Carta e trecho final do conto “Os Pequenos Sinos”

Bella:

À tua alma só anseio dizer meus nadas. Porque se me perguntas como andam as coisas, só me recordo das ausências das coisas, como o fato do sabor do queijo muito dever aos seus buracos, essas cavernas onde uma substância primordial em certo tempo agiu ocupando espaço e criando gostos. Contigo consigo ser o meu eu ideal. Não calculo palavras, não meço gestos e movimentos, não me articulo esperando ser interpretado de acordo com esta ou aquela idéia que causaria esta ou aquela impressão. Toda a fadiga da repetição não existe. Não há mecânica entre nós dois. Por isto, brotam-te de mim meus nadas; figuras eternas, idéias puras da essência mesma do meu amor. O amor, pequena, não é assim tão metafísico. É físico como a ausência de preocupações no cérebro do monge. Paradoxo? Contradição? O vocabulário está mudado, porquê desejo dizer a realidade que as palavras limitam na cadeia de suas formas sonoras e desenhadas.

Aquelas histórias sobre castelos nos céus, sobre pedras sustentadas por nuvens: é este o nada que te quero contar. O nada qual as sombras que a luz do vaga-lume gera por onde passa. Quais pequeninos entes ganharam, na terra e nas paredes da terra, figuras sombrias através do fogo químico deste inseto? Tal é um destes nadas. E também esta questão o meu nada encerra: em noite escura, quem vê as estrelas refletidas nas gotas d’água que umedecem a relva? A imagem dos astros o quê muda na natureza da água, seus espelhos? Tua alma escuta a minha nestes nadas que são tudo.

Então, eu te respondo: “mais ou menos.” Quão poucos são os seres de nossa espécie capazes de conhecer, nas vísceras do espírito, o significado desta expressão. Quem, pergunta por aí, já sentiu o mais do nada e o menos do mesmo nada a ponto de, tudo equilibrando no tudo, poder olhar para a situação, para sua situação, e dizer consciente como diante de Deus: “estou mais ou menos.” Este “ou” não é conjunção alternativa, segundo julga a gramática da língua lá de baixo. Porquê se diz por lá que o “ou” é isto ou aquilo e que ou está assim ou assado, de um jeito ou de outro, sendo x ou y; tudo bem estanque e limitado e definido. Mas, não: aqui se está, ao mesmo tempo, mais e menos. Este “ou” é, de certa forma, um “e” que adiciona. No entanto, não deixa de ser um “ou” efetivo, porquê funciona como uma balança, como uma gangorra, como um pêndulo, como um imenso cano que, deixando sem parar fluir água dum oceano a outro, durante a maior parte do tempo a retém neste caminho, em si. Pois, então, se estou mais e menos, um estado anula o outro e conclui-se que não estou nada. E este nada é tanto. É tudo. Por isto, à tua alma desejo dizer meus nadas.

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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