A geografia da Depressão

Em Geografia, uma depressão acontece quando o nível do solo abaixa, desce e então cede sob alguma pressão. É um desnível fabricante de buracos, criador de abismos. Se usarmos essa linguagem para descrever nossa vida psíquica, depressão fica sendo a consciência cedendo aos nossos buracos interiores, tão ocos quanto cheios de sombras do inconsciente (numa linguagem algo junguiana). A depressão da alma é um desnível que catapulta o indivíduo para baixo. E é lá embaixo, no buraco, que a solidão dos poços, das cisternas, dos calabouços, das covas e dos abismos submergem os homens nos dois sentimentos principais, estruturantes, da depressão: vacuidade e insignificância. Vazios e sem significado, os homens se deprimem para dentro, no âmago-ravina do nada, na erosão essencial do próprio eu.

Na Sagrada Escritura, sem dúvida o único texto religioso que trata seus heróis e homens santos com realismo nu e cru, encontramos as biografias de indivíduos que passaram por esse processo de entristecimento e vácuo. Um exemplo salta aos olhos: Elias, o profeta. Este homem virtuoso, que enfrentara os maiores desafios com coragem inigualável, que encarara rei e rainha de Israel e os falsos profetas de Baal, clamando e sendo atendido com fogo dos céus, de repente se ensimesmou logo após ouvir palavras de ódio e ameaça de Jezabel; ouviu e foi se esconder solitário numa caverna. E aí, então, o nível de sua alma baixou e, consequentemente, os níveis dos hormônios da felicidade também baixaram no seu corpo: vacuidade e insignificância o tomaram. Um sentir-se mal sem saber o porque exatamente, uma falta de vigor, de ânimo, de vontade, de libido existencial somada à melancolia de sentir-se “pra baixo”. Ele quis morrer, quis descer à sepultura, essa depressão térrea de “sete palmos”… (I Reis 19:2)

Não existia Psicanálise nem Análise em 900 a.C. Mas Deus, o Criador das sinapses e do espírito do valente tesbita, o Deus que delineou os contornos e sulcos do cérebro humano (e os banhou de endorfina, dopamina, serotonina e ocitocina) e infundiu em Adão sua imagem e semelhança, conhece sua criatura; e conhecia a Elias desde o ventre de sua mãe (Salmo 139:13), assim como conhece a mim e a você. A Onisciência tinha a anamnese do profeta já pronta e decretada desde a fundação do mundo. E o Senhor terapeuticamente tratou do espírito e do corpo (nessa relação psicossomática que hoje nós clinicamente bem conhecemos) de Elias integral e organicamente: nutrição e descanso para o físico (I Reis 19:5-6,8); auto-conhecimento, perspectivas e propósito para o metafísico (I Reis 19:7,9-21).

Fica a lição: Ele nos conhece. Mais do que isso: Ele decretou nossa vida nos mínimos detalhes e arranjou para que todas e quaisquer ações, pensamentos, acontecimentos, sentimentos e afins à nossa existência individual tenham um propósito. Apenas nEle somos libertos do vazio e da falta de significado. Apenas nEle o mundo faz sentido e a vida adquire colorido para além do acinzentado materialismo nosso de cada dia da “civilização” pós-moderna. O crente verdadeiro (não digo o religioso, mas quem crê sincera e profundamente) sabe que somos barro nas mãos do Oleiro (Jeremias 18) e que tudo, tudinho sem tirar nem por, coopera para nosso bem (Romanos 8:28).

Viktor Frankl, psicólogo judeu que sobreviveu a quatro diferentes campos de concentração durante o Holocausto Nazista, observou e concluiu que aqueles que conseguiam sobreviver e melhor viver naquele ambiente de opressão inigualável eram justamente aqueles que estavam conscientes do sentido, da razão última e principal de suas vidas. E é isto o que o Evangelho de Jesus Cristo faz: salva o homem e o devolve a si mesmo; morrendo para o mundo, ele nasce em Deus para si mesmo. O cristão salvo, o cristão santo, é o homem que, como Dom Quixote, pode dizer “Eu sei quem sou!” e, por isto, é o homem que compreende que as depressões são meras alterações no relevo do Caminho, o Caminho da Eternidade.

Entregue-se a Deus e você verá suas depressões sendo aplainadas (Isaías 40:4). Entregue-se a Deus e seu vazio será preenchido e sua falta de significado será saciada — com o Verbo!

Autor: Dayher Giménez

28 de abril de 1989, A.D.: nasci. Desde então, penso. Pindoramense e granadino, paulista e andaluz, brasileiro e espanhol. Neto de imigrantes e exilados por três costados (espanhol, austríaco e italiano) e brasileiro da gema por um costado (a tríade miscigenária da Terra de Santa Cruz). Graduado primordialmente em História pela antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Catanduva e em outras “coisas” — a grande palavra medieval! — da universitas magistrorum et scholarium. Em religião, cristão reformado. Em política, conservador libertário. Em futebol, palmeirense. Eis os crivos básicos. Ouso escrever sobre aquilo que me chama a atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *