Boca cheia e coração vazio [artigo para jornal]

A gente chama de bonita aquela que agrada à vista: é estética corporal. A gente chama de linda aquela que encanta a cognição: é estética com ética, para a alma. Mas a gente só chama de bela aquela que simbioticamente agrada e encanta o espírito, a alma e o corpo, porquê, como dizia Urs von Balthasar, “o crítério da verdade é a beleza.” Só é belo o que é bom, também.

Os adjetivos dizem muito do que um homem procura numa mulher. Se o rapaz só te chama de gostosa, você não passa de um deleite gourmet facilmente categorizável num cardápio ou num catálogo. Se ele só te chama de cavala e de potranca, você é um execício lúdico para o fim de semana, que pode ou não incluir montaria. Pitéu, fruta e filé são matérias comestíveis que servem à língua e aos dentes no sabor do prazer, mas que logo vão parar no estômago, depois nos intestinos e, por fim, no en passant dos lençóis e do papel higiênico, na privada. Esta é a alegoria do ciclo pega-e-come[e caga]. Para boa entendedora…

Nosso palavreado é nosso ser se manifestando no mundo. Cristo, a propósito, disse que “a boca fala do que o coração está cheio”. A forma como eu me dirijo a você aqui neste artigo exprime o que eu quero de você: atenção. A forma como o Maurício Pit-Bull, o Jão Vaqueiro e o Tom Bombadinho falam com você demonstram o que eles querem de você e como eles vêem você: um bife a ser mastigado, uma vaca a ser coberta, uma fruta a ser descascada. O cara que é um estereótipo pronto e acabado, uma caricatura juvenil desta classe de galináceos que cacarejam apoleirados nos rebaixados e caminhonetes de cada esquina, vai, muito sinceramente, descrever a realidade do próprio desejo de macho configurado na sua realidade de fêmea.

Volto ao começo da conversa. Um dos dons concedidos ao homem por Deus é o de nomear as coisas, chamando-as pelo seu nome próprio. Heidegger dizia insistentemente que “só há mundo onde há linguagem.” Por que? Porquê nossas palavras estão limitadas pelos nossos pensamentos. Nós colocamos na língua aquilo que, por mais que seja abstrato, já é concreto na nossa mente. Os valores dados às coisas, sobretudo. Os valores que são nossos julgamentos das coisas. Se você não escuta constantemente que é bonita, que é linda, que é bela e, na proporção inversa, ouve que é isto e aquilo com estes e aqueles adjetivos dados aos substantivos comuns, Genival Lacerda adverte: “ele tá de olho é na butique…” Quem poupa carinho na palavra só quer apalpar a poupança.

Se é isto que você quer, legal. Beleza. Ok. Só faça um justo favor aos homens que têm alguma vergonha na cara: não fique por aí (no Facebook, no Instagram, no WhatsApp, na sua rodinha de luluzinhas baladeiras) reclamando que “homem é tudo igual.” Homem só é tudo igual para mulher que é tudo igual. E as coisas começam pela boca. Nem tanto pela boca que beija; mas mais pela boca que fala. Dê, você, nome aos bois; porquê eles andam te dando nome já há algum tempo…

[25.11.2018]

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *