google para encher sua alma de coisas menos passageiras. Afinal, quando você estiver paquerando ou morrendo, um verso sempre será útil para amar e consolar.

1507. Curioso como pessoas tidas por muito bonitas podem ficar tremendamente feias assim que abrem a boca. E, por outro lado, como pessoas às vezes consideradas “feias” podem ficar lindas quando a alma fala por suas línguas.

1508. A santidade organiza a vida. E o pecado? Bagunça tudo.

1509. O efeito prático da imoralidade sexual generalizada está aí: muita mulher boa e decente sofre solidão e nunca irá se casar. Por que? Porquê a qualidade dos homens e das mulheres em geral está mais baixa que o subsolo do inferno, mas, ainda assim, existem mais mulheres boas do que existem homens bons. Ou seja, há sobra numérica no campo feminino. Resulta que a conta para a formação dos pares não fecha. Isso é terrível. Percebem como o descontrole emocional e sexual conjuntural de curto prazo destrói as possibilidades de estabilidade sentimental e sexual de médio e longo prazos? O que se planta hoje na desordem afetiva individual se colherá amanhã na destruição afetiva coletiva. Há muitas Saras, Rebecas e Raquéis; e há pouquíssimos Abraãos, Isaques e Jacós. Isso é cruel.

1510. Que o seu maior desejo seja o de ser bom. Bom, honesto e simples.

1511. Não desabafe com qualquer pessoa. Não desnude seu coração diante de qualquer um. Não conte seus tremores, temores e terrores a quem quer que seja que, primeiro, não tenha provado ser exemplo silencioso de vida santa. Não exponha seu íntimo, seu particular mais do âmago, a alguém que não seja capaz de ser forte o suficiente para guardar só consigo a sua fragilidade. Não se abra com quem não fechará a abertura. Em suma, nunca se confidencie com gente faladeira e imoral, com gente fofoqueira e iníqua. Fale primeiro com Deus. Depois, procure gente madura de fé igualmente madura. Do contrário, as verdades e as mentiras do seu coração correrão de boca em boca e de ouvido em ouvido.

1512. Nós deveríamos agradecer profundamente pelas nossas decepções. Uma decepção que é senão a revelação duma realidade falsa, o descortinamento duma ilusão? Decepcionar-se é, para o homem sincero, um presente da verdade contra a falsa presença da mentira em sua vida. Deus nos abençoa com libertação toda vez que um mau procedimento do próximo nos apunhala o coração com deslealdade. Bendita seja a decepção, santificada seja a decepção, glorificada seja a decepção!

1513. Você vai continuar infeliz enquanto não descobrir a quê veio neste mundo. Sem o sentido profundo da própria existência, sem a descoberta essencial de sua vocação individual, você viverá de fuga em fuga, de tapeação em tapeação, de tapação de buraco em tapação de buraco. Você foge através de roupas de marca, de hobbies, de pecados, enfim, de quaisquer atalhos que gastem seu tempo até que tudo se passe pelo caminho e a morte finalmente chegue. Você tapeia a própria consciência, tenta pensar em qualquer outra coisa quando os pensamentos sérios e visceralmente incômodos vêm estragar a falsa paz de espírito da sua rotina de até 70 e tantos anos pelo menos. Você enfia qualquer coisa no peito e qualquer coisa na cabeça, qualquer novela global, qualquer documentário, qualquer filme na Netflix, qualquer e qualquer coisa para passar o tempo entre suas certidões de nascimento e óbito. Você só será feliz quando descobrir o porquê de estar, aqui e agora, neste mundo. Você só será feliz quando passar a exercitar sua vocação e, então, a exercer seu ser completo, integral e total nesta existência. Trate de se encontrar entre os bilhões da espécie, trate de se reencontrar diante de Deus. E então, você experimentará felicidade permanente, a felicidade de ter motivos para viver e morrer.

1514. Quando as pessoas não têm ideais no coração, elas não são leais. Não se pode confiar em quem é movido pelo instinto da auto-preservação. Nessa vida, só é leal quem tem motivos existenciais que superam o ronco do estômago e os estalos da biologia. Do contrário você será passado para trás em nome de qualquer conforto que aqueça o corpo, ainda que esfrie a alma… Apenas gente com valores aceita cortar na própria carne. Gente sem valores, cortará a sua enquanto não saciar a fome insaciável.

1515. Os homens estão cada vez mais canalhas e afeminados e as mulheres cada vez mais carentes e, por isto, devassas. Equação da infelicidade geral. Ou vocês olham novamente para os bons e testados valores de sempre, ou vão morrer todos nonagenários e solitários na cama do hospital. Muitos machos e fêmeas, com corpo de mamífero. Poucos homens e mulheres, com espírito humano. Os votos do altar são a luz no fim do túnel para essa geração que transformou o encontro do homem com a mulher em match no Tinder, em transa ocasional de fim de semana, em status no Facebook, em defraudação emocional pós-balada, em contatinho no WhatsApp. Os homens voltarão a ser valorosos e varonis e as mulheres dignas quando a antiga receita for recuperada: o amor — puro e simples.

1516. Deus é seu fiador quando você fala a verdade. Ele trabalhará para expor a mentira.

1517. Tenha conversas interiores, consigo mesmo. Dialogue com seu eu. Converse para dentro. Ouça-se, fale-se, diga-se. Todos nós temos questões, maquinações, pensamentos que vão e vem e que geralmente nós jogamos para debaixo do tapete mental. Bata papo com seu eu. Desnude sua consciência e escancare sua inconsciência para ser consistente. Seja seu próprio e principal assunto. Você se encontrará a si mesmo, em lucidez e segurança. E ore. Ore muito.

1518. Pessoas orgulhosas sempre pensam que nós queremos o mesmo que elas querem. Não admitem que às vezes aquilo que para elas é tesouro para nós é lixo. Por isso, constantemente, os orgulhosos enxergam os outros como concorrentes.

1519. Admiro muito faxineiras, lavradores, porteiros, cortadores de cana, mecânicos, garis, enfim, quem trabalha com as mãos. Eles trabalham à moda antiga, sentem na pele o mundo em estado bruto. Ouso dizer que a civilização depende deles. A civilização depende mais da moça dos serviços gerais da USP que do professor de Sociologia que quer transformá-la em categoria política. A civilização depende mais do camelô que vende sacolé na Esplanada dos Ministérios que dos 513 deputados que querem tributar até a alma do vendedor ambulante. A civilização não depende de vereadores e prefeitos, de governadores e parlamentares estaduais, de presidente e deputados e senadores federais; não depende de excelentíssimas sanguessugas com suas complexidades artificiais. A civilização depende de quem mantém o dia-a-dia em ordem, no ritmo simples da lei natural. Quem quer planejar o futuro à longas distâncias é quem cria a desordem e a barbárie. Não tenho dúvidas: devemos nossas mãos mais finas às mãos mais calejadas. São elas que nos recordam do Éden, donde o pão começou a ser sovado com sangue, suor e lágrimas. É necessário recordar e exaltar a nobreza de quem trabalha com as mãos.

1520. O uso excessivo do celular está emburrecendo todo mundo. É nítido e inegável. O analfabetismo que mal fazia correr o lápis no papel hoje desliza os dedos na tela do celular com presteza inigualável!

1521. O cristão deve ser bom, não bobo.

1522. A verdade ali se esconde atrás dos montes, naquele cantinho onde as folhas são rubras e a relva é véu para aquecer no inverno a flor. Quisera ser um dos hobbits da fábula antiga para poder me aninhar naquela terra sincera, onde no caleidoscópio a cor da flor é sua cor, onde os pintores acalmam suas írises no amor, onde toda a paleta cósmica goteja frio e calor sem esfriar ou esquentar o visceral, o coração.

1523. Em Babel, o Homem quer subir ao Céu por forças próprias. Em Betel, Deus desce à Terra.

1524. A vida é ampulheta: a areia está no alto, depois está lá embaixo; grão a grão. A areia é só um pó mais robusto.

1525. Mentira tem perna curta e muleta alguma lhe cai bem.

1526. Ou somos homens de consciência ou nada.

1527. A esfinge ordena que eu a decifre ou ela me devorará. Pobre coitada… como poderá ela mastigar-me, eu que sou todo areia do deserto? Mastiga-me e engasgo-te!

1528. A realidade do mundo diariamente mina meu idealismo. Todo dia eu tenho que encher com azeite essa botija rachada.

1529. Pode ter saído do jeito que você não queria, mas saiu do jeito que Deus quis.

1530. Desejo que o silêncio me seja doce, doce como é o néctar ao paladar das abelhas que trabalham no jardim do camponês. Um silêncio dourado como o mel iluminado pelo sol do meio dia nos campos da Toscana. Um silêncio piedoso, um silêncio santo, um silêncio colhido no som da foice aliviando o caule do trigal do seu grão de pão. Desejo, meu Pai, o silêncio dos anjos daí espiando o crime do Calvário. Desejo o silêncio da língua seca, sem hissope; desejo o silencio da Palavra que sussurrou um rasgar no véu do Templo.

1531. Senhor, achega-te a mim, porquê eu me achego a ti e depois me volto para o mesmo ponto, para trás. Eu me envergonho das minhas vergonhas e dou passos vacilantes, infantis, em direção do ponto de partida. Só cruzarei a faixa de chegada se meus pés contarem com o teu caminho.

1532. Senhor, eu sei que me escutas. No íntimo eu sei com uma certeza fundamental e pura. Mas, Senhor, eu tenho intelecto e ele pensa; e seus pensamentos são aqui estabelecidos na terra, que duvida e faz duvidar. Então, Senhor, ajuda-me a crer!

1533. Quero a Deus. Quero a Deus na minha alma!

1534. Senhor eu sou vão. Um vão vacuoso. Preenchei-me de Ti.

1535. Curioso: o Rei da França gerou o Rei dos Romanos. Com Napoleão, o Imperador dos Franceses gerou o Rei de Roma. Território e Povo. Povo e Território.

1536. Acrescente diariamente um grão de sal a um barril do vinho mais doce e um dia você terá vinagre ou molho para salada. Pequenos vícios são artífices da mediocridade.

1537. Os terroristas islâmicos não perguntam ao cristão se ele é católico, ortodoxo ou evangélico antes de matá-lo. Eles nos martirizam porquê nosso Deus é Jesus Cristo. Está na hora de pararmos de brincar de guerrinhas fratricidas e nos unirmos contra nossos inimigos de sempre. O que ocorreu hoje no Sri Lanka será exportado para nosso continente em médio prazo. Estejamos preparados para lutar por nossa fé. Estejamos preparados para, a despeito das diferenças (que manteremos), nos unirmos naquilo que é essencial. A tribulação virá sobre nós. Estejamos preparados.

1538. Dê chocolates aos seus filhos, mas conte a eles sobre a Cruz. Que eles se lambuzem com ovos bem gostosos, mas que também eles saibam sobre o sangue do Calvário.

1539. Cristo que é para você? Um cara legal, ativista e militante no século I? Um proto-hippie? Um profeta sideral? Jesus é só um “mano celeste”? Um mártir político? Um guru espiritualista? Ele foi, é e será o Filho Unigênito de Deus. Ele é o Verbo Encarnado, o Senhor de toda a criação, o Rei do Universo, o Príncipe da Paz, a Face Visível do Deus Invisível, o Alfa e o Ômega. Ele era aquele bebê na manjedoura e hoje é o sofredor na cruz do calvário. Ele é o Salvador. Será que você se importa? Será? Hoje não é feriado. Hoje é o dia em que recordamos o maior amor do mundo. Dignifique este dia. Que a sua vida dignifique a morte dEle.

1540. Tem quem vá pra igreja e se torne pior, que leia muito a Bíblia e se torne pior, que comece a falar muito de Deus e se torne pior. Por que? Porquê arranjou apenas um jeito “legítimo” de dar vazão ao ego e… se achar melhor. Não há nada pior que o orgulho, que piora qualquer situação. Melhor fosse não ir à igreja, não ler a Bíblia, não falar de Deus. A condenação seria mais branda.

1541. A imensa maioria das mulheres bonitas deste nosso mundão não se parece com essas outras mulheres das passarelas, revistas e outdoors não. A beleza é tanto mais atraente (eu acho) quanto mais natural, quanto menos fabricada: com olheiras ocasionais, sem maquiagem, com sardas, marcas e cicatrizes aqui e ali, cabelos algo revoltos, não muito magricelas nem muito rechonchudas, pele com cheiro de pele perfumada por leve rastro do sabonete do último banho. É bonito o que é como é. A imensa maioria das mulheres normais é muito mais bonita (repito: eu acho) que estes “paradigmas de beleza” artificial que a indústria e a mídia apresentam aos nossos olhos todo santo e profano dia. Mulher normal é que é bonita.

1542. Não te incomoda que, ano após ano, você não aprenda e não melhore em nada? Não te incomoda ser apenas um mamífero existindo em meio a outros bilhões da espécie? Os neandertais ao menos se maravilhavam com as estrelas no céu e com a fogueira na terra. Você mal ergue o pescoço pro alto e mal esquenta a comida no microondas. Não te incomoda ser apenas um sistema digestivo ambulante?

1543. Quem aí nunca quis jogar os diplomas no buraco, comprar um sitiozinho e virar agricultor? A vida na roça atrai tanto que, às vezes, a enxada parece ser mais leve que a caneta. A terra ainda exerce seu magnetismo sobre as almas românticas. O ideal bucólico do campo, da volta à casa ancestral, ainda nos chama à uma vida mais simples e natural. Fugir da cidade: quem aí nunca acalentou, no fundo do coração, este desejo?

1544. Fazer alguém sorrir é uma das coisas mais prazerosas da vida.

1545. Os templos poderão cair. Basílicas serão profanadas, catedrais incendiadas, monastérios derrubados e até os oratórios e as capelinhas serão vilipendiados. Foi assim com o Templo de Jerusalém, e não ficou pedra sob pedra. Foi prometido que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja (invisível e triunfante), não contra as igrejas (visíveis e militantes). Por mais que nos entristeçamos com a arquitetura da nossa arte ruindo, por mais que nossos tesouros de fé e piedade sejam sacrilegamente queimados, nós temos as catacumbas de sempre nos convocando ao martírio que se avizinha: nossos irmãos chineses, católicos e evangélicos, neste momento se escondem nos porões, nos esgotos, nos buracos ocultos do Estado para renderem culto ao Cristo, tão proibido sob os comunistas quanto sob os césares. A perseguição foi, é e sempre será a glória da Igreja. Que o discurso dos heróis Macabeus, que há 2.200 anos se levantaram contra a profanação do Santo dos Santos, seja também o nosso: “Levantemos nossa pátria de seu abatimento e lutemos por nosso povo e nossa religião!”

1546. A Catedral de Notre-Dame está em chamas. Mil anos de história cristã ocidental agora se desfazem em cinzas. Os ossos de São Luís se revolvem e se revoltam no túmulo! Triste fim da Civilização Européia, carcomida por liberalismo, ateísmo e islamismo. Montjoie? Saint-Denis? Sinal dos tempos. Deus tenha piedade. Dies Irae… [15.4.19]

1547. Deus nos ama. Que verdade tão simples quanto profunda!

1548. Ontem à tarde, ouvindo o papo de dois moleques sobre as tais fotos do Buraco Negro, perguntei na lata: “tudo bem, mas vocês já pararam pra ver o nascer e o pôr do sol?” A resposta foi terminantemente negativa. Esta é a “síndrome do telescópio” da nossa geração: valorizamos e nos interessamos por tudo o que está distante, inalcançável de tão longe, mas sequer prestamos atenção aquilo que de grandioso está ao alcance do nosso olho nu… Vale pra tudo na vida, infelizmente.

1549. O apreço pelo silêncio é sinal de saúde espiritual. Sinto muito, mas igreja não é lugar de gritaria, cacofonia e barulho não… Quanto mais alto o som, mais baixa a razão; e quanto menos razão, menos consciência. O culto a Deus é consciente: um cérebro “aquecido” por decibéis incompreensíveis não pode adorar adequadamente. Deus não é surdo, mas você pode ficar se insistir em estardalhaço sonoro.

1550. Você não ama a Deus se você não fala com Ele. A oração é uma serenata de amor.

1551. O desejo por uma casinha de madeira e pedra nas montanhas une as almas românticas.

1552. Em 5 minutos você consegue ler um soneto ou ouvir uma peça para piano ou admirar os detalhes duma pintura. Em 5 minutos você pode mandar um “e aí, tudo bem?” em prosa e verso. Em 5 minutos você pode escrever um resumo do seu dia, ou correr quase 1 quilômetro, ou pesquisar no Google qual é a constelação que está acima da sua cabeça à noite, ou aprender uma receita nova de batata frita, ou elogiar a moça dos pés à cabeça, ou comprar um livro no Amazon. Em 5 minutos você pode decorar um salmo da Bíblia ou aprender a usar crase ou ler a pequena biografia na Wikipédia de alguém que sabia o quanto valiam 5 minutos. Em 5 minutos você consegue fazer muita coisa além de sentar e bufar e esperar por maná do céu. Em 5 minutos, milhares morrem e nascem, amores surgem e homicídios acontecem, sementes germinam após anos de dormência e artistas rascunham as sombras de obras imortais. Você não tem tempo, mesmo?

1553. Antigamente os pobres se esforçavam para manter a casinha sempre pintada, a calçada varrida, os alumínios areados, as roupas de linho barato e chita lavadas só com água e lisinhas passadas só no ferro. Tudo era muito simples, mas muito limpo. Tudo era muito humilde, mas muito organizado. Palavrões não se falavam em hipótese alguma porquê, como se dizia, “nós não somos dessas coisas”. As avózinhas analfabetas não sabiam escrever o próprio nome, mas sabiam recitar orações inteiras de cor, com memória superior aos dos nossos universitários incapazes de lembrar pequenas equações. Os avôs passavam o dia na roça, comendo polenta no café, no almoço e na janta; de vez em quando, um pedaço de carne de porco da lata. Essa gente de mãos calejadas constituiu família, criou e educou os filhos, que andavam quilômetros a pé nas estradas rurais para aprender o abecedário com professoras sem os stricto sensus da existência acadêmica. Os pobres nasciam pobres mas não ficavam pobres-de-marré por muito tempo: costuravam, faziam bicos, trabalhavam por fora para ter vida melhor por dentro. Iam morrer piedosamente, com velório em casa, chorados por toda a penca de escadinhas de filhos, netos e bisnetos. Os pobres de antigamente davam exemplo aos ricos de antigamente. O pobre não abortava, o pobre respeitava a Deus, o pobre não se nivelava à “evolução” e ao “progresso” dos abastados. Os pobres eram a grande conquista da Civilização. Os pobres eram civilizados, elegantes e dignos. Hoje, como está a situação? A casa está encardida, o mato cresce na calçada, imundície pelos quatro cantos, calça de jovem de 16 anos custando mais de R$ 300. Tudo é muito complexo, mas muito sujo. Tudo é muito caro até, mas muito desorganizado. Palavrões se dizem aos borbotões a ponto de se crer que a língua pátria é constituída apenas de grosserias e imprecações. Todos têm diploma do fundamental, do médio e, não raramente, do tal democratizado e burríssimo ensino superior. Todo mundo passa o dia em frente à tv e batendo os dedos lisinhos na tela do celular. Essa gente se estufa com bolachas, salgadinhos, refrigerantes e com toda e qualquer porcaria comprada a preço de banana (da banana, muito melhor, que não comem porquê deram Coca-Cola na chuquinha e chocolate na papinha desde cedo pros pirralhos) no supermercado. Reclamam de andar um quilômetro e meio para levar os filhos na creche e na escola, com professores à beira da depressão por terem que criar e educar os filhos dos outros enquanto os próprios passam muitas vezes o dia sozinhos. Vão morrer, hoje ou daqui uns anos, estirados solitários nas macas de hospitais superlotados, com um ou outro descendente com muita má vontade pagando a conta do sepultamento. Hoje, salvo as poucas exceções de sempre, os pobres estão iguais aos ricos. O igualitarismo, pelo qual as ideologias fizeram correr rios de sangue? Ei-lo. Os filhos da pobreza e os filhos da riqueza deram pseudo-fraternalmente as mãos para pularem juntos no abismo da barbárie — a liberdade de ser lixo. Choremos, todos, por nós e por nossos filhos.

1554. Lei universal: você nunca vai sair da casa da sua avó de estômago vazio num domingo.

1555. Uma coisa legal em se andar a pé pela cidade num domingo de manhã: você vai sentido os cheiros que emanam das cozinhas, do almoço das famílias. Vida boa.

1556. Esse som das gotas de chuva na calha e no telhado pacifica a alma.

1557. Nós precisamos ser mais amorosos.

1558. O coach que dá aulas sobre como ficar rico é no máximo classe média. A coach de relacionamentos tá no terceiro casamento. O coach de empreendedorismo nunca administrou uma empresa. Ensina sucesso e não é bem sucedido? Pô, tô achando que coaching é o novo refúgio dos pilantras, velhacos, similares e congêneres que antigamente aplicam o golpe do conto do vigário…

1559. O Cristianismo não é de Direita, nem de Esquerda ou de Centro. Cristo não é fantoche de dogmas reacionários, revolucionários ou moderados. A Verdade não cabe numa cartilha político-partidária comprometida em resolver o mundo pelo mundo e em redimir o homem com o homem. Burke, Marx e Oppenheimer não são profetas. “A Riqueza das Nações” de Adam Smith, “A Revolução de Outubro” de Trosky e “Economia Dirigida e Economia de Mercado” de Müller-Armack não são Escritura Inspirada. Nossa religião não se ergue em palanques, mas no silêncio dos altares. Nosso Deus não discursa em comícios, mas na reverência dos púlpitos. O Cristianismo não pertence ao rito iniciático da afiliação partidária, mas à Filiação Divina. Maldito o homem que quiser encadernar Deus no seu credo de César. Seja anátema o filho de Adão que ideologizar o Todo-Poderoso!

1560. O diabo conhece suas hipocrisias. E uma das diversões dele é fazer você cair no pecado que você condena nos outros.

1561. Atraso é desrespeito pela espera do próximo. Não cumprir horário delimita o caráter.

1562. O pecado sempre trará tristeza.

1563. O mundo era melhor quando as famílias iam sentar na calçada à noite pra papear…

1564. Há coisas profundas e gloriosas para se conversar. Para quê, então, fofocar sobre a medíocre existência alheia?

1565. Triste situação a dum mundo onde o pai dá cerveja do próprio copo ao filho de 6 anos, mas sequer lhe ensina a ajoelhar-se e orar o Pai Nosso… Quanto sofrimento poderia ser evitado no futuro se hoje, no presente, os pais se dedicassem mais e amar e disciplinar amorosamente sua própria descendência. Menos presidiários, menos criminosos, menos pecadores…

1566. Uma das coisas mais nojentas da vida é se aproximar de alguém com base em supostas inimizades mutuamente compartilhadas: “toca aqui, temos ‘desafetos’ em comum!” Procedimento vil, indigno, pecaminoso. Vade retro.

1567. Roubar é errado. Mas tem gente roubando comida porquê tem gente que não divide o pão… Abismo invoca abismo. Sem amor, os farelos, o pecado, a fome e o desespero se misturam. Como julgar com severidade um homem faminto?

1568. Olhe nos olhos, do fundo da córnea até chegar no profundo da alma. Está tudo lá.

1569. Qual será seu legado? Passar a existência mastigando, cagando, dormindo, copulando? E os sabores? E os sonhos? E o amor? São 24 horas e todo o dia nessa mesma “vibe” de comer porquê o estômago exige, de defecar porquê o intestino manda, de roncar porquê o cérebro ordena, de transar porquê a líbido impera? Quando você irá se sentar à mesa e apreciar o gosto do prato servido? Quando você irá comprar papel higiênico e perceberá humildemente que seus movimentos estomacais o igualam aos orangotangos? Quando você dormirá para recarregar as baterias e ser produtivo no dia seguinte e não apenas para gastar energia à toa outra e outra vez? Quando você aprenderá que a alma é a suprema zona erogênea? Legar carne, gordura e ossos ao cemitério até os cães o fazem. Você quer mesmo se entregar à entropia? Quer ser corroído, carcomido, puído pelo tempo e só, e só e mais nada além de ir pra vala comum do nada?

1570. Não se deve gastar sequer um segundo com aquilo que não pode durar para sempre.

1571. Seja você mesmo. É o segundo melhor conselho para a vida. O primeiro: tenha Jesus.

1572. Vingança é o jeito do diabo destruir tanto o ofensor quanto o ofendido. Não é justiça. É mal.

1573. Um dos segredos da alegria permanente: não reclamar dos acontecimentos. Tudo nos instrui, tudo nos ensina, tudo nos aprimora, tudo tem propósito. Nada é em vão. Nada é à toa. Não murmure.

1574. Tudo neste mundo é ilusório, superficial, passageiro. Só Cristo é real, profundo e permanente. Não desperdice sua vida com as mediocridades, com as coisas vãs e sem valor. Não gaste suas forças, não empenhe suas energias com as bobagens douradas que o mundo vende como indispensáveis. Só Cristo pode fazer com que sua vida tenha sentido para além das misérias e falatórios do dia-a-dia e do dia após dia. Não se iluda com o verniz transitório daqui da terra. Olhe para ao Céu.

1575. A reciprocidade é a pedra-de-toque de qualquer relacionamento. Se você vive assoprando a fagulha para manter o “fogo aceso” num deserto de gelo, você não é insistente: você não tem dignidade. Se você faz carinho em pele que te é alheia, você não é persistente na relação: você não tem auto-respeito. Se você mima com o presente da sua presença quem mal te dá as caras, você não é obstinado: você é teimoso em se degradar afetiva e moralmente. Seu amor, seu carinho e sua dedicação são tão inférteis quanto infelizes. Tenha brio! Em tudo é indispensável que o interesse seja mútuo. Não há amizade de um só amigo. Não há casal de um só par.

1576. Ouça o conselho de quem te quer bem. Ouça ainda mais se ele for duro e te contradizer. Inimigos disfarçados costumam ter fala mansa e ponderada. Amigos perdem as estribeiras e te sacodem até o tutano da alma. Não rejeite a correção de quem te quer bem, porquê a adulação de quem te quer mal via de regra é aceitação: teus inimigos aceitam tuas falhas porquê sobrevivem delas. Durma com os passarinhos para acordar cantando, não com os morcegos para acordar de cabeça para baixo. Para comer manjar, ande com gente decente; senão mastigará farelo com os porcos… Ouça. Ouça e pense. Ouça e aja.

1577. Seja rejeitado na terra, mas seja aceito no Céu.

1578. Deus não nos deixa enganados.

1579. Amor é por liberdade, nunca por necessidade. Amores de necessidade produzem escravidão. Amor é uma escolha livre de quem se basta e não quer apenas completar o cálice (porquê já está completo), mas sim transbordá-lo permanentemente.

1580. As crianças brincavam na rua e lá ralavam os joelhos, jogavam bola e bolinha de gude, empinavam pipa e giravam pião. A vida infantil se passava entre o quintal e a rua. Quarto e sala eram só pra assistir tv à noite e pra dormir também à noite. Hoje, a molecada está sendo criada hermeticamente na bolha dos cômodos da casa sem arranhão e sem merthiolate, só com internet, video-game e celular — só com as abstrações do mundinho interno; sem a realidade dura, nua e crua do mundão externo. Os pais criam os filhos do lado de dentro como se jamais seus pimpolhos fossem ter que lidar com o lado de fora. O ocorrido em Suzano é um floco de neve vermelha em cima do grande Everest que vem por aí. A geração dopada por ansiolíticos, hoje no Ensino Fundamental, ainda não mostrou os dentes…

1581. Quão terrível é perder a inocência do coração e tudo enxergar maliciosamente.

1582. O Brasil é um país doente. A política não nos curará. Só Jesus. Só Cristo!

1583. Se você está interessado apenas em beleza superficial, nenhum corpo o satisfará. Se você está interessado apenas em finais de semana, nenhum sábado o satisfará. Se você está interessado apenas na aparência e na rotatividade, nenhum rosto e nenhum segundo serão seus. Seus genitais cronometrarão o gozo e seu amor em nada diferirá da cópula dos chimpanzés. Você comerá da carne mas não se nutrirá da proteína. Você se divertirá na festa mas não aproveitará o tempo. Se você está interessado apenas em estética e “carpe diem”, você não terá a lindeza dum corpo e a eternidade num olhar só seus. Você terá a feiura e o temporário que todo mundo na grande feira e açougue mundano pode ter: a picanha já mastigada por outros cem clientes do restaurante, a diversão já sapateada por outros cem fregueses da boate.

1584. Tudo o que está escondido, oculto, Deus trará à luz. Isto me consola.

1585. Levar com a barriga, procrastinar, ir deixando para mais tarde, enfim, finalmente decidir só quando já se chegou no limite máximo do absurdo intolerável, é não só piorar os resultados e sofrer à toa: é comprometer tudo. Seja firme e decida em tempo conforme o que é reto, por mais que doa. O preço da displicência é alto demais. Deus não envergonha quem lhe é fiel acima de tudo.

1586. Em qualquer circunstância, vale o antigo conselho: “o que Jesus faria?”

1587. O cheiro de café recém-passado é um perfume do paraíso. Não é?

1588. As pessoas estão quase todas desconfiadas: jogando na extrema-defesa, cheias de escrúpulos e precauções uns contra os outros. Ninguém acredita mais em ninguém. Não há lealdade e liberdade para ser sincero. Isto é terrível.

1589. Uma pessoa que não erra, não vive. Uma pessoa que não vive, não erra. Vivamos tentando não errar (em aperfeiçoamento constante), mas sem jamais esquecer que “errar é humano”.

1590. Não tem tempo para aprender um novo idioma: passa horas nas redes sociais. Não tem tempo para ir à igreja: passa horas nas baladinhas. Não tem tempo para cursar faculdade: passa horas com os pés para cima. Não tem tempo para ler um livro: passa horas fofocando. Não tem tempo para visitar os avós: passa horas tagarelando nas esquinas. Não tem tempo para ajudar com as tarefas domésticas: passa horas se arrumando para a gandaia. Não tem tempo para nada: passa a vida tendo tempo para tudo. Você tem tempo sim! — é que você é vagabundo(a). Conselho aos demais: não tenham dó, nem piedade, nem compaixão de gente assim. Não ajudem, não financiem, não auxiliem: vocês só estarão cevando preguiçosos-orgulhosos.

1591. Cristo sendo vilipendiado no Carnaval? Sempre foi. A diferença é que a Gaviões da Fiel explicitou hoje o desde sempre implícito: a quebra da Lei Divina. O vale da carne é isto: afronta a Deus. Não é lugar para cristãos. [CRISTO VIVE, REINA E IMPERA!] 3.2.19

1592. Quer saber se presta ou não? Cristo disse: “Pelos seus frutos os conhecereis.” Basta.

1593. Conselhos para vencer: tenha foco e disciplina, estude tudo à exaustão, saiba sempre mais porquê conhecimento é poder e liberdade, faça o melhor com minúcia e atenção, se esmere além do necessário, analise as probabilidades e calcule o improvável, seja a causa e a ação nos outros e nunca o efeito e a reação dos outros, despreze o fácil, nivele por cima, seja autêntico e aja na verdade, mantenha a consciência reta, produza todo dia e, sobretudo, entregue tudo a Deus.

1594. Se formos companheiros de Cristo na cruz, também o seremos na glória.

1595. O passado é um cadáver. Ficar supondo “e se?” é apodrecer com ele. A vida é hoje.

1596. Se afastar de Deus para se aproximar de alguém é sempre um mau negócio.

1597. Você vive uma vida digna da morte de Cristo? Lide silenciosamente com a resposta.

1598. Quando o juízo de Deus vier sobre os governos deste mundo, todos cairão como dominó. Quem foi Nabucodonosor? Quem foi César? Quem foi Napoleão? Quem foi Stalin? Quem é este Maduro? Quem é qualquer “autoridade” neste planetinha de esquina galática? Governante algum pode nada por si mesmo.

1599. É da natureza feminina as atitudes estranhas e indecifráveis, a mutabilidade repentina “mobile qual piuma al vento”, a esquisitude e o mistério contraditório que semeiam dúvidas em nós para colher certezas íntimas nelas. Se você não consegue lidar com isso e fica irritadão com elas, tentando apalpar lógica racional no escuro sentimental, sinto dizer: você está procurando outro homem, não uma mulher.

1600. Acostumados com o cheiro do perfume dos frascos, como sentirão o da flor do jardim e o da pele que toca a flor do jardim? Acostumados a reagir com emojis aos stories das fotografias “filtradas” do Instagram, como reagirão à imagem crua e nua de carne e osso diante dos próprios olhos? Acostumados com os molhos de chocolate que condimentam o açaí e com o catchup avermelhando tanto biscoito de maizena quanto churrasco, como sentirão o sabor do arroz e do feijão puros da marmita quando forem bater concreto? O artificial está mastigando o amor: o homem está com o olfato poluído pela colônia que lhe colonizou a alma e a exilou do cheiro da vida além-balada; o homem anda incapaz de elogiar com a expressão do próprio rosto a beleza duma mulher e sequer tem palavra adequada para dizer-lhe qualquer coisa que não os adjetivos-padrão que se dão às coisas inanimadas; o homem não tem na língua o gosto da realidade que nutre o corpo nas segundas, terças, quartas, quintas e sextas-feiras de suor. É preciso se desacostumar do artificial — desses artifícios que retiram de nós a arte e o engenho de sermos… naturais: sensíveis às coisas como elas são e não como querem supor parecer ser. A rosa e a morena e o lírio e a loira na mesa nossa do pão nosso de cada dia são bem melhores (mais cheirosos, mais belos, mais suculentos!) que as fragrâncias envidradas, que as imagens digitais, que os paladares fast-foodianos.

1601. Os dentes podem ser alvos de tão brancos e retinhos de tão geométricos, mas se o sorriso não encantar… Por detrás da carne e do cálcio está a alma; e se a alma não transborda para além da boca, não há poesia, não há flores, não há amor.

1602. Alguns poucos segundos podem decidir negativamente todo o resto de sua vida. Deixe-se orientar pela Palavra de Deus e nunca pela conveniência ou prazer momentâneos. A gota d’água que você decide empoçar hoje é o oceano de amanhã. O floco de gelo que se acumula no presente é a avalanche de bolas de neve do futuro. Tenha cuidado. Não troque um emprego estável por aventuras financeiras que poderão te empobrecer definitivamente. Não troque a possibilidade de um casamento abençoado por sexo casual que poderá te macular para sempre. Não troque o médio e o longo pelo curto prazo. Não vale a pena. Não decida em favor do instante do agora apenas pelo pragmatismo da proximidade temporal: tudo passa e, quando passar, se você escolher mal, você acabará passando junto. Tenha cuidado!

1603. Amor não tem nada a ver com palavras bonitas. Amor tem tudo a ver com palavras verdadeiras.

1604. Por mais que o apartamento seja espaçoso, a gente quer é a rede balançando na casa avarandada. Por mais que o McLanche esteja bem feito, a gente quer é o arroz e o feijão da mãe. Por mais que a namorada esteja toda borrifada de Chanel, a gente quer é ela cheirando à própria pele. Por mais que o carro seja V12 e a pista um tapete, a gente quer é andar a pé no meio do mato. Por mais que a os apetrechos das coisas agradem com seu conforto, a gente quer mesmo é o essencial.

1605. Do jeito que está [des]organizado seu quarto, está toda a sua vida.

1606. Se você não for homem o suficiente para sustentar seu caráter diante dum grupinho de colegas (comedores-e-cagadores de feijão) no trabalho ou na faculdade, como espera resistir ao Anticristo quando ele pretender outra vez martirizar os crentes? Se o coliseu das feras faladoras já te faz fugir em covarde desespero, a arena de sangue cruento te mandará para o inferno até mesmo quando a morte for irremediável…

1607. Não haverá amor se, antes, não existir admiração mútua.

1608. Perdoe tudo a todos. É este o caminho do Cristo, custe o que custar.

1609. Não faça nada por alguém caso a pessoa possa fazê-lo por si mesma. Ajudar nem sempre é “fazer o bem”. Se não liberta e ensina, não é bem. É mal disfarçado, porquê condiciona à preguiça e escraviza no comodismo.

1610. As mulheres querem flores, chocolates e cócegas. E o mundo lhes tem dado baforadas, anticoncepcionais e masoquismo. Minha pergunta, moças: até quando vocês vão se sujeitar a isso?

1611. Ou Cristo ou nada. É isto.

1612. Mulher boa não é aquela que se envaidece com um assovio à toa. É aquela que fica vermelha só com o nosso silêncio.

1613. Alguém está aniversariando? Parabenize, dê um abraço e se for o caso até um presente (por mais simples que seja). Talvez você será a única pessoa a se lembrar. Talvez você salvará alguém da tristeza, da mágoa ou da depressão justamente naquele que deveria ser um dia de alegria para qualquer pessoa neste mundo. Todos merecem que seu aniversário seja lembrado. Todos querem ser queridos. Seja gentil.

1614. Podem ficar com Nutella e demais frescurites. Eu gosto mesmo é de paçoca.

1615. Não tema parecer ridículo. Tema não ter coração.

1616. É terrível, mas não são poucos aqueles que só se encontrarão consigo mesmos na velhice, se acabando na cama do hospital, quando tudo estiver perdido, quando nada puder ser desfeito.

1617. Quanto mais íntimo o relacionamento, menor a necessidade de provas. Idem com Deus. Quanto mais íntimo nosso relacionamento com Ele, de quase nada ficam valendo os argumentos da Apologética. A lógica e a razão da mente se dão bem com idéias. Deus não é uma idéia; é uma pessoa, com a qual relaciona-se: por isto, é no coração que temos a mais forte, potente e profunda certeza.

1618. Na igreja você não tem que agradar ao rebanho; tem que agradar a Deus. No casamento você não tem que agradar ao cônjuge; tem que agradar a Deus. No governo você não tem que agradar ao povo; tem que agradar a Deus. Na amizade você não tem que agradar ao amigo; tem que agradar a Deus. Se você agradar a Deus, a igreja se manterá, o casamento se manterá, o governo se manterá, a amizade se manterá. Agradando a Deus, você estará sob suas leis e então agirá sempre bem e Ele tratará de sustentar tudo para você. Desagradando a Deus para agradar a congregação, o esposo, a multidão e o colega, você perderá sua fé, seu matrimônio, sua posição e sua amizade. Desagradando a Deus, você perderá sua alma e com ela perderá todo o resto. “A escrita já está na parede”, diz a Escritura.

1619. Tenho percebido que muitas das pessoas que nós taxamos genericamente de “preguiçosas” na verdade são indivíduos que estão de certa forma tristes. No fundo, o dínamo da alma está desenergizado por certa depressão: ela não se mexe porquê simplesmente não tem ânimo para nada. Nem todo vagabundo o é no plano moral. Às vezes, é espiritual.

1620. As pessoas se vendem por farelos porquê biologicamente têm fome e estômago, mas não têm o paladar seletivo do espírito. Mas se você amar a Deus e “jejuar” do pão que o diabo diariamente amassa e assa (para te tentar) enquanto você está no “deserto”, Ele te dará não só um pão inteiro, mas a fornada e o forno e a padaria e o trigal todo! A vida com Cristo vale a pena.

1621. Nunca se esqueça de quem estava consigo enquanto os outros inventavam desculpas.

1622. A moça toda emperiquitada e o rapaz todo bombadão tiram selfie tendo ao fundo o chiqueiro insalubre que eles chamam de quarto. A realidade fedida do dia-a-dia versus a superficialidade imagética das redes sociais. Estava certo o caipira: por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

1623. Cerque-se de puxa-sacos e você acabará castrado. Quem o lisonjeia excessivamente quer retirar sua força e vigor para que, quando o for apunhalar, você não seja capaz de reagir. De adulação em adulação, a galinha perde o pescoço. O puxa-saco ensaca a terra do buraco que ele mesmo abre para sua sepultura. O puxa-saco massageia o músculo do ego para que mais tarde a lâmina do punhal entre mais suavemente no tecido do coração. Não é à toa o ensinamento de Santo Agostinho: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem.” Coisa terrível, porém, é quando quem puxa o saco é moralmente indistinguível de quem tem o saco puxado: então, a merda abraça a bosta e tudo são fezes.

1624. Se você tem avós vivos, visite-os sempre. Vá bater papo, leve uma comida gostosa e dê atenção. Se você não tem, sempre tem algum velhinho gente boa na vizinhança de quem você pode ser amigo. Você vai aprender muito com a sabedoria deles e, de quebra, vai exercitar amor. Vale a “pena”.

1625. Mente desorganizada = vida sem propósito. Tudo começa aí nos seus miolos: se as coisas não estão em ordem com eles, seu quarto estará anarquizado, sua mesa de trabalho bagunçada, sua vida confusa. Arrume sua mente com datas e tarefas para a regularidade e com horários e orações para a disciplina, e então você perceberá que até nas coisinhas menores do dia-a-dia sua vida ganhará significado.

1626. O mundo era melhor quando nossas avós cozinhavam com banha de porco. Eu acho.

1627. Se você olhar para o céu estrelado toda noite, o brilho das estrelas se apegará à sua retina, iluminará a cor da sua íris e nunca mais seus olhos perderão a direção do céu. Quem levanta a cabeça para o que está acima, levita sobre a terra e tem debaixo dos pés todas as trivialidades do mundo.

1628. Seja bom, não bonzinho. O bom diz não. O bonzinho só diz sim. Tenha dignidade.

1629. Triste história: Conversei com uma professora, do Ensino Médio, num escritório em Catanduva. Ela não sabe que fevereiro não tem 30 dias, não sabe discernir as fases da lua no céu, não sabe que o nosso calendário é o gregoriano e é solar. Ela é professora de Geografia. Fui olhar o Facebook dela: contei quatro frases do Paulo Freire, vi seu orgulho manifesto em ser pedagoga e um ou outro pedido por salário mais alto, notei um sério problema com a Língua Portuguesa… Isto é mais comum do que vocês pensam. Isto é triste. Isto é perverso com ela (que se crê preparada para ministrar aulas) e com seus alunos (sobretudo, com aqueles dois ou três que realmente se importam com a vida e, por isto, com as aulas). O buraco da questão educacional é bem mais embaixo.

1630. Se você não molha seu pão com manteiga no café, não sabe o que é bom na vida.

1631. Um escritor velhinho acaba de dar seu último suspiro no hospital. Um acidente matou uma família inteira neste instante. Uma bala perdida acertou agora um bebezinho de dois meses. Um ônibus lotado de turistas caiu há pouco dum penhasco. São as notícias do momento no jornal. A morte está ceifando pequenos e grandes por toda a parte. Ela não pára, ela faz hora-extra, ela mastiga a humanidade. E você está aí, inconsequente, vivendo a vida loucamente como se não tivesse que prestar contas dela a Deus…

1632. Um conselho que pode te ajudar muito na vida: compre um caderno grande e diariamente tente se descrever. Pontos fortes e fracos, traços positivos e negativos, virtudes e hábitos e vícios, etc. Uma anamnese espiritual. Um diagnóstico no qual você é médico e paciente. Seja sincero ao máximo, cru e até cruel. Fique nu e, mais que com os próprios olhos, registre isso no espelho da consciência refletida no papel através da caneta. Todo o dia, se note e depois anote. Todo o dia, se descreva e depois escreva. Para cada questão narre também minuciosamente (calculando racionalmente suas possibilidades reais) uma solução, um caminho pedagógico a tomar. Você é nesta vida seu maior desafio. Você é escultor de si mesmo. Começar a por as coisas na ponta do lápis, preto no branco, é um bom começo. Compre um caderno e seja você mesmo o escritor inspirado e o crítico ferino desta sua obra magna: você. Você saberá mais sobre si e, então, muito mais sobre como agir retamente neste mundo tenebroso sem abdicar da sua alma. Compre um caderno. Trabalhando nele, você trabalhará em si mesmo.

1633. Outro desastre. Mais mortes e lágrimas. Outra comoção pública que vai passar e logo será esquecida. Brasileiro: povo passional na hora do pranto e do ranger de dentes, mas de memória curta na hora de mudar o que precisa ser mudado. Que este desastre não seja em vão, como foi o de Mariana; que o ocorrido agora pouco em Brumadinho não seja em vão… E que Deus receba os mortos e console os vivos. [25.1.19]

1634. Nunca seja um maria-vai-com-as-outras. Se tiver que discordar e enfrentar, discorde e enfrente. Guarde sua consciência contra tudo e contra todos se necessário, mas não seja bunda-mole.

1635. No mesmo dia a mocinha reclama da Educação no país e passa a tarde discutindo no Facebook sobre não-sei-o-quê do Big Brother Brasil. Eu já vi padre na churrascaria em plena Sexta-Feira Santa e já vi professora de Língua Portuguesa comendo meia dúzia de plurais numa redação, mas tá pra nascer gente mais hipócrita que esses adolescentes ideologicamente engajados que poluem o feed aqui desta redinha socialzinha.

1636. A covardia é o mais detestável defeito que pode haver num homem.

1637. Uma moça me pediu, in box, para falar sobre a artificialidade dos relacionamentos neste nosso mundinho pós-moderno. Creio que um trecho da resposta que dei cabe ser publicada aqui: — Não entrar no “piloto automático” é nosso primeiro dever quando estamos tomando o controle do nosso eu e, por isto, tratando de nos auto-conhecer. Não só estar consciente, então, mas querer cada palavra, cada movimento, cada gesto e fazer com que eles sejam exteriormente coerentes e adequados ao que decidimos interiormente. Quanta gente conversa por gatilhos, dá risada por gatilhos, existe por gatilhos — ações e reações cíclicas, causas e efeitos sistemáticos, que vão e que voltam sob os disparos de padrões cognitivos insensíveis à realidade. Primeiro você se força a rir, por “educação”, da piada sem graça; depois, habituado à falsidade, você ri de qualquer coisa quando na sua mente pisca o alerta “é hora de rir!”. Você começa com pequenas doses de inadequação (reações não geradas pelo julgamento crítico do ambiente que está te afetando, mas por uma vaga e dispersa informação que diz “vou poupar esforço e… para não me gastar ou desgastar, direi assim, me movimentarei assim, agirei assim”. Uma estrutura robótica, em verdade. Equações de carne e osso. Marido e mulher que passam anos no piloto automático, p.ex. Tudo vira rotina, porquê nada do dito e do feito é genuíno, mas puramente habitual num looping de repetições que isolam as pessoas umas das outras e que ainda mais as afastam no plano dos pensamentos e sentimentos, vez que a realidade interna não se manifesta e o relacionamento em muito pouco difere do relacionamento que o hamster mantém mecanicamente com sua roda. Aliás, perde-se a organicidade da consciência para funcionar como um software por si mesmo programado. Mas às vezes, de repente não mais que de repente, alguém retoma um pouco de consciência sobre a própria vida e foge, e deixa tudo, e… comete alguma barbaridade! Não entrar no piloto automático é reviver em si a imagem e semelhança de Deus. É por isto, e só por isto, que o santo é o homem mais livre. Ele não é um joão-bobo ou um boneco biruta de posto “levado em roda por todo o vento” (Efésios 4:14). Ele é em si mesmo seguro de ser quem é — de falar e calar como quiser, de agir e reagir como quiser, de se movimentar dentro e fora como quiser. No início, é um esforço hercúleo prestar atenção no próprio estado de espírito em todos os “tim-tim por tim-tim” da nossa peregrinação ordinária e extraordinária sobre a terra, mas, uma vez consciente, a gente entende que tal compensa qualquer ônus humano, sobretudo o de parecer “sincero demais” aos olhos dos outros…

1638. Por que alguém se envergonharia do Evangelho, da própria fé? Por que alguém esconderia seu Deus dos seus amigos, colegas e conhecidos? Você acredita que as crenças deles são superiores à Verdade revelada e que as Boas Novas são menores que suas ideologias de direita, de centro e de esquerda? Por que você discute o imante partidário das utopias terrenas e nunca lhes diz nada acerca da realidade do Céu? Por que você fala do Bolsonaro, do Amôedo e do Lula mas não fala de Cristo? O papo de boteco, variando de futebol a sexo, vale menos que o sermão da igreja falando de filhos e amor? Horóscopo do João Bidú, poker, fofoca de bairro e a última reportagem do Jornal Nacional podem ser tema de papo mas o Nazareno não? Porque você se envergonha dAquele que criou você? Por que?

1639. Em quais condições você pretende apresentar seu coração para seu futuro cônjuge? Todo marcado e amassado pelos contatinhos de dentro e de fora do WhatsApp? Com as artérias espirituais entupidas por sebo luxurioso, com feridas mal cicatrizadas e desejos semi-esquecidos, com traumas inconscientes, projeções e neuroses numa volição doente? Você vai expor sua mulher às risadinhas irônicas da multidão de meninas que já pegou a torto e à direita? Você vai expor seu marido à gargalhada sínica dos galinheiros onde cacarejou? Como você tem guardado seu coração? Ele é uma peça de açougue que qualquer mão pode agarrar e canibalisticamente comer, digerir e defecar? Ele é um órgão meramente fisiológico que cede aos feromônios do momento? No altar de Javé ou diante do juiz de paz: procure, um dia, apresentar não apenas seus votos para um futuro puro e amoroso, mas também seus marcos de um passado e de um presente igualmente puros e amorosos.

1640. Sem motivação ninguém vai para frente. Há muita gente com potencial para mover o mundo que está apodrecendo o cérebro num canto qualquer embolorado da existência apenas porquê não tem quem sente do seu lado e diga um simples “você quer ajuda?” Olhe para quem está ao seu redor. Preste atenção e vai perceber que alguém precisa que você vá lá e desperte o gênio que está anestesiado pelas bobagens da rotina. Motive quem pode ser grande, quem pode ser santo, quem pode ser maior e melhor. Você estará disparando um efeito dominó de graça e redenção que fará o mundo melhor. Se necessário dê uns gritos, uns chacoalhões e ajude alguém a ser gente.

1641. Deseje ardentemente o Céu e a terra te será mais fácil.

1642. Entre o fácil e o difícil, escolha sempre o difícil. Quase nunca o fácil presta. A fruta mais polpuda e saborosa está no último galho pelo influxo da natureza, o ar mais puro está no pico mais elevado, o amor eterno para além do altar está na tensão equilibrada dos desejos conflitantes, o poema mais precioso está nos versos mais doídos no espírito e na métrica, o prato mais saboroso está no cozinhar lento e paciente, a jóia mais bela é a mais filigranada, o caráter mais honesto sangra renúncias. Tudo o que tem valor é fruto de processos de trabalho árduo, constante e decidido. Isto vale à pena. O resto, não. Descarte as facilidades: banana de feira, ar de boate, ficada de balada, música de conveniência de posto, miojo e mclanche feliz, bijuteria de camelot, aparência de virtude. Regra de vida!

1643. É grande a tentação de fazer o mal em benefício do bem. O diabo quando não nos faz cometer o mal pelo mal, enfim, agindo em função mesmo da perversidade, nos quer fazer pecar nos dando bons argumentos para pecar: “conte esta mentirinha para evitar uma briga”, p.ex. Um pecadinho como meio será redimido pelo benefício de seu fim virtuoso, sussurra o tinhoso; ele, que é maquiavélico desde a fundação do mundo. Não caia nesta artimanha aparentemente inofensiva, cheia de boas intenções, de cometer um mal menor para obter um bem maior. Isto não existe.

1644. Abandone as ilusões. Não insista em regar sementes (que você sabe que não vão brotar) só porquê alguém lhe disse que eram sementes das rosas com as quais você “sempre sonhou”. O perfume da ilusão está só aí na sua cabeça; não existe no seu olfato. Não minta para si mesmo. Larga mão de ser bobo: estude a terra, aprenda jardinagem e plante você mesmo o roseiral — com razão e método. Abandone as ilusões antes que você se contente com qualquer espinho machucador só porquê ele é parte da rosa…

1645. Procure resquícios de céu nos olhos de alguém. Quando você neles encontrar centelhas de estrelas, fagulhas de luz eterna, você terá encontrado amor. Não importa a escuridão do mundo. Não importa se as trevas caem densas sobre a terra. Você então sempre terá um par de lâmpadas para te acompanhar em tempestades e desertos. Procure por olhos que fuljam como o sol mas sem queimar, que brilhem como labaredas mas sem machucar, que iluminem ao máximo mas sem cegar. Procure e você encontrará amor.

1646. Se você não tiver em mente que um dia vai morrer, você não vai viver como deve.

1647. De Cristo, a gente pode dizer: virá, eu sei que Ele virá!

1648. Quem troca tudo o que há de grande e fecundo na vida (porquê é difícil) por coisas pequenas e estéreis (porquê são fáceis) está fadado apenas a comer, dormir, fazer sexo e cagar como um animal.

1649. O dia que você encontrar uma mulher em quem possa acreditar e confiar como em si mesmo, agarre-a e nunca mais solte a menina. Coisa difícil. Mas coisa preciosa…

1650. Mantenho a opinião de sempre: governo não deve gastar um centavo com Carnaval, Marcha Para Jesus, Festa do Peão, etc. Nenhum “divertimento” não formativo deve ser alvo de política pública. É dinheiro de imposto que vai para o ralo inútil e imoralmente.

1651. Um pecadão cometido por um iníquo praticamente em nada altera a vida e a rotina dele. Mas um pecadinho de nada muda praticamente tudo na vida dum santo. É como se uma bomba atômica caísse e, então, fragmentasse e desorganizasse tudo. É um desnorteamento e uma desorientação totais. Por que? Porquê o pecador é um homem de partes, e elas funcionam quase que autonomamente; logo, mexer numa parte é só mexer nela — todo o resto continua a funcionar por si, sem maiores sobressaltos e problemas. O santo, porém, é um homem unificado, integral, uno; então, mexer numa parte é mexer no todo — e o todo desaba porquê tudo está nele complexamente ligado e finamente ajustado; e desabando, afeta negativamente a rotina e a consciência dela de cabo a rabo.

1652. Olhe bem no fundo dos olhos das pessoas. Por mais que elas mintam pela boca, você vai fazê-las tremer, vai deixá-las nuas e vai chegar à verdade.

1653. A mãe que divide a pouca comida que resta entre os filhos e vai dormir em jejum é santa. O andarilho que se descobre no inverno para aquecer uma ninhada de cachorrinhos é santo. O político que quer se eleger à custa de cestas-básicas para os pobres é maldito. A empresária que sonega centavos à caixinha natalina do porteiro é maldita. A liberalidade amorosa, a generosidade que tira de si a segurança e retira de si o conforto, é um sinal evidente de santidade. Mais do que nunca estou certo duma coisa: quanto mais se tem, menos se dá; quanto menos se tem, mais se compartilha.

1654. Você pode não entender latim, náuatle, grego, sânscrito, tibetano e aramaico. Mas ouvir um hino numa língua desconhecida é um exercício de mistério. A gente sabe que aquilo ali, aquilo que ouvimos, é um cântico. Sabemos que ali temos um amor louvando o Amor. Mas se por um lado a literalidade dos significados imediatos nos falta, sobra na consciência espiritual a mediação da verdade última das palavras com sua música, do idioma desconhecido numa música algo conhecida (porquê as notas ricocheteiam na alma na mesma fluência cognitiva que une alemães a zulus, mongóis a judeus, tupis a belgas): é belo, é bom, é divino, é beleza, é bondade, é sobre Deus.

1655. Cristão que vive como se o diabo não existisse é como ateu que vive como se Deus não existisse. Abre o olho!

1656. Há na vida duas variedades de dor: a dor que só dói e a dor que modifica. Você estará salvo quando não sentir apenas dor, mas quando aprender com ela.

1657. Uma vida de serviço a Deus e ao próximo. Não há nada mais belo e elevado.

1658. Esta geração de homens é deplorável de tão covarde. Nunca vi tantos bundas-moles borrando as cuecas diante das mínimas adversidades. Incapazes de defender seus lares, suas igrejas, suas próprias vidas. Incapazes de honrar suas famílias, seu Deus e… sua honra. Incapazes de erguer a voz em defesa do justo, do certo, do nobre. Incapazes de fazer frente aos maus, incapazes de deter os males, incapazes de serem bons ativamente contra o mal. Incapazes. Não são audazes, não são valentes, não são destemidos: são maricas, são assustados, são tímidos. Vocês são uns bostas, escondendo-se debaixo da cama enquanto o mundo sucumbe. Vocês são frouxos e medrosos, não dando a cara à tapa e a soco por medo de perderem comodidades tão infantis quanto infernais. E são “cristãos”? Pior, muito pior! Nós não fomos chamados para viver como os outros homens vivem, dispersos entre futilidades e confortos vãos: nós somos convocados à luta, à guerra, à peleja por uma causa eterna, por uma bandeira celeste que é desconhecida na terra. Onde está sua varonilidade? Onde está seu valor e sua espada? Onde está seu coração e seu caminho? Onde está seu espírito e seu sonho? Onde está sua hombridade? Saibam disto: vocês não são homens!

1659. Amor que não faz querer morder como se quer morder a bochecha dos nenéns não é amor.

1660. Ingenuidade é uma coisa bonita. Mas excesso de ingenuidade ou é retardo mental ou é velhacaria do mais alto nível. Tomem cuidado com os “inocentes patológicos”. Se eles não vêem nada, vêem muito; e se vêem muito, eles cegam muito os outros.

1661. Excesso de redes sociais = falta de redes neurais. Não sei se você já percebeu, mas quando se gasta muito tempo com este tipo de “comunicação”, se gasta muito tempo disperso: horas fracionadas entre mil coisas difusas, de modo que o cérebro não se concentra em nenhuma delas por tempo suficiente para digerir a própria informação por completo (que não é apreendida, então). Você emburrece porquê fica incapaz de focar sua atenção; e atenção é a pedra-de-esquina da memória, que é o alicerce do conhecimento. De novo: você emburrece.

1662. Os mais perigosos são os mais covardes. Quanto menos dão a cara, mais apunhalam pelas costas.

1663. Dê o seu melhor. Faça o melhor possível. O melhor feijão cozido. O melhor poema escrito. A melhor troca de pneu. A melhor música ensaiada. O melhor: o superior, o minucioso, o detalhista, não sendo perfeito pela impossibilidade intrínseca mas almejando à perfeição pelo esmero e pelo cuidado em fazer o melhor. Seja excelente, ainda que, como diziam os romanos, “ad augusta per angusta” | “o elevado através da angústia”. Seja melhor e, com humildade, tente ser o melhor em tudo o que fizer. Não por você, mas para honrar e glorificar a Deus com seu empenho, com seu zelo, com sua ação no mundo que Ele criou justamente para que você fosse imagem e semelhança dEle. Dê o seu melhor e você será melhor. E então seu tempero no paladar, seus versos no coração, seu automóvel na estrada e seu canto nos ouvidos serão recebidos no Céu como pura adoração!

1664. Se você sente que esta aqui não é a sua época e que deveria ter nascido em outra era, em tempos mais “antigos”, só lhe digo uma coisa: é sua missão trazer aquilo que havia de bom por lá para cá, para hoje. Saudosismo daquilo que nunca se viveu mas se sabe bom implica na missão do resgate, da restauração, da substituição contra aquilo que no contemporâneo é mau. Não se trata de reacionarismo ou de culto ao passado, mas de retirar lá dos escombros do pretérito as colunas que podem sustentar o futuro a partir do agora. Seu modelo de amor está um pouco cristalizado nas canções e trovas do século XIII? Seu paradigma de arte está de alguma forma circunscrito no talhe clássico do Renascimento? Seu arquétipo de vida tem na estética e na ética daquilo que já se foi e já não é o ideal? Trata de cultivar estas reminiscências no seu espírito e, depois, derramá-las sobre aqueles que lhe cercam. Você foi vocacionado para a recuperação de valores nobres, para o levantamento do marco que, no Caminho Antigo, conduz à Eternidade. Não se sinta peixe fora d’água quando são os outros que abdicaram até do aquário e tentam a todo custo nadar nas dunas quentes do deserto pós-moderno. Esta é a sua época!

1665. Nós não entendemos o porquê de muitas coisas nem mesmo quando nós somos formalmente os artífices delas. Misterioso, esquisito, inexplicável, completamente louco aos olhos da razão humana. Nós não compreendemos o motivo profundo das ocorrências até que, poeira baixada, nós olhamos para o quadro geral de confusão e vemos, surgindo do caos e da escuridão, a mão de Deus nos obrigando a tomar o rumo dEle, o caminho originalmente traçado para nossa vida. Então, nós abrimos os olhos! Então, a luz ilumina e o óbvio fica patente: o lugar não é este, o momento não é este e nós também não somos isto! O Senhor é soberano sobre tudo e sobre todos: é o autor da nossa existência e o escritor da nossa biografia. Que esta verdade nos console.

1666. Se você olha para si e seus pecados não o deixam desesperado, se preocupe!

1667. Nós precisamos aprender a depender de Deus, não das certezas confortáveis, não das estabilidades, não do bem-estar que torna a alma preguiçosa. Chacoalhões na vida servem para isto: para nos acordar do sono letárgico das comodidades que aprisionam o espírito. Isto a que você chama de dificuldade, de sofrimento, de dor e de provação não é um estorvo existencial: é a condição divina para que você tenha a vida de um ser humano completo e livre das bobagens do mundo. Por isto, repito o que há algum tempo tenho dito: Deus vai tirar de você aquilo que te prende às coisas mesquinhas e vis. Você tem que aprender que só Ele basta.

1669. Tenha amigos de verdade, amigos do peito. Eles são poucos, mas são indispensáveis.

1670. Sonhos grandiosos sempre almejam coisas em si muito simples e “pequenas”: família, amor, felicidade. Sonhos pequenos é que desejam coisas complexas e “grandiosas”: dinheiro, fama, poder. Sonhos pequenos nem sonhos são: são ilusões das mais bestas, miragens de nada com nada. Se você sonha com estas coisinhas bonitas e singelas e não está nem aí para estes excessos tão supérfluos quanto inúteis, você está no caminho certo. Continue a sonhar com suas miudezas de carinho e esperança: Deus vai te ajudar a tocar em frente.

1671. Há um céu por conquistar. Melhor tirar um pouquinho os olhos da terra.

1672. Perde-se a alma por ninharias… Ganha o diploma e vira doutor, mas perde a alma. Ganha a fortuna e vira milionário, mas perde a alma. Ganha a eleição e vira deputado, mas perde a alma. Ganha o título e vira campeão, mas perde a alma. Ganha o gozo e vira garanhão, mas perde a alma. Ganha o mundo inteiro, mas perde a alma!

1673. Tudo o que é grandioso se constrói em silêncio. Planeje, organize, trabalhe em silêncio. Depois, espante todo mundo.

1674. Existe uma felicidade que transcende qualquer sofrimento: a certeza do propósito da dor através do amor de Deus.

1675. Acredita que a paternidade submete o homem, mas tudo bem ser babá cervejeiro dos colegas. Acredita que a maternidade escraviza a mulher, mas acha legal ser mãe de pet viciada em Rivotril. Acredita que namorar, noivar e casar é anacronismo patriarcal, mas tem ciúme da amante e chora ouvindo música sertaneja romântica. Vocês estão esquizofrenicanente fodidos.

1676. Não seja mole. Seja duro consigo e o mundo será moleza. Sobreviver arrastado é para animais. Viver é para quem aceita o próprio espírito e escala o universo por suas potencialidades. Não seja molenga. Seja rigoroso consigo e os muros mundanos serão gelatina atravessada pela sua alma.

1677. O número de pessoas nas quais você pode realmente confiar é mínimo de tão minúsculo. Julgue e analise cada um daqueles que lhe cercam. Depois separe-os seletivamente, dando a cada qual o seu lugar e o seu valor. A quem honra, honra. A quem lixo, lixo. Não seja tolo: se o número dos seus “amigos do peito” supera o dos dedos de uma só das suas mãos, há algo de muito errado com o seu julgamento moral.

1679. Três simplórios (mas muito eficazes) conselhos: I. Organize sua mente — saiba como e sob quais condições você pensa e o porquê de pensar assim ou assado. Esteja no controle do seu habitat imaterial e metafísico para que ele desempenhe suas máximas potencialidades; II. Organize sua casa — tenha tudo no lugar, mantenha ordem no seu mundo material mediato e imediato. Esteja no controle do seu ambiente físico para que ele funcione existencialmente, ou seja, não atrapalhe sua mente; III. Organize sua vida — tenha os rumos dela em contínua compreensão, com planos A, B, C e… Z em função dos fins que você almeja. Esteja no controle dos propósitos que exigem harmonia entre físico e metafísico: seu presente e futuro acontecem nesta junção.

1680. Estejam conscientes de que vamos criar filhos ingênuos para um mundo malicioso. Saibam que eles serão bobos diante da esperteza dominante, que eles serão inocentes num meio velhaco, que eles serão ovelhas entre lobos. Mas… ainda assim, nós colocaremos no mundo meninos e meninas que serão homens e mulheres honestos, regrados e de olhos brilhando do berço à sepultura. Teremos filhos que vão sofrer mais do que nós e nossos pais sofreram, porquê o caminho estreito ainda mais se estreitará. Mas a terra ainda terá em si plantada um pouco da carne e do sangue que foram feitos para o Céu.

1681. Quem faz as contas de perdas e ganhos quando deve decidir sobre certo e errado, já se decidiu moralmente pelo errado. Uma pessoa digna sempre decidirá pelo certo, ainda que cortando na própria carne, ainda que sendo tomada por “errada.”

1682. Não há salvação com idolatria. E nós temos as nossas pequenas idolatrias, nossos ídolozinhos. Temos que perdê-los ou vê-los de alguma forma perecendo para não nos apegarmos a estes “amuletos da existência”. Você gasta horas polindo seu carro? Uma batida na esquina vai colocar a lataria dele no lugar devido no seu coração. Você exibe para os outros ou para si mesmo seu novo iPhone? Ele vai cair na piscina ou a tela vai se partir todinha no chão. Você olha em demasia para seu novo relógio? Ele vai ganhar meia dúzia de riscos profundos na caixa. Você se jacta da sua coleção de livros, vinhos ou bibelots? Uma página vai se rasgar e uma gota de café (ou a garrafa toda) vai manchar a obra magna; uma criança vai derrubar as safras intocadas de 1961 e 1989; um cachorro vai pular sobre a cristaleira: todos instrumentos de Deus para lhe afastar daquilo que não é essencial, daquilo que não é a Realidade, daquilo que lhe afasta das coisas do Alto. Você precisa perder seus ídolos e ver o quanto eles são frágeis. E você vai perdê-los todos, um a um.

1683. Moços e moças: não desvirtuem sua fé em nome de carências e choramingos sentimentais.

1684. Quanto mais vagabundo, menos tempo se tem. Só escuto a clássica desculpa “eu não tenho tempo pra nada!” saindo da boca de gente que não está nem aí para nada. Os trabalhadores ou já estão cheios do que fazer ou espremem o tempinho sobressaliente para dar um jeito de acrescentar mais uma tarefa à vida. E eu não estou falando de trabalho-profissão: estou falando da ação humana que produz grandeza, seja ela abstrata como um tratado filosófico ou concreta como um concreto bem batido. O filho-da-mãe vai morrer centenário sem ter produzido sequer uma flatulência mais cheirosa sobre a terra! Isto não é terrível? É terrível. Esta geração está no bico do urubu!

1685. Gaste e desgaste sua vida por algo que vale a pena (casamento e família) para que um dia, quando você estiver velhinho, seja seu filho ou seu neto quem lhe dê a última colherada de canja quente e bem temperada antes de você se encontrar com Deus. Temo por vocês que morrerão solitários no asilo ou no hospital, amparados pela fria obrigação profissional de um cuidador ou de uma enfermeira e pelo gosto ralo da sopa morna e sem sabor do desgosto…

1686. Nunca ocupe um lugar que qualquer outra pessoa poderia ocupar. O chão e o galho são para qualquer ave, mas o pico da montanha pertence à águia. As pombas, os pardais e os abutres dividem presença no mesmo solo em qualquer lugar do planeta. Mas quem sobe e plaina sobre o cimo do Everest? O que é só teu tem a medida exata do teu espírito. O que é para qualquer um, cabe em qualquer um. O homem ordinário em tudo se iguala aos outros. Mas o homem que arrasta após si as gentes diverge, diferencia, desiguala: ele afirma a força da própria personalidade e constrói com Deus o seu lugar no mundo.

1687. Se alguém preparou sua comida gratuitamente, elogie e fique grato. O gosto na sua língua pode não ser o melhor para o paladar, mas a palavra na sua língua tem que ser de gratidão por quem tentou lhe agradar. Não seja imbecil.

1688. Toda mulher, da mais santa à mais iníqua, tem o desejo da aventura no coração. Desejo legítimo. Portanto, trate de ser um pouco Dom Quixote, um tanto 007 e um quanto Indiana Jones. Depois não fique por aí (e por aqui) reclamando se um Frestão, um Dr. No ou um Belloq levar a morena para brincar de tiro-ao-alvo nalgum moinho de vento jamaicano. Dispierta, fierro!

1689. Uma dica: aplique as técnicas lógicas de investigação policial aos fatos importantes da sua vida, sobretudo aos mais nebulosos, aqueles que você ainda não chegou a compreender bem. Componha cenários, agentes, descrições, modelos, enredos, objetos e ambientes. Anote tudo, minuciosamente. Desenhe as hipóteses e construa as teorias. Você vai se surpreender com os indícios, rastros e evidências de outras realidades que estão por detrás dos acontecimentos da sua existência.

1690. O sono não só descansa o corpo: ele purifica e desembaraça nossa consciência. Não é raro que eu acorde de repente tendo os meus “eurekas!” — conclusões certeiras e límpidas sobre as coisas e as pessoas; conclusões que, acordado, talvez eu não atingisse em nível de compreensão, argúcia e racionalidade. Quem realmente se importa com a existência trata dela consigo mesmo até quando ronca. Dorme e pensa. Pensa e acorda. Acorda, repensa e faz. O sono esclarece a psiquê, ilumina a vigília do inconsciente, anima a alma à realidade.

1691. Nada substitui um arroz e um feijão bem feitos. Mais dois ovos fritos e uma banana e a refeição está completa. Comida na roça é comida de verdade, porquê o melhor tempero é a fome que se segue ao trabalho.

1692. Que o teu sim seja o teu sim. Que o teu não seja o teu não. Isto basta.

1693. Tenho uma teoria. Esta: A verdade não é mera descrição formal da realidade. Ela é sua própria força de manutenção. De modo que a mentira, então, não é uma simples oposição abstrata à tal descrição: ela é um enfrentamento energético, adverso e dialético à toda a estrutura do real. Cada vez que uma mentira é contada, uma tensão comprime e desestabiliza a própria realidade, deformando-a temporariamente. Esta tensão, porém, cria uma força de recuo e oposição, como numa mola, cuja potência necessariamente contra-avança em direção à mentira a fim de rearmonizar e reequilibrar a realidade. Esta restabilização é, não raro, explosiva, traumática e, nas palavras do Evangelho, “causa de escândalo.” Por que? Porquê, como dizem os franceses, “Chassez le naturel, il revient au galop” | “Expulsai a natureza, ela voltará à galope.” São Paulo apóstolo resumiu a força restabelecedora da verdade ao ensinar que “nada podemos contra a verdade, senão pela verdade.” A verdade é a super-estrutura do super-ser da realidade. A mentira é uma inadequação artificial que não se encaixa perfeitamente e, por isto, como micro-engrenagem, dura até que o macro-maquinário lhe estoure. Mentir é ofender este organismo cujos anticorpos (os acontecimentos) logo tratarão de esmigalhar a folia e o folião, a fantasia e o fantasiado, a farsa e o farsante. Deus é o pai da verdade. O diabo, o da mentira. Deus criou tudo. O diabo, quer recriar o nada. A força que o cosmos ordenador exerce sobre o nada caótico é a mesma força que a verdade exerce sobre a mentira. Tudo isto para fazer voz uníssona com o caipira e berrar: mentira tem perna curta! Mas não é que ela tenha por si perna curta: é que, Procusto às avessas, vem a verdade e amputa a perna-de-pau até o limite sanguinolento do cotoco…

1694. A inconsistência interna via de regra procura solidez nas aparências externas. A falta interior sempre tenta se compensar no excesso exterior. Daí estes fenômenos de tatuagens intermináveis, corpos excessivamente malhados músculo a músculo, apego desmedido e ostentatório à marcas e grifes, etc. Falta imaterial dentro cria presença material fora. São fenômenos do ego, da auto-estima, em termos psicológicos. Espiritualmente, é idolatria. Essa moça que tatuou o Bolsonaro e os lemas de sua campanha pelo corpo está doente: precisa de divã e altar. Orem por ela ao invés de incentivá-la ou ridicularizá-la (ambas atitudes idiotas).

1695. Outro dia, tentando traduzir do hebraico um manuscrito cabalístico do século VIII, li isto: “Deus tem asas azuis, para que voe invisível no céu.” Agora à tarde, no supermercado, uma menininha de no máximo 6 anos disse pra mãe: “Deus deve pintar as asas de azul para não ser visto.” É por isto que digo: o gênio autêntico, cheio de beleza e realidade, se esconde justamente nos cérebros mais ingênuos.

Trecho do conto “O sábio sem cabala e o místico sem crença”

Então, Simeão fechou os olhos e nos disse baixinho:
— Quando o Céu descer à terra, as roseiras florescerão estrelas e nossas filhas terão caudas de cometa por laços prendendo-lhes o cabelo. À meia-noite a Eternidade farfalhará séculos a olhos vistos, e na mesa da cozinha o bolo de nozes ideal fumegará amor e canela na manhãzinha, entre as estórias da bisavó ressuscitada cozendo com a lenha do Éden uma torta de maçãs já para a próxima Eternidade à tardinha. A terra será terna terra azul e de toda lágrima salgada penderá o fruto mais doce. Todas as montanhas, lagos e campos planos serão bosques de aliança entre o leão e o gato, entre o urso e o rato, entre a raposa e o coelho, entre a Anunciação e a Revelação, entre a Redenção e a Justificação, entre a Salvação e o “Já Basta!”. O mato civilizará o concreto, o aço e o piche; e os paralelepípedos brotarão nas ruas, e o bronze surgirá nos edifícios e o betume selará o mundo contra o dilúvio da entropia. A Páscoa se comemorará no parto dos carneiros e a Natividade na cuca de uvas frescas. Tudo se comerá, por dentro e por fora. As faces serão frondosas, e os olhos sementes de galáxias e mundos a criar, a criar, a criar — e conosco a recriar espelhos banhados não na prata mineral, mas na prata espiritual das orações pelos milênios acumuladas no baú dos querubins.

Então, Simeão abriu os olhos e nos falou gritando:
— A luz não pode passar diretamente de fora para dentro. Ela precisa do vidro da janela para lhe alertar sobre o preço da existência. Como todas as coisas, a luz necessita de um pedágio quando seu destino são as córneas dos homens. A luz física nunca nos chega à alma. Se existe, existe por aqui. Se existe por aqui, desgasta-se por aqui. Apenas as fagulhas da Luz Eterna, centelhas quase apagantes do Além, nós podemos ter livremente no peito; bem onde o espírito encontra a carne e o sangue, bem onde há vida.

Esponjas de sol — XLV

1390. Napoleão foi o último homem que governou a França.

1391. O amor é exclusivo. Exclusividade é seu nome. Aquilo que está disponível a qualquer um a qualquer momento não vale mais que um repolho no Mercadão. Um beijo que se dá a cinco numa mesma noite em que difere da lambida do porco nas bolotas ou da seringa compartilhada entre viciados? O bacanal é inclusivo. Inclusividade é seu nome. O amor privilegia, escolhe, tem os critérios duma campesina procurando solitária trufas brancas nas florestas escuras de Alba. O bacanal generaliza, indetermina, não distingue um cacho de uva dos restos quaisquer que acabam todos juntos no mesmo caldeirão de lavagem.

1392. O negócio é que a gente sabe sempre das coisas. A gente sabe o que é certo e o que é errado. A gente sabe o que sente e o que não sente. A gente conhece com muita consciência quem é quem. A gente distingue o que passa por cada veiinha da alma e, por mais que a gente persista na insistência de cortar caminho e dar a volta, a verdade sempre está ali, sempre, sempre. A gente trata de fugir repetindo a rotina de antes, fazendo as mesmas coisas de antes, se esforçando para que tudo volte a ser como antes. Mas não consegue. Uma vez tocado pelo que é melhor, pelo que é superior, pelo que é real, a gente nunca mais é o mesmo. A gente fica inquieto. Incomodado. Então, ou a gente deixa a velha trilha e trata de andar pelo novo caminho, ou a gente vai ficar, feito bolinha de fliperama e cachorro correndo atrás do próprio rabo, ziguezagueando no mesmo lugar de bobageiras, inconsistência e tédio. E o relógio não pára…

1393. Vagueza não constrói nada; só destrói, como as vagas do mar arrasam com os castelinhos de areia das crianças na praia. Sentimentos vagos vagueiam espalhados pelo ar até desaparecem no éter, até se dissolverem no nada. Nunca comece a ajuntar areia nos potinhos para construir suas muralhas e suas torres sob a promessa das águas de não demolirem sua empreitada: é da natureza do mar ir e vir e, cedo ou tarde, com marolinha ou com maremoto, tudo vai ruir. É trabalho vão de empenho vão. A precisão constrói tudo. É preciso conhecer com certa exatidão o terreno, as ferramentas, o clima, o ambiente. Com as pessoas é assim. Por isto, não crie expectativas.

1394.  O sono é sempre um sintoma de fuga. Ouvi, agora a pouco, duma menina no corredor da faculdade: “Eu não estou ‘triste’, mas quando eu não estou em festa a única coisa que eu quero fazer na vida é dormir.” A falta de prazer em estar acordada sinaliza que a vida consciente incomoda, porquê obriga a um confronto entre o eu real e a personagem. Dormindo, ela quer simplesmente não ter que pensar em si mesma e no mundo que a cerca. Naquele momento, o momento de aconselhar, eu só consegui me lembrar duma frase de Umberto Eco no seu “O Nome da Rosa”, que eu logo tratei de compartilhar: […] porque o sono diurno é como o pecado da carne: quanto mais se tem mais se quer, contudo nos deixa infelizes, satisfeitos e insatisfeitos ao mesmo tempo.” Agora, pelo WhatsApp, ela me disse que chegou em casa e comprou o livro no Amazon. Como são as coisas… Lembrei doutra frase do livro, sobre livros: “Os livros não são feitos para se crer neles, mas para serem submetidos à investigação.” Espero que ela creia em si mesma e se investigue, porquê não há livro mais empolgante que a própria alma.

1395. Personalidades egocêntricas são naturalmente paranóicas: vestem carapuças e criam enredos mentais (para acondicionar os fatos à sua realidade e perspectiva íntima) o tempo todo. Interpretam tudo como indireta. 

1396. Os farelos são as sobras do pão. Os piruás são as sobras da pipoca. A semente, a borra, o pólen e a raspa são as sobras do fruto, do carvão, da flor e da comida. As demoras, os silêncios ocos e os desvios são as sobras da atenção, que são as sobras do carinho, que são as sobras do amor.

1397. Uma nuvem que se parece com um cavalo. Um arranjo nas letras da sopa que diz “luz”. Uma descoloração no piso que é um corpo. Um pão tostado com o rosto de Jesus Cristo. Uma mancha na pele igual a uma balança. Um risco aleatório que risca uma constelação. Pareidolia é o nome deste fenômeno psico-óptico que faz ver coisas onde não há coisas. No mundo dos sentimentos o nome disto é ilusão.

1398. Vencer na vida é viver sem pensar que se tem que vencer na vida.

1399. As coisas esquisitas são às vezes as mais normais, porquê naturais; as coisas que não batem porquê aparentemente não têm nexo ou porquê coincidem demais. Mais estranho e não raramente muito suspeito é o que encaixa em demasiada normalidade, que não foge à regra, que não tem ponto fora da curva, que fecha e bate milimétricamente na conta. Coisas muito certinhas e totalmente inteligíveis são as verdadeiramente “esquisitas”; porquê elas têm um tal rigor nos seus encaixes que não podem ser naturais, e que por isto expressam planejamento e método, rigor e intenção. Se nunca gera dúvida, se nunca cria pulga atrás da orelha, se nunca desestabiliza razão e emoção, aí é o momento de ligar o alerta, de coçar a orelha, de botar lógica e sentimento em ação.

1400. Coisa bonita são olhos marejados. Um pouco secos, um pouco úmidos: mas muito cheios d’alma.

1401. Conhecimento, erudição, cultura, inteligência… Isto não significa nada se o coração não é bom. É gostosa aos meus ouvidos a voz da conversa errada mas docinha das velhinhas rezadeiras. É uma delícia ler os recadinhos mal escritos do seu Zé Jardineiro, octogenário que escreve um “modi que” com caligrafia infantil. É bom sentir o toque da ingenuidade iletrada dos anônimos e dos comuns quando eles são santos. Mas como é vulgar, esnobe e cheia de pretensão demoníaca a pose intelectual destes bostinhas phd’s que juram de pé junto que Deus não existe e que a “Academia” (seja lá que merda abstrata isto seja) e seu conhecimento salvarão o mundo. Dona Léia que faz bolo de fubá pros netos salva o mundo. A Bruna mãe solteira no colegial, que rala em três serviços, salva o mundo. Seu Sebastião mecânico, que faz serão todo dia pra pagar a faculdade de enfermagem da filha, salva o mundo. Salvam quando fazem de cada gesto uma oferta a Deus. Dondocos e dondocas que orgulhosos exibem estes papéis pintados que são os diplomas, e que lhes parecem distintivos de “sangue puro”, povoam o inferno com latim, sinfonias, livros e tudo que é cosmética de alma sem ética. A qualquer suprassumo de Buda iluminado, a questão: seu coração é puro?

1402. O que passa, passará. Entre os retalhos e os restos, o que for puro ficará. Desejos sóbrios e modestos, casinha de madeira sobre a montanha, varanda e cadeira onde fia sua teia a aranha.

1403. Como às vezes a doçura pode conviver com a iniquidade e o espírito de justiça com a preguiça, num mesmo ser? Como a beleza mais cândida pode, num mistério de imersão e submersão da personalidade, se alternar tão facilmente com a malícia do pecado? Que criatura tem em si os traços da ingenuidade das crianças e, ao mesmo tempo, revela a perversão dum anjo caído? Esta situação não pode durar muito, porquê ninguém está igualmente cindido, ninguém está geometricamente dividido numa oposição maniqueísta de forças igualmente poderosas. Pessoa alguma é Yin-Yang em matéria de bem e mal. O bem sempre está vendendo, mesmo que às escuras num poucochinho de luz. Estas individualidades duais, que parecem concentrar na alma as tensões de céu e inferno, os vícios e as virtudes daqui e dalém, certamente serão salvas por Deus; e então o doce mitigará o amargo, e a correção dará cabo do ócio.

1404. Você pode se empanturrar com as migalhas de todos os pães de todas as procedências possíveis: ao fim terá comido toneladas de trigo assado, mas nunca seu paladar terá provado o sabor de um pão, do pão. Você pode se encher com as gotas de todos os vinhos de todas as origens existentes: ao cabo terá bebido milhares de litros de uva fermentada, mas nunca seu paladar terá provado o gosto de um vinho, do vinho. É esta a diferença entre devassidão e amor.

1405. Se o Céu se parecer com lasanha, vinho e bolo de abacaxi, já me dou por satisfeito.

1406. Não desejo muita coisa na vida. Mas, poucas: casar amando quem me ame, ter meia dúzia de filhos e escrever um livro tão bom que daqui cem anos pelo menos uma pessoa tenha ele na cabeceira e lhe sirva de consolo devido à beleza das palavras. Na geração dos nossos avós isto seria mais ou menos fácil. Na nossa está difícil pra caramba. Hoje, é tremendamente mais fácil conquistar essa tal de “muita coisa”: dinheiro, sexo e luxo com seu preço de ambição, luxúria e ganância. Difícil é só desejar pagar as contas e não dever nada a ninguém, amar uma só mulher até a última batidinha oca do coração idoso e só viver com os olhos grudados no céu esperando um dia pisar naquelas ruas de ouro. Está tudo virado, de pernas pro ar e do avesso, mas a gente não pode deixar de querer estas coisinhas poucas mas tão boas, tão boas, que quando dão de bater cá no coração enchem ele duma felicidade e duma esperança… O pouco que a gente quer é mais complicado que o muito que o mundo quer. Mas, entre tantas complicações, a gente pode repetir a promessa do Senhor: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (João 16:33)

1407. Dois elementos que combinam muito bem com pão: mel e vinho. Sabor primordial, antigo com os favos de Canaã e as vinhas de Tróia; atual como o pão de minha avó…

1408. A liberdade de escolher como quiser escolher, de agir como quiser agir, de estar consciente das próprias possibilidades e potenciais diante da vida, é dos sentimentos mais prazerosos que um homem pode ter. Não imagino maior tristeza do que estar reduzido a um nada e da existência só reter aquilo que ela mesma, por força das circunstâncias, quiser jogar ao chão como esmola. A liberdade de escolher. A liberdade de agir. A liberdade de ser: de ser efetivamente homem.

1409. Primeiro Deus. Depois, o resto.

1410. Em matéria de sedução, a autenticidade cumpre um papel muito mais decisivo no amor do que a beleza meramente estética. A força duma personalidade pura seduz bem para além dos feromônios.

1411. Primeiro, você cuida de quem está por perto desde o seu parto: sua mãe e seu pai. Depois, você cuida de quem Deus uniu à sua carne tanto quanto se tivesse nascido contigo: sua esposa. Após, você cuida de quem você gerou com sua esposa: seus filhos. Então, você cuida de todos os outros filhos de Deus. Por fim, você cuida de você. Cuidado é amor e amor tem hierarquia.

1402. Nada mais atraente que estas mulheres de personalidade campesina, que carregam em si o ar fresco dos bosques de outono, o ar espiritual das pedras e dos musgos sobre as pedras. O clima da montanha. Elas têm qualquer coisa de céltico, das brumas das sagas arturianas, um não sei o quê de bucólico feito aqueles castelos das terras altas escocesas: olhar de tapeçaria normanda, cabelo de cobre viking ainda que não avermelhado, pele do pêlo das raposas mais ágeis e personalidade de fada metade anjo metade feiticeira. São medusas sem pecado, sem serpentário psíquico, de virtude elevada como os carvalhos da Noruega. A aurora cinza e viva. Nada mais atraente do que elas, que parecem ter em volta de si um jardim invisível, fechado e romântico com suas heras e eras, e cuja entrada é tão cara quanto um bilhete para o Paraíso.

1403. Tem mulher que não faz idéia do quanto é bonita.

1404. O comportamento revela o caráter.

1405. Você pode controlar sua vida ou pode ser um joguete nas mãos do acaso. Você pode pesar a própria voz ou ser um ventríloquo sem alma. Você pode conduzir seus sentimentos ou ser arrastado por suas emoções. Você pode escolher comer seu prato preferido ou por educação fingir que gostou do jiló cozido. Você pode mudar a rota drasticamente e ser feliz ou pode manter a rotina e empurrar o mais-ou-menos de sempre com a barriga. Você pode amar por amor ou se auto-enganar por carência. Você pode trabalhar no seu caráter até que ele lhe permita ser melhor ou pode ir pro túmulo cantando “eu nasci assim, eu cresci assim”. Você pode ser você mesmo ou pode negar-se a si mesmo para se enturmar. Você pode e pode. O “ou” é a chave. É a possibilidade. É a alternativa. Você está disposto a escolher? Sua grandeza depende disto… 

1406.  As pessoas são melhores do que imaginamos.

1407. As impossibilidades são um fato da vida. É necessário aceitar isso. Se não dá, não dá. Fim. Isto é sabedoria e evita sofrimento à toa.

1408. Quando Deus quer alguém só para si, a vida da pessoa dará errado em quase tudo, senão em tudo mesmo, enquanto ela não se alinhar à vontade divina. E mais: qualquer pequeno desvio, qualquer pecadilho, terá na sua vida um efeito estrondosamente potencializado e maiormente desproporcional. Sempre será como se uma gotícula de água da carne movimentasse caóticamente todos os oceanos do espírito. Quando Deus quer alguém só para si, tudo se desorganiza para se reorganizar: porquê Ele nos molda novamente como se a mordida na “maçã” não houvesse acontecido e como se a primeira olaria não tivesse formado Adão: nós voltamos a ser sem forma e vazios. Sabe aquelas cirurgias em que o paciente, mesmo sedado, passa consciente de tudo? É isto. Sua vida será um efeito-dominó de insucessos, desacertos, buracos, quebras e frustrações enquanto você não se render à Providência.

1409. Amor é sobre começar roubando batata frita do prato um do outro na juventude e na velhice terminar no hospital dando sopinha na boca até que se cumpra o “até que a morte os separe.”

1410. Você nunca estará tão sensível quando estiver, de uma forma ou de outra, amando. Tudo é notado. Cada movimento, cada gesto, cada ação do corpo, cada inflexão de voz. Tudo o que for sútil será aumentado à dimensão duma explosão. Tudo o que for quase impalpável se tornará gigantesco e concreto. Toda frase é uma erupção vulcânica. Todo passo é um terremoto. Qualquer coisinha é a coisa mais importante naquele instante em que o momento pára e suspende o tempo. Tudo é notado em “câmera lenta”: um movimento rápido de olhos é um vídeo extenso quando está acontecendo, uma modulação do tom é uma gravação demorada quando está acontecendo. Extrema sensibilidade: um nadinha pode ser encarado como rudeza ou gentileza. Mas é uma sensibilidade que tudo interpreta e reinterpreta e que, por isto, muito erra e muito acerta.

1411. Ferir. Nós nos ferimos o tempo todo. Ferimentos de bem e de mal, de ódio e de amor, de querer muito, de desquerer um pouquinho, de malquerer além da conta. É a trágica sina humana. É a condição máxima da nossa humanidade, débil e imperfeita. Fazer o que? Todos nós nos feriremos mais dia e menos dia, amanhã ou daqui a pouco. O que importa saber é como ficarão as cicatrizes. Nós seremos parte da cura e, curando o mal que fizemos, como a marca se tornará memória e o sinal reminiscência? Por mais que firamos e sejamos feridos, há sempre a possibilidade de cauterizar a lesão com amor, misericórdia e bondade. Há sempre a possibilidade de acariciar a ferida e, no exato lugar que um dia foi só dor, aplicar umas boas cócegas!

1412. Sê feliz se Deus te encontra à beirada dum caixão, no desgosto duma lágrima, numa injúria dolorosa. Sê feliz se Deus se abeira de tua alma quando ela se afoga, quando o mundo a esgana, quando a língua está seca e incapaz de dar-te voz sequer para o lamento. Sê feliz se Deus constrange teu espírito e fere teu corpo. Há nestes sofrimentos tanta Graça, que poria em sorrisos todos os querubins pelos séculos dos séculos!

1413. A ministra Damares Alves disse que viu Jesus na goiabeira. Estão rindo dela. Pois eu tenho visto o Senhor em mangueiras, laranjeiras, pitangueiras, jabuticabeiras e em outras muitas eiras desde moleque. No gosto e em pareidolias eventuais, na criação refletindo o Criador. Mas, mais do que isto, eu tenho visto Jesus no trigal e no vinhedo que mensalmente surgem do nada no altar da minha igrejinha. Podem rir de mim também. Eu sei que Ele sorri e gargalha comigo e com a ministra! Eu sei que uma lasquinha da Cruz era da madeira cheirosa da goiabeira do quintal daquela menininha abusada, estuprada, violentada… Eu sei que Jesus, que mandou Zaqueu descer do plátano, também subiu naquela goiabeira. Jesus, por quem tudo se fez, também deve gostar de goiaba!

1414. Uma certeza é possível ter, sobre todas as coisas: nada é à toa.

1415. A vida é muito boa. Não perca ela nas esquinas do mundo. O planeta é grande, mas é pequeno se você decidir percorrê-lo: há muitas terras, comidas, povos, línguas, livros e imensidões entre um pólo e outro para se conhecer e absorver nos anos de nossa existência. Não se restrinja aos buracos de vácuo do seu mundinho de estritas bobagens. A vida é muito boa, mas é muito curta. Não perca ela nas batidas do relógio do mundo. Adiante! Avante! O horizonte convida à grandeza, à aventura, à felicidade de Deus. Não desperdice sua vida.

1416. Nosso coração não pode ser fragmentado e disperso. Há muitos sentimentos que começam e não são concluídos ou levados adiante: eles ficam lá, dormentes, pairando suspensos sobre e sob nossa consciência. Uma atraçãozinha aqui que foi parcialmente suplantada por outra ali. Uma má-impressão que continua influenciando imperceptivelmente nosso julgamento. Emoções que afloraram mais estrondosamente ou silenciosamente e que estão apenas silenciadas na inatividade de certos movimentos internos. Afetos que relampejam aqui e acolá e não são resolvidos — continuados ou descontinuados. O perigo de não resolvermos nossas questões sentimentais é que, deixando-as nesse vagar a esmo, elas um dia podem retornar fisgando novamente nossa atenção e volição; e aí é que a “porca torce o rabo”! Não deixar que contradições e oposições internas não oficialmente encerradas através do nosso intelecto permaneçam batucando no oculto e no escondido da nossa psiquê é se resguardar de buracos e abismos futuros.

1417. A face visível do caráter é o comportamento. Se não presta por dentro, não presta por fora.

1418. CONCLUSÕES DO DIA:

I. Poucas ações são tão abjetas quanto atirar a pedra e esconder a mão;

II. Os iníquos se ofendem ocultamente, mas entre si dissimulam simpatia;

III. Os porcos devem ser deixados no chiqueiro: eles gostam de lavagem.        

Anota. [18.12.18]

Trecho do conto “Com um dos teus olhares”

Ter algum brilho nos olhos não é distintivo de pureza no olhar. Um par de bolinhas de gude refletidas por uma lâmpada de mil watts também brilha. Os olhos das hienas brilham quando circundam as fogueiras dos acampamentos bérberes. Muitos círculos, de carne e de pedra, brilham vulgarmente quando qualquer tocha lhes toca a superfície polida. À distância, os fótons duma bituca de cigarro no que diferem duma brasinha tirada do altar do próprio Deus? Não se trata de medir os lúmens das coisas, porquê frequentemente a força da luminosidade é visualmente a mesma e a óptica não distingue um farolete paraguaio do Farol de Alexandria. Mas só pode reconhecer que por detrás de dois globos oculares brilham dois pequenos fragmentos do “Sol da Justiça” quem em si também os detém ocultos na retina. O brilho da pureza é a pureza do brilho: ele está no misterioso lugar onde a córnea saúda a alma e a íris beija o espírito, onde bem no extremo fim do túnel da pupila rebrilha a glória da Luz Inacessível.

Esponjas de sol — XLIV

  1. Cachorro algum gosta de osso. O bicho adora é a carne que estava grudada no osso. Ele cheira, lambe e rói não porquê seu paladar tenha predileção por cálcio duro e poroso. Ele quer é a carne tenra e suculenta que envolvia aquele canudo branco. Ele não gosta da caveira do boi. Ele gosta e quer, quando passa desesperado a língua e os dentes no osso, o tecido vermelho e a gordura amarela. Tenho para mim que a devassidão sexual de muita gente nada é senão um farejar desesperado dos afetos: querem amor, mas no açougue das baladas só encontram os restos cadavéricos da nutrição; querem carinho, mas no abatedouro das festinhas só encontram as poucas calorias duma refeição famélica. Mudar os “hábitos alimentares” é preciso!
  2. Teste de fogo: se você não tem assunto suficiente para passar no mínimo duas horas seguidas de papo empolgante com seu par, vocês dois não vão ter “gás” para ir muito adiante. Língua que só beija e não diz “las cosas del alma que despiertan rutinas” está condenada a falar merda na primeira mordida. Adão estava todo jururu solitário no Éden não porquê lhe faltasse fêmea para a cópula mamífera, mas porquê não tinha companhia. E a companhia fala, tem que falar, vive de falar, ama de falar. A companhia fala até calada, se esgoela até sem língua. Sem o vai e vem que chega e que volta dum gostoso diálogo tão natural quanto a nudez, tudo termina em mudez.
  3. A vocação do marido deve ser a vocação da mulher e a vocação da mulher deve ser a vocação do marido.
  4. A serpente do Éden sempre foi excelente gastrônoma. Grand maître de cuisine há milênios…
  5. Nunca suponha nada. Acumular suspeitas e raciocínios apriorísticos na tentativa de julgar uma pessoa ou cenário é burrice. A realidade das coisas pode ser, além do comum, muito simples ou muito complexa. O meio termo quanto ao desconhecido não existe: ou é evidente ou não é evidente; e se não é evidente, não o é justamente porquê não entra na escala do normal corriqueiro. E mais: o “e se…” trabalha contra essas duas possibilidades, porquê o simples é de pronto descartado por sua natureza demasiado fácil, e o complexo por sua natureza demasiado difícil. Junte cada detalhe, intuição, indício e rastro ao seu Catálogo Geral de Modos & Comportamentos, mas nunca faça deles o contorno duma solução. Não conclua na base do “parece ser, porquê isto e aquilo” ou do “já foi assim e assado, então…” Nunca suponha nada. É burrice.
  6. O auto-engano é uma modalidade açucarada de masoquismo. Você dá murro na ponta da faca, mas se deslumbra com o brilho da lâmina. Você dá com a cabeça na parede, mas gosta da nova cor do látex. Você se afoga na piscina, mas se encanta com o peixinho dourado estampado no fundo. Ilusão e insistência. Repetição da própria burla. Looping da própria quimera. Toda vez que você se engana, você racha um tiquinho sua consciência, que vai capengando entre o desejo e a realidade até que um dia a realidade, toda concreta, soterre de repente todo o desejo, abstrato, e duma vez por todas te enterre em tristeza, amargura e, não raramente, em depressão.
  7. Deus ama os esquisitos, os diferentões, os heterodoxos, os tipos “figurinha carimbada”. Deus ama os Forrest Gump deste mundão. Doidos às vezes varridos, mas estrambólicamente autênticos. Loucos às vezes de pedra, mas grandiosamente íntegros. Deus ama as personalidades “sui generis” quando puras. Não à toa, Ele escolheu entre os estranhos seus melhores santos e profetas: malucos-beleza gritando vaticínios nas praças, comendo gafanhotos no deserto, caindo no chão diante de visões do além. Tu deveria ficar preocupado caso esteja assim todo perfeitinho no gel, todo engomadinho feito miniatura de mordomo inglês em dia de chá gourmet…
  8. Pornografia não é coisa de homem não. Pelo contrário: depõe ferozmente contra a masculinidade. É coisa de moleque em ebulição, não de homem pronto para o altar e para enfrentar o mundo com mulher e filhos. Erotismo calcado em imagens e fantasiagem mental é faminto tentado aplacar a fome salivando sobre panfleto de supermercado. Homem que é homem cumpre a rota natural do corpo-a-corpo depois do caminho alma-à-alma. Sujeito que se satisfaz na artificialidade neurônio-a-papel e sinapse-a-pixel está condenado à perpétua puberdade. A pornografia embota e aliena o cérebro e, então, retirando do coração toda a ternura da realidade e toda sensibilidade do toque erótico autêntico, faz do seu usuário um viciadão ao estilo “craqueiro orgásmico”. E todo viciado é necessariamente auto-centrado; como tal, incapaz de amar.
  9. Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. E você aí se exasperando feito pavão despenado para chamar a atençãozinha da Beltraneja ou do Ciclopiano… Adão dormia enquanto o Criador lhe providenciava Eva. A obsessão por alguém ou por um estado sentimental nunca lhe trará pessoas e coisas boas: porquê uma idéia-fixa incapacita a razão, corrompe seu julgamento e cega sua visão espiritual. “Durma”, então. Sossegue, espere e não fique em estado de vigília, à espreita e cata de possibilidades em contatinhos ou ansiedades duma falsa escolha tão definitiva quanto a sobrancelha da moça. Durma como Adão dormiu: não precise, não queira obstinadamente, não deseje ardentemente, não foque nesta ou naquela pessoa tão freneticamente. Nada de alarmes. Nada de alertas. Durma, e quando você acordar — revigorado, despreocupado, serenado — Deus já terá arrancado uma costela do seu lado. Chame a atenção do Pai, porquê a atenção dele sempre e sempre é correspondida com afago, carinho e amor que não tem fim. Com Deus a reciprocidade é lei e, assim como ele é Trino, tratará de “imaginar sua semelhança” em você, fazendo de um indivíduo (você, você mesmo!) um trio com mulher e filho(s). Deus existe, é todo-poderoso e lhe ama. Chame a atenção dele.
  10. Há tanta gente que se ama e se odeia ao mesmo tempo que fica impossível dizer que se desgostam. Quem ama, gosta. Quem odeia, também gosta. Gostar é atribuir importância e focar a atenção e a força da consciência no importante; se positiva ou aparentemente negativa (digo aparentemente porquê tenho quase certeza de que o ódio é sempre qualquer sentimento originalmente bom depois não adequadamente “correspondido”), não importa: importância é que importa. O ódio não é cruel, porquê é inflamado — é passional. A indiferença é cruel, porquê é fria — é desumana. Pois, é isto: o extremo oposto do amor é a indiferença.
  11. A verdade não é uma narração descritiva, literária e abstrata das coisas. Ela é uma força absoluta e total, uma força física até. Preste atenção no gestual do mentiroso (o clássico — nem sócio nem psicopata): gagueira, coçadas no nariz e na orelha, garganta seca, olhos voando por todos os lados e se negando a encontrar os teus, pés e mãos inquietos, tom de voz anormal, tronco em postura defensiva, coração acelerado e desritmado, etc. Se o corpo biológico fica assim tão constrangido com a verdade, como não ficará o espírito?! A verdade, a potência da realidade, é tão poderosa que contraria materialmente todo aquele que se lhe opõe. A verdade constrói e estrutura a natureza humana, harmoniza o metafísico interno com o físico externo; a mentira, destrói e desestrutura, quebra a coerência dentro-fora. É como se o barro que Deus moldou feito vaso fosse desmoldado pelo diabo em pinico e, em fase final de degeneração, é como se o barro modelado voltasse aos montes de argila da beirada do rio, à sua condição original — cheio de bolhas de ar, cheio de palha e mato, cheio de pedrisco, indigno do oleiro…
  12. Você é vocacionado a ser você mesmo. Nenhuma vocação é um encontro posterior com uma ou outra versão sua melhorada ou piorada. Vocação é o caminho que você faz hoje em direção ao seu eu eterno que pode ou não ser conquistado amanhã — o seu eu puro e essencial sonhado e planejado por Deus desde antes do ventre de sua mãe, desde antes do espermatozóide fazer a corte ao óvulo. Não se trata de ocupação ou profissão. Sua vocação é o seu específico chamado à integralidade, à completude, à unidade de consciência e personalidade: ao [pre]enchimento da sua estrutura genética com o máximo de espírito capaz de fazer com que você seja o seu máximo em corpo e mente sãs. Sabe aquele mito pseudo-científico que diz pela boca dos tiozões da Barsa e do Google que as pessoas só utilizam 10% do próprio potencial neural? Pois é a mesma coisa quanto à vocação, só que num nível espiritual. Você é vocacionado a ser aquilo que é. Porém… eis o terrível fato: provavelmente muito daquilo que você chama e diz ser você, não é você. É uma caricatura psico-social (uma personagem mais ou menos introjetada) que o mundo, o diabo e a carne produziram em você. Ninguém pode negar-se a si mesmo durante muito tempo: sua vocação, traumática ou serenamente, hora ou outra vai emergir. Resistir à própria vocação é senda de infelicidade e, caso ela seja poderosa, é caminho de transtornos que beiram à loucura. Você é vocacionado a ser você mesmo: seja!
  13. Esconder sua fé dos seus amigos é como estes maridos infiéis que guardam a aliança no bolso quando vêem passar uma gostosa qualquer na rua. Chega um momento no qual a gravidade já não é a falta da aliança (porquê todos sabem que eles são casados), mas a falta completa da marca da aliança: tanto saem à cata de rabos-de-saia pelas esquinas que o sol mal tem tempo de queimar desigualmente a pele do dedo anular. A gravidade já não é que eles não saibam que você crê de alguma forma em Deus (porquê eles sabem que você frequenta a igreja), mas a falta integral das chagas de Cristo no seu caráter de crente: tanto você está igual a todo mundo que ninguém mais — a não ser nominalmente o pesquisador do IBGE — nota a diferença.
  14. O Diabo é o maior psicólogo/psicanalista/psiquiatra que existe. Freud, um bostinha. Jung, um merdinha. Adler, um bestinha. Lacan, um idiotinha. Rank, um nadinha. Quem manja da psiquê humana é o Tinhoso. Mas, de maneira geral: ele conhece apenas o comportamento padrão do Homem, bem como suas variações excepcionais igualmente padronizáveis. Ele só pode ser pego de surpresa (ser sabotado, então) pelo comportamento de um homem caso este se conheça a si mesmo a ponto de quebrar seus próprios movimentos cíclicos de causa-e-efeito. Satã conhece as estruturas mentais e seus gatilhos, sabe como brincar de “efeito dominó” com as ações e reações humanas internas e externas, sabe metodicamente construir e prever cenários a longo prazo, sabe jogar xadrez com nossas emoções e pensamentos, sabe cruzar por paralelismos idéias conscientes com o inconsciente sem que nós percebamos que estamos rodando a roda do hamster e que, lá na frente, a falsa e nenhum pouco casuística Roda da Fortuna acabará nos esmagando no moinho do pecado. O Diabo não brinca em serviço. Ele fez a anamnese de Adão e Eva e ainda agora põe no divã o seu Zé Pedreiro, a Duquesa de Kent, o professor Yang Hui, a atriz pornô Abella Apple, você, eu e todos os outros 7 bilhões de almas no planeta. Ele anota seus jeitos e trejeitos, suas caras e taras, seus movimentos e inércia, seus gostos e desgostos, enfim, ele põe na ponta do lápis tudo o que for possível sobre o seu todo aparente (porquê, por dentro, só tu e Deus). O Diabo quer roubar sua personalidade, matar seu ser, destruir seu eu: ele quer embaçar sua imagem e desfigurar sua semelhança. Enquanto Deus não for seu oleiro, o Demônio vai tratar de, miligrama a miligrana, arrancar de você a argila limpa e pronta para a roda e substituir por barro sujo de beira de brejo sujo… O Diabo é o maior conhecedor da Humanidade depois do Criador. Invejoso, ele quer recriar a espécie segundo seu reflexo e aparência: para fazê-lo, ele deve transtornar o espírito humano, pervertendo-o o máximo possível; ele deve e efetivamente (ontem, hoje e nos amanhãs que restam) o faz. Para isto, pega um homem de cobaia e o trata como seu camundongo de laboratório: condiciona, desconstrói, reconstrói, recondiciona — destrava latências, lança anzóis ópticos e fisga neuróticos, aperta os calos para ouvir os ais, passa Gelol onde convém amainar, sussurra esganando e sugere coagindo, etc, etc, etc. Em resumo, meu conselho: acerte-se com Deus, “conhece-te a ti mesmo” e escolha a santidade pra já! Com o Diabo a cura é a doença, porquê a loucura humana é a sanidade infernal.
  15. Não. Você não tem que ter sempre e só e apenas “papos inteligentes” com quem ama. Nem só de tiradas geniais e frases de efeito que impressionam a audiência (nos inícios da paquera) vive um relacionamento. Namoro/noivado/casamento não é congresso de iniciação científica com carinho e erudição. Tem que falar sobre tudo um pouco porquê a vida é, sobretudo, o pouco que sobra de tudo que encontramos no dia-a-dia da existência: falar sobre a última leitura, sobre como estava diferente o gosto do sorvete de sempre, contar piada sem graça para rir da própria falta de graça, falar “olha lá o super-homem no céu — passou!”, narrar segundo a segundo como foram as últimas 24 horas, falar sobre o jeito esquisito do comportamento de não sei quem no trabalho, sobre o preço do shampoo de babosa e da costela premium, falar “à toa”: falar sobre tantas pequenas, médias e grandes coisas que fazem da rotina comum e normal de todo santo dia a coisa mais extraordinária para o amor: que fazem querer ouvir a voz do outro falando — partilhando o som do próprio eu, compartilhando o próprio eu. O ordinário ordena o prazer. E é a coisa mais gostosa do mundo você contar para ela uma bobagenzinha qualquer do tipo “você não sabe o que aconteceu hoje!” naquele clima confidente de Romeu e Julieta no balcão. Papo não é tanto o tema formal quanto o conteúdo real; e não é tanto o conteúdo real quanto a intenção espiritual. Uma boa conversa diária salva qualquer relacionamento do buraco, o buraco que começa com o furinho do silêncio seco. Sim. Papo inteligente é a gente sendo gentil e… papeando!
  16. Eva envelheceu sob o peso de meia dúzia de séculos. Maria ficou velhinha já aos cinquenta. Nossas avós, quase todas, ainda envelhecem à moda antiga: cabelos brancos variando entre um prata leitoso e um cinza azulado, pele fina e sedosamente enrugada, o corpo e a idade harmonizando-se numa beleza toda digna e capaz de inspirar reverência, autoridade e sabedoria. Envelhecer, passar dos 70 quero dizer, está esquisito hoje em dia para as mulheres. Está também muito esquisito o próprio viço da juventude nelas, que anda retalhando as formas em busca duma beleza algo “equina” (é “cavala”, que fala?): a suavidade das curvas está cada vez mais muscularmente definida e angulosa, a pele adocicada por água e perfume está rebocada de cremes atômicos, os cílios de sombra e luz estão crescendo como bambu e… a beleza com a qual se nasce e cresce está oculta, quietinha e envergonhada pelas modas produzidas (sejamos francos!) por homens que não gostam de mulher. E vocês, musas e prima-donnas da nossa vida, sucumbem aos delírios duma estética anti-feminina! Não se obriguem a padrões cujos patrões não lhes podem tocar com amor erótico. Vaidades: tenham-nas todas, porquê nós em vocês nelas nos deleitamos. Embelezem-se com as matérias e maneiras mais atrativas dos reinos do planeta! Mas… na adequação temporal, para que não se tornem caricaturas. Volto ao princípio, com uma pergunta: como serão as avózinhas daqui duas ou três gerações? Os netos poderão lhes tocar nos rostos e olhar nos olhos com a doçura quase adoração de quem vê na brancura dos cabelos e nos sulcos da pele um poucochinho da imagem de Deus? Não, vocês não têm que ser Donas Bentas de coque, camafeu e cadeira de balanço à espera do réquiem. Ninguém quer isso. Ninguém com os miolos da alma no lugar [talvez, só aqueles doidões reacionários que não sabem nada de vocês porquê não têm vocês]. Só sejam, se quiserem (sempre, se quiserem), filhas da própria cronologia. A beleza da idade é, paradoxalmente, eterna. A beleza do tempo com suas marcas é imortal.
  17. Você chega a ser um homem bom quando, consciente de que o mundo não se importa contigo, você persiste se importando com o mundo. É a mesma angústia que dói no coração de Deus. O mundo é de certo terrível e odioso, mas ainda assim você o ama.
  18. Não tenha pressa. O café às vezes tem que esfriar, o ônibus tem que ser perdido, a camisa não tem que ficar passada, o médico tem que faltar à consulta, as coisas da existência têm que passar para que fique a vida. Não tenha pressa, não se afobe, não fique ansioso. O café quente é para ser dividido, o caminho tem que ser feito num passeio à pé, a camisa não é a roupa mais adequada e a dor no tendão vai passar por si mesma sem que você precise gastar uns trocos além do orçamento. Não tenha pressa. O que vai de nós e se esvai nos outros é porquê tem que ser, às vezes. Se você esquenta a água, põe o pó, coa e serve na caneca e ainda assim esfria, é porquê era para esfriar. Se você acorda no horário, corre cinco quarteirões e chega no ponto vazio, era para perder. Se você passa o linho todo retinho e assentado pelo ferro e ainda assim as rugas se embrenham no tecido, era para enrugar. Se o médico não aparece para o check-up, era para faltar e a dor persistir. Todo acontecimento — atos ou fatos — está eivado de porquês que desconhecemos. Só não tenha pressa, faça sua parte: Deus ajuda quem cedo madruga, mas Ele é quem dá o sono e o galo despertador. Não tenha pressa e labute dentro das suas possibilidades, que o melhor (para sua alma, sobretudo) sempre acontece.
  19. Organize primeiro seu mundo físico. Ponha seu quarto em ordem. Dê jeito na pia. Arrume os livros na estante. Regre-se com horários e datas. Limpe, distribua, catalogue, disponha, estruture, componha, asseie. Elimine o caos. O ritmo e o hábito físico vão vagarosamente se impregnar no seu metafísico: a vontade vai se fortificar, o desejo vai amainar; você espelhará sua conduta corpóreo-material no seu incorpóreo-imaterial. Seus afetos vão se racionalizar, suas paixões e vícios vão recrudescer; sua moleza, sua preguiça, sua vagabundice — sua acídia! — vão se esvaziar até que a fortaleza, o auto-domínio e a consciência assumam o controle.
  20. Não é coisa desejável fazer testes para avaliar o relacionamento, mas… parece-me que o “tiro e queda” seja mesmo a ausência. Se você sumir do mapa, desaparecer do nada, o outro deve ficar desesperado caso realmente se importe contigo, afinal, teoricamente, a rotina dele foi tremendamente alterada com sua falta. Se ele, porém, não mover senão uma ou outra palha e mal esboçar um ou outro “hei, cadê você?” (direto ou indireto), você tem tanto valor quanto um punhado de sal na boca do cavalo.
  21. Nós somos como aqueles bonecos russos, as matrioskas: uma camada superficial, uma cópia inflada e oca mais imperfeita por fora, recolhida dentro de outra e de outra e de outra até que se chega à original, menor mas maciça e refinada no desenho. Perceba como você age e reage no dia-a-dia. Perceba a desconexão entre seu sentimento profundo em relação às coisas e o quanto e como você o transparece. Dos sorrisos amarelos e meramente educados diante duma piada sem graça, que lá no fundo às vezes gera antipatia e até asco, às simulações completas (teatrais, caricaturais, empurradas com a barriga do ego) que quebram a autenticidade da sua personalidade. Entre seu “eu central” e o seu “eu periférico” há um filtro, o filtro do condicionamento psíquico-social. É preciso rompê-lo. É preciso que você não sorria apenas por educação. Não, não é para fazer uma cara feia condizente com seu estado interior objetivo. Tem que sorrir sim. Porém, é necessário que seu estado interior, que sua consciência, admita que subjetivamente quem lhe contou a piada o fez talvez com bom grado e que esta atitude gentil merece um sorriso. Daí, você terá um sentimento genuíno (interno) capaz de gerar uma igual ação genuína sua (externa). O filtro não tem que deixar de filtrar. As camadas do boneco não podem deixar de existir, mas entre uma e outra o que passa por uma tem que fluir necessariamente por todas as outras, feito um fiozinho retilíneo e intangível do seu eu que é, que foi e que será — sendo, sendo e sendo.
  22. Só podem durar as coisas, as pessoas e as situações que surgem imperceptivelmente. Tudo aquilo que é arroubo, que é de repente, que é epifânico: se esvai no ar com a rapidez com que deu as caras. Aquilo que começa de mansinho, na serenidade que avança tateando no espírito, dura muito e quase sempre dura para sempre. Você está lá e, conforme tudo passa, aquilo fica, aquela pessoa fica, aquela situação fica. Você mal viu o começo, mal discerne o ponto de largada: e por isto não verá o fim, e por isto não verá a chegada. O amor tem mesmo que se esgueirar na alma, como um banho dado gota a gota em cada grãozinho de areia do deserto. O amor tem que ser aquela lava telúrica que percorre toda a cama oceânica entre as águas geladas sem muito amainar na temperatura, naquele vagar constante próprio dos poderosos. Quase não se notou, mas está ali no esplendor da própria grandeza, bombeando vida na própria vida. Só dura o que se acrescenta no dia a dia segundo a segundo, o que se aumenta no passo a passo milímetro a milímetro, o que se adiciona de invisível a invisível toque a toque.
  23. Cada qual com sua miséria, com seu calo onde lhe aperta, com seu pecado, com sua falha. Cada um com sua canequinha de mendigo diante do mundo passante. Há qualquer coisa de pedinte em todos nós. Estamos maltrapilhos diante de Deus. A madame veste Dior, o porteiro TorraTorra, o príncipe tem alfaiate próprio, o playboyzinho JohnJohn, a menina pobre sequer etiqueta tem no vestidinho de chita. Farrapos do Éden. Panos de imundície. A mesma mortalha de indigência espiritual a todos veste sem cobrir: ao cabo, estamos todos nus diante do Rei do Universo… Onde está, ó marca, a tua vitória? Onde está, ó grife, o teu aguilhão? Louvado seja o meu Senhor, Jesus de Nazaré, o da túnica inconsútil!
  24. Gente de coração mole, “manteiga derretida”, é coisa linda de se ter do lado. Não, vocês não são bobões chorões não. Vocês são a parte doce da lágrima salgada. Continuem pondo para fora a alminha de vocês, porquê este mundão está carente desta afetividade inocente. Melhor suar emoção pelos poros que bombear gelo no peito. Melhor se comover diante de “coisinhas sem importância” que ter a sensibilidade dum cacto.
  25. A vaidade da moça de sutiãs abertos com seios arfando e com sua boca-bico à Angelina Jolie tirando selfie diante do espelho da boate é maior que a vaidade da moça pudica que desfila toda-toda exibindo sua “modéstia” de grife italiana pelos corredores da igreja? A vaidade do playboyzinho pseudo-fazendeiro tirando racha com a Hilux do papai é maior que a vaidade do pastor todo empoado com sua oratória de locutor do Love Songs, seu terno de duzentas pilas e seu sapato de cromo paraguaio reluzindo à graxa de R$ 1,99? A vaidade, a vaidade das vaidades, não tem nada a ver com o que vai por fora. Tem a ver com aquilo que está lá dentro e vai brotando para fora… O exterior é mero indício do interior. O Evangelho muda o exterior, mas muda primeiro o interior.
  26. Mulher de temperamento difícil é, quase sempre, um grande desafio que vale a pena. Por detrás de toda ferocidade, de toda explosão passional, de toda “violência”, repousa silencioso o fato que geralmente nos escapa: um amor tão desmedido que excede a “linearidade” dos comuns (e chatos) bons sensos. Sabe como elas tratam as crianças de colo, com apertões insistentes, beliscões pontiagudos e com outros aumentativos de substantivos tão substanciais quanto bem “físicos”, que chegam às raias das mordidas e da “brutalidade” mais destemperada? É a mesma coisa conosco. E quem se atreverá a negar sua alta natureza amorosa? Claro que estes ímpetos não são para sempre e para todo o tempo, mas aquilo que os move (e porquê os move) é para sempre e para todo o tempo. Mulher de temperamento difícil, uma vez domado e apaziguado com mais amor, é fonte do carinho mais poderoso para um homem bom. É deste amor que Salomão falava quando escreveu que “o amor é mais forte do que a morte.” Por que? Porquê ele é todo vida — vida abundante, vida ardente, vida temperamental, vida difícil…
  27. Compartilhar seus buracos, suas brechas, seus trincos, suas frestas, seus pequenos vácuos, as arestas onde as peças não encaixam. O grande desafio dos relacionamentos: ser capaz de por terra fértil no buraco e ali cultivar um jardim, lapidar granito para a brecha da muralha, encher o trinco da porcelana com ouro como fazem os ceramistas japoneses, arranjar argamassa para a fresta ou expandi-la como uma janela-mirante, retirar da própria oquidão matéria para cobrir o vácuo, recortar a peça que falta para compor este sempre inconcluso quebra-cabeças do coração. Se você não está disposto a isto, cairá no buraco, a flecha lhe acertará, o chá vazará ao primeiro gole, o ladrão roubará o tesouro da torre, o vazio se encherá com o monturo do mundo, peça alguma se encaixará e sequer se chegará a saber qual era o desenho delineado nestes mistérios de incompletude. Cada qual chega diante do outro com suas questões inconclusas e não haverá possibilidade de serem uma só carne enquanto a compatibilidade for meramente anatômica, enquanto o feromônio corporal não se ajustar ao perfume do espírito, enquanto aquilo que entre um e outro existe é o tanto e o quanto da própria solidão despistada com companhia e tempo repetidamente perdidos.
  28. Deus nos faz chorar. Ele nos faz sofrer. Ele nos suscita dores. Deus revolve espinhos em nossa carne, salga nossas feridas, cauteriza a ferro e fogo nossas chagas. E Ele colocará e tirará pessoas do nosso entorno para isto: gente boa e gente má. Ele lhe fará ter a companhia dos santos e dos ímpios a um só e mesmo tempo: e aí, a sua conduta se amoldará pelo bem no mal. Ele lhe fará ser traído pelos injustos para que você se apoie nos justos que desprezou e seja também um justo. Ele lhe fará ser beijado pelos hipócritas para que você valorize o ósculo dos sinceros que abandonou e seja também um sincero. Ele lhe fará comer e vomitar o bolo confeitado pelos exóticos da terra para que você coma com satisfação o pão dos simples e seja também um simples. Deus lhe fará derramar lágrimas salgadas e quentes para que você refresque aquela sua alma outrora doce, agora amargamente abrasada pelo mal. Ele lhe fará gemer. Ele lhe fará berrar ais silenciosos e sonoros. Deus mexerá com seu corpo para remexer seu espírito: de fora para dentro, do exterior para o interior. Ele lhe fará primeiro perder objetos materiais; depois, acontecimentos e pessoas. Ele lhe alijará daquilo que lhe impede de ser santo. São avisos: de início, sussurrando, pequenas perdas; depois, falando, médias perdas; por fim, bradando, grandes perdas. Seu carro lhe movimenta em direção ao vício? O motor fundirá. Seu computador lhe catapulta para o pecado? A placa-mãe estourará. A festa será ocasião para mais iniqüidade? Você não conseguirá ir ou ela não acontecerá; e caso aconteça acabará mal. Seus amigos lhe desencaminham? Você os perderá; de uma forma ou outra, cada um deles será neutralizado. Quem ou aquilo que lhe afastar de Deus será removido, permanente ou provisoriamente, para que Ele substitua a pessoa e a coisa na sua existência e, então, lhe conceda vida real. Deus fechará o cerco com choro, sofrimento e dor. Ele tomará seu falso eu de você para que você seja efetivamente você. Ele baterá severamente no barro sujo para que a argila fique limpa e suave para sua roda de oleiro. A pedagogia divina, principalmente para turrões e teimosos recalcitrantes, é literalmente “flagelo no lombo”. Deus lhe ama e, por isto, como Pai que é, precisa arrancar do marmelo uma boa e rija varinha…
  29. Aprofundar-se numa alma é muito mais difícil do que penetrar um corpo. É por isto que estão todos aí babando carência na mesma proporção em que comem e se mastigam uns aos outros. Todos canibais e vampiros, ainda que incapazes de digerir carne e sangue. Todos se regurgitam, entre vômitos e cuspes que vêm e vão conforme o paladar da líbido baixa — conforme eles se rebaixam. Fertilizar um óvulo é tão fácil quanto estourar um balão, e os chimpanzés adestrados de qualquer circo sabem fazer tão bem um quanto outro. Você pretende, então, ser um bicho paritário a um macaco, um hominídeo destes desenhados nas cronologias da Evolução? Só um macho com um “porrete”? Semear um coração e torná-lo livremente cativo da chuva, do arado e da foice é coisa apenas dada a homens tementes a Deus fazê-lo. Uns preferem estufas e boates, tubos de ensaio e camisinha, manipulação genética e anticoncepcionais. Nós, que ainda somos gente com alma, fizemos a opção pelo caminho antigo das estações e das igrejas, do sexo com amor e totalmente nu, da abertura à vida terrena e à Eternidade. A menina definha porquê lhe cortaram a beleza para o vaso antes que terminasse de desabrochar; depois a substituem por uma cópia de “plástico”. O rapaz mirra porquê lhe amputaram a fortaleza para o pragmatismo antes que terminasse de amadurecer; depois o substituem por uma réplica de “halteres”. Esta conversa de confessor e penitente não é sobre moralismo, sobre céu e inferno ou sobre qualquer teologia barata baseada em punição ou em mecanismos de repressão mental. Nem religião, nem psicologia. Nada além da realidade toda crua e toda nua alertando para o ponto do cozimento da sua existência e para a temperatura da sua vida. Estou lhe dizendo estas coisas porquê elas delimitam ainda mais os seus limites enquanto indivíduo. E certamente chegará o dia, fatídico e terrível, em que você já não poderá refazer o caminho de volta…
  30. Ajudar com as pequenas tarefas domésticas, tornando-as prazerosas não pelas ações em si (limpar, passar, cozinhar), mas através dos porquês aos quais elas se destinam (confortar, vestir, alimentar), é um dos ingredientes prévios que homem e mulher devem levar das suas existências de solteiro para sua vida de casados [atenção aos plurais e singulares!]. Aspirar pó pode ser chato, labutar com o ferro elétrico pode ser maçante, esquentar as panelas pode ser aborrecido; mas dormir num quarto asseado é agradável, mas usar uma camiseta cheirosa é estimulante, mas comer o prato preferido é delicioso. Rapaz que não ajuda a mãe com a louça na pia e moça que não ajuda o pai com a caixa de ferramentas, e vice-versa, não sabem o valor de um copo limpo na mesa de jantar e da água quente do chuveiro depois de um dia de suor. Assim, eles não chegarão a ser esposo e esposa. Sem varal e varreção, não há varão nem varoa. Não basta ser casal e acasalar para casar: tem que saber cuidar da casa. Juntos, apenas juntos nestas atividades rotineiras, eles serão efetivamente os senhores do lar.
  31. Todo intelectual verdadeiro tem apegada à sua vocação para lidar com as coisas imateriais uma vocação para lidar com as materiais, um talento para “ofícios mecânicos”. Um grande literato pode também ser um cuidadoso jardineiro, um filósofo pode passar dias inteiros na forja como mestre ferreiro, um professor universitário é capaz de ser esmerado marceneiro, um estadista pode ser exímio ceramista, um poeta pode ser excelente lenhador. Não só podem, deveriam e devem. Por que? Porquê a abstração sem o contato constante com o real, com o mundo físico, cria aberração. A genialidade das mentes com alta capacidade imaginativa (capaz de fazer malabarismos com o “ser”) precisa ser contida e moldada pelas estruturas das coisas como elas são (os malabares dos “entes”).
  32. Quem te faz ser menos você, não pode te fazer feliz. Quem suprime da tua personalidade as características mais profundas e naturais (aquelas que são seu potencial máximo e melhor de grandeza humana), por conveniências pontuais ou por exigências pseudo-morais, não pode naturalmente se aprofundar em você. Anular no outro as belezas tão diversas quanto especiais da individualidade é negar à pessoa os presentes que Deus lha concedeu antes mesmo do espermatozóide fazer a côrte ao óvulo. É deprimente a quantidade de homens e mulheres que levam “vida dupla”: são expansivos, vivazes e extraordinários no desempenho do próprio ser quando estão libertos do olhar castrador do “companheiro”, mas basta que as retinas da censura marital surjam no ambiente para que a alma se recolha à sua ostra de silêncio e melancolia. Quem te faz ser menos você, não pode ser um com você: ser “uma só carne” não é ser “uma só personalidade”.
  33. Quantas pessoas bobas de tão boas nós não ignoramos simplesmente porquê babamos por pessoas malandras de tão más. Quando nós nos afastamos de quem presta por quem não presta, fica evidente que nós não apenas nos aproximamos dos ruins por mera atração: fica evidente que nós nos atraímos pela nossa ruindade espelhada nos outros. A malícia cá de dentro milita pela malícia aí de fora. Quem chama o meigo de tolo, quem repele o ingênuo, quem desfaz do inocente, quem se estimula com a astúcia: quem isto faz é que é tolo e bruto, é velhaco e repelente, e é malicioso ainda que despiste isto (oh egóico auto-engano!) com discurso virtuoso.
  34. Papai e mamãe levam os filhos para ver o Papai Noel no shopping. Mas papai e mamãe não levam os filhos à igreja para saber do tal do “aniversariante”. Vocês estão dando presentes e mimos porquê (vamos ser sinceros?) vocês são pais ausentes de filhos mimados. Onde a “noite feliz” nesta diária infelicidade mercantil? Cadê o “sino pequenino” nesta surdez espiritual? O presépio não tinha renas, nem duendes, nem pisca-pisca, nem regalo algum senão o pobre Menino-Deus entre gado e pastorinhos sob uma estrela. Um dia, talvez logo ou talvez só na longínqua velhice (nas suas e nas deles), ainda vão ter que orar muito para o Bebê-Crucificado. O ho-ho-ho pode acabar num ai-ai-ai.
  35. Eu entendo perfeitamente o coração do Daciolo. Tem dias que minha vontade mais visceral também é só dizer (repetidamente, até sem parar): “Glória a Deus!” É assim mesmo.
  36. Deus está em todos os lugares. O diabo, em qualquer lugar.
  37. Diariamente nós afugentamos da nossa mente centenas de pensamentos “incômodos”. Pensamentos ternos, pensamentos tenebrosos, pensamentos bons e pensamentos maus, alternativas nunca testadas e obsessões que não podem sequer serem provadas, amores confinados a sentimentos aqui e ali reprimidos, ódios soterrados no abismo da consciência, possibilidades desejadas e medos pavorosos com seus terrores e suores. Nós temos pensamentos de todas as ordens e desordens que incomodam e, porquê incomodam, covardemente nós damos logo um jeito de esquecer e, já no instante em que ocorrem, tratamos de “pensar outra coisa”; e nós artificialmente pensamos outra coisa, criando do semi-nada um assunto para nos distrair do enfrentamento com o outro pensamento, com “aquele pensamento”. E lá vamos nós a ziguezaguear a atenção pelos neurônios até que, de repente, voltamos ao tal pensamento, retrocedemos outra vez àquele maldito pensamento incômodo. Forçamos a barra e, a custo de muita força mental, empurramos mais uma vez o indesejado para debaixo do tapete psíquico. O dia acaba, dormimos, acordamos e a atenção acorda mais ou menos focada noutra e qualquer coisa. Mas, boom!: horas ou dias ou meses e tempos depois, sob a pressão da importância que nós atribuímos a ele sem contudo admiti-lo, ele volta. O pensamento incômodo sempre volta para incomodar. Solução? Conheça-se a si mesmo, passe em revista sua consciência, faça diariamente uma bem racional “operação pente-fino” na sua volição, na sua intuição, na sua (vá lá!) meditação. Pensamentos incômodos só incomodam gente acomodada.
  38. Esqueci teus olhos passando por eles todo os dias. A rotina apagou de mim tuas retinas. E aquilo que me era o farol entre águas e trevas, hoje é um par de olhos como os olhos de qualquer uma na multidão das rotinas ensolaradas. Esqueci me esforçando para esquecer, desaquecendo o coração, forrando o cérebro com as páginas sagradas. Esqueci teus olhos, piscada a piscada, como se aquela areia dos olhos sonolentos me tomasse a consciência da visão a cada encontro, cada encontro que se desencontrava a cada reencontro de íris reciprocamente cegas sob luz ideal.
  39. Como estão porcas e degeneradas as relações. Como estão porcos e degenerados os corações! As camas são lamaçais, as almas são pocilgas. Os corpos são belas mas ocas estruturas: os espíritos são carrancas e espectros de feiura. Puta que pariu!
  40. Então, eles apontam para você e dizem “lá vai o sonhador, o bobo, o louco, o esquisito”? Eles fazem piada da sua conduta, dos seus modos, do seu comportamento? Então, você desanima quando debocham da sua fé e dos seus princípios? Então, porquê lhe creem um palhaço, uma criatura exótica, você esmorece o coração? Sossegue! Não tergiverse, não ceda, não baixe a cerviz, não se renda. É tão melhor ouvir a gargalhada do mundo e ainda assim poder contar com o sorriso de Deus…
  41. O pecado dum santo é como um arranhão numa jóia de ouro. O risco é evidente, mas o dano, por outro lado, revela que sob a superfície dourada tudo é ouro. O pecado dum santarrão é um arranhão numa falsificação, numa bijuteria. Basta lacerar a superfície para descobrir que por debaixo do banho de ouro o material é ordinário e barato.
  42. Hurt é Salomão se lamentando. É o Eclesiastes do Cash.
  43. As coisas fáceis que vêm fáceis são só coisas que se vão facilmente. Coisas fáceis não exigem força de vontade, não pedem zelo, se dão como putas de esquina de estômago vazio. As coisas difíceis, estas sim, pedem que você seja destemido, que seu coração seja valente e um tanto puro, e só se entregam como a donzela da torre cuja alcova só se alcança depois que o cavaleiro degola o dragão. Se você não está preparado para renunciar às facilidades, tudo será dificuldades; tudo será mediocridades sem valor, inúteis e vazias. Se você renuncia às bobagens ordinárias e enfrenta a si mesmo e ao mundo, a grandeza cairá nos seus braços. As coisas difíceis que vêm difíceis são coisas que permanecem, que permanecem para sempre.
  44. À fórmula clássica da jura de casamento deveria ser acrescentada mais esta condicionante: “na sanidade e na loucura.”
  45. Meios-termos, conversas moles, papo pra boi dormir, vagueza. Poucas coisas são tão terríveis para a alma quando o suspense das indecisões, das conversas não terminadas, do não dito no dito. Quando a hesitação é permanente, quando não ata nem desata, quando não caga nem sai da moita, quando nem vai nem racha: toda dor, por mais miúda, se torna um suplício; e toda espera, ansiosa, devagarinho míngua em desesperança. O drama do saber-não-sabendo faz tanto ou mais mal que a certeza que entristece, machuca mais que a clareza afinal adversa. Só quem já ficou com a alma pairando neste vácuo de [in]significâncias, só quem já ficou vagando feito espectro caçador de corpo, sabe o quando a expectação que não termina é das angústias mais pesadas que o coração pode suportar. Por isto, cá meu conselho mais sincero: diga, fale, explique, converse, esclareça, verbalize, chame, conte, deponha, recite, declame, dialogue, responda, retruque, lecione, evidencie, exponha. Não deixe nada na penumbra, porquê as trevas da dúvida esganam…
  46. Mesmo as mulheres esteticamente muito parecidas podem ser muito diferentes quanto à percepção que temos de sua beleza. Dou um exemplo: conheço duas morenas, de cara e corpo praticamente idênticos no talhe físico: desenhos, ângulos, curvas e harmonias de igual medida e feitio. As duas são muito bonitas e, como dito, quase gêmeas na aparência. Uma delas é boa menina, a outra pertence àquela cepa das “da pá virada”: todo mundo que olha para a primeira diz que ela é linda e todo mundo que olha para a segunda diz que ela é “boa” naquele sentido mais sem-vergonha da palavra. Qual a diferença? O porte e a postura, o ser denunciado pela personalidade vazada tanto nos pequenos quanto nos grandes gestos. Não se trata da proporção áurea regulando os números e distribuições anatômicas. Não se trata de simetria material. É algo mais profundo, sob e sobre o véu da carne. Trata-se de caráter. E que coisa bonita é um caráter bonito!
  47. Esta é a geração que menos calafrios tem tido na espinha. Nada lhe excita a alma a ponto de fazer esse impulso de calor-e-frio percorrer a coluna dum extremo ao outro. Quem por aí ainda se arrepia de elevação, de maravilhamento, de admiração? Sequer os namorados têm sabido o quê é este deslumbramento que cavouca seu leito medular entre o corpo e o espírito, que atravessa a carne com um punhadinho de comichões feitos de luz eterna. Que tristeza…! O sujeito pode dormir sob um céu como aquele da “Noite Estrelada” de Van Gogh, pode dormir ouvindo a namorada lhe cantar, nota a nota e ao ouvido, o “Luar do Sertão”, bem depois dum banquete farto de carnes gordas e vinhos velhos, e… ainda assim o miserável não vai sentir nada de sideral no corpo. Nada, nada, nada…!
  48. A gente começa bebê balançando no berço e nos braços dos nossos pais, fica criança brincando no balanço da praça, fica adulto balançando de paixão a cama e, então, fica velho na cadeira-de-balanço. A vida é uma balança. Nós somos o peso. O balanço é o pêndulo do tempo e o prato da justiça. É o movimento de ir e vir da vida, que mede nosso envelhecimento e julga nosso amadurecimento. A gente balança no barquinho com Jesus e com Pedro. Aqui, a gente balança entre a fé e a descrença, entre a espada desembainhada e o canto do galo. E nós balançaremos, assim, até que um dia o colo seja o do Pai, até que o parquinho seja o Céu, até que o amor seja a visão pura dos santos, até que a serenidade não seja a quietude dum corpo alquebrado pela biologia entrópica mas sim aquela paz toda potente do corpo glorioso. Eu balanço porquê me balançam e porquê balanço os outros. Todo este balançar, porém, é um movimento ascendente em direção à Eternidade. Que cada um deles seja mais que um giro de 180o graus, físicos ou metafísicos. Que cada balançar seja a oportunidade dum sono de neném, duma alegria infantil, dum gozo carinhoso, duma sabedoria provada. Que seja a oportunidade de dizer “oi, Deus.”
  49. O desejo do bem faz surgir o bem. Não se desespere. Se o seu coração anseia sinceramente por coisas boas e bonitas, Deus tratará de por bondade e beleza na sua vida. O querer modesto, de aspirações legítimas e silenciosas, quer sempre aquilo que também quer Deus para nós. Sem grandezas falsas, sem megalomanias, sem as superficialidades vaidosas das cenas e contracenas do mise-en-scène das massas e maiorias. Você quer um amor, um lar, uma existência daquelas de “moringas de água fresca” e de “vestidos de linho azul da esposa amada”? Sossegue. Só continue a desejar e a querer. Pelo menos mantenha guardadas na alma estas “aspirações altas e nobres e lúcidas.” Desejar-e-querer é o primeiro passo para conquistar-e-obter, porquê estes nossos anseios íntimos moldam finamente nossas ações tanto quanto às finalidades da existência quanto aos finalmentes da vida. Não se desespere. Sossegue.
  50. Nem sempre é o objeto ou a pessoa. Às vezes é a distância que faz com que atribuamos valor às coisas. Se existíssemos na Lua, à noite nós olharíamos para a Terra e comporíamos canções, poemas e laudes à uma vida por lá. Ícaro teria querido atingir a imensidão azul a partir do satélite prateado. As óperas italianas não cantariam “que bella, que bella luna”, mas sim “que bella, que bella terra”. As crianças brincariam de missões espaciais para cá e os astronautas quereriam fincar suas bandeiras não nas crateras largas e cinzas da “rainha da noite”, mas nas nossas florestas oxigenadas e verdejantes. A imagem do queijo furado seria a do próprio habitat: a terra seria o disco azul lá em cima, quase boreal na cor de opala e aurora. Parte fundamental do amadurecimento da nossa vida adulta (afetiva, sobretudo) consiste em saber separar a aura romântica das coisas das coisas em si mesmas. Muitas vezes, o valor é dado às pessoas e aos objetos em função dos objetivos que ingenuamente idealizamos e do quanto eles são ou estão distantes. Queira o objeto por ele mesmo, esteja ele a centímetros ou a quilômetros de distância. Queira a pessoa por ela mesma, esteja ela a um passo ou a um continente de distância. Sonhar acordado, entabulando quimeras e miragens insufladas por afastamento (e, então, pelo critério disponibilidade/indisponibilidade), é tolice.
  51. Existe consciência pura. Não existe inconsciência pura. Existe consciência impura.
  52. Valor deve ser dado a quem sabe o preço das coisas, a quem sabe a quantas mls de suor equivale a xícara de café, o arroz e o feijão, o celular, o sapato, as coisas todas à venda. Valor deve ser dado a quem escolhe um tecido menos caro para poupar a carteira na carteira de poupança. Valor deve ser dado à menina que rala o dia todo para pagar a faculdade, que sai do serviço e vai direto (sem banho) para a sala-de-aula. Valor deve ser dado às donas de casa que remendam panos, que costuram colchas e tapetes com retalhos, para dar uma “roupa de missa” pros filhos. Valor, muito valor deve ser dado a quem, mesmo com o orçamento apertado, economiza para fazer gentilezas à esposa, aos filhos, a quem quer bem. Valor! Nada é sobre dinheiro. Tudo é sobre sentimento.
  53. Não é tão difícil: os olhos duma pessoa profunda são também profundos, e diante deles a gente estagna como se olhasse para dentro dum abismo, um vórtice infinito de segredos que se revelam conforme a visão é mantida íris-à-íris. São ternos e firmes, e mesmo que olhem fixamente para determinado ponto, parecem irradiar sua atenção por todos os ângulos e perspectivas. Olhos profundos parecem-se um tiquinho de nada cansados, mesmo que estejam totalmente dispostos: eles têm uma densidade metafísica, carregam o peso da consciência que, mesmo leve, pesa muito mais que a consciência dos frívolos. Olhos profundos se aprofundam nos nossos e aumentam nosso próprio limite de profundidade: eles cavam, escavam, cavam e escavam o limiar do nosso espírito até que a matéria dos nossos nadas fique palpável e a córnea translúcida como o véu do templo de Deus. Olhos profundos são dois fragmentos iguais e perfeitos daquela mítica pedra filosofal. Se você encontrar por aí um par destes, roube-o para si.
  54. Sou da opinião de que aos votos matrimoniais deveria ser acrescentada mais uma jura, esta: “na sanidade e na loucura.”
  55. Esteja pronto para não estar preparado. Imprevistos acontecem e o leite acaba derramado. Só não esteja despreparado para ajuntar os pedaços da xícara quando ela também for pro chão. A vida não é tanto sobre acertar: é mais sobre como passar o pano e recolher os cacos, é sobre como lidar com o erro. O passado, sempre passou e continuará passando. Mas, e o futuro? E o presente que embesta e desembesta o futuro? O mais importante é continuar comprando e esquentando o leite, é não trocar a porcelana por vidro grosseiro ou plástico, é não deixar de insistir nas coisas boas porquê um dia o percurso se acidentou com o nosso “mau jeito”.
  56. A gente também tem temperatura. A gente também fica quente, frio, morno, gelado, fervendo. E a gente sabe disso porquê nosso espírito é um termômetro: os graus celsius da consciência sobem e descem todo santo dia… A gente tem coração, onde cai fogo e saraiva. E a gente tem cérebro, onde neva e o vento corta. O amor, a ira, o carinho, a insensatez, o desprezo, a bondade, a maldade e todo o mais com ou sem simpatia e antipatia — também com ou sem empatia — queimam e congelam nossos afetos. A gente tem o verão e o inverno no peito e na cabeça. A gente… é gente. E gente tem destas coisas: estes 8-80, estas contradições, estas ausências de primavera e de outono, estas temperaturas de Saara e Ártico que por mais que se toquem raramente produzem uma alma morna, moderada. A gente geme por ser gente, gente polarizada, mas Deus sorri disto porquê hoje Ele também é “meio” gente. Deus é o nosso equilíbrio térmico: se a temperatura está baixa, Ele é a lareira quentinha do nosso quarto; se está alta, Ele é a fonte de água fresca do nosso jardim.
  57. Mais do que compatibilidade nas virtudes, é preciso ter compatibilidade nas imperfeições. É fácil simplesmente idealizar as coisas e dia e noite aspirar à perfeição, à uma vida tão “certinha” quanto irreal. O difícil, mas necessário, é aceitar o outro com seus pecados passados, com seus vícios presentes e com tudo aquilo que disso tudo ainda vai reverberar no futuro. Amar é acolher no outro seus erros e defeitos para construir na vida a dois uma parceria de acertos e aperfeiçoamentos. Amar é fazer ajustes permanentes, é cortar na carne, é amassar e moldar o barro sujo, é esquecer e tolerar, é acariciar as chagas e as feridas mal cicatrizadas que ainda marcam a pele sedosa: é sofrer e, sofrendo, encontrar até nas dores do pecado os motivos maiores dos prazeres e das alegrias da santidade. Qualidades afins valem muito para quem quer morar no céu. Mas as falhas em comum valem muito mais para quem quer levar consigo o cônjuge para o céu. Ainda estamos na terra. E aqui na terra o amor serve para purgar, para limpar, para purificar. A única coisa incompatível é o desamor. Todo o mais se ajeita. Todo o resto se ajusta.
  58. Vi agora à hora do almoço um velhinho engraxando os próprios sapatos. Descalço, aos pés duma escadinha, defronte à própria casa. Estava de meias, verdes ou cinzas. Roupa social: camisa branquinha como a neve, calças dum cinza amarronzado. Do lado, um chapéu puído de pele de lebre. Dava para ver, pendendo do lado, um velho relógio de bolso, um “patacão” prateado. Cabelos azuizinhos-céu de tão brancos. Mais de 80 anos, com certeza. Deu gosto. Depois dum sorriso feminino que vi pela manhã, esta foi a imagem mais bonita do dia. Já tinha um tempo que eu não encontrava, pelas ruas de Pindorama, um destes avôzinhos à moda antiga, cavalheirescos. Sobrou cá comigo uma pergunta: como seremos nós, os avôs do futuro?
  59. Há muito que percebi que, nas mulheres, certo sono, certos bocejos, certa letargia ou dengo corporal, estão intimamente ligados ao coração, a um desassossego interno que tanta energia consome no lado de dentro que pouca vontade sobra para os gestos do lado de fora. Este silêncio quase onírico acomete aqueles dias de reflexão. É um período muito sentimental, quando (talvez elas não saibam) a gente mais consegue enxergar o que de angélico elas carregam no coração. Muito sútil, mas muito forte. Muito sereno, mas muito poderoso. A beleza delas fica tão evidente quanto devia ser a de Eva nos primeiros segundos quando ela se percebeu existente.
  60. Há mais coisas entre o silêncio e o grito duma mulher do que pode sonhar nossa vã filosofia masculina. Engana-se o bocó que acredita que as coisas acontecem do nada com elas: a coisa não está “boa” e de repente fica “ruim” do nada, num zás-trás que transforma a ursinha-carinhosa num satanás de saias. É tudo muito gradual, mas duma gradualidade comprimida, ultra-compacta: é como se elas tivessem dentro de si um termômetro absurdamente progressivo, mas cuja velocidade entre o zero grau e o calor absoluto se atinge muito rapidamente. É um processo lógico, mesmo que suas etapas nos escapem pela ligeireza. Se elas mesmas fossem capazes de equacionar toda a cadeia de argumentos que se sucedem concomitante e sobrepostamente um ao outro, sim, senhores: nós muito frequentemente estaríamos ferrados.
  61. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  62. Pessoas temporárias são aquelas que marcam horário para você. Afinal, você é só mais um atendimento, às vezes incômodo. Pessoas para a vida toda desmarcam o relógio inteiro por você. Você merece atenção, então tudo sempre se acomoda. Toda importância é medida pelo tempo empenhado: importa o que não é cronometrado. O tempo só é relativo na teoria de Einstein. Cá no peito é a eternidade que governa, e a eternidade é sempre maior na sensação da carne quando se pode acrescentar mais um segundo, e outro minuto, e uma hora e… mais tempo. “Moro em Jaçanã, quero perder este trem!” Quanto mais alguém olha no relógio, quanto mais um compromisso compromete o papo, o conselho, o diálogo e até o silêncio, maior é a certeza de que o tempo importa e, porquê importa, ele não pode ser gasto naquilo que o calendário vai levar embora. Romeu se lamentou quando percebeu que o sol nascia. Julieta se lamentou quando percebeu que o sol nascia.
  63. Todo rosto tem marcas, rugas, pintas, linhas desiguais, pontos dum lado que não se compensam no outro, pequeninas desarmonias. Este desequilíbrio é justamente o elemento central da beleza. A total simetria, que prezasse por completude regular no desenho, faria duma face um exercício de purismo geométrico. E nós sabemos muito bem que não é assim. Um rosto bonito é um rosto onde as principais estruturas são proporcionais, mas cujos detalhes, cujos entalhes de personalidade individual, são semeados de maneira algo “dispersa” — relativamente desigual. A famosa pintinha sobre o lábio feminino, a covinha que se destaca mais dum lado que do outro, as expressões que desbalanceiam o maxilar, a penugem que toma mais um braço que o outro, a auréola maior ou menor nos seios, a verruguinha no pescoço, uma cicatriz, mais sardas aqui que ali, etc. Enfim, é certo que a beleza é um conjunto orgânico e simbiótico de positivação e negativação de padrões que se auto-ajustam no corpo. Os feios são os polarizados, são justamente os excessivamente geométricos e os excessivamente assimétricos.
  64. Gente carente vive assoprando fogo de palha, tentando reacender fagulha fria. Poderia queimar uma floresta toda de lenha até a Eternidade, mas prefere cronometrar os instantes luzídios duma qualquer poeirinha de carvão. Não tem duma chama senão um vislumbre estético, uma visão “pisca-pisca” que não esquenta nem conforta, ainda que iluda os sentidos com as “provas cabais” dos seus termômetros de paranóia e romantização. Auto-engano térmico. Se contenta com os pequenos “sinais” das cinzas que há muito já não são brasa… Se contenta em saber que o borralho provém do fogo. Tenho imensa compaixão de quem se apaixona por fogueiras de gelo e nevasca, que queimam, mas queimam pelo frio. Não se iludam, não se humilhem. Camões estava enganado: amor é fogo que arde e se vê. Apenas os carentes, susceptíveis e sugestionados de tanto ansiar, conseguem ver labareda onde só há lenha molhada, sequer capaz duns borbotões de fumaça mesmo que lançada num vulcão…
  65. O tempo nos consome. A pele de bebê de repente está enrugada. O cabelo, ralo e branco. As unhas, grossas e duras. O tempo depõe sobre nosso corpo suas crostas. Os velhinhos aí estão, com suas bengalas e doenças. A pele jovem, a pele adulta: é a nossa. Cabelo e cabelo com viço e cor: é o nosso. Unhas rosadas, flexíveis: as nossas. Nós estamos aqui, com a coluna ereta e os pés firmes, com saúde. Mas, e daqui a pouco? Hoje, temos 20, 30, e logo se passa dos 40 e então mais o dobro e já estamos aposentados, na terceira ou quarta idade, sentados debaixo de uma árvore olhando quietamente para o mundo. Então, eu que penso loucamente nestas coisas, me pergunto: como será a velhice daqueles que te abandonam, meu Deus? O tempo vai ruminar o corpo do crente até que ele se torne pó de ampulheta. Mas seu espírito se erguerá vivo na Eternidade. O tempo também tornará pó o descrente. Mas… e o que se fará da sua imortalidade para definitivamente decrépita? O corpo glorioso é para os salvos. Mas o corpo do infiel recém-saído da cripta é o mesmo corpo de sua morte, que nele estará pespegado para sempre e sempre.
  66. Tem poder sobre você não quem hierarquicamente, pela força da coação dum sistema, pode ordenar que você faça isto ou aquilo. Tem poder sobre você quem livremente, pela força dum coração que queima, pede que você faça isto ou aquilo e você irresistivelmente faz.
  67. Um dos preços de andar com Deus é caminhar já em nuvens sobre a terra: você flutua por dentro e os outros pensam que você está no mundo da lua, você levita no interior e os outros pensam que você é aéreo. Como é gostoso ter os pés sobre a terra e ainda assim sentir que até os espinhos são algodoados. Como é gostoso caminhar no solo do planeta e ainda assim ver que tudo são “pedrinhas de brilhante” numa das ruas da Sião celeste. Um dos preços de andar com Deus é ter um par de asas invisíveis que, como aquelas atrofiadas das galinhas, às vezes nos permitem alçar vôo por cima da cerca do mundo, sob o cacarejo atônito e debochado do galinheiro que mal pôde perceber que em seu meio havia uma águia…
  68. Nada me encanta tanto quanto a sinceridade. Nada.
  69. Meu TC do Curso de Direito foi mal feito. A falta de tempo é cruel comigo. Já há dois anos não leio um livro inteiro… Registro isto para perpétua memória da coisa.

O altar da noite escura [artigo para jornal]

A lua antigamente servia à localização noturna, à poesia e ao parto das grávidas. A lua afetava as ondas do mar, o crescimento do cabelo, a semeadura do campo. E muito mais. E ela continua a obrar estas coisas. É que a gente não sabe mais dessas coisas, nem de quase nada. Ontem, sentado no jardim cá de casa, lendo e respondendo bobagens no celular madrugada a dentro, percebi que a lua hoje em dia (e hoje em noite) mal inspira o miado dos gatos e o latino mal uivado dos cães que ainda guardam parentesco distante com os lobos. Séria pergunta: me diga, para que serve a lua na sua vida? No máximo, você curte ou compartilha fotos dela grandona ou vermelha no Facebook, quando os movimentos orbitais da terra aproximam ela de nós e os raios solares colorem sua superfície. Você já ouviu o Sinatra cantando “Fly Me To The Moon”? Você já quis ser astronauta da Apollo 11? Você já ouviu aquela musiquinha “Rato”, aquela em que o rato toma um “toco” amoroso da Lua? Você já viu alguém comparar um queijo suíço esburacado com as crateras dela? Você já ouviu a sonata “Clair de Lune” ao piano?

Bem… Mas não se trata da lua. Tem mais. Muito mais coisas feias e bonitas que nós nos esquecemos que existem por aí, dando mole pra nossa alma, dando sopa pro nosso espírito, mas que nós rejeitamos friamente, como se não precisássemos de nada além das coisas que estão ao alcance material das nossas mãos igualmente materiais. A gente não quer mais saber das “coisas inúteis”. A gente só quer aquilo que venha rápido pro bolso, que venha rápido pro estômago, que venha rápido pros genitais, que venha rápido porquê a rapidez é tão rápida que a gente precisa fazer uma rapidez seguir a outra até que surja rapidamente o dia da nossa morte (ah, e que seja rápida!). Então a vagabundice tem que ser bem remunerada, porquê suar é pra bestas de carga; então a comida pode ser a do micro-ondas ou a do fast-food, porquê cozinhar é praquela velhinha no sítio com seu fogão à lenha; então o orgasmo tem que ser vapt-vupt, quase precoce, porquê há muito mais vaginas pelo mundo e a noite é uma criança; então… é preciso correr, porquê o percurso desta existência acaba logo e é necessário não só tatuar o “Carpe Diem” na nuca — a gente tem que ser um epicurista que não leu Epicuro e tem que mandar a ver na existência!

Não é só a lua. É tudo. Você não percebe (vai, seja sincero) que você é um ralo pro mundo e que todas as coisas boas e bonitas da Criação te são inaproveitáveis? É, você é um ralo. Não, não é um abismo. Você é só um ralo superficial pelo qual escorre vômito, fezes e urina metafísica. Você não quer nada com nada e, quando o nada vem fazer arrepios na sua espinha, trazendo medo e depressão, o que você faz? O que você fará? Arre! Será que pelo menos você será consolado ao saber que tem uma ópera, La Bohème, que fala duma vida toda suja e também toda pseudo-romântica e alcoolizada entre amores, paixões e devassidão?, e, ah!, que também fala da lua numa ária bela e trágica? Sequer isto você tem. Sequer o vil consolo da cultura. “Ma per fortuna / È una notte di luna / E qui la luna / L’abbiamo vicina.” Admita: você não tem nada! Você não tem sequer isto a que você apelidou de você mesmo, o seu eu aparente. A gente está mal, muito mal. Quisera eu, pobre leitor, que você de fato soubesse que Deus criou a lua e que o fato dEle a ter criado é a informação mais importante a que você terá acesso em toda a sua vidinha. Porquê aqui está uma verdade — a Criação — e uma verdade sempre empurra a outra, sempre conduz à outra, como num efeito-dominó.

Esta noite, saia lá pra fora. Vá ver a lua. Chame alguém para vê-la contigo, entre queijos, vinho e boa música. Pesquise sobre ela na Wikipédia. Se necessário, leia até qualquer bobagenzinha sobre suas funções na Astrologia. Mas faça qualquer coisa de mais elevado com sua vida ainda agora e lembre-se disto: o tempo está passando e… também existe um calendário lunar, e ele tem menos dias que os 365 de costume!

[2.12.2018]

 

Boca cheia e coração vazio [artigo para jornal]

A gente chama de bonita aquela que agrada à vista: é estética corporal. A gente chama de linda aquela que encanta a cognição: é estética com ética, para a alma. Mas a gente só chama de bela aquela que simbioticamente agrada e encanta o espírito, a alma e o corpo, porquê, como dizia Urs von Balthasar, “o crítério da verdade é a beleza.” Só é belo o que é bom, também.

Os adjetivos dizem muito do que um homem procura numa mulher. Se o rapaz só te chama de gostosa, você não passa de um deleite gourmet facilmente categorizável num cardápio ou num catálogo. Se ele só te chama de cavala e de potranca, você é um execício lúdico para o fim de semana, que pode ou não incluir montaria. Pitéu, fruta e filé são matérias comestíveis que servem à língua e aos dentes no sabor do prazer, mas que logo vão parar no estômago, depois nos intestinos e, por fim, no en passant dos lençóis e do papel higiênico, na privada. Esta é a alegoria do ciclo pega-e-come[e caga]. Para boa entendedora…

Nosso palavreado é nosso ser se manifestando no mundo. Cristo, a propósito, disse que “a boca fala do que o coração está cheio”. A forma como eu me dirijo a você aqui neste artigo exprime o que eu quero de você: atenção. A forma como o Maurício Pit-Bull, o Jão Vaqueiro e o Tom Bombadinho falam com você demonstram o que eles querem de você e como eles vêem você: um bife a ser mastigado, uma vaca a ser coberta, uma fruta a ser descascada. O cara que é um estereótipo pronto e acabado, uma caricatura juvenil desta classe de galináceos que cacarejam apoleirados nos rebaixados e caminhonetes de cada esquina, vai, muito sinceramente, descrever a realidade do próprio desejo de macho configurado na sua realidade de fêmea.

Volto ao começo da conversa. Um dos dons concedidos ao homem por Deus é o de nomear as coisas, chamando-as pelo seu nome próprio. Heidegger dizia insistentemente que “só há mundo onde há linguagem.” Por que? Porquê nossas palavras estão limitadas pelos nossos pensamentos. Nós colocamos na língua aquilo que, por mais que seja abstrato, já é concreto na nossa mente. Os valores dados às coisas, sobretudo. Os valores que são nossos julgamentos das coisas. Se você não escuta constantemente que é bonita, que é linda, que é bela e, na proporção inversa, ouve que é isto e aquilo com estes e aqueles adjetivos dados aos substantivos comuns, Genival Lacerda adverte: “ele tá de olho é na butique…” Quem poupa carinho na palavra só quer apalpar a poupança.

Se é isto que você quer, legal. Beleza. Ok. Só faça um justo favor aos homens que têm alguma vergonha na cara: não fique por aí (no Facebook, no Instagram, no WhatsApp, na sua rodinha de luluzinhas baladeiras) reclamando que “homem é tudo igual.” Homem só é tudo igual para mulher que é tudo igual. E as coisas começam pela boca. Nem tanto pela boca que beija; mas mais pela boca que fala. Dê, você, nome aos bois; porquê eles andam te dando nome já há algum tempo…

[25.11.2018]

Trecho do conto “A Moça da Sétima Janela”

A chuva é sempre uma oportunidade de sono para as almas românticas. É fatal! Basta que tamborilem no telhado as primeiras gotas para que aqueles que detém um “sono primordial” na alma caiam sobre as cobertas. Este sono nada é senão um elemento de ligação entre a quietude de dentro com a de fora: uma alquimia de melancolia. E não, não se trata de modo algum de melancolia que se parece com tristeza. É aquela melancolia dos regatos se deixando absorver por rios maiores, é a melancolia doce das folhas secas e douradas caindo aos pés da própria árvore. Ela me dizia que um dia de chuva a aconchegava como o colo de sua mãe. Ela sempre me disse que ouvir o murmúrio da chuva na calha ao lado de seu quarto era narcotizante, quase morfínico. Isabel, romântica feito princesa de conto medieval, se encorujava na escola quando menina, com seu capuz de moletom; e se aninha desde sempre nos cantos do sofá, com ou sem a companhia dum livro, quando é sábado à tarde e o mundo do lado de fora está acinzentado, cheio de nuvens, sob chuva pouca ou cerrada. Minha conclusão, e que deliciosa conclusão, é que ela é tão “anacrônica” quanto eu: vive num castelo, com pedras, torres, musgos, montanhas, ar frio, bosques; dormindo e sonhando ora no travesseiro morno, ora com os olhos castanhos bem abertos diante do horizonte.

Trecho do conto “A outra possibilidade”

Quisera poder ter sido um fazendeiro. Medianamente alfabetizado, sem saber ler o barômetro mas capaz de olhar pro céu e dizer à terra dos próximos movimentos das nuvens. Eu não saberia de certo declamar os poemas latinos que decorei quando menino, não saberia escrever naquela caligrafia gótica aprendida na adolescência, não comporia sonetos elegantes às moças que amei ou quase amei. Mas nada me impediria de ser gentil, mesmo bronco, com as camponesas da colônia e colher rosas frescas no jardim da casa-grande para a pastorinha que fica sobre a pedra do outro lado da cerca. Não que eu tenha me tornado um protótipo daquele dândi tolo e envernizado por civilidade inócua que arrastou debilidade na Cidade até encontrar as Serras. De modo algum! Meu espírito nunca foi tomado por plumas e firulas. Acontece que, é verdade, sempre me atraiu muito mais a vida rural que a as questões físicas e metafísicas da metrópole. Sempre me achei mais próximo da sabedoria profunda dos velhos roceiros que da erudição universitária. Sempre me cri mais capaz de admirar as coisas calado, ruminando exclamações e mistérios, que descrevê-las em boa prosa literária. Mas, cá estou neste século e lugar; pronto para procurar eternidades no calendário, preparado para minar diamantes num pântano tão infértil quanto os desertos do norte da África. Não sou nem serei fazendeiro, destes que lavram a terra diretamente, destes que aram os veios e os semeiam estação após estação. Permitiu-me o Senhor, contudo, que eu fosse um cultor destas verdades incômodas à Civilização, da qual esta é a maior: quanto mais longe da terra, menos pó dela nós somos.

As Aventuras de João Burronenhum

VI. CAVALO XUCRO

Eu sempre dizia a plenos pulmões que não pretendia correr de briga alguma, que enfrentava o mundo inteiro sozinho naquela bravura de Santo Atanásio. Era um “galinho índio” dando murros até na brisa, como se ela fosse ventania. Quando punha o pé na rua, fazia questão de estufar o peito e amarrar a cara –marrento, queria marretar os outros na marra. Eu sempre dizia também que dava um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair dela. Um dia, encontrei no boteco do Zé Galhardo um tipo que poderia ter nascido irmão meu: a mesma postura de alma e jeito de lutador de vale-tudo. O sujeito quis começar uma discussão com a garçonete por causa duma pururuca que ele disse ter gosto de ranço. Ele queria paladar no rango: coisa de fresco. Pensei: se esse filho da mãe tivesse fome de verdade, mastigava o torresmo como se fosse maná. Tomei por insulto a reprimenda dada na Belena e, movimento de bote, em dois segundos deitei o miserável no chão. Ele saiu de lá carregado por dois outros mal encarados que fiquei sabendo serem funcionários seus numa fazenda do distrito de Vila do Arraial. Dois dias depois, sexta-feira, o brutamontes voltou. Estava de batina! O canalha, além de implicante, era sacrílego. Ave Maria! Se a carne de porco me tinha posto irado ao primeiro embate, agora o acerto de contas era com o filhote bastardo do próprio Antíoco Epifânio! Num estalo, cai com os punhos no sujeito. Ele desviou, como cobra. Só consegui ver, de relance, um brilho de fazer cair do cavalo. Um clarão. Apaguei. Acordei três horas depois, me contaram. E me contaram que assim que me levantei para deitar porrada no homem, ele retirou do bolso um crucifixo e soltou um “vade retro, Satana!” Eu estava possesso! O homem era padre-padre: frei Zenón, um galego vigário de São Bento do Arraial. Durante quase duas horas ouvi atônito o João Quincas narrando o quanto me debati, blasfemei e atanazei. O ritual do exorcismo foi feito e, ao último amém da pequena multidão que circundava atônita todo o frenesi, eu acordei. Estava leve feito pena sobre as nuvens, me sentindo um filhote de coruja despenado, mudado, sem vontade de abrir a boca, mudo. Sai de lá envergonhado, invertebrado; mas decidido a ser santo, santo, santo!

Trecho do conto “O muro que se guardava do mundo”

Olhos profundos não têm fundo. A gente sabe que anatomicamente acaba tudo ali no limite côncavo da íris e da córnea; e que atrás dele vem o cérebro. Então, todo o complexo da visão se restringe espacialmente ao seu pedaço de carne incrustado no crânio. São duas bolinhas brancas e coloridas entre miolos cinza-sangue. E pronto. Olhos profundos, porém, superam a prisão do globo ocular. Que deleite olhar nos olhos dalguém e sentir que, se na morfologia corporal eles se resumem àquele espaço, àquela órbita e cavidade óssea, o espírito que neles habita mostra-nos galáxias, mundos, sonhos e existências tão superiores que a gente chega a duvidar que estamos diante dum corpo físico; a gente chega a pensar que aqueles dois círculos além-pupila detém a eternidade e que cada piscadela é um eclipse de glória sideral. A ternura do olhar é tão mais infinita, e tão mais bela, que toda a progressão matemática que vai dum extremo do universo a outro. Depois que eu olhei nos olhos dela, Monsenhor, eu entendi dois versos do Pessoa que sempre lera batidos: “A noite não anoitece pelos meus olhos, / A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.” Com ela, é sempre dia e o sol não ousa deixar de brilhar. Mas esta ousadia fulgurosa, por outro lado, misteriosamente chama a lua ao dia; e a noite com ela vem para fazer das minhas vinte e quatro horas uma só e mesma coisa que não é nem totalmente dia nem totalmente noite. É um tempo lusco-fusco. Só tempo, cuja sombra é também labareda. Tudo por causa daqueles olhos profundos… Valha-me Deus de me apaixonar outra vez por alguma dessas moças de olhos rasos e embaçados, rasos feito um pires convexo e embaçados como espelho de banheiro de boate. Depois que eu olhei nos olhos dela, fiquei sabendo que os abismos que vão e voltam do centro do planeta não passam de poças d’água. Olhos profundos não têm fundo, Monsenhor Alfons! Não têm fundo!

O paraíso na terra do qual falam os cristãos

[Comentário a João 18:36]

A vida cá no planeta bem que poderia ser como num daqueles panfletos utopistas das Testemunhas de Jeová: união universal entre tudo e todos ao som dum piano variando restritivamente sobre sol-lá-si-dó (ou sobre um assovio hipongo acompanhado pelo chacoalhar búdico dum sino dos ventos), um comercial da margarina Doriana com a axiologia do comercial do cream cheese Philadelphia. Uma perfeição kitsch: caricatural porquê artificial, engendrada na patacoada forçada duma harmonia melada e tão certinha quanto bobinha. Não seria fenomenal que todos se tratassem festivamente com salamaleques superlativos, como o Ciro Gomes faz com quem lhe cai bem? “Oh, digníssimo e caríssimo ilustríssimo e excelentíssimo irmão!” Não seria grandioso que fôssemos assim todos perfeitinhos, e incapazes de levantar o dedo para discordar individualmente para o conforto da concórdia coletiva? Não seria maravilhoso que cada qual cuidasse dos alqueires invisíveis do próprio quadrado, moldando-se ao cubículo que o tabuleiro impõe às peças? A vida cá no mundo bem que poderia ser como nas páginas milenistas dos santos loucos e dos loucos santos e também dos pecadores loucos e dos loucos pecadores: Thomas More, Platão, Cabet, Francis Bacon, Evêmero, Marx, Saint-Simon e tutti quanti. Seria realmente bom que o Éden fosse por nós mesmos reedificado, que uma era dourada numa nova Arcádia fosse por nossas mãos obrada?

Não! Não seria. A vida só poderá ser boa no Bem quando não for assim tão facilmente descrita por papel e tinta, porquê se uma coisa o Cristo nos ensinou é que o “Reino não é deste mundo” porquê “a letra mata” (II Coríntios 3:6). Entre estes dois versículos articula-se a incapacidade humana de arrebatar a perfeição prometida lá e adequá-la aqui (seja na prática, muito mais difícil, seja na teoria, muito mais fácil). Estamos impossibilitados de construir uma terra de igualdade, liberdade e fraternidade como nunca jamais se viu desde que a maçã foi mordida justamente porquê a árvore secou e cá nós estamos escravizados à diferença (todas as maçãs são iguais entre si?) e à desigualdade (há maçãs iguais para todos nós, diferentes e desiguais?) do ego. A espada que foi posta para circundar o portão do Éden ideal é a mesma que circuncidou nosso coração real: entre nossa concretude falha e a abstração perfeita, está a espada — a espada da força, porquê só à força pode-se tentar obrigar à igualdade, só à força pode-se tentar obrigar à liberdade, só a força pode-se tentar obrigar à fraternidade. No dia-a-dia, quando estes belos conceitos ocorrem (alheios à quaisquer teorias político-filosóficas), já não ocorrem como conceitos; mas como gestos puros e amparados por resignação, consciência e auto-sacrifício de quem quis ser irmão do outro infringindo a si mesmo um nivelamento. Estas virtudes não são impostas pela coerção externa, seja da massa opressiva ou da longa manus estatal; antes, elas nascem do interior, do âmago individual, porquê se por um lado o “Reino não é deste mundo”, por outro “o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21).

Trecho do conto “Às portas do Paraíso”

Sou mesmo um esquisito! E não te parece ser a coisa mais fenomenal do mundo? Por que você vive como se não tivesse alma? Olha, eu percebi que era um “esquisito” quando consegui reconhecer, no meio do engarrafamento, horário de pico em São Paulo, o “Va, pensiero” assoviado por um pedreiro, a uns vinte metros de distância do meu carro. Olhei para o relógio, instintivamente. Lembrei que por aqueles minutos tinha acabado o horário eleitoral gratuito. Tratava-se, com certeza, duma reminiscência do jingle do Partido Liberal inspirando o velho da construção a assoviar. Desde então, sempre que encontro um “tesourinho auditivo” em meio à cacofonia da cidade, eu fixo nele minha atenção e deixo meu pensamento pousar “sobre as encostas e as colinas onde os ares são tépidos e suaves.” Pode ser qualquer coisa, desde que ela detenha uma beleza superior digna de atenção, digna da nossa condição de homens. Um radinho de pilha tocando um baião à moda antiga, uma criança gargalhando pra mãe toda estabanada entre sacolas, um naco de som que de alguma forma seja eco daquela música que toca desde que Deus compôs o mundo. Ah, como é delicioso ser “esquisito”!

