As Aventuras de João Burronenhum

VI. CAVALO XUCRO

Eu sempre dizia a plenos pulmões que não pretendia correr de briga alguma, que enfrentava o mundo inteiro sozinho naquela bravura de Santo Atanásio. Era um “galinho índio” dando murros até na brisa, como se ela fosse ventania. Quando punha o pé na rua, fazia questão de estufar o peito e amarrar a cara –marrento, queria marretar os outros na marra. Eu sempre dizia também que dava um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair dela. Um dia, encontrei no boteco do Zé Galhardo um tipo que poderia ter nascido irmão meu: a mesma postura de alma e jeito de lutador de vale-tudo. O sujeito quis começar uma discussão com a garçonete por causa duma pururuca que ele disse ter gosto de ranço. Ele queria paladar no rango: coisa de fresco. Pensei: se esse filho da mãe tivesse fome de verdade, mastigava o torresmo como se fosse maná. Tomei por insulto a reprimenda dada na Belena e, movimento de bote, em dois segundos deitei o miserável no chão. Ele saiu de lá carregado por dois outros mal encarados que fiquei sabendo serem funcionários seus numa fazenda do distrito de Vila do Arraial. Dois dias depois, sexta-feira, o brutamontes voltou. Estava de batina! O canalha, além de implicante, era sacrílego. Ave Maria! Se a carne de porco me tinha posto irado ao primeiro embate, agora o acerto de contas era com o filhote bastardo do próprio Antíoco Epifânio! Num estalo, cai com os punhos no sujeito. Ele desviou, como cobra. Só consegui ver, de relance, um brilho de fazer cair do cavalo. Um clarão. Apaguei. Acordei três horas depois, me contaram. E me contaram que assim que me levantei para deitar porrada no homem, ele retirou do bolso um crucifixo e soltou um “vade retro, Satana!” Eu estava possesso! O homem era padre-padre: frei Zenón, um galego vigário de São Bento do Arraial. Durante quase duas horas ouvi atônito o João Quincas narrando o quanto me debati, blasfemei e atanazei. O ritual do exorcismo foi feito e, ao último amém da pequena multidão que circundava atônita todo o frenesi, eu acordei. Estava leve feito pena sobre as nuvens, me sentindo um filhote de coruja despenado, mudado, sem vontade de abrir a boca, mudo. Sai de lá envergonhado, invertebrado; mas decidido a ser santo, santo, santo!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

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