Trecho do conto “O Último Sermão de Beda o Menor aos Náufragos”

A vida está escorrendo das suas mãos, como aquela água de mar que escorreu das mãos do menino que a Agostinho ensinou a resignação dos mistérios. A vida passa como tempestade na primavera, como brisa no inverno, como um jogo de xadrez no qual o movimento das peças é feito pelo acaso determinista das correntes de ar do planeta. Nós cá estamos, sentados em nossos cantos e tronos, no anonimato de nossos particulares reinados, à espera da lágrima final e do sorriso eterno. Tudo se encaminha pela entropia, pelo desgaste das pedras no fundo do mar e pela consumição dos gases de Júpiter. Tudo é uma grande mancha no espelho, uma casquinha de prata sobre o bronze polido, um véu rasgado duma noiva casta mas sem pretendente? Não, meus filhos, nós somos o espelho feito daquele cristal fluído que moldou as almas; nós somos já a imagem pura e irrefletível do Espírito que soprou; e nós estamos em festa de bodas desde que água batismal lavou nossas frontes e corpos. A vida aqui sob o sol está correndo contra àquela ampulheta que reúne um grão a mais que todos os desertos da terra. A vida aqui escoa como a chuva que desce do solo até às nuvens e contraria o ciclo das águas ao se reempregnar no acolchoado branco e silente do céu que está um pouco acima do céu. A vida aqui se torna permanente como os peões, os cavalos, os bispos, as torres e os reis e rainhas do mundo vindouro se enfrentam naquele jogo de pique-esconde que agora apenas os anjos jogam.

Trecho do conto “O laço e o nó”

Tu eras um desenho, pouco mais que rascunho, uma pincelada de guache na cartolina, um esfumado de grafite, linhas da estrutura ainda não completada pelos detalhes de lábios e íris. Poderias ter sido obra-prima, tela nas galerias e quadro sobre a lareira. Tu eras sinfonia inacabada, partitura em alegro ma non tropo que cuidava de anunciar aquelas notas de êxtase do vivace; notas esparsas e geniais, árias fulgurosas, harmonia superior mas incompleta. Poderias ter sido a opus fundamental dos consertos que me arrepiaram a espinha. Tu eras uma grande peça de mármore, extraída finamente daquela fonte toscana, delineada por fora no cinzel, só esculpida nas mãos e na face, com um certo polimento na ponta dos dedos mal talhados. Poderias ter sido uma Pietà casadoira, um monumento de pedra à tua carne rosada. Tu eras e poderias… Então vieram as novas de Viena e tive que correr a acudir minha mãe viúva. Pensei que, órfão, tu me acudirias o coração. Ausentei-me durante o inverno e a primavera. Bastou uma semana e as cartas então diminuíram primeiro no tamanho, na quantidade de palavras; depois, reduziram-se no número e no espaço de tempo entre uma e outra. Há dois meses nada vem daí e nada vai daqui. De minha parte, com a guerra na fronteira, tu sabes o quanto é raro encontrar papel nas imediações de Innsbruck. Da tua, sei que em Saint-Fargeau o papel não apenas é da melhor qualidade, mas está tão barato que a resma já se compra ao preço de dois francos.

 

 

Trecho do conto “A Penúltima Estrela de Annwn”:

O coração feminino também é selvagem. Apaixonado, é capaz de crimes inarráveis, de terrores míticos e trevosos, de loucuras que esfriam e esquentam a espinha de quem lhes ama ou detesta. Mas é duma selvageria doce, cheia de candura.
— Acende aí o candeeiro, interrompeu dando-lhe também o copo e apontando para a garrafa sobre a pequena mesa posta ao lado da lareira. —
A abelha que ferroa a cabeça, deita mel na boca. A rosa que violenta a pele, dá o perfume que estonteia. A mulher assim tremendamente apaixonada parece-se com aquelas crianças psicopatas dos contos e da realidade: beijam carinhosamente a testa que talvez escalpelassem e curam com seus unguentos as chagas que num minuto poderiam salgar. E os olhos, como agem nesta selva? Abertos, eles hipnotizam; fechados, erotizam. São medusas cujas serpentes se aninharam no cálice cerebral, invisíveis. Os faróis da Antiguidade também causavam esse estupor: se a fogueira flamejava, marinheiro algum ousava tirar dele a visão; mas se a chama sumia, seu desejo e oração eram, com obsessiva ansiedade, não de chegar seguro ao porto, mas de rever o ponto de luz que lhe guiava, nem que para tal tivesse que gastar propositadamente mais algumas horas ou talvez se fizesse, por alguns dias, náufrago consciente no mar. Sereias e naufrágios, meu filho, são amantes associados entre si; pactuaram o mesmo contrato visceral que sede e água mantêm ajustado desde que Deus criou os mundos.

Trecho do conto “Os Sinais”

Como caem secas as folhas e o vento a cada uma empurra à fogueira, com um pulo me levantei do divã e em três segundos já estava diante da porta dos aposentos de Leonora. O piso, apesar de diariamente barulhento, não rangeu. Madeira alguma estalou sob e sobre meu caminho. Talvez por obra do demônio, de repente, impulsionado por esses ares frios que, rastro do inverno, acometem violentamente certas noites de primavera, começou lá fora um vendaval capaz de abafar o barulho produzido por um pelotão de artilharia praticando tiro-ao-alvo no meio do salão. Também me recordei, porquê desde o começo da semana eu ainda estava acordado à esta hora, que a velha governanta costumava fazer uma última ronda antes que o relógio batesse à meia-noite. A Sra. Jenyns não apareceu e, por isto, também todas as velas que se acabam àquela hora não foram trocadas. Tudo ficou escuro. Que potestades do ar assim poderiam conspirar para que um tal pecado se cometesse em silêncio? Deitei o ouvido esquerdo à madeira da porta: discerni o som da pena no papel e a respiração ofegante de quem está tomada por ansiedade. Ela me esperava, e de certo rabiscava qualquer verso na tentativa de me impressionar novamente. Mas estes sinais, arautos das aparências do mal, aos quais eu sempre fora muito sensível desde a infância, me detiveram antes de bater à porta. Pela manhãzinha, pouco depois do último canto do galo, saí do palazzo alegando enfermidade na família. Deixei-lhes um bilhete, um bilhete oficial, no qual pela primeira vez opus o brasão pastoral e assinei o título de reverendo doutor. Passei pela mulher de Potifar sem sequer deixar-lhe as vestes nas mãos. O próximo passo, para ao qual eu já havia calçado as botas, era pedir Rebeca em casamento.

Trecho do conto “Num lugar de São Paulo”

O Quixote deste tempo forjou das latinhas de refrigerante sua armadura prateada; alumínio com o logo da Coca-Cola embaçado. Fez do bambu arrancado da decoração dum restaurante japonês sua lança. Arvorou bandeira dos trapos amarrotados duma torcida organizada. O escudo, retirou-o do tampão azul dos bueiros da Sabesp. E dum capacete de futebol americano fez seu elmo. Seu Rocinante? Mira o fidalgo cavalgando a Monark aro 26 resgatada do lixão! Ainda vejo cavaleiros. Homens de porte digno e medieval, trotando a pé seus alazões de almas antigas, seus espectros de puro-sangue equino estacionados nas baias das praças com catraca. Cavaleiros sagrados e ungidos pelo óleo que pinga do céu, o óleo duma gota gelada do filtro do ar-condicionado instalado no septuagésimo sétimo andar, o óleo duma cagada aérea de andorinha que dizem dar sorte. A Dulcinéia persiste sendo a mesma, debruçada do balcão da lojinha ou do consultório médico, moça igual as lavadeiras de Tebas, as enfermeiras de Gettysburg, igual as donzelas castas e não tão castas que as ruas, as igrejas e o mundo expõem na modéstia um pouco brega e um tanto cândida da normalidade feminina.

Os Vales de Fortún e o Pendão de Carolina

Granada parecia-me um pedaço de céu habitado por demônios. Jardins de querubins alojados de diabos e suas cimitarras. Azulejos, torres, zimbórios… Tantas e tantas graciosidades celestes servindo de espaldar para gentios. Granada era este Éden ocupado pela Serpente e suas crias. A romã que provei aos pés da colina maior deixou minha língua permanentemente marcada por um dulçor que até então desconhecia e talvez cria mesmo fisicamente impossível. A maça, o fruto da queda? Maná, que foi e que era? Notei também a quantidade de pedras bem polidas e de vidros lapidados. Natural, entre nós cristãos, que as pedras sejam lapidadas e os vidros polidos, porquê um já vem com brilho implícito e o outro nós homens fazemos brilhar porquê fazemos existir, e isto é explícito. Talvez seja esta a lógica do Islã com sua Sharia: o criado por Deus, mais duro e duradouro, deve ter seu brilho pouco revelado, quase embaçado na fricção irreverente das lixas grossas e finas; e o criado pelo homem deve ser elevado, posto numa proeminência de modo que a areia fundida mais refulja que os rubis e os diamantes. Porém, nós os súditos do Ressuscitado já há muito aprendemos com o querido Boi Mudo que a pedra deve ser burilada para sua ascensão e exaltação enquanto reflexo de Deus, e que aquilo que o homem cria deve permanecer como descendente de sua pequenez originária.

Tríduo da Segunda-Feira

I. A melancolia e o cheiro das pedras, estes minerais cinzas da cor das nuvens pouco antes da chuva, cobriram de neblina o jardim. O muito esforço da menina tinha enchido de tulipas alaranjadas, de camélias brancas e de rosas vermelho-sangue os pouco mais de dez metros de terra que lhe correspondiam sob o muro. Mas a cerração caiu fria e lentamente sobre a terra até que, dois dias depois, a geada tinha transformado aquele colorido num cemitério de caules retorcidos e pétalas queimadas. Talvez esta fosse a descrição ideal, mais bem narrada, do que foi todo o período de luto. Bastou trocar a roupa preta pelas que haviam sido deixadas no guarda-roupa desde a manhã do enterro para que, sem que ninguém revolvesse o solo ou nele jogasse qualquer adubo, as flores brotassem à partir do pedaço de chão onde por acaso pousara o lenço ainda úmido com a última lágrima.

II. Na penúltima página do livro ficou guardada a primeira flor, cor de cereja, odor de lírio. Como última lembrança da tarde fresca, de sombra rajada sob o zimbro azul. No ar o sândalo e o café, o limão e a baunilha, no doce de comer, no doce de cheirar. A toalha listrada de xadrez: tu aqui e eu aí, partida de duas peças, jogo de dois oponentes, entre blefes e poesia, entre confissões e ira. A penúltima palavra antes de “fim”, que é a última: “sonho”. O travesseiro me engana? Não há farol entre o nevoeiro? Na primeira prateleira, no primeiro lugar aberto, o livro dorme seu sono e eu deliro inquieto. E escrevo a primeira página, a primeira estrofe e a primeira frase, a primeira palavra e a primeira letra. Nas eiras da história, nas beiras da memória, teu rosto fresco, lavado. Mel com vinho e queijo, o céu sobre o Minho, o verso sem rima aparente, a música e a grama verde. Um e dois parágrafos, copos cheios e pratos limpos. Retiro a flor. Apegada a cada pétala uma, outra palavra ficou. No bem-me-quer uns verbos, no mal-me-quer uns substantivos. Na haste, cor de pó de jade, em caractere romano, um pronome: “tua”.

III. Quando ela ficava feliz, sua felicidade não era tão aberta como uma tarde de sol, brilhante em cada aspecto, iluminada em cada espaço, uma felicidade de passarinhos piando sobre fontes de água fresca e cristalina, e de flores desabrochando a cada passo no caminho. Aquela felicidade semeada de pequenas sombras, adornada de meios-tons crescentes e decrescentes na luz, no canto dos pássaros e também das aves noturnas, nas flores de perfume leve e também inodoro ou muito exagerado. A felicidade dela era aquela felicidade do Concerto de Aranjuez: uma alma castelhana, equilibrada mas de profundo melancólica, dedilhando caprichos árabes duma felicidade tão feliz, e por isto tão distante, que suavemente se alternava entre a melodia grave e longa e a melodia aguda e curta, até que sobrava o violão quase solitário, um violão taciturno, carregando a orquestra pela harmonia. Quando ela ficava feliz era noite, e a noite se iluminava não porquê a lua refletia as últimas fagulhas do sol, mas porquê, de tanto ser iluminada, a lua ganhara qualquer reserva infinita de luz, luz que se fazia própria.

Dois bilhetes dispersos a mim mesmo

I. É como ouvir um oboé tocando solitário uma qualquer melodia de taverna irlandesa, é como dos passos da bailarina soarem os trovões dum órgão de catedral gótica. Quem já mediu a temperatura duma lágrima recém-saída dos olhos daquela mulher, no instante entre a queda que vai do canalzinho no canto do globo ocular até o ponto que na face consegue sustentar o líquido, sem alterá-lo no sentimento, no calor e mesmo no ph ao contato da pele? É como ela cantando, duma campina distante e próxima, o “Baïlèro” de Canteloube; é como se, ainda que da cor da aurora presta, as maçãs amadurecerem sem antes o outono folhar a superfície do rio. Ninguém, de certo, jamais mediu a precisa porção de joules que aqueles olhos castanho-raiz entornam toda vez que resolvem meditar. O termômetro, o único termômetro, é teu coração.

II. Tu és estátua que fazes a ti mesma. Nesta dialética de movimento que faz a inamovibilidade, neste dinamismo que organicamente assenta e fixa, tu te esculpes. Mas podes sair deste trabalho obra-prima ou monturo de pedra com feições algo humanas: se te esculpes sozinho, mal se vendo e percebendo (porquê, recorda, o homem que esculpe é o homem que é esculpido), sem espelho sequer, tu pouco ou muito cortarás na lapidação e nenhuma harmonia conjunta surgirá; porém, se deixas que Deus conduza tuas mãos, confiando, cada aresta aparada dará forma à uma beleza superior. Por mais que no início nada vejas, quando as linhas se interligarem em suavidade e perfeita geometria, um qualquer espelho embaçado brotará do teu coração e, de olhos fechados e de íris cerradas, contemplarás o Senhor dizendo-te não aquele “parla, parla!” de Michelangelo nem aqueles versos homéricos que balbuciava Rodin aos ouvidos de suas estátuas; ouvirás, voz forte de brisa serena como se lua e sol compartilhassem o mesmo céu, aquele brado — “vive!”— que ouviu Adão.

Confissões — II

Quanto mais observas teu passos, mais percebes a deformidade dos teus pés. E na incoerência mínima das pisadas formando os passos no caminho, tantinho à direita e tantinho à esquerda, depois de tempo mais demorado, do Caminho chegas aos caminhos laterais e finalmente aos muitos e tortuosos atalhos; e então te perdes. Mas, porquê estás atento ao movimento que a mente ordena às pernas e aos pés, tu de pronto retornas à trilha radicular e dela sobes à senda colateral e, então, galgas outra vez o reto Caminho. Observa teus passos e vê como a terra eles marcam, como teus dedos sulcam rastros, como tu e tu mesmo imprime a força do corpo e do espírito sobre o solo. As falhas da anatomia da alma, pespegadas ao corpo, são para ti um mapa das rotas da existência. Se queres viver para além de falanges e metatarsos te obrigando a percorrer a corrida dos desejos, submete teus pés pela vontade, assente na maratona que se caminha toda a vida.

As incoerências que pairam disfarçadas sobre o coração, faiscando e atraindo sobre ele miragens reativas ou inertes, ou mesmo as incoerências mais profundas, e por isto mais próximas, que densamente repousam no baixo subsolo da alma… As incoerências são como aquelas linhas paralelas que os matemáticos mitólogos ou mitômanos sempre nos disseram não se encontrarem no infinito, mas que se cruzam, em algum momento, quando Deus o decreta, para unir as disparidades e contradições da biografia e reatá-las no fim almejado: a Eternidade.

Confesso, Senhor: deformado que sou, forma-me na tua forma — tuas mãos de oleiro darão à minha carne a contingência da alma; deformado, dá-me a forma da perfeição que aos santos é dada atingir ainda em corpo. Confesso, Senhor: incoerente que sou, tanto careço da tua linha de costurador de tecidos contrastáveis, de linhas mais finas e grossas, de toque macio e grosseiro; incoerente, faz que os ponteiros do relógio que correm nas horas pela direita, nos minutos pela esquerda e que nos segundos pulsam para o alto, conciliem-me no tempo para o tempo-que-não-se-conta. Deus meu, tece a tapeçaria de minha vida não pelo fiar inconsequente das moiras nem pelo fazer e desfazer das mãos amorosas mas humanas de Penélope: tece-me entre os fios coloridos da carne e os fios alvos da luz do espírito para que, ao cabo, eu te seja uma túnica inconsútil.

Tríduo da Quinta-Feira

I. Se a sede é pouca, dão-te um garrafão de cinco litros e exigem que o bebas num gole. Se a sede é muita, ministram-te uma gota d’água num conta-gotas, esperando que a engulas vagarosamente e que ainda a sintas percorrendo todo o caminho que vai da língua à boca do estômago. Este mundo é louco, bella fantina! É louco não na acepção brincalhona da palavra, aquela que nos fala de pinéis, juqueris e piadas conexas à camisas-de-força. É louco como Satã mesmo é louco: em seu íntimo o grão-demônio domina a verdade, mas ela é tão desproporcional nele quanto essa desconformidade entre sede e água. Cristo parece-te desproporcional quando do poço tu retiras no balde capaz quantidade para encher teu cantil, e Ele ainda te vem falar que essa água, suficiente para hidratar saudavelmente teu corpo, ainda te causará sede? E, mais ainda, julgas louco o Mestre quando diz ele que do teu interior fluirão rios de água viva? Ele, insano, que ainda ontem nos dizia que Seu reino não é deste mundo? A alegoria equilibra os pesos e medidas das coisas visíveis e invisíveis.

II. No meio do caminho, começo e fim se unem não pela pedra no meio do caminho, mas por mim mesmo admirando a pedra. Se estou no meio do caminho e vou daqui para aí e se tu estás no meio do caminho e vens daí para cá, teus pés e os meus pés estão juntos. Ora, gostas também de por demoradamente os olhos nas pedras. Estamos cá juntos no meio do caminho. Então, não há mais passos para serem caminhados. O caminho acaba aqui, neste milímetro entre pés descalços, que separa o meu dedão do teu dedinho. Esta pedra, moça, é mais que pedra: é rocha. Eu posso querer esculpi-la, porquê sou metido a artista e tu mereces uma estátua que no mineral faça um pouco mais permanente teu sorriso; tu podes querer implodi-la, porquê preferes fazer areia na beirada deste mar de nossos sonhos azuis. Então… Faz tua areia, faz, porquê este caminho converge com a eternidade e melhor me é passar o tempo todo que foi, é e será olhando para teu sorriso de anjo arrepiado que recordando, na pele de pedra duma Eva inanimada, estes lábios que na carne e no osso me encantam a alma!

III. Esta perambulação de “amor” em “amor” que é senão corrida, quase maratona!, numa gangorra, de paixão em paixão? Patologia do coração. Loucura sem cura, sandice, folia da anomia, esquizóidice. É como se um demônio, um fauno maligno, dançasse polca no útero das fêmeas. É como se fadas, salamandras do mal, mergulhassem nos bolsões dos machos. Os adjetivos masculino e feminino são, respectivamente, coisas de homens e mulheres; coisas de quem ama — amor apegado às sinapses. Na razão sentimental não há vagar errante no amor, com subidas e descidas tão altas e tão profundas num ziguezague de loucura vertical entre céu e inferno. Caminha-se, pois, naquele caminho estreito do qual Cristo falou. Mas que bonito caminho! Apertado, mas retilineamente avante, frondoso e harmônico na mistura de minerais para os quatro pés, vegetais para os quatros olhos e animais para uma só companhia (dois, um para o outro, são sempre um).

Trecho das “Baladas para a Dama das Sete Estrelas”

CANTO XII

E o tempo parou, e a pupila se abriu para o último raio de sol do Levante, entre a areia que o vento trazia e o subir do véu. Vem, vem aqui, sobre o monte mais alto, sobre a torre mais forte. Daqui verás o lugar que para nós dois conquistarei nos quadros, daqui ouvirás as canções e os poemas que deste dia farão seu recordo. Se o pergaminho se queimar e ainda da tela a tinta se despregar, um anjo e sua talhadeira escreverão diante de Sião os versos do meu e do teu coração. Que ressoe a fanfarria e que os tamborins marquem o tempo das flechas, mas que este nosso silêncio seja mais ouvido que qualquer clarim de prata e que esta pulsação acelerada mais se ouça que um hino marcial. O luar já vem subindo e o olhar com ele vai cedendo. O elmo levanto quando já a brisa devolveu às dunas cada grão-de-areia e a ampulheta faz o trabalho que o astro-rei há meia hora deixou de obrar. O tempo está parando. Não o sentes fugindo, suspenso outra vez no olhar recíproco e cândido? Se as dançarinas dançarem apenas sob o desejo de dançar e os soldados sem soldo lutarem, e se o ofício der lugar à vocação e a rotina diária for pelo prazer repetitivo vencida, o tempo, o tempo aqui neste monte, o tempo aqui nesta torre, terá neste leito a única fresta capaz de lhe revelar a eternidade.

Confissões — I

Talvez o grande chamado fosse despertar e dormir sob o canto do galo. Talvez lavrar alguns hectares de terra boa e roxa e criar os filhos ao lado do celeiro onde os patos, as vacas, os porcos e os cães têm suas ninhadas. Arar a terra úmida e ao fim da tarde bater a poeira das botas e do chapéu. Comer o guisado e beber o vinho como um fazendeiro micênico que passou sua vida desconhecendo Tróia e seus heróis. Talvez o grande chamado fosse contar coisas bonitas, causos da roça, para a amada, sem cantá-las em versos hexâmetros. Talvez ter calos nas mãos e não curvaturas mais robustas no cérebro fosse o ideal e esquecer os pergaminhos antigos e os livros modernos aquecesse mais o coração. Talvez nunca compor poemas, mas ter no peito a mesma chama que inspirou o soneto barroco de Camões e até aquela cançãozinha agourenta de Henrique VIII: porquê o “fogo que arde sem se ver” reduziria às cinzas as “mangas verdes”. Talvez ouvir a respiração dela e só, e mais nada neste mundo, fosse suficiente para esta alma que ainda hoje quer por os ouvidos nas composições dos gênios. Talvez o sabiá a ajudasse, e o bem-te-vi e o pintassilgo, e a coruja. Amar ela e só ela sem outra beleza a tentar, sem outra paixão flertando com carências despistadas, sem qualquer outro olhar com que sonhar quando uma viagem precisasse ser feita. Talvez o grande chamado fosse confiar no produto da terra, tão próxima do chão da casa larga com filhos fortes e sadios quanto a limpeza asséptica com sua química está apegada ao berço imunizado dos bebês filhos únicos. Talvez, então, o grande problema filosófico não fosse Deus e o nosso eu e o quê é a verdade, mas tudo se resumiria à certeza de que, um dia após o outro, quando o relógio batesse o primeiro segundo da vigésima-quinta hora, tudo estaria consumado na Eternidade. Talvez o grande chamado fosse uma caneca de café forte pela manhã e uma botija de água fresca da moringa para a tarde e uns goles de vinho doce à noite, e não estes líquidos açucarados que passam direto por sol e lua, por sangue e pâncreas. Dormir na rede, pescar no riozinho fino no fundo do sítio, comemorar as datas santas e os aniversários e os batizados e os casamentos, comer feijão e torresmo do fogão à lenha, passar manteiga saída da vaca que mugiu na noite em que o primeiro filho nosso nasceu, passear descalço no meio da plantação, cavalgar pelo campo feito um homem livre. A vida seria pastoral sem saber o quanto esta palavra, aparentemente bonita e jovial, comoveu poetas, pintores e músicos tão enervados com suas cidades… Talvez o grande chamado fosse acordar e sonhar sob o canto da vida